Peatones, por aquí!

José Horta Manzano

Você sabia?

Marcha, soldado
Cabeça de papel
Se não marchar direito,
Vai preso pro quartel

No Brasil, tanto por razões climáticas quanto ‒ principalmente ‒ por razões de segurança, os centros comerciais (em bom português, conhecidos como «shopping centers») são as catedrais das compras. Caminhar na rua está cada vez mais arriscado, principalmente quando se carregam pacotes e sacolas, daí a procura pelo abrigo seguro.

No primeiro dia, guardas municipais informam a população.

Em outros lugares do mundo, o fenômeno é menos marcado. Nestas semanas que antecedem as festas de Natal e ano-novo, embora muitos se refugiem em centros comerciais para escapar do frio, o grosso dos compradores ainda prefere lotar ruas comerciais.

A londrina Oxford Street, a parisiense Rue de Rennes, a bernesa Marktgasse se enchem de transeuntes. Os mais organizados, levam no bolso uma listinha de presentes. Outros, mais despreocupados, dão uma espiadinha aqui, outra acolá, pra ver se encontram algo interessante.

Na Espanha, Madrid não escapa ao figurino. Nesta época do ano, duas ruas estreitas do centrão ficam abarrotadas. São a Calle de Preciados e a Calle del Carmen. Ambas apresentam uma sucessão de lojas, pequenas e grandes, agarradas umas às outras. Naturalmente, a circulação de veículos é proibida. Para organizar o alentado trânsito pedestre e evitar trombadas, a prefeitura da cidade teve uma ideia original. Nestas próximas quatro semanas, terão mão única… de pedestres.

Uma sobe, a outra desce.
Imagem: Google

Dado que são ruas paralelas, ficou combinado que uma sobe e a outra desce. A regra entrou em vigor ontem nos quatro quarteirões. As reações são contrastadas. Há comerciantes que se mostram preocupados. Acreditam que a mão única vai apressar o fluxo de passantes e diminuir a quantidade de clientes. Por seu lado, grande parte dos transeuntes se dizem aliviados. Alegam que aqueles encontrões entre os que vão e os que vêm eram angustiantes.

De toda maneira, os habitués já se deram conta de que vários comércios dão frente para as duas ruas. Assim, quando decidem mudar de direção, cortam caminho por dentro das lojas. Há gente esperta por toda parte.

Natal na barca

Lygia Fagundes Telles (*)

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe nenhuma palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

barco-1Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

‒ Tão gelada ‒ estranhei, enxugando a mão.

‒ Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

‒ De manhã esse rio é quente ‒ insistiu ela, me encarando.

‒ Quente?

‒ Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

‒ Mas a senhora mora aqui perto?

‒ Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

‒ Seu filho?

‒ É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

‒ É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

‒ É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

‒ E esse? Que idade tem?

‒ Vai completar um ano.

E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro:

‒ Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

barco-2‒ Seu marido está à sua espera?

‒ Meu marido me abandonou. Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

‒ Há muito tempo? Que seu marido…

‒ Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

‒ A senhora é conformada.

‒ Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

‒ Deus ‒ repeti vagamente.

‒ A senhora não acredita em Deus?

‒ Acredito ‒ murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por que, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

‒ Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

barco-3Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim.

‒ Estamos chegando ‒ anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

‒ Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

‒ Acho melhor nos despedirmos aqui ‒ disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

‒ Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

‒ Acordou?!

Ela sorriu: ‒ Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos ‒ aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

‒ Então, bom Natal! ‒ disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

Interligne 18c

(*) Lygia Fagundes Telles (1923-), considerada por muitos a maior escritora brasileira viva, é membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. Este conto foi publicado pela Editora Ática em 1989, no livro ‘Para gostar de ler’.

Fim de ano na Terra Brasilis

Myrthes Suplicy Vieira (*)

É um pesadelo, só pode ser. Meu coração bate mais acelerado do que de costume. Sinto a boca seca, o peito apertado, a musculatura tensa de braços e pernas e o desejo incontrolável de fugir ou me esconder.

O medo de que, na virada do ano, não haja um dia seguinte é meu velho conhecido. Todo fim de ano, a despeito do calor sufocante, sinto o vento gélido do final dos tempos me rondando. É um medo parecido com aquele que os velhos marinheiros portugueses deviam sentir ao se aventurar por mares nunca dantes navegados, temendo despencar no abismo da quadratura da terra.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Este ano, porém, há algo de podre no ar que ajuda a reforçar meu habitual desconforto. Em todos os planos da vida nacional, respira-se um ar denso de degradação moral, torpor, constrangimento e profundíssimo cansaço. É como se estivéssemos todos amontoados no fundo do cenário, assistindo impotentes o desenrolar de uma pornochanchada de péssimo gosto. A cada nova performance acrobática, nossos corações e pulmões se comprimem ainda mais na busca desesperada pelo oxigênio da dignidade e da conciliação. A realidade tenebrosa, francamente indecente, estende seus tentáculos e nos enreda a todos num cipoal orgiástico do qual preferiríamos poder nos livrar.

As revelações bombásticas se sucedem e explodem sobre nossa cabeça com a força de tiros de canhão. Eu, que sempre me esforcei para não parecer moralista, sucumbo à indignação geral e exijo em troca da minha delação a cabeça de João Batista. Quando a seguro em minhas mãos, percebo, no entanto, que nem mesmo ela pode me servir de amuleto para esconjurar o fato de que sou natural de Sodoma e Gomorra.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Sento-me no sofá da sala para assistir ao noticiário da televisão, com o coração aos pulos, na ânsia de conhecer os detalhes escabrosos do escândalo mais recente. Na tela, juízes de toga, de peito estufado e empertigados em suas cadeiras de espaldar alto, leem com voz monocórdia seus pareceres legais. De repente, talvez como resultado daquele som monótono e do mormaço, começo a alucinar. A tela da tevê funde-se com insólitas imagens mentais. Penetro num labirinto de escatologias.

Diante dos meus olhos atônitos desfilam personagens e cenas grotescas. Juízes, advogados e réus falam todos ao mesmo tempo em salas de tribunal lotadas. Cada um que toma a palavra o faz com pretensa autoridade técnica, escandindo as palavras, brandindo argumentos e alterando o tom de voz em momentos cruciais. Esforço inútil, ninguém ouve, ninguém compreende, ninguém se interessa. Estão todos se preparando para, quando chegar a sua vez de falar, apresentar o arrazoado definitivo, o detalhe técnico que escapou à atenção dos demais, as palavras capazes de gerar máximo impacto.

A seriedade do ambiente não é circunstancial, como se poderia pensar à primeira vista. Há um indisfarçável odor libidinoso no ar. As palavras vão sendo manipuladas ‒ bolinadas mesmo ‒ por cada orador. Depois, vão sendo enfileiradas com afinco num crescendo de tensão para que explodam ao final como fogos de artifício. Mas o orgasmo não acontece, o alívio da tensão não vem, é preciso recomeçar mais uma vez e sempre.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Bruxas voam pelos ares sentadas em suas vassouras e gritam com voz esganiçada que o fundo do poço ainda não foi alcançado, que a descarga não virá nem agora nem nunca. As pragas que nos assolam já não são mais as sete bíblicas. Frutificaram, multiplicaram-se e se transformaram em pragas emocionais. Os gafanhotos da concupiscência agora atacam e devastam plantações inteiras de dinheiro e poder. Os sapos da intolerância entoam seus cânticos de acasalamento nos brejos que criamos em nosso seio.

Figuras esdrúxulas, de peito estufado e queixo erguido, revezam-se diante de microfones imaginários e vão elencando, uma a uma, suas transgressões, com a mesma indiferença de quem prepara uma lista de supermercado. Não há misericórdia, não há compaixão, não há arrependimento em seus olhos. Eles estão vazios, baços, sem vida.

Pelas ruas, multidões vagueiam acabrunhadas e sem direção. A aridez inclemente do clima é espelho a refletir os embates de tantas mentes, corpos e almas áridos. A desesperança ressecou tudo, criou couraças, estancou o fluxo de vontades. A tecnologia ainda tenta seduzir com novas respostas para perguntas que já não podem ser formuladas. Clima de deserto na terra e no âmago de cada um.

by Ame Sauvage, artista francesa

by Ame Sauvage, artista francesa

Um profeta coberto de andrajos abre espaço em meio à multidão. De cabeça baixa, ele chora e, em tom acusador, alerta os passantes para o perigo de rompimento de novas barragens emocionais. A lama acumulada no coração das pessoas, diz ele, precisa continuar sendo expelida até que a natureza humana reencontre seu equilíbrio e volte a se purificar.

Saio à rua cambaleante e esbarro com uma mulher grávida sentada na calçada, já em meio às dores do parto. Ela me pede ajuda em pânico. Estendo as mãos para amparar o recém-nascido que desponta e constato que ele tem a cabeça pequena demais. Ligo para o hospital mais próximo e peço uma ambulância. O atendente, com voz indiferente, diz que a única disponível quebrou no mês passado e que não há dinheiro para consertá-la.

Eu ainda tento argumentar que é Natal, que é preciso acolher com todas as honras o deus que renasce, mesmo que defeituoso na origem. Em vão. Olho em volta, desanimada e penso com meus botões: será que ainda vale a pena gestar novos deuses e tentar salvar esta humanidade?

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Boas festas!

A você, distinto leitor, que é a razão de ser deste blogue, desejo um Natal alegre. Na cidade ou na praia, em família ou com amigos, sozinho ou acompanhado, que um sentimento de paz o acompanhe.

Joyeux Noel 2E que o ano-novo traga a realização de todas as suas esperanças. Sacumé, no final, tudo acaba dando certo. Se não deu, é porque o final ainda não chegou.

Obrigado a todos. Felicidades!

José Horta Manzano

Conto de Natal

Eurico de Andrade (*)

A mulher ia estrada afora no carrão importado. Asfalto novinho e pretinho. Chovia. De repente, o estouro e o desequilíbrio do carro que sai catando cascalho da beira do barranco. Bate aqui, bate ali, até parar depois de entrar por uma estrada de chão. Esburacada.

Depois do susto, a mulher chora. Nervosa e trêmula, desce e vai ver o estrago. Um amassado aqui, outro ali, nada muito grave, a não ser o pneu estourado. Olha para baixo, olha para cima da estradinha. Ninguém aparece. Noite chegando. Bem que tenta trocar o pneu, mesmo tomando chuva. Força pouca. Traquejo nenhum. Desiste. O desespero toma conta dela, que entra no carro e se entrega ao pranto chorando mágoas passadas. Aí, lá da baixada, aparece o vulto. Um homem a cavalo. Vem chegando e vê que algo estranho acontecera com o carro. Para. Desce calmamente do cavalo e bate no vidro. A mulher, remoendo medo e esperança, encara o homem. Alto, moreno, barba por fazer, roupa suja, mãos cheias de vincos provocados pelos calos. Ela abre apenas uma fresta no vidro.

Cavaleiro 1‒ Pode abri, moça! Carece tê medo não. A senhora qué ajuda?

A mulher abanou a cabeça dizendo que sim.

‒ Ondé que fica o pneu?

Ela fez sinal que era lá atrás, no porta-malas, e acionou o botão. O homem pega o pneu, acha a chave e o macaco, e começa a fazer a troca. Por não entender nada, vai tateando. Homem acostumado com cavalo e roça não entende muito dessas máquinas não. Foi por isso que o macaco mal colocado escapou, sujigando a mão esquerda dele contra uma pedra, fazendo-a sangrar. A mulher teve dó e, pesarosa, abriu a porta.

‒ Tome aqui um lenço de papel. Limpe o sangue da mão.

‒ Não, moça, podexá.

E passou a mão na calça suja, limpando-a do sangue teimoso, dispensando o lenço cor-de-rosa.

‒ Moça! Pode entrá no carro. Fica aqui não. Tá choveno e tá frio. Lá dentro tá quentinho. Vai pra lá!

Pneu 1Foi aí que ela observou que o homem estava todo ensopado pela chuva e, consequentemente, tremia de frio. Ela entra no carro, abre um pouco mais o vidro e começa a procurar assunto.

‒ Como é seu nome?

‒ É Tarciso, moça!

‒ O senhor mora onde?

‒ É bem perto onde moro, meia légua daqui!

A mulher ficou sem saber se era longe ou perto. Observou o tempo, cada vez mais escuro. Noite chegando e a fome também.

‒ Sou da capital, senhor Tarcísio! Resolvi viajar sozinha. Nunca tinha feito isso. Meu marido deixei lá… nós brigamos…

A mulher parou de falar. Tomada repentinamente pela emoção, os soluços tomaram-lhe as palavras. Vez por outra ela se acalmava, sua dor doía menos. E continuava o desabafo. Parece que precisava contar para alguém a sua história. Foi assim que Tarcísio ficou sabendo que o marido tinha muito dinheiro e muitas posses. E que tinha também uma mulher muito bonita. E ficou sabendo que não eram felizes. O marido vivia mais fora de casa do que dentro, envolvido com negócios, com amigos e com amantes. E foram as amantes o principal motivo da briga desta vez. Tarcísio só ouvia, até que terminou de trocar o pneu. A mulher convidou-o para entrar no carro. Queria conversar mais.

‒ Não, moça, posso não! Tô sujo e intanguido de frio. Tenho que ir embora. A noite já chegô e minha mulher me espera!

‒ Sua mulher, senhor Tarcísio? O senhor é casado?

‒ Sim, moça! E muito bem casado, com a graça de Deus! E óia só como é o mundo. Enquanto a senhora foge do seu marido eu vô pra junto da minha mulher… Tem duas semanas que a gente tá longe um do outro… tô morrendo de saudades! Eu tava trabalhando.

‒ O senhor faz o que, senhor Tarcísio?

‒ Trabaio na roça, moça! Planto arroz, milho e feijão. No meio, planto abóbora, quiabo, melancia. Na beirada, planto batata doce, inhame e mandioca. Dá pra despesa!

A mulher entendeu que Tarcísio tinha pressa. Queria ir ver sua amada. Era noite de Natal.

‒ Por que o senhor não deixa seu cavalo aí e vem comigo? Levo-o aonde o senhor quiser!

‒ Não, moça! Depois do Natal, vorto pra a roça. E é nesse cavalinho que eu vou. Se ele ficá aqui, arrisco perdê o bichim…

Estrada 2‒ Senhor Tarcísio, quero pagar pelo que o senhor me fez. Quanto lhe devo?

‒ Quanto deve? Nada não, moça! Não fiz isso por dinheiro.

‒ Mas, senhor Tarcísio, empatei mais de uma hora da sua vida! Se não fosse o senhor, eu estaria aqui, correndo risco de vida. Além do mais, o senhor até machucou a mão! Pode dizer o preço que eu pago.

‒ Não, moça! A senhora não tem que pagá nada! A gente, quando faz o bem, não deve pedir nada em troca. Só deve querer que o bem continue sendo feito, sem parar. É assim que penso, moça.

A mulher tirou cinco notas de cem reais e ia entregá-las ao Tarcísio. Ele já tinha montado no cavalo.

‒ Óia, moça, faz o seguinte: se eu lhe fiz um bem e a senhora gostô, passe o bem para a frente! Faça outra pessoa feliz.

E tocou o cavalo, sumindo noite a dentro. Os olhos da mulher voltaram a ficar cheios de lágrimas. Não mais de tristeza. De emoção. Ela descobriu, ali naquele canto de mundo, vinda de um matuto sem estudo, de quem tivera medo no início, a maior lição de vida. Passar o bem para a frente…

‒ Ah, se todo mundo fizesse assim…

E ligou o carro. Entrou no asfalto, disposta a achar um lugar onde comer alguma coisa. Rodou pouco e encontrou uma lanchonete de beira de estrada. Entrou e foi para uma mesa, com um monte de olhos de machos presos nela. Mulher tão distinta e tão bonita num lugar daqueles… Uma garçonete veio atendê-la. Ela pensou: o que haverá de menos sujo por aqui? Um refrigerante talvez. E para comer? Uma fruta, decerto.

‒ Quero um guaraná! Que fruta vocês têm?

‒ Fruta? É…

‒ Sim, fruta! Já é tarde para comer outra coisa. Prefiro fruta!

‒ Olha, moça, aqui não tem fruta. Se a senhora esperar um pouquinho, tenho umas bananas. Moro bem ali, no fundo da lanchonete.

‒ Isso! Isso mesmo que eu quero! Você busca para mim? Banana com guaraná!

A garçonete esboçou um sorriso simpático e foi atrás do pedido. Trouxe o guaraná e saiu para buscar as bananas. Aí foi que a mulher viu que a mocinha tinha certa dificuldade para andar. Andava devagar. Observou bem e descobriu o motivo: gravidez. A garçonete devia estar lá pelo oitavo mês. Usava um vestido simples, coberto por um avental que disfarçava o tamanho da barriga. No rosto, um sorriso meigo e cativante era gentilmente distribuído a todos os que lhe dirigiam a palavra.

Mulher 1A mulher ficou comovida observando a garçonete, cansada e grávida, naquela noite de Natal, atendendo com um sorriso a quantos a procuravam. Pensou que dificuldade teria na vida essa pobre moça para ter que se submeter, já no final da gravidez, a um trabalho daqueles. Perdeu até a fome.

Quando a garçonete voltou, encontrou na mesa, debaixo do copo, ainda com um resto de guaraná, cinco notas de cem reais. E um bilhete num lenço de papel cor-de-rosa: “Obrigada pelo atendimento. Fique com este dinheiro. É uma ajuda para o bebê que está chegando. Seja feliz e faça outras pessoas felizes. Passe a felicidade para a frente!”

A platéia que, atenta, observava o que acontecia naquela mesa, saiu do suspense quando a moça se abriu num sorriso largo. E, aos poucos, cada um foi procurando seu canto, sempre recebendo da futura mãe um boa-noite e um feliz Natal.

A garçonete faz mentalmente inúmeros planos do que fazer com aquele dinheiro chegado em tão boa hora, quando mais necessitava, estando o filho por nascer. Enquanto isso, começa a cuidar dos tantos copos, pratos e talheres que ainda tinha para recolher, lavar e enxugar. Para completar seu presente, o patrão também assumira o espírito natalino.

‒ Deixe o trabalho para amanhã. Vá dormir. Feliz Natal!

Casal 1O quarto da moça era nos fundos da lanchonete. Ela sai feliz, sorrindo, sentindo-se leve, embora com tanto peso na barriga. Abre a porta devagarzinho, para não fazer barulho. Toma um banho e vai para a cama, pensando no dinheiro e no bilhete que a mulher deixara. Aquela moça tivera uma inspiração divina para saber o quanto ela e o marido precisavam daquele dinheiro. Com os raios da luz que entra pela janela, olha embevecida para o rosto do marido. Moreno, barba por fazer. A mão esquerda, fora do cobertor, com um ferimento recente.

A garçonete beija-o docemente e diz, num sussurro:

‒ Tudo vai melhorar. Obrigada por me fazer feliz, meu amor! Eu te amo, Tarcísio!…

Interligne 18h

(*) Eurico de Andrade é escritor

Nozes & castanhas

José Horta Manzano

Sabe o distinto leitor de onde vem o costume de guarnecer a mesa das festas de fim de ano com nozes, castanhas, avelãs, figos secos e damascos? É costume europeu, sabemos disso. Mas por que precisamente esses alimentos? E por que justamente nesta época do ano?

Para quem vive em terras tropicais, a resposta não é evidente. Para os habitantes das zonas temperadas do Norte, salta aos olhos: são produtos da estação.

Fruta 1Hoje em dia, encontram-se por toda parte frutas fora de época, trazidas de avião do outro lado do globo. Pessoalmente, recuso-me a comprar. Não me parece ajuizado poluir a atmosfera com toneladas de querosene só para ter morangos em dezembro, quando o natural é comê-los em maio. A julgar pela enorme oferta que se vê por aí de produtos ‘exóticos’ e fora de época, imagino que nem todos pensem como eu.

Pois bem, nozes, castanhas, avelãs, figos secos, damascos e outras especialidades consumidas entre Natal e ano-novo cruzam oceanos antes de chegar às mesas brasileiras. Os preços são exorbitantes. Em épocas de carestia, como a atual, o consumo desses produtos arranha o meio ambiente e fere o bom senso.

Fruta 2Brasileiros há que chegam a privar-se de artigos necessários só para ter à mesa esses alimentos que, robustos e encorpados, nem de longe combinam com os calores de nosso Natal tropical. Sob risco de parecer iconoclasta, acho isso uma grande bobagem.

O Brasil é o maior produtor de frutas do planeta. Dezembro e janeiro marcam o apogeu da colheita. Por que não aproveitar? É mais leve, sai bem mais barato e dá mais cor e vida à mesa.

Rabanada 1Para não romper totalmente com a tradição ‒ e se não estiver de regime ‒, prepare uma boa rabanada e salpique com açúcar e canela. Faça com pão dormido, de preferência. As receitas estão na internet, é fácil achar. Bom apetite.

Os réveillons

José Horta Manzano

Champanhe na geladeira, peru no forno, farofa na mesa, é o réveillon que chegou. Época de confraternização, de alegria e de bons propósitos para o novo ano.

Réveillon – de onde é que vem essa palavra? Pois é francesa. Vem do verbo latino vigilo, que significa estar desperto. Em nossa língua deu numerosos filhotes: vigiar, vigilante, vigília (véspera de certas festas religiosas), velar e até velório. Todos carregam o sentido de cuidar, de não estar dormindo.

Reveillon 1No Brasil, associamos o réveillon unicamente à noite de fim de ano. Já os franceses dão sentido mais amplo. A noite de Natal é chamada réveillon de Noël – a vigília de Natal. A passagem de ano é dita réveillon de la Saint-Sylvestre.

Bom réveillon a todos e boas-entradas, como se dizia antigamente. Que 2015 seja alegre, sorridente e traga muita saúde!

Ho, ho, ho!

José Horta Manzano

Antes de se tornar frenesi comercial como conhecemos hoje, Natal já foi festa religiosa. Talvez os mais jovens não consigam dar-se conta disso.

Noël 6Famílias reunidas – e com fome – iam à Missa do Galo, rito solene e demorado, que começava à meia-noite do 24 para o 25. Digo que iam com fome porque precisava estar em jejum pra receber a comunhão. O número de horas sem comer, que chegou a ser de 12 horas, foi-se afrouxando com o tempo. Depois da missa, ceia simples e levinha esperava em casa. A reunião familiar, de verdade, era para o almoço do dia 25.

É interessante saber também que, antes de ser comemoração religiosa, o fim de dezembro, período de solstício de inverno no hemisfério norte, era pontilhado por festas pagãs. O povo manifestava júbilo e alívio porque as longas noites iam começar a encurtar. A partir da época do Natal, os dias se alongam a olhos vistos. Dependendo da latitude, o período diurno vai mordiscando a noite e vai ganhando um, dois, quatro, cinco minutos por dia sobre o período de escuridão. O Natal anuncia a primavera e o renascimento.

A origem da figura do Papai Noel moderno é conhecida, mas não custa repetir. Até o começo do século XX, algumas regiões da Europa cultivavam a lenda do velhinho que vinha, na época do Natal, presentear as crianças bem-comportadas e castigar as que tivessem sido desobedientes.

Diferentemente do que ocorre hoje, presente de Natal não vinha automaticamente, não era uma evidência. Não bastava ser criança para merecer prêmio. Precisava, além disso, ter-se comportado bem. Pequerruchos rebeldes arriscavam-se a levar umas chicotadas do velhinho. Era, a meu ver, prática útil. Inculcava, nos pequeninos, a noção de que não existe almoço grátis – para atingir um objetivo, há que se esforçar.

Noël 7Não tem nada que ver com Natal, mas, como não sei ver defunto sem chorar, repito: os programas assistenciais implantados estes últimos anos no Brasil vão na contramão desse ensinamento básico. O sistema atual dá aos cidadãos a certeza de que é natural que Papai Noel distribua suas benesses sem pedir nenhum esforço em troca. É pena que crianças cresçam nessa ilusão, porque, na vida real, as coisas não funcionam exatamente assim.

A imagem que hoje temos de Papai Noel nada mais é que o fruto da imaginação de desenhistas americanos. Em 1921, por ocasião de uma campanha de propaganda encomendada pelos fabricantes de Coca-Cola, bolaram aquele velhinho gordo e sorridente, de bochechas rosadas, viajando num trenó puxado por renas. E dizendo “ho, ho, ho!”.

Os holandeses identificavam o velhinho do Natal com São Nicolau e o chamavam Sinterklaas. Por influência dos imigrantes batavos, os americanos adotaram o nome depois de o terem anglicizado para Santa Claus. Nos EUA, esse é o nome de Papai Noel. E, no resto do mundo, como fica? Que nome se dá ao bom velhinho do “ho, ho, ho”?

Noël 8EUA:         Santa Claus      (São Nicolau)
França:      Père Noël        (Pai Natal)
Brasil:      Papai Noel       [francês traduzido pela metade]
Portugal:    Pai Natal
Rússia:      Санта Клаус      (Santa Claus)
Reino Unido: Father Christmas (Pai Natal)
Alemanha:    Weihnachtsmann   (Homem da noite de Natal)
Catalunha:   Pare Noel        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Dinamarca:   Julemanden       (Homem do Natal)
Lituânia:    Kalėdų senelis   (Vovô Natal)
Holanda:     Kerstman         (Homem do Natal)
Suécia:      Jultomten        (Gnomo de Natal ou Duende de Natal)
Bulgária:    Дядо Коледа      (Vovô Natal)
Noruega:     Julenissen       (Gnomozinho de Natal)
Romênia:     Moș Crăciun      (Antepassado do Natal)
Turquia:     Noel Baba        (Pai Noel) [francês traduzido pela metade]
Polônia:     Święty Mikołaj   (São Nicolau)

Conto de Natal

Rubem Braga (*)

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria…

Presépio 2Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí…

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui…

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima. Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí…

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

Choupana 1De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não…

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher…

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus…

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade havia dois dias.

— Eu acho que o jeito…

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

Presépio 1No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava…

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Havia muitos dias que não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê…

— Uai! Péra aí…

O menino Jesus Cristo estava morto.

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(*) Rubem Braga (1913-1990) é por muitos considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis. O texto foi extraído do livro Nós e o Natal, editado por Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964.

Brasil faminto

José Horta Manzano

Fome 1Época de Natal amolece os corações, é certo. Estas semanas que antecedem o 25, o correio traz bateladas de pedidos de socorro. Chegam envelopes com algum mimo dentro e um pedido de ajuda.

O mimo, em geral, é um calendariozinho ou um par de cartões de Natal. Algumas cartinhas são mais secas, sem mimo. Quanto ao pedido, há quem já especifique quanto quer – 20, 30, 40 dólares. Outros, mais recatados, preferem não sugerir montante e deixar a decisão ao bom grado do doador.

Fome 3Quem pede? A paleta é larga. Começa com grandes instituições como Unicef, Médicos sem Fronteira. Passa por ongs médias, daquelas que obram em favor de velhinhos, de enfermos, de incapacitados, de atletas desamparados, de dependentes químicos. E vai até pequenas e obscuras ongs. Tem até uma que, ano após ano, pede dinheiro para comprar livros para Ruanda. Imagino que a biblioteca já esteja alentada.

Entidades mais poderosas chegam a fazer anúncio por rádio e por televisão. Na rádio francesa, tenho ouvido diariamente o pedido de uma delas. Uma voz masculina dramática conta que acaba de chegar de uma viagem à Índia e ao Brasil, países onde foi testemunha de espetáculo triste de gente passando fome. Em seguida, dá as coordenadas para que cada ouvinte possa remeter seu dom.

Fome 5É constrangedor, mas a gente sabe que não é mentira. Nunca botei muita fé nesse partido que nos governa, mas imaginava que, como mínimo, os doze anos que passaram no comando fossem suficientes para erradicar a fome e a pobreza extrema. No entanto, continuamos a projetar ao mundo a imagem (verdadeira) de país faminto. Aos olhos dos estrangeiros, estamos em pé de igualdade com a Índia, veja você. Somos sócios do pouco invejável clube dos países onde se passa fome, onde disputamos lugar com a Etiópia, o Haiti, o Bangladesh.

E não me venham dizer que o saqueio da Petrobrás tem algo que ver com essa situação. Não tivesse sido surrupiado, o dinheiro da petroleira teria servido para outros fins, não para aplacar a fome dos desamparados.

Fome 4Por coincidência, saíram estes dias os resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Diz lá que ¼ dos brasileiros ainda vive em estado de insegurança alimentar – são aqueles que não têm certeza de que vão ter suficiente pra comer no dia seguinte. Um em cada quatro, minha gente! Dentre eles, sete milhões de infelizes passam fome regularmente.

Fome 2É revoltante saber que, enquanto o pessoal do andar de cima assalta estatais em escala industrial, os humildes que os elegeram continuam descamisados, desdentados, desprezados, famintos. Pior que tudo: sem perspectiva de melhora.

No discurso em que festejou a reeleição, dona Dilma prometeu fazer melhor. Quem sabe vai dar um jeito de soerguer os desamparados, de dar-lhes um rumo na vida.

Você acredita? Nem eu.

O céu de papel laminado

Priscila Ferraz (*)

Naquele tempo, não me causava estranheza um céu noturno com nuvens tão brancas. Eu ficava ali por o que eu achava que eram horas, mas as crianças não têm paciência para contemplar nada por mais do que alguns segundos.

Céu estreladoLembro-me do tempo em que eu ainda era criança, e o mundo, muito diferente. Encantava-me o pequeno presépio que minha mãe montava na nossa garagem para somente um carro. Colocava uma mesa debaixo do vão da escada, que formava um meio arco embaixo do qual colava papel laminado azul-celeste. Era nosso céu particular. Colava, sobre esse azul, estrelas de papelão com purpurina prateada e alguns chumaços de algodão à guisa de nuvens.

As figuras sacras e alguns complementos, ainda guardo com carinho de canceriana, e ano após ano vou tentando recuperar um telhado de palha, a forração da manjedoura, a pintura no nariz de São José, uma perninha quebrada do burro ou o chifre da vaquinha que compartilhavam o celeiro onde nasceu o homem mais conhecido da história.

O anjo da Anunciação mais o cometa, também de purpurina, dividiam o espaço que simbolizava o infinito, tão circunscrito ao pequeno vão de escada.

SP antigo 1Num tempo em que televisões ainda não habitavam cada lar brasileiro, as pessoas da vizinhança vinham ver nosso presépio, que ficava aberto à visitação. Meu pai tinha uma firma de instalações elétricas, e o Sr. Alcides, seu eletricista e padrinho de minha irmã, vinha fazer a iluminação das casinhas. A porta da garagem ficava escancarada, e qualquer passante era convidado a entrar em nosso lar para apreciar aquela belezura.

Outros tempos.

Sobre a mesa, mamãe colocava areia e papel-pedra simulando a paisagem de um distante Oriente. Ali pastavam cabras e vacas, e ciscavam galinhas com seus minúsculos pintainhos, que saíam dos jornais que os embalavam durante um ano inteiro para a alegria das três meninas da casa.

Durante um tempo, era colocada uma pequena vasilha que recebia moedas, não sei bem qual seria o intuito. Presente para o Menino Jesus?

PresépioTinha também um espelho simulando um lago onde ficavam patos e cisnes, e uma carrocinha puxada por um cavalo e dirigida por um infeliz que era, ano após ano, empalado num prego para que não caísse.

Motivo de discórdia eram os três reis magos, que deveriam chegar no Dia de Reis para a entrega dos presentes. Uma de minhas irmãs, a mais ansiosa, todos os dias empurrava-os para mais perto. Resultado: muito antes do Natal já estavam aos pés de Santa Maria com a mirra (o que seria isso?), o incenso (e isso?), e acho que o outro levava joias. Aí começava a discussão, que não raras vezes terminava em empurrões e choro, com direito a sermão da mãe:

“Onde já se viu? Duas irmãs brigando bem na frente de Jesus. Este ano Papai Noel não vem.”

Mais choro.

A decoração de Natal nos dias de hoje começa cada vez mais cedo, e já vejo o dia em que logo após a fogueira de São João entrarão as luzinhas de Natal.

Céu estreladoJá na nossa casa, com a chegada dos netos e sobrinhos, fica muito mais divertido montar aquele velho presépio, agora dentro de minha lareira com céu de veludo e luzinhas simbolizando estrelas. O que se passará na cabecinha deles? Será que também ficarão embasbacados? Não acredito.

Na era dos tablets e smartphones, é difícil encantá-los com meus bonequinhos descascados.

(*) Priscila Ferraz é escritora
www.kbrdigital.com.br/blog/category/priscila-ferraz/

De jegue

José Horta Manzano

E o bobão aqui que acreditou que, para assistir a uma partida de futebol, o povo dispensava o metrô ― que é babaquice ― e ia «de ônibu, de pé ou de jegue»…

Parece que não é bem assim. A monumental arena de Natal acaba de acolher o primeiro jogo pós-Copa. Vejam a desolação.

E pensar que essa fortuna podia ter sido utilizada para o progresso do País. Que judiação!

Estadio 6

Em boas mãos

José Horta Manzano

No dia 4 de julho de 2013, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves, reconheceu que tinha «errado» ao requisitar um avião das Forças Aéreas Brasileiras para conduzi-lo de Natal ao Rio de Janeiro a fim de assistir a um jogo de futebol.

Ressalte-se que esse senhor é presidente da Câmara dos Deputados. Está em segundo lugar na linha sucessória da presidência da nação. Vem logo após o vice-presidente, antes até do presidente do Senado.

É interessante que o senhor Alves somente se tenha dado conta do «erro» depois que a mídia já tinha tornado público o escândalo. Menino travesso.

Ladrão

Ladrão

No dia 4 de julho de 2013 ― que coincidência, na mesma data! ― reportagem do Correio Braziliense informa que um secretário do senhor Alves tinha sido assaltado três semanas antes. O assalto, descrito como cinematográfico, deu-se à luz do dia, numa artéria movimentada de Brasília. Os personagens designados como assaltantes não primaram pela sutileza. Parece que procuravam se exibir diante de testemunhas, coisa estranha.

O veículo em que trafegava o assessor foi fechado por outro carro do qual dois homens desceram e anunciaram o assalto. Vasculharam o veículo do assessor e levaram uma maleta que, segundo se soube mais tarde, conteria 100 mil reais em dinheiro vivo. A história, um tanto nebulosa, foi deixada de molho desde então. Ninguém mais falou no caso.

Bisbilhoteira, a Folha de São Paulo deste 20 de julho retoma o fio da meada. Informa que os 100 mil reais que ― sempre segundo a declaração do portador ― a maleta continha pertenciam na verdade a nosso conhecido senhor Alves. Yes!, o mesmo que cometeu o «erro» de requisitar avião da FAB para seu lazer particular.

Repito que esse senhor é presidente da Câmara dos Deputados do Brasil. Não é pouca coisa.

Segundo a reportagem da Folha, o deputado mostra certa irritação com a invasão de privacidade de que se considera vítima no caso do roubo da maleta. Alega que o dinheiro contido ali era seu. Estava destinado a pagar uma prestação relativa à compra de um apartamento. Por sinal, o vendedor do dito apartamento é também deputado ― mera coincidência, certamente.

Ladrão

Ladrão

Excluídos os bancários cuja função consiste em preparar maços de notas para serem guardados em caixa-forte, é dificilmente concebível que um cidadão tenha 100 mil reais em suas mãos. Mais inacreditável é que use dinheiro em espécie para pagar uma prestação desse valor. Mais impressionante ainda é que confie a missão a uma terceira pessoa. E o auge da emoção é provocado pelo assalto em pleno dia.

Acredite quem quiser. Para mim, essa história está muito mal contada. Cada um é livre de formular sua própria hipótese. Pena que Agatha Christie já não esteja mais entre nós. Esse caso, posto nas mãos do detective Hercule Poirot, renderia um livro excepcional.

Interligne 34c

Para que fique bem claro:
Ressalte-se que o senhor Henrique Eduardo Alves é presidente da Câmara dos Deputados. Está em segundo lugar na linha sucessória da presidência da nação, logo após o vice-presidente. Nosso País, como se vê, está em boas mãos.

Esquizofrenia

José Horta Manzano

Quando cheguei à Europa, quase 50 anos atrás, nós brasileiros éramos olhados com curiosidade. A gente se sentia realmente estrangeiro. Viajar custava caro, poucos podiam se dar ao luxo de fazer turismo de cá para lá ou de lá para cá. A maioria dos europeus nunca havia visto um visitante vindo de tão longe.

A Europa ainda era cheia de fronteiras, de vistos, de alfândegas. Hoje não é mais assim, mas naquela época, para passar de um país a outro, era absolutamente necessário apresentar documentos. Nossa nacionalidade era tão exótica, que cheguei a assistir a cenas surpreendentes.

Uma vez, ao atravessar uma fronteira rodoviária entre a Itália e a França, o policial de serviço recolheu nossos passaportes, mandou esperar, e desapareceu dentro da guarita. Voltou um momento depois acompanhado de um outro, que parecia ser seu chefe. Pelo olhar benévolo e inofensivo que nos lançaram, percebi que estavam movidos apenas pela curiosidade. Estavam vendo ― provavelmente pela primeira vez na vida ― gente de carne e osso proveniente de uma terra tão longínqua e improvável como era a nossa.

Alguns países exigiam visto de brasileiros. Entre eles, mui estranhamente, a Espanha. A autorização de entrada naquele país tinha um custo, é verdade, mas valia a pena: o visto espanhol era um prazer para os olhos. Uma enorme marca de carimbo de tinta roxa preenchia uma página inteira do passaporte. Metade da superfície carimbada vinha encoberta por uma fieira de estampilhas coloridas. Uma assinatura se sobrepunha ao bonito conjunto. O único senão é que todos os selos, sem exceção, traziam a cara de Franco, o feroz caudilho.

Espanha ― Selos antigos

Espanha ― Selos antigos

O tempo passou, as coisas mudaram. Hoje em dia, nem os próprios diplomatas brasileiros que servem na Europa conseguem dizer com exatidão quantos conterrâneos nossos, entre legais e clandestinos, vivem em cada país. Nos países mais concorridos, somos centenas de milhares.

Uma amiga minha, brasileira mas radicada há muitos anos na Europa, costuma dizer que dar um passeio em Genebra num domingo de verão à beira lago equivale a passear à beira-mar em Natal ou Fortaleza. A paisagem é bonita e os frequentadores são metade brasileiros e metade estrangeiros.

Talvez por falta de visão estratégica, o governo brasileiro costuma ser apanhado de surpresa assim que o panorama mundial se altera. Não só crises financeiras e outros eventos planetários têm o poder de colher nossos mandachuvas de calças curtas. Modificações paulatinas ― e previsíveis ― do comportamento dos cidadãos não costumam ser antecipadas. É preciso que a pressão esteja a ponto de fazer saltar a tampa para que alguém se preocupe em acionar a válvula de escape.

Assim foi com o aumento de brasileiros estabelecidos ― legal ou ilegalmente, pouco importa ― no exterior. Não aconteceu da noite para o dia. O aumento já vem se acentuando há um quarto de século. As representações consulares brasileiras, quase ociosas nos anos 60 e 70, foram-se tornando pouco a pouco mais movimentadas.

Até não faz muito tempo, pelo menos no consulado do Brasil em Genebra, o atendimento era caótico. Levas de conterrâneos se espremiam diante de dois exíguos guichês, senhas não eram distribuídas, não havia nenhuma cadeira disponível, o horário de atendimento era de 3 horas por dia. Cada um tinha seu problema: uma renovação de passaporte, uma legalização de documento, o registro de um recém-nascido, um documento militar, um título de eleitor, uma procuração. O atendimento só era possível na base da cotovelada.

Atendimento reverencioso

Atendimento reverencioso

De uns dois anos para cá, o esforço de um novo Cônsul-geral conjugado a uma tomada de consciência do Itamaraty operaram um milagre. Aquele apinhado de gente em frente do guichê é pesadelo do passado. Hoje marca-se hora ― perdão! ― hoje se agenda por internet e, no dia combinado, recebe-se atendimento personalizado. E pontual.

Não tenho informação, mas suponho que os demais consulados do Brasil estejam agora oferecendo o mesmo tratamento digno que recebemos aqui. Finalmente, o Itamaraty se deu conta de que os milhões de conterrâneos residentes no exterior não são banidos nem desterrados. São brasileiros como os outros e têm necessidade de atendimento.

É curioso constatar que a instituição que vem agora tratando os brasileiros do exterior com tanta urbanidade e tanto mimo é a mesma que afaga caudilhos confirmados e aprendizes, ditadores experimentados e iniciantes, e dignitários de regimes sanguinários no resto do mundo.

Sem dúvida, um caso curioso de esquizofrenia.