Reclamar do quê?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 dez° 2016

Os brasileiros vivem num país gigantesco. Para a maioria, fronteira não passa de conceito vago, um ponto perdido no meio da Amazônia, afundado no Pantanal ou açoitado pelo pampeiro nos pastos sulinos. Mal e mal, nos inteiramos do que se passa do lado de cá. Acompanhar o que acontece além-fronteira, então, já é pedir demais. No entanto, lá como cá, há mundo. Por toda parte, gente ama e briga, se entristece e se alegra, nasce e morre. Vale a pena dar uma espiada no que se passa do outro lado.

Fim de ano é momento de balanço. Neste finalzinho de 2016, tenho visto muito desencanto. «O ano que não terminou» é a tônica das análises. O gosto de inacabado, a apreensão com o que está por vir, a carestia e a perda de vigor da economia, os relatos sobre o aumento do desemprego, a recapitulação do nome dos figurões já encarcerados e dos que o serão em breve, o embate entre os Poderes da República ‒ eis os temas dominantes. Todos eles deprimentes, desacoroçoados e angustiantes. Ânimo, minha gente! Ou, como diriam os antigos: sus! Basta olhar em roda pra ver que, se nosso país atravessou um ano difícil, há quem esteja pior que nós. Não acredita?

tanque-de-guerra-1No Brasil, 2016 já começou com cara de golpe. Revolução à antiga, com obuses e trincheiras, anda meio «démodée» por aqui. Mas muita gente imaginava que meia dúzia de brucutus surgiriam a qualquer hora pra derrubar o governo e tomar o poder. Pois não aconteceu! A destituição da presidente e a consequente assunção do substituto legal se deram dentro da mais estrita ordem constitucional. Tirando pequenos engasgos, normais e desculpáveis em situações insólitas, o processo deslizou sem tropeços. Reclamar do quê?

Na primeira metade do ano, conforme iam se aproximando os Jogos Olímpicos, a ansiedade crescia. Até policiais, agentes e peritos do exterior foram convocados para reforçar o time nacional e garantir paz e segurança aos atletas e ao público. Bilhões de olhos ao redor do planeta se encantavam com as imagens do Rio de Janeiro. Cada um torcia por seus atletas. Tudo ao vivo. De novo, tirando escorregões de pouca monta, tudo deu certo, sem catástrofes. Reclamar do quê?

O povo da França, da Índia, do Egito, da Bélgica, de numerosos países africanos e até da Alemanha foi castigado por atentados que deixaram centenas de mortos, milhares de feridos e um cruel sentimento de impotência. Tanto os do andar de cima quanto os do porão se sentem igualmente desarmados, perdidos. No Brasil, tirando a violência à qual, de tão corriqueira, ninguém mais presta atenção, nenhum atentado aconteceu. Reclamar do quê?

Os que vivem na infeliz Venezuela, nossa vizinha de parede, esses, sim, têm do que se lamentar. A situação lá anda tão feia que impele cidadãos a escapar do país para conseguir alimento. Nem comida eles têm! Preferem tornar-se flanelinhas clandestinos em Roraima e dormir ao relento a passar fome no país de origem. Nas grandes cidades da república bolivariana, não há passeata ou manifestação popular que não deixe rastro de mortos e feridos. Do lado de cá da fronteira, não nadamos em dinheiro, é verdade. Mas, ao menos, não vivemos em penúria alimentar. Reclamar do quê?

flanelinha-1Na República Democrática do Congo ‒ país africano de 85 milhões de viventes ‒, o presidente foi batido nas urnas quando buscava reeleger-se. Em vez de passar o poder ao vencedor, como manda o figurino, agarrou-se ao trono. A confusão e a violência se instalaram no país. Pressões externas estão tentando conciliar os dois presidentes autoproclamados. Pra evitar mal maior, cogita-se dar o cargo de presidente a um deles e o de primeiro-ministro ao outro. No Brasil, faz uma pancada de décadas que passação de mando se tornou rotina sem surpresas. Reclamar do quê?

E os apuros dos pobres 80 milhões de turcos? Depois de mal explicada tentativa de golpe de Estado, milhares de cidadãos foram encarcerados. Ninguém sabe o total, mas fontes confiáveis estimam que cem mil estejam presos. Com vocação para ditador, o presidente aproveitou para expurgar o país dos cidadãos que o incomodavam. Fechou jornais e prendeu multidão de jornalistas. Semana passada, na esteira do assassinato do embaixador da Rússia em Âncara, mais 17 mil turcos foram enjaulados. Dezessete mil! Na aprazível Terra de Santa Cruz, abençoada por Deus e bonita por natureza, não temos nada disso. Reclamar do quê?

Feliz ano-novo, brava gente!

É dando que se recebe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Molly, minha filósofa canina preferida, está enfrentando um dos períodos mais críticos de saúde de toda a sua vida. Confesso que ver minha mestra, sempre tão independente e altiva, combalida como está, tem sido uma experiência para lá de angustiante.

Há cerca de duas semanas, ao chegar em casa, a encontrei prostrada, deitada de lado num canto da sala. Ao contrário de seu comportamento habitual ao me ver chegar, ela permaneceu inerte, sem sequer abanar o rabo. Aproximei-me dela, preocupada, e tentei animá-la fazendo uns afagos em sua cabeça. Nada. Não teve forças nem para levantar a cabeça e seus olhos pareciam implorar por ajuda urgente.

Um turbilhão de hipóteses e pensamentos negativos cruzou minha cabeça. Eu sabia que ela vinha lutando contra uma alergia que havia deixado seu corpo todo empipocado e imaginava que o calor infernal de dezembro podia estar contribuindo para o agravamento do quadro. De qualquer forma, me desesperei porque nunca antes a havia visto tão fragilizada.

cachorro-37Após consulta ao veterinário, passamos eu e ela por uma sucessão de experiências assustadoras. Nenhum medicamento receitado parecia fazer o efeito desejado e a falta de apetite foi retirando rapidamente as energias que lhe sobravam. Emagreceu em 15 dias mais de 10% de seu peso e seu cansaço era visível, sua respiração ofegante. Eu assistia a tudo impotente, sem saber como interferir para ajudar. Passava os dias ansiosa, sem conseguir me concentrar em nada.

Apelei despudoradamente a todos os anjos e santos de meu conhecimento. Implorei por ajuda celestial, comprometendo-me a fazer tudo o que estivesse a meu alcance para retribuir a graça de recuperação da saúde de minha companheira de estimação. O milagre não veio, a despeito de minha recém-descoberta obsessão religiosa. Joguei a toalha em desespero, mas, atendendo a uma intuição de último minuto, recorri a meus amigos em busca de iluminação.

Uma coincidência nas respostas que recebi chamou minha atenção: todas apontavam minha participação no processo como decisiva para uma eventual virada de ventos. De início, não compreendi bem a mensagem. Mudar o foco das minhas preocupações e voltá-lo para minha própria saúde me parecia um contrassenso. Isolei-me de tudo e, deitada no escuro, passei horas me perguntando como alterar minha disposição emocional para ajudar minha amiga de 4 patas. Aos poucos, uma luzinha foi despontando no final do túnel.

Lembrei que a única forma efetiva de comunicação entre o bicho-homem e o bicho-bicho se dá através da energia. Energia física, energia emocional e energia espiritual. Percebi que, nos três planos, tudo o que saía de mim eram ondas de irritação, impotência, vitimização e impaciência. Compreendi que minha ansiedade retroalimentava a dela e vice-versa. Reaprendi a dura lição de que o bem-estar de um animal depende em grande parte do equilíbrio emocional da pessoa que cuida dele.

Resolvi chamar a Molly para uma conversa definitiva. Expliquei a ela como meus medos haviam escalado e me cegado ao longo do tempo e perguntei como poderíamos mutuamente nos influenciar para neutralizá-los. Ela respondeu devagar, com voz fraca e pausada:

cachorro-38“Eu também estou muito confusa e amedrontada. Com tudo que sofri nos últimos dias, acabei descobrindo a conexão entre o cérebro e as vísceras. É complicado, mas tente acompanhar meu raciocínio. No desenvolvimento fetal, todo ser em formação é de início apenas um tubo. As duas extremidades desse tubo invaginam, fazem mil circunvoluções, vão se dobrando sobre si mesmas e se curvando. De um lado, cria-se um cérebro e, do outro, os intestinos. O material de base é, no entanto, o mesmo. São as células mais sensíveis à estimulação externa do nosso corpo. Se um dos lados do tubo sofre alterações, o outro se ressente disso. Os hormônios do estresse afetam tragicamente as duas extremidades. Um cólon irritável gera um córtex cerebral igualmente irritável. Ainda não sei como colocar um ponto final nesse ciclo de autodestruição, uma vez que minhas ideias ainda estão muito inflamadas. Teorizo, salto febril de um ponto de vista a outro, mas não chego a nenhuma conclusão útil. Talvez pudesse ajudar se criássemos uma atmosfera de harmonia e aconchego para nós duas”.

Segui à risca as orientações de minha mestra. Arranjei as coisas para que nossa casa tivesse o clima mais zen possível: silêncio, escuridão, ar fresco, odores e sons suaves, gestos calmos e olhares ternos. Lentamente, o milagre foi acontecendo. Com nossa respiração mais profunda e fluída, as endorfinas foram se acumulando e ajudando a neutralizar a carga de adrenalina. A crescente serenidade que experimentamos deu conta de acalmar de vez as vísceras da cachorra e de expandir minha confiança num desfecho favorável. Um pouco de sombra e água de coco gelada fecharam com chave de ouro nossa jornada pelo território do implausível.

cachorro-39Hoje acordamos novamente de bem com a vida. O processo parece ainda estar longe do fim, mas já não nos importa. Todas as platitudes das mais ridículas acodem a nossos cérebros e saltitam pelos nossos lábios. Revigoradas, cantamos em coro com Milton Nascimento que não há “nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo”. Depois, rindo uma com a outra, entoamos sensualmente os versos de Leonard Cohen: “Dance me to the end of love”.

São Francisco tinha razão. O máximo a que podemos aspirar durante nossas curtas existências é alcançar a condição de instrumentos da paz. Vital é aprender que só se recebem bênçãos divinas quando somos capazes de abençoar nossas experiências ‒ boas ou más ‒ de vida e também dar graças por nossos companheiros de jornada.

Agradeço de coração a meus amigos que me estimularam e me fizeram chegar a essas revelações. Pensando bem, é por poder contar com a sabedoria de vocês que talvez esteja sendo este o final de ano mais positivo de minha vida. Retribuo com meus votos de libertação de todas as mazelas humanas e com meu desejo de transcendência para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Conflito entre Poderes

José Horta Manzano

«Vai-se o rei, fica a majestade» ‒ diz o povo. Certos vícios e cacoetes martelados durante séculos têm vida longa. Regime entra, regime sai, certas práticas continuam. E o mais incrível é que parecem normais.

A Revolução Francesa, que espocou nos anos 1790, acabou com o absolutismo na França. No Brasil, a novidade chegou algumas décadas depois. Em 1824, a primeira Constituição do país independente já fixava os limites do poder do chefe do Executivo.

Luís XIV

Luís XIV,  rei da França

Ainda assim, a Constituição francesa guarda resquícios do «direito divino», herdados do ancien régime. O presidente da República, que agora representa o papel do rei, conserva certos poderes discricionários. O Artigo 17, curto e grosso, dá a ele o direito de perdoar penas individuais.

Nossa Constituição não inventou grande coisa. Assim como diversas outras, inspirou-se em princípios já expressos na lei maior de grandes democracias. O Artigo 84 de nossa carta atribui ao presidente da República o direito de conceder indulto e comutar penas (…). Data venia, discordo vigorosamente.

Bem no comecinho, logo no segundo artigo, nossa Constituição explicita que os Poderes da União são independentes e harmônicos. A atribuição dada ao presidente do Executivo de comutar pena de condenados pelo Judiciário manda pro espaço essa harmonia. Como é que é? Um condena e outro perdoa? É incongruente.

No Brasil, vamos mais longe que na França: assistimos a esse filme todos os anos. Todo Natal, repete-se o ritual da concessão de indulto a condenados. Se o intuito do legislador era instaurar a desarmonia entre Poderes, conseguiu o intento.

O juiz, baseado em estudo objetivo do processo, absolve o indivíduo ou o considera culpado e lhe impõe a pena. Caso o condenado queira contestar, a segunda e a terceira instância estão aí para isso. Após o trânsito em julgado, não deveria ser possível reabrir o processo, a menos que haja surgido fato novo, não conhecido à época do julgamento. De toda maneira, toda a movimentação deveria ocorrer no âmbito do Judiciário.

Constituição 4Nada mais frustrante para o poder Judiciário que assistir, impotente, à soltura de criminosos por uma canetada do presidente. Parece-me descabido que um só homem possa anular, num ato de pura vontade pessoal, o resultado de um processo que pode ter levado anos de trabalho e de estudo.

Foi assim que um certo José Genoino ‒ «herói do povo brasileiro» ‒ foi solto, dois anos atrás. Por decreto presidencial. No outro extremo de nossa proverbial desigualdade entre cidadãos, volta e meia surgem histórias tristes de inocentes que passaram décadas atrás das grades. Para esses, nunca terá havido indulto nem perdão.

O decreto de 2016, conhecido como indulto de Natal, já foi assinado pelo presidente semana passada. Essa incoerência embutida na Constituição não é a única. Está passando da hora de aposentar a atual carta magna e substitui-la por uma novinha em folha.

A prova pela imagem

José Horta Manzano

No Brasil, o ofício do policial está ficando cada dia mais difícil. Antigamente, não era assim. Polícia chegava, batia, arrebentava e tudo ficava por isso mesmo. O espírito corporativo funcionava, as versões dos participantes concordavam e não havia como contestar. Hoje em dia, com a onipresença de câmeras de vigilância e de filmadoras incorporadas em telefones de bolso, vai ficando mais complicado trapacear.

Se, antes, era comum policiais alegarem ter agido «em legítima defesa», hoje, imagens de vídeo podem contradizer o relato. Todo cuidado é pouco. Para complicar, imagens editadas de vídeo amador feito com telefone celular podem comprometer agentes da lei, dando a impressão de que tenham exagerado na violência sem real necessidade.

policia-5O fenômeno não é exclusivamente nacional ‒ é comum em outras partes do mundo. Para remediar, nova experiência está sendo tentada na França. A partir de primeiro de janeiro próximo, policiais municipais e agentes de segurança dos trens estarão equipados com uma minicâmera incorporada ao uniforme, fixada na altura do peito. Quando de uma ocorrência particularmente movimentada, bastará acionar o dispositivo que filmará a cena.

Dizem que uma imagem vale mil palavras. Se a experiência for levada adiante ‒ e se der resultados ‒, muita acusação mútua poderá ser evitada. Contestações, que hoje desembocam em processo judicial, não terão mais razão de ser. Em princípio, parece ser boa medida. Talvez fosse o caso de nossa polícia experimentar o método.

Espantando turistas

José Horta Manzano

As estatísticas de turismo global mais recentes datam de 2014. Naquele ano, a França ficou com o primeiro lugar disparado. Recebeu nada menos que 84 milhões de turistas (para 67 milhões de habitantes). Em seguida, praticamente empatados, vêm os EUA e a Espanha, com 65-66 milhões de visitantes. Seguem-se a China, a Itália e a Turquia, com mais de 30 milhões de turistas cada uma.

A lista apresenta certas curiosidades. A Arábia Saudita, por exemplo, que aparece na 16a. posição, é terra desértica, sem grande atrativo. As 18 milhões de entradas registradas referem-se a peregrinos maometanos.

navio-4Outro dado surpreendente é que 13 milhões de pessoas tenham visitado Macau, exíguo território de 30km2, equivalente a um pequeno bairro. A explicação para tanta afluência é bem profana e desprovida de toda religiosidade: a jogatina. Na prática, a única atividade da antiga colônia portuguesa são os cassinos. A cada dia, chegam multidões de turistas convencidos de que vão tirar a sorte grande.

E o Brasil tropical, das praias com palmeiras, da água de coco com casquinha de siri, da floresta amazônica, do Pantanal, dos ouros das cidades históricas ‒ como é que fica? Em 2014, ano de Copa do Mundo, conseguimos nos classificar num magro 43° lugar. Recebemos pouco mais de 5 milhões de turistas, o que nos deixou atrás da Argentina, da Bulgária, do Egito, da Croácia e até da Indonésia.

No começo do século XX, navios de imigrantes saídos da Europa com destino à Argentina tranquilizavam os passageiros: «Este navio não fará escala no Brasil». A febre amarela, endêmica nos baixios de Santos e do Rio, assustavam.

Macau: cassino

Macau: cassino

Hoje os problemas são outros. Mudaram de nome. A zika substituiu a malária, embora continue assustando. A criminalidade e a violência se adicionaram à pobreza. A falta de apoio das autoridades, que não conseguem enxergar no turismo uma fonte apreciável de entrada de divisas, só faz atrapalhar. Para completar, apareceu outro vilão: a carestia.

De fato, o elevado custo de atracação e de estadia nos portos brasileiros está afugentando operadoras de cruzeiros marítimos. É incrível, parece que fazemos de propósito! Quem viaja num cruzeiro quer sol, boa-vida, festa e alegria. Que a embarcação faça escala em Ilhabela, no Rio, em Salvador ou em Aruba, tanto faz. Resumo da ópera: os organizadores andam procurando portos mais acolhedores.

Ásia, Oceânia, China e até Cuba estão na fila. Para eles, o descaso tupiniquim para com o turismo estrangeiro vem a calhar. Saem ganhando. E nós, evidentemente, perdemos um pouco mais a cada dia.

Insinuação venenosa

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 26 dez° 2016

Chamada do Estadão, 26 dez° 2016

Digamos que, em matéria de presente de Natal, Mrs. Hillary Clinton não deve ter apreciado muito. Afinal, ele está insinuando que o partido perdeu a parada por não ter candidato à altura.

Se bem que… acho que o homem não está tão errado assim.

Amigo é pra essas coisas

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que é nas horas difíceis que se reconhecem os verdadeiros amigos. É verdade. É incrível como gente rica e festeira atrai admiradores. A casa vive cheia, é um entra e sai sem fim. Quando sobrevém algum momento mais penoso, com dinheiro curto, pode escrever: o enxame de amigos vai desmilinguindo. Sobram unicamente os verdadeiros ‒ se sobrar algum.

Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro para ser feliz.

Dorival Caymmi

Dorival Caymmi

Em 1957, num samba amaxixado, Dorival Caymmi punha o dedo na ferida. Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro ‒ cantava ele. Tinha razão.

Em pleno dia de Natal, apareceram duas notícias surpreendentes e antagônicas. A primeira delas dizia que foi lançada uma campanha de arrecadação ‒ nome chique para a tradicional «vaquinha» ‒ com o fim de ‘ajudar o Lula’. O movimento se chama catarse, palavra sugestiva pescada no grego, que indica justamente a purgação e a expulsão do que corrompe a natureza do ser. Nome sugestivo. (A não ser que seja forma menos agressiva de dizer: “Vai te catar”.)

O mote do movimento é ‘Por um Brasil justo para todos e para Lula’. Como acontece frequentemente, a verdade está nas entrelinhas. Analisada, a frase revela a ideia de um universo bipartido: o Brasil de um lado, o Lula do outro. A justiça que serve para o populacho não serve necessariamente para nosso guia, eis por que o mote deixa as coisas bem claras. De fato, os autores do refrão admitem que o antigo presidente escapa à condição de cidadão comum, daqueles que se satisfazem com justiça ordinária. Fica clara a exigência de justiça específica para o líder caído.

Dinheiro 5A outra notícia, que serve de contrapeso à vaquinha para ‘ajudar o Lula’, conta que um antigo tesoureiro do PT, encarcerado como outros tesoureiros do mesmo partido, poderia até aguardar julgamento em liberdade. Para tanto, tinha de pagar uma caução de um milhão de reais. O homem alega não possuir tal soma, razão pela qual passou o Natal atrás das grades e lá deve continuar até o fim do julgamento. Imagino o enxame que, nos tempos dourados, rodeava o cuidador dos dinheiros do partido. Não sobrou ninguém, meu irmão.

Fico aqui a cogitar. O Lula, que é, há zilhões de anos, presidente de ‘honra’ desse partido, vai deixar as coisas como estão? Manda organizar uma vaquinha em benefício próprio enquanto o fiel companheiro apodrece nas masmorras por falta de dinheiro? É assim que funciona a solidariedade entre companheiros?

É, a festa acabou mesmo. Salve-se quem puder.

Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro para ser feliz.

Interligne 18cPS
Sei não. Depois de tudo o que se tem visto e ouvido estes últimos meses, essas «vaquinhas» que arrecadam milhões da noite pro dia podem até ser vistas como lavagem de dinheiro. Por mentes distorcidas, evidentemente.

Natal na barca

Lygia Fagundes Telles (*)

Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.

O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe nenhuma palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.

barco-1Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.

A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.

‒ Tão gelada ‒ estranhei, enxugando a mão.

‒ Mas de manhã é quente.

Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.

‒ De manhã esse rio é quente ‒ insistiu ela, me encarando.

‒ Quente?

‒ Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?

Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:

‒ Mas a senhora mora aqui perto?

‒ Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje…

A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era sereno.

‒ Seu filho?

‒ É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre… Mas Deus não vai me abandonar.

‒ É o caçula?

Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.

‒ É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito… Tinha pouco mais de quatro anos.

Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo.

‒ E esse? Que idade tem?

‒ Vai completar um ano.

E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro:

‒ Era um menino tão alegre. Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado… A última mágica que fez foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.

Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê-los.

barco-2‒ Seu marido está à sua espera?

‒ Meu marido me abandonou. Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.

‒ Há muito tempo? Que seu marido…

‒ Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio… Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.

Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

‒ A senhora é conformada.

‒ Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

‒ Deus ‒ repeti vagamente.

‒ A senhora não acredita em Deus?

‒ Acredito ‒ murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por que, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas…

Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente de paixão:

‒ Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto… Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.

barco-3Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim.

‒ Estamos chegando ‒ anunciou.

Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia:

‒ Chegamos!… Ei! chegamos!

Aproximei-me evitando encará-la.

‒ Acho melhor nos despedirmos aqui ‒ disse atropeladamente, estendendo a mão.

Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

‒ Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.

‒ Acordou?!

Ela sorriu: ‒ Veja…

Inclinei-me. A criança abrira os olhos ‒ aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.

‒ Então, bom Natal! ‒ disse ela, enfiando a sacola no braço.

Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.

Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.

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(*) Lygia Fagundes Telles (1923-), considerada por muitos a maior escritora brasileira viva, é membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. Este conto foi publicado pela Editora Ática em 1989, no livro ‘Para gostar de ler’.

Balanço de fim de ano

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Em anos normais, fujo das retrospectivas ‒ que pululam por toda parte ‒ como o diabo foge da cruz. Além daquele gosto azedo de “déjà-vu”, as imagens coladas umas às outras em flashes alucinados, acompanhadas por uma locução empostada e altissonante, só fazem reforçar minha sensação de enjoo, tontura e ressaca, como se eu tivesse passado o ano envolta em desenfreada esbórnia.

Neste ano terrível que periga não se despedir sem novas pitadas de indigestos acontecimentos, manter a televisão, o rádio, o computador, o celular, a internet e as redes sociais inoperantes é decisivamente questão de saúde mental. Ninguém, acredito eu, vai ter estômago nem fígado para digerir a sucessão de eventos trágicos que envenenaram nossos dias por estas bandas, nem aqueles que enlamearam mais uma vez a história da civilização universal.

check-list-1Como já disse muitas vezes, invejo os animais por sua capacidade de viver apenas no presente. O passado, idealmente, deveria estar a serviço de nosso aprendizado, desvelando a estupidez das escolhas erradas que fizemos e iluminando nossa capacidade de nos desviarmos dos buracos e becos sem saída. Infelizmente, não é assim. A montanha-russa de imagens e sons recortados acaba inexoravelmente por reativar mágoas e ressentimentos que julgávamos adormecidos, ajudando a cavar ainda mais fundo o fosso que separa os que acreditam ter se posicionado do lado certo da história e os que se deixaram iludir por apostas temerárias.

Não quero jogar mais gasolina nesse incêndio, mas não posso me furtar a apontar uma assustadora analogia entre as decisões que tivemos de tomar no plano econômico, político e social ao longo do ano e o trágico acidente aéreo que vitimou a equipe de Chapecó. Acompanhem comigo as coincidências e vejam se não tenho razão.

Os dirigentes do time vice-campeão da Copa Brasil precisavam contratar uma companhia aérea para nos levar até o destino com que sonhávamos há muitas gerações. Tinham uma importante final de campeonato de ética e capacidade de gestão pela frente e sentiam que já estavam preparados para garantir o cumprimento das regras pelos jogadores e técnicos. Ainda que de modo titubeante, recrutaram analistas e consultores especializados para pesquisar os antecedentes e os critérios de qualidade adotados pelas empresas interessadas na licitação. Estes entregaram seus relatórios, aconselhando que o contrato fosse fechado com a empresa que demonstrasse possuir os recursos técnicos mais avançados e a equipe mais idônea e mais comprometida com o bem-estar dos passageiros. Entretanto, depois de muito ponderarem, os dirigentes, ainda assustados com as perspectivas sombrias de prolongamento da crise financeira do clube, acabaram optando pela companhia que propôs o custo mais baixo.

Estadio 1Embora pequena, essa empresa já havia lhes prestado serviços minimamente satisfatórios em ocasiões anteriores. Se o nível de conforto e segurança que ela propunha não podia ser descrito exatamente como o ideal, ao menos eles encontravam consolo no fato de que o piloto escolhido para comandar o voo já conhecia a região e estava familiarizado com as carências e desejos dos passageiros.

O avião praticamente lotado com nossas esperanças de um futuro melhor estava na cabeceira da pista, pronto para decolar, mas faltava aguardar a autorização do controle aeronáutico. O despachante da companhia vencedora havia entregado o plano de voo no último minuto e algumas irregularidades na documentação haviam sido constatadas. Os órgãos responsáveis pela autorização da decolagem (TCU, TSE e STF) alertaram que não havia combustível de reserva para chegar com segurança ao destino caso houvesse alguma emergência. O despachante deu de ombros ao alerta e respondeu com certa empáfia: “Faremos o trajeto em tempo menor, não se preocupem”.

Intimidados diante do histórico de aprovação automática dos planos de voo em todas as administrações anteriores, os órgãos controladores limitaram-se a assinar, com ressalvas, a autorização. O avião decolou. Tudo correu como previsto nos primeiros minutos, mas, logo depois de a aeronave ter estabilizado e entrado em velocidade de cruzeiro, pequenos sinais de alerta de mau funcionamento começaram a surgir por todos os lados. O espaço exíguo entre as poltronas, o forte ruído interno, o precário serviço de bordo e a desatenção da equipe de comissários para com as necessidades especiais de alguns passageiros somaram-se à turbulência típica do trajeto e detonaram um clima generalizado de insatisfação.

Havia uma escala prevista para reabastecimento (convocação de eleição direta), mas o piloto – que também era um dos sócios-proprietários da companhia – optou por não fazê-la. Sabia que a margem de lucro da empresa seria seriamente comprometida se tivesse de pagar por mais combustível e confiava cegamente em sua própria capacidade de encurtar o tempo de viagem. Acreditava também que bastaria conceder algumas benesses aqui e ali, distribuir sorrisos e se mostrar simpático para que os passageiros mais exaltados se aquietassem.

aviao-17A poucas milhas do destino, no entanto, percebeu que os tanques da aeronave estavam praticamente esgotados. Relutantemente, acionou a torre de controle e pediu prioridade para pouso, sem informar com exatidão qual era a emergência a bordo (aprovação da PEC do Teto e Reforma da Previdência). Foi informado de que já havia outra aeronave nessa condição (dívida dos Estados). Foi orientado a dar voltas até que a outra pousasse.

Um tanto temeroso, mas ainda confiante de chegar com segurança ao destino, uma vez que já havia enfrentado situações de risco semelhantes, o piloto permaneceu em silêncio por mais alguns minutos. Aos poucos, a aeronave foi perdendo altitude e se aproximando perigosamente do cume das montanhas da região. Angustiado, o piloto deu-se por parcialmente vencido. Sem usar o código internacional obrigatório que poderia colocá-lo imediatamente em terra firme, gastou, tresloucado, os poucos segundos de que dispunha para admitir que enfrentava pane elétrica total causada pela falta de combustível (crise ética e decorrente falta de credibilidade da tripulação) e solicitar que lhe fossem informados os vetores para o pouso. Infelizmente, era tarde demais. O choque com a montanha Lava a Jato foi inescapável.

O que pretendo demonstrar com essa analogia? Será que a retrospectiva de 2016 pode ser resumida como crônica de uma morte anunciada? Não, ainda não. Anime-se, foram encontrados sobreviventes! Cerca de 10% dos passageiros escaparam da morte e já se preparam para voltar a campo.

Feliz 2017 para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Os perigos da euforia

José Horta Manzano

Na madrugada passada, em mero controle rotineiro levado a cabo na estação ferroviária de Sesto San Giovanni, periferia de Milão, dois agentes da polícia local patrulhavam a plataforma de desembarque. Em escolha aleatória, sem desconfiar da identidade da pessoa a quem se dirigiam, pediram a um jovem recém-desembarcado que mostrasse seus documentos. Em resposta, o interpelado sacou um revólver calibre 22 e atirou à queima-roupa num dos dois policiais. Ferido no ombro, o agente veio a terra. O patrulheiro que o acompanhava não esperou sua vez. Sacou imediatamente e, em compreensível e legítimo gesto de defesa, atirou no desconhecido. Não errou o golpe. Atingido em cheio, o desconhecido desmoronou. Morto.

italia-sesto-san-giovanniNeutralizado o agressor, foram feitas as verificações habituais. Com espanto, constatou-se que se tratava do assassino de massa, aquele que havia lançado um caminhão, como um bólido, sobre uma multidão em Berlim, dias antes. As impressões digitais e a comparação fotográfica com a sinalização difundida pela polícia alemã não deixam dúvida sobre a identidade do morto. Bilhetes de trem encontrados nos bolsos do tunisiano darão indicações sobre sua rota de fuga. Talvez levem a eventuais cúmplices. Até aí, não há nada a criticar. O fugitivo não foi «executado», como às vezes acontece. A prova da troca de tiros é justamente o policial ferido, atualmente hospitalizado e que, felizmente, não corre risco de vida. O mundo está ficando cada vez menor. A informação circula cada vez mais rápido. Os tempos andam duros para contraventores, criminosos e fugitivos em geral. (Que o digam os que a Lava a Jato tem apanhado de calça curta.)

O terrorista enfrentou a polícia italiana e foi por ela posto fora de combate. Os agentes que, por ofício, patrulhavam a estação cumpriam horário. A agressão foi cometida contra o Estado italiano. O policial, naquele momento, representava a nação. Acontece que os italianos têm o dom de dramatizar. O ministro dos Negócios Internos deu, esta manhã logo cedo, coletiva de imprensa. Relatou o acontecido e fez questão de dar o nome completo do policial de cuja arma saiu a bala que matou o terrorista. A meu ver, não agiu ajuizadamente. Por duas razões, deveria ter omitido o nome do agente.

policia-4Primeiro, por razões éticas e de privacidade. Talvez o jovem não aprecie que o planeta fique sabendo que foi ele a acionar o gatilho que tirou a vida de um semelhante. Atirou contra um criminoso, sem dúvida, assim mesmo há de ser desconfortável ser apontado na rua como responsável direto pela morte de alguém. Agora não tem mais jeito: com nome, idade e currículo divulgados, será impossível escapar.

Há uma segunda razão, talvez mais grave que a anterior. Daqui a alguns meses, a poeira terá baixado para a maioria de nós. No entanto, mandachuvas do Estado Islâmico, fanáticos, radicais & outros destrambelhados podem não esquecer nunca. O policial ‒ que agora tem identidade conhecida ‒ periga passar o resto da existência na angústia de ser vítima de vingança.

O ministro italiano deveria ter-se lembrado do caso do escritor britânico Salman Rushdie, aquele que publicou, em 1988, um livro considerado ofensivo aos valores islâmicos. O homem, que nunca mais pôde levar vida normal como qualquer cidadão, vive sob proteção da polícia secreta britânica faz quase trinta anos.

De atentados

José Horta Manzano

É fácil ser profeta do passado. Acontecido o fato, é cômodo dizer “eu tinha avisado”.

Na esteira dos atentados que têm castigado a Europa ultimamente, muita gente tem aproveitado para emitir críticas. Depois da carnificina de Berlim, tenho ouvido comentários injustos. Até respeitados analistas vêm censurando a Alemanha por não se ter premunido contra camicases e atacantes. «Onde está a proverbial eficiência alemã? Deviam ter protegido melhor os frequentadores da feira berlinense!» É, falar é fácil.

feirinha-1Feiras natalinas são manifestações de rua tradicionais na Europa do norte, mas não só. Nesta época, são montadas por toda parte. Para se ter uma ideia de como são populares, leve-se em conta que, somente em Berlim contam-se quase sessenta feiras. Na Alemanha inteira, são muitas centenas. O mesmo acontece na França, na Suíça, na Áustria, assim como nos países escandinavos, nos Países Baixos e até na Europa mediterrânea. As barraquinhas oferecem sortimento variado: comes e bebes, artigos de Natal, artesanato, obras de artistas desconhecidos, roupas, tricô, crochê e muita coisa mais.

Prevenir atentado é tarefa impossível. Não se pode pôr um segurança ou um policial protegendo cada cidadão. É ilusório imaginar soluções miraculosas. Haverá sempre uma brecha para um coquetel molotov, uma rajada de Kalashnikov, um camicase com cintura de explosivo, um atropelamento múltiplo. Quando se sabe que um único indivíduo ‒ um «lobo solitário» ‒ pode causar estrago pesado agindo praticamente desarmado, a gente se sente indefeso. Com razão.

feirinha-2Até certo ponto, pode-se reforçar a segurança de aeroportos e estações ferroviárias, que são lugares confinados. Pórticos de detecção de metais, policiamento ostensivo, controles inopinados, câmeras de vigilância não eliminam todo risco, mas ajudam. Já nas ruas, em feirinhas, em grandes lojas, em centros comerciais, em igrejas, nunca se alcançará proteção total. O atentado de Berlim, infelizmente, não foi o último.

Sobra um (magro) consolo: tudo acaba passando. A história é feita de ciclos, de altos e baixos, de vaivéns, de tempestades e bonanças. Durante os anos 70 e 80, sequestros de avião eram praga mundial. Não passava uma semana sem avião desviado. Hoje, já não se ouve mais falar. O dia chegará em que atentados às cegas, como os atuais, serão apenas amarga lembrança.

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Nota linguística
Os alemães chamam essas manifestações de Weihnachtsmarkt. Os franceses dizem Marché de Noël. Os espanhóis dizem Mercado (mercadillo) navideño, enquanto os italianos preferem Mercatino di Natale. Os suecos dizem Julmarknad. Ainda que adaptada ao espírito de cada língua, todas as expressões empregam a raiz mercado.

Alguns jornalistas se deixam contaminar pelo original estrangeiro e traduzem por «Mercado de Natal». Não me parece apropriado. Mercado, para nós, é outra coisa. Nossa expressão «Feirinha de Natal» é mais adequada.

Lula, entre a fuga e a prisão

Ricardo Noblat (*)

Lula caricatura 2Se achasse necessário prender Lula, o juiz Sérgio Moro já o teria feito. Se não o fez até agora foi porque Lula não representa nenhuma ameaça às investigações dos seus supostos crimes. Nem à ordem pública. Uma prisão dele que parecesse precipitada, isso sim, poderia pôr a ordem pública em risco.

Moro caminha na direção prevista por oito de cada dez advogados que acompanham de perto a Lava a Jato: condenará Lula ao fim de vários processos, mas não o prenderá. Lula só será preso se a segunda instância da Justiça, o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) confirmar a decisão de Moro e mandar prendê-lo.

Dos 28 réus que já tiveram recurso julgado na segunda instância, nove viram sua pena aumentada. Outros onze terão que cumprir a mesma pena decidida originalmente por Moro, segundo levantamento feito pelos repórteres Mateus Coutinho, Rodrigo Burgarelli e Valmar Hupsel Filho, do jornal O Estado de S. Paulo.

Isso significa que o tribunal confirmou ou aumentou a pena de 71% dos réus condenados por Moro, praticamente três em cada quatro. Dos réus que recorreram ao tribunal, só quatro tiveram a pena reduzida. Outros quatro acabaram absolvidos. Para desespero de Lula, a situação dele só tem se agravado.

Lula caricatura 2aEsta semana ‒ e pela quinta vez em três operações diferentes (Lava a Jato, Zelotes e Janus), comandadas por juízes diferentes ‒, Lula tornou-se réu. E não somente ele, mas também Roberto Teixeira, o advogado e compadre de Lula que comanda a defesa em todos os processos. Teixeira é acusado de lavagem de dinheiro, assim como Lula.

O Ministério Público Federal também denunciou Lula por corrupção passiva no caso de contratos firmados pela construtora Odebrecht com a Petrobrás. Ele foi apontado como o “responsável por comandar uma sofisticada estrutura ilícita para captação de apoio parlamentar, assentada na distribuição de cargos públicos da administração federal”.

É provável que Lula se torne réu em outros processos. Para que ele fique impedido de disputar as eleições de 2018, basta que seja condenado uma única vez. E que a condenação seja confirmada pela segunda instância da Justiça. Os advogados dele estão certos de que isso ocorrerá até o final do próximo ano. Lula está entre a fuga e a prisão.

(*) Ricardo Noblat é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos veículos.

Destino que ir

José Horta Manzano

Este ainda passa como erro de datilografia ‒ ou digitação, que é a mesma coisa. Faltou releitura, mas ficou engraçado.

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

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Já este aqui dá engasgo. Não é confusão de teclado. É bem pior: falta de intimidade com a norma culta da língua, fato espantoso num encarregado de redigir manchete de jornal.

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Quem vai, não vai “algum lugar”, mas A algum lugar. Havia mais de uma opção para acertar.

Se fizessem questão de manter o verbo ir, simplesinho e eficaz, deveriam ter escrito:
●  Cinco destinos aos quais você pode ir sem passaporte.

Ficaria melhor ainda se tivessem usado outro verbo. Assim:
●  Cinco destinos que você pode visitar sem passaporte.
●  Cinco destinos que não exigem passaporte.
●  Cinco destinos que dispensam passaporte.
●  Cinco destinos para conhecer sem passaporte.
●  Cinco destinos para quem não tem passaporte.

E assim por diante. Bastava espremer um pouquinho os miolos. Mas, que fazer? Ninguém pode dar mais do que tem.

Uns são mais iguais que outros

José Horta Manzano

Quanto mais alta for a velocidade do trem, maior será o risco de ele descarrilar. Nos negócios, vale a mesma máxima: quanto mais dinheiro uma transação envolver, maior será o risco de trambiques.

Para não encher a paciência do distinto leitor, vou resumir um imbróglio que começou 25 anos atrás e agora chega ao fim. Bernard Tapie, personagem nebuloso e ultraconhecido na França, saiu do nada, chegou lá em cima, caiu, reergueu-se, caiu de novo e, aos 73 anos, vai indo assim assim.

Monsieur Bernard Tapie

Monsieur Bernard Tapie

Inteligência, o homem tem. Lábia, também. Filho de operário, é o arquétipo do self-made man. Começou vendendo televisores. Com episódios rocambolescos, muita esperteza, um rolo aqui outro ali, foi subindo. No auge, chegou a ministro da República e proprietário do prestigioso Olympique Marseille ‒ clube de futebol de Marselha. Ganhou muito dinheiro comprando empresas à beira da falência, dando-lhes uma garibada e revendendo-as com bom lucro.

Seu passo mais arriscado foi quando, escorado por um grupo de bancos, investiu quase 500 milhões de euros na compra da Adidas, nos anos 1990. A partir daí, a história se complica. Transações obscuras levaram o empresário à impossibilidade de reembolsar o empréstimo, o que o levou à falência. Visto o volume de dinheiro envolvido, a disputa chegou aos tribunais e ao topo do Estado francês.

Passando por cima da justiça comum, o governo designou uma comissão arbitral para desatar o nó. Os peritos deram razão a Monsieur Tapie e condenaram o erário francês a pagar 400 milhões de euros ao empresário. Em princípio, a questão deveria terminar aí.

Madame Christine Lagarde

Madame Christine Lagarde

No entanto, com a chegada de François Hollande à presidência da República, o caso voltou à baila. A decisão do comitê de arbitragem foi contestada. O processo foi reaberto e enviado à justiça comum, que anulou a decisão arbitral e exigiu devolução dos milhões. Indo além, procurou saber quem havia optado pela arbitragem extrajudicial, procedimento inusitado.

Chegaram a Madame Christine Lagarde, à época ministra das Finanças da França, atual presidente do FMI. Acusada de ter sido descuidada com os dinheiros públicos, Madame foi mandada ao banco dos réus e julgada ontem. Recebeu sentença pra lá de curiosa. Foi, sim, condenada por negligência, mas dispensada de cumprir pena. Não é todos os dias que se vê um réu condenado sair do tribunal livre, sem pena, sem multa, sem sequer inscrição no registro de antecedentes criminais.

FMI ‒ Fundo Monetário Internacional

FMI ‒ Fundo Monetário Internacional

A razão disso tudo? Se fosse condenada em seu país, Madame Lagarde certamente seria despedida do FMI. Seu substituto dificilmente seria um cidadão francês. A bizarra decisão do tribunal evitou essa desonra nacional. Com folha corrida virgem, Madame conserva o prestigioso posto de diretora do Fundo Monetário Internacional.

Como se vê, não é só no Brasil que certos personagens são tratados com mais condescendência que os demais. Os franceses chamam isso de «justice à deux vitesses» ‒ justiça de duas velocidades. Todos são iguais, mas… sempre haverá aqueles que são mais iguais que os outros.

Inferno bolivariano

José Horta Manzano

Señor Maduro, (ainda) presidente da sofrida Venezuela, está pulando na corda bamba. Sua base congressual, composta por não mais que 1/3 dos parlamentares, é amplamente minoritária. O povo passa fome. O país, que pouco ou nada exporta além de petróleo bruto, não tem mais onde encontrar dinheiro. Pra piorar, o preço do petróleo caiu muito estes últimos anos. Fator agravante é a inflação, que deve fechar este ano por volta de 800% ‒ nível que os brasileiros com menos de 30 anos não têm ideia do que possa ser.

venezuela-6Não se sabe bem por que, o governo decidiu abruptamente tirar de circulação a nota de 100 bolívares, a de maior valor e também a mais utilizada no país(*). Note-se que seu valor é de 7 centavos de dólar. Sim, a maior nota do país vale em torno de 20 centavos de real! Pra fazer compras, desde que haja o que comprar, o cidadão tem de carregar uma sacola de dinheiro. Com o banimento da maior nota, o povo ficou sem meios de pagamento. Resultado: este fim de semana, mercadões e mercadinhos foram invadidos e saqueados. O exército foi chamado a intervir.

As fronteiras rodoviárias do país estão fechadas. No oficial, a medida foi tomada para impedir a passagem de «máfias», como se mafioso costumasse atravessar fronteira de ônibus, passaporte na mão. No paralelo, a medida foi tomada para impedir o esvaziamento do país. Se bobearem, metade da população periga abandonar a terra natal, criando um problemão com os vizinhos.

Nas condições atuais, não tem mais jeito: señor Maduro tem de cair e levar consigo todos os auxiliares, assessores, milicianos e apaniguados. O sistema esgotou-se. Raspado o fundo das gavetas, não há mais de onde tirar dinheiro. Nem o lulopetismo, que poderia usar nosso dinheiro pra dar uma mão a Maduro, vai poder ajudar. Embora muitos dos bilhões roubados de nossos impostos ainda devam estar vagando por aí, os rapinadores, acuados, estão mais preocupados em guardá-los para remunerar batalhões de advogados. Ninguém está ligando para «hermanos» necessitados.

venezuela-7Saídas há, embora todas as opções sejam traumáticas. A mais suave seria que Maduro renunciasse, um governo provisório assumisse, novas eleições fossem convocadas. Maduro não se candidataria. Logo após a renúncia, se mudaria para Cuba e sairia de cena. Infelizmente, é pouco provável que as coisas caminhem assim. Ditadores, como se sabe, perdem o contacto com a realidade. Até o último minuto, acreditam que ganharão a partida. Hajam vista Hitler, Ceaușescu & congêneres.

Outra opção, tipicamente hispano-americana, é o golpe de Estado. A única instituição capaz de fazê-lo com boa chance de dar certo é o exército. Chávez tinha sido militar de formação. Maduro, que passou ao largo das casernas e fez a vida como motorista de ônibus, não inspira reverência dos militares.

Se falharem os dois primeiros caminhos, só resta um tenebroso fim: a guerra civil. É a pior das saídas. A da Espanha (anos 1930), a do Líbano (anos 1970-1980), a da antiga Iugoslávia (anos 1990) e todas as outras deixaram um rastro de desolação e de feridas abertas que, décadas depois, ainda não cicatrizaram completamente. Esperemos que os infelizes «hermanos» não tenham de seguir por essa vereda.

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(*) Talvez não tenha nada que ver, mas o súbito desaparecimento da moeda faz lembrar o que Fernando Collor fez ao assumir a presidência do Brasil. Naquela ocasião, a intenção do confisco da poupança dos brasileiros era frear a inflação. O plano fracassou rapidamente. Se não deu certo aqui, não dará ali. Espero que não seja esse o projeto do paranoico señor Maduro. Se bem que…

Ninguém mentiu

José Horta Manzano

Sem apelar para a mentira, a mesma notícia pode ser dada de maneiras diferentes dependendo da intenção do mensageiro e do impacto que se quer causar. Veja o distinto leitor como dois dos maiores diários do país deram, ao mesmo tempo, a mesmíssima notícia.

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Manchete do Estadão online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-01a-estadao

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Manchete da Folha de São Paulo online,
manhã de 19 dez° 2016:

2016-1219-02a-folha

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É bem verdade que, tendo em vista a folha corrida do personagem, tanto faz. Assim mesmo, fica esquisito.

Procura-se porto seguro

José Horta Manzano

O caldeirão do Oriente Médio ferve. Sempre ferveu, não é de hoje. Ponto de origem e de difusão da civilização ocidental, abriga uma emaranhado de povos díspares. As linhas de fratura passam pela língua, pela religião, pela etnia, pelo histórico de enfrentamentos que alimenta a discórdia. Para engrossar o caldo, há petróleo naquela parte do mundo, o que atrai interesse comercial e político.

Síria: mosaico étnico

Síria: mosaico étnico

Não adianta tapar o sol com a peneira: nunca houve e nunca haverá democracia na região. Pelo menos, democracia como entendemos nós. É inviável, não tem jeito. O intrincado de problemas é de tal grandeza, que não há como formar consenso. O mando será obrigatoriamente autoritário, que não há outra maneira. Todos dirão «sim, senhor» a quem gritar mais alto.

Mais brutais ou menos, mais sanguinárias ou menos, mais restritivas ou menos ‒ essa é a graduação possível entre as ditaduras. Que ninguém espere ver o povo da Síria, do Iraque, do Kuwait e de numerosos outros territórios da região elegendo um dia, democraticamente, seus representantes e dirigentes, numa democracia pluripartidária. Vai demorar muito pra esse dia chegar. Por enquanto, vige a lei do mais forte.

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Muita gente tem reclamado da ação dos russos na Síria, de sua aliança com o sanguinário Bashar el-Assad. Pra começar, sanguinários são todos os chefes de guerra daquelas paragens. Não há um melhor que outro. O fato é que a dinastia el-Assad conseguiu segurar o país e manter uma certa estabilidade, ainda que precária, desde 1970.

Quanto aos russos, que o distinto leitor me perdoe a franqueza: não estão nem aí para os povos da região, para o drama dos desabrigados, para o sofrimento dos feridos nem mesmo para os infelizes que perderam a vida. O interesse crucial é conservar a base naval de Tartus, na Síria, concedida a eles por Hafez el-Assad (o pai), nos anos 1970. Desde então, a troca de favores entre Moscou em Damasco tem sido contínua. É um toma lá dá cá. Por um lado, a Rússia faz o necessário para garantir o trono da dinastia alauíta e seu domínio sobre o país. Por outro, o clã garante a cessão da base, verdadeiro «Guantánamo russo».

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

A Rússia, apesar de ser o maior país do planeta em superfície, ressente-se cruelmente da falta de abertura marítima para águas temperadas, livres de gelo o ano inteiro. Para ser operacional o tempo todo, sua frota marítima tem de contar com bases instaladas em clima mais ameno. As instalações de Tartus são ideais para abrigar a frota mediterrânea. Assim como os Assad têm garantido a permanência russa na região, os russos não pretendem abandonar os Assad. Se o clã que domina a Síria é composto por gente pouco recomendável, tanto faz. Essa preocupação não tira o sono dos dirigentes de Moscou.

Só no dia em que as potências entenderem o objetivo maior dos russos é que será possível pensar em trégua, conferência ou acordo de paz. É capital enfiar na cachola que a Rússia sempre dará seu apoio a quem lhe garantir a permanência da base naval.

Perguntar não ofende

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dizem que um bom entrevistador deve fazer perguntas que não proponham escolha simplista entre o “sim” e o “não” ou que permitam acomodação entre lados pseudamente opostos de uma situação.

Se, por exemplo, você suspeita que seu entrevistado é alcoólatra e deseja que ele confirme ou elimine essa suspeita, não pergunte “Você bebe?”. Basta simplesmente perguntar “Quantos copos de bebida alcoólica você toma por dia?“. Se você for ainda mais perfeccionista, investigue uma a uma cada bebida alcoólica que lhe interessa descobrir se a pessoa consome habitualmente. Dessa maneira, além de correr menor risco de constranger o entrevistado (já que a pergunta parte da premissa de que algumas pessoas bebem todos os dias), você pode ter uma dimensão mais exata do seu grau de alcoolismo ou de abstinência.

escolha-1Uma das manchetes do dia em jornais brasileiros e sites da internet diz respeito à reação inflamada de nossa amada ex-presidente Dilma diante da pergunta feita por um jornalista da rede de televisão Al Jazeera. No trecho divulgado, o entrevistador coloca Dilma em saia para lá de justa afirmando: “Algumas pessoas dizem que, se a senhora sabia o que estava acontecendo dentro da Petrobrás, seria cúmplice, e que, se não sabia, seria incompetente”. Conclui perguntando na maior cara de pau qual das opções ela considera a verdadeira.

Dilma se exalta antes de apresentar sua resposta: “Esse é um questionamento tipo “escolha de Sofia”. Para quem não sabe ou não lembra, esse é o título de um filme que aborda o drama de uma mãe judia forçada a escolher qual de seus dois filhos deverá morrer na câmara de gás.

Na sequência, a ex-presidente, ganhando tempo para aprofundar sua defesa, aponta, irritada, as diferenças semânticas entre as atribuições do “Conselho” e da “Diretoria Executiva” das grandes empresas “no mundo todo”. Conclui, mais irritada ainda, dizendo que “nem todos os membros da diretoria sabiam que aqueles diretores da Petrobras tinham mecanismos de corrupção e estavam se enriquecendo de forma indevida”. E por aí ficou.

escolha-2Um detalhe chamou minha atenção e provavelmente chamará também a sua: sabidamente, Dilma era na época presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, órgão ao qual se subordinava todo o quadro de diretores da estatal. Freud, como de hábito, será capaz de nos auxiliar a entender os estranhos meandros cerebrais que nossos pensamentos percorrem em momentos de tensão.

Proponho que você se divirta por alguns instantes reformulando a pergunta a seu bel prazer, mas de modo a excluir em definitivo a opção da entrevistada por um dos lados da questão. A diversão pode ficar ainda melhor se a reformulação da pergunta puder incluir uma terceira via: por que não ambas as possibilidades?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.