Um susto italiano

José Horta Manzano

Susto não foi, porque já fazia semanas que as pesquisas estavam mostrando a tendência. Assim mesmo, quando a boca de urna confirmou a vitória da extrema-direita nas eleições italianas, um calafrio percorreu Oropa, França e Bahia. A primeira página de jornais mundo afora reflete o choque.

Afinal a Itália, além de ser membro fundador da União Europeia, é sua terceira economia. Uma Itália que hesitasse a seguir caminho com os demais parceiros seria um golpe extremamente pesado, do qual a UE teria dificuldade em levantar-se. Num momento em que há uma guerra trovejando no continente, é pra lá de importante que todos se mantenham unidos.

Li e ouvi numerosas análises, cada uma com sua explicação do resultado das urnas. “Como é possível que os italianos estejam se mostrando saudosos de um passado fascista?” “Onde foi parar a esquerda, relegada ao papel de simples figurante no próximo parlamento?” “Como explicar essa deriva ‘trumpista’ que tomou conta da península?”

Acredito que, para abraçar o problema e encontrar a resposta, não precisa muita filosofia – uma análise terra a terra do ânimo dos eleitores é suficiente. Muitos povos, se não for a humanidade inteira, vivem à espera do homem providencial, aquele que virá salvar a lavoura e a pátria inteira. É um estado de espírito problemático, pois a entrega do destino de um país nas mãos de um único indivíduo costuma terminar em desastre.

A Alemanha de Hitler conheceu esse destino; os EUA de Trump também; a Rússia de Stalin, a Líbia de Kadafi, a Nicarágua de Ortega idem. E decerto a própria Itália de Mussolini. Mas não vamos exagerar. A república italiana, tal como está estruturada pela Constituição de 1946, conta com pêndulos e contrapoderes que tendem a equilibrar a governança.

A razão pela qual os italianos votaram no partido da Signora Meloni (Fratelli d’Italia) não tem tanto a ver com ideologia, mas com as dificuldades do dia a dia. Carestia, desemprego, inflação, juros altos, queda do poder aquisitivo – essas são as engrenagens que levaram ao voto de extrema-direita. O pequeno comerciante obrigado a trabalhar 14 horas por dia pra tirar um salário magrinho no fim do mês é tipicamente um eleitor insatisfeito com o sistema.

Nos últimos anos, a Itália conheceu governos de esquerda moderada, de direita moderada, de centro-esquerda, de centro-direita. Aos olhos de muitos, o país continua empacado. Por isso, decidiram votar num partido que, apesar de trazer vapores tóxicos de um fascismo idealizado, lhes pareceu capaz de levantar o país. Foi assim que investiram Signora Meloni no papel de salvadora da pátria.

A meu ver, a situação guarda certa semelhança com o Brasil de 2018. Quase ninguém estava querendo implantar a extrema-direita no país. O grande motor do voto foi a ojeriza ao lulopetismo. Bolsonaro foi o candidato que pareceu encarnar mais virulentamente o antipetismo. Por isso e para isso foi eleito.

Não se pode – nem se deve – acreditar que a Itália está à beira de um novo período de obscurantismo medieval, de leis raciais e de perseguição de oponentes e de homossexuais. Se os contrapoderes internos não forem suficientes, a União Europeia tem argumentos muito poderosos, como por exemplo o repasse periódico de dezenas de bilhões de euros a que Roma tem direito.

Pra finalizar, convém relativizar. Somente 64% dos eleitores votaram, o que significa que 1 em cada 3 italianos ficou em casa num domingo de chuva. O partido vencedor ficou com apenas 26% do total. Se calcularmos 26% de 64%, veremos que menos de 17% dos eleitores votaram para Fratelli d’Italia. Não é o caso de puxar os cabelos e começar a gritar.

Abaixo, a primeira página da edição impressa de uma seleção de jornais no dia seguinte ao do voto.

 

Il Giornale, Itália
A manchete faz trocadilho com a letra do hino nacional

 

 

The Times, Londres (Reino Unido)

 

 

Corriere della Sera, Itália

 

 

O Estado de São Paulo, Brasil

 

 

El País, Madrid (Espanha)

 

 

“I”, Portugal

 

 

La Vanguardia, Barcelona (Espanha)

 

 

Ara, Catalunha (Espanha)

 

 

De Morgen, Antuérpia (Bélgica)

Bolsonaro e os cristãos perseguidos

Perseguição aos cristãos

José Horta Manzano


“Quero aqui anunciar que o Brasil abre suas portas para acolher os padres e freiras católicos que tem sofrido cruel perseguição do regime ditatorial da Nicarágua. O Brasil repudia a perseguição religiosa em qualquer lugar do mundo.”

Trecho do discurso proferido por Bolsonaro na ONU em 20 set° 2022


Até quando tenta mostrar uma faceta pseudo-humanitária, o capitão é desonesto e distorce a realidade. Até quando quer parecer bonzinho, ele expõe seu lado clivante e discriminatório.

À primeira vista, quem acompanhou o trecho do discurso que citei acima fica com a impressão de que finalmente o presidente conseguiu exprimir um sentimento de empatia, ainda que tardio. A farsa, no entanto, desaba quando se toma conhecimento da impiedosa perseguição que sofrem os cristão mundo afora.

A ong Open Doors (Portas Abertas), fundada em 1955 por um fervoroso holandês, milita em favor dos 360 milhões de cristãos perseguidos no planeta simplesmente pelo motivo de serem cristãos.

Essa ong protestante publica todos os anos um “índice mundial” da repressão aos cristãos, esmiuçando todos os tipos de maus tratos. Em seguida, classifica os países numa escala que vai de “opressão diária discreta” até “violências extremas”. Frise-se que a imensa maioria das vítimas são de religião católica.

Em 2021, mais de 360 milhões de cristãos foram vítimas de perseguição, com variados graus de violência. Eles são católicos, ortodoxos, protestantes, batistas, evangélicos, pentecostais e outras denominações – distribuídos por 76 países. O número de cristãos assassinados em 2021 foi de 5.898. O número de igrejas e templos fechados, atacados ou destruídos foi de 5.110.

A China é a campeã de fechamento de igrejas. Aproveitando-se da crise da covid, quando tudo foi fechado, deixaram de autorizar a reabertura de templos cristãos. A Nigéria é a que mais assassina cristãos. O Afeganistão, desde que os talibãs assumiram o poder, é o pior país para um cristão viver sua fé.

A ilustração mostra os 50 países em que a perseguição dos cristãos é mais intensa. Observando bem, vê-se que a Nicarágua, citada no discurso de Bolsonaro, não aparece. Por que, então, esse país aparece na fala presidencial? Por que o Brasil só abre as portas para nicaraguenses, abandonando os demais à própria sorte?

Há duas hipóteses.

A primeira é que a equipe presidencial simplesmente não sabia da existência dessa ong – que, por sinal, está implantada também no Brasil. Sabe como é, falou em “ong”, Bolsonaro se arrepia todo, imaginando que são todos vagabundos de olho em nossas riquezas minerais. Logo, por esta primeira hipótese, a citação da Nicarágua no discurso fica por conta da ignorância presidencial.

A segunda hipótese é mais sutil. Sabedor de que Lula parece apreciar o ditador da Nicarágua a ponto de chamá-lo de “companheiro”, Bolsonaro quis matar dois coelhos de uma só cajadada. Deu uma alfinetada no Lula ao lembrar que o regime do “companheiro” nicaraguense persegue religiosos e mostrou-se magnânimo abrindo as portas do Brasil para acolher os perseguidos. Logo, esta segunda hipótese fica por conta da perfídia presidencial.

Pensando bem, o mais provável é que as duas hipóteses sejam verdadeiras, o que nos leva ao cruzamento da ignorância presidencial com a perfídia presidencial. Que Deus nos acuda!

A avó da Europa

Lago de Lucerna (Suíça)
aquarela pintada pela rainha Victoria em 1868

José Horta Manzano

Recordes são feitos pra serem batidos. Antes do longo reinado de Elizabeth II, o recorde de longevidade no trono britânico tinha sido proeza de sua bisavó, a rainha Victoria (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e reinou por 64 anos, até sua morte.

Aos 21 anos, em 1840, casou-se com Albert, um príncipe alemão. Tiveram nove filhos e quarenta netos. Muitos descendentes se casaram com membros da realeza europeia.

Seus bisnetos – contando só os legítimos – são 142. Entre eles, há gente conhecida: a rainha Elizabeth II e o marido Philip, o rei Juan Carlos I da Espanha e sua mulher Sofia, o rei Constantino II da Grécia e sua mulher Anne-Marie.

Além desses descendentes que se casaram com primos distantes, há outros: o rei Harald V da Noruega, o rei Carl XVI Gustaf da Suécia, a rainha Margrethe II da Dinamarca, o rei Peter II da Iugoslávia e o rei Michel I da Romênia.

Nesse elenco, só aparecem os bisnetos que se tornaram reis; ficam de fora príncipes, duques, viscondes e quetais.

Victoria enviuvou em 1861, aos 42 anos. Daí pr’a frente, perdeu gosto pela vida. Vestiu-se de preto e nunca mais abandonou o luto. Alguns anos depois da morte do marido, chegou a um estado de grande cansaço, de desânimo, de estafa. Hoje o diagnóstico seria certamente mais sofisticado; na época, falou-se de esgotamento nervoso.

Foi organizada uma viagem de algumas semanas à Suíça. Para espairecer e mudar de ares, a rainha veio em 1868. Testemunhas relatam que ela adorou a temporada. Dado que ela falava alemão, pôde conversar com gente do povo, especialmente com trabalhadores agrícolas. Ficou encantada de ver que as vacas tinham nome e que, quando seu nome era pronunciado, cada uma respondia ao chamado e se aproximava. Na Inglaterra, tinha disso não.

A rainha, que gostava de pintar, registrou a paisagem que vislumbrava do Lago de Lucerna. É a imagem que ilustra este artigo.

Victoria é, de certa forma, a “avó da Europa” – ou, pelo menos, da realeza europeia.

O king

José Horta Manzano

Uma parte dos britânicos tem o sentimento de que a monarquia, ainda que constitucional, é tradição empoeirada, que não combina com os tempos atuais. As gerações mais antigas são mais complacentes e não se sentem chocadas pelos gastos engendrados pela família real. Já os mais jovens são menos indulgentes.

Nos últimos setenta anos, toda discussão séria em torno da abolição da monarquia foi inibida pela personalidade carismática da rainha Elizabeth II. O magnetismo da monarca era tão grande que abafou toda dissensão. A maioria dos britânicos sentia orgulho de sua rainha e, colateralmente, da família real – apesar das estrepolias. (Ou talvez por causa delas.)

Esta semana, ainda estamos em período de luto. A comoção provocada pelo falecimento de Elizabeth II ainda paira no ar. O reino tem novo rei, mas, na verdade, a ficha ainda não caiu. Só a partir da semana que vem, quando a poeira baixar, é que os súditos vão pouco a pouco encarar a nova realidade.

Uma pesquisa do site britânico YouGov, feita no primeiro semestre deste ano para aferir a popularidade dos membros da família real, informa que o (agora) rei Charles III ocupava um obscuro 12° posto. Em primeiro, aparece a rainha, com 68% de popularidade. Seguem-se os filhos de Charles, as noras, a irmã (Anne), a esposa (Camilla) e até algumas sobrinhas. Charles alcançava apenas 34% de popularidade, nível muito baixo para um rei.

A emoção da perda da rainha fez que a popularidade do novo rei subisse imediatamente. Mas não há que se deixar enganar por esse movimento. O que sobe muito rápido hoje pode descer amanhã com a mesma rapidez. Bastam dois ou três escorregões do novo monarca.

Ele nem esperou passar o período de luto para começar a escorregar. Pelo menos em duas ocasiões, já mostrou diante das câmeras toda a sua arrogância e todo o seu mau humor. Comporta-se como um ser superior, que todos são obrigados a temer e a reverenciar.

Num dos episódios, no momento de assinar uns documentos, a caneta vazou. O soberano deu um piti, saiu praguejando, largou a esposa desamparada falando sozinha.

O outro vexame também ocorreu na hora de assinar papéis. (Francamente, parece que Charles tem um problema com canetas.) Incapaz de encontrar um lugar na mesinha para acomodar a bandejinha com as canetas, fez uma careta de impaciência, sacudiu a bandeja para chamar um serviçal e obrigou-o a vir correndo tirar o pequeno porta-canetas para ele conseguir assinar. Foi um acesso de arrogância explícita.

A continuar desse jeito, sua popularidade vai pro beleléu, e a aventura pode terminar mal. A Grã-Bretanha, que já teve seu Brexit, pode perfeitamente ter um Kingxit.

Este mar é meu

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão águas territoriais define, em grandes linhas, a superfície marítima que pertence a cada país com saída para o mar. Até o século XIX, o assunto não aparecia entre as preocupações maiores.

Naquele tempo, considerava-se que as águas territoriais se estendiam até 3 milhas da costa (menos de 6km), que era o alcance de um tiro de canhão. Essa distância era suficiente para proteger o país  contra ataques vindos do mar.

Brasil – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Brasil – Zona Econômica Exclusiva
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O século XX trouxe outra visão de mundo. O litoral adjacente a cada país passou a ser olhado como zona de exploração econômica – para atividades pesqueiras principalmente. Convencionou-se então fixar o limite das águas territoriais em 12 milhas marítimas, cerca de 22km.

A partir dos anos 70, alguns Estados pressionaram para conseguir que sua zona de exploração fosse alargada. Depois de anos de discussão, uma convenção foi assinada em 1982 em Montego Bay. Ela põe os pingos nos ii, dá nome aos bois e fixa limites precisos. Define com precisão as expressões mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva, plataforma continental e águas internacionais. Fixa em 200 milhas a contar da costa (370km) o limite da zona econômica exclusiva.

França – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

França – Zona Econômica Exclusiva
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O país «proprietário» exerce domínio exclusivo sobre as 200 milhas que lhe são atribuídas. Seus direitos englobam a coluna d’água e o subsolo sobre o qual ela se assenta. O dono é o único com direito a pescar e extrair do subsolo o que bem entender. Está em casa.

Quando se fica sabendo dessas particularidades, entende-se melhor por que certos países beiram conflito armado pela posse de ilhotas desertas e inabitadas. É o caso do diferendo entre a Rússia e o Japão sobre as Ilhas Curilas.

A China é outro país que batalha pela posse de ilhazinhas das quais ninguém nunca ouviu falar. Não fosse a Convenção de Montego Bay, o petróleo brasileiro de alto-mar poderia ser explorado pelo primeiro que chegasse. O icônico pré-sal incluído.

Chile – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Chile – Zona Econômica Exclusiva
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A convenção de 1982 deixou uma brecha. Estabeleceu que a zona exclusiva de cada país pode ser prolongada até um máximo de 650km, caso o interessado assim o deseje. Só tem um porém: a partir de 200 milhas, o «proprietário» só tem direito exclusivo para exploração das riquezas do subsolo. A coluna d’agua é internacional, aberta a todos. A água e tudo o que ela contém naturalmente.

Valendo-se dessa brecha, em 2015 a França estendeu sua zona exclusiva de exploração do subsolo marinho a 650km. Visto que possui pequenas ilhas espalhadas pelo globo, o país acrescentou meio milhão de quilômetros quadrados à superfície de que já dispunha.

Com isso, pelo critério de zona econômica exclusiva, os onze milhões e meio de quilômetros quadrados franceses ultrapassam todos os outros países. Nesse quesito, a França ocupa doravante o primeiro lugar. Surpreendente, não? O Brasil só aparece em 12° lugar, com pouco mais de 3,5 milhões de km2, atrás do Japão e até do Chile.

Petroleo 2

Essa história de zona exclusiva pode parecer bobagem mas não é. A China anda construindo navios para exploração mineral em alto-mar. Ao longo da navegação, a água vai passando por sistema de filtragem que retém o que interessa: ouro, titânio ou qualquer outro mineral raro e precioso. Quem diria, não?

Publicado originalmente em 22 out° 2015.

Sua Majestade, o rei

José Horta Manzano

Dizem que a morte de um ancião nunca é uma tragédia mas o caso da rainha Elizabeth talvez seja a exceção que confirma a regra. Ela era, com certeza, a pessoa mais conhecida do mundo, e seu desaparecimento deixa um vazio. Todos os veículos da imprensa mundial, sem exceção, dão destaque hoje à morte da rainha.

Na Inglaterra, até aqueles que são contra a monarquia e que gostariam que a instituição fosse abolida apreciavam e, sobretudo, respeitavam Elizabeth II. Ela era como um rochedo, sempre firme no meio das tempestades.

Ninguém nunca soube o que ela pensava. A rainha permaneceu a vida toda fiel ao dever de reserva que impôs a si mesma. Dizem uns que ela era a favor do Brexit; outros garantem que nunca ela apoiaria uma ideia tão maluca – ao fim e ao cabo, não saberemos jamais.

De longe a personalidade mais fotografada do mundo, ela deixava qualquer estrela do cinema ou das artes comendo poeira. Elizabeth II visitou praticamente todos os países, mas – curiosidade singular: nunca teve passaporte.

A rainha nunca teve documento de identidade. Sempre carregava uma bolsa cuja utilidade era desconhecida. Não pagava nenhuma compra. Não entrava em nenhuma loja. Nunca foi ao cinema. Nunca fez compra numa padaria ou num açougue. Não deve nunca ter usado dinheiro vivo. Talvez nunca tenha entrado numa cozinha. Dá pra imaginar passar 70 anos num regime rígido assim?

Ela vai fazer muita falta. Não fosse ela, a monarquia britânica já teria desmoronado. Vamos ver se o novo rei aguenta o tranco. Não será fácil, visto que sua popularidade é bem mais baixa que a da mãe, sem contar a esposa, vista por muitos britânicos como uma intrusa.

Não será fácil preencher o vácuo deixado por Elizabeth. Não é o filho nem a nora que têm carisma para isso. Num futuro mais distante, quem sabe.

Por enquanto, la reine est morte, vive le roi! – a rainha morreu, viva o rei!

PS
Charles não é obrigado a conservar o nome de batismo. Pode adotar um outro nome que lhe agrade, a escolha é dele. Seu avô, pai de Elizabeth, nasceu Albert, mas reinou como George VI. Saberemos rapidamente.

O ministério inglês e o nosso

José Horta Manzano

Nestes dias de bicentenário da independência, a desfaçatez ostentatória do capitão tem ocupado todo o espaço midiático. É como um Carnaval fora de época: tudo o que não for coberto de paetês e lantejoulas vira nota de rodapé.

Talvez o distinto leitor tenha vagamente tomado conhecimento da troca de primeiros-ministros no Reino Unido, onde Boris Johnson cedeu seu lugar a Liz Truss. Em princípio, não é esperado nenhum terremoto na política do país, visto que o governo continua nas mãos do Partido Conservador.

No entanto, assim que Ms. Truss anunciou seu ministério, ficou flagrante uma mudança de época. Foi-se o tempo em que bastava ser um homem branco para ter certeza de subir com facilidade os degraus do poder, deixando eventuais concorrentes a comer poeira. Pra começo de conversa, a primeira-ministra é uma mulher. Não é a primeira, mas, antes dela, só duas outras haviam ocupado esse cargo: Margaret Thatcher e Theresa May.

Pela primeira vez na história, entre os membros mais importantes do gabinete, nenhum se enquadra no padrão tradicional “male & pale” – de sexo masculino e pele clara. Os sete principais são: Kwasi Kwarteng, Suella Braverman, Thérèse Coffey, James Cleverly, Nadhim Zahawi, Kemi Badenoch et Ranil Jayawardena. Com uma única exceção, todos eles são cidadãos britânicos oriundos de imigração recente. Não têm a pele, o cabelo nem os olhos claros que a gente costuma atribuir aos anglo-saxões.

A composição do gabinete não é fruto de um capricho da nova chefe de governo. Entre os oito que concorreram ao cargo de primeiro-ministro, quatro eram mulheres enquanto os outros quatro eram homens descendentes de imigrantes. Esses cidadãos não se filiaram ao Partido Conservador por acaso; são apoiadores fervorosos do Brexit e de pautas liberais. A composição do novo governo é a prova de que a Grã-Bretanha teve sucesso na integração de imigrantes das antigas colônias. Em apenas meio século, descendentes de povos exóticos conquistaram o status de cidadãos britânicos como os demais.

Esse arco-íris ministerial de peles alvas e escuras, de tipos escandinavos e paquistaneses, de olhos cuja cor varia entre a água-marinha e o negro profundo é único na Europa, quiçá no mundo. Na França, que também recebeu correntes de imigração provenientes das antigas colônias, não se encontra a mesma diversidade no topo do poder. Quando muito, um negro aqui, um árabe acolá, geralmente em cargos de menor importância.

E o Brasil? Num país como o nosso, onde a miscigenação começou há meio milênio e resultou num contingente populacional em que mais da metade dos integrantes são mestiços, como é que ficam as coisas? Pois nossa situação está longe do exemplo da Inglaterra. A diversidade de nossa população não se reflete nas altas esferas. Nos ministérios de Brasília, encontrar uma mulher é coisa rara; um mestiço, então, mais raro ainda. No quesito representatividade dos variados estratos de nossa população, permanecemos fincados nos tempos coloniais.

Na era PT, apesar das barbaridades que cometeram, Lula e Dilma tiveram a sensibilidade de escolher ministros que escapassem do paradigma “homem e branco”. No governo Bolsonaro, demos um passo atrás. O capitão reforçou o sentimento de que, fora do padrão “homem e branco”, só há cidadãos de segunda classe.

É um tremendo erro considerar que só homens brancos estão habilitados a condividir o poder. Nossa diversidade cultural, racial e religiosa é o que é. Veio e está aí pra ficar. Quem a ignora incorre no mesmo tipo de negacionismo que os que consideraram a covid uma gripezinha: serão atropelados pela realidade.

Somos o que somos, e só no dia em que reconhecermos essa realidade teremos alguma chance de ver nosso processo civilizatório desempacar.

Pedras da fome

José Horta Manzano

Você sabia?

As mudanças climáticas, que enfrentam o negacionismo de gente desinformada ou de má-fé, têm se acelerado neste século. Situações que se previa fossem ocorrer por volta do ano 2050 estão ocorrendo agora.

O Hemisfério Norte, que concentra 2/3 das terras emersas, tem sofrido particularmente nesse sentido. Episódios climáticos extremos, que costumavam aparecer de raro em raro, têm-se tornado frequentes, quase corriqueiros. Chuvas de proporções bíblicas, calores saarianos, furacões, gigantescos incêndios florestais e secas catastróficas se sucedem.

Este ano, o calor e a seca têm castigado a Europa Ocidental. Paris, Berlim, Milão e até a brumosa Londres tiveram seus dias de 40° de temperatura. Em toda a região, a seca começou em junho e dura até agora. Não tem praticamente chovido, a não ser uma garoinha aqui, outra ali.

Agricultores estão perdendo a colheita, o gado já não tem o que comer. Lagos estão secos. Numerosos rios estão com um filete d’água. O Rio Reno, importante via de transporte fluvial, está com restrições de navegação devido à altura da água, que não dá calado. Até a nascente do Rio Tâmisa, atração turística da Inglaterra, secou. Na França, muitas cidadezinhas estão sendo abastecidas por caminhão pipa, pois água não há. Na Suíça, diversos lagos completamente secos se transformaram num gramado.

Tirando o dramático da coisa, aparece o lado pitoresco. “Pedras da fome”, surgidas do passado, estão reemergindo. Essa curiosa expressão designa pedras de beira de rio que, em tempos normais, ficam invisíveis, abaixo do nível da água. Nos anos de grande seca, apareciam. Os antigos então esculpiam e traçavam uma linha para mostrar o nível mínimo a que as águas chegaram. É que, na Idade Média (e até não faz muito tempo), falta d’água era sinônimo de colheitas perdidas e, no final, de morte por inanição. Naquele tempo, não dava pra importar alimento por via aérea do outro lado do mundo. Não havia meio de transporte. Cada vilarejo tinha de se virar com o que a terra dava.

Já se conheciam algumas “pedras da fome”. Este ano, com a baixa de nível dos rios, numerosas outras vêm sendo descobertas. A pedra mais antiga que se conhece foi esculpida em 1417. Outras são mais recentes. Muitas estão sendo gravadas este ano. Assim que o nível das águas faz surgir nova pedra, o ano de 2022 é esculpido.

Na pedra da fome que aparece na ilustração, gravada séculos atrás, está escrito: “Wenn du mich siehst, dann weine” – se você me vir, chore!

O paladar

José Horta Manzano

Pequim está fortemente empenhado em demonstrar sua tese de que Taiwan, a “província rebelde”, é parte histórica da grande nação chinesa e que um dia há de ser reintegrada à pátria-mãe. Para reforçar a posição de seu governo, a senhora Hua Chunying, porta-voz do Ministério Chinês de Relações Exteriores, tuitou:

“Em Taipé (capital de Taiwan), há 38 restaurantes que vendem ravioli de Xantum (província chinesa) e 68 que vendem talharim de Xanxi (outra província chinesa). O paladar não mente! O filho desgarrado há tantos anos voltará à pátria.”

Por mais que o governo de Pequim gostasse, não é possível controlar integralmente a internet. O Tweeter, por exemplo, escapa à censura. Os internautas aproveitaram e comentaram com ironia:

“Quer dizer então que o monte de McDonald’s que temos em Pequim informam que somos todos historicamente americanos?”

Mesas berlinenses

José Horta Manzano

A desigualdade financeira está presente em todas as sociedades. O Brasil é um exemplo flagrante de abismo entre abastados e despossuídos. Mas a carestia não é exclusividade de países em desenvolvimento. Os países ditos “ricos” também contam com cidadãos na faixa de pobreza.

Um exemplo? A Alemanha, país onde a inflação atualmente bate em 8% ao ano, taxa nunca vista em mais de três décadas. Quando os preços sobem desse jeito, os primeiros a sentir o baque são justamente os que vivem com pouco dinheiro.

Cerca de 14 milhões de alemães recebem um salário ou um benefício que não chega para as necessidades básicas. Essas pessoas dependem de um complemento de renda providenciado pelo Estado. Dado que essa ajuda extra nem sempre é suficiente, o problema dos que têm renda muito baixa continua. A maioria dos integrantes dessa faixa são idosos e famílias uniparentais (mães solo).

Em Berlim, que tem 4 milhões de habitantes e é a capital do país, já faz anos que uma interessante solução foi encontrada. Cidadãos de boa vontade formaram uma associação sem fins lucrativos que opera de modo singular. Diariamente, correm os supermercados, padarias e outros comércios de alimentos da cidade e recolhem os invendidos. Há muitas mercadorias que, se não forem vendidas no dia, vão terminar no lixo.

Esses produtos passam por uma triagem e em seguida são levados a vários pontos de distribuição espalhados pela cidade. As pessoas necessitadas que frequentam esses depósitos têm o direito de escolher o que querem levar e encher um saco com cerca de 4 quilos de alimentos. Mas não sai de graça: a compra sai por um euro simbólico, quantia muito baixa. Essa cobrança é muito importante para evitar que os beneficiários tenham a sensação de estar recebendo uma esmola. Pagam um preço especial, mas põem a mão no bolso, tiram a carteira e pagam.

A associação é inteiramente composta por voluntários, geralmente aposentados ou pessoas de boa vontade que têm tempo disponível. Aos sábados e domingos, muito mais gente vem dar uma mão. Ninguém recebe salário. A associação, que se chama Berliner Tafeln (mesas berlinenses) já existe faz muitos anos e vive com doações de seus membros. Qualquer um pode se tornar membro; a contribuição mínima é de 2,75 euros por mês.

No Brasil, vivemos sempre na expectativa de que o poder público tome esse tipo de iniciativa. Não seria má ideia que cidadãos de boa vontade se reunissem e, à imagem das “mesas berlinenses”, criassem as mesas cariocas, ou paulistas, ou soteropolitanas, ou curitibanas, ou manauaras, ou fortalezenses. Os que vivem apertado agradeceriam.

Liberdades fundamentais

De Gaulle e a coletiva de imprensa de maio 1958

José Horta Manzano

Corria o mês de maio de 1958 e a França estava em crise política. O regime em vigor não se adequava aos novos tempos. O General De Gaulle, que permanecia no ostracismo desde o fim da Segunda Guerra, foi chamado para resolver a crise e conduzir o país a dias melhores.

Aureolado como um messias, ele pôs suas condições. Queria mudança de regime, nova Constituição e poderes reforçados para a Presidência. Enquanto o país se preparava para desempoeirar sua governança, o velho general convocou jornalistas para uma entrevista coletiva.

Vieram 500 jornalistas – quantidade maior do que a sala comportava. As credenciais para assistir a palestras de De Gaulle costumavam ser disputadas a tapa. Ágil no manejo da língua e rápido de raciocínio, o figurão fazia o espetáculo sozinho.

Lá pelas tantas, um jornalista perguntou:

Est-ce que vous garantiriez les libertés publiques fondamentales?

[Caso fosse eleito], o senhor garantiria as liberdades públicas fundamentais?

E De Gaulle, na lata:

Est-ce que j’ai jamais attenté aux libertés publiques fondamentales? Je les ai rétablies! Pourquoi voulez-vous qu’à 67 ans je commence une carrière de dictateur?

E eu por acaso algum dia entravei as liberdades públicas fundamentais? Fui eu que as restabeleci! Será que o senhor está imaginando que, aos 67 anos de idade, eu começaria uma carreira de ditador?

Gargalhadas gerais.

De fato, o general assumiu a Presidência, ficou 12 anos no cargo, se reelegeu pelo voto popular e respeitou a Constituição à risca. Nunca esbanjou dinheiro público. Um exemplo? Embora residisse no Palácio do Eliseu com a esposa, mandou instalar um relógio medidor de energia nos aposentos presidenciais para poder pagar do próprio bolso seu consumo de eletricidade. Ao deixar o poder, entregou uma França melhor do que havia recebido.

O Brasil costuma funcionar diferente. Agora mesmo, temos um presidente cuja maior preocupação não é a economia de dinheiro público.

Por coincidência, nosso experiente capitão também tem 67 anos. Só que, ao contrário do general, gostaria muito de iniciar uma carreira de ditador.

Sabemos que ditador não será. Mas que vai dar trabalho daqui até o fim do ano, ah, isso vai!

It is hot!

José Horta Manzano

O desregramento climático está cada dia mais evidente apesar do negacionismo de alguns. Pense na Grã-Bretanha. Quem não se lembra da imagem de um país onde chove e venta o tempo todo, o ano inteiro, com temperaturas de verão que raramente ultrapassam os 25°C? Quem não se lembra da figura típica do inglês de chapéu-coco, capa impermeável e o indispensável guarda-chuva?

Pois isso está mudando dramaticamente. A ilustração abaixo mostra a previsão da BBC para esta segunda-feira. Quarenta graus em Londres! Quem havera de dizer. Até para nossos costumes tropicais, essas temperaturas são extravagantes.

Top names 2021

José Horta Manzano

O mundo está cada vez menor. É impressionante constatar a que ponto a velocidade dos meios de transporte encurtou distâncias. A rapidez da circulação da informação tem contribuído para essa sensação de que o planeta virou um povoado. Todo o mundo fica sabendo de tudo o que acontece. O alastramento de modas e modismos acaba uniformizando o gosto dos humanos.

Exemplos, há de monte. Hoje trago mais um. Dei uma espiada em duas listas de prenomes mais atribuídos aos bebês nascidos em 2021. A primeira delas reúne as estatísticas dos EUA; a segunda traz os nomes dados aos pequerruchos nascidos em Paris.


Nos EUA e na França, diferentemente do que acontece no Brasil, é pouco comum a invenção de nomes. Mais raro ainda – pra não dizer inexistente – é o acréscimo de letras a esmo, em geral mal colocadas (Jhonatan, Anitta, Deyvid, Dennise).


Nomes bíblicos aparecem tanto entre os americanos como entre os franceses. O mais curioso é que, apesar das diferenças linguísticas entre os países, três nomes aparecem em ambas as listas – e escritos da mesmíssima forma. Confira abaixo.

Nomes mais atribuídos nos Estados Unidos em 2021

Meninos:

1. Liam
2. Noah
3. Oliver
4. Elijah
5. James
6. William
7. Benjamin
8. Lucas
9. Henry
10. Theodore

Meninas:

1. Olivia
2. Emma
3. Charlotte
4. Amelia
5. Ava
6. Sophia
7. Isabella
8. Mia
9. Evelyn
10. Harper

Nomes mais atribuídos na cidade de Paris em 2021

Meninos:

1. Gabriel
2. Adam
3. Louis
4. Raphaël
5. Arthur
6. Noah
7. Isaac
8. Joseph
9. Mohamed
10. Léon

Meninas:

1. Louise
2. Alma
3. Emma
4. Adèle
5. Chloé
6. Anna
7. Olivia
8. Eva
9. Jeanne
10. Rose.

Os nomes assinalados em cor aparecem entre os favoritos em ambos os países.

Reescrevendo o passado

José Horta Manzano

Benito Mussolini (1883-1945) foi o criador e chefe supremo do fascismo, regime personalista e autoritário que vigorou na Itália de 1922 a 1945.

Sua entrada na vida adulta não foi gloriosa. Aos 19 anos, saiu da Itália para fugir do serviço militar obrigatório. Foi parar na Suíça, onde viveu dois anos durante os quais levou vida agitada e sobreviveu de expedientes. Morou em diversas cidades. Trabalhou de pedreiro, ajudante de obras, balconista. Chegou a ser preso por vadiagem.

Por curto período, tomou aulas na Universidade de Lausanne. Só voltou à Itália quando, por ocasião do nascimento do príncipe herdeiro, uma anistia geral foi concedida. O ditador subiu na vida, tornou-se poderoso e conhecido, mas manteve aquela aura sulfurosa e aquela cara de poucos amigos.

Corria o ano de 1937. Num descuido que viria a dar muito que falar, a Universidade de Lausanne decidiu outorgar ao ditador (e ex-aluno) um diploma de doutor honoris causa.

O que tinha de acontecer, aconteceu. Sua aliança com Hitler conduziu o povo italiano à desgraça de uma guerra perdida, milhões de mortos e um país destruído. Mussolini morreu de morte violenta e passou para o lado sombrio da História. Apesar disso, o doutorado suíço nunca lhe foi cassado.

Nos últimos 75 anos, o diploma conferido ao antigo ditador “por motivo de honra” incomodou um bocado. Não foram poucos os que preferiam que que a homenagem lhe fosse retirada. Mas não era chegado o tempo de decidir. Nestes dias em que o “politicamente correto” se impõe, não foi mais possível adiar.

A direção da universidade encarregou um grupo de trabalho interno, composto por quinze integrantes oriundos de sete diferentes faculdades, de se debruçar sobre a questão. Depois de dois anos de reflexão, a comissão entregou suas recomendações num relatório de 29 páginas. Saiu na sexta-feira que passou. As conclusões são surpreendentes.

“O grupo de trabalho considera que a outorga do doutourado ‘honoris causa’ a Benito Mussolini constituiu um erro grave cometido pelas instâncias universitárias e políticas da época. Esse título constitui a legitimação de um regime criminoso e de sua ideologia. Recomenda-se à Universidade de Lausanne reconhecer e assumir esse fato.”

A universidade aceitou a recomendação da comissão, e reconheceu ter falhado em sua missão e “ter desvirtuado os valores acadêmicos fundados sobre o respeito do indivíduo e a liberdade de pensamento”.

No entanto, em vez de renegar ou apagar esse episódio, optou por deixá-lo “servir de advertência permanente para possíveis derivas ideológicas que possam vir a vitimar a sociedade”. Em resumo, um banimento equivaleria a bloquear o debate democrático.

Talvez os que hoje pregam tratar personagens do passado como se nunca tivessem existido devessem se inspirar na decisão da Universidade de Lausanne, que me parece cheia de sabedoria.

O título foi conferido ao ditador, isso é ponto pacífico. Nada nem ninguém será capaz de apagar esse fato. Ocultá-lo e fingir que nunca existiu não é a melhor solução. Portanto, melhor será deixá-lo intacto para servir de exemplo de um erro que nunca mais se deverá repetir.

Türkiye

O presidente da Turquia em convescote com seus ministros

José Horta Manzano

Governante esperto sabe tomar a temperatura do país e adotar medidas que reconfortem o povo. Nosso país, atualmente presidido por um senhor estranho que se esforça em solapar os interesses nacionais, está desacostumado de ver no trono um governante normal.

Em 2021, a inflação turca atingiu o patamar de 36%, o mais alto dos últimos 20 anos. Como se sabe, inflação nesses níveis desorganiza a economia, e quem mais sofre com isso são as classes populares. A carestia não perdoa e deixa um rastro de descontentamento.

Recep Erdoğan, que se mantém no topo do poder turco há duas décadas, botou o termômetro e constatou que sua popularidade está baixando. Agora não perde ocasião de se mostrar antenado com os anseios do povo turco. Suas decisões podem até nem ser de grande utilidade para o dia a dia da população, mas são espetaculosas.

Em inglês, o nome da Turquia é Turkey. Acontece que, como contei em post de alguns dias atrás, essa palavra, em inglês, tem função dupla. Tanto serve para dar nome ao país quanto para designar o o peru (a ave). Que se saiba, essa particularidade nunca incomodou nenhum turco.

Aliás, observe-se que os turcos usam a palavra portakal (derivada de Portugal) para dizer laranja, fato que jamais comoveu nenhum português. Esses mesmos turcos chamam o mês de abril de Nisan (pronuncie Nissan), sem que nunca se tenha ouvido reclamação por parte da montadora japonesa.

Com intenção de melhorar sua popularidade, o presidente turco teve uma ideia. Mandou carta ao secretário-geral da ONU solicitando que seu país não mais fosse chamado de Turkey, mas sim de Türkiye, que é a forma original turca. A ONU, que deixa a cada país-membro a liberdade de ser chamado como preferir, aceitou imediatamente o pedido.

A partir de agora, em todos os documentos oficiais da organização, a Turquia passou a ser identificada como Türkiye. Com isso, o presidente do país espera ser reconhecido por seus súditos como o protetor da nação, aquele que cuida dos interesses do país e do povo.

Só tem uma coisa: a mudança de nome é só pró-forma. Na pronúncia, vai ficar tudo como antes. Ao deparar-se com a inabitual forma Türkiye, os de língua inglesa continuarão a pronunciar… Turkey.

Vamos ver se a popularidade interna do presidente turco melhora. Tenho cá minhas dúvidas. Quando a carestia aperta, esse tipo de mudança cosmética costuma ser inócua.

Em todo caso, ele pelo menos terá tentado. O nosso, nem tentar tenta.

Os golos

José Horta Manzano

Ontem à noite passavam na televisão um jogo de futebol entre Portugal e a Suíça. Com evidente motivação comercial, os cartolas não param de inventar campeonatos. Toda hora tem um novo. Esse de agora se chama Liga das Nações.

Não acompanho como torcedor de verdade. Dou uma espiadinha quando imagino que vai ser um belo jogo. Só que começou a ficar tarde e desliguei a tevê. Hoje de manhã, curioso pra saber o resultado, fui dar uma olhada na imprensa portuguesa. Nossos amigos lusos estão sorridentes: a seleção (deles) ganhou da Suíça por 4 a 0.

Talvez o distinto leitor já tenha lido textos lusos. Costumo dizer que já vêm com sotaque. Não se passam duas linhas sem a gente tropeçar numa palavra. Com frequência, desconhecemos o significado. Pra descobrir, temos de fazer esforço mental ou apelar pro dicionário.

Acho estimulante. Veja algumas frases que colhi hoje na rubrica esportiva da imprensa lusa.

“Depois de ter estado na origem do primeiro tento, o avançado do Manchester United bisou frente à Suíça.”

Tento. Termo pouco usado no Brasil, é da família de talento. Na Roma antiga, talento era uma moeda. No texto é sinônimo de gol.

Avançado. Nós diríamos centroavante.

Bisar. Não usamos com frequência. Significa fazer algo de novo, repetir. Vem de bis.

“O médio do Betis inaugurou o marcador aos 15 minutos, na recarga a uma defesa incompleta do guarda-redes helvético, na sequência de um livre direto de Ronaldo.”

Médio. É o jogador de meio de campo, que dizemos meio-campo ou meio-campista.

Recarga. Para nós, é o rebote.

Guarda-redes. Não usamos essa simpática expressão, mas ela é autoexplicativa. Quem guarda as redes é o goleiro.

Na sequência de. Raramente usada no Brasil, a expressão é importada diretamente da França. É decalque de “à la suite de”. Nós diríamos “como resultado de”, “em decorrência de”, “dando sequência a” ou expressão similar.

Um livre direto. Esse é mais misterioso. Eu sei o que é porque ainda estava assistindo ao jogo quando aconteceu. Um livre direto é uma cobrança de falta em que há possibilidade de mandar a bola por cima da barreira e fazer o gol diretamente. Ontem, Cristiano Ronaldo executou um livre direto, mas o guarda-redes suíço espalmou. A bola quicou. Na recarga, um jogador da equipa lusa chutou e fez o golo.

“Cristiano Ronaldo aumentou para 117 o seu recorde de golos pela seleção, ao bisar na receção à Suíça (4-0).”

Golo. Como é sabido, os portugueses não dizem gol, mas golo.

Receção. Essa me deu dor de cabeça. Estou acostumado a ler sobre recessão, mas descartei por achar que não é exatamente termo futebolístico. Já ia apanhar o dicionário quando veio o estalo. É uma divergência de grafia. Fosse um jornal brasileiro, não estaria escrito receção, mas… recepção! A Suíça era o time visitante, portanto os portugueses receberam os estrangeiros. Fizeram uma recepção.

Essa grafia anômala resulta do famigerado Acordo Ortográfico de 1990, que determinou que letras não pronunciadas deixariam de ser escritas. No Brasil, pronunciamos o P de recepção, por isso ele continua sendo grafado. Já em Portugal, a pronúncia soa a nossos ouvidos como “rr’-cé-ção”. A regra foi impiedosa: baniu o P.

É mais uma mostra dos problemas criados por uma absurda reforma meia-sola, que só serviu para atrapalhar. Deu canseira a muitos e lucro a uns poucos. Por mim, teria ido pro lixo.

Durante o jogo, o presidente da República Portuguesa não estava grudado na tela da tevê. Nem andando de jet ski, nem fazendo motociata. Encontrava-se na Festa do Livro em Belém, manifestação que ele mesmo criou em 2016 e que reúne anualmente editoras, livreiros e autores para diversas conferências e sessões de autógrafos. É como nossa Flip de Paraty.

O dirigente foi efusivo ao cumprimentar a equipa. Disse que “foram quatro golos, podiam ter sido oito…”. E justificou o entusiasmo: “Termos muitos atletas a competir nos melhores clubes do mundo dá-lhes uma forma espetacular”.

Falou como a gente espera que um presidente decente fale. Nada a ver com o esfarrapado que nos dirige. Pô!

A Colômbia e o sonho de Bolsonaro

Cédula eleitoral colombiana

José Horta Manzano

Hoje se vota na Colômbia. Escolhe-se o presidente da República. Ao que parece, as autoridades do país são como nosso presidente gosta: rejeitam a modernidade. Não aceitam o que ela traz de bom, essas coisas que facilitam a vida de todos. Urnas eletrônicas entram nesse grande balaio de rejeições. Xô!

Na Colômbia, vota-se à moda antiga, voto em papel, facilmente auditável. Ao chegar à seção, o eleitor vai receber um “tarjetón”, que é o nome dado à cédula eleitoral. É uma folha de papel tamanho A4 dividida em nove campos, cada um contendo a foto de uma dobradinha de candidatos – à Presidência e à vice-Presidência.

Cada campo contém ainda o nome dos candidatos e o logo da coalizão que os apoia. O resultado é uma folha atraente, cheia de cores. As fotos até que ajudam eleitores de poucas letras que pudessem ter dificuldade em encontrar o preferido.

Ao chegar ao posto de votação, o eleitor recebe uma cédula. Vai para a cabine e faz uma marca na dobradinha de candidatos preferidos. Se preferir votar em branco, vai encontrar um campo pensado justamente para isso.

Pode ser qualquer marca, desde que seja visível. Recomenda-se, no entanto, que o eleitor faça um grande xis no quadrado desejado. Se quiser votar em branco, que faça o xis no último quadrado.

Toda cédula que apresentar marcas em mais de um campo, inclusive no de voto em branco, será considerada nula. Fico a imaginar que a quantidade de votos nulos deve ser grande.

Ah, se um eleitor se enganar na hora de fazer o xis, não tem problema: basta voltar à mesa e pedir nova cédula. Sai de graça.

Excluindo o fato de que não há urna eletrônica, o ato de votar até que se parece com o nosso. A diferença grande vem na hora da apuração.

Procurei saber como se desenvolve a contagem dos votos. É um esquema complexo. Cada seção eleitoral abre sua urna e conta os próprios votos. Em seguida, preenche uma ata com a totalização. Essa ata será transmitida a uma entidade centralizadora que, por sua vez, se encarregará da totalização geral.

Imagine os riscos de fraude existentes em cada etapa do processo. Basta um dos mesários cooptar os colegas oferecendo, por exemplo, recompensa em dinheiro. A partir daí, estando todos de acordo, tudo é permitido. Dois subterfúgios são simples de executar: 1) Substituição de cédulas verdadeiras por cédulas trazidas já preenchidas; 2) Anulação de votos destinados a um candidato não desejado – para anular, basta fazer uma marca em mais de um quadrado.

Tanto o Lula quanto o capitão conseguiram comprar o Centrão, que representa meio Congresso. Pra quem fez isso, comprar mesário é aquele tipo de coisa que se faz com um pé nas costas. Mais fácil ainda quando é feito com nosso dinheiro.

Vendo isso, dá pra entender por que razão nosso presidente reclama de nosso sistema eleitoral, dia sim, outro também. É que o esquema brasileiro é hermético, sem manipulação possível, não oferecendo nenhuma porta de entrada para gente mal-intencionada.

Um presidente normal veria nas eleições colombianas uma excelente oportunidade comercial para o Brasil. É a possibilidade de vender nosso know how e urnas made in Brazil ao país vizinho. Mas nosso presidente não é normal. Sua grande preocupação neste momento é que, segundo as pesquisas, um candidato esquerdista está bem colocado para disputar o segundo turno colombiano.

Já pensou se ele vencer a eleição? A Colômbia, nossa vizinha de parede, será dirigida por um esquerdista! Será que esquerdismo é contagioso? Será que pega? Será que pode ressuscitar o comunismo? Será que pode nos transformar em jacaré?

De volta para o futuro – 2

José Horta Manzano

O esfacelamento da União Soviética, no início dos anos 1990, abriu as portas da Rússia para as grandes empresas ocidentais. O país estava na lona. Precisava de recauchutagem completa Foi nessa leva que entraram as montadoras de automóveis.

Os russos deram adeus aos velhos Lada, aqueles carros tipo pé de boi de fabricação soviética que o Brasil chegou a importar nos anos 1980 e dos quais a gente costumava dizer que até a chave já vinha enferrujada.

Trinta anos se passaram, e a implantação das grandes construtoras automobilísticas se firmou e se reforçou. Até outro dia, estavam produzindo a todo vapor para um mercado de 145 milhões de consumidores.

Nisso, Vladímir Putin teve a estúpida ideia de invadir a Ucrânia. E veio a guerra. E vieram as sanções econômicas. E tudo parou. Nesse embalo, as montadoras europeias puxaram o carro (expressão caseira que cai bem neste caso). Entre as que se foram, está também a francesa Renault, atual proprietária da antiga Avtovaz, que fabricava o Lada.

No entanto, com ou sem guerra, o mercado russo continua exigindo carros. Mas, sem os estrangeiros, como fazer? A importação está fechada. Insumos, peças e componentes eletrônicos importados não entram mais no país.

As autoridades de Moscou decidiram engatar o modo desespero. Tomaram uma decisão que representa um retrocesso de três décadas na produção de automóveis no país.

Foram-se embora as montadoras? Sem problema. Ressuscita-se a velha Avtovaz e vamos em frente.

Faltam câmeras de ré? Sem problema. Põem-se à venda veículos sem câmera.

Faltam sistemas de freio ABS? Sem problema. Os carros novos vêm sem freio ABS.

Faltam airbags? Sem problema. Carro novo não precisa de airbags. Nem frontais, nem laterais.

Um decreto emitido pelo Executivo russo acaba autorizar que carros novos sejam comercializados sem uma série de equipamentos de segurança que eram exigidos até agora. Na Rússia, mudam-se leis com a mesma facilidade com que se mudam no Brasil.

Num país onde o número de acidentes de carro já está acima da média mundial (e se aproxima do assustador morticínio brasileiro), analistas acreditam que haverá 2000 ou 3000 mortos a mais por ano.

O decreto governamental afrouxa também as normas de emissão de gases poluentes. Volta-se ao que vigorava em 1988.

Este artigo devia ser lido por aqueles que acreditam que sanções econômicas não atrapalham. Este blogueiro repete o que já disse em outras ocasiões: há muitas maneiras de fazer pressão sobre um governo. Não é preciso ameaçar bombardeio.

Se, por desgraça, o capitão viesse a ser reeleito ou – pior ainda – se ousasse tentar um golpe institucional para permanecer na Presidência ilegitimamente, não é só freio ABS que vai faltar. O Brasil vai parar.

De volta para o futuro – 1

José Horta Manzano

O sonho de todo comerciante é baixar seus custos sem prejudicar a qualidade do produto ou do serviço fornecido. Os armadores – aqueles que cuidam de transporte marítimo – têm de prever a evolução de seus custos com grande antecedência. Considerando o planejamento, a construção e a entrega, fabricar um cargueiro de grande porte leva muitos anos.

Não é segredo para ninguém que as reservas globais de petróleo são limitadas, e que vão se extinguir um dia, talvez até antes do que se pensa. Guerras e tensões mundiais, por seu lado, podem levar o preço dos combustíveis fósseis às alturas, como é o caso atualmente.

O item mais pesado na planilha de gastos de um navio cargueiro é justamente o óleo combustível. O objetivo de todo armador é baixar quanto possível sua utilização.

“Solid Sail” – retenha essa expressão. Vai se tornar comum dentro em breve. Trata-se de nova geração de vela que, em vez de queimar petróleo caro e poluente, aproveita a energia mais abundante nos mares do planeta: o vento.

A vela tipo “solid sail” não é feita de tecido, como nos atuais veleiros de turismo. É construída com materiais compósitos, uma aliagem que apresenta diversas qualidades interessantes: baixo custo, leveza, solidez e resistência.

A nova geração de velas é fácil de recolher. Não funciona mais como nos filmes de pirata, em que um marujo tinha de subir por uma escada de corda e enrolar o pano no muque, baloiçando aos ventos de mares nunca dantes navegados. Tudo é automatizado. Basta apertar um botão, e a vela se recolhe sozinha, dobrando como persiana. É crucial em caso de forte vento contrário ou de tempestade em alto mar. Nessas horas, o barco volta a ligar o motor tradicional.

Os primeiros navios a experimentar esse novo modo de propulsão estão em fase de construção nos Chantiers de l’Atlantique, canteiros navais franceses. Nesta fase experimental, estão sendo produzidos barcos menores. Dependendo do desempenho deles e de futuras encomendas, porta-contêineres e cargueiros de grande porte serão construídos.

A ideia é excelente e, excetuando as petroleiras, deixa todo o mundo contente. Diminui os custos de transporte, não polui o mar e não contribui para o aumento do efeito estufa. O novo conceito não elimina o combustível, mas reduz fortemente seu uso.

Pensando bem, a ideia de fazer longas viagens em barco à vela não é nova. Mais de meio milênio atrás, as caravelas de Vasco da Gama já havia chegado à Índia à força do vento. Ora pois.

Dois avisos

José Horta Manzano

Na quarta-feira 18 de maio, a Casa Branca mandou dois avisos.

Primeiro aviso
Suécia e Finlândia apresentaram seu pedido oficial de entrada na Otan. Para refrescar a memória, a Otan é uma aliança militar de defesa mútua do tipo “um por todos, todos por um”. Inclui os EUA, o Canadá e praticamente todos os países europeus, com exceção das micronações e dos países neutros (Suíça e Áustria).

No fundo, o interesse maior de cada membro do clube é abrigar-se debaixo do “guarda-chuva” nuclear dos Estados Unidos, a maior potência militar do planeta. É a melhor garantia contra agressões como a que a Ucrânia está sofrendo.

Só que tem um problema. A admissão da Suécia e da Finlândia não será imediata. O processo pode levar 6 meses ou mais. Enquanto isso, tecnicamente os dois países não fazem parte da aliança e, em princípio, não contam com sua ajuda.

É um período perigoso. Se sofrerem um ataque – da Rússia, de quem mais? – terão de se defender sozinhas.

O presidente Biden mostrou ter entendido o drama. Ontem mesmo a Casa Branca publicou um comunicado oficial garantindo que, mesmo neste período em que o procedimento de adesão não está finalizado, os EUA acudirão Finlândia e a Suécia “para deter e enfrentar toda agressão ou ameaça de agressão”. Traduzindo: para os EUA, os dois países já fazem parte do clube.

O recado foi direto para Putin: mexeu com eles, mexeu comigo. Não ouse!

Segundo aviso
No mesmo dia, Elizabeth Bagley, diplomata indicada por Biden para o cargo de embaixadora dos EUA em Brasília, foi sabatinada pelo Congresso americano.

Durante a audição, a diplomata lembrou que tem 30 anos de experiência em supervisão de eleições ao redor do mundo. Disse ter certeza de que as eleições brasileiras de outubro serão livres e justas, dada a tradição do país nesse particular.

Com estilo diplomático, fez uma referência leve mas incisiva ao comportamento do capitão, que tem feito o que pode para conturbar o processo eleitoral. A nova embaixadora mostrou estar ciente de que “os tempos serão difíceis” por causa “da quantidade de comentários”. Não chegou a apontar o autor dos “comentários”. Nem precisava.

São múltiplas as maneiras de exercer pressão sobre um país. Nem sempre é necessário recorrer a uma invasão. A futura embaixadora americana traz na sacola recados para o capitão. Se ele continuar a perturbar o processo eleitoral e, pior ainda, se ousar tentar derrubar a ordem constitucional, as consequências serão imediatas e vigorosas.

Diferentemente do que Bolsonaro parece acreditar, os países no mundo atual são interdependentes. O Brasil não é uma ilha. Nosso país depende de tecnologia estrangeira para funcionar. Um avião enguiçado precisa de peças americanas. Um aparelho de ressonância magnética é fabricado no exterior. Nossa indústria – química ou mecânica – é tributária de insumos americanos.

O que a embaixadora dirá a Bolsonaro – e que não sairá nos jornais – é justamente isto: se vosmicê ousar dar “aquele” passo torto, a torneirinha vai fechar e o Brasil vai parar. Será um caos. Um embargo americano pode ser extremamente dolorido, que o digam Cuba e o Irã.

Com o país enguiçado e o povo revoltado, quem vai levar um chute no traseiro é vosmicê.

Pronto, já lhe dei o aviso adiantado.