Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Cinco anos de adiamento

“Frexit”, o Brexit da França
Objetivo do programa da candidata Marine Le Pen

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 abril 2022

Na Europa, desde a derrota do nazi-fascismo, ao final da Segunda Guerra, as ideias da extrema direita foram guardadas em geladeira. Não é que tenham sido erradicadas, longe disso, que a capacidade do ser humano de armazenar baixos instintos é infinita. É que, durante as décadas seguintes, toda alusão a essas ideias trazia lembranças dolorosas a uma população que havia presenciado a guerra e seu cortejo de morte e miséria. Por longos anos, nada que pudesse trazer à memória bombardeios e privações teve lugar à mesa.

O tempo passou e a geração que havia assistido ao desastre provocado por ideias extremistas foi pouco a pouco desaparecendo. No entanto, mesmo com o rareamento de testemunhas oculares, a ressurgência do extremismo de direita continuou tímida: um ameaço de surto aqui, outro acolá, nada mais. Nem a débâcle da União Soviética e o abandono da doutrina comunista foram capazes de sacudir o torpor da direita extrema.

Desde sempre, ideias de retraimento, de fechamento sobre si mesmo, de defesa de uma hipotética pureza étnica, de cerceamento à livre circulação, de hermetismo diante da imigração circularam em surdina. Mas permaneceram subjacentes, como bomba à espera de um detonador. Um dia, sem que ninguém tivesse antecipado, surgiu o estopim. Veio personificado no dirigente do país mais poderoso do planeta. Chamava-se Donald Trump.

Os que votaram por sua reeleição devem julgar que foi bom presidente. Já os 7 milhões de votos de diferença com que Joe Biden o superou amortecem essa percepção. Na política externa, o homem fez estragos. Pirotecnia, como a que pôs em prática com o dirigente da Coreia do Norte, nem sempre é o melhor caminho para resolver problemas internacionais.

O pior legado de Trump foi sem dúvida sua adesão explícita à doutrina do fechamento sobre si mesmo, escancarada pela tentativa de construção de um muro de contenção na fronteira por onde entram os indesejados. Sua desenvoltura desinibiu movimentos subterrâneos ao redor do mundo, que criaram coragem para se expor à luz do meio-dia.

Dirigentes de figurino abertamente reacionário – como o italiano Salvini, o húngaro Orbán, o esloveno Jansa e o próprio Bolsonaro – não teriam se sentido tão à vontade para subir ao palco se Trump não lhes houvesse antes carpido o terreno. A expressão é batida, mas continua verdadeira: Trump abriu a caixa de Pandora. Os males lá trancafiados despertaram de um torpor de sete décadas.

Comparado com o de outros países da Europa, o sistema político francês é sui generis. Por um lado, o presidente da República, eleito pelo sufrágio popular direto, detém poder muito grande, herdeiro que é de um rei guilhotinado há dois séculos. Por outro lado, o voto distrital puro aliado a um bipartidarismo de facto tendem a dar ao presidente maioria no Parlamento, tornando-o (quase) tão poderoso como os reis do passado.

A campanha eleitoral francesa foi acompanhada com lupa pela União Europeia. De fato, caso a vitória fosse favorável à extrema direita de Marine Le Pen, a Europa, como a conhecemos, deixaria de existir. Embora a candidata extremista tenha suavizado o discurso e arredondado os ângulos de seu programa, mantinha a firme intenção de retirar seu país da Otan e da Europa. Mais que isso, tencionava pôr fim à livre circulação das gentes, restabelecer os controles nas fronteiras, abandonar o euro, ressuscitar o finado franco francês. E, para coroar, aproximar a França da Rússia e firmar pacto militar com Putin.

Se a União Europeia resistiu ao Brexit, não resistiria à saída da França – membro fundador, o maior em superfície, o segundo em economia, o único detentor de armamento nuclear. Para Vladímir Putin, uma vitória de Madame Le Pen seria notícia estupenda. Seria prenúncio do enfraquecimento e talvez do desmonte da União Europeia, sonho acalentado por Moscou. Seria um revés para Otan, organização que é pedra no sapato de Putin. Por fim, seria um sinal verde para candidatos a autocrata ao redor do globo, um dos quais aliás ocupa atualmente o Palácio do Planalto.

Desta vez, passou. Mas foi por pouco. O mundo democrático ganhou cinco anos de adiamento, a duração do novo mandato de Macron. Em 2027 voltamos a conversar. Se, daqui até lá, um conflito nuclear não tiver extinguido a humanidade.

Savoir-vivre

José Horta Manzano

Savoir-vivre é expressão que a língua francesa criou 600 anos atrás e exportou para o mundo todo. “Savoir” é saber; “vivre” é viver. Em teoria e ao pé da letra, a tradução seria “saber viver”. Na prática, é um pouco mais que isso.

Em busca de boa definição, consultei diversos dicionários, tanto franceses quanto brasileiros. A formulação proposta pelo Houaiss, embora simples, me pareceu adequada.


Savoir-vivre é o conhecimento e prática dos usos e costumes da vida social.


Sem códigos e regras de comportamento, a vida em sociedade não seria viável. Quando alguém pergunta: “Olá, tudo bem?”, não está realmente interessado em saber se o interlocutor está bem ou não. Está apenas usando um código de polidez. Poderia, em vez disso, dizer somente: “Ô, você aí!”, mas o efeito não seria o mesmo. Seria um começo de conversa torto.

O savoir-vivre designa o conhecimento – e uso – dos códigos que permitem uma convivência civilizada e sem conflitos. O savoir-vivre de um indivíduo mede o domínio que ele tem (ou não) desses códigos e dessas regras de civilidade.

O contraexemplo foi dado menos de 6 meses atrás pelo presidente da República do Brasil. Ainda está na memória de todos a escancarada falta de civilidade demonstrada por nosso capitão quando Joe Biden venceu as eleições para a Presidência dos EUA.

Decepcionado pela derrota de Trump, seu ídolo, Bolsonaro levou 38 dias para reconhecer a vitória de Biden e 73 dias para dar-lhe os parabéns. Tamanha demonstração de falta de savoir-vivre, convenhamos, não é comum. Não se deve esquecer que o chefe de Estado é o porta-voz de facto da população inteira. Suas incivilidades nos envergonham. No caso da eleição americana, foi como se todos os brasileiros tivessem posto em dúvida a lisura do sistema deles. Uma enormidade.

Faz dois dias, Emmanuel Macron venceu as eleições e foi reeleito para mais cinco anos na Presidência da França. Desta vez, nosso capitão foi menos lento. É verdade que não correu para o Tweeter para mandar suas congratulações, permitindo que outros dirigentes lhe passassem à frente.

Vinte e quatro horas depois da reeleição, o governo brasileiro emitiu comunicado. O texto é bastante banal, limitando-se a reafirmar a “disposição de trabalhar pelo aprofundamento dos laços históricos que unem os dois países”. É uma das versões daquele conhecido discurso que, com pequenas adaptações, serve para todas as ocasiões.

Curiosamente, das dezenas de mensagens de congratulações que consultei, a mais calorosa veio de Moscou.

Antes de ler a mensagem, é bom ter em mente que um dos argumentos mais fortes de Macron durante a campanha eleitoral foi a acusação feita a Marine Le Pen de que “Putin é o seu banqueiro!”. Macron disse isso referindo-se ao fato de a campanha de Madame ter sido financiada por um empréstimo concedido por um banco russo cujo dono é amigão de Putin.

Essa promiscuidade pegou mal. Uma presidente da França que deve favores a Putin? Impensável. Ao tomar conhecimento disso, muitos eleitores desistiram de votar nela.

No entanto, na hora de cumprimentar Macron pela vitória, Vladímir Putin mostrou saber que, apesar dos pesares, certas regras de savoir-vivre devem ser respeitadas. Sua mensagem chegou rápido. Vinha na primeira pessoa e dizia: “Eu espero sinceramente que o senhor tenha sucesso em sua ação pública, assim como boa saúde.”

Moral da história
Uns matam bombardeando um povo irmão, outros preferem matar sonegando vacina para o próprio povo. São farinha do mesmo saco. A única diferença parece estar no nível de savoir-vivre de cada um.

No cavalo certo

José Horta Manzano

Em 2019, as eleições presidenciais argentinas estavam sendo preparadas. Todos já sabiam que o presidente Mauricio Macri, candidato à própria sucessão, não tinha chance. Bolsonaro passou por cima das evidências. Foi até lá, trocou beijos e abraços com o dirigente argentino e ainda ousou criticar o adversário. Deu no que deu: o adversário ganhou – o que todos já sabiam que ia acontecer, menos o capitão. As relações Brasil x Argentina se complicaram.

Em 2020, foi a vez das presidenciais americanas. Os prognósticos se apresentavam apertados. Nem a vitória de Trump, nem a de Biden estava garantida. Bolsonaro passou por cima da reserva a que todo chefe de Estado inteligente se obriga nessas horas. Com palavras e atos, foi ostensivo ao sustentar Donald Trump. Encerrada a contagem dos votos, constatou-se que o presidente não havia sido reeleito. Inconformado, Bolsonaro negou a realidade quanto pôde, e foi um dos últimos dirigentes mundiais a reconhecer que tinha perdido a aposta. As relações Brasil x EUA se complicaram.

Em 2021, chegou a hora das eleições chilenas. As pesquisas hesitavam em apontar claramente o vencedor. Em situações assim, a prudência ensina que chefes de Estado estrangeiros devem evitar demonstrar claramente sua preferência por este ou por aquele. Nunca se sabe. Mas Bolsonaro não reza por essa cartilha. Pra piorar, não deve ter assessores qualificados. De novo, apostou no cavalo errado. Botou todas as fichas em cima de Señor Kast, candidato da extrema direita. Ganhou Señor Borić, um jovem esquerdista. As relações Brasil x Chile se complicaram.

Neste mês de abril de 2022, é a França que está em pleno processo eleitoral. O mandato do presidente Macron se encerra dentro de poucas semanas. Pela lógica, nosso capitão já teria se jogado nos braços de Marine Le Pen, candidata da direita extrema. Mas tem um porém.

Um dia, em nossa eleição de 2018, quando Bolsonaro já tinha passado para o segundo turno, Madame deu uma entrevista à televisão francesa. Entre um assunto e outro, o apresentador mencionou o nome de Bolsonaro, naquele momento candidato à Presidência do Brasil, e o classificou como “de extrema direita”. Em seguida, perguntou à política francesa o que ela achava do brasileiro. Madame declarou que “não é só porque alguém costuma dizer coisas desagradáveis que se deve logo colar-lhe uma etiqueta de extrema direita”. Ficou claro que ela repelia o capitão. É certamente baseado nessa declaração que ele se absteve de tomar partido na atual disputa francesa, que voltou a alçar Madame Le Pen ao segundo turno.

Quanto ao Lula, mostrou mais uma vez que, mesmo sendo fraquinho em geopolítica, de bobo não tem nada. No primeiro turno, apoiou Monsieur Mélenchon, velho militante da esquerda radical, que completa 71 anos este ano. Pois não é que o homem quase passou para o segundo turno? Com 22% dos votos, faltou um nadinha pra ultrapassar Madame Le Pen, que obteve 23,4%.

Ao apoiar Mélenchon, o Lula estava também retribuindo a visita que o político francês lhe fez quando mofava no cárcere úmido de Curitiba. O destino não quis que o companheiro francês passasse ao segundo turno. No discurso pronunciado assim que foram conhecidos os nomes dos finalistas, Mélenchon dirigiu-se a seus eleitores e, alto e bom som, deu-lhes a recomendação para o segundo turno: “Nenhum voto para a extrema-direita!”. Para deixar bem claro, pronunciou quatro vezes a mesma frase.

Mélenchon recomendou a seus eleitores que não votassem na extrema direita, mas não teve peito pra pedir voto para Macron. Deve ter achado que era demais. Assim sendo, deixou seus apoiadores livres para se absterem, votarem em branco, anularem o voto ou eventualmente votarem em Macron. Em resumo, fez o serviço pela metade.

O Lula, que está ciente de ter boas chances de vencer a eleição brasileira, foi mais realista. Já que o companheiro Mélenchon ficou pelo caminho, lançou uma série de tuítes conclamando a derrotar a extrema direita francesa. Foi ainda mais longe que o militante francês. Deu serviço completo. Acrescentou que votar em Emmanuel Macron é fundamental porque ele “encarna melhor os valores democráticos e humanistas”.

Lula está agindo com esperteza. Em primeiro lugar, está se valendo da antipatia que Bolsonaro espalhou pelo mundo, especialmente na França. Portanto, ao apoiar o provável vencedor das presidenciais, ganha pontos. Em segundo lugar, Lula sabe que tem boas chances de ser o próximo presidente do Brasil. Um Macron reeleito e que foi apoiado pelo demiurgo estará pronto a abrir os braços para um Lula eleito e que o apoiou.

Quando insultou Brigitte Macron e quando se indispôs com meio mundo, o empacado Bolsonaro não pensou no dia seguinte. O Lula já está pensando no futuro que terá início com sua (provável) volta ao Planalto.

Entre Bolsonaro e Lula, há muitos pontos convergentes e alguns divergentes. Ambos amparam a corrupção, adoram acertos e conchavos, dirigem o país de olho no retrovisor. Uma das poucas diferenças é que o Lula pensa.

Madame e os frangos do Brasil

José Horta Manzano

Como lembrei anteontem, estamos entre os dois turnos das eleições presidenciais francesas. Ontem realizou-se o grande debate, o único organizado entre os dois finalistas. Foram duas horas e meia de perguntas, respostas, explicações, afirmações, aproximações, esgueiradas, maldades, dardos envenenados, sorrisos desajeitados.

Cada um dos candidatos – o atual presidente, Emmanuel Macron e a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen – deu o que tinha pra dar, fez o que sabe fazer e representou o papel que costuma representar. Foi sem surpresa. O medidor de audiência marcou 15,6 milhões de telespectadores, aos quais convém acrescentar os que, em algum momento, deram uma espiada nas redes sociais, que também transmitiam ao vivo.

Pra se ter uma ideia de quanto tem baixado o interesse público por esse tipo de confrontação, é bom saber que o primeiro debate, travado em 1974 entre Mitterrand e Giscard d’Estaing, tinha reunido 30 milhões de telespectadores – o dobro da audiência de ontem.

Mas o diálogo entre os adversários, às vezes polido, às vezes ácido, sempre traz algum momento interessante. Uma passagem impagável surgiu quando Madame Le Pen criticava o funcionamento da União Europeia, cavalo de batalha que ela costuma montar com frequência. Adepta do fechamento de seu país para o mundo, ela deprecia a Europa dia sim, outro também.

Madame Le Pen (de estreita visão nacionalista-passadista) acusou Monsieur Macron (europeísta convicto) de ter intenção de “substituir o povo francês pelo povo europeu”. E continuou argumentando que há “uma série de políticas da UE com as quais não estou de acordo”. Citou “a multiplicação de acordos de livre-comércio que servem para vender carros alemães e castigam os agricultores franceses com a concorrência de frangos do Brasil ou bovinos do Canadá”.

Nesse ponto, Monsieur Macron percebeu que Madame – por ignorância ou má-fé – misturava alhos com bugalhos. Perguntou: “Que frango do Brasil?”. E lembrou à distraída adversária que ele tinha se oposto ao acordo da UE com o Mercosul, porque “quando impomos certas exigências aos agricultores nacionais, exigimos o mesmo dos de fora”. Diante do silêncio embaraçado da adversária, acusou Madame Le Pen de “tentar vender gato por lebre”.

É verdade que, enquanto Macron é dotado de uma inteligência superior à média, sua adversária se limita à esperteza dos populistas: diz o que a audiência quer ouvir. Mas uma coisa é falar num cercadinho qualquer para público cativo, e outra é argumentar diante de um homem que está há cinco anos lidando diariamente com esses temas. Não tem como.

Observação
A história dos “frangos do Brasil”, que Madame pôs à mesa, rendeu pano pra mangas e fez a alegria das redes sociais. Nos momentos seguintes, houve milhares de comentários, menções, tuítes, retuítes, likes & alia. A maioria dos comentaristas dizia não saber do que ela estava falando.

Le grand débat

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira, os dois finalistas da eleição presidencial francesa se enfrentam no único debate televisivo a ser travado antes do segundo turno. Na França, o espaço entre o primeiro e o segundo turnos é de apenas 2 semanas. A votação final é domingo que vem.

Antes do primeiro turno, há alguns debates. No entanto, a grande quantidade de candidatos (12 ao total) transforma o ambiente em verdadeiro mercado persa. Todos falam e ninguém se entende. Aliás, o presidente Macron não quis participar de nenhum desses combates engalfinhados.

O debate organizado entre os dois turnos, unicamente com os dois finalistas, é um momento intenso na vida política do país. Entre 15 milhões e 20 milhões de eleitores devem escrutar com grande atenção o face a face entre o presidente Emmanuel Macron, candidato à reeleição, e Marine Le Pen, sua adversária de extrema-direita. Ninguém quer perder nem uma palavra.

O formato
O espetáculo tem duração de 150 minutos (2 horas e meia). A moderação é feita por dois apresentadores, um de cada um dos dois canais mais importantes do país. Até os dois campos chegarem a um consenso, diversos apresentadores foram descartados.

Os acertos prévios são negociados entre as equipes dos dois candidatos. Tudo é milimetrado e cada detalhe tem de ser aprovado pelas duas partes. Cada candidato vem com uma equipe de uma dúzia de pessoas. A quantidade de câmeras e o ângulo delas é discutido.

As duas equipes concordaram em regular a temperatura do estúdio em 19°C. A ordem dos temas é sorteada. É também a sorte que decide quem será o primeiro a falar. Cada equipe leva seu profissional experiente em direção de tevê, com a função de se instalar atrás do vidro e supervisionar as tomadas de cena. Nada é deixado ao acaso.

Não está provado que o debate defina o vencedor da eleição, mas, em anos como este, em que as sondagens preveem resultado apertado, todo cuidado é pouco. Um escorregão, um deslize, uma frase mal colocada, um gesto agressivo, um gaguejo, uma verdade aproximativa, uma gravata mal posicionada, uma maquiagem exagerada ou insuficiente podem ser fatais. O resultado das urnas será conhecido domingo às 20 horas em ponto.

Anti-europeísmo
Como muitos outros observadores, este blogueiro acredita que uma vitória de Madame Le Pen seria catastrófica para a Europa e, de tabela, para o resto do mundo. O nacionalismo da candidata é do tempo do Onça, cada país no seu canto, todos desconfiando de todos, todos com medo de todos. Seu anti-europeísmo é tão visceral que, se ela tomasse as rédeas da França, a Europa deixaria de existir tal como a conhecemos. Se isso acontecesse, os frágeis equilíbrios geopolíticos atuais estariam a perigo.

Não se sabe se essa senhora realmente acredita no que diz ou se procura apenas seduzir, com seu discurso populista, o maior número possível de descontentes. O fato é que ela defende valores anacrônicos, passadistas. Seu sonho final é ver a França fora da União Europeia. Ela não diz isso com todas as letras, mas as medidas que pretende tomar, se eleita, levam a esse desfecho.

Quer que a França abandone a moeda comum, o euro, e volte ao finado franco francês, uma absurdidade. Quer entravar a livre circulação dos cidadãos, uma conquista que levou décadas pra ser alcançada. Gostaria de ressuscitar fronteiras, cercar, murar, fechar, barrar, instalar postos alfandegários em torno do país. Outro de seus sonhos é implementar políticas de expulsão de estrangeiros. É bom lembrar que uma Europa sem a França vai ter dificuldade em seguir adiante, daí o abalo que o continente sentiria.

Putin sim, Bolsonaro não!
Madame é admiradora de Vladímir Putin. No passado, chegou a declarar que gostaria de ver a França fora da Otan, e aliada militarmente à Rússia – declaração que pega muito mal atualmente. É aliada do líder populista húngaro Viktor Orbán.

De Bolsonaro, porém, não quer ouvir falar; já declarou isso quando o capitão era ainda candidato à Presidência. Entrevistada naquela ocasião, Madame teve um raro momento de lucidez e desvencilhou-se da imagem de Bolsonaro. Quando lhe disseram que o então candidato à Presidência do Brasil era do mesmo campo político que ela, respondeu que não faz sentido etiquetar “de extrema direita” qualquer político que disser “coisas desagradáveis”.

Como se vê, a tradicional extrema direita não considera que o capitão faça parte de seu time. Já entenderam, lá atrás, que o homem é apenas rasteiro, oportunista, mal-educado e mal-intencionado. Muitas vezes quem está fora tem visão mais clara do que quem está dentro. Pra você ver.

São Benedito (Saint Benoît, em francês) é santo forte e não há de faltar. Nem a eles, nem a nós.

Escárnio

José Horta Manzano

CNews é um dos braços de um conglomerado francês de mídia fortemente orientado politicamente à extrema-direita. Volta e meia, seu canal de tevê de informação contínua é processado por parcialidade e tendenciosidade. É o equivalente francês do grupo americano Fox News, o favorito de Trump e dos ultradireitistas americanos.

Monsieur Eric Zemmour, atualmente candidato às eleições presidenciais francesas do mês que vem, foi comentarista desse canal por muitos anos. Abandonou as funções poucas semanas atrás para poder se candidatar. Zemmour promete que, se for eleito, expulsará todos os estrangeiros (a começar pelos árabes de confissão maometana), tirará a França da União Europeia e passará cadeado nas fronteiras. Se pudesse, recuperaria até as antigas colônias.

É importante notar que foi justamente esse canal que publicou a manchete que reproduzo acima. Em princípio, Bolsonaro – assim como Trump, Orbán, Putin e outros da mesma laia – formam um seleto grupo de “líderes” admirados por CNews.

Se os redatores do grupo se escandalizaram com a notícia vinda de Brasília, é sinal de que a indignação com a desfaçatez do capitão é considerada excessiva até para os padrões dos ultras da direita francesa. Percebe-se que até os da extrema-direita estão começando a se dar conta de que Bolsonaro se comporta como pária.

O título diz:
Indignações depois de Jair Bolsonaro ter mandado que lhe concedessem uma medalha do ‘mérito indigenista’. (as aspas estão no original)

E o subtítulo continua:
Durante seu mandato, Jair Bolsonaro tem sido muito criticado por sua ação contra o desmatamento e a espoliação das terras indígenas.

O restante do texto segue na mesma linha.

O escárnio bolsonárico é tão asqueroso, que escandaliza até a mídia vinculada à extrema-direita. Em resumo, qualquer vivente medianamente informado, seja de esquerda, seja de direita, não consegue deixar de se indignar com a insolência do chucro que ora ocupa a Presidência.

Passaporte vacinal falso

José Horta Manzano

Em resposta ao questionamento de parlamentares, Monsieur Olivier Véran, ministro da Saúde da França, revelou hoje que 1 em cada 20 pacientes internados por covid era portador de passaporte vacinal falso.

Lembrou que os titulares de um passaporte vacinal falso se expõem ao risco de serem condenados a até 5 anos de cadeia, além de serem “premiados” com multa de 75 mil euros (480 mil reais).

Os hospitalizados, se escaparem da infecção, não escaparão da justiça. Assim que estiverem recuperados, terão de responder ao processo.

Moral da história
Declarações falsas não protegem contra a epidemia e ainda podem custar (muito) caro. Fazendo bem as contas, não vale a pena trapacear.

Amigo da onça

José Horta Manzano

Nos anos 1940, não havia internet nem televisão. Nos jornais, tudo era impresso em preto e branco, até as fotos. Para desfrutar imagens que não fossem as da vida real, só indo ao cinema ou comprando uma revista. As décadas de 1940 e 1950 marcaram o período áureo da telona e das revistas semanais.

A revista O Cruzeiro, publicada desde os anos 1920, era a mais importante. Toda semana, estava nas bancas um novo número com variedades, análise dos fatos do momento, seções assinadas por escritores de peso como Rachel de Queiroz.

E havia a tradicional página com um quadrinho (um quadrão, na verdade) do Amigo da Onça, personagem criado pelo desenhista pernambucano Péricles Maranhão (1924-1961). Figurinha um tanto sádica, o Amigo da Onça trajava sempre um impecável dinner jacket branco e azedava a vida de todos. Adorava pôr os outros em situação difícil – em saia justa, como se diz.

Não sei se é implicância minha, mas desde a primeira vez que vi Monsieur Zemmour, atual candidato da extrema-direita à Presidência da França, achei que ele se parecia com o Amigo da Onça. Não falo de semelhança de caráter (ainda que…), falo de parecença física. Dê uma olhada na ilustração que botei lá na entrada.

Ontem foi o primeiro grande comício do candidato, com vistas às eleições presidenciais de abril próximo. Desenrolou-se num miniestádio coberto, nas cercanias de Paris. Calcula-se que umas 15 mil pessoas tenham estado presentes. A gente se pergunta como é que é possível alguém sair de casa e viajar quilômetros para assistir ao discurso de um Zemmour. Enfim, cada cabeça, uma sentença.

O comício foi perturbado por diversos acontecimentos violentos. Os repórteres e cinegrafistas de um canal de tevê que costuma mostrar antipatia pelo candidato foram ameaçados por militantes e tiveram de ser evacuados pelos seguranças. O mesmo destino coube aos jornalistas de Mediapart, um jornal de esquerda. Francamente, os da extrema-direita não apreciam a imprensa. Dependesse deles, todos os jornais podiam fechar – com exceção dos que só publicam reportagens elogiosas.

Quando se encaminhava ao palco para discursar, Monsieur Zemmour foi agarrado pelo pescoço por um jovem desconhecido e, na confusão, acabou torcendo o pulso. O rapaz foi detido para averiguações e o candidato encontrou um médico camarada que lhe prescreveu 9 dias de licença médica.

Digo que o médico foi camarada porque, apesar de estar de licença médica por quase dez dias, o candidato não parecia estar sofrendo durante o discurso. Frise-se que, na França, toda agressão que acarretar mais de 8 dias de licença médica é considerada delito grave, com pena de até 3 anos de prisão mais 45 mil euros de multa. Nesta segunda-feira, o agressor continuava sendo interrogado nas dependências da delegacia. Ele alegou ser fã de Zemmour, mas os investigadores não parecem estar convencidos.

Um pouco mais tarde, um grupo de militantes de uma ONG de combate ao racismo, chamada SOS Racisme, foi reconhecido por devotos mais exaltados. Os integrantes do grupo foram então agredidos fisicamente, sangue correu, gritaria subiu, e a explicação terminou na rua, longe do recinto.

Resumo da ópera: gente gritou, o povo correu, cadeiras voaram. Hoje em dia, todos filmam tudo; as imagens falam mais que mil palavras. Ao final da festa, 62 pessoas tinham sido detidas para averiguações.

Acredito (e espero) que o eleitorado francês não desça ao ponto de eleger essa figura para a Presidência da pátria dos direitos humanos. Seria o cúmulo. Mas isso mostra que os simpatizantes da direita extrema não são gente tranquila, disposta a dialogar nem a debater.

A invasão do Capitólio de Washington, os buscapés atirados contra o STF em Brasília, as cadeiras voando em Paris são faces de um mesmo poliedro. Os devotos não são muitos (felizmente!), mas são barulhentos. Todo cuidado tem de ser tomado para não acreditar que sejam majoritários. Não são.

Pesquisa demais faz mal?

José Horta Manzano


“Para quê consultar os cidadãos, se é tão mais simples aguardar as pesquisas? Por que quebrar a cabeça bolando um programa político, se, em troca de pequeno investimento, as pesquisas vão lhe dizer o que a população espera? Por que se aborrecer com debates entre militantes e primárias para designar um candidato, se as pesquisas podem se encarregar disso?”


É com essas palavras que o jornalista François-Xavier Lefranc, redator-chefe do Ouest France (3° maior quotidiano francês), abriu o editorial do jornal faz alguns dias. É que, exatamente como ocorre entre nós, o país de Monsieur Lefranc anda “viciado” em pesquisas na área política.

Imagino que seja fenômeno mundial. Não sei se é impressão minha, mas, no lugar do velho Ibope, que era um e único, temos hoje numerosos institutos de pesquisa. Alguns já se tornaram referência, como o Datafolha ou o Ipsos, mas outros aparecem sem que a gente saiba de onde saíram. Todos analisam uma eleição 11 meses antes do dia de votar. Já estão todos no segundo turno, num momento em que o eleitorado sequer sabe quem serão os candidatos.

Nas eleições, a população está cada vez mais acostumada a conhecer o resultado antes mesmo de ir votar. Pesquisadores lembram sempre que seu trabalho apenas reflete uma imagem do momento, com margem de erro e todas as precauções de hábito. Mas não adianta: o eleitor vê o resultado da pesquisa como se fosse cash, dinheiro na mão. E sabemos que dinheiro na mão é vendaval.

O editorialista francês acredita que, em vez de esclarecer o eleitorado, as pesquisas ultrafrequentes tendem a confundir. Na melhor das hipóteses, têm efeito nulo, não interferindo no voto de eleitores cujo propósito é firme e inabalável. Na hipótese mais tóxica, tendem a distorcer o pensamento dos hesitantes e dos indecisos, e a incitá-los a votar no candidato A em vez do candidato B pelo simples fato de aparecer melhor nas pesquisas. O chamado “voto útil“, aquele que se dá a um para evitar a vitória de outro, entra nessa categoria. Se não fossem as pesquisas, essa modalidade distorcida de voto praticamente desapareceria.

Por meu lado, acredito que, as pesquisas contribuíram fortemente para a eleição do capitão. Foi efeito bola de neve. Cada nova pesquisa que mostrasse um avanço de seu nome era seguida de novas adesões, o que acabava fazendo o candidato subir nas pesquisas. Foi essa espiral ascendente que o elegeu e não uma base ideológica – que era minúscula e assim continua até hoje.

Fechando o editorial, o Ouest France informa aos leitores sua nova (e drástica) política para as eleições presidenciais francesas, marcadas para daqui a 6 meses: diferentemente de como costumavam proceder no passado, nenhuma pesquisa será encomendada pelo jornal desta vez.

Confesso que a atitude tem seus atrativos. A população tem, sim, o direito de ser informada. Mas até que ponto a informação “do que poderia ser” – entendida como “o que certamente vai ser” – não atrapalha mais do que ajuda? Propaganda, debates, discussões, mesas redondas, análises, sim. Mas números, às vezes até com decimais(!), podem representar aquele excesso de democracia que resulta em desserviço a ela.

A arte de redigir nota de falecimento

José Horta Manzano

Com o falecimento de Nélson Freire, ocorrido semana passada, o Brasil perdeu seu mais importante intérprete de música erudita, o único conhecido e reconhecido universalmente. Muitos anos hão de se passar até que outro filho desta terra entre no rol dos maiores do mundo.

Em horas assim, quando falece um grande nome da música nacional, é praxe haver manifestação imediata da Secretaria da Cultura, da Presidência da República e do Ministério das Relações Exteriores.

Como já mencionei alguns dias atrás, doutor Frias, secretário nacional de Cultura não deu um pio. Por certo, nunca tinha ouvido falar de um dos maiores pianistas do mundo. Mais inquietante ainda é ver que falta, no staff, um encarregado de seguir o que acontece fora da bolha em que todos eles vivem.

O presidente Bolsonaro, grosseiro como de costume, nem falou nem disse nada. Silêncio absoluto. Não sabia, não sabe e nunca saberá quem foi Nélson Freire. Talvez achasse que, como todo artista, “esse daí” também era comunista. Vai ver até que votou no PT. “Pô.”

O Itamaraty, que ainda guarda algum resquício do que costumava ser a diplomacia brasileira, manifestou-se. Soltou um comunicado formal, protocolar, que não chega a 1000 toques, com 155 palavras. Descrever em 155 palavras a carreira de um artista maior é complicado. Não dá.

Apesar da exiguidade do comunicado, o Itamaraty ainda encontrou jeito de encaixar a seguinte frase: “Muitas de suas apresentações internacionais contaram com apoio do Itamaraty”. Jogar flores em si mesmo pode cair bem em outras ocasiões; em nota de falecimento, pega mal pra caramba. Além de prepotente, é o cúmulo da deselegância. Nélson Freire não dependou do “apoio” do Itamaraty para correr mundo e firmar seu renome em 70 anos de carreira.

No dia seguinte ao do anúncio da morte do artista, o Palácio do Eliseu soltou nota de falecimento, assinada pelo presidente Emmanuel Macron. Como todos sabem, o palácio presidencial francês não é agência funerária. Comunicados da Presidência francesa são poucos, caem a conta-gotas.

A nota de falecimento francesa traz uma minibiografia do homenageado, com 437 palavras espalhadas por 2800 toques (quase três vezes a extensão do bilhetinho do Itamaraty). Vê-se que foi escrita por quem é do ramo. Dá um apanhado preciso da obra do artista, cita sua discografia, relembra seus compositores favoritos, menciona as peculiaridades de seu toque e da sonoridade que conseguia extrair do instrumento.

Não esquece a velha amizade que unia o brasileiro a Martha Argerich, considerada a maior pianista viva. E termina declarando: “o presidente da República e esposa saúdam o excepcional intérprete de Debussy, que nos brindou frequentemente com sua presença, e dirigem suas condolências sinceras aos que lhe eram próximos, assim como a todos os que se emocionavam com a poesia de seu toque”.

Se Bolsonaro, logo no início do mandato, não tivesse insultado a primeira-dama francesa, até que podia mandar um ou dois emissários para um estágio no Eliseu, a fim de serem iniciados nas artes de redigir um elogio fúnebre digno de país civilizado.

O encargo fica para o sucessor do capitão.

Para saber mais:

O original da nota do Itamaraty

O original da nota do Palácio do Eliseu

O polemista francês

Eric Zemmour

José Horta Manzano

Monsieur Eric Zemmour é um francês pra lá de especial. Apesar da aparência física pouco graciosa, faz anos que surge aqui e ali, nalgum programa televisivo, sempre com a mesma obsessão. Para ele, os imigrantes são a causa de todos os males da França.

Mas, atenção! Quando fala em imigrantes, leia-se: os árabes originários da Argélia, da Tunísia e do Marrocos, antigas colônias e/ou protetorados franceses). Estrangeiros provindos da Alemanha, da Espanha, da Lituânia ou da Quirguízia não entram na mira do polemista.

Polemista – é essa a palavra. Se são figuras um tanto raras no Brasil, os polemistas existem aos montes na França. Não sei se a origem desse fenômeno é a própria lingua, que se presta a debates metafísicos. Talvez seja simplesmente a tradição, a educação que cada um recebe. Os jovens já entram na adolescência ensaiando os primeiros passos no mundo da polêmica.

Discute-se por um sim ou por um não. Cada um faz questão de dar sua opinião. Atenção: as discussões são animadas, mas a agressividade costuma limitar-se às palavras, sem consequências físicas.

Monsieur Zemmour, jornalista e escritor, fez da troca de ideias sua marca de fábrica. Seja qual for o tema da conversa, não tem jeito: ele sempre acaba acusando seus “imigrantes” de todos os males. É o que alguns chamam de monomania, um defeito que incomoda.

Ele tem dado sinais de que será candidato à Presidência do país, nas eleições de abril do ano que vem. Por enquanto, não confirma, deixa que as especulações borbulhem. Mas é bem provável que, qualquer hora, se declare candidato oficial.

Entrevistado pela Folha de São Paulo(*), mandou respostas por escrito. Naturalmente, foi instado a dizer o que pensa de Bolsonaro, Trump, Marine Le Pen, Macron – uma armadilha atrás da outra. Não deixou nenhuma pergunta sem resposta. No entanto, escorreguento feito peixe ensaboado, limitou-se ao politicamente correto, sem jamais se comprometer.

Segundo Zemmour, o Brasil é exemplo de multiculturalismo que deu certo. Ele parece achar que o simples fato de todos falarem a mesma língua é fator suficiente para atestar que a noção de bem comum está arraigada na alma do brasileiro.

Se vê que o Monsieur não conhece bem nosso país. Os brasileiros têm uma baciada de qualidades, mas a noção de bem comum não está entre elas. E faz uma falta danada. A noção de bem comum anda de mãos dadas com o sentimento de pertencimento, o grande ausente da alma nacional.

Pertencimento não se resume a enrolar-se na bandeira e cantar o Hino. Vai bem mais longe que isso. Começa no respeito ao vilarejo (ou à cidade, ou à metrópole) onde se vive. Continua no comportamento civilizado, em que cada cidadão respeita o próximo e paga seu “dízimo” – sob forma de imposto –, como contribuição para o funcionamento da sociedade.

Estamos a anos-luz da noção de bem comum mencionada pelo polemista francês. No fundo, o país dele, apesar dos mal-amados “imigrantes”, está bem mais próximo da meta do que nós.

(*) Se alguém estiver interessado em ler a longa entrevista concedida por Monsieur Zemmour à Folha, faça-me saber por email.

Quem inventou a baguete?

José Horta Manzano

Você sabia?

Aquele pão comprido, crocante e de pouco miolo, que os franceses chamam “baguette” (baguete), está tão ligado ao patrimônio cultural da França, que a gente imagina que deva ser tradição antiga, velha de muitos séculos. Engano. A baguete é criação relativamente recente. As primeiras foram assadas faz 100 anos.

A baguete nasceu com o inchaço das cidades, que se verificou a partir do fim do século 19. A multiplicação das indústrias, geralmente localizadas na periferia das cidades maiores, fez surgir uma nova casta de cidadãos enriquecidos: os donos das fábricas.

Essa classe de novos-ricos já não se satisfazia com o pão tal como era feito tradicionalmente, em formato redondo, denso, cada bolota pesando de um quilo e meio a dois quilos. Durava uma semana, mas perdia o viço, amolecia por fora e secava por dentro. Já que tinham dinheiro e podiam pagar, os membros das classes urbanas enricadas queriam pão fresco e crocante no almoço e, de novo, no jantar.(*)

Uma lei de 1919, querendo proteger os padeiros, proibiu o trabalho noturno na profissão. Ora, o pão sempre foi amassado durante a noite e assado de madrugada para ser posto à venda de manhã logo cedo. Além disso, a panificação era tradicionalmente feita com fermento natural – que dá sabor especial ao pão, mas demanda trabalho e muita paciência.

Para resolver o problema, os padeiros parisienses decidiram abandonar o fermento natural e substitui-lo pelo fermento que conhecemos como biológico (ou Fleischmann), aquele de tabletinho que se guarda na geladeira, ou que também se encontra granulado, em sachê. O gosto e a textura do produto final mudavam bastante; em compensação a crosta ficava mais crocante, e o principal: a preparação era bem mais rápida e dispensava o trabalho noturno.

Para diminuir ainda mais o tempo de cozimento, a forma (ó) redonda foi abandonada e deu lugar ao formato comprido que conhecemos. O sucesso foi imediato.

Só que os tempos eram duros. Não é qualquer francês que podia se dar ao luxo de comprar pão duas vezes por dia. As classes menos favorecidas continuaram privilegiando o tradicional pão redondo, pesadão e de tamanho familiar.

Foi preciso esperar que o tempo passasse. Em 1945, terminada a guerra, a produção foi se regularizando e o racionamento de gêneros alimentícios foi pouco a pouco desaparecendo. Só então a baguete ganhou impulso, se popularizou e se espalhou pela França inteira.

No Brasil da minha infância, não se usava o termo baguete – isso é novidade das últimas décadas. A gente dizia “um filão” para designar um pão comprido, porém de diâmetro mais gordo. E “uma bengala” pra indicar aquele mais fininho. Não sei se alguém ainda fala assim.

(*) Até hoje, boa parte das famílias francesas não come, no jantar, o pão do almoço. Compram duas vezes por dia. Quem vive em cidade, vai até a padaria. Quem vive em vilarejo, compra do padeiro itinerante, que passa duas vezes por dia. Famílias pequenas compram meia baguete ao meio-dia e, de novo, meia baguette ao entardecer. Curioso costume, não?

Bolsa combustível

José Horta Manzano

Por razões que não cabe aqui analisar, o preço dos derivados de petróleo tem aumentado sensivelmente estes últimos meses. O fenômeno é mundial. No final das contas, a população toda sente os efeitos desagradáveis, visto que o preço de todos os bens aumenta.

Os profissionais do volante – taxistas, caminhoneiros, motoboys – estão na linha de frente: sentem o impacto diáriamente no posto de gasolina. São os primeiros a reclamar, e seu grito pode ecoar num país inteiro.

Anos atrás, quando ainda não detinha as rédeas do poder, Bolsonaro, por razões eleitorais ou por propensão inata à rebeldia, pôs-se ao lado dos caminhoneiros e apoiou uma greve que durou dias e paralisou o país.

Agora a grita dos estradeiros se alevanta de novo, só que, desta vez, o capitão está do outro lado do balcão. Tudo o que ele não quer é um país parado, estradas bloqueadas, fome e inflação piorando. Receia ser acusado de mais uma marretada.

Ofereceu 400 reais aos caminhoneiros, que cuspiram em cima da oferta e a qualificaram de “esmola”. O preaviso de greve continua de pé. A não ser que caia do céu uma solução, o movimento será no começo de novembro.

Na França, o governo está enfrentando problema parecido. Não se pode dizer que seja idêntico, porque o povo de lá não vive nas mesmas condições do povo de cá. Assim mesmo, aumento constante no preço do combustível dói no bolso de quem precisa usar o carro diariamente.

Nem todos os franceses vivem em Paris, com metrô na esquina de casa; grande parte da população mora em vilarejos espalhados pelo país, onde ônibus não passa e trem não chega. Para essa gente, o carro é essencial; sem ele, não teriam como se dirigir ao trabalho.

Antes que os coletes amarelos despertem do torpor em que se encontram e decidam retomar passeatas e manifestações, o governo francês acaba de anunciar que, daqui para o fim do ano, um bônus de 100 euros (660 reais) será distribuído aos cidadãos de menor poder aquisitivo.

Quem são? São aqueles cujos rendimentos se situam abaixo de determinado valor, e que são as maiores vítimas da subida de preço dos combustíveis. Mas atenção: não é uma bolsa mensal; trata-se de um valor único, igual para todos, dado uma vez só.

Para chegar a esse montante, tomaram o aumento de preço dos combustíveis este ano e multiplicaram pela média anual de quilômetros percorridos pelos automobilistas franceses.

Estima-se que 38 milhões de pessoas terão direito ao vale combustível. Quase € 4 bi serão assim distribuídos (R$ 26 bi), uma bela quantia. É bom ter em mente que 2022 é ano eleitoral tanto na França quanto no Brasil, o que explica essa generosidade nos dois países.

É permitido acreditar que os motoristas franceses não se contentarão com o “bônus combustível”. É igualmente provável que os caminhoneiros brasileiros não se satisfarão com a “esmola” bolsonárica. Vamos ver o que acontece.

Eolianas

José Horta Manzano

Em 1898, quando um certo senhor Hand Hansen, cidadão dinamarquês, adquiriu um pequeno estabelecimento familiar de fundição, sua intenção era apenas continuar a usar a forja para fabricar pregos e ferraduras. De fato, numa época em que a eletricidade era novidade, ele não tinha como imaginar que, 120 anos mais tarde, sua minúscula empresa teria evoluído tanto, e justamente nesse novo e misterioso ramo.

Passando pela construção de guindastes, já em meados do século 20, o negócio foi crescendo até assumir as gigantescas proporções atuais. A empresa, que hoje se chama Vestas, é a campeã mundial no ramo de construção de turbinas eólicas, com faturamento anual que supera os 12 bilhões de euros.

Aqui cabe uma digressão linguística. A turbina eólica é conhecida como “wind turbine” (=turbina de vento) em inglês. Em italiano, recebe o nome de “pala eolica” (=pá eólica). Windkraftanlage (=instalação [que explora] a força do vento) é o nome alemão. Os franceses escolheram um nome simples e poético: “éolienne” (=eoliana).

A palavra eolina não serve porque já está ocupada. No campo musical, dá nome a um pouco conhecido instrumento de sopro, que lembra um pequeno acordeom, mas é acionado pela força dos pulmões. É raro, mas existe.

Com tanto vento à disposição (e com o petróleo cada dia mais caro), o Brasil está despertando para a urgência de instalar parques eólicos, tanto em terra firme, quanto ao largo da costa. Espero e acredito que essas decisões não dependam da sanção do capitão, se não, estamos perdidos. Ignorante, é capaz de não entender a ameaça que pesa sobre a dependência de combustível fóssil.

Esta semana, a Enel – antiga estatal italiana de eletricidade, hoje privatizada – anunciou a inauguração da primeira parte de um projeto eólico realizado no Rio Grande do Norte. São 50 turbinas que geram 206 megawatts, energia suficiente para suprir as necessidades de meio milhão de habitantes.

Por seu lado, a dinamarquesa Vesta, herdeira da pequena forja que Senhor Hansen comprou 120 anos atrás, anunciou estar projetando a maior turbina eólica jamais construída. O protótipo leva o pouco poético nome de V236-15MW.

Suas dimensões são impressionantes: culmina a 300 metros de altura, com 3 pás de 100m de comprimento cada uma (mais que um gramado de futebol padrão Fifa). A capacidade da instalação será de 15 megawatts/hora, quase cinco vezes superior ao de uma turbina comum.

Uma única dessas gigantescas “eolianas” será capaz de suprir o consumo de 20 mil lares (60 a 100 mil habitantes) e deixar de lançar na atmosfera 38 mil toneladas de carbono por ano, que resultariam da queima de combustível fóssil. A primeira já foi encomendada para funcionar ao largo da costa dinamarquesa.

O perigo
O distinto leitor certamente já ouviu falar em Madame Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen. A família domina a paisagem da extrema-direita  francesa há 40 anos. O pai já foi, mais de uma vez, candidato à Presidência. Numa das vezes, chegou ao segundo turno. A filha idem: nas últimas eleições, disputou o segundo turno e acabou perdendo para Emmanuel Macron.

Como todo extremista, tanto de esquerda como de direita, Madame tem certas deficiências de raciocínio. É curioso, mas é assim: nenhum extremista consegue alcançar um patamar razoável de bom senso. Ficam todos na vociferação improdutiva.

Desde os anos 1960, a França decidiu apostar na energia nuclear para a produção de energia. É um sistema eficiente, porém arriscado. Mais e mais vozes se levantam para pedir reorientação da filosofia nacional, a fim de que o nuclear seja pouco a pouco abandonado e o país dê preferência a energias renováveis.

Pois acredite quem quiser: Madame Le Pen já propôs que todas as turbinas eólicas francesas sejam desativadas e desmontadas. Só não explicou como fazer para substituir a energia que deixará de ser gerada. O vento vai acabar varrendo suas ilusões – é o que esperam os franceses de bom senso.

O Brasil está sendo governado por um capitão extremista, dono de tantos defeitos que seria cansativo repeti-los aqui. Já pensou se, amanhã, um desses gurus que o cercam inventa de convencer o bobão de que turbina eólica não serve, e que bom mesmo é usina térmica movida a lenha?

Bye bye, Amazônia!

“Terapias de conversão”

José Horta Manzano

Talvez eu esteja enganado, mas acredito que, no Brasil, o Código Penal ainda não prevê artigo específico para o crime de forçar um indivíduo a mudar sua orientação sexual. Estou me referindo a supostos “terapeutas”, que agem geralmente no universo neopentecostal – mas não só.

Em primeira leitura, a Assembleia Nacional da França adotou nesta terça-feira 5 de outubro um projeto de lei que oficializa a proibição de pseudoterapias “de conversão”, esse tipo de prática que visa a impor a heterosexualidade a pessoas lésbicas, gays, bi e trans (LGBT).

Os parlamentares franceses aprovaram o texto por unanimidade, mostrando que a questão está acima de toda política partidária ou eleitoreira. Foi um desses raros momentos em que uma proposta conseguiu a façanha de unir todo o tabuleiro político, todos integralmente de acordo. É admirável.

Votado em primeira leitura na Assembleia, o texto está sendo agora encaminhado ao Senado. O Código Penal passará a contar com uma infração específica para o crime cometido por autodenominados “terapeutas” que pretendem “curar” os homossexuais e trazê-los de volta ao bom caminho. A pena para os contraventores será de dois anos de prisão, cumulados com multa 30 mil euros (cerca de 200 mil reais).

A classe política francesa se dá as mãos quando percebe alguma ameaça de o país deslizar para o terreno pantanoso em que política e crenças religiosas se misturam. Não pretendem deixar que o país se torne uma teocracia. Nem mesmo uma quase-teocracia, como há tantas pelo mundo.

No Brasil, nem o povo nem os políticos parecem se dar conta desse tremendo perigo. A existência de uma “bancada evangélica” no Parlamento não assusta ninguém. No entanto, deveria assustar. É um primeiro passo para a transformação de nossa República laica em Estado religioso.

Com o capitão que ocupa a Presidência, nossa mistura de política com crenças religiosas está sendo potencializada com fortes doses de ignorância. Neste momento, o risco de escorregarmos para uma semiteocracia está elevado ao quadrado.

Malandragens universais

José Horta Manzano

Pensa que malandragem é genuína especificidade tupiniquim? Não é. É artigo abundante em todas as prateleiras do planeta.

Por um conjunto de razões que não interessa aqui listar, o preço do gás e dos derivados de petróleo tem subido rapidamente. No mundo todo, não só no Brasil. Se isso é bom para alguns, é péssimo para grande parte da humanidade.

No Brasil, dia sim outro também, o capitão esbraveja contra esse estado de coisas que solapa as poucas chances que tem de ser reeleito. Esbraveja, mas não faz nada. Ou porque não sabe, ou porque não pode.

Na França, onde muita gente cozinha e se aquece com gás, a situação é semelhante. Lá também, a eleição presidencial será em 2022, exatamente dia 10 de abril.

A subida dos preços incomoda o presidente Macron, que gostaria de ser reeleito. Para evitar uma nova onda de contestação dos “coletes amarelos” e assim conservar todas as chances de reeleição, mandou bloquear os preços do gás até… abril de 2022 – exatamente o mês das eleições.

Depois, o povo que se prepare: o aumento será violento.

Araçatuba

José Horta Manzano

Que horror isso que aconteceu em Araçatuba! No mundo todo, ataques e carnificinas pipocam aqui e ali, a todo momento. Mas, na quase totalidade dos casos, os autores reivindicam uma causa – uma causa qualquer que, no dizer deles, é sempre nobre. Em geral são motivos ligados a ideologias político-religiosas. É, por exemplo, o que está por trás de ataques dos talibãs e dos integrantes do dito “estado islâmico”.

Nossas chacinas, como essa de Araçatuba, não têm nobreza nenhuma. É bandidagem pura, o mal pelo mal, o mero interesse pecuniário de quem planejou. Nunca deixará de me surpreender que, num mundo em que todas as comunicações passam pela internet e o cidadão honesto se sente espreitado, vigiado e controlado o tempo todo, operações como essa possam se organizar sem despertar suspeitas.

A polícia sabe (ou deveria saber) quem são os bandidos. São sempre os mesmos, todos integrantes de facções ultramanjadas. Como é que esse pessoal não tem internet e telefone grampeados? Eu não sei. Se alguém souber, mande carta para a redação por favor.

Naturalmente, a violência foi tão grande que a imprensa do mundo todo deu a notícia. Reproduzo abaixo um sortilégio de comentários colhidos no quotidiano parisiense Le Figaro, o preferido dos leitores direitistas.

Sanzot-Pignon
Voilà ce qui nous attend si la France commet l’erreur de prolonger l’expérience Macron.
Taí o que nos espera se a França cometer o erro de reeleger Macron.

Jhamen
Incroyable ce pays plonge dans la violence à l’état pur…
É incrível esse país mergulha na violência pura…

Anonyme
On est loin des promesses de Bolsozéro.
Estamos longe das promessas de Bolsozero. (Bolsozero é ótima – ndr)

38gilles
Bon, une chance que chez nous, plus d’espèces dans les banques. Tout dans les distributeurs et les fourgons blindés.
Ainda bem que, na França, agência bancária não guarda mais dinheiro. Tudo está nos caixas eletrônicos e nos furgões blindados.

Canard-déchaîné
Encore plus forts que les escadrons de la mort.
Ainda mais eficientes que os esquadrões da morte.

Jo Bard
Je demandais à une connaissance brésilienne pourquoi elle avait voté Bolsonaro. Elle m’a répondu qu’elle n’en pouvait plus de devoir vivre dans une insécurité permanente. Et bien voilà!
Eu perguntei a uma conhecida brasileira por que razão ela tinha votado no Bolsonaro. Ela me respondeu que não dava mais pra viver continuamente na insegurança. Pois veja só!

NiBlancNiNoir
Bientôt en Europe. Question de temps.
Logo [a moda] chega à Europa. Questão de tempo.

Antoine 77000
Des talibans au Brésil? Le Mal n’a pas de visage et n’épargne personne, n’épargne aucun pays!
Os talibãs no Brasil? O Mal não tem rosto e não poupa ninguém, não poupa nenhum país!

payepaye
Pour ces champions de braquages, que risquent-ils? D’être arrêtés, emprisonnés, puis libérés après quelques années de prison pour alors récidiver.
Para esses mestres do assalto, qual é o risco? Ser apanhado, encarcerado, em seguida liberado depois de alguns anos de cadeia para então reincidir.

lacerisesurlegateau!
Allo Bolsonaro?
Alô, Bolsonaro?

mrpignon
Visiblement, même avec Bolsonaro, c’est toujours la fiesta chez les voyous brésiliens…
Dá pra ver que, mesmo com Bolsonaro, a “fiesta” corre solta pro lado dos bandidos brasileiros…

dijonnais
C’est comme ça en Bolsonaronie…
É assim na Bolsonarônia… (Bolsonarônia também é ótima – ndr)

Hotline
Régime d’extrême droite au Brésil. Voilà le résultat.
Regime de extrema-direita no Brasil. Eis o resultado.

Muir
Il est beau le Brésil de Bolsonaro. A part placer ses fils dans l’administration et détruire l’Amazonie, ce type n’a rien fait.
Ah, que beleza o Brasil de Bolsonaro. Além de dar cargos públicos aos filhos e destruir a Amazônia, esse sujeito não fez nada.

Resta um consolo. Como o distinto leitor pode ver, o leitor da imprensa francesa ainda consegue separar o joio do trigo: Bolsonaro é uma coisa, o povo brasileiro é outra. Apesar da artilharia pesada que o eleitor da direita francesa dirige contra o capitão, não senti nenhuma degradação de nossa imagem. Espero que não sejam meus olhos que se recusam a enxergar a realidade.

Acredito (e torço para) que os horrores promovidos pelo estropício que está na Presidência continuem nos poupando. Pelo menos aos olhos dos estrangeiros – já é alguma coisa.

Destruição de vacinas

José Horta Manzano

Na noite de segunda para terça desta semana, um vacinódromo situado perto de Toulouse (França) foi vandalizado. Foi ataque de tipo clássico, feito por desconhecidos no escurinho da noite. Resultou em vidros partidos, móveis destroçados, prateleiras reviradas, computadores quebrados e, o pior de tudo, 500 doses de vacina anticovid destruídas. Não foram roubadas: foram inutilizadas e deixadas no lugar.

Não é o primeiro ataque a centros de vacinação no país. No começo do mês, um escritório regional da Ordem dos Enfermeiros já havia sido vítima de vandalismo. Em julho, dois vacinódromos instalados em tendas de lona já haviam sido atacados, tendo um deles sido parcialmente incendiado.

Esses ataques são o braço violento dos protestos de rua que estão se tornando habituais no país: todos os sábados, há passeatas animadas e ruidosas nas principais cidades. Participam os “antivax”, aqueles que, por alguma razão, se recusam a receber a vacina.

O problema deles é que, não sendo vacinados, ficam excluídos de boa parte das interações sociais. Não têm direito ao pass sanitaire – a carteira vacinal”. Não tendo o “pass”, não podem entrar em bar, nem restaurante, nem cinema, nem museu, nem piscina pública. Em determinados empregos, como na área de saúde, não têm mais o direito de trabalhar. Daí o mau humor.

Vamos refletir. Caso o distinto leitor – que Deus o livre – tivesse de ser hospitalizado. Gostaria de ser cuidado por uma equipe de gente não vacinada? Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal de limpeza? Todos expirando dentro do seu quarto os micróbios trazidos de fora?

Até certo ponto, aceito que alguns façam a escolha pessoal de não se vacinar contra a covid. Não entendo por que fazem isso, mas aceito que o façam por convicção pessoal. Levantar faixas de protesto e marchar nas avenidas aos sábados é uma coisa – pode até causar incompreensão, mas não agride nem machuca ninguém. Já vandalizar vacinódromo é coisa bem diferente e inadmissível. É a potencialização do egoísmo, da intolerância e da truculência. Faz lembrar a destruição de livros por parte daqueles que não apreciam determinada literatura. Dá frio na espinha.

A liberdade que o antivax reclama (de não se vacinar) é exatamente igual à do cidadão que deseja receber a vacina. Portanto, assim como o adepto da vacinação não obriga o antivax a estender o braço, o antivax não tem o direito de impedir a vacinação dos outros.

Além do quê, seja por que motivo for, destruir propriedade alheia é crime.

Observação
Acho divertido que os franceses tenham dado ao certificado vacinal o nome de “pass sanitaire”. É assim mesmo que escrevem: “pass”, com dois ss e sem o e final.

A forma “passe” existe em francês, como elemento de composição de inúmeras palavras: passe-partout (=chave mestra), passe-purée (=espremedor de batata), passe-temps (=passatempo), passe-passe (=passe de mágica). Mas “passe” sempre tem um e no final.

Sem e, é novidade. Devem ter feito isso pra parecer mais moderno, pra ficar mais próximo de um hipotético sanitary pass.

Trilha com sabor de chocolate

José Horta Manzano

Você sabia?

Os suíços sentem muito orgulho por seu país não ter sido invadido por tropas alemãs nem italianas na Segunda Guerra Mundial. É realmente surpreendente que a pequena Suíça não tenha sido engolida, com casca e tudo, pelos exércitos do Eixo. Afinal, excluindo um minúsculo trecho que a separa do Principado do Liechtenstein, a Suíça estava completamente cercada por nações em guerra. Tinha (ainda tem) fronteira com a Alemanha, a Itália, a França (ocupada pela Alemanha) e a Áustria (anexada à Alemanha). No país helvético, muita gente atribui essa não intervenção à força de dissuasão representada pelo poderio militar suíço.

Bunker disfarçado de chalé de madeira

Há quem sorria ao ouvir essa explicação. Seja como for, tanto Berlim quanto Roma sabiam que seria bastante complicado dominar e ocupar um território montanhoso como este. Sabiam também que os suíços estavam muito bem armados e equipados, além de serem conhecidos como combatentes aguerridos.

Toblerone de verdade

Hitler e Mussolini devem ter feito a conta duas vezes. Chegaram à conclusão de que não valia a pena perder tempo, dinheiro, esforço e vidas humanas para conquistar um território pouco industrializado e totalmente desprovido de riqueza mineral. De qualquer maneira, não saberemos nunca o que realmente passou pela cabeça dos dois ditadores.

Linha dos toblerones

Linha dos toblerones

Eu acrescentaria mais uma razão. Numa Europa conflagrada, interessava a todos respeitar a neutralidade de um pequeno território, situado bem no centro geográfico do conflito. Era um lugar seguro, de onde não se receava que viesse nenhuma ameaça. Mais que isso, era um lugar onde todos podiam guardar, na confiança, seus dinheiros, seus ouros, suas obras de arte e suas joias. Mais ainda: um lugar superconveniente para eventuais encontros secretos e confabulações discretas e confidenciais. Todas essas razões hão de ter contribuído para que o país fosse poupado.

Isso hoje faz parte da História. Como diz o outro, «Depois que aconteceu, qualquer um é profeta; difícil mesmo é adivinhar o futuro». Naqueles anos 1930, um bafo de guerra soprava no continente, embora ninguém soubesse de que lado nem com que força viria a tempestade. As autoridades suíças não podiam cruzar os braços e apenas torcer para que o país não fosse invadido. Todos tinham de estar prontos para repelir tropas inimigas.

Linha dos toblerones, hoje utilizada para caminhadas a pé

A inteligência militar planejou um complexo sistema de defesa. Naqueles tempos, a referência mais próxima era a Primeira Guerra (1914-1918), durante a qual os ataques se faziam por via terrestre, com tanques e blindados. Foi pensando nisso que bolaram o sistema defensivo suíço, basicamente terrestre àquela época. Incluía numerosos pontos, alguns dos quais são hoje conhecidos do grande público, enquanto outros ficarão secretos para sempre. Talvez seja melhor assim.

Todas as pontes do país estavam minadas. Ao menor sinal, as vias de comunicação seriam interrompidas, o que dificultaria tremendamente o avanço de tropas inimigas. A região de Genebra, fronteiriça com a França, trazia um problema espinhoso para os militares. Por ser constituída de terrenos planos e pela ausência de rios, foi considerada indefensável. Tomou-se a decisão tática de dar a cidade como perdida e implantar o sistema de defesa uns 30km mais para o interior do país.

Villa Rose Fortaleza disfarçada de casa de campo

Villa Rose
Fortaleza disfarçada de casa de campo

Construíram-se fortalezas com aparência de pacíficas casas de campo. Foram levantados bunkers com aspecto externo de inofensivos chalés de madeira. Instalaram-se discretos postos de observação em pontos mais elevados ― naqueles tempos não havia street view nem espionagem por satélite. Para completar, uma verdadeira obra de arte defensiva foi construída, uma versão helvética da muralha da China. Ficou conhecida popularmente como Ligne des toblerones, a linha dos toblerones.

O que era e por que lhe deram esse nome?
Era – e ainda é – uma linha de 10km de blocos de concreto que impossibilitam a passagem de tanques de guerra. São quase 3000 blocos monstruosos de 9 toneladas cada um. Têm forma peculiar de tetraedro que lembra um pedaço de chocolate Toblerone, daí o apelido.

Villa Rose Janela com cortina falsa

Detalhe da Villa Rose: janela com cortina falsa

Não se tem notícia de que nenhum tanque tenha jamais tentado superar o obstáculo. A guerra acabou faz muito tempo. A Suíça não foi invadida. Mas os toblerones continuam lá até hoje. Quem é que vai arrastar aqueles imensos blocos? E o que fazer com eles depois? Assim, foram deixados onde estavam e, aos poucos, acabaram se tornando atração turística. Uma trilha própria para caminhadas a pé serpenteia por quilômetros, dentro da floresta, ao longo da barreira de concreto. É conhecida hoje como o Sentier des Toblerones, a Trilha dos Toblerones.

Taí uma obra militar que soube envelhecer. Em escrupuloso respeito ao espírito atual, não foi atirada a um lixão mas acabou reciclada.

Publicado originalmente em 28 nov° 2013.