Quanta fronteira!

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando se pensa em fronteira, vem logo a imagem de um quiosque à beira da estrada, guarda uniformizado e armado, apresentação de passaporte, revista de bagagem. É isso, sem dúvida, mas não só. Além de confins terrestres, os países têm também fronteiras marítimas. Não são visíveis, mas estão lá. Delimitam a zona de exploração marítima exclusiva de cada nação.

Com exceção dos países sem saída para o mar e daqueles situados em ilhas sem vizinhos próximos, os demais têm fronteiras marítimas. O Brasil não dispõe de territórios ultramarinos; por isso, suas fronteiras marítimas são poucas, apenas duas: com a França (Guiana Francesa) e com o Uruguai. Dado que, com esses dois países, temos também fronteira terrestre, nosso total de vizinhos de parede não se altera: dá 10 no total.

Há particularidades exóticas. A Argentina, por exemplo, faz fronteira (marítima) com o Reino Unido na altura das Ilhas Falkland (Malvinas). Portugal encosta no Marrocos, a Itália beija a Tunísia e a Turquia está colada em Chipre. Embora estejam distantes um do outro, a Costa Rica e o Equador têm fronteira marítima comum, por causa das Ilhas Galápagos.

Zonas exclusivas de exploração marinha
e fronteiras marítimas

Há um país – caso único no mundo – que, entre terrestres e marítimas, faz fronteira com 34 países! E esse país não são os EUA. Trata-se da França. São resquícios de um tempo em que seu poderio era bem maior que hoje. Subsistem pequenas ilhas espalhadas ao redor do planeta. Além da metrópole europeia, a França tem territórios no Caribe, na América do Norte, no Atlântico Sul, no Pacífico, no Índico. A lista de vizinhos é pra ninguém botar defeito:

Alemanha
Andorra
Antígua & Barbuda
Austrália
Barbados
Bélgica
Brasil
Canadá
Comores
Dominica
Espanha
Fidji
Holanda
Itália
Kiribati
Luxemburgo
Madagascar
Maurícia
Mônaco
Moçambique
Nova Zelândia
Papuásia Nova Guiné
Reino Unido
São Cristóvão e Neves
Sainta Lúcia
Salomão
Samoa
Seychelles
Suriname
Suíça
Tonga
Tuvalu
Vanuatu
Venezuela

by Leo Cullum (1942-2010), desenhista americano

Pra terminar, é interessante notar que o Brasil não é o único país não contíguo com o qual a França faz fronteira. Eles têm outros dois vizinhos situados longe do território nacional: a Venezuela (pela Guiana Francesa) e a Holanda (na ilha binacional de St.Martin, Caribe).

Caladão

José Horta Manzano

Convocado a depor, ministro Weintraub mantém-se calado.

Cá entre nós, não é banal ser convocado a dar explicações à polícia por ter feito travessuras. Quando se está ministro, então, é mais grave. Quando se é ministro da Educação, ser chamado à ordem por ter proferido insultos é vexame a figurar em futuros livros de história.

Ajuizados, os romanos já haviam previsto a situação. Veja:

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Canicross

José Horta Manzano

O perfil longilíneo, de magreza esquelética, é um pouco arqueado. Os traços angulosos, os olhos azuis cavernosos, a calvície avançada e a fala mansa e pausada infundem respeito. Até três meses atrás, Daniel Koch era um desconhecido. Quando caminhava a pé pelas ruas de Berna (Suíça) – terno, gravata e mochila nas costas –, ninguém prestava atenção.

Herr Koch era chefe da Divisão de Doenças Contagiosas do Ofício Federal Suíço da Saúde Pública, equivalente a nosso Ministério da Saúde. Desde que a epidemia de covid-19 se instalou, ele tornou-se a figura central de todas as coletivas de imprensa concedidas, num total de 36. Em cada entrevista, vinham os números atualizados de vítimas da doença, assim como as orientações à população.

Canicross

Dia 13 de abril, em plena pandemia, Herr Koch completou 65 anos. Chegou a hora da aposentadoria, já programada fazia tempo. Assim mesmo, ele preferiu adiar por um mês, até que a covid-19 mostrasse sinais de cansaço. Neste fim de maio, com o número de novos contagiados encostando no zero, chegou a hora.

Escolas já reabriram; comércios também; bares e restaurantes ainda mantêm, por algum tempo, restrições de proximidade entre as mesas. Em serviços do tipo cabeleireiro ou salão de beleza, onde o atendente tem de estar muito próximo do cliente, o profissional tem de usar máscara; todo o material tem de ser desinfectado entre dois clientes.

Canicross: Daniel Koch

Daniel Koch, agora conhecido como Mr. Covid-19, pode se aposentar tranquilamente e dedicar-se ao canicross(*), uma de suas paixões. Sua figura esguia ainda está tentando habituar-se a ser reconhecido por onde passa, novidade absoluta para o homem recatado. Na rua, costuma ser agora aplaudido por desconhecidos.

Se alguém encontrar alguma semelhança com nosso ministro da Saúde, é pura imaginação. Um não tem nada a ver com o outro.

(*) Canicross
Até poucos dias atrás, eu não sabia o que era. Agora, na Suíça, todos sabem o que é canicross. Mal explicando, é como se você fosse levar seu cachorro para fazer pipi; só que o passeio-pipi não é moleza: é uma corrida tipo maratona, em que dono e cão correm juntos e fazem o mesmo esforço. Coisa para atletas de verdade.

Pedir para fazer pipi

José Horta Manzano

A grande mídia nacional, cujos órgãos chegam a publicar manuais de redação, deveria tomar mais cuidado com a escrita. Mormente nos títulos. O erro que anoto hoje é pra lá de recorrente. Na língua nossa caseira de todos os dias, passa; nas páginas da mídia séria, engasga.

O verbo pedir tem diferentes acepções, mas só se constrói com a preposição para em um caso: quando se pede licença para fazer algo. Portanto, a expressão «pedir para» comporta um termo oculto. Será sempre: «pedir (licença) para».

Chamada Estadão

Assim, em frases como pedir para entrar, pedir para ir ao banheiro, pedir para sair mais cedo, é adequado empregar a preposição para depois do verbo. Já a chamada do jornal é inadequada. Deveria ser «Governo pede ao Supremo que suspenda depoimento (…)».

Se a boa mídia não conseguir aprimorar a difusão da língua culta, seria desejável, pelo menos, que não atrapalhasse.

Tuíte – 14

José Horta Manzano

Ontem, a PF lançou operação de busca e apreensão contra os governadores do RJ e de SP. Doutor Bolsonaro apresentou seus cumprimentos à PF.

Hoje, a mesma PF lançou operação de busca e apreensão contra cinco apoiadores do presidente. Até o momento, não se tem notícia dos cumprimentos de doutor Bolsonaro.

Será que a PF só é boa quando age no meu interesse? Vai pegar mal.

Cloroquina – 4

José Horta Manzano

Dois meses atrás, um decreto do governo francês havia autorizado a utilização da cloroquina para tratamento da covid-19. Desde então, muita água correu debaixo do rio Sena, milhares de cidadãos morreram e outros milhares se safaram da doença. Tratados ou não com o remédio polêmico, frise-se.

Faz alguns dias, como informei neste blogue, a revista médica britânica The Lancet publicou resultado de portentoso estudo feito com 96.000 pacientes. Chegou-se à conclusão de que nem a hidroxicloroquina nem seus derivados são eficazes contra a covid-19 em pacientes hospitalizados. Além de não fazer bem, o danado do medicamento ainda aumenta o risco de acidentes cardíacos. Cruz-credo!

As autoridades sanitárias francesas decidiram não arriscar. Nesta quarta-feira, 27 de maio, saiu um decreto no Journal Officiel (Diário Oficial) revogando a autorização dada em março. A partir de hoje, fica proibido administrar cloroquina para tratamento de covid-19. A única exceção fica por conta de pesquisas médicas com pacientes voluntários.

Doutor Bolsonaro já demonstrou que odeia a ciência. Além disso, é monoglota. Logo, é compreensível que não tenha lido o estudo publicado em The Lancet. Mas será que ninguém na sua assessoria ouviu falar, nem de leve, no assunto?

Isso vai acabar dando a impressão de que algum figurão do primeiro escalão é acionista do laboratório fabricante; e que prefere manter os ganhos financeiros à custa da saúde da população.

Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Uma dúzia de anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
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Atualmente, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.

Artigo publicado originalmente em 14 março 2018.

Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

Se eu morrer, saibam quem me matou

Ignacio de Loyola Brandão (*)

Esta é a crônica mais delirante e real que escrevi nestes meus 27 anos neste jornal. Se eu morrer de covid-19, saibam que fui assassinado. Sei que posso ser morto apesar dos cuidados que tomo. Estou há 50 dias encerrado em casa. Não desço sequer para atender motoboys que trazem medicamentos, compras de supermercados ou refeições. Gastei hectolitros de álcool gel, cheguei ao máximo de, após receber uma ligação, dar um banho no telefone com medo de ser contaminado pelo som. Quando vejo noticiário, desligo se o presidente começa a falar, enraivecido, espalhando perdigotos, tossindo, espirrando, dando a mão, insensível, abusado.

Tenho medo de ser infectado. Aqueles olhos claros que poderiam ser amorosos e cordiais nos fuzilam com chispas de ódio. Como deve sofrer quem vive assim na defensiva. Porque ele é pura defensiva o tempo todo. Segundo os sábios, não podemos olhar nos olhos de uma pessoa que odeia tudo, o mundo, a vida, porque podemos trazer para dentro de nós o que ela tem de maligno. Há o perigo de nos tornarmos como ela, malvada, perversa. Dona Ursulina, senhora sábia, que cozinhava como poucos, avó de um primo querido, diante de gente ruim costumava dizer: “Isso não é gente, isso é o demônio”. E esse presidente se diz religioso, vai a cultos, agrada a fiéis, bispos, pastores, o que for. Quem ele quer enganar?

(*) Ignacio de Loyola Brandão é escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O texto é fragmento de artigo publicado em 22 maio 2020.

O país de ressaca

José Horta Manzano

Pra quem achava que os (longos) anos do lulopetismo eram o pior que se podia imaginar em matéria de governo, aqui está doutor Bolsonaro pra provar que o que já é ruim pode sempre ser piorado.

O lulopetismo roubou os dinheiros da nação; o bolsonarismo está roubando a alma do povo. Dinheiro, trabalhando e economizando, sempre se consegue juntar de novo; alma, já fica mais complicado. Não há trabalho nem economia que conserte alma arranhada.

Se não for logo interditado, este governo vai deixar um rastro de desolação em que todos sairão perdendo. Dirigentes que desprezam a cultura, desdenham a ciência e destroem a natureza estão agindo pior do que os que assaltaram o erário: estão hipotecando o futuro do Brasil como nação civilizada.

Não sei quantas reuniões ministeriais já houve desde que doutor Bolsonaro assumiu. Alguém acredita que as anteriores tenham sido diferentes dessa que foi desvelada? Moro não apontou a reunião de 22 de abril porque havia nela palavrões, mas porque escorava sua acusação de que o presidente tencionava intervir na PF.

Reunião ministerial

Incivilidades, impropérios e rasteiras parecem ser o prato do dia, servido em todas as refeições àquela gente insaciável. Todos os presentes, excluídos o cinegrafista e a mulher do café, estão na mesma salada. Ainda que alguns aparentem constrangimento, não leve a sério. Se constrangidos estivessem, já faz tempo que teriam entregado o chapéu. Se lá continuam, é porque se sentem entre iguais. Damares inclusive, com toda a pureza que exibe, deve ter os ouvidos acarpetados de palavrões.

Falando em Moro, é curioso que tenha se segurado quietinho durante ano e quatro meses, calado, apagado, apático. Há de ter ouvido muito palavrão, muita impropriedade, muitos planos antidemocráticos. No entanto, não soltou um pio. Só decidiu abandonar o barco quando a água já estava batendo na cintura.

O Centrão acaba de aceitar, com volúpia, convite pra integrar essa caravana de insanos. Como moscas atraídas pelo mel, os do baixo clero só têm olhos para as vantagens que virão em troca de apoio ao governo. Esquecem que toda moeda tem dois lados.

Ao fazer barragem a um processo de impeachment, estão levando água ao moinho do aprendiz de ditador e contribuindo para o sucesso de seu projeto autoritário. Caso o pior acontecesse e o golpe se consumasse, o Congresso seria fechado e eles – tolinhos! – seriam as primeiras vítimas. Perderiam o mandato e só com muita sorte não terminariam na cadeia. A cupidez é defeito muito feio.

Cloroquina – 3

José Horta Manzano

Acaba de sair a notícia. The Lancet, uma das três revistas médicas mais respeitadas do mundo, publicou hoje o resultado de pesquisa sobre ganhos & perdas ligados ao uso da cloroquina em pacientes atingidos pela covid-19.

O estudo, levado a cabo entre dezembro 2019 e abril 2020 em 671 hospitais ao redor do globo, esmiuçou o prontuário de 96 mil doentes internados. Chegou à conclusão de que o uso desse remédio não trouxe nenhum benefício, enquanto os malefícios foram notáveis. Mesmo nos casos em que foi associada a antibióticos, a cloroquina aumentou em 45% os casos de morte por arritmia cardíaca ventricular. Com ou sem tratamento coadjuvante, a esperança de vida dos doentes encurtou.

É imprecionante como esse pessoal age. Vejam só: 96 mil doentes e 671 hospitais unidos em perfeita cumplicidade – e ao redor do mundo! – de propósito só para contradizer as orientações de doutor Bolsonaro. É imprecionante a desonestidade intelectual desse pessoal. Fazer isso logo com nosso presidente, sempre tão ponderado, refletido e preocupado em acertar. É injusto! É um complô comunista! Assim não dá.

Tuíte – 13

José Horta Manzano

Volta e meia se vê algum analista repetir que, lá fora, o Brasil de Bolsonaro virou piada. Dá impressão de que basta mencionar o nome de nosso país para fazer estourarem gargalhadas em Londres, Paris e Berlim. Não é bem assim. Aliás, não é nada disso.

‘Lá fora’, não se costuma brincar com coisa séria. O Brasil – como os EUA, a China, a Rússia – é grande demais pra ser alvo de riso. Ninguém acha engraçado o drama que se desenrola sob a batuta do maestro Bolsonaro. O Brasil não virou piada, virou objeto de perplexidade. Se nós, que temos familiaridade com o assunto, não entendemos o que acontece, imagine o que se passa na cabeça de um estrangeiro. O espanto é maior do que a vontade de rir.

Projeto para o país

José Horta Manzano

Assim que doutor Bolsonaro foi eleito, achou que estava com a bola toda e pretendeu reinar sozinho, sem apoio de ninguém. Com a bola toda, até que estava – afinal, acabava de receber votação majoritária. Só que o ingênuo não se deu conta de que presidente, sozinho, não faz a lei. Quem faz lei é o Congresso. Os parlamentares podem legislar e até derrubar veto presidencial; já presidente não pode se opor ao voto majoritário da Câmara.

É surpreendente que um homem que vegetou por 28 anos no baixo clero não tenha aprendido como funciona o sistema de contrapesos da República. É compreensível: ocupado em delinquir, há de ter negligenciado todo aprendizado.

Neste quase ano e meio de mandato, o doutor apanhou um bocado. No atacado, levou cascudos da Câmara e do STF; no varejo, ouviu pito da imprensa, de dirigentes internacionais, até do embaixador da China. Assim mesmo, preferiu desviar os olhos da realidade – não achou importante construir base de apoio parlamentar.

Só agora, com a água batendo no pescoço, com seus podres (e os da excelentíssima família) revelados ao distinto público, decidiu que era urgente lotear os altos escalões do serviço público e entregar, de mão beijada e porteira fechada, fatias inteiras da República a mensaleiros ex-presidiários. Em troca de apoio, uma espécie de seguro anti-impeachment.

Mais uma fez, fica exposto o déficit de inteligência do presidente. Incapaz de prever o alcance dos próprios atos, ataca o problema de cada dia, sem se inquietar com o amanhã.

Mais grave, ficou mais uma vez confirmada sua absoluta falta de projeto para o país. Enquanto era o futuro do Brasil que estava em jogo, pouco importava que projetos enviados ao Congresso fossem aprovados ou não. Um Parlamento «amigo» só passou a ser vital quando o perigo passou a rondar a família, hoje suspeita de variados crimes. Blindar a família, sim; blindar o país, tanto faz.

Tuíte – 12

José Horta Manzano

Depois do vexame de ter de se ajoelhar diante da China para conseguir ventiladores e máscaras – simples máscaras de papel! –, o que é que está fazendo o governo de doutor Bolsonaro? Deu subsídios para incentivar produção nacional?

Soberania, doutor, não é retirar diplomatas da Venezuela. Soberania é não depender do exterior na hora de proteger a saúde da população que o elegeu.

As passeatas de antigamente

José Horta Manzano

Houve uma época, não faz tanto tempo assim, em que opinião política se manifestava no grito. Na rua, de preferência. Havia quem chamasse de passeata; alguns diziam desfile; outros preferiam protesto. Faixa, megafone, cartaz, palavras de ordem eram de rigor. Por fim, o mais importante de tudo: a cor da indumentária. Aquela maré humana, principalmente fotografada do alto, não teria o mesmo encanto se não estivessem todos uniformizados. Boné, camiseta e bermuda respeitavam o código.

Manifestações assim sempre houve. Foi um lulopetismo desmascarado por mensalões e petrolões que cuidou de dar relevo a elas. Quando a seita já caminhava para o fim, multidões de aluguel vestiram o vermelho das bandeiras progressistas enquanto uma maré de gente se apresentou de verde-amarelo. Era o bom senso nacional despachando os vermelhinhos pra fora da pista.

A roda gira. Desfiles, passeatas e protestos andam meio fora de moda. Palavras de ordem (palavrões?) não saem mais de megafones, mas brotam de redes associais. Mas palavras não têm cor. Onde foi parar a alegre paleta dos velhos dias?

Ela hoje está à porta do palácio presidencial, contida num cercadinho destinado a amestrados prontos a aplaudir o que Seu Mestre disser. Os vermelhinhos sumiram, e os figurantes se vestem de verde-amarelo. É manifestação unívoca, sem contestação possível, senão… «Cala a boca!».

Tudo estaria na santa paz, só que Seu Mestre só diz besteiras. As enormidades presidenciais vêm em modo mesa de pizzaria quando proferidas ao vivo, e em modo balcão de boteco quando são ditas em ambiente restrito. Quem quiser mostrar desagrado e não estiver disposto a escrever palavrão nas redes teria caminho certo: organizar contramanifestação. Só que vai enfrentar um problema espinhoso. A turma do ódio é que trocou o vermelho pelo verde-amarelo. Portanto, que cor o cidadão equilibrado deve vestir?

Está explicado o porquê do silêncio das ruas. Por um lado, a ala do bom senso não se anima a soltar palavrão pela internet. Por outro, dado que o verde-amarelo foi parar em mãos indevidas, gente fina está hesitando em manifestar nas ruas. Tá complicado, parceiro.

Théâtre de l’absurde

José Horta Manzano

O mui sério e prestigioso Le Monde, de Paris, dedicou o editorial de ontem a um retrato das barbaridades que se cometem no Planalto nestes tempos de pandemia, coisas do arco-da-velha, de deixar qualquer europeu de cabelo em pé. Aqui vai um fragmento.

«Les heures sombres que traverse le Brésil rappellent celles de la dictature militaire, quand le pays était soumis à la peur et à l’arbitraire. Avec une différence de taille: alors que les généraux revendiquaient la défense d’une démocratie attaquée, selon eux, par le communisme, le Brésil de Bolsonaro habite un monde parallèle, un théâtre de l’absurde où les faits et la réalité n’existent plus. Dans cet univers sous tension, nourri de calomnies, d’incohérences et de provocations mortifères, l’opinion se polarise sur une nuée d’idées simples mais fausses.

A force de tricher avec les faits, les gouvernants populistes finissent par croire à leurs propres mensonges. On le voit ailleurs dans le monde. Mais ici, dans ce pays sorti voici à peine vingt-cinq ans de la dictature, où la démocratie reste fragile, voire dysfonctionnelle, le fait de politiser ainsi une crise sanitaire à outrance est totalement irresponsable.»

Le Monde, 18 maio 2020 – Editorial

«As horas sombrias que o Brasil atravessa lembram as da ditadura militar, quando o país estava subjugado pelo medo e pelo arbítrio. Com uma notável diferença: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita num mundo paralelo, num teatro do absurdo onde os fatos e a realidade deixam de existir. Nesse universo tenso, alimentado por calúnias, incoerências e provocações funestas, a opinião se polariza sobre um amontoado de ideias simples mas falsas.

De tanto trapacear com os fatos, governos populistas acabam acreditando nas próprias mentiras. Vê-se isso no mundo todo. Mas aqui, num país que se livrou da ditadura há apenas vinte e cinco anos, onde a democracia continua frágil – se não disfuncional –, o fato de politizar em exagero uma crise sanitária é totalmente irresponsável.»

Abrindo fronteiras?

José Horta Manzano

O decréscimo de virulência da covid-19 permite a países europeus programar a reabertura de fronteiras. Por definição, fronteira é uma linha arbitrária fixada para separar dois Estados. Para fechá-la, basta a decisão de um deles: se a estrada estiver barrada por vontade de um dos lados, ninguém passa. Já para abrir, precisa que ambos os países estejam de acordo. Dito assim, parece fácil de entender. Na prática, pode ser um pouco mais complicado.

No fim de semana que passou, um curioso desentendido se estabeleceu entre a Suíça e a Itália, vizinhos de parede. Há que saber que a linha que separa os dois países, com 740km de extensão, é a mais longa fronteira externa das 6 com que conta a Itália, e também a mais longa das 5 com que conta a Suíça. Ela é cortada por uma dezena de estradas de ferro e várias dezenas de estradas de rodagem – sem mencionar os incontáveis caminhos, trilhas e passagens a pé.

A fronteira está fechada há dois meses. É compreensível: cada país já estava sobrecarregado com a pandemia no próprio território e não desejava importar mais doença. Passado o pico do contágio, vai chegando a hora de reabrir as passagens. Faz alguns dias, a Suíça anunciou que, em 15 de junho, liberaria a fronteira com a Alemanha, a França e a Áustria; a Itália, país mais gravemente infectado, ficou pra mais tarde.

Fronteira entre Chiasso (Suíça) e Como (Itália)

No entanto, este fim de semana, o governo de Roma subitamente informou que todas as fronteiras da Itália serão reabertas dia 3 de junho. Desapercebidos de que toda fronteira tem necessariamente dois lados, não consultaram os vizinhos. Ofendido, o governo suíço já avisou que mantém o que havia decidido: nenhuma abertura antes de 15 de junho.

Armou-se uma situação curiosa. O governo suíço não se opõe ao desejo de quem quiser sair do país em direção à Itália, já que a fronteira está aberta do lado de lá. Logo, sair pode, o que não pode é voltar. Portanto, a partir de 3 de junho, quem quiser cruzar a fronteira no sentido Suíça-Itália pode fazê-lo livremente. No entanto, quem quiser voltar vai encontrar portão fechado até segunda ordem.

Taí o que se chama viagem sem volta. Atenção, turista incauto, quem avisa, amigo é!