Afinal, o ser humano esteve na Lua ou não?

José Horta Manzano

Deusa grega da Lua, da caça e da natureza selvagem, Artemisa corresponde a Diana, deusa romana. É o nome de batismo que a Nasa decidiu dar a seu foguete que deve levantar chispando estes dias a levar quatro tripulantes dar umas voltinhas pras bandas de nosso astro noturno.

Voltinhas é o termo exato, não é figura de linguagem. Devem girar umas quantas vezes em volta da Lua sem lá pousar. É que, depois de mais de 50 anos sem missões de convescote espacial tão distante, a mecânica pode estar um quanto enferrujada. Ou também, e isso é fato, as atuais exigências de segurança são bem mais estritas que as de meio século atrás. Imagine se a sonda não devesse retornar e os quatro passageiros se perdessem no espaço?

Mês passado, o Datafolha aproveitou para fazer uma sondagenzinha. Perguntou a mais de 2.000 maiores de 16 anos, habitantes de 123 municípios situados em todas as regiões administrativas do país, se o indagado acreditava que seres humanos já tinham viajado um dia à Lua – fato que ocorreu em diversas ocasiões na virada dos anos 1960 para os 1970. Se eu tivesse de jogar um número no ar sem ter lido os resultados, teria respondido que, fora meia dúzia de excêntricos, todo o mundo acreditava. Que pergunta, ora!…

Pois veja só, surpreso fiquei eu ao conferir as respostas. Grosso modo, ao extrapolar as respostas dos entrevistados, um de cada três brasileiros maiores de 16 anos acha que é mentira, ou seja, que o homem jamais esteve na Lua. Como testemunha ocular da História, posso dizer que vi (pela televisão na vitrine de uma loja) os primeiros passos de um certo Neil Armstrong na superfície de nosso satélite. Como é possível que hoje, passados 57 anos, ainda tem gente que não ficou sabendo?

É verdade que, no dia seguinte aos primeiros passos, começaram a aparecer as primeiras teorias da conspiração. Até eu já recebi ecos de algumas. Seja como for, é surpreendente que, dos duzentos e tantos milhões de brasileiros, a grande maioria ainda não nascidos em 1969, se ponham a “não acreditar” em fatos do passado. Costuma-se dizer que, no Brasil, até o passado é duvidoso; só que a ida à Lua não foi façanha brasileira, portanto é passado universal. Sacudam-se, incréus!

Se vosmecê imagina que os que acham que o homem jamais foi à Lua são bolsonaristas, está enganado. Se acha que são lulopetistas, também está enganado. Os dois contingentes estão praticamente empatados, dentro da margem de erro. Se acha que os incrédulos estão no Nordeste, engana-se. Se imagina que estejam no Sul, engana-se também. Foram 37% de incrédulos no Sul e 34% no Nordeste: empate técnico.

Cristãos de rito romano x cristãos neo-pentecostais? De novo, empate técnico: 34% dos católicos afirmam ser mentira contra 37% dos evangélicos. No recorte por renda familiar, encontra-se um fator de distanciamento. Entre os que ganham até dois salários, 37% acreditam ser mentira. Já entre os que estão na faixa superior, acima de dez salários mínimos, somente 20% acreditam que é mentira. Assim mesmo, esses 20% me parecem um número elevado.

Como esperado, o fator que mais distancia os que acreditam na realidade dos que não acreditam, é o nível de instrução. Entre os indagados que não foram além do ensino fundamental, 42% juram que é mentira. Entre os que avançaram até o ensino médio, 33% pensam que é mentira. E entre os que completaram o ensino superior, somente 19% engoliram alguma teoria da conspiração – o resto entendeu que a ida à Lua era coisa séria.

Agora, o que mais me impressionou: o recorte por idade. Entre os mais jovens (16 a 24 anos), que se supõem mais abertos, mais embebidos de informação, 27% persistem em negar as evidências e não acreditam que o homem tenha ido à Lua. Na outra ponta, dos maiores de 60 anos, mais próximos dos fatos do começo dos anos 1970, 37% afirmam que é mentira o homem ter ido à Lua.

À vista desses números, a gente fica meio sem saber que pensar. Tirando o nível de instrução, os outros recortes mostram uma população praticamente igualada na negação da História.

No entanto, há outras verdades meio duvidosas que dariam lugar a questionamentos que, estranhamente, ninguém se faz. Por exemplo, como é possível que o Tiradentes, um bugre analfabeto que só sabia manejar alicates enferrujados, pôde ser o cabeça de uma revolta contra uma cobrança de impostos – que, aliás, não lhe dizia respeito? E como é possível que só ele tenha recebido a pena máxima, sendo os outros todos poupados? Está aí, sim, uma questão que me interpela, mas que, aparentemente, não incomoda mais ninguém.

Ganha um passeio de pedalinho no Estreito de Ormuz, quem der pistas para resolver esse mistério. Não o do Tiradentes, o da descrença na pisada do homem na Lua.

Drone a preço de banana

Drones “a preço de banana”

José Horta Manzano

A prepotência e a ignorância são defeitos feios. Quando se dão as mãos e se juntam numa só pessoa, e se esse indivíduo for um líder poderoso, saia da frente: esse sujeito tem tudo para se tornar perigoso. Se tiver gênio violento, então, é pior. O distinto leitor e a graciosa leitora já sabem de quem estou a falar; é isso, do impagável Donald Trump, presidente dos outrora reverenciados Estados Unidos.

Sabemos a marca de excelência deixada por líderes como Churchill, De Gaulle e Mandela, que eram gente “do bem”. Sabemos também a repulsa deixada por ditadores como Stalin (o russo), Hitler (o alemão) e Idi Amin Dada (o ugandense), gente “do mal” que mandava e desmandava em regime ditatorial. Já na história dos grandes países democráticos, não se tem notícia de um chefe de Estado (e de governo) que tenha agido como Trump.

De fato, a personalidade do líder americano reúne violência, prepotência e ignorância, uma receita explosiva. A esse coquetel de qualidades adversas, se poderia acrescentar a teimosia.

Quando ele assumiu o poder clamando que acabaria com as guerras do planeta, pensava sobretudo em acabar com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas. Não tendo tido o cuidado de analisar os antecedentes da guerra, imaginou poder passar por cima do país agredido e convencer Putin a retirar suas tropas. Tentou, convidou o russo a um encontro no Alaska, apregoou que estava tudo encaminhado. Mas não estava. O conflito contiua matando gente, e Trump largou o osso.

Faz um mês hoje, deu início a nova guerra, desta vez no Irã. O objetivo declarado era derrubar o regime, liberar o povo de um jugo violento e desumano, e suspender por completo o programa atômico do país. Imaginou que, decapitando o governo, o resto cairia por si só. Se tinha dado certo na Venezuela, por que não daria no Irã? Só que não deu. Por detrás da fachada, Trump descobriu uma organização do Estado calcada na estratégia militar: caído um soldado, surge imediatamente outro para substituí-lo. E assim por diante. Diferentemente do que Trump imaginou, nunca há vácuo de poder.

O extermínio dos cabeças do regime não alterou em nada a determinação dos que vinham atrás. Pior: uma agressão estrangeira é a melhor maneira de aglutinar o apoio popular. A massa de habitantes que hoje apoia o governo central há de ser bem maior que antes do começo da guerra. A ignorância de Trump e sua teimosia em tomar decisões pessoais sem consultar ninguém levaram um baque pesado desta vez. Ninguém sabe como ele vai conseguir sair desse atoleiro.

Invasão terrestre? Nem pensar! O Irã tem quase 100 milhões de habitantes espalhados por um território maior que o estado do Amazonas, todo constituído de vales espremidos entre altas montanhas, árido, quente. Daqui a um mês, temperaturas diurnas de 40°C ou 45°C já vão começar a ser registradas – e isso vai até outubro. Quem é que vai invadir a pé um território assim? Em cada curva da estrada, uma saraivada de metralhadora pode descer lá do topo. Impensável.

E agora, Mr. Trump? É verdade que ele sempre inventa lendas de vitória e de conquista, dirigidas a seu público. E seu público engole todas, como se verdade bíblica fossem. O resultado final, seja qual for a continuação do conflito, será positivo para o Irã e negativo para os EUA.

O Irã, país até outro dia olhado com certo desdém por causa dos aiatolás e de sua repressão sobre a população, subiu no conceito universal. Ironicamente, nem precisaram de bomba atômica para enfiar o agressor mais poderoso do mundo numa sinuca de bico. O país mostrou ser bom de briga. Não é amanhã que algum outro potentado ousará tomá-lo pela força. Como efeito colateral, encomendas de drones “a preço de banana” vão chover assim que a guerra acabar.

Quanto aos Estados Unidos, esta guerra vai-lhes ficar na História como um segundo Vietnã. Bem mais curto, menos sangrento, mas sempre estigmatizante. Uma guerra que não terá dado certo.

As saídas da costela de Adão em luta contra as filhas de Lilith

Adão e Eva prestando atenção às instruções da serpente
Imagem gerada por IA

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Não costumo me envolver em polêmicas ideológicas, mas meu desconforto com as recentes campanhas de ódio contra Érika Hilton por sua alegada incapacidade de representar “todas as mulheres” ultrapassou qualquer limite de tolerância.

Essa turma que se indispõe de forma rancorosa e desrespeitosa com a condução de uma mulher trans à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher não é a mesma que vive falando de meritocracia? Pois então que se compare o curriculum de atuação legislativa e comprometimento permanente com as lutas sociais de afirmação da dignidade feminina de Érika Hilton com o de outras parlamentares, especialmente as de direita/extrema-direita. Quantas e quais apresentaram projetos de lei nesse sentido desde que assumiram seus mandatos e com quais resultados? Quantas e quais vêm se destacando no combate à misoginia, aos abusos e deboches dos movimentos Incel e Red Pill, ao número alarmante de casos de feminicídio, à discriminação, perseguição e morte de pessoas LGBTPQIA+ e à exclusão de mulheres negras, pobres e periféricas? Quantas e quais atuam junto ao poder público para defender salários iguais para homens e mulheres nos mesmos cargos, o direito a creches, à inclusão e atendimento especializado de crianças neurodivergentes ou com necessidades especiais, a aulas de educação sexual nas escolas, à proteção de crianças e adolescentes contra influenciadores digitais que fomentam a adultização, o estupro virtual e o constrangimento público que leva muitas meninas ao suicídio?

Pode ser ignorância minha, mas não tenho notícia de ninguém de direita eleito para cargos no legislativo municipal, estadual ou federal que tenha um perfil tão combativo quanto o de Érika. E, quando se misturam argumentos de ordem ideológica, política e religiosa para se posicionar contra o protagonismo de mulheres trans, a coisa desanda de vez. Não tenho nada contra que mulheres católicas ou evangélicas fundamentalistas acreditem que Deus ordena que as mulheres sejam submissas a seus maridos, que tratem o sexo apenas como forma de reprodução ou que vejam como seu único papel social o de cuidar da casa, do marido e dos filhos – desde que se sintam confortáveis com essas limitações e não queiram estender a proibição de lutar por autonomia e pensar com a própria cabeça a outras mulheres de outras fés ou simplesmente não-religiosas.

A bíblia cristã conta a estória do nascimento da primeira fêmea a partir da extração de uma costela de Adão. Ora, se entendida como simples parte do corpo e da essência anímica masculina, deriva-se logicamente a necessidade de toda mulher resignar-se ao papel de dependente física, intelectual e emocionalmente de seu provedor e a obrigação das mulheres de se mostrarem eternamente gratas e submissas a quem lhes garante proteção e sustento. Mas o que a bíblia cristã não conta – e está registrado na tradição medieval judaica – é que a primeira mulher de Adão teria sido criada a partir do mesmo barro que o gerou e ao mesmo tempo que ele. Tendo existência própria, Lilith, a primeira mulher de Adão, teria passado então a reivindicar independência, igualdade de direitos e a se rebelar contra a obrigatoriedade de estar sempre por baixo durante a cópula. Adão, inconformado com tanta insubmissão e rebeldia de sua parceira, teria então se visto obrigado a pedir ao criador uma companheira mais “domesticável”. Percebendo seu “erro”, o criador teria então acedido, criando Eva como figura hierarquicamente inferior ao homem e decidido expulsar Lilith do paraíso – a qual acabou se tornando um demônio noturno, que ameaça homens solitários que não se curvam à sua sedução e arranca os fetos do ventre das mulheres grávidas.

Consequentemente, cabe a cada uma de nós decidir qual figurino simbólico nos atende melhor: cidadã de segunda classe oriunda de um pedaço do corpo masculino ou mulher diaba sedutora, que não abre mão da própria autonomia e dos próprios desejos.

Já defender que uma pessoa só pode ser considerada mulher exclusivamente do ponto de vista biológico – isto é, ser portadora de útero e ovários, ter cromossomos XX – é um posicionamento infinitamente mais difícil de ser sustentado racionalmente. Simone de Beauvoir já defendia na primeira metade do século 20 que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Mesmo que você não concorde com essa compreensão filosófica do feminino na cultura, aceitar reduzir-se a um fenômeno meramente orgânico equivaleria a deixar voluntariamente de se enquadrar na categoria de ser humano. Afinal, se todo o aparato psíquico feminino construído a duras penas em contraste ou complementariedade ao masculino e a forte opressão do condicionamento social a que somos submetidas desde o nascimento fossem desprezados, nada separaria fêmeas humanas de vacas, galinhas ou cadelas, não é mesmo?

Dizem que as pessoas só mudam quando se cansam – e, falando apenas em meu nome pessoal, acredito que as mulheres brasileiras que se orgulham de já terem desenvolvido pensamento crítico estão simplesmente exaustas de dar murro em ponta de faca. Junto-me a Caetano para cantar com fervor: “Vaca profana, põe teus cornos pra fora e acima da manada…dona de divinas tetas derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas…”

Negócios fraudulentos

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, é difícil abrir uma página de notícias sem encontrar lá o sobrenome Vorcaro. Está por toda parte, é invadente. O dono do sobrenome é um senhor do qual, até seis meses atrás, só iniciados tinham ouvido falar. Algo ele há de ter feito para ser elevado a celebridade nacional, equiparável a um BBB, só que mais fotogênico.

Não tive a ocasião de conhecê-lo pessoalmente, portanto devo fiar no que encontro na mídia e na internet. Seu passado, do qual não se fala com frequência, me parece um tanto esfumaçado. Uma breve biografia publicada na revista Piauí informa que seu avô, o imigrante Serafim, era pastor italiano. Que fosse italiano, não duvido. Mas… pastor? Há de ter sido um dos raríssimos italianos a professar o cristianismo reformado. E a abandonar suas ovelhas na Itália para emigrar. Raro mesmo. De onde terá saído essa informação?

Costuma-se dizer que só há duas maneiras honestas de ficar rico da noite para o dia. Uma delas, todos sabem, é ganhar na loteria. A outra, casar-se em comunhão universal de bens com uma mulher muito rica (ou com um noivo milionário). Há algumas outras maneiras, mas todas rodam fora dos trilhos da honestidade pura.

Vorcaro não cresceu na miséria, longe disso, mas também não chegou à maioridade em condições de comprar um banco. Pois ainda em seus anos de jovem adulto não só comprou um banco, como também aumentou o balanço do estabelecimento para atingir a casa das centenas de bilhões de reais. Foi nesses anos que, coincidentemente, entrelaçou seus negócios aos dos que mandam e decidem em Brasília. Mas não só lá.

Seu joguinho particular de pirâmide inchou, inchou, até que não havia mais ninguém para entrar na roda e alimentar os que estavam no topo a esperar seus ganhos. Foi aí que um pé d’água reduziu o belo castelo de areia a uma poça rasa. Vorcaro é hoje um turista nas malhas do sistema prisional, frenético como um foragido, viajando de prisão em prisão, à espera de ser chamado para o exame oral, a delação premiada.

Na minha lógica caipira, os papéis estão invertidos. Supõe-se que Vorcaro seja o corruptor, aquele que ofereceu dinheiro e vantagens em troca de depósito de dinheiro público em seu banco. Corruptos são os outros, aqueles que receberam dinheiro e vantagens e depois assinaram ordens de depósito de dinheiro público no banco de Vorcaro. Vamos ver se, depois da tal “delação”, todas as partes entram na dança.

Pode parecer inacreditável, mas Vorcaro não é o único self-made man a enveredar pelo caminho perigoso dos negócios fraudulentos. De memória, me vêm dois casos emblemáticos.

O primeiro é o empresário francês Bernard Tapie (1943-2021). Saindo do nada, passou pelos palcos e pela televisão (foi cantor e apresentador), pela política (foi deputado e ministro), pelas artes (foi colecionador de quadros), pela recuperação de empresas (chegou a comprar uma dezena de empresas praticamente falidas por 1 franco simbólico, que revendeu por centenas de milhões – entre elas, a alemã Adidas). Comprou o time de futebol OM (Olympique de Marseille), que andava mal das pernas, e tirou-o do buraco. Só que exagerou na gestão do clube e andou subornando clubes adversários para entregarem o jogo. A mutreta acabou se tornando pública, e Tapie passou uma temporada na cadeia. Morreu de câncer em 2021.

O outro de quem me lembro era o homem de negócios americano Madoff (1938-2021), esse também de nome Bernard. Seu caso foi mais sórdido do que o do francês Tapie, visto que traiu a confiança de amigos pessoais que lhe confiaram dinheiro grosso para investir. Madoff prometia rendimento muito acima do mercado, recebia somas importantes, mas nunca investiu um centavo. Depositava tudo em sua conta bancária pessoal Quando alguém vinha retirar dinheiro, ele retirava de sua conta e entregava ao cliente. Era a típica pirâmide. Foi até o dia em que estourou. Ele pegou 115 anos de cadeia. Morreu na prisão.

Quanto a nosso Vorcaro, ninguém o quer numa prisão, onde ele seria um arquivo vivo. Seria até perigoso para ele, que poderia “acordar morto” a qualquer momento. Ele vai sair livre mais dia, menos dia. Sua clientela é transversal e atravessa o que há de mais “respeitável” na Brasília dos mandos e desmandos. Todos de rabo preso e bem preso. Todos puxando a corda no mesmo sentido, fazendo o que podem para que a delação do ousado banqueiro seja fraquinha, orientada para alvos menores, passando ao largo dos maiorais.

E assim segue a barca que leva políticos e magistrados, todos bem-intencionados, imaculados, sorridentes, altruístas e puros.

Peixoto Gomide

José Horta Manzano

O processo de revisão histórica, que ganhou força duas décadas atrás, ressurge no presente e exige o “cancelamento” de certos personagens do passado que tenham virado nome de rua ou logradouro público.

A fase atual do movimento é menos ideológica do que estávamos acostumados. Prescreve a mudança de nome dos logradouros que levem o nome de assassinos e outros criminosos. A causa me parece justa. Onde já se viu eternizar de maneira honrosa o nome de criminosos?  É um disparate.

Um dos primeiros a serem postos na berlinda foi doutor Peixoto Gomide, nome de rua da cidade de São Paulo, via importante, de 2 quilômetros, que cruza a avenida Paulista. O homenageado foi presidente do Senado estadual de São Paulo, bem como presidente do mesmo estado. Resumindo seu fim de vida, matou a própria filha, crime conhecido em direito penal como filicídio. E suicidou-se em seguida. Sua história está bem resumida na Wikipedia, para quem quiser mais detalhes.

Os que pediram a mudança do nome da rua que o dintingue sugeriram que a homenagem seja feita a sua filha, a assassinada. Concordo, repito, que o nome do assassino seja apagado da placa. Quanto a homenagear a vítima, tenho cá minhas dúvidas. Com tantas pessoas assassinadas todos os dias no Brasil, por que critério umas teriam mais direito que outras a virar nome de rua?

Ampliando o raciocínio, acho que, quando se faz alguma coisa, é melhor fazer bem-acabado. Se permanecermos no caso Peixoto Gomide, uma rápida consulta a Google Maps me informou que há mais três ruas com o nome desse senhor em cidades paulistas: uma em Franco da Rocha, outra em Piracicaba e mais uma em Ribeirão Pires. Então, como é que fica? Muda-se aqui, mas não ali?

Sei que a fixação de nome de logradouro cabe à vereança do município. Assim sendo, o assunto está a merecer estudo em nível federal. Para evitar contradições, uma lei, decreto ou imposição legal de alcance nacional deveria regulamentar a questão e estipular o que pode e o que não pode.

O tema abre excelente perspectiva para formandos e/ou recém-formados em História, Geografia e áreas afins. O trabalho consistirá primeiro em obter a lista dos logradouros de cada município do país. Numa segunda fase, será pesquisada a origem de cada nome de logradouro: quem foi e o que se sabe sobre o homenageado. Casos escabrosos de criminosos ou delinquentes serão anotados e entrarão numa terceira fase, a do “cancelamento” propriamente dito.

Evidentemente, esse trabalho tem de ser normatizado, pontas aparadas, rebarbas limadas. Quanto a mim, já fiz minha parte: lancei a ideia.

O visitante que não veio

Darren Beattie

José Horta Manzano

Vosmecê sem dúvida ficou sabendo da história daquele enviado especial de Donald Trump que queria se encontrar com Jair Bolsonaro na cadeia. Por caminhos tortuosos, doutor Alexandre de Moraes proibiu o convescote. Eu disse “caminhos tortuosos” porque a motivação do STF foi burocrática, uma espécie de erro processual, eludindo a verdadeira razão.

No entanto, o motivo verdadeiro é que está fora de cogitação abrir as portas de uma prisão brasileira para deixar entrar um representante de um governo estrangeiro. Sendo o visitador um enviado de Donald Trump, e o visitando, um antigo presidente brasileiro, preso por tentado golpe de Estado, o pretendido encontro configura total aberração.

O enviado de Trump pode se encontrar com os filhos do encarcerado, com parlamentares, enfim, com quem ele desejar, só não pode trocar figurinhas com um condenado atualmente custodiado pelo sistema prisional brasileiro.

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O que poucos sabem são os princípios supremacistas e racistas que regem o pensamento de Mr. Darren Beattie, o visitante barrado. Nomeado por Marco Rubio, ele é subsecretário para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos, um cargo sênior que representa a política externa dos EUA para o mundo.

“Seres humanos de maior qualidade estão subsidiando a fertilidade de seres humanos de menor qualidade”, já declarou Mr. Beattie, chamando isso de “realidade fundamental da vida social e política no Ocidente pós-guerra”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “A hierarquia dos tabus é interessante. A prática horrível do aborto no segundo trimestre é legal em alguns lugares e está bem dentro da janela de Overton do discurso público. Mas a ideia de oferecer incentivos financeiros a populações que retornaram ao estado selvagem para esterilização voluntária é completamente tabu.”

Em outubro 2023, não se acanhou e voltou a insinuar que os habitantes de um determinado bairro de Atlanta (Geórgia) tinham “voltado ao estado selvagem”, expressão que só se usa para animais, nunca para seres humanos. Nessa ocasião, ensinou que um presentinho, como um bom par de tênis, resolveria o problema.

Em 2018, Mr. Beattie foi demitido por ter discursado numa conferência frequentada por supremacistas brancos.

Em maio de 2025, escreveu: “Pagar pessoas inteligentes para terem mais filhos, desincentivar pessoas estúpidas de terem filhos. Tão simples, mas molda o destino em um nível intergeracional profundo”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “De onde vêm essas conspirações de redução populacional? Tudo o que vejo é lixo se multiplicando”.

As postagens de Beattie frequentemente se concentram em raça, e ele tem menosprezado diferentes grupos.

Em setembro de 2023, ele respondeu a notícias sobre migrantes africanos se amotinando em Israel dizendo que o governo israelense “poderia simplesmente reuni-los e jogá-los no oceano. Deixe os ‘grupos de direitos humanos’ reclamarem… jogue-os no oceano também!”.

Em maio de 2023, Beattie escreveu no Twitter (hoje “X”) que “populações de baixo QI e baixo controle de impulsos carecem de raciocínio superior e faculdades morais — elas precisam de punição corporal rigorosa e da ameaça de violência para funcionar adequadamente dentro de uma sociedade. Em vez de anarcotirania, precisamos de Singapura para os burros e violentos, e da Suécia para os mais elevados.”

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Aí está, em algumas pinceladas, a personalidade perturbada do visitante que não veio. Foi melhor assim. De transtornados desse naipe, nossa vida pública já está repleta. Não faz falta importar mais um.

Curra

José Horta Manzano

Só quem tem por volta de 80 primaveras, daí pra mais, pode se lembrar de um fait divers que chocou o Brasil em julho de 1958. Era uma época em que escândalos costumavam ocorrer e morrer entre quatro paredes sem que ninguém ficasse sabendo.

Mãe solteira, por exemplo, havia menos que hoje. Uma vez a moça engravidada, o normal é que terminasse em casamento, de bom grado ou à força. E era bom que fosse rápido, antes que o vestido começasse a encurtar.

Era um Brasil mais pobre, mais apegado a imposições da Igreja, talvez mais hipócrita que atualmente. Se era melhor ou pior que hoje? Tudo é relativo, mas uma coisa é certa: a solidariedade, que a pobreza favorece, estava mais presente. A família era ampla e incluía numerosos irmãos e irmãs, primos, tios e tias, agregados, padrinhos. Essa roda de gente era um ponto positivo, mas, ao mesmo tempo, o controle social exercido por esse largo círculo era forte, nem sempre fácil de suportar.

Foi nesse ambiente que se armou o drama de 1958, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Aída era uma jovem de 18 anos, ingênua e virgem como convinha naquele tempo. Num fim de tarde, voltando a pé da escola para casa, foi abordada por dois ou três rapazes do tipo “filhos de papai”, que se distinguiam pelo blusão de couro e óculos usados de dia e de noite, com lentes em geral escuras, armação preta espessa. O protótipo de como se imaginava a terrível ‘juventude transviada’.

O mais afoito chamava-se Ronaldo. Convidou-a para uma visitinha num apartamento situado no prédio ali ao lado. Aída recusou e fez menção de ir embora. Para impedi-la de partir, o rapaz tirou-lhe das mãos um objeto e saiu andando na direção do tal prédio. Aída, que precisava do tal objeto, não teve outro remédio se não seguir o moço, implorando-lhe de devolver o que tinha roubado. Uma vez passada a porta de entrada do edifício, auxiliados pelo porteiro (que era cúmplice do estratagema), subiram todos à laje superior, localizada na altura do 12° andar.

A sequência dos acontecimentos, quem nos fornece é a polícia do então Distrito Federal. Horas mais tarde, um corpo de mulher semidespida foi encontrado na calçada, jazendo numa poça de sangue. A moça era Aída. Chamada para constatações, a polícia científica concluiu que a jovem tinha sido primeiro currada(1), em seguida atirada da mureta da laje, no 12° andar. A marca do solado de suas sandálias ao longo do muro exterior do edifício excluía a hipótese de Aída ter dado um salto voluntário.

Seguiram-se processo, recurso, novo processo. David Nasser, conhecido jornalista, utilizou o espaço de que dispunha semanalmente na revista O Cruzeiro – a de maior circulação no país – para acusar o ‘playboy’ Ronaldo e seu comparsa, com argumentos, provas, evidências, testemunhos. Todo o poder da comunicação foi utilizado em favor da memória da infeliz vítima. O libelo durou semanas e meses. Não adiantou.

A mentalidade do Brasil de 70 anos atrás ainda estava longe de desabrochar. Assuntos como esse tinham sempre o mesmo pré-julgamento popular: em casos de estupro, a mulher era sistematicamente culpada. Se ela subiu ao 12° andar com os rapazes, foi porque quis. Afinal, tinha 18 anos e devia saber o que estava fazendo. Os curradores foram condenados por atentado violento ao pudor, mas foram absolvidos da pior acusação, a de homicído.

Estes dias, lembrei muito desse caso. O que aconteceu algumas semanas atrás, na mesma Copacabana, quando uma jovem da idade de Aída foi atraída para uma emboscada e currada por quatro bostinhas, guarda certa semelhança com o caso de 1958. Muito felizmente, o caso não terminou em homicídio. Acabou com os quatro criminosos marchando calmos em direção ao elevador, burocraticamente consultando mensagens e notificações ao celular.

Por enquanto, estão na cadeia. Em vez de blusão de couro, vestem bermudão. Em vez de botinas lustradas, calçam chinelo de dedo. Em vez de óculos de sol, abrem os olhos descaradamente, como se dissessem: “E aí, vai encarar?”.

Um dia, serão julgados. A sentença demonstrará se as peripécias que nosso país atravessou nesses 70 anos terão valido a pena. A mansuetude dos juízes para com esses rebentos, nascidos bem mas criados mal, continuará a mesma de 1958?

Currada(1)
Particípio passado do verbo currar. É termo que entrou em obsolescência, segundo o Houaiss. Até pouco tempo atrás, era usado para descrever o que hoje se diz “estupro coletivo”, um atentado ao pudor feminino cometido por uma associação de dois ou mais criminosos, com uso de coerção e violência.

A palavra currar não era tabuísmo, antes, podia ser pronunciada diante de senhoras. Talvez o receio de que pudesse ser percebida como vulgar seja responsável por sua substituição por “estupro coletivo”, expressão cujo som despretensioso parece diluir a culpa do ato abominável entre os diversos participantes.

Extorquir, de novo

José Horta Manzano

Voltamos a um assunto de que já falamos antes. E é praticamente certeza de que voltaremos a falar dele no futuro. Trata-se do uso (e do abuso) do verbo extorquir. No imaginário popular, extorquir é sinônimo de achacar. Não é.

Extorquir
É sinônimo de arrancar, subtrair, extrair, puxar, exigir. Portanto, diremos:

No interrogatório, os policiais extorquiram a confissão do suspeito.
No interrogatório, os policiais arrancaram a confissão do suspeito.
No interrogatório, os policiais subtraíram a confissão do suspeito.
No interrogatório, os policiais extraíram a confissão do suspeito.
No interrogatório, os policiais puxaram a confissão do suspeito.
etc.

O objeto de extorquir é sempre a coisa extorquida (ou arrancada, ou extraída). A vítima sofreu extorsão, mas não foi extorquida.
Entendeu?

Achacar
É sinônimo de esbulhar, espoliar, depenar, desapossar, roubar, pelar, tosquiar. Portanto, diremos:

Policiais desonestos achacaram o acusado.
Policiais desonestos esbulharam o acusado.
Policiais desonestos espoliaram o acusado.
Policiais desonestos depenaram o acusado.
Policiais desonestos roubaram o acusado.
Policiais desonestos tosquiaram o acusado.
etc.

Os três grandes jornais do país ainda não entenderam o riscado. Talvez não deem atenção a essas sutilezas. Fossem leitores deste blogue, já estariam mais instruídos.

Sem cartão de crédito

José Horta Manzano

Nunca fui de ter heróis. Os meninos da minha infância se encantavam por tipos como Mandrake, Super Homem, Batman. Eu achava muito mais divertido ler as aventuras de Frajola & Piu Piu, Pato Donald & seus sobrinhos, Pernalonga & Holtelino Tlocaletla.

Como se vê, todos os personagens daquele tempo eram importados dos EUA. Aliás, o Grande Irmão do Norte é país carente de heróis. Como nem sempre os teve à mão, inventou como pôde. De tanto buscar o herói perfeito, desembocaram num Trump, veja você, encarnação da carência americana: o homem forte, viril, que, para impor sua vontade, esmaga quem lhe estiver pela frente. O mocinho que sempre vence os índios, nem que seja com bomba atômica.

Até outro dia, eu tinha grande admiração pelo juiz Moraes, do STF. Me pareceu o homem providencial, aquele que surge no momento certo. A tarefa não era caçar índios, evidentemente, mas dar um jeito no galinheiro e mandar para a cadeia aquela curriola que vinha ameaçando nossa ordem e nosso progresso, e que tinha ousado preparar um golpe de Estado. Que pretensão…

Deu tudo certo no final: o chefe da quadrilha e todos os asseclas foram julgados, condenados e, em maioria, encarcerados. E isso se deve, em grande parte, à mão firme de doutor Moraes, que não soltou as rédeas enquanto não viu o dramalhão chegar ao fim. Se o Brasil se livrou daquele bando de ignorantes presunçosos, o juiz relator do processo merece um agradecimento especial.

Quando o governo americano (chuchado pelo inefável Bananinha, filho do ora encarcerado Bolsonaro) aplicou a doutor Moraes & digníssima esposa os raios e as calamidades da Lei Magnitsky, achei que era tremenda injustiça. Fiquei imaginando como é que os dois, expulsos do mundo digital como Adão e Eva do paraíso, iam se virar sem cartão de crédito? Me deu pena. De bom grado, teria emprestado meu cartão ao casal, desde que se comprometessem a não gastar muito, que é pra não estourar o teto.

O tempo passou, os raios e as calamidades da Magnitsky se foram, tudo voltou ao normal.

Ultimamente, fiquei (ficamos todos) sabendo que o maior estelionatário de que este país tem notícia havia sido preso. A história completa de suas peripécias talvez nunca se fique sabendo. Alguns fatos são conhecidos, no entanto. A firma de advocacia da digníssima esposa de doutor Moraes mantinha um contrato de 129 milhões de reais(!) com o banco de propriedade do estelionatário. De tão estratosférico, o valor suscita desconfiança. Madame jura que se tratava de contrato real, que cobria serviços prestados e a prestar. Acredita quem quer.

Mas isso não é tudo. Há forte suspeita de continuados contactos pessoais e telefônicos entre o estelionatário e doutor Moraes. Este nega. Mas as evidências o acusam. A ver.

E pensar que quase ofereci meu cartão a esse casal! Com todos aqueles milhões no bolso, quem precisa de cartão? Tem de fazer como em comédias americanas, em que, na hora de pagar a conta do jantar, o protagonista tira um vistoso maço de notas do bolso. E ainda deixa cem dólares de gorjeta.

Agora fica a dúvida para pensar em casa. Aquele que foi herói um dia, mas que já tinha uma longa folha corrida que ninguém conhecia, pode deixar de ser o herói que foi? Em outros termos: pilhado no erro, o antigo herói perde seu status?

Jogo de um erro só

Propaganda do Estadão

José Horta Manzano

Este não é um “jogo dos sete erros”. É jogo de um erro só, mas daqueles de dar nó nos miolos. Quem descobrir ganha um fim de semana em Teerã.

Mas não demore, que a oferta é por tempo limitado! Cartinha para a Redação.

Marinha de guerra

O porta-drones IRIS Makra, maior nave de guerra iraniana
visto a partir das pedras do Arpoador, Rio de Janeiro

José Horta Manzano

Os mais atentos se lembrarão da visita controversa que dois navios de guerra iranianos fizeram ao Brasil três anos atrás, no finalzinho de fevereiro de 2023. Na ocasião, o governo dos EUA havia exercido forte pressão sobre o Brasil para que não acolhesse as naves. O Planalto bateu o pé, deu de ombros a Tio Sam, deixou-se imbuir do espírito “quem manda aqui sou eu”, e permitiu que os barcos atracassem no Rio de Janeiro.

Eram uma fragata de bom porte e um imenso porta-drones, a maior e mais vistosa nave da armada iraniana. Estavam visitando portos “amigos” numa turnê de exibição ao redor do mundo. Depois de alguns dias, zarparam.

Pois saibam que ambas as naves foram explodidas e afundadas pela aviação americana ontem, 5 de março. E não foram as únicas: a contagem atual de navios de guerra iranianos destruídos já passa de trinta!

Blitzkrieg

José Horta Manzano

É uma bênção poder observar o desenrolar desta nova guerra de Trump do conforto de casa, sem silvo de mísseis por perto. Pelas contagens feitas por quem entende do assunto, esta é a sétima guerra que Donald Trump desencadeia neste seu segundo mandato. Isso dá uma média de uma nova guerra a cada dois meses – uma façanha!

Pelo ranger da carroça e pelo pipocar das bombas, vou me convencendo, pouco a pouco, que o panorama do Irã, depois destes quatro ou cinco dias de bombardeio, não é bem o que Trump esperava. Faltaram, ao presidente americano, astúcia e conhecimentos históricos. Ele é ousado, é verdade, mas não suficientemente astuto. Uso aqui o termo astuto como equivalente a sabido, esperto, sagaz, arguto.

Trump é daqueles que já entram batendo, para só depois procurar se informar do que estava acontecendo. Ao final, descobrem que já distribuíram sopapos a muitos espectadores que não tinham nada a ver com a briga. Entre os que apanharam, está justamente a vítima, aquele que estava sendo agredido.

Trump espezinhou o ucraniano Zelenski, quando este visitou o Salão Oval da Casa Branca. Reservou seus afagos para Putin, que só lhe pagou com traição e desprezo, como numa letra de bolero. O americano jogou flores para o agressor e cuspiu em cima do agredido. Alheamento à realidade ou má-fé?

Em 2022, o csar de Moscou achava que em três dias teria dominado a Ucrânia. Supunha que suas impressionantes colunas de tanques lançados contra o país e apoiados pelos caças seriam amplamente suficientes para decapitar o governo e permitir a instalação de uma presidência fantoche. Não contava com a resistência dos valentes ucranianos. O resultado é que sua “operação especial” durou bem mais do que o esperado. Acaba de entrar no 5° ano, sem perspectiva de sair do atoleiro.

Nesta nova guerra, Trump parece ter incorrido no mesmo erro de Vladimir Putin. Reproduzindo o erro do russo, Donald Trump calculou que a eliminação do aiatolá e dos principais chefes militares fosse colapsar o Irã e provocar total desorganização do país, fazendo com que todos corressem feito baratas tontas, cada um abandonando armas e bagagens pra salvar a própria pele.

Porém, a versão trumpiana da Blitzkrieg imaginada e executada pelos generais de Hitler – uma guerra-relâmpago – não foi eficaz. O Irã não colapsou, nem se desorganizou, pelo menos até agora. Antes, tem mostrado possuir grande estoque de mísseis e drones, todos de pontaria e desempenho superior ao dos de um ano atrás. E, longe de entregar os pontos, continua atirando e revidando contra Israel e dezenas de alvos americanos da região.

Em tuíte destes dias, Trump se mostra inquieto com a rápida diminuição dos estoques americanos de mísseis e de defesa anti-míssil. E, pasme!, atribui a baixa nas reservas ao “sonolento presidente Biden”. Aqui entra o que eu disse alguns parágrafos atrás: Trump é ousado, mas não é astuto. É ousado de dar essa declaração típica de quem não tem vergonha na cara. Mas faltou a astúcia básica de consultar o almoxarifado para verificar os estoques de armas antes de dar início à guerra. Se vê que sonolento não é bem Mr. Biden…

Agora, que as hostilidades parecem querer durar mais algum tempo, Trump periga entrar em período de turbulência. Para quem jurava, quando candidato, que não se meteria em novas guerras, ele entra numa saia justíssima. Que certamente vai piorar se corpos de militares americanos começarem a ser repatriados. Nos EUA, este é um ano eleitoral.

Boa sorte, Mr.Trump!

Caso de consciência

José Horta Manzano

O bombardeio do Irã, executado por um consórcio integrado por EUA e Israel, está se tornando um caso de consciência. É daqueles acontecimentos históricos que não deixam ninguém indiferente, complexo demais para ser julgado apenas com um like ou um dislike.

Ao final dos anos 1970, na sequência de uma revolta popular, o xá, monarca cujo regime prendia o país a moldes medievais, foi a grande vítima de uma revolta popular que o escorraçou e o despachou em humilhante e estéril peregrinação. Nenhum país estava disposto a acolhê-lo.

Mas não vamos aqui contar a história da derrocada da curta dinastia Pahlevi. A Wikipédia conta melhor que eu, com datas e detalhes.

Livre do regime duro do xá, o Irã mergulhou numa teocracia, uma mistura perigosa de religião e política que tem sempre altíssimo potencial de não dar certo. De fato, não deu. Desde os primeiros anos, bateram de frente com os EUA, o que não deixa de ser imprudente. Tiranizaram a população, foram alvo de embargos e sanções, situação nas quais é o povo que acaba sofrendo, não os dignitários.

Nos fortes protestos do começo deste ano, contagem extraoficial chega a 6.000 mortos – assassinados pelo regime. O mundo inteiro sentiu dó dos pobres iranianos, apanhando em casa, sem possibilidade de deixar o país, sem futuro, as mulheres aprisionadas em casa como nos tempos de antigamente.

Foi nesse quadro desolador que as bombas e os mísseis israelo-americanos despencaram. O alvo eram as autoridades maiores do regime, civis e militares, incluindo o guia supremo. Sabe-se que o guia supremo pereceu no bombardeio de seu palácio. O governo americano explica também que praticamente todos os alvos foram “neutralizados”.


“Chanceler da China afirma que matar o líder de um Estado soberano é inaceitável”,
leio numa manchete.


Não há como discordar. O manual do planeta civilizado ensina que não se devem praticar assassinatos políticos, especialmente contra chefes de Estado. Por esse manual, Estados Unidos e seus acólitos israelenses cometeram crime inaceitável. Nenhum país civilizado poderia aceitar um fato como esse. De fato, o Brasil, assim como numerosos países europeus, emitiram notas de protesto.

Por outro lado, o objetivo apregoado por Donald Trump tem forte apelo humanitário. Um povo como o iraniano, que vive há décadas oprimido por um regime tirânico, precisa desesperadamente que a salvação venha de fora. Sozinhos, não conseguirão. A revolta de janeiro já demonstrou que o regime e seus sicários não permitirâo que o poder da cúpula atual seja confrontado.

Nessa visão, dá um grande alívio que os bombardeios tenham dado início à corrida em direção a um futuro melhor para os iranianos. O povo já deve ter entendido que outra oportunidade como esta não vai aparecer tão já. É bom aproveitar. Mas cuidado com aventureiros, que sempre surgem nessas horas, prontos a tomar as rédeas do poder.

Conclusão

1) Como democrata e simpático à causa da soberania dos povos, fico chocado com qualquer intervenção armada vinda do estrangeiro, que tente impor, de fora para dentro, suas convicções.

2) Como adepto de uma visão humanista e universalista, fico aliviado e feliz que um futuro melhor se esteja abrindo para o povo iraniano, ainda que à custa de intervenção armada estrangeira.

E agora?