Páscoa e passagem

José Horta Manzano

Muito antes que o primeiro humano se equilibrasse sobre dois pés, a Terra já estava lá naturalmente. E também o ciclo da natureza que se renovava a cada ano. Dizem os cientistas ‒ e, certamente, terão razão ‒ que os primeiros hominídeos surgiram no continente africano. Faz sentido. Desprovidos do pelame de um urso e da independência de uma águia, os humanos só podiam ter aparecido em terras tropicais sob clima quente e clemente.

O aumento da população, a escassez da caça, secas devastadoras impeliram os primeiros grupos a migrar. Muitas e muitas gerações depois de Lucy, os primeiros bandos alcançaram territórios mais ao norte onde o clima já não era marcado pela alternância de estações secas e úmidas, mas por uma estação quente e confortável, seguida por um período frio e agressivo.

As novas condições eram bem diferentes da suavidade tropical, mas os humanos já haviam desenvolvido novas capacidades. O uso de utensílios, o domínio do fogo e, finalmente, a invenção da agricultura permitiram a sobrevivência nos novos territórios. A adaptação não deve ter sido fácil nem rápida. Muitos milênios hão de ter corrido, mas o homem acabou por amoldar-se às novas condições. A prova maior dessa acomodação é o fato de estarmos aqui ainda hoje.

No verão, a vida é mais suave. A caça é farta. A agricultura nutre os viventes. Na estação fria, a paisagem é outra. A neve pode ser linda em cartão postal, mas os antigos temiam a chegada dos primeiros ventos gelados. As folhas caem. A vegetação adormece. A caça desaparece. Os dias encolhem. Se ainda hoje, com todo o conforto que o progresso nos legou, o inverno nos parece longo, fico a imaginar como deve ter sido para os humanos de milênios atrás. O fato é que a chegada da primavera, com pássaros cantando de novo e árvores vestidas de verde, traz um imenso alívio. A natureza renasce. A vida retoma a suavidade. É tempo de festa.

Desde as primeiras primaveras, os descendentes de Lucy sentiam-se animados com a volta dos belos dias. À medida que os homens foram desenvolvendo um sentimento de religiosidade, sentiram que era hora de agradecer a quem lhes devolvia a alegria de viver. Politeístas num primeiro momento, os agrupamentos humanos se habituaram a reunir-se em regozijo para comemorar o renascimento da natureza. Todos os deuses eram homenageados. Gregos, romanos, sumérios, egípcios sentiam a mesma euforia. Cada um desenvolveu maneira própria de demonstrar agradecimento. Fogueiras e sacrifício de animais foram as manifestações primitivas mais comuns.

O aparecimento do monoteísmo não eliminou o entusiasmo pela chegada da bela estação. Sacrifícios foram abolidos, abrindo espaço para práticas mais civilizadas.  O povo judeu insituiu o Pessach. O Êxodo e a travessia do deserto guardam uma inequívoca simbologia. A ideia de passagem está presente. Comemora-se o fim de um tempo de sofrimento e a chegada de uma era promissora.

Os cristãos seguiram na mesma linha. Escolheram o mesmo período do ano para fixar a Páscoa. O símbolo do renascimento continua presente na ressureição de Jesus, o nazareno. Não por acaso, chineses, turcos, curdos, persas e outros povos também elegeram a época do retorno da primavera para celebrar o renascimento, a renovação. Todos festejam um recomeço que traz consigo a promessa de uma vida melhor.

Que seja melhor para nós todos!

Boa Páscoa!

Doações midiáticas

José Horta Manzano

Estão fazendo fila os doadores para a causa da reconstrução da catedral Notre-Dame de Paris. Os donativos já atingem um bilhão de euros, quantia respeitável, quase 4,5 bilhões de reais.

Na Europa, os franceses têm fama de reclamões, aquele tipo de gente que nunca está contente. Há nisso um fundo de verdade. Mas, desta vez, parece que têm razão de se queixar. Muitas vozes se levantam pra lamentar que, quando se trata de ajudar aos que precisam, nunca há dinheiro; no entanto, pra reconstruir «uma igreja» ‒ e isso tem de ser pronunciado com boca de pouco caso ‒ chovem milhões.

Para recolher dinheiro, foi aberta uma subscrição nacional. Por seu lado, loterias, vaquinhas e quermesses se organizam em todo o território francês. Logo, logo, vai ser instalada uma conferência de doadores pra arrecadar mais fundos. E, mais que tudo isso junto, chovem doações de grandes empresas e de bilionários.

A família Arnault, a mais rica do país, doou 200 milhões de euros. A família Pinault, outra potência, vai contribuir com 100 milhões. Outros abastados ‒ os Bettencourt, donos do grupo l’Oréal ‒ vão entrar com 200 milhões. Em seguida, vêm os “pequenos” doadores, aqueles que doam 10 ou 20 milhões de euros. São muitos.

Villa Leopolda, na Côte d’Azur (França), propriedade de Madame Lily Safra
Avaliada em US$ 500 milhões, é uma das propriedades mais caras do planeta

Entre esses “pequenos”, está a bilionária Lily Safra ‒ brasileira, nascida no Rio Grande do Sul, viúva do banqueiro Edmond Safra. Segundo algumas fontes, propôs-se a doar 10 milhões de euros (44 milhões de reais). Outros chegam a mencionar 20 milhões (88 milhões de reais). Seja como for, é muuuito dinheiro.

Cada um faz o que quer com o próprio dinheiro. Fica registrada, no entanto, a surpresa. Madame Safra é conhecida pelas doações milionárias que faz regularmente a causas e institutos diversos. É curioso que ela, que cresceu no Rio de Janeiro, não se tenha comovido com o incêndio do Museu Nacional, aquela monstruosa queima de arquivo da memória do país. Não consta que tenha destinado nem um centavo à reconstrução do prédio ou à reconstituição do acervo. É verdade que não teria dado ibope. Doação boa é doação que aparece.

Clube latino-americano

José Horta Manzano

Quando viu baterem à porta de casa os policiais que o vinham prender, señor Alan García ‒ que foi duas vezes presidente do Peru ‒ pressentiu o frio das algemas e o peso da humilhação. Preferiu não enfrentar. Suicidou-se.

Para bordar o assunto, a mídia compôs listas de dirigentes que, nos últimos cem anos, decidiram, seja por que razão for, tirar a própria vida. Não são poucos. Entre eles, aparece Getúlio Vargas, que mandou no Brasil por 19 anos. A lista inclui ainda Adolf Hitler e o chileno Salvador Allende(1).

O elenco mais impressionante é o de ex-presidentes latino-americanos presos ou investigados por corrupção. A gente imagina que o caso de Lula da Silva seja único, mas não é bem assim. O clube dos corruptos, que perpetua secular tradição em nosso continente, tem muitos membros.

O Peru aparece em boa posição, com seus cinco últimos presidentes na lista. Além do recém-falecido Alan García, aparecem Alberto Fujimori, Ollanta Humala, Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski. Todos eles já passaram algum tempo atrás das grades ou estão envolvidos em processo por corrupção. Os três últimos citados foram regados pelo propinodutro internacional patrocinado pela brasileira Odebrecht ‒ nossa maior exportadora de corrupção.

O clube dos presidentes corruptos tem mais gente fina. Está lá a argentina Cristina Fernández de Kirchner, que só escapou da cadeia até agora em razão de sua imunidade parlamentar. Outra figurinha carimbada é Rafael Correa, ex-presidente do Equador. Está sendo processado por “delinquência organizada” no caso Odebrecht. A América Central não está ausente. A representá-la, estão o panamenho Martinelli, o hondurenho Callejas, os guatemaltecos Pérez Molina e Álvaro Colom, todos ex-presidentes. Os representantes brasileiros nessa exemplar confraria são, como é sabido de todos, Lula da Silva e Michel Temer.

Li hoje entrevista concedida por um jornalista que trabalhou para O Pasquim nos anos 1970. Ele pondera que o fato de Lula da Silva estar preso é prova de vigor da democracia. Sem dúvida. Mais vigorosa seria a democracia, no entanto, se nenhum dirigente tivesse de ir pra cadeia por crime de corrupção.

(1) Dizem uns que Salvador Allende se suicidou, enquanto outros asseveram que «foi suicidado». Passado quase meio século sem conclusão confiável, a controvérsia tende a se perpetuar.

Silêncio é poesia

José Horta Manzano

Logo que começaram a pipocar as mensagens de simpatia de líderes do mundo inteiro abalados com o incêndio de Notre-Dame de Paris, senti uma certa inquietação: que faria doutor Bolsonaro? Será que ia se calar fingindo que era poste? Será que ia mandar mensagem? E, se mandasse, que barbaridade perigava escrever no bilhete?

Aliviado, descubro que o pior não aconteceu. A mensagem do presidente foi sóbria, digna, exatamente como se espera de personagem equilibrado. Não estivesse assinada de próprio punho, eu nem acreditaria que tivesse sido escrita por ele mesmo.

Já Mr. Trump, ai, ai, ai. Que bordoada! O homem se permitiu dar conselho aos bombeiros de Paris, imagine só! Enquanto as chamas consumiam o edifício, sugeriu que fossem despachados aviões-cisterna, daqueles que se usam para combater incêndio florestal. E que despejassem toneladas d’água sobre a catedral.

Condescendentes, os bombeiros de Paris responderam delicadamente que não era uma boa ideia, pois o peso da água perigava destruir o que restava do monumento além de matar pedestres. Muito acertadamente, as normas proíbem o uso de aviões-cisterna em meio urbano. Desta vez, doutor Bolsonaro livrou-se do ridículo.

Em boca fechada não entra mosca, minha gente. Donald Trump calado é um trovador. Se subsiste uma duvidazinha quanto à autoria da mensagem de doutor Bolsonaro, não há que hesitar pra designar o autor do bilhete de Mr. Trump: é ele mesmo.

Quem viu, viu

José Horta Manzano

«Je ne la verrai plus jamais. Il faudra 40 à 50 ans pour la reconstruire ‒ Eu não a verei nunca mais. A reconstrução vai levar 40 ou 50 anos.» As palavras (e as lágrimas) são de Monsieur Stéphane Bern, popular apresentador televisivo que aparece todos os anos na lista das personalidades mais apreciadas pelos franceses. O testemunho foi dado enquanto ainda não se haviam extinguido as brasas do incêndio da catedral Notre-Dame(*) de Paris.

Talvez haja algum exagero na estimativa de Monsieur Bern, compreensível dada a emoção do momento. Na minha opinião, no entanto, por mais importantes que sejam as verbas aplicadas na reconstrução, ela não se fará da noite para o dia. As dificuldades são muito muito grandes.

Para começar, certos materiais simplesmente não existem mais. A parte que se incendiou completamente ‒ o madeirame que sustentava o telhado ‒ era de carvalho maciço. Setecentos anos atrás, árvores de bom tamanho e de boa qualidade já não eram fáceis de encontrar. Hoje em dia, simplesmente desapareceram. Não existem mais. Muitas análises terão de ser feitas só pra encontrar substituto válido.

Os estudos de solidez da estrutura que restou serão minuciosos e longos. Afinal, a ordem de reconstruir por cima de alicerces fragilizados não pode ser dada com leviandade. Nenhum arquiteto gostaria de ver seu nome ligado, para todo o sempre, a um eventual desmoronamento de Notre-Dame em consequência de erro seu. Que terrível estigma!

Obras arquitetônicas há muitas, algumas magníficas como o Taj Mahal. Templos religiosos há milhares, como a igreja de qualquer pracinha. Construções icônicas há um punhado, como o Cristo Redentor. O magnetismo de Notre-Dame vinha do fato de concentrar essas três qualidades: era monumento arquitetônico, templo religioso de primeira grandeza e símbolo da França e de Paris em particular. Com 13 milhões de visitantes por ano, era ‒ disparado ‒ o edifício mais visitado da Europa, quiçá do mundo.

Mas assim são as coisas. Quem viu Notre-Dame por dentro, viu. Quem não viu, não verá.

(*)À cata da repercussão do desastre de Paris, consultei sites escritos em diversas línguas. Achei curioso que nenhum deles traduzisse o nome da catedral. Ninguém falou em Our Lady Cathedral, nem em Cattedrale della Madonna, muito menos em Catedral de Nossa Senhora. Todos mantêm a forma original: Notre-Dame. Não há dúvida, soa muito mais chique.

Marcas duráveis

José Horta Manzano

As autoridades e o povo suíço acabam de levar um susto. A notícia cai mal, justamente num momento em que cresce a fatia do distinto público que se converteu à dieta orgânica(*), seita que se universaliza nestes admiráveis novos tempos.

Ninguém se importa em pagar mais caro por produtos chancelados com o selo bio/orgânico. Às vezes sai bem mais caro. Pra coroar, dado que ainda não há regulamentação rígida, não há definição clara do que seja esta nova classe de produtos. Que critérios devem ser respeitados para que um artigo tenha o direito de entrar na categoria? Ninguém sabe direito.

Saído estes dias, um estudo da Universidade de Neuchâtel (Suíça) revela que 90% das terras dedicadas à agricultura biológica no país estão contaminadas com pesticidas. Como é que é? O escândalo se alevanta. Como é possível? Estaremos todos sendo enganados então?

A explicação, no entanto, não é complicada. Antes de serem dedicadas à agricultura orgânica, essas terras eram cultivadas com o uso de pesticidas químicos. Os solos não se purificam da noite pro dia. Passados anos e anos, a contaminação permanece. Além disso, a poluição por produtos químicos é continuamente trazida pelos ventos, pelos animais, pelos insetos, pelos veículos e pelo próprio homem. Querer descontaminar toda a superfície agrícola do planeta é como enxugar gelo: quando a gente acha que o trabalho chegou ao fim, aparece mais água.

Não acredito que a notícia dê um golpe mortal na agricultura sem pesticida. Mas é bom que os cidadãos se armem de paciência. A total despoluição do campo não é pra amanhã.

(*) A agricultura isenta de insumos e pesticidas químicos, dita orgânica no Brasil, é conhecida como bio na Europa. (Bio de biológica.)

Todas as fichas no passageiro

José Horta Manzano

É perigoso apostar todas as fichas em algo passageiro que, amanhã, já poderá ter mudado. Apostar em governo de turno é atraso de vida. Ontem, foi o terrorista Battisti que, tendo escolhido o volúvel Brasil, esborrachou-se no chão. Mudou o governo, e ele se estrepou. Hoje é Mr. Assange, aquele que andou divulgando documentos confidenciais ‒ um ato que agradou a muita gente mas desagradou fortemente ao governo dos EUA.

Perseguido e com a cabeça a prêmio, o ‘lançador de alerta’ aceitou a oferta do frágil Equador, cujo presidente à época jogava no time do antiamericanismo radical. Isso foi em 2012. Desde então, viveu recluso na embaixada londrina daquele país, confinado a um espaço bem menor do que a confortável suite que hospeda Lula da Silva em Curitiba.

Mas tudo muda na vida. Cansado de guerra e de mutretas, o povo equatoriano entronizou presidente de outra corrente filosófica. Ontem, ao cabo de longas negociações com Londres, Quito anunciou que cancelava o asilo político concedido a Mr. Assange. Ato contínuo, as portas da embaixada foram abertas para permitir que a polícia de Sua Majestade entrasse e apanhasse o ex-asilado. O moço foi levado algemado num veículo policial.

O balanço final mostra que Mr. Assange, tentando se esquivar à prestação de contas, apostou no cavalo errado. Depois de passar sete anos encerrado num cubículo sem ao menos possibilidade de tomar banho de sol, volta à estaca zero. Terá de enfrentar interrogatório, extradição, julgamento e provavelmente condenação. Em resumo, ter confiado num regime de turno só lhe valeu postergar o encontro com o destino. Acrescentou sete anos de cela solitária ao prontuário e terá de cumprir a pena que lhe for imposta, que pode ser de mais cinco anos.

O clã Bolsonaro escolheu uma senda perigosa. A vassalagem que vêm prestando à pessoa do presidente dos EUA não é caminho de sol e flores. À volta das próximas eleições americanas, tempestade e espinhos podem surgir. Suponhamos que Mr. Trump não seja reeleito. Não é provável, mas sempre é possível. Certamente o presidente democrata que viria ocupar seu lugar não lançaria o mesmo olhar lânguido a doutor Bolsonaro. As coisas poderiam azedar, principalmente levando em conta que, imprevidentes como são, os bolsonarinhos são bem capazes de continuar a se apresentar com o boné « Trump 2020 » enfiado no cocuruto. Se Trump perder… já imaginaram o desastre?

Medo da polícia

José Horta Manzano

Os franceses andam assustados e preocupados. As mais recentes estatísticas relativas à delinquência atestam um aumento da incidência de pequenos crimes de novembro pra cá. Em apenas seis meses, o conjunto de crimes e delitos chamados «petite délinquence ‒ pequena delinquência» aumentou de 7% a 10%. Estamos falando de ocorrências como furto ou roubo de pessoa física, furto ou roubo de veículo, assalto a residência na ausência do morador.

Não foi preciso analisar muito profundamente pra descobrir relação entre o súbito aumento da criminalidade e as manifestações dos Coletes Amarelos. De fato, as passeatas de protesto começaram em novembro, atravessaram Natal, continuaram no ano-novo e estão chegando à Páscoa. Tirando a pequena parte da população que gostaria de ver o circo pegar fogo, os franceses estão até aqui de confusão. Não aguentam mais ver o país tomado por arruaceiros. Sair de casa aos sábados tornou-se um exercício perigoso.

Mas o quem tem de ver o movimento de protesto com o aumento da criminalidade? A relação é simples. Frequentemente violentos, os protestos exigem presença reforçada de batalhões inteiros de policiais. E de onde é que vem esse reforço? Pois é justamente do policiamento normal, ostensivo e de proximidade. Despe-se um santo pra vestir outro.

Os policiais convocados pra garantir a segurança de pessoas e bens durante as manifestações acabam fazendo falta na região onde costumam trabalhar. Ao notar que não há guardas, os bandidos fazem a festa. É a demonstração de que a mera presença do uniforme inibe muita incivilidade e muito delito.

Anota na caderneta?

José Horta Manzano

Percorrer os corredores do supermercado, cheirar frutas, revirar embalagens, decifrar letrinhas, abrir portinholas, apanhar produtos, empilhar tudo no carrinho e dirigir-se à fila do caixa são atividades corriqueiras. De tão habituais, fazem parte do dia a dia, e a gente nem presta mais atenção. Mas houve um tempo em que isso não existia.

No hall central da estação

Quando surgiram os primeiros armazéns concebidos segundo o novo e revolucionário conceito ‘sirva-se você mesmo’, importado dos EUA, muita gente se espantou. «Como é que é? A gente mesmo vai pegando as compras e pondo na sacola? E na hora de pagar, como é que faz? Anota na caderneta? E se anotar errado?» As muitas indagações eram compreensíveis, tal era o chacoalhão que a novidade dava nos hábitos.

Loja de conveniência sem funcionários

Hoje, passados mais de sessenta anos, ninguém mais se espanta. Mesmo assim, o ramo da venda de produtos alimentícios no varejo ainda consegue inventar novidades. Não sei se já existe no Brasil, mas por aqui acaba de aparecer: uma loja de conveniência sem funcionário e sem caixa. Por mais blasés que estejam os cidadãos do mundo que nos tornamos, é pra lá de original ver um comércio sem ninguém pra servir nem pra cobrar. É fora dos padrões.

Escanear o código para abrir a porta

Na Suíça, a primeira loja do gênero abriu esta semana em Zurique. Está instalada provisoriamente no meio do grande hall da estação de estrada de ferro. Pra entrar, tem de ter baixado o aplicativo da empresa. Pra abrir a porta, precisa escanear, com o celular, o código afixado à entrada. A mercadoria está toda ali, exposta, à espera de ser carregada. O comprador terá de escanear cada artigo. Terminada a compra, dá um ‘totalizar’, e pronto. O montante será debitado do cartão de crédito. (Neste caso, cartão de crédito é a versão 2.0 da velha caderneta da venda.) Dois funcionários da empresa passam diversas vezes por dia pra reabastecer prateleiras e gondolinhas.

Ao carregar o aplicativo, o cliente já está dando sua identidade, o que reduz drasticamente toda tentação de furto. Se deixar de escanear um artigo, por exemplo, não escapará. Será flagrado por uma das câmeras de segurança e receberá a conta do mesmo jeito. O sistema é uma amostra do que nos espera no futuro. Ninguém segura o progresso.

(*) No Brasil, os primeiros empórios a adotar o sistema de autosserviço surgiram nos anos 1950. A rede Peg Pag foi pioneira. Maroto, o povo fazia troça com a novidade. Em vez de Peg Pag, dizíamos «Pegue e Corra».

Voto por internet

José Horta Manzano

Alguns meses atrás, eu lhes contava o progresso que o voto por internet havia feito na Suíça. De fato, a moderna parafernália informática abriu caminho pra grande avanço na área. Até outro dia, o eleitor helvético contava com apenas duas possibilidades de exercer seu direito: o comparecimento pessoal no domingo de votação ou o voto antecipado, por correspondência.

Entre os dois, o voto antecipado é bem mais prático. No canto da mesa da cozinha, bem à vontade, o eleitor rabisca seu desejo na cédula. Em seguida, enfia no envelope que já veio junto com o material eleitoral, despacha pelo correio e esquece. Mas há sempre quem prefira dar um passeio até o local de votação no domingo eleitoral. É sempre boa ocasião pra encontrar algum conhecido e bater papo em torno de um aperitivo antes do almoço. (O voto é encerrado ao meio-dia.)

Um tanto timidamente, menos de meia dúzia de cantões já haviam introduzido o voto por internet em fase experimental. Na teoria, é ultraprático. Vota-se do teclado do computador ou mesmo a partir do smartphone, companheiro de todas as horas e (quase) todos os bolsos. Mais simples, impossível. Só que essa modalidade de transmissão do voto acaba de sofrer uma senhora pancada.

A empresa nacional de correios, que é também importante operadora do ramo de transmissão eletrônica de dados, fez uma experiência. Organizou um concurso ‒ mais acertado será dizer um desafio. Conclamou piratas informáticos (em bom português: hackers) do mundo inteiro a tentar quebrar os códigos e protocolos de transmissão da empresa. Mais de três mil profissionais e amadores se apresentaram. Tiveram um mês de prazo pra tentar introduzir-se no sistema.

O resultado foi decepcionante ‒ para a empresa de correios, naturalmente. Os piratas detectaram numerosas falhas no código-fonte, problemas que tornam o voto inseguro. No frigir dos ovos, o eleitor exprime sua escolha mas não tem garantia de que o voto será computado corretamente. Deu pânico geral.

Para as votações programadas para o mês que vem, quatro cantões que se preparavam a adotar o voto por internet não tiveram remédio senão desistir. Ficou o dito pelo não dito. Vota-se de novo à antiga. O sistema, afinal de contas, não era tão ruim assim. Mais lento? Pode ser. Mas… bem mais seguro.

Fica a pergunta de sempre:
Será que o sistema brasileiro de voto eletrônico está blindado contra toda tentativa de pirataria?

Fica também a sugestão:
Que o Tribunal Superior Eleitoral institua um desafio, como foi feito na Suíça. Vamos ver se especialistas em espionagem eletrônica não encontram alguma falha no sistema. Estão com medo de quê?

UE: fim da hora de verão

José Horta Manzano

Na Europa, custou, mas… acabou. Aquela chateação de mudar de hora duas vezes por ano está vivendo o último supiro. O Parlamento Europeu se exprimiu hoje pela supressão da mudança de hora automática, duas vezes por ano, em vigor havia mais três décadas.

A instauração dessa medida foi tomada na esteira da crise do petróleo. Cálculos indicavam que o avanço dos relógios de abril a novembro geraria boa economia de eletricidade. Desde os primeiros anos, no entanto, a medida foi muito contestada. Agricultores alegam que as vacas não querem saber que horas são ‒ têm de ser ordenhadas a horas fixas. Habitantes de países nórdicos argumentam que, hora a mais, hora a menos, para eles, tanto faz. Naquelas latitudes, durante o verão, o dia já é interminável. A hora de verão é inócua.

Nos últimos tempos, com o advento de fontes de energia renováveis e também com a mudança nos hábitos de consumo, as economias geradas pela instituição da hora de verão perderam importância. Já faz anos que se fala em acabar com as mudanças e guardar uma hora fixa o ano inteiro.

Agora é oficial. Neste 26 de março, uma maioria de eurodeputados votou a favor do fim da mudança de hora. Foram 410 votos a favor, 192 contra e 51 abstenções. O veredicto é indiscutível. Cabe agora ao Conselho da União Europeia negociar para chegar à formulação final das regras.

Cada país pode escolher entre manter a hora de inverno o ano todo (como costumava ser até 30 anos atrás) ou conservar a hora de verão para sempre. Em 2019, 2020 e 2021, a hora de verão ainda entrará em vigor em todos os países. A partir daí, os que tiverem optado por manter a hora de inverno como hora oficial atrasarão os relógios pela última vez no fim de outubro de 2021. Os que tiverem preferido seguir com a hora de verão simplesmente não atrasarão mais os relógios.

Domingo 31 de março, entra em vigor a hora de verão. Será a antepenúltima vez. Nos próximos meses, conheceremos a decisão que cada país membro tiver tomado ‒ se conserva a hora de inverno ou a de verão. Tudo vai depender da opção dos países mais importantes. A Alemanha, a França e a Itália devem mostrar o caminho. Os demais acompanharão. Diferença de hora não é bom para os negócios.

Confissão tardia

José Horta Manzano

O interrogatório, levado a cabo pelo Ministério Público de Milão, levou dois dias. O resumo acaba de ser trazido ao conhecimento da imprensa: Signor Cesare Battisti, sentenciado à prisão perpétua anos atrás, confessa a totalidade dos crimes pelos quais tinha sido condenado à revelia.

Respondeu a todas as perguntas formuladas por dottore Alberto Nobili, coordenador da força-tarefa italiana antiterrorista. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

Signor Battisti sabe que a confissão tardia não lhe dará direito a nenhum favor, queimado que está por ter levado no bico a Justiça italiana assim como a dos países que o acolheram na vida de fugitivo, o Brasil entre eles. O fato de a confissão não lhe trazer nenhum benefício dá maior peso a ela. Fica a certeza de que o criminoso, agora confesso, não está admitindo os ‘malfeitos’ por algum obscuro interesse em amenizar a pena. Será, sem dúvida, pra aliviar a consciência.

O terrorista, agora em fim de carreira, pediu desculpas à família das vítimas. Mas não foi além. Em nenhum momento se mostrou arrependido do que fez. Preferiu declarar que os crimes «pareciam justos» para o jovem de 22 anos que era à época em que os cometeu. E paramos por aí.

Ainda não li nenhuma manifestação de parte de doutor Tarso Genro, ministro da Justiça que concedeu asilo ao criminoso, sob o argumento de que o italiano era «perseguido político». Habitualmente tão loquaz, nosso ex-presidente ‒ aquele que ora vive encarcerado em Curitiba ‒ não soltou nenhuma nota por enquanto. Gostaria de saber o que tem a dizer para se justificar do desvario que o acometeu quando, no último dia de mandato, garantiu refúgio definitivo ao assassino. Não vale dizer «Eu não sabia!», nem «Fui traído!». Essas desculpas já foram usadas na época do Mensalão. Estão manjadas.

O tamanho e o formato das bandeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

A gente costuma achar que todas as bandeiras nacionais são retangulares e de formato idêntico. Pois a realidade não é exatamente essa. O formato e as proporções das bandeiras são bastante variados. Há uma trintena de diferentes formatos oficiais. Cada país ou território tem regras específicas para confecção e apresentação de seu estandarte. Nossa bandeira nacional, quanto a ela, segue as (rigorosas e precisas) normas ditadas pelo Decreto-lei n° 4.545, assinado por Getúlio Vargas.

De cada quatro bandeiras, três seguem as proporções mais utilizadas: 1:2 ou 2:3. No primeiro caso, o comprimento da bandeira mede o dobro da altura. No segundo, o comprimento corresponde a uma vez e meia a altura.

Alguns pendões escapam a essas medidas mais difundidas. Entre eles, como se podia esperar, o nosso. Aproxima-se muito do padrão 2:3, embora o comprimento não chegue a uma altura e meia. As proporções da bandeira brasileira são de 7:10, o que dá uma razão não de 1,5, mas de 1,429. Apenas duas nações seguem esse padrão: o Brasil e a pequenina Andorra.

Na prática, no entanto, como pouca gente anda pela rua com uma régua no bolso a medir bandeiras, não se costuma dar muita atenção a essas minúcias. Certas ocasiões exigem que dezenas de lábaros sejam expostos: conferências internacionais, por exemplo. Para essas horas, está tacitamente combinado que todas sejam confeccionadas no formato 2:3. A uniformização evita que bandeiras mais longas acabem ocultando as mais curtas. Ninguém reclama.

Eu disse ninguém? Não é bem assim. Durante quase meio século, a Suíça negou-se a aderir à ONU, criada logo após a Segunda Guerra. O povo considerava que o estatuto de neutralidade do país era incompatível com a afiliação a uma organização supranacional.

O tempo passou, a guerra foi ficando pra trás, o Muro de Berlim caiu, a antiga geração foi desaparecendo, até que chegou um dia em que, por meio de plebiscito, os suíços finalmente aprovaram a entrada do país na ONU. Foi em 2002. Logicamente, um mastro foi acrescentado à fachada da organização internacional. Na hora de confeccionar a bandeira suíça, no entanto, um problema apareceu.

ONU ‒ Sede europeia, Genebra

Entre todos os Estados e territórios do planeta, somente dois têm bandeira quadrada. Um deles é o Vaticano ‒ que não é membro da ONU ‒ e o outro é justamente a Suíça. O cerimonial da ONU insistiu para que os suíços «espichassem» sua bandeira e a tornassem retangular. Pequenino mas cabeçudo, o país resistiu. «Nossa bandeira sempre foi quadrada e assim permanecerá.» A ONU preferiu não insistir.

Se o distinto leitor calhar de passar um dia diante da ONU, dê uma olhada. Lá está a bandeira vermelha de cruz branca. Quadradinha.

Artigo publicado originalmente em jan° 2017.

A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

Pulo no escuro

José Horta Manzano

Em maio de 1940, quando as tropas da Alemanha nazista desencadearam a ofensiva a Oeste, atacaram ao mesmo tempo a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a França. Em três tempos, botaram pra correr o exército francês, considerado até então um dos mais bem treinados e mais bem equipados do planeta. Em menos de um mês, com os adversários de joelhos, os alemães ocuparam os territórios vencidos e marcharam sobre Paris.

No sufoco, os franceses lembraram de Philippe Pétain, general que já havia salvado o país vinte e poucos anos antes, na guerra de 1914-1918. O velho foi chamado de volta à ativa, depositário da confiança da nação. Ele havia de dar jeito na situação. Entregaram-lhe as rédeas do poder e carta branca pra decidir.

Dia 17 de junho, o rádio transmitiu o discurso do general. A decepção foi amarga. É que as palavras do velho militar não foram exatamente as que o país esperava. Com a voz trêmula justificada por seus 84 anos, ele ordenou que o combate cessasse, que se recolhessem as armas, que cada um voltasse pra casa e que todos aceitassem a ocupação do território pelo exército inimigo. Com um sorriso, se possível.

Não se sabe como teria sido se o poder tivesse sido entregue a outro titular. Não é possível saber como teria sido o que não foi. Assim mesmo, fica a dúvida. Se o combate tivesse prosseguido, será que a França teria amargado quatro anos de ocupação militar?

Estive pensando no caso da Venezuela atual. O país vai mal, muito mal. De repente, surge esse señor Guaidó, jovem e bem-apessoado, com silhueta que lembra vagamente Barack Obama. Tirando o entourage de señor Maduro, não soube de nenhuma restrição que se faça ao desafiante. E olhe que já foi reconhecido como presidente legítimo por 50 governos, incluindo Brasil, EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Itália. No entanto, pouco ou nada se sabe de señor Guaidó. Não se sabe quais são suas ideias. Não se conhece sua capacidade de articulação. Não se sabe se tem firmeza de mando. Guaidó ao volante é um pulo no escuro.

Suponhamos que, amanhã ou depois, señor Maduro se sinta abandonado pelos generais, embarque num avião para Uagadugu e desapareça. Como é que fica? É aí que o novo dirigente será testado. Mas não se governa sozinho uma nação do tamanho da Venezuela. Terá de formar governo, pensar na reconstrução do país, mandar escrever nova Constituição ‒ uma série de tarefas espinhosas. Estará capacitado? Terá a envergadura necessária? Para o bem do povo hermano, espero que sim. Tomara que a escolha que fizeram os venezuelanos não os decepcione como a escolha de Pétain desapontou os franceses de 1940.

Brexit ‒ 9

José Horta Manzano

Muito britânico há de estar mordendo a língua por ter votado, em 2016, em favor do Brexit. Ou por não se ter dado ao trabalho de ir votar naquela ocasião. Fato é que o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia se apresenta muito mais complicado do que se podia imaginar. A complexidade da situação surpreende a todos, britânicos e demais europeus.

Faz tempo que a data teórica de conclusão da separação está marcada: será dia 29 de março, daqui a poucos dias. O Reino Unido está numa encalacrada, numa situação assaz desconfortável. Todas as saídas parecem ruins. Theresa May, a primeira-ministra britânica, tem aparecido rouca, com sinais de exaustão. No capítulo mais recente desta desgastante novela, o parlamento britânico rejeitou ontem o acordo de saída que ela havia costurado com Bruxelas. Meses de negociações foram por água abaixo.

Nunca se sabe o que pode acontecer de uma hora para a outra, mas o mais provável é assistirmos a um divórcio seco, sem acordo. Se isso ocorrer, desenha-se um cenário que prejudica a todos. Uma fronteira física será instalada entre a República da Irlanda e a britânica Irlanda do Norte. A circulação de pessoas estará entravada. No Reino Unido, o preço dos produtos europeus subirá devido aos impostos de importação. Controles alfandegários, que haviam desaparecido há mais de 40 anos, voltarão a existir ‒ França e Bélgica, os países mais próximos das Ilhas Britânicas, já estão se preparando para ressuscitar os antigos postos aduaneiros.

Resta a opção de convocar os britânicos a votar de novo, com a esperança de que, desta vez, rejeitem o Brexit. Mas é possibilidade remota. Não se pode votar, votar de novo, e continuar votando até que o resultado seja aquele que se espera. Se houvesse um segundo voto e se o resultado fosse diferente do primeiro, sempre haveria cidadãos a exigir um terceiro voto, depois um quarto, um quinto. Até quando?

Não. A besteira foi feita e é irremediável. Com ou sem acordo, o divórcio se fará. Daqui a vinte ou trinta anos, se a União Europeia ainda estiver de pé, quem sabe o Reino Unido poderá pedir nova filiação. Daqui até lá, é cada um no seu canto. Sem choradeira.

Tsunami de gelo

José Horta Manzano

Maciços montanhosos costumam abrigar lagos de altitude. Alguns são alimentados por curso d’água afluente. Outros, por derretimento de alguma geleira ou das neves invernais. Há ainda os que entram nas duas categorias – é o caso do Lago de Joux. Ele é alimentado pelas neves do inverno rigoroso e pelas águas do Orbe, rio que entra por um lado, atravessa a massa d’água e sai na outra ponta. Com 21m de profundidade, o Lago de Joux fica a uma altitude de 1000 metros. Mede 9km de comprimento por 1km de largura.

Lago de Joux no verão

Ao redor, está um rosário de cidadezinhas que, há séculos, se especializaram em fabricar relógios, escolha explicada pelo sistema de trabalho familiar. Tradicionalmente, cada família era especializada na fabricação de determinados componentes do relógio. Os longos invernos favorecem o trabalho em casa. A fábrica propriamente dita costumava ser mais montadora que fabricadora. Recolhidas as peças talhadas pelas famílias, faziam a montagem final dos relógios. Se a moderna automatização praticamente deu cabo do sistema, certo número de marcas importantes ainda produzem ao redor do lago.

Lago de Joux no inverno

Quando, no inverno rigoroso, a temperatura fica abaixo de zero durante alguns dias, uma camada de gelo se forma na superfície do Lago de Joux. Dependendo da espessura, dá pra passear em cima – calçando patins, que senão escorrega. Em algumas ocasiões, desde que determinados fatores estejam reunidos, esse gelo pode dar origem a um tsunami. Não é todo ano que acontece, mas foi o que se viu neste 2019.

Quando chega março, as travas do inverno começam a afrouxar. Na região, costumava ocorrer em abril, mas o aquecimento global tem encurtado o período frio. À medida que a temperatura se eleva, a camada de gelo vai afinando. Se, nessa altura, vier um dia de vento forte e contínuo, estarão reunidas as condições pra um tsunami gelado. A um dado momento, milhões de plaquinhas de gelo de poucos centímetros de espessura vão se desprender da superfície do lago, sair voando e encalhar na margem, formando montes de gelo.

O fenômeno dura poucos minutos. Nos tempos de antigamente, o espetáculo era reservado pra quem fosse da região. Hoje, que todo o mundo leva uma filmadora no bolso, ficou mais fácil. Faz dois dias, um passante, ao assistir ao tsunami de 2019, sacou rápido do celular e registrou essas impressionantes imagens. Não é perigoso como maremotos, mas é raro, curioso e original.

Tracambistas

José Horta Manzano

Na Suíça, país onde a mão de obra tem custo elevadíssimo, faz tempo que se tende a mecanizar o trabalho humano. A “moça do café” nunca existiu. Quem quiser adoçar a boca, enfia uma moedinha na máquina que fica no corredor, aperta o botão correspondende, e pronto. A profissão de cobrador de ônibus também é desconhecida. No tempo em que se comprava passagem dentro do veículo, quem vendia era o próprio motorista.

Já faz muitos anos, porém, que não se pode mais comprar bilhete dentro de ônibus. Para não viajar de “pendura”, arriscado a ser flagrado e levar multa, há duas opções. Para quem usa transporte coletivo frequente e regularmente, é conveniente comprar assinatura mensal ou anual – paga-se de uma vez e não se pensa mais nisso. Outra possibilidade, preferida pelos que viajam menos, é a compra a varejo. Cada vez mais gente compra pelo smartphone, mas boa parte dos bilhetes ainda é comprada nas máquinas instaladas em cada ponto de ônibus.

Antigamente, eram máquinas simples. Pelo menos, assim me pareciam. Hoje em dia são complicadíssimas, cheias de botões, com guia vocal, luzinhas aqui e ali. Mas o princípio é sempre o mesmo: toca-se aqui e ali pra indicar o trajeto e, em seguida, enfia-se a moeda na fenda. A máquina emite o bilhete e devolve o troco. Até aí, estamos todos de acordo. O complicador vem agora.

A moeda suíça de maior valor é a de 5 francos (= 19 reais). Acontece que a moeda russa de 1 rublo tem diâmetro e peso idênticos. A diferença é que não vale quase nada: 6 centavos de real. As máquinas de vender bilhete – um tanto antigas, é verdade – não conseguem distinguir entre as duas. Pronto, está aberta a porta pra tracambistas. (Tracambistas são fraudadores, só que a palavra me parece bem mais expressiva, especialmente neste caso.)

A boa-nova já se espalhou pelos lados da Rússia, Moldávia e cercanias. Os funcionários que esvaziam a máquina não passam um dia sem encontrar moedas de rublo. A astúcia consiste em comprar um bilhete de 2,40 francos e dar em pagamento moeda de 1 rublo. Entendendo que recebeu 5 francos, a máquina vai devolver 2,60 francos. Não é nenhuma fortuna mas, se o indivíduo repetir a operação vinte vezes por dia, vai amealhar cerca de 200 reais. No mole. É só tomar cuidado pra não dar demais na vista.

A prefeitura de Lausanne manda avisar que, visto que os usuários preferem, cada vez mais, comprar pelo celular, as máquinas atuais não serão substituídas. Vão ser gastas até a lona. Aviso aos amadores.

Cavalos alpinos

José Horta Manzano

Você sabia?

Desde que as hordas de invasores mongóis ensinaram à Europa como guerrear a cavalo, a cavalaria passou a constituir peça importante de todo exército. Até cem anos atrás, sempre que estourava uma guerra, cavalos de proprietários privados eram requisitados para serem incorporados ao exército. A mecanização provocada pela invenção do motor a explosão fez que, pouco a pouco, a utilização dos equinos decrescesse.

O exército suíço é um dos últimos da Europa a utilizar cavalos. Até os anos 1950, eles ainda eram 20 mil. Hoje são apenas 350, escolhidos a dedo e mimados como animais de estimação. Todo ano, organiza-se uma espécie de exame vestibular para a aquisição de novos cavalos para o exército. Muitos são os candidatos, poucos os escolhidos. A proporção de aprovados lembra o exame da Ordem dos Advogados no Brasil.

O uso dos animais está longe de ser folclórico. São utilizados exclusivamente para transporte de carga. Há caminhos por onde só se pode passar a pé ou a cavalo. No inverno, pode acontecer de uma avalanche ou um simples excesso de neve bloquear o acesso a algum vilarejo isolado na montanha. Se as condições atmosféricas permitirem, o abastecimento de emergência pode ser levado por helicóptero. Quando o tempo não permite voo, só os cavalos do exército são capazes de cumprir a tarefa.

Esse pequeno estoque equino é mantido também com outro objetivo. Caso um tremendo ataque cibernético venha um dia bloquear todo transporte e toda circulação, os cavalos estarão disponíveis pra remediar a situação. O serviço é todo regulamentado. Trabalham em média 45 dias por ano. Aposentam-se com a idade de 16 anos. Cada animal transporta a carga máxima de 100kg. E não pense que eles trabalham de graça. Afinal, este é o país dos bancos. Como todo militar, recebem um soldo. Atualmente, é de 40 francos (150 reais) por dia, pagos ao proprietário do animal.