As pizza

José Horta Manzano

«Vou botar um petista na PGR?» – foi a pergunta retórica feita por um desabusado bolsonarinho, aquele que é senador. O moço é um dos integrantes do quarteto que nos governa. Os maiorais da República, como todos sabem, são doutor Bolsonaro mais os três rebentos mais velhos.

Antes de qualquer outra consideração, é de sublinhar que o senador usou o verbo na primeira pessoa. «Eu vou botar», é assim que vai a frase. Ainda que pareça irreal, dá pra sentir que não se trata de bravata. O topo do governo está loteado entre os quatro elementos mais preeminentes do clã. A nomeação do novo procurador-geral da República é atribuição pessoal do zero-um.

A fala do bolsonarinho me fez lembrar Mrs. Theresa May, aquela que, ao assumir o posto de primeira-ministra do Reino Unido, disse alto e bom som: ‘Brexit means Brexit (=Brexit quer dizer Brexit). Se o senador disse ‘eu vou botar’, é porque quis dizer ‘eu vou botar’. Não é força de expressão.

Voltando às qualidades exigidas do novo titular da PGR, o pronunciamento do senador é sintomático de uma surpreendente mudança nas relações entre brasileiros. Essa guinada não começou agora, nem é obra do atual governo. Eu a situaria no ponto em que o mensalão começou a pegar fogo, por volta de 2014 ou 2015.

De lá pra cá, novo ingrediente foi adicionado ao balaio de contradições que alimentam nossos fantasmas. Além das oposições tradicionais – pobres x ricos, pretos x brancos, nortistas x sulistas – novo antagonismo veio apimentar o tabuleiro social do Brasil. O fato de ser (ou não ser) petista passou a pesar na balança. Mais do que devia.

As famílias de antigamente eram numerosas. Tive muitos tios, tias, primos próximos, primos distantes, outros parentes e agregados. Este era janista. Aquele, adhemarista. Havia os juscelinistas. Me lembro de um tio getulista roxo, como se dizia. E assim por diante, cada um tinha suas simpatias e suas ojerizas. Por que falo nisso? Pra contar que, naqueles tempos concordes, podiam todos sentar-se em volta da mesa de almoço de domingo e, em seguida, papear no terraço diante de uma xícara de café. Não havia o menor risco de preferência política terminar em discussão, briga ou contrariedade.

Hoje em dia, é mais problemático. Juntar, em volta da mesma mesa, petistas e não petistas é arriscado. Uma ousadia dessas podia até terminar como no Samba do Bexiga, de Adoniran Barbosa, com “uma baita duma briga” e as “pizza que avoava”.

O elefante

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu notícia espantosa. Mais uma de Donald Trump. Num tuíte, o imprevisível presidente se mostrou interessado em comprar a Groenlândia e disse que a Dinamarca, dona da imensa e gelada ilha, deveria concordar em vendê-la aos EUA. A Groenlândia, habitada por 60 mil pessoas, pertence realmente ao reino da Dinamarca, embora goza de grande autonomia.

Parece piada de hospício. Passado o primeiro momento de estupor diante da ousadia de Trump, o mundo riu. A mídia europeia levou tudo na brincadeira. Por seu lado, a primeira-ministra dinamarquesa declarou que a ideia do presidente americano era absurda.

A primeira-ministra da Dinamarca, o presidente americano, a Groenlândia e a fábula do elefante.

Trump não gostou do que disse a chefe de governo. Embirrou. Em represália, anulou a visita que faria a Copenhague estes próximos dias. Na Dinamarca, ficaram todos constrangidos: «Com que então, ele não estava brincando? Estava falando sério mesmo?».

Politiken, importante jornal dinamarquês, traz na manchete o comentário de políticos do país. «Esta história faz o ditado do elefante na loja de porcelana perder todo sentido.»

É verdade. Donald Trump é capaz de quebrar mais louça que um elefante.

O Senado e a bandeira

José Horta Manzano

Você sabia?

O Decreto n° 4 saiu dia 19 de novembro de 1889. Era assinado por personalidades ligadas ao regime que acabava de ser imposto ao povo brasileiro pelo golpe militar de quatro dias antes: a República. Entre outras personalidades, Deodoro da Fonseca, Quintino Bocayuva e Ruy Barbosa assinavam o documento.

O decreto determinava que se adotasse a bandeira republicana – mera adaptação da tradicional bandeira imperial – e incluía uma estampa à guisa de regulamentação da forma do pavilhão. Vigorou sem grandes modificações durante mais de 80 anos.

Em 1° de setembro de 1971, foi sancionada a Lei n° 5700, em vigor até hoje. Bem mais abrangente que as anteriores, ela define os símbolos nacionais e regulamenta, nos conformes e nos pormenores, o aspecto, a forma e o uso de cada um deles. Entre os símbolos, naturalmente, está a bandeira verde-amarela.

Os principais elementos já instituídos pelo decreto de 1889 são mantidos e explicitados. Diferentemente da impressão que se possa ter, as estrelinhas brancas não são jogadas a esmo para enfeitar o azul da abóbada celeste. Cada uma tem seu lugar preciso.

As estrelas, uma para cada unidade federativa, são mostradas na posição que ocupavam no céu do Rio de Janeiro às 8h30 da manhã de 15 de novembro de 1889 – o momento do golpe militar que derrubaria o regime e despacharia o imperador para o exílio.

No entanto, há controvérsias no campo astronômico. Alegam os peritos que há erros grosseiros na disposição dos astros. Minhas qualificações nessa matéria não me permitem emitir apreciação. É bem possível que, para obter um resultado harmonioso, os desenhistas que se dedicaram a posicionar estrelas se tenham deixado levar por uma certa dose de, digamos assim, liberdade artística. Ou licença poética, se preferirem.

O fato é que tudo é milimetrado na bandeira. Desde a proporção entre largura e comprimento até os 5 diferentes tamanhos de estrelas, cada uma conforme sua grandeza aparente. A altura das letras do lema Ordem e Progresso é regulamentada. O tamanho e a posição do losango, naturalmente, também são objeto de prescrição rigorosa.

Bandeira do Brasil - proporções Crédito: Wikipedia

Bandeira do Brasil – prescrições e proporções
Crédito: Wikipedia

A lei de 1971 é rica em detalhes. Ninguém pode alegar desconhecimento. Ninguém? Como se sabe, em nosso País há os que são obrigados a seguir a lei e os que escapam a esse constrangimento. Curiosamente, os que fazem as leis são, com frequência, os primeiros a ignorá-las ou a burlá-las.

Senado Federal do Brasil Brasília

Tribuna do Senado Federal do Brasil
Brasília

A tribuna principal do Senado Federal, empoleirada sobre um estrado, impõe respeito. Em seu revestimento de cor azul-bandeira, ângulos retos são evitados, como numa tentativa de aplainar a aspereza de certas decisões que ali são tomadas. Freud deve poder explicar.

No centro do frontispício, num belíssimo material aveludado, está desenhada, ton sur ton, a bandeira nacional. A ideia é excelente, mas a execução é desastrosa: contraria a lei, justamente no coração da Casa onde instrumentos legais são fabricados. Um contrassenso.

Observe o esquema oficial que rege nossa bandeira e compare com a foto da tribuna do Senado. Não precisa ser técnico, nem astrônomo, nem desenhista para se dar conta imediatamente de que, no Senado, o losango está descentrado – o espaço que o separa da borda direita é bem maior que o do lado esquerdo. A faixa branca no centro do globo está colocada de forma absolutamente fantasiosa. A foto não permite examinar a posição das estrelas, nem mesmo saber se estão representadas. Às vezes é melhor nem saber. À vista do desleixo maior, eu ficaria muito surpreso que as estrelinhas estivessem salpicadas conforme o figurino legal.

Tenho dificuldade em admitir que num Senado – onde senhores engravatados se tratam por Vossa Excelência, declamam discursos inflamados e costuram leis para regular a República – ninguém se tenha dado conta até hoje de que o símbolo maior afronta a lei.

O distinto leitor pode argumentar que, naquela Casa, há coisas piores. É verdade. Em matéria de afrontas, isso é café-pequeno. Mas um «malfeito» não justifica outro. Pega muito mal aquela bandeira torta num recinto que já foi excelso e que um dia pode até voltar a ser. Ou não.

Publicado originalmente em julho 2013.

Avaliando o avaliador

Ruy Castro (*)

Até outro dia, sapateiros eram sapateiros, mecânicos eram mecânicos, cientistas eram cientistas. Um mecânico não ia além da sola, um cientista não trocava rebimbocas e um sapateiro não dividia o átomo. Um advogado não se passava por médico, um químico não dava uma de padre e um jogador de futebol não escrevia “Hamlet”. E nenhum deles precisava aprender o ofício de um engenheiro eletrônico. Hoje, todo mundo precisa ser engenheiro eletrônico.

Dei-me conta disso quando ouvi falar que o Telegram de Sergio Moro e Deltan Dallagnol tinha sido invadido e pessoas estavam lendo suas mensagens. Logo imaginei um espião embuçado abrindo os telegramas entre os dois, talvez aproximando-os do vapor para derreter a cola, copiando seus conteúdos e os lambendo para colar de novo. E até me espantei de alguém ainda se comunicar por telegramas. Para minha surpresa, fui informado de que o Telegram era um “serviço de mensagens instantâneas criptografadas fim a fim no modo client-to-client ou client-to-server, baseadas na nuvem”.

Eu disse “Ah, bom!” e, vexado por minha ignorância, perguntei como acontecera. Responderam-me que uma invasão dessas se dá quando o usuário é induzido a fazer um reset de senhas e recebe um arquivo Office ou um app comprometido.

Assustado, quis saber como evitar isto e me disseram que, ao baixar um app, é preciso ativar o aplicativo dentro desta página da web após avaliar a descrição do aplicativo associado à nota de avaliação e considerar a quantidade de downloads efetivos e os comentários dados por estes usuários. Simples.

Ou seja, o cidadão comum está sendo obrigado a achar soluções para problemas que não criou, é isso? Estou fora. Nos últimos cem anos, tenho ganhado a vida lendo, fazendo perguntas e escrevendo. Se, em breve, isso não bastar, vou para a lavoura, feliz da vida.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Os descendentes de Jacó

José Horta Manzano

Você sabia?

A tradição hebraica, atestada pela Gênese ― um dos livros que compõem o Antigo Testamento ― ensina que, muitos anos antes de nossa era, viveu Yakov. Neto de Abraão, filho de Isaac e de Rebeca, é patriarca bíblico.

Acreditam alguns que seu nome derive de uma palavra significando calcanhar, dado que Yakov teria nascido agarrado ao calcanhar de Esaú, seu irmão gêmeo. Afirmam outros que o termo poderia ter o sentido de suplantar, numa alusão ao prato de lentilhas que Yakov deu ao irmão para conquistar os direitos que correspondem à condição de primogênito.

Embora a gente não se dê conta à primeira vista, está aí um dos nomes mais comuns no planeta. Sua propagação foi impressionante. Teve início com a conquista dos territórios do Oriente Médio pelos romanos. Os invasores, sabe-se lá por que razão, apreciaram o nome e logo trataram de latinizá-lo. O original Yakov assumiu a forma Jacobus. Mais raramente, aparecem também alguns Jacomus.

Passaram-se alguns séculos. A expansão do cristianismo por toda a Europa, aliada ao fato de numerosos Jacobus terem sido santificados, fez que o nome se alastrasse pelo continente. O passar do tempo se encarregou de adaptá-lo ao vernáculo de cada região.

Em algumas línguas, o antigo Yakov mantém-se ainda bem próximo da forma original. Em outras, contudo, sofreu importantes transformações gráficas e fonéticas que o tornaram quase irreconhecível.

Assim, encontramos hoje, em praticamente todas as línguas europeias, filhotes de Jacó. Dou-lhes abaixo uma lista. Ela está longe de ser exaustiva. Apreciem a diversidade de descendentes do Jacó bíblico.

Bible
Inglês:
Jacob, Jakob, Jake, Jack, Jackie, Jock, Cobb, Cobby, Jeb, James, Jim, Jay, Jimmie, Jamie

Alemão:
Jakob, Jakobus, Jeckel, Jockel, Jocki, Jakel, Kobi, Köbes

Francês:
Jacques, Jacob, Jacquot

Espanhol:
Jacobo, Jaime, Diago, Diego, Iago, Santiago
(Santiago é contração do nome do santo. Sant’Iago = Santiago)

Catalão:
Jaume

Sueco, dinamarquês e norueguês:
Jakob, Jacob

Italiano:
Giacobbe, Giacobbo, Giacomo

Húngaro:
Jakab, Jákób, Jákó, Jakus

Occitano:
Jacme, Jaume

Polonês:
Jakub, Kuba, Kubuś

Armênio:
Hagop

Russo:
Яков (= Yakov)

Grego:
Ιάκοβος (= Iákovos)

Estoniano:
Jaagup, Jaak

Tcheco:
Jakub, Jakoubek, Kuba, Kubík, Kubas, Kubis

Letão:
Jekabs

Finlandês:
Jaakob

Árabe:
Yakub

Galego:
Xacobe, Xaime, Iago

Lituano:
Jokubas

Georgiano:
Iakobi

Turco:
Yakup

Ucraniano:
Яків (= Yakiv)

Albanês:
Japku, Jakup, Jakub

Napolitano:
Giacumino, Jacuviello, Jacuvo, Cuviello

Milanês:
Giàcum, Giàcumin

Piemontês:
Giàcom, Giàco, Giacolino

Curdo:
Ya’qub, Aqo

Bretão:
Jagu, Jagut, Jak, Jakez, Jakou, Iagu, Jalm

E NÓS?
Se o distinto leitor acredita que, em nossa terra, há pouca gente com esse nome, está enganado. Temos Jacó e Iago, que, é verdade, são pouco usados. Em compensação, estes últimos anos, apareceram muitos Diogos, Diegos e Tiagos. Aqui vai a explicação.

Aportuguesado, o Jacobus romano transformou-se em Jacó ou Iago, nomes muito comuns na Idade Média. O Jacomus romano deu Jaime.

Entre santos e beatos, a Igreja conta com mais de 30 Jacós. O mais importante deles é contemporâneo de Jesus. Em sua honra, uma catedral foi erigida na Espanha, numa cidade que leva o nome de Santiago (de Compostela). Hoje, como na Idade Média, muita gente vem de longe em peregrinação à catedral de lá. Santiago é a contração de Santo + Iago (= São Jacó).

Pra resumir, nossa língua guarda lembrança variada do Iakov bíblico. Temos: Jacó, Jaime, Diogo, Diego, Iago, Santiago e Tiago.

Conheço dois irmãos, um chamado Tiago e o outro, Diego. Ambos fazem parte da grande família dos tataranetos de Jacó. Carregam variantes do mesmo nome.

Publicado originalmente em 16 mar 2013.

República ou republiqueta?

José Horta Manzano

De 24 a 30 de setembro, terão lugar os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, encontro que marca o início dos trabalhos do período 2019-2020. Como manda uma regra não escrita – mas respeitada todos os anos –, o Brasil tem a honra e o privilégio de ser o primeiro na lista de oradores.

Visto que todo país pode se inscrever, a lista de discursantes é longa, com dezenas e dezenas de chefes de Estado, chefes de governo, chefes de delegação. Doutor Bolsonaro vai ser o primeirão. Vai encontrar uma plateia cujos ouvidos ainda guardam o frescor de quem saiu da cama pouco tempo antes. É uma oportunidade e tanto.

Ser o primeiro orador é oportunidade única. Imperdível, como diria o outro. Ele vai falar antes de Trump, antes de Macron, antes de Putin, antes de Xi Jinping. Como é fácil imaginar, o primeiro discurso é ouvido com mais atenção do que o décimo sétimo ou o trigésimo terceiro.

O momento é solene. Neste anos recentes, o discurso do presidente do Brasil tem saído pasteurizado, sem grande relevo, sem força. Ninguém se lembra do que disse Michel Temer, nem do teor das palavras da doutora. Quanto ao Lula, então, sua fala ficou prisioneira da espessa bruma do passado.

Que dirá doutor Bolsonaro? Esperamos todos que ele já chegue com discurso pronto, escrito no papel, com letra bem grande. É a melhor maneira de prevenir que nos envergonhe proferindo torrente de bobagens. Imaginem o que seria se ele soltasse uma daquelas falas proibidas pra menores, daquelas que terminam invariavelmente com um ‘talquei’?

Dizem que ele anda preocupado com a sabatina que o bolsonarinho deve enfrentar no Senado antes de assumir a embaixada de Washington. Receia que o filho leve bomba no exame. (Essa era a expressão que se usava, nos tempos de antigamente, pra dizer que alguém foi reprovado.) Não quer que os dirigentes presentes à assembleia o enxerguem como incapaz de obter maioria no Senado. Considera que seria uma vergonha.

No meu entender, doutor Bolsonaro está equivocado. Nas democracias, descompasso entre o Executivo e o Legislativo é coisa corriqueira. Essas rusgas só são dramáticas em regimes autoritários. Se o parlamento chinês, por exemplo, desautorizasse Xi Jinping, seria o fim do mundo. No nosso tipo de regime, não tem grande importância. O próprio Trump encontra resistência, a toda hora, na Casa de Representantes.

Muito mais grave que desentendimento entre poderes é a própria nomeação do filho. Toda a imprensa mundial terá dado a notícia. O presidente do Brasil subirá ao púlpito no papel caricato daquele personagem de republiqueta de banana que distribui, entre parentes, cargos importantes e bem remunerados.

Não adianta. Se, no momento do discurso, a nomeação do filho já tiver sido confirmada pelo Senado, doutor Bolsonaro não será enxergado como presidente de uma República decente, mas como chefe de clã. Será visto com bigode e chapelão tipo sombrero. Ainda que apareça com a cara habitual.

Qui se ressemble – 2

José Horta Manzano

O Mercosul não foi criado pra ser clube ideológico. A intenção dos fundadores era mais elevada. Visavam a alcançar maior integração comercial entre os membros e, obedecendo ao princípio de que a união faz a força, dar impulso às exportações de todos. Infelizmente, o relacionamento entre os sócios andou constantemente emperrado. Uma crise aqui, uma recessão ali, um deslize acolá – foi como se as rodas da carroça estivessem sempre entravadas.

Na época em que o lulopetismo dominava o país e encontrava eco na Argentina dos Kirchners, no Uruguai de Mujica, na Bolívia de Evo e na Venezuela de Chávez, o Mercosul tornou-se definitivamente um clube ideológico. Chefes de Estado se reuniam de vez em quando para muita foto de família e pouca resolução. O projeto de poder de cada governante tornou-se bem mais importante do que os avanços comerciais do grupo.

Foram-se os lulopetistas, foram-se os Kirchners, foi-se Mujica, foi-se Chávez. (Evo ainda está aí, mas quietinho, parado no ar, na expectativa de saber o que lhe reserva o futuro.) Quando Macri e doutor Bolsonaro anunciaram que o acordo comercial com a União Europeia estava assinado, só faltando ser ratificado, muitos disseram ‘agora vai’. Inclusive este blogueiro.

Que desencanto! A euforia durou pouco. Confirmando o que já diziam as sondagens, o voto popular das ‘primárias’ presidenciais argentinas apontou para a (mais que provável) derrota de Macri, o atual titular. Foi a conta. A turma do Planalto mostrou que o clube está tão ideológico quanto costumava ser. Antes, como todos comungavam os mesmos ideais, a caixa de ressonância do grupo funcionava com harmonia. Agora, que Brasil e Argentina estão na iminência de enxergar o mundo com óculos diferentes, a caixa de ressonância começou a desafinar.

Doutor Paulo Guedes, ministro da Economia, já deixou claro que a dissonância ideológica entre Brasil e Argentina pode significar a dissolução do Mercosul. Veja a que ponto chegamos, distinto leitor: um grupo criado para promover a harmonia, o progresso e o bem-estar entre Estados periga desaparecer por motivo de divergência ideológica entre governos! Será que ninguém se dá conta de que governos são efêmeros, passam, enquanto Estados são permanentes, não se vão?

O provável futuro presidente da Argentina chama-se Alberto Fernández. Na mesma chapa, Cristina Kirchner disputará a vice-presidência. Portanto, se vencerem, señor Fernández será presidente, enquanto señora Kirchner será vice. Passando por cima dessas miudezas, doutor Guedes já inferiu que a Presidência será exercida de facto pela vice-presidente. E não se acanhou de referir-se a ela de forma debochada: «E se a Kirchner quiser fechar (o Mercosul pra acordos externos), a gente sai. E se quiser abrir, então vou dizer: ‘bem-vinda, moça, senta aí’»

Não precisa muito esforço de imaginação pra identificar a pesada marca de família nesse modo desrespeitoso de falar dos outros. Acertou, leitor! É assim que doutor Bolsonaro costuma se exprimir. Você e eu, que não somos figuras públicas, podemos nos permitir esse tipo de linguagem de botequim. Eles, não.

Que fazer? Como dizem os franceses, «qui se ressemble s’assemble – os semelhantes se atraem». Eta, nós! Estamos bem arrumados.

Ignorantões – 2

José Horta Manzano

Nos entornos da Presidência, o festival de ignorância explícita bate um recorde atrás do outro. A última pérola, no momento em que escrevo, foi fabricada ontem por doutor Bolsonaro. Ele anda ofendido pela recusa da Alemanha de continuar botando dinheiro bom num projeto ruim. Trata-se dos milhões de dólares que nos vinham de lá – a fundo perdido! –, para combater o desmatamento na Amazônia. Fartos de assistir às manobras de nosso presidente em favor do desflorestamento, os alemães fecharam a torneira.

Movido pela ousadia que só a profunda ignorância lhe permite, doutor Bolsonaro deitou o verbo em conversa com jornalistas. Mandou recado direto à chanceler alemã Angela Merkel. Despeitado e desrespeitoso, disse que ela deve «pegar a grana» bloqueada e utilizá-la para reflorestar a Alemanha.

Se se informasse primeiro, doutor Bolsonaro evitaria passar ridículo. As florestas alemãs cobrem um terço da superfície do país. São exatos 32%. A marca é espantosa para um país pequeno (357 mil km2, equivalente ao Mato Grosso do Sul) e superpovoado (83 milhões de habitantes). Florestas e bosques não estão concentrados numa só região, como no Brasil, mas espalhados por todo o território. Quem atravessa a Alemanha por Autobahn (= via expressa), fica surpreso de viajar centenas de quilômetros e só ver bosques. A gente chega a se perguntar onde é que eles escondem as cidades. É um país muito verde. E a superfície florestal tem pequeno aumento a cada ano, ao passo que a nossa…

Doutor Bolsonaro está enveredando por um caminho sem volta. No exterior, mais e mais observadores passam a classificar nosso presidente como bufão. Segundo o Houaiss, bufão é “quem faz rir por falar ou comportar-se de modo cômico, ridículo, inoportuno ou indelicado, ou aquele a quem falta seriedade nas relações humanas”. Como o distinto leitor pode constatar, a definição é crua, mas é o retrato cuspido e escarrado do homem. Ele corresponde a todos os detalhes da descrição.

Pior que isso, doutor Bolsonaro vai acabar sendo persona non grata em numerosos países importantes. As portas dos países cujo dinheiro nos interessa – seja porque são grandes importadores de mercadoria brasileira, seja porque investem em nosso país – estarão fechadas para ele. Do jeito que vai, suas viagens internacionais estarão restritas a países governados por populistas. Que não são muitos.

Bolsonaro e minha médica

José Horta Manzano

Fui pra uma visitinha de rotina à médica que faz o que pode pra manter a saúde deste blogueiro à tona. Casada com um suíço, a doutora mora aqui há muitos anos. Mas guardou a vivacidade e o sotaque dos que nascem e crescem pelas bandas do Rio da Prata.

Procurando ser simpático, sempre chego cumprimentando e soltando as primeiras frases em castelhano. Só faço isso no comecinho, que espanhol não é a língua em que me sinto mais à vontade. Só que ontem não foi possível passar logo para o francês. Aqui vai o porquê.

Assim que nos cumprimentamos, evoquei a débâcle da bolsa argentina no dia anterior e deixei escapar um «que desastre ayer en Buenos Aires, doctora!». Ah, foi a conta. Como boa portenha, minha cara ‘doctora’ estava em estado de choque com o que está acontecendo no seu distante país. Soltou o verbo. Me lembro de ter ouvido os termos «hecatombe», «horror», «desgracia», «tragedia» y otras cositas amables.

Por discrição, não perguntei quais eram as preferências políticas dela. Fiquei sem saber se estava satisfeita ou indignada com a derrota de Macri nas prévias presidenciais. Por seu lado, não foi difícil perceber que estava enfurecida com as declarações de doutor Bolsonaro. É compreensível. Ela não está sozinha nessa fúria. Seus 45 milhões de compatriotas hão de compartilhar o mesmo estado de espírito.

Ao esculhambar nossos hermanos, desqualificando e tratando de «esquerdalha» a ampla maioria que votou no candidato Fernández, nosso presidente foi muito mais longe do que toleram as regras básicas de convivência entre nações. Ele não tem direito de se intrometer no resultado de um pleito democrático e limpo organizado no estrangeiro.

Alberto Fernández, vencedor das prévias argentinas, devolve as amabilidades a Bolsonaro tratando-o de racista, misógino e violento. A política da boa vizinhança começa bem.

Se as barbaridades proferidas por doutor Bolsonaro incomodam no plano nacional, fora do país é ainda pior: chocam e horrorizam. Afinal, a fala do presidente é a voz oficial do Brasil! É como se nós todos tivéssemos ofendido os hermanos. Nossos vizinhos devem estar se sentindo hostilizados pelos 200 milhões de brasileiros.

Doutor Bolsonaro se excedeu no derrame verbal. Vaticinou um futuro de miséria para os argentinos e, inspirado em Trump, anunciou que não estamos dispostos a receber hordas de “balseros” – refugiados provenientes do país vizinho. Humilhou um povo inteiro. Dá muita vergonha.

A verdade é que doutor Bolsonaro passará, mas a Argentina será sempre nossa vizinha de parede. Não convém se indispor com quem vive ao lado. Tenho certeza de que os brasileiros decentes estão se sentindo constrangidos.

Não recebi procuração para pedir desculpas em nome do povo brasileiro. Mas fiz questão mostrar à ‘doctora’ minha indignação. Disse-lhe o que penso de nosso presidente. Tenho a impressão de que ela se acalmou.

Compatibilidade

Do site BR18 – Estadão

«O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender suas respostas “sem papas na língua” e recomendou “votar no outro” em 2022 para quem considera seu jeito “incompatível” com o cargo de presidente da República. Bolsonaro respondeu a um jornalista que perguntava se suas falas não acirravam a polarização.

“Você quer que eu seja um vaselina? Um politicamente correto? Um isentão? Não, é resposta direita. Fui eleito assim”, disse, afirmando que respondeu a uma “pergunta idiota” na última semana, quando recomendou para um jornalista “fazer cocô dia sim, dia não” para ajudar o meio ambiente.

“Não é compatível com o presidente? Votem no outro em 2022, é muito simples”, completou.»

Desajeitado no campo da comunicação política, doutor Bolsonaro acaba de dar a partida para a corrida presidencial 2022. Atrapalhado, está incentivando o surgimento de adversários. Mas ele pode estar certo: votarão todos no outro, sim, seja quem for esse outro. (Se não lhe cortarem as asas antes, como aconteceu com doutora Dilma.)

Surdo que não quer ouvir

José Horta Manzano

Assim como o pior cego é aquele que não quer ver, o pior surdo é aquele que não quer ouvir, aquele que só dá ouvidos aos afagos que lhe interessam. Em vez de levar a sério as pesquisas de opinião que mostram o preocupante desgaste de sua popularidade, doutor Bolsonaro prefere dar ouvidos à zoeira que lhe vem de redes sociais atrás das quais tanto podem estar adeptos fanáticos quanto robôs bem programados. Ou os dois.

Como o pior dos surdos, nosso presidente não quer – ou não consegue – captar o rumor surdo que lateja e se avoluma poucos centímetros abaixo de seus pés, quase no ponto de eclodir. Perde apoio diariamente. Cada fala ou gesto desastrado seu resulta na perda de milhares de eleitores.

Se a eleição fosse hoje, doutor Bolsonaro só teria chance de vencer – um tiquinho de chance, frise-se – se o adversário fosse identificado com o lulopetismo. Fora isso, perdia de qualquer um. Marina, Ciro Gomes, Serra, Alckmin, Álvaro Dias, Amoedo ou qualquer outro lhe passaria a perna.

E é bom não esquecer de uma coisa. Se ele continuar a aumentar sua coleção de inimigos ao ritmo atual, vai-se tornar tão impopular que, daqui a três anos e meio, até um lulopetista periga derrotá-lo. Supondo-se que se segure no trono daqui até lá, naturalmente.

Climatocéticos

José Horta Manzano

Você sabia?

A vida anda dura para os que ainda insistem em ser climatocéticos – neologismo pescado no francês, próprio para designar aqueles que não acreditam que o clima esteja mudando. Não adianta ser descrente da realidade quando ela te persegue todo dia.

Alguém imaginaria o plácido Grão-Ducado do Luxemburgo, país de conto de fadas, açoitado por um tornado? Isso é coisa que combina mais com as planícies do meio-oeste americano, entre Kansas e Ohio, lugar de clima rude e impetuoso. Logo no Luxemburgo, gente? Só pode ser brincadeira.

Pois não é. Aconteceu sexta-feira passada, 9 de agosto. A chegada de uma massa de ar frio encontrou um acúmulo de ar anormalmente superaquecido pelo verão saariano deste ano. Pronto, foi a conta. O pacato grão-ducado viveu momentos de pânico, coisa nunca dantes vista por nenhum luxemburguês, nem em pesadelo.

Dezenove feridos e uma centena de casas destruídas foi o balanço do inesperado fenômeno cujos ventos sopraram a 130km/h. Como hoje todos levam máquina fotográfica no bolso, há diversos registros de qualidade caseira. Num apanhado interessante, a televisão belga apresentou alguns deles. Dá pra imaginar o medo que sentiram os que estavam por lá naquela hora.

Saidinha

José Horta Manzano

Todos se lembram daquele sujeito que, em 2008, com a cumplicidade da namorada, atirou a filha de cinco anos pela janela de um sexto andar. A menina morreu. O indivíduo foi preso, julgado e condenado a passar 30 anos à sombra. O caso provocou comoção nacional. O trauma foi tão pesado, que ninguém se esqueceu até hoje. Estivéssemos em outros tempos, o casal teria sido linchado.

Onze anos se passaram. Preso bem comportado tem o privilégio de ser solto por algumas horas ou alguns dias, em ocasiões especiais. Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais, por exemplo. Chegou o Dia dos Pais. O condenado pelo filicídio de 2008 tem-se comportado bem. Portanto, em princípio, tem direito a uma ‘saidinha’.

Doutor Moro, ministro da Justiça, indignou-se com o fato. (Ele não é o único a se sentir revoltado.) Soltou um tuíte amargo em que fustiga a possibilidade de o assassino do próprio pai ou do próprio filho ter direito a tirar férias da prisão justo no dia dedicado ao amor entre genitor e cria. Diz o ministro que a lei tem de ser mudada.

Compreendo o raciocínio legalista de doutor Moro, mas acredito que o Brasil esteja precisando se sacudir um pouco, se desempoeirar, se livrar dessas amarras cartoriais. Anda faltando discernimento. Se a lei faculta a saída de presos em determinadas ocasiões, essa soltura não é automática. Tem de ser autorizada e avalizada pelo juiz encarregado das liberdades. Cabe a ele barrar anomalias como soltar parricidas, matricidas ou filicidas em feriados que festejam a família. Não precisa mudar lei nenhuma.

As leis são entrelaçadas e se acavalam umas sobre as outras. Tome o direito de voto, por exemplo. É concedido a todo cidadão adulto. Mas não é direito absoluto e irrestrito. Se um indivíduo tentar exercê-lo vestindo roupa inadequada – de calção de banho e sem camisa, por exemplo –, poderá ser barrado. Há situações em que uma lei ou um simples regulamento atravanca e bloqueia outra lei.

É o entendimento que deve vigorar no caso que tratamos hoje. Prisioneiro que matou membro da família não deve ser beneficiado com suspensão de pena em data que festeja a família. Não faz sentido. É um acinte ao espírito de nossa sociedade. A lei permite, mas não torna obrigatória a ‘saidinha’. A última palavra será sempre da autoridade que assina o alvará de soltura provisória.

Não há que exigir leis novas a cada tropeço da sociedade. Um pouco de bom senso, nessas horas, facilita as coisas e faz milagres.

Aceita um cálice?

José Horta Manzano

Você sabia?

Se o distinto leitor for amador de vinho, será que já provou um cálice do vigoroso tinto lituano da casta syrah? Ou do suave espumante polonês de casta pinot blanc? Ou talvez do delicioso branco sueco de casta chasselas? Por enquanto ainda é brincadeira, mas peritos em aquecimento global reunidos ontem em congresso(*) afirmam que o mapa da vinha europeia, daqui a 30 anos, será bastante diferente do que conhecemos.

Três décadas pode parecer muito tempo, mas muitos de vocês que hoje leem este escrito ainda estarão neste vale de lágrimas quando a «linha da vinha», que hoje roça o paralelo 50° Norte, tiver se deslocado para perto do paralelo 60° Norte. Falo da linha imaginária que assinala o limite além do qual, por razões climáticas, vinhedo não vinga.

Na França, vão trocar seis por meia dúzia. O sul (Bordeaux principalmente) não dará mais vinho. Em compensação, as planícies de todo o norte se transformarão em território vinícola.

VINHEDOS EUROPEUS
Hoje e daqui a 30 anos

O mais impressionante na previsão dos entendidos – posto que tenham razão – é que boa parte das atuais regiões viníferas da Europa terão desaparecido. Portugal e a Itália serão as maiores vítimas da catástrofe: não darão mais uma gota da preciosa bebida. Adeus, Chianti! Adeus, vinho do Porto! Na Espanha, apenas uma pequena região do norte, hoje fora da linha de produção, dará algumas pipas.

Em compensação, muitos vão trocar campos de cevada, tulipa, trigo e batata por vinhedos. Será o caso de países inteiros como a Alemanha, a Polônia, a Bélgica, a Holanda e os países bálticos. Até o sul da Inglaterra, da Dinamarca e da Suécia se tornarão regiões vinícolas.

Na Suécia, aliás, isso já começa a ser realidade. Campos cobertos de vinhedo já fazem parte da paisagem rural. Por enquanto, o vinho sueco é de caráter experimental e ainda não se compara com o que se produz no sul da Europa. Mas do jeito que vai o aquecimento climático, não será espantoso chegarem a fazer tintos encorpados.

Mr. Trump e doutor Bolsonaro, que têm a arrogância que só a ignorância lhes permite, podem continuar duvidando. De todo modo, daqui a 30 anos, não estarão mais aqui pra conferir. Se estiverem, estarão caducos.

(*) Refiro-me ao congresso do GIEC (Grupo intergovernamental de peritos internacionais sobre o clima), cujos aderentes se reuniram ontem em Lausanne, Suíça.