Internet, a regulação necessária

José Horta Manzano

O primeiro automóvel que chegou à cidade de São Paulo foi um Peugeot trazido de Paris por navio em 1891. Era propriedade da família de Alberto Santos-Dumont, o aviador. Há registro de o carro ter sido visto em 1893 dando uma volta pela Rua Direita, hoje via pedestre, mas então logradouro muito concorrido da capital.

Outros “vehiculos automoveis” (hoje diríamos veículos automotores) foram importados nos anos seguintes e engrossaram a circulação da cidade. Nos primeiros anos, um carro que se movia sozinho era novidade absoluta, daí a total ausência de infraestrutura pronta a receber a raridade. Os carros não eram emplacados, não havia sinais de tráfego, o pavimento das ruas não estava preparado para o molejos delicados, não havia CNH.

Com o tempo, foi aparecendo a regulação: placas de identificação do veículo, autorização de conduzir a geringonça, indicação da mão de direção em ruas apertadas, placas que davam prioridade. Não veio tudo duma vez. Foram necessários anos até que a circulação automotora entrasse na paisagem urbana.

A cada vez que uma novidade entra em nossas vidas, o caminho é o mesmo. Primeiro, a surpresa, quando a novidade se agita feito potro assustado que nâo sabe aonde vai. Em seguida, as coisas vão se assentando e a regulação, aos poucos vem chegando.

A internet e suas aplicações, como as redes sociais, não fogem a essa regra. Essas redes, surgidas há anos, foram sendo deixadas soltas e à vontade, sem regras claras que não fossem reclamações e clamores sem amanhã. Alastraram-se e criaram tanta raíz, que muitos Estados têm hesitado em intervir no sentido de impedir que crianças e adolescentes sejam arrebanhados por grupos mal intencionados ou por suas ideias.

Com a lei que obriga plataformas a verificar a idade e a ligar obrigatoriamente os contas dos menores de 16 anos à de seus pais, o Brasil entrou para o seleto grupo de países que já legislaram na matéria. Faz companhia à Austrália, à Malásia, à Indonésia e à China. Outros países têm projetos, uns mais adiantados, outros menos, que visam ao mesmo objetivo.

Esta semana foi a vez da França, o primeiro europeu a legislar sobre a matéria. Esta semana, o parlamento aprovou a lei que visa “a proteger os menores dos riscos representados pelas redes sociais”. O artigo principal proíbe acesso às redes sociais aos menores de 15 anos. Era um projeto para cuja aprovação o presidente Macron tinha se empenhado pessoalmente. A França espera e acredita que foi dado um empurrão à aprovação, por outros países da UE, de legislação semelhante.

O banimento não inclui o acesso a enciclopédias online do tipo Wikipédia ou outras plataformas educativas. O texto de lei não impõe nenhum método de verificação da idade, deixando às plataformas como Facebook ou TikTok a tarefa de definir o método. A lei deve entrar em vigor a partir de setembro próximo, que é o mês da volta às aulas na França.

Na minha opinião a lei francesa era necessária. Efebos ainda não têm a maturidade necessária para mergulhar na insociabilidade das redes “sociais”.

Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

Jogadores “estrangeiros”

Crédito imagem: dramafever.com

José Horta Manzano

Se vosmecê observar os jogadores da Inglaterra, da França, da Alemanha, e até da Espanha e de Portugal, vai notar a presença de numerosos pretos, mulatos, turcos e árabes, que não têm a aparência típica dos originários de uma Europa de brancos. Há quem imagine que se trata de esportistas “importados”, trazidos do exterior para serem treinados e naturalizados a fim de engordarem a seleção nacional. Não é bem assim.

Desde os anos 1960-70, com a independência das colônias africanas, a Europa tornou-se terra de imigração. Em vez de exportar contingentes de camponeses pobres, passou a importar ex-colonizados em busca de melhor sorte.

Com isso, a presença, no seio da população, de tipos antes exóticos foi-se tornando cada dia mais comum. Com o passar do tempo, a imensa maioria desses novos imigrantes foi se naturalizando; acabaram tornando-se franceses, espanhóis, alemães. O processo de aquisição da nacionalidade ocorre geralmente a partir do momento em que o interessado chega à maioridade, dependendo do país. Esse movimento de população deu origem a grande número de europeus com dupla nacionalidade: a adquirida por naturalização e a herdada dos pais pela “jus sanguinis”.

Os futebolistas que hoje atuam na seleção inglesa, assim como na francesa, na alemã e nas outras, entram praticamente todos nessa categoria de descendentes de imigrantes. É curioso que essa imigração abriu excelentes possibilidades para os selecionadores dos países de origem dos imigrantes.

Já faz alguns anos que Argélia, Marrocos e países da África Negra enviam “olheiros” à Europa à cata de bons jogadores jovens e com dupla nacionalidade. Após um trabalho de convencimento, evitam que os pupilos joguem partidas internacionais com o uniforne de um país europeu, levam os jovens para o país de origem e os retêm com a perspectiva de virem a entrar para a seleção.

Um exemplo inacreditável vem agora. Vosmecê sabia que, dos 26 selecionados do Marrocos, apenas sete nasceram lá? Pois é, nada menos que dezenove nasceram no estrangeiro. Não tiveram de se naturalizar marroquinos, pois já o eram. Dos 19 jogadores, 6 nasceram na França, 6 na Espanha, 3 na Bélgica, 3 na Holanda e até um no Canadá, o goleiro(*). Assim, de cada 4 jogadores da seleção marroquina, três nasceram fora do país.

(*) Uma curiosidade quanto a Yassine Bounou, o goleiro do Marrocos. Considerando todas as Copas organizadas até hoje, ele é o único jogador a ter atuado duas vezes, em diferentes edições da Copa, contra seu país de nascença. De fato, em 2022 e em 2026, ele esteve no gol marroquino num jogo contra o Canadá. O Marrocos venceu ambos.

Europa equatorial

José Horta Manzano

Vosmecê, que vive num clima equatorial ou tropical, não há de se espantar, mas tem muito europeu estonteado, sem saber o que fazer para mitigar o calor infernal que assola o continente. Dantesco é um bom adjetivo, que lembra o inferno descrito pelo grande poeta toscano.

Já no mês de maio, o mês das noivas, que costuma (costumava?) trazer o canto dos passarinhos e as primeiras flores, recebemos uma frente quente diretamente do Saara, a nos lembrar que, em linha reta, não estamos assim tão longe das areias ferventes. Uma semana com temperaturas acima de 30° em pleno maio? Coisa nunca vista.

Entrou junho, voltou um friozinho benfazejo. Todos imaginaram que os calorões estavam conjurados até julho – no mínimo. Que nada! A alegria durou pouco. Já no dia 13, as fogueiras de Santo Antônio esquentaram os termômetros, e as temperaturas subiram de elevador. Vinte e oito, vinte e nove. O que eu sei é que, a partir do dia 16, o mercúrio diurno não desceu mais abaixo de 30°.

E a partir de 22, foi a loucura total: 35° ou mais todos os dias. Sábado, dia 27, tivemos 37,1°C aqui neste canto ameno da amena Suíça, minha gente. Eu mesmo, que já passei 52 verões neste país, juro que nunca tinha enfrentado um problema desses. A amena cidade de Basileia (Basel) bateu nos 39°. Como fazem os que vivem no deserto africano?

Certos lugares da França passaram dos 41°C. O mesmo vale para localidades da (fria) Alemanha. Até a (gélida) Dinamarca teve seus dias piauienses, com 36°C. Portugal, Espanha e Itália estão no mesmo balaio.

Nesta Suíça em que a instalação de ar condicionado em casa é rigorosamente regulamentada por lei, as lojas de eletrodomésticos estão de prateleiras vazias. Assim que vem nova chegada de aparelhos, desaparecem em horas. Os (habitualmente) comportados cidadãos estão passando por cima de leis e regras. O medo de derreter é maior que o medo de levar multa pesada. Vão instalando sem pedir licença a ninguém.

Para este começo de semana, a previsão do tempo nos promete uma volta gradual a padrões habituais de calor. Mas já bisbilhotei a previsão para 10 dias e descobri, com aflição, que o alívio é de curta duração. Depois de poucos dias, vai começar a subir de novo.

Vem nova frente tórrida por aí e alçaremos os picos dos 35° de novo. Quando eu decidi fincar pé nestas terras, ainda nos anos 1960, uma das principais atrações era, para mim, o clima fresco. Para quem vinha de um caloroso Brasil – como eram quentes os anos 60! – era um refrigério. Hoje, nas minhas elucubrações, digo que, se eu tivesse sabido que ia terminar assim, teria escolhido logo uma Finlândia.

Registro civil

José Horta Manzano


“Não se deve considerar um natimorto como sendo um nada. Ele pertence à família. Não se pode castigar, com o esquecimento, uma tragédia que já é por si insuportável”foi o argumento contundente utilizado pelo ministro da Justiça da França ao defender, no Parlamento, a modificação da lei nacional de registro civil.


Até a Idade Média, o registro das pessoas naturais (nascimento, casamento e óbito) não era sistematizado. Foi só a partir do Concílio de Trento, encerrado em 1563, que a Igreja chamou a si essa responsabilidade. Determinou que as paróquias passassem a registrar os atos da vida civil dos fiéis.

Essa situação perdurou até a Revolução Francesa. Em 1792, constituindo um passo a mais no caminho da laicização da sociedade francesa, foi instituído o Registro Civil oficial – obrigatório e, muito importante: separado da Igreja.

Diferentemente do que conhecemos no Brasil, nos países europeus o Registro Civil é instituição do Estado. Sua gestão não é entregue a amigos do rei, mas a funcionários públicos. Não existe, portanto, a figura do “dono do cartório”. Dado que não “pertencem” a ninguém, não se herdam nem se vendem cartórios de registro de pessoas naturais.

Na França, portanto, faz mais de 200 anos que todos os nascimentos, casamentos, divórcios e falecimentos são obrigatoriamente declarados ao ofício de Registro Civil do lugar onde ocorreram. A obrigação de declaração se estende a crianças natimortas e àquelas que, embora nascidas vivas, não tenham sobrevivido.

O problema é que, até bem pouco tempo atrás, os natimortos não tinham direito a receber nome. É que a lei considerava que a personalidade jurídica de um indivíduo resulta do fato de ter nascido “vivo e viável”, ou seja, ter sobrevivido ao parto. Portanto, os natimortos não tinham personalidade jurídica; não a tendo, não podiam receber nome.

No Brasil, esse nó já foi desfeito. A lei 6.015 de 1973 autoriza a atribuição de nome ao natimorto. Com atraso de meio século, a França seguiu o mesmo caminho. A modificação da lei francesa foi aprovada por unanimidade no Senado e na Assemblée Nationale (Câmara dos deputados). Foi reconhecido o intenso sofrimento das famílias que enfrentam esse drama. A partir de agora, os natimortos e os que não sobreviveram ao parto têm direito a receber oficialmente um nome.

E a lei tem uma característica especial e pouco comum: é retroativa. Os oficiais do Registro Civil estão assistindo a um afluxo de pedidos de correção de registros, alguns de 30 anos atrás.

Politicamente correto
Até ontem, ainda se falava em “enfant mort-né” (criança nascida morta). A expressão foi suavizada. Hoje se diz “enfant né sans vie” (criança nascida sem vida). Mas a supressão da referência à morte não diminui o drama familiar. Como tantos outros corretismos políticos, é emplastro em perna de pau. Encobre a tragédia sem a suprimir.

Glanage

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso – assim reza antiquíssimo provérbio português. É verdade. O youtube está cheio de vídeos filmados, às vezes, por marinheiros de poucas águas, mostrando particularidades e curiosidades daqui e dali. Hoje vou falar de uma prática comum na França, sobre a qual ainda não assisti a nenhum vídeo. Talvez a prática esteja em vigor também em outros países, não tenho certeza. Vou falar do que sei.

Como já sabem meus atentos leitores, os franceses têm palavra para tudo. E usam. Já nós somos menos rigorosos nesse particular. Portanto, na ausência de “similar nacional”, vou usar a palavra francesa e explicar o significado. Vai aqui um glossário dos substantivos (todos masculinos em francês):

Glanage: ato de catar restos que a colheita deixou para trás
Maraudage: ato de furtar antes da colheita
Grappillage: ato de colher no pé ou na planta alheia
Râtelage: ato de colher em terra alheia com uso de ferramenta

Não sei quando começou a ser regulamentado o glanage, mas é prática antiquíssima. Acredito que estivesse codificado já na Idade Média. Trata-se da prática de catar restos da colheita, deixados para trás. As colhedeiras modernas são eficazes, mas sempre deixam cerca de 1% de restos não colhidos. Num plantio de batatas, por exemplo, numa gleba que produz 100 toneladas, ainda restará na terra uma tonelada de tubérculos não colhidos. Vale a pena procurar.

Num belo domingo ensolarado de fim de outubro, quando a colheita da batata já terminou, vale a pena gastar algumas horas com a família (especialmente com as crianças, que vão adorar) remexendo a terra à cata de batata. Quem tiver paciência volta para casa com um saco cheio. Para famílias de poucas posses, é uma economia e tanto.

Condições para o glanage legal

Para ser legal, o glanage tem de respeitar os seguintes pontos:

  •  Após a colheita: Só é permitido “glanear” os produtos que tenham caído ao solo (ou ficado enterrados no solo) ao fim da colheita principal.
  •  À mão: O uso de ferramentas (p.ex: rastelo) é proibido, pois transforma o glanage em râtelage, uma prática não permitida.
  •  Durante o dia: O glanage deve ser realizado durante o dia, à vista de todos.
  •  Em terreno não cercado: É proibido “glanear” em campos fechados com cerca, pois trata-se de propriedade privada.
  •  Respeitar os decretos municipais: Verificar com a prefeitura se algum decreto proíbe o glanage no município.

O que é proibido:

  • Maraudage/grappillage: Colher frutas ou legumes diretamente do pé ou da planta não é glanage, é furto.
  • Uso de ferramentas: O râtelage é proibido.
  • Glanage à noite: É proibido.
  • Terrenos cercados: É proibido entrar em propriedades privadas cercadas.

Recomendações importantes:

  • Peça autorização: Embora a lei permita sob certas condições, é sempre bom solicitar a autorização do proprietário ou do responsável pela terra antes de começar a “glanear”, para evitar mal-entendidos ou conflitos.
  • Respeite as quantidades: O espírito do glanage é recolher o que foi deixado para trás em quantidades correspondentes ao consumo familiar, nunca para comercialização.

Pronto, vosmecê já sabe como funciona na França. Mas não recomendo tentar “glanear” no Brasil. Garruchas, trabucos e carabinas correm soltas por aí. Prudência!

Pigmentação

Antes e depois

José Horta Manzano

A falta de mídia especializada anda fazendo falta. Em outras eras, havia jornais que só davam notícia de horrores (assassinato, assalto, atropelamento, incêndio, descarrilamento de trem). Em outros jornais, sentia-se nitidamente uma tendência bem à direita ou bem à esquerda. Hoje em dia, não sei se será impressão minha, os poucos veículos que sobraram se tornaram generalistas. Lembram uma “Folha do Comércio”, que dava a chegada e a partida de todos os navios, o embarque e o desembarque de todas as mercadorias, e assim por diante.

O Globo, como seus congêneres, não escapou. Fala de política com a mesma desenvoltura com que relata crimes (com detalhes), sem esquecer a coluna social. Lá encontrei hoje uma notícia inquietante. Fala de uma influenciadora. Esse é termo que até hoje não decifrei. A moça influencia quem? Como é que se mede influência? A moça, cujo nome já esqueci, é daquelas de rosto reconstruído, que deve ter passado pelo que costumávamos chamar “recauchutagem completa”. Lábios exageradamente grossos, alguns quilômetros de cabelo. E a notícia do dia é que está voltando da França, para onde viajou especialmente para se submeter a uma operação que leva o nome assustador de “keratopigmentação”.

Atrás do nome bárbaro, se esconde uma intervenção ambulatória que altera definitivamente a cor dos olhos. Em 100% dos casos, o cliente pede cor mais clara que a original. Antes da operação, pode-se até escolher a tonalidade desejada. Nossa influenciadora se encantou por uma cor turquesa mares do Sul, um verde transparente que a deixou com olhos de personagem de filme de terror.

O chato é que ela trouxe da França uma companheira que não estava no programa: a dor. Diz a moça que, desde o primeiro dia, padece com dor constante nos olhos, o tempo todo, uma dor penetrante que não cede. Vê-se que não tinha se inteirado dos riscos antes de se operar. Em cinco minutos e dez cliques, consegui saber que a dor pode surgir em alguns casos, que pode ser sinal de inflamção ou até de infecção, e que é muito difícil de debelar. Em vez de correr de volta à clínica, a influenciadora preferiu esperar para consultar um oculista no Brasil. Talvez por um problema de língua.

Cada um faz o que quiser com os próprios olhos, mas acho que a moça foi descabeçada. Nas minhas buscas, só encontrei uma clínica que oferece essa operação: é na França, exatamente onde a moça foi. A intervenção custa a bagatela de 7.300 euros (R$ 47.000), sem contar passagem aérea, hospedagem e alimentação. Precisa ter muita coragem. Uma só clínica na Europa inteira? Eu ficaria com um pé atrás.

E lá foi nossa influenciadora, braço forte e olho aberto, enfrentar o bisturi a laser. O procedimento se faz com micropunturas, como se fossem golpezinhos de acupuntura, com uma agulha que injeta um colorante na íris. É uma espécie de tatuagem da córnea. Só de pensar, dá aflição.

Fiquei sabendo que diversos figurões brasileiros da “influenciosfera” já se submeteram a uma keratopigmentação. Todas as fotos que eu vi correspondem a pacientes que escolheram tons de água-marinha transparente.

Fico realmente surpreso de ver a que ponto essa gente arrisca a própria saúde em prol de um detalhe da aparência – que todos sabem ser artificial. Me parece gente que se enrolou numa teia criada por eles mesmos, da qual não conseguem mais se desvencilhar. Até onde a vaidade pode levar!

Penso que, em vez de influenciadores, são eles os verdadeiros influenciados.

Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

Com o parlamento que temos

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 outubro 2024

O sistema político francês, que o general Charles De Gaulle arquitetou e fez assentar na Constituição de 1958 (que vigora até hoje), é tido como ‘semipresidencial’. O presidente da República é chefe do Estado, com atribuições executivas em princípio limitadas. Como em todo regime parlamentarista, um primeiro-ministro desempenha as funções de chefe do governo, secundado por ministros.

Um detalhe de capital importância, que confere ao sistema características diferentes dos regimes parlamentares tradicionais, é que a eleição do presidente se faz pelo voto popular direto. Essa particularidade contribui para que esse presidente, longe de exercer apenas funções protocolares, se torne a figura número um da política nacional, um personagem central e vistoso, que acaba relegando o primeiro-ministro a segundo plano.

Essa força presidencial está na raiz da atual crise política do país. Desde que o presidente decidiu dissolver o parlamento, três meses atrás, o país ficou sem governo. Primeiro-ministro e demais ministros permaneceram provisoriamente só para tratar os assuntos do dia a dia, deixando temas de peso em banho-maria.

Se a escolha do chefe de governo (primeiro-ministro) fosse atribuição dos parlamentares, provavelmente teriam chegado a um acordo aceitável por todas as correntes politicas. No entanto, dado que cabe ao presidente da República nomear o governo – e que o presidente é forte e poderoso – ele acabou escolhendo os ministros segundo seu gosto pessoal, sem levar em conta as correntes políticas representadas na Assembleia. E demorou três meses para fazê-lo.

O novo governo já foi nomeado e já arregaçou as mangas. No entanto, dado que a escolha dos ministros foi feita segundo a vontade presidencial, tem-se atualmente uma situação emaranhada, difícil de destrinchar. Qualquer solução, ainda que agrade a uns, será execrada por outros.

O mundo mudou nestes 70 anos, e a Constituição francesa envelheceu. Feita para um panorama político em que apenas dois partidos dominavam a cena, tornou-se difícil de aplicar num universo em que três forças políticas praticamente se equivalem.

No Brasil, de tempos em tempos, quando o caldo engrossa nos altos círculos de Brasília, volta à baila a ideia de um semipresidencialismo. Esse sistema, que tem boas chances de vicejar num terreno bipartidário, seria, entre nós, fator de instabilidade paralisante. A miríade de partidos representados em nosso Congresso não permite que se pense num regime parlamentar acoplado a um presidente eleito pelo voto universal. A figura presidencial tende a sugar e puxar para si a aura que deveria pairar sobre o parlamento.

Nossos congressistas estão mal-acostumados. Cacoetes preexistentes foram potencializados nos tempos de Jair Bolsonaro, quando um governo acuado se tornou refém do Congresso. Generosas emendas personalizadas floresceram e criaram raiz. O governo Lula não tem mostrado habilidade para mitigar a avidez de Suas Excelências.

Nossa pulverização partidária dificulta a formação de maiorias estáveis, fenômeno que leva a um ambiente efervescente e a um confronto permanente entre Executivo e Legislativo. Essa tensão desprovida de sentido não deveria existir. Ela não leva benefício a ninguém.

Se um dia vingar a ideia de introduzir-se um regime parlamentar, a figura presidencial terá de ser inteiramente repensada. Poderes e atribuições do cargo serão drasticamente limitados. O presidente não será mais que chefe do Estado, escolhido pelo Congresso entre os notáveis do país, uma figura simbólica com visibilidade mas sem poder.

Neste momento, temos um presidente com convicções de esquerda e um Congresso que tende nitidamente à direita. Esse antagonismo entra em choque com frequência e atravanca o avanço do país. Nossa política externa, com forte dependência da ideologia presidencial, tem seguido rumos pedregosos e estéreis. Pouco a pouco, o Brasil tem perdido importância, limitando-se hoje a discursar na ONU para criticar a ONU.

Alguém dirá: “Mas como! Um regime parlamentar com o parlamento que temos?” Por minha parte, acredito que o ser humano pode se emendar. Nossos parlamentares se comportam hoje com a irresponsabilidade de adolescentes birrentos. Fazem isso porque sabem que o Executivo tem meios de aparar os exageros vindos do Congresso. No dia em que o poder executivo for exercido pelo próprio Parlamento, o quadro se transformará.

Se esqueceram

source: Câmara dos Deputados

José Horta Manzano

Em dias de tempestade, a cada trovão que arrebentava, minha avó murmurava “Santa Bárbara!”. E ia assim, de trovão em invocação, até o tempo acalmar. Anos mais tarde fiquei sabendo que, na hagiologia católica, Santa Bárbara protege contra raios e tempestades.

Vim a conhecer também um provérbio português: “Só se lembra Santa Bárbara quando troveja”. Tem algo a ver com a ingratidão. Se a santa nos salvou um dia de ser fulminado por um raio, não precisa esperar a próxima situação de perigo para só então lembrar-se dela; convém dar-lhe um alozinho fora da precisão. Apego interessado é muito feio.

Com certa frequência, tenho lido notícias de brasileiros hostilizados em Portugal. Nem sempre isso acontece por terem cometido algum malfeito, mais frequente é serem interpelados pelo simples fato de serem brasileiros. Essa atitude me preocupa e me traz à mente lúgubres precedentes.

Penso nos judeus, nos armênios e em outros grupos étnicos que, ao longo da história, foram perseguidos pelo simples fato de serem judeus ou armênios. São agressões pérfidas e imensamente covardes.

Os brasileiros que estão em Portugal – ou em qualquer outro país – não são pessoalmente responsáveis pelo fato de haver muitos recém-imigrados nesses lugares. Se alguma queixa tem de ser feita, que seja feita aos que fazem as leis.

Li outro dia que, em Portugal, uma senhora insultou uma brasileira, na rua, sem motivo que não fosse estar irritada com a abundância de estrangeiros. “Volte para sua terra! Aqui mandamos nós!”. Ouvem-se gritos desse teor, um verdadeiro horror.

Ninguém tem o direito de xingar cidadãos na rua só pelo fato de não gostar de estrangeiros. Em Portugal há até um partido político xenófobo. Chama-se Chega. Quem adere a suas ideias, que se afilie a esse partido, vote em seus candidatos, participe de suas passeatas e manifestações. Isso pode. Xingar, não.

Saíram hoje as estatísticas oficiais da Confederação Suíça que esmiúçam os nascimentos do ano passado. O que todos querem saber é quais foram os nomes mais atribuídos aos recém-nascidos. Aqui, como em outras partes do mundo, há nomes da moda. Faz alguns anos que a moda impõe nomes curtos. Ninguém mais chama um filho de Epaminondas ou Zacarias, nem uma filha de Genoveva ou Madalena.

Em 2023, o top 5 de nomes femininos foi: Mia, Emma, Sofia, Emilia, Elena. E os cinco nomes masculinos mais atribuídos foram: Noah, Liam, Matteo, Gabriel, Leano. Acho um pouco sem graça dar a uma criança um nome da moda, que, no futuro, será igual ao de primos, colegas, vizinhos, amigos. Mas, enfim, de gosto não se deve discutir.

A justificação do título deste artigo vem agora. Junto com as estatísticas dos prenomes, saíram também as dos nomes de família. Saibam os distintos leitores que, no dia 31 de dezembro de 2023, os três sobrenomes mais comuns na Suíça de expressão francesa eram, na ordem:

1° Silva

2° Ferreira

3° Pereira

É isso mesmo. Na contagem oficial dos Serviços Federais de Estatística, sobrenomes portugueses aparecem na frente dos nomes locais. Os cidadãos portugueses que insultam imigrantes brasileiros e sugerem a eles que voltem para a terra de origem deveriam pensar nisto: os imigrantes portugueses que trabalham na Suíça são multidão! E não só na Suíça, em outros países é igual: França, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e outros mais. E não estou falando do século 19, mas do ano de 2023.

Posso garantir que, aqui na Suíça, jamais ouvi alguém se dirigir a um desses portugueses de maneira irrespeitosa para sugerir-lhes que voltem pra casa. As senhôras que se irritam ao cruzar com imigrantes em Portugal deveriam tomar um chazinho de humildade todas as noites antes de se deitar.

Goste-se ou não, aqui está a verdade: todos nós – todos mesmo – vimos de algum lugar.

Assembleia Francesa: convivência forçada

Nouveau Front populaire = Bloco de esquerda
Majorité présidentielle = Partido macronista
RN et alliés = Agrupamento Nacional (extrema direita)

José Horta Manzano

As eleições passaram mas o caldeirão continua fervendo na França. Por causa das surpresas que só o sistema eleitoral desse país permite, o resultado deixou a todos boquiabertos. Todos, sem exceção, foi espanto total. Até diretores de institutos de pesquisa sentiram o baque.

Até sexta-feira passada, último dia de campanha, o jovem Bardella, presidente do Agrupamento Nacional (extrema direita), já ensaiava o discurso de futuro primeiro-ministro. Imagino até que já tivesse encomendado o terno para a tomada de posse, tão convencido estava de chegar lá rapidinho. Também, os institutos de pesquisa lhe davam corda: todos indicavam que ele e seu partido atingiriam fácil fácil a marca dos 249 deputados, contingente suficiente para garantir-lhe maioria absoluta na Assemblée.

No entanto, particularidades do sistema eleitoral francês permitem, com certo malabarismo, o erguimento de um cordão sanitário em torno de um partido que não se quer que vença. É, até certo ponto, um desvio de finalidade: induz-se o eleitor a votar contra o partido indesejado em vez de votar a favor do partido preferido. No Brasil, as duas últimas eleições presidenciais já nos tornaram peritos nessa forma de desvirtuar o voto.

O fato é que, quando a boca de urna foi anunciada, o espanto foi geral. Em vez de partido dominante, o Agrupamento Nacional ficou em terceiro lugar. Não foi nenhuma débâcle mas, para quem visava o topo do pódio, foi uma lavada. Com água fria.

Esse foi o tipo de eleição em que ninguém ganhou. Por mais que os barulhentos eleitores da esquerda batam três vezes no peito, subam em monumentos, pichem edifícios públicos e clamem vitória, não ganharam. Ganhar, quando se elegem os deputados, é conseguir metade dos assentos mais um. Ficaram longe disso.

A mesma coisa se pode dizer dos centristas (macronistas) e dos Le Pen (extrema direita). Nenhum deles ganhou. Dos 577 assentos da Assembleia Nacional, o bloco de esquerda ficou com 180 e a “macronia” garantiu 163. Para os ultradireitistas, sobraram 143 assentos. O restante se distribui, picado miudinho, entre a direita moderada e os partidos menores. Como se vê,estão todos bem distante da marca dos 50% do parlamento (289 assentos).

Que vai acontecer agora? No momento em que escrevo, ninguém é capaz de dizer com certeza. O presidente Macron não aceitou a demissão do atual primeiro-ministro. Ao contrário, solicitou-lhe que segure as rédeas por enquanto, despachando as miudezas do expediente até que os parlamentares mostrem ter entrado em alguma espécie de acordo.

De fato, do jeito que está, sem um grupo majoritário, o país fica ingovernável. No Brasil, estamos hiperacostumados a isso. Nosso sistema, por falta de um ou dois partidos dominantes, sobrevive à custa de coalizões. Por um lado, é uma saída para destravar o parlamento; por outro, o risco é que os deputados se sintam suficientemente fortes a ponto de cobrar “pedágios” do governo – por meio de emendas, por exemplo. A longo prazo, isso pode custar caro à nação.

Bem, eles, que são eurodescendentes, que se entendam. A Constituição Francesa impõe prazo mínimo de um ano entre duas dissoluções da Assembleia. Portanto, por um ano, a Casa não será dissolvida e a composição vai ficar como está. Não há outra saída: eles vão ter de se entender e formar uma coalizão para formar maioria estável.

É a melhor maneira de evitar chantagem parlamentar à brasileira.

Veteranos de 1944

José Horta Manzano

Oitenta anos atrás – só os que já viveram muito podem se lembrar – agricultores franceses e raros soldados alemães presenciaram, com enorme espanto, o grande desembarque de tropas aliadas vindas do outro lado do mar para libertar a França ocupada por tropas nazistas. Eram ingleses, franceses, escoceses, poloneses, canadenses, australianos, mas principalmente um contingente de 73 mil americanos.

Tinham se concentrado durante meses do outro lado do Canal da Mancha, no sul da Inglaterra, à espera do momento favorável tanto na estratégia militar quanto na meteorologia. O clima daquela região é caprichoso, cambiante, instável, o mau tempo pode vir a qualquer momento. Naqueles tempos em que as previsões não contavam com apoio de satélites nem de meios modernos, era ainda pior.

Assim mesmo, a ordem de embarque veio dia 6 de junho de 1944, dada pelo general Eisenhower, que seria eleito presidente dos EUA 8 anos mais tarde. A travessia da Mancha se fez num mar tempestuoso. Os poucos soldados alemães postados na França, de frente para o mar, defenderam suas posições com determinação. O resultado foi um número elevado de baixas entre os que desembarcavam.

Não vamos aqui fazer um relato sobre a Segunda Guerra Mundial, que você pode encontrar melhor e mais completo na Wikipedia. Só queria acrescentar que, embora o desembarque tenha sido bem sucedido, os aliados não chegaram a Berlim no dia seguinte. Até que o último canhão se calasse, foi ainda preciso batalhar por quase um ano, com tudo o que isso acarreta de sofrimento e perdas humanas.

O mundo – nós incluídos – deve muito àqueles soldados americanos que atravessaram o oceano para arriscar sua jovem vida na Europa, numa guerra que nem era a deles. Se não tivessem ido, de duas uma: caso a Alemanha de Hitler tivessem vencido, falaríamos hoje alemão e estenderíamos o braço para a saudação nazista; se fossem os russos a derrotar a Alemanha, falaríamos hoje russo e nosso país faria parte dos satélites de Moscou. E estaríamos obedecendo a Vladímir Putin ou a outro ditador de turno.

O soldado Jake Larson em 1944 e hoje, com 101 anos.

Para comemorar este 80° aniversário do desembarque de junho de 1944, sessenta americanos sobreviventes foram convidados a fazer de novo a viagem até a França e lá passar uma semana. Dos 73 mil soldados de oitenta anos atrás, já não restam muitos. Dos que agora foram convidados, o mais ‘mocinho’ tem 96 e o mais velho, 107 anos. Estão todos muito orgulhosos e um pouco espantados de ainda estarem vivos passados tantos anos.

Quando foram lutar contra Hitler, desembarcaram com fuzil no ombro. Hoje, quase todos em cadeira de rodas, a imagem é menos guerreira mas certamente mais emocionante.

Fantasia de Halloween

José Horta Manzano

France Inter, estação de rádio pública francesa, apresenta um programa variado, todas as manhãs das 7h às 10h. Inclui um jornal falado a cada hora, entrevistas, um pouco de música e alguns quadros fixos. No fim de semana, a programação se altera um pouco mas mantém o ritmo variado.

Entre os quadros fixos, está uma rápida crônica de Guillaume Meurice, cômico francês. O rapaz geralmente tece sua fala de um ou dois minutos em torno de um assunto da atualidade.

Domingo passado, no meio de outras gracinhas, ele disse textualmente:


“Halloween está chegando e todo o mundo começa a procurar uma fantasia para assustar. Neste momento, a fantasia de Netanyahu está vendendo bem. É uma espécie de nazista, mas sem prepúcio”.


Os presentes no estúdio da rádio riram, mas houve gente que não achou graça nenhuma. Esse paralelo traçado entre o primeiro-ministro israelense e o nazismo caiu mal na comunidade judaica.

A comparação foi qualificada de “abjecta” por Madame Horvilleur, rabina francesa. “Prepúcio ou não”, ironizou ela, “eu sugeriria que o tempo das crônicas desse senhor fosse circuncidado”. Diversas outras personalidades também manifestaram repúdio à fala do cômico. Algumas vozes lembraram que a comparação havia sido pronunciada numa emissora pública, o que piora a ofensa.

A polêmica cresceu tanto que o ministro francês da Segurança Pública achou bom se manifestar no dia seguinte. Lembrou que, desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel, 819 ocorrências antisemitas já foram registradas na França.

Não disse isso para minimizar as palavras do cômico, mas para ressaltar que, sem querer, o país está sendo envolvido na guerra do Oriente Médio. Um conflito por procuração, em suma.

Nesse particular, o Brasil até que está saindo bem na foto. Os ecos do conflito nos chegam bastante atenuados.

Legalização do aborto

Anos 1970
Simone Veil apresenta sua PEC à Assembleia Nacional (Paris)

José Horta Manzano

A legalização do aborto é tema sensível em numerosas sociedades, especialmente por roçar proibições de caráter religioso. Até cem anos atrás, a interrupção voluntária de gravidez não estava legalizada em nenhum país.

A hoje extinta União Soviética (Rússia) foi a pioneira. Já em 1920, Lenin suprime a penalização do aborto voluntário. Poucos anos mais tarde, em 1936, Stalin, o novo ditador, ressuscita a antiga proibição. Foi somente após sua morte, vinte anos mais tarde, que o aborto voluntário voltou a ser aprovado, para pôr freio à mortandade decorrente dos milhares de abortos clandestinos praticados a cada ano.

Timidamente, outros países foram acompanhando o movimento, autorizando a interrupção de gravidez em casos específicos (estupro, ameaça à saúde da mãe, risco de malformação do feto).

Em 1971, o presidente francês Giscard d’Estaing encarregou Simone Veil, sua ministra da Saúde, de defender a legalização diante do Parlamento. A defesa feita pela ministra foi tão veemente que as câmaras aprovaram o texto por folgada maioria. A nova lei, aprovada em caráter experimental por quatro anos, foi confirmada em 1975 e, com algumas adaptações, está em vigor até hoje.

O governo francês tem acompanhado com preocupação a saga vivida estes últimos anos pelos Estados Unidos nesse campo, com retrocessos fomentados pela Suprema Corte e acatados por estados mais conservadores. Para blindar a lei francesa e evitar que o retrocesso americano aconteça na França no futuro, o presidente Macron está atualmente propondo uma solução preventiva.

Trata-se de um projeto de alteração da Constituição (o que nós chamamos PEC – Projeto de Emenda à Constituição). A intenção é inscrever o direito ao aborto voluntário na Constituição, o que servirá como garantia de perenidade.

Enquanto isso, em nosso país, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não está nem ao menos escrito em lei. Nem em lei nem muito menos na Constituição.

Até hoje, a coisa funciona com base num arreglo patrocinado pelas autoridades judiciárias. Os parlamentares, eleitos para fazer as leis, preferiram se esquivar e deixar que a Justiça resolva por eles. Enquanto isso, se queixam do STF, a quem acusam de “ativismo”. Vá entender.

Suas Excelências, os parlamentares, não têm tempo para gastar com essas minúcias. Cada um deles continua preferindo se dedicar em tempo integral a encontrar novos meios de cavar dinheiro público para sua própria paróquia.

Ministros do Supremo

José Horta Manzano

Suponho que todo país democrático, como o nosso, conte com uma corte suprema. Em certas repúblicas, a magistratura suprema é exercidas por duas diferentes instituições.

Na França, por exemplo, a única atribuição da Corte Constitucional é certificar a constitucionalidade (ou não) das leis feitas pelos parlamentares. Em caso de controvérsia, é essa Corte que dá a palavra final.

Em paralelo, há também a Corte de Cassação, que corresponde a nosso tribunal de terceira instância. Na França, sua função não é julgar processos. A primeira e a segunda instâncias são as que julgam. Esta terceira instância, se for provocada, analisa o processo e dá sua aprovação à decisão tomada na instância inferior ou, se for o caso, cassa a decisão da segunda instância – daí o nome de Corte de Cassação. Nesse caso, o processo dá um passo atrás e faz o caminho de volta para ser de novo julgado.

No Brasil, uma mesma instituição – o Supremo Tribunal Federal – exerce as duas funções: corte constitucional e última instância judicial. Com a particularidade de não somente cassar decisões anteriores, mas também, em casos específicos, de agir como tribunal comum e julgar processos.

Nosso sistema não é melhor nem pior que o dos outros, com a ressalva de que essa dupla função representa enorme volume de trabalho para os ministros. Espero (e acredito) que eles estejam sendo bem assessorados.

Nos países com os quais tenho contacto mais chegado (Europa ocidental), não me lembro de ter visto ou ouvido algum membro de corte suprema se pronunciar em público ou dar entrevista. Em geral, a população sequer conhece o nome dos componentes do colegiado.

Já no Brasil, não sei por que razão, todos conhecem os 11 ministros do Supremo, com nome, sobrenome, idade, estado de origem, situação familiar, salário. Também, pudera: dia sim, outro também, os magistrados aparecem na mídia. Dão entrevista, arriscam palpite em assuntos delicados, parecem adorar um palco iluminado. É curioso.

Lula fez hoje um pronunciamento em que abordou o assunto da discrição dos ministros do STF. O presidente gostaria que os votos de cada magistrado fosse emitido discretamente, sem anúncio público, o que evitaria espetáculos selvagens como torcida, apostas, apupos, insultos por rede social.

Olhe, quem me lê sabe que não costumo concordar com Luiz Inácio. No entanto, exceções às vezes acontecem: estou perfeitamente de acordo com ele nessa matéria.

Depois de anos de estrelato por parte de ministros do STF, a população está desorientada. Imagina que o normal seja esse: aplaudir o Ministro X em avião ou agredir o Ministro Y no aeroporto.

É complicado dar ordens a Suas Excelências. Assim mesmo, os gênios da comunicação que se encarregam de propaganda institucional deveriam ser convocados para porem mãos à obra. O povo brasileiro tem de entender que o STF funciona em sistema de colegiado, ou seja, o que conta é o voto final. Como votou cada ministro individualmente é ponto irrelevante, que deveria ficar entre quatro paredes. Não sei se isso pode ser feito sem ferir a Constituição.

Artista de palco, de show e de streaming é uma coisa; ministro do STF é outra. As duas carreiras não se confundem. Precisamos devolver a serenidade ao debate nacional, e isso começa com a discrição de Suas Excelências.

Que Lula anote bem o elogio. Que não se acostume porque é raridade.

Mofo nobre

Sauternes de diferentes produtores

Você sabia?

José Horta Manzano

Mofou, tem de jogar fora. Tem mesmo? Nem sempre. Há males que vêm para bem.

Na Idade Média, uma das atividades favoritas dos senhores feudais era a guerra. Por um sim, por um não, juntavam seus vassalos e partiam para medir forças com um outro senhor. O século XVI já anunciava outros tempos, mas certos hábitos antigos continuavam arraigados.

Conta uma lenda que, por aqueles tempos, um proprietário de terras da região de Sauternes (perto de Bordeaux, no sudoeste da França) foi à guerra. Como imaginava estar logo de volta, deixou ordens claras: fazia questão de que esperassem sua chegada para iniciar a vindima, a colheita das uvas.

As coisas não correram exatamente como ele imaginava. A contenda se prolongou e não lhe foi possível voltar a tempo para a colheita. Temerosos, seus camponeses não ousaram tocar nas uvas antes do retorno do patrão.

Quando finalmente voltou a suas terras, o proprietário constatou que as uvas, ainda não colhidas, estavam já meio mofadas. Perdido por perdido, decidiu que a vindima se fizesse assim mesmo.

As uvas foram colhidas, pisadas, e o processo de vinificação foi lançado. Alguns meses depois, a abertura da primeira barrica trouxe uma surpresa muito agradável: o vinho, habitualmente medíocre e bastante ácido, desta vez parecia um néctar feito no céu. Licoroso, docinho, frutado, um luxo!

Os proprietários da região logo se deram conta de que o fato de haver esperado que as uvas mofassem tinha provocado aquela magia. Não entenderam como era possível, mas adotaram a nova técnica assim mesmo.

Passaram-se os séculos, e se manteve a técnica de só colher as uvas depois de engrouvinharem, adquirindo aspecto de uva-passa. Os enólogos têm hoje explicação científica para a miraculosa transmutação de um vinho à toa em delícia rara. Descobriram que, sob certas condições de umidade e temperatura, colônias de fungos microscópicos do gênero Botrytis Cinerea podem se formar. O microclima da região de Sauternes se caracteriza justamente por nevoeiros úmidos no início do outono, um pouco antes da época da vindima.

O mofo nobre

Esse fungo, quando afeta outras frutas, é catastrófico: toda a colheita pode estar comprometida. No entanto, quando ataca as vinhas, faz que a água dos bagos se evapore, aumentando a concentração de açúcar. Provoca o chamado mofo nobre. O resultado é um vinho naturalmente doce e ligeiramente licoroso. A cor da bebida também se altera, tornando-se um elegante amarelo alaranjado – ambré, como dizem os franceses.

Como acompanhamento de um queijo roquefort, um gole de Sauternes é uma dádiva. O sabor ligeiramente açucarado suaviza a aspereza do queijo de ovelha. É um fecho excelente para uma refeição de réveillon.

A consumir com moderação, naturalmente.

A pequena rainha

Bicicleta 2

clique para ampliar

José Horta Manzano

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a pequena rainha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de “magrelinhas”. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a largada é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é conhecida como Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

O troféu da corrida Paris-Roubaix

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte da corrida se efetuar em estrada de paralelepípedos (em geral úmidos, visto que a região é chuvosa). Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que esses 257 km representam de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

Publicado originalmente em 13 abril 2014.

Fronteira entre os pés e a cabeça

Hôtel Franco-Suisse
clique para ampliar

José Horta Manzano

Você sabia?

Muitas das fronteiras entre o Brasil e os países vizinhos cruzam zonas escassamente povoadas, notadamente na região amazônica. Uma linha demarcatória tanto pode seguir cursos d’água – caso em que será dita «fronteira natural», como pode ser representada por divisor de águas ou por traçado artificial riscado num mapa. Neste caso, teremos uma «fronteira seca».

Fronteiras secas costumam ser assinaladas por balizas plantadas no solo. Antigamente, eram de pedra. Hoje em dia, é mais comum o concreto. A elas dá-se o nome de marcos divisórios ou geodésicos.

No Brasil, certos trechos de fronteira contam com balizas bastante espaçadas, uma aqui, outra quilômetros adiante. No fundo, tanto faz, que pouca gente passa de um lado para o outro. Na Europa, dada a densidade da população, fronteiras são demarcadas com bastante rigor.

Marco divisório suíço

O Tratado de Dappes, acertado em 1862 entre a França e a Suíça, delimita com precisão um trecho da fronteira entre os dois países na região dos Montes Jura. O acordo, concluído em dezembro daquele ano, ficou programado para entrar em vigor em fevereiro do ano seguinte.

Um certo Monsieur Ponthus, proprietário de um terreno no povoado de La Cure, ficou sabendo que seu lote seria atravessado pela nova fronteira. Aproveitou-se do intervalo e, pelas caladas e às pressas, erigiu imóvel provisório bem em cima da linha. A intenção era de contrabandear chocolate, tabaco e bebidas alcoólicas.

Assim que o tratado entrou em vigor, a construção era fato consumado – e com porta dos dois lados da fronteira, faz favor. E assim foi ficando. Com o tempo, os sucessores do esperto cavalheiro ampliaram o imóvel e o transformaram em hotel-restaurante. O estabelecimento funciona até hoje.

Alguns quartos do hotel oferecem ao hóspede a curiosa possibilidade de dormir com a cabeça na Suíça e os pés na França. Ou vice-versa. Na escada que leva ao segundo andar, o 7° degrau marca a fronteira entre os dois países. Alguns asseguram que a linha verdadeira passa pelo 13° degrau. A controvérsia persiste.

O hotel e a fronteira

Durante a Segunda Guerra, com a França ocupada pelo exército alemão enquanto a Suíça permanecia neutra, a singularidade do local deu margem a uma movimentação sui generis. Além do contrabando habitual, inúmeros judeus perseguidos pelos nazistas conseguiram escapar entrando pelo lado francês e saindo do outro lado, já na Suíça, onde os alemães não podiam intervir. Dizem que outros fugitivos seguiram o mesmo caminho – paraquedistas ingleses entre eles. É verdade que não durou muito tempo. Militares alemães logo se deram conta do vazamento e condenaram portas e janelas do lado francês. Depois de tudo emparedado, ninguém mais passou.

Impávido, o Hôtel Franco-Suisse continua lá até hoje. Nestes tempos modernos, sem os controles de antigamente, a alfândega é relíquia de outras eras.

O imóvel representa um quebra-cabeça administrativo tanto para a França quanto para a Suíça. A situação é tão intrincada que Paris e Berna preferem empurrar com a barriga e deixar como está. Não vale a pena travar batalha judicial por tão pouco.

Publicado originalmente em 6 jul° 2015.

Liberdade de expressão: até onde?

Assembleia Nacional francesa

José Horta Manzano

Dois dias atrás registrou-se um incidente grave na Assembleia Nacional da França (que corresponde a nossa Câmara Federal). Ao microfone, um deputado pedia esclarecimentos ao governo sobre um navio pertencente a uma ong, que vagava pelo Mediterrâneo em busca de um porto europeu que acolhesse os migrantes que ele trazia a bordo.

De repente, ouve-se o grito de um deputado vindo do outro lado do anfiteatro. Muito erodida foneticamente, a língua francesa propicia o aparecimento de homófonos, palavras que soam igual mas têm significados diferentes. A frase que se ouviu foi:

   Qu’ils retournent en Afrique!
= Que eles voltem para a África!

Acontece que Monsieur Bilongo, o deputado que denunciava o descaso para com o navio, é preto de cor. Francês, nascido na França, legitimamente eleito pelo povo, mas… preto. Tendo em mente esse importante detalhe, boa parte dos parlamentares interpretou a frase como:

   Qu’il retourne en Afrique!
= Que ele volte para a África!

As duas frases se pronunciam exatamente da mesma maneira. Só o contexto faz a diferença. Dado que a frase era solta, sem contexto, a dúvida ficou. Nesta segunda opção, o contestador estaria se dirigindo pessoalmente ao discursante, criando assim um contexto de ofensa racial.

O escândalo se instalou entre os parlamentares. A revolta foi grande, todos se levantaram e falavam alto ao mesmo tempo. A presidente da câmara foi obrigada a encerrar a sessão. O caso ficou de ser levado ao comitê disciplinar, que decidirá o tipo de sanção a adotar.

Os apoiadores do partido do deputado ofensor (de extrema-direita) são os únicos que não viram nada de mais no comportamento dele. Os outros – de esquerda, centro e direita – se dividem entre os que acreditam que a frase foi dita no plural e os que juram que ela foi pronunciada no singular, numa ofensa direta ao discursante negro.

Seja como for, singular ou plural, não é frase que se pronuncie na Assembleia Nacional. O comitê da Câmara não tem poder para cassar o mandato do deputado, mas pode condená-lo a uma suspensão temporária com perda de salário.

Esse acontecimento deixa no ar uma dúvida interessante. Em 2023, diversos estreantes se instalarão Congresso Nacional, em Brasília. Boa parte deles professa ideologia sabidamente de extrema-direita, com valores de exclusão de diferentes grupos, seja por razões étnicas, sexuais, religiosas, territoriais & afins.

No Brasil, não temos problemas imigratórios que possam gerar xenofobia. Mais dia, menos dia, um dos noviços vai derrapar e ofender pesadamente alguma minoria, seguindo a cartilha do capitão. Como vão então reagir seus pares? Vão denunciar e adotar uma sanção? Ou simplesmente vão deixar pra lá, incitando outros parlamentares a se pronunciarem com virulência cada vez maior?

Observação
Escutei meia dúzia de vezes o vídeo do episódio. Minha conclusão é ainda pior. Não distingo o “que” inicial. O que ouço é:

“Retourne en Afrique!”

É frase no imperativo, sem homofonia possível. Se assim for, significa:

Volta pra África!

Só faltou acrescentar “seu vagabundo”.

Naturalmente meus velhos ouvidos podem me enganar.

Breaking news
A Comissão de Ética da Assembleia Nacional Francesa impôs ao autor da interpelação racista a pena mais rigorosa de seu arsenal: interdição de presença durante as próximas 15 sessões do parlamento. Além disso, o salário do deputado será cortado pela metade durante dois meses. Pra coroar, a penalidade será ficará registrada para sempre nos anais da República.

Trata-se de sanção raríssima. Nos últimos 65 anos, é a segunda vez que um parlamentar recebe penalidade tão pesada. No futuro, todos vão pensar duas vezes antes de soltar ofensas.

Se acabou

João Selva, cantor e compositor carioca

José Horta Manzano

Hoje, logo depois do almoço, estava eu tranquilamente na cozinha pondo ordem em panelas, pratos e talheres. Observe-se que deste lado do mundo, pra pagar serviçais, precisa ser abastado. O rei da Inglaterra, por exemplo, com os bilhões que já tem mais outros tantos que acaba de herdar, tem quem lhe arrume a cozinha. Eu não tenho.

O rádio estava ligado. O locutor comentava das algas que infestam os grandes lagos pré-alpinos. E continuava falando de algas comestíveis, que alguns gostam de misturar na salada. Eu ouvia sem escutar, que o assunto não era lá tão interessante. Eis senão quando, entra um intervalo musical. E a música me pareceu familiar.

O ritmo estava entre o baião e a marchinha de carnaval. Acompanhamento singelo e uma voz masculina suave. Prestei atenção na letra. Dizia:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Em seguida falava em galo, galinha, periquito, carcará e toda a animália que pode caber numa letra de música. A imagem era de a bicharada toda estar comemorando a despedida do capitão. E voltava o refrão:

Se acabou, fora Bolsonaro!
Se acabou, fora capitão!

Pensei: “Puxa, será que o horário de propaganda eleitoral gratuita chegou até aqui?” Logo me dei conta de que a ideia era absurda. Que tolice!

Cogitei então que os candidatos de oposição a Bolsonaro tivessem feito uma vaquinha pra inserir um anúncio pago na rádio pública suíça. Cheguei logo à conclusão de que a ideia não fazia sentido. É verdade que a colônia tem aumentado e que somos hoje dezenas de milhares de conterrâneos no país; assim mesmo, não dá um contingente em que valha a pena investir.

Em seguida, pensei em mais uma explicação para o fato de a rádio suíça estar tocando uma musiquinha anti-bolsonarista às vésperas da eleição brasileira. Certamente estão dando a contribuição que podem para abrir os olhos daqueles que ainda teimam em mantê-los fechados.

Não acredito que funcione. Ninguém consegue ensinar uma avestruz a desenterrar a cabeça. Assim mesmo, fico grato aos serviços públicos de radiodifusão do país pela boa vontade.

O autor
O locutor descreveu a musiquinha como “Sê acabú” cantada por “Joaô Sellvá”. Traduzi: Se acabou, por João Selva.

Nunca tinha ouvido falar nesse artista. Fui pesquisar e fiquei sabendo que se trata de um carioca que se casou com uma moça de Guadalupe (ilha francesa do Caribe) e se estabeleceu na França há alguns anos. Não sei se é conhecido no Brasil, mas em seu país de adoção lança discos, participa de festivais e se apresenta em programas de rádio.

Se você quiser ouvir um trechinho, está aqui no Youtube.