O primeiro passo

José Horta Manzano

Faz alguns anos, morei num prediozinho de poucos apartamentos, situado num vilarejo de 1.500 almas. Meus vizinhos no prédio eram: um engenheiro aposentado, uma vendedora de loja de roupa, um arquiteto, um auxiliar de mecânico, um médico, um eletricista. Todos proprietários. O eletricista, por sinal, era dono do maior e mais caro dos apartamentos.

Agora falemos francamente, distinto leitor. Dá pra imaginar, num imóvel brasileiro, uma convivência tão disparate? De um lado, arquiteto, engenheiro, médico. De outro, vendedora de loja, auxiliar de mecânico, eletricista. Soa exótico a nossos ouvidos, não? Pois é coabitação corriqueira em países mais adiantados. E como é possível?

Em grandes linhas, é consequência do desnível social relativamente pequeno que vigora, em países adiantados, entre os de cima da pirâmide e os das camadas inferiores. Mais precisamente, essa convivência é possibilitada pela tradicional valorização dos «pequenos ofícios». Refiro-me a profissões da construção, da hotelaria, dos serviços, que são encaradas na Europa com respeito e dignidade, enquanto são depreciadas no Brasil.

Já contratei pedreiro que morava em casa própria com piscina. Já tive encanador que passava as férias de inverno esquiando com a família numa estação alpina. Já me vali do serviço de faxineira que vinha com carro próprio e hora marcada. No Brasil, filho de azulejista que se forma doutor é caso pra ser contado no Fantástico. Em outras plagas, não surpreende ninguém.

Trabalho de paciência: o serrador de pedra

Por maior que fosse o esforço, o Brasil levaria muito tempo para desfazer-se do preconceito e da discriminação de classe social. Num país em que a ordem medieval ainda sobrevive nos fatos e gestos do quotidiano, isso é obra de gerações. Mas, como dizem os chineses, toda longa caminhada começa com o primeiro passo. Se queremos ter um dia um país onde a justiça social reduza drasticamente a criminalidade, há que dar esse primeiro passo. Será bom para todos, tanto para o doutor como para o auxiliar de mecânico.

Doutor Carlos Alexandre da Costa, jovem economista, acaba de ser indicado para chefiar a Secretaria Geral de Produtividade e Emprego, no governo entrante. Li a entrevista que deu ao Estadão dias atrás. O moço parece disposto a incentivar a valorização dos pequenos ofícios. É intenção da nova secretaria lançar um Plano Nacional de Qualificação de Capital Humano, com o objetivo específico de elevar a qualidade da mão de obra do país.

Não vai bastar melhorar a formação de profissionais. Vai ser preciso vencer preconceitos profundamente enraizados na sociedade ‒ essa será a parte mais difícil. Não se esperem resultados imediatos, que a caminhada é longa. Mas ela começa com esse primeiro passo que está pra ser dado.

País anfitrião

José Horta Manzano

Sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, pairava uma certeza: guerras dificilmente têm final feliz. O saldo do conflito tinha sido de dezenas de milhões de mortos, sem contar feridos e desabrigados que perambulavam sem rumo. Todos tinham perdido. Além disso, nenhum dos objetivos tinha sido alcançado. Os participantes saíram da guerra mais pobres do que tinham entrado.

Diante de constatação tão amarga, ressurgiu a ideia de instalar uma organização que congregasse os países do mundo inteiro, um parlamento onde todos pudessem dialogar antes de dar voz ao canhão. Foi dessa necessidade ressentida por todos que nasceu a ideia das Nações Unidas.

Ficou acertado que a sede principal se construiria em Nova York. Aproveitando o palácio construído nos anos 1920 para sediar a falecida Sociedade das Nações, a cidade de Genebra (Suíça) foi designada como sede europeia da ONU. Desde 1945, a cidade é sede secundária da organização.

Embora seja a sede europeia da ONU e de mais uma trintena de agências internacionais, a Suíça não solicitou adesão à organização. A população do país não julgou fosse importante associar-se. Foi somente em 2002, quando a ONU já completava 57 anos de existência, que o povo suíço, por meio de plebiscito, aprovou a adesão do país.

A ONU e as agências internacionais respondem por cerca de 10 mil empregos diretos em Genebra ‒ sem contar as recaídas indiretas. É inestimável fonte de riqueza para a cidade. Faz funcionar o comércio, os serviços, o aeroporto, o mercado imobiliário, hotéis, restaurantes, táxis, escolas. A lista dos benfeitos é longa.

Já em Brasília, para certos luminares, a ideologia partidária fala mais alto que os interesses do Estado brasileiro. Semana passada, nossas autoridades fizeram saber que o Brasil renuncia a acolher a COP 25, conferência internacional sobre mudança climática prevista para 2019.

No câmbio oficial, restrições orçamentárias são o pretexto. No paralelo, está o cepticismo de algumas de nossas autoridades quanto aos efeitos das alterações do clima. Que me relevem a crueza de propósitos: é burrice pura. Acolher a conferência não é sinônimo de subscrever a suas conclusões. Se a Suíça pôde acolher a sede da ONU por 57 anos sem ser membro, por que não poderia o Brasil receber a COP por alguns dias sem tirar carteirinha de membro?

São tolos. Estão desperdiçando excelente ocasião para mostrar ao mundo que o Brasil mudou, que a ideologia já não dirige nossos negócios, que temos capacidade de organizar eventos internacionais, enfim, que amadurecemos. Mas… será que amadurecemos?

Panela no fogo, barriga vazia

José Horta Manzano

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Venezuela? Cuba? Iraque? Coreia do Norte? Não, minha gente. É França, sim senhor. As fotos, tiradas hoje, mostram gôndolas de um supermercado do interior do país, a mais de 500km de Paris, em estado de desesperador desabastecimento, especialmente nesta época de festas.

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A penúria de mercadorias é consequência dos distúrbios causados pelos protestos dos gilets jaunes ‒ coletes amarelos. As arruaças mais importantes e mais violentas aconteceram em Paris. No entanto, em virtude do bloqueio que os manifestantes promovem a centros de distribuição de mercadorias, o abastecimento do país inteiro está prejudicado.

Gilet jaune

Por que será que o movimento escolheu o colete amarelo como símbolo? E como é possível que, de repente, milhares de pessoas tirem do guarda-roupa coletes ‒ todos da mesma cor e mesmo modelo?

A resposta é simples. Na França, é obrigatório ter no automóvel, em permanência, essa peça de vestuário. É pra ser usado quando o carro enguiça e a gente tem de parar na beira da estrada e sair do veículo. Os coletes são amarelos e fosforescentes. Todos os automobilistas têm.

A solução peruana

José Horta Manzano

A corrupção no mundo político é uma praga tão mais intensa quanto maior for a desigualdade social do país. É fenômeno marginal em sociedades igualitárias como os países escandinavos, a Alemanha, a Holanda, a Suíça. É mato rasteiro alastrante em países da África, da Ásia do Sul, da América Latina.

No Brasil, cuja sociedade é irremediavelmente desigual, a corrupção habita nas vísceras do tecido social. Até outro dia, o mal parecia incurável, e o país, em estado terminal. A Operação Lava a Jato trouxe uma luzinha de esperança. Tem feito muito. No entanto, ainda que continue caçando ladrões pelas próximas décadas, será difícil que chegue a incomodar o cidadão que dá gorjeta ao guarda na esquina, naquele ponto em que corrupção é sinônimo de jeitinho.

O Peru, nosso vizinho, tem estrutura social semelhante à nossa. A corrupção na área política é lá tão grande ou maior que aqui. Só pra dar uma ideia, os cinco últimos presidentes da República estão enrolados com a Justiça. Um deles, doutor Kuczynski, foi obrigado a renunciar no bojo do escândalo Odebrecht/Peru. Outro, doutor Fujimori, foi condenado a 32 anos de prisão. Outro ainda tentou estes dias, sem sucesso, obter asilo na embaixada do Uruguai.

O presidente atual, doutor Martín Vizcarra, tem dado mostra de estar bem-intencionado. Decidiu fazer meia dúzia de reformas constitucionais. Em princípio, bastaria o voto do Congresso. No entanto, desconfiado (não sem razão) do comportamento dos eleitos, preferiu recorrer ao mecanismo do plebiscito. Uma das mudanças propostas era importante: a proibição de reeleição de parlamentares. Por avassaladora maioria de 85%, o povo aprovou a novidade. Assim, a assembleia que sairá das urnas em 2021 será constituída inteiramente de novatos, dado que nenhum dos atuais eleitos poderá se recandidatar.

Não há dúvida de que a medida é radical. Radical até demais. Equivale a guilhotinar paciente pra eliminar dor de cabeça. Assim mesmo, tem um lado atraente. Imagina-se que um mandato único não dê tempo pra deputado armar conluio com empreiteiras a fim de sugarem dinheiro do erário.

No entanto, há que convir que a bandidagem é agil e acaba se adaptando a condições novas. É de acreditar que, no novo desenho, os novatos sejam «enquadrados» pelos pagadores de propina desde os primeiros dias de mandato. E que a punção aos cofres do Estado continue, exatamente como sempre foi.

A novidade peruana tem, além disso, um lado negativo. Parlamentares honestos e competentes serão compulsoriamente afastados da função, ainda que tenham feito bom trabalho. É um desperdício.

Acho um exagero jogar o bebê com a água do banho. Acredito que uma solução como a da Lava a Jato, com perseguição tenaz a toda bandidagem do andar de cima, ainda seja mais bem adaptada a nossa realidade.

Firme pero no mucho

José Horta Manzano

Quando uma afirmação é martelada repetidas vezes, é sinal de que não há grande certeza de ela ser verdadeira. Tomando a coisa pelo avesso: quando a gente tem certeza de algo, não sente necessidade de ficar repetindo o tempo todo.

A Constituição que reinstaurou a democracia plena em nosso país completou 30 anos faz algumas semanas. Os mais jovens nem fazem ideia de como poderia ser um regime não democrático. Parece até que o atual regime faz parte dos direitos adquiridos da população.

No entanto, não se passa um dia sem algum figurão repetir que «nossa democracia está consolidada» ou que «nossas instituições funcionam». É tão frequente ouvir isso, que a gente se pergunta se essa tal democracia está tão consolidada assim. Fica a impressão de que a repetição do mantra faz parte de um exorcismo, um ritual de esconjuro celebrado pra afugentar todo risco de retrocesso.

Felipe VI, rei da Espanha

Esta semana, a Constituição espanhola completou 40 aninhos. Ela marcou o fim de longo período de ditadura franquista. A data foi celebrada como se deve. O rei atual, o rei emérito e todos os primeiros-ministros ainda vivos estiveram no parlamento para a ocasião. Em fala solene, Dom Felipe VI mandou: «Nuestra democracia es firme y consolidada!».

Liguei uma coisa à outra. Entendi que, no país das touradas, também parecem estar esconjurando um retrocesso. Se o próprio rei acha necessário sublinhar que a democracia é um bem adquirido, sólido, seguro e garantido, é justamente porque não tem tanta certeza assim quanto à perenidade da situação.

Dá pra imaginar Theresa May, Donald Trump ou Angela Merkel afirmarem algo parecido com «Nossa democracia é firme e consolidada»?

Executivo de sete cabeças

José Horta Manzano

Visto do exterior, o sistema de governo da Suíça parece surreal. É único no mundo. O chefe de Estado, em vez de ser personificado por uma única pessoa, é representado por um colegiado de sete cidadãos. Repúblicas costumam ter presidente e, às vezes, primeiro-ministro. A Suíça segue outro caminho.

Sete chefes de Estado? Deve sair caro!, pode-se imaginar. É verdade mas, pra compensar, o sistema não prevê ministros, o que barateia o custo final do Executivo. Cada um dos conselheiros federais ‒ como são chamados oficialmente ‒ assume a chefia de um dos sete ministérios.

Diferentemente do que ocorre em outros países, em que cada novo presidente costuma mexer no desenho ministerial, cortando, acrescentando ou desmembrando pastas, o sistema suíço é cristalizado. Pra alterá-lo, a vontade do Executivo não bastaria. Toda reforma teria de ser aprovada pelo Parlamento e referendada pelo povo, longo caminho que desencoraja. A fórmula com sete ministros tem dado certo ao longo dos últimos 170 anos, de modo que tende a permanecer.

Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento por um madato de quatro anos. Pode candidatar-se à reeleição quantas vezes desejar. Em um século e meio, só meia dúzia de conselheiros deixaram de ser reeleitos. É pra lá de raro. A permanência média de cada um deles no topo do Executivo é de dez anos.

O salário anual de um desses ministros suíços ‒ segure-se! ‒ é de cerca de 445 mil francos (1,75 milhão de reais). Além disso, ele recebe um montante fixo de 30 mil francos (118 mil reais) de ajuda de custo para cobrir todos os gastos de moradia e de representação. Assim, não precisa apresentar relatório de despesas. Tem direito ainda a automóvel com motorista e passe livre para viagens ferroviárias no país.

Quando deixa de ocupar o cargo de conselheiro federal, tem direito a aposentadoria vitalícia. O valor do benefício é metade do salário pago aos que estão na ativa, ou seja, 220 mil francos (862 mil reais) por ano. Só receberá esse montante, porém, se tiver exercido o cargo por pelo menos quatro anos. Caso tenha trabalhado menos, receberá proporcionalmente ao tempo de serviço.

Por razões de justiça, a lei prevê que conselheiros federais aposentados não recebam mais do que colegas ainda na ativa. Assim, aposentados que assumirem função remunerada na iniciativa privada devem informar o setor encarregado. O valor do salário vindo de outra fonte será abatido da aposentadoria.

Não se brinca com o dinheiro do contribuinte. Afinal, o serviço público está aí para servir à nação e não pra enriquecer apaniguados. Não é isso?

Fora, todos!

José Horta Manzano

Toda vez que líderes mundiais se reúnem, há quem manifeste desagrado, quiçá enrolado em bandeira e marchando sobre o asfalto aos gritos de «Fora este!» ou «Fora aquele!». É sacrossanto o direito a protestar, não há democrata que o negue. De lá a protestar por protestar, com objetivo nebuloso, só pra armar confusão ‒ já não estamos falando da mesma coisa.

Aconteceu quando doutor Trump estava para se encontrar com aquele excitado líder (dono?) da Coreia do Norte. Reuniram-se, cumprimentaram-se, conversaram. Muita gente ‒ na Coreia do Sul, nos EUA, no Japão ‒ contrária à ideia de os dois se encontrarem, manifestou indignação. Conversaram assim mesmo. Ao final, se o mundo não consertou, pelo menos ficou menos tenso do que antes. Mal não fez, a conversa.

Dias atrás, os grandes do planeta estiveram na reunião do G20 em Buenos Aires ensaiando acertar o passo no tango planetário que nos rege. De Mr. Trump a Frau Merkel, de doutor Temer a Monsieur Macron, estavam todos lá. Não deu outra: avenidas da capital argentina foram tomadas por manifestantes irados que ordenavam, sem sutileza nenhuma: «Fuera FMI!, Fuera G20!, Fuera imperialistas!, Fuera todos!». Edificante.

Fico perplexo com essas manifestações. «É conversando que a gente se entende» ‒ é moto repetido à farta entre nós. Ao observar os que protestam ruidosamente na rua, fico a imaginar que seria lógico proporem outra forma de resolver o problema contra o qual se insurgem. No entanto, nenhuma proposta aparece. Protestam por protestar. Mandam todos embora sem apresentar nem a sombra do esboço de um caminho novo.

Francamente, esses que gritam «Fora!» a todos não têm solução alternativa a propor. Nesse caso, mais vale ignorá-los e perseverar nos encontros e nos diálogos. Post nubila Phoebus. Depois das nuvens, sai o sol. Há de sair.

Entre duas canoas

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, escrevi sobre Monsieur Valls, que já foi primeiro-ministro da França e que hoje, transformado em Señor Valls, tenta a eleição para prefeito de Barcelona (Espanha). Não são comuns esses casos de figura pública transnacional, que brilha num país para depois continuar em outro.

Hoje surge mais uma estrela nesse peculiar firmamento. Trata-se de Madame Salomé Zourabichvili. Até poucos anos atrás, era diplomata francesa, com o grau de embaixadora. Hoje acaba de tornar-se presidente da Geórgia, pequena república do Cáucaso, vizinha da Rússia. Foi eleita no segundo turno com estonteantes 60% dos votos ‒ uma consagração.

A história de muitas famílias georgianas se acelerou faz um século. A Revolução Russa de 1918 chacoalhou a vizinhança. Na Geórgia, aqueles que, implicados na política local, caíram do lado errado da nova ordem, tiveram de arrumar a trouxa e se exilar antes que mal maior adviesse. Foi o que aconteceu com os avós da recém-eleita presidente.

Sua mãe nasceu na Turquia, em plena rota de exílio. Seu pai já nasceu na França. Nascida, ela também, em território francês, cedo sentiu-se atraída pela diplomacia. Entrou para a carreira e chegou ao grau de embaixadora. Não foi senão em 1986, quando já estava perto dos 35 anos de idade, que visitou a Geórgia pela primeira vez.

Salomé Zourabichvili, presidente da Geórgia

Depois da virada do século, sua carreira entrou em fase trepidante. Em 2003, chefiava a embaixada da França em Tbilisi, capital da Georgia. No ano seguinte, já se viu projetada ao cargo de ministra das Relações Exteriores do país de seus antepassados, nomeada pelo recém-empossado presidente. A vida dá voltas.

A partir daí, Madame Zourabichvili teve de se decidir. Não era possível servir, ao mesmo tempo, ao governo de dois países. Optou pela terra dos ancestrais e continuou na política georgiana. Conservou a dupla nacionalidade durante alguns anos. Poucos meses antes da eleição presidencial, renunciou à cidadania francesa e tornou-se 100% georgiana.

Ao depositar o voto na urna, Kalbat’oni Zourabichvili(*) declarou «Minha escolha é uma Geórgia em paz, uma Geórgia unida, uma Geórgia sorridente». São nossos votos também, dona Salomé. Amém para todos nós!

(*) Kalbat’oni é a transcrição de ქალბატონი, bordado georgiano que significa senhora.

Espírito de comunidade

José Horta Manzano

O cidadão honesto, que se conforma com levar a vida dentro dos limites, sem ceder à tentação de infringir as normas, sente-se pra lá de desconfortável quando constata que outros trapaceiam e transgridem esses limites. É ainda pior quando o resultado da fraude alheia dói no bolso do honesto cidadão. É insuportável.

Uma das características dos povos mais civilizados é a coesão social e o forte sentido de pertencimento a uma comunidade. Quem quer que atente contra o bem comum será alvo da repulsa da sociedade. Todos concordam com Margaret Thatcher: «Não há dinheiro público, mas dinheiro do contribuinte». Fraude contra o erário é ressentida como ataque pessoal.

Um exemplo atual é dado pela detenção de doutor Carlos Ghosn, empresário líbano-franco-brasileiro, manda-chuva do grupo Renault-Nissan-Mitsubishi. Acusado de ter fraudado o fisco do Japão, está há mais de dez dias atrás das grades, à espera de tornar-se oficialmente réu. A evasão fiscal é ressentida como crime contra o conjunto da população. Todos se sentem assaltados pelo doutor. Imperdoável.

Outro exemplo foi dado ontem pelo povo suíço. O eleitorado foi chamado a votar sobre vários assuntos. Entre eles, estava uma proposta de modificação da lei sobre a seguridade social ‒ em modo especial, o seguro-desemprego e o seguro-invalidez.

Por mais honestos que sejam os cidadãos, sempre há os que querem ser mais espertos e que acabam prejudicando os demais. Há gente que recebe salário do seguro-invalidez sem estar realmente inválido. Este blogueiro conheceu, anos atrás, uma senhora que, pelos 50 anos de idade, conseguiu polpuda aposentadoria por invalidez. Acontece que ela, de inválida, não tinha nada. Além de não sofrer de doença alguma, era capaz de sapatear como Fred Astaire e se estremecer como Michael Jackson. Há um bocado de gente nessas condições.

O resultado do voto suíço não dá margem a discussão: 65% dos cidadãos aprovam o reforço da vigilância dos assegurados suspeitos de fraude. A partir de agora, a vigilância por meio de detetives especializados poderá ser determinada. Como em filme de espionagem, dá pra imaginar proliferação de espias montados em galho de árvore, disfarçados de passarinho e munidos de binóculo a observar supostos paralíticos correndo feito criança ou desempregados que não se levantam do sofá pra procurar emprego.

Tirando o lado cômico, o que se depreende é a preocupação da sociedade em defender o bem comum. No Brasil, até poucos anos atrás, estávamos a anos-luz dessa realidade. A Operação Lava a Jato foi importante para fazer despertar no povo brasileiro a consciência de que roubo de dinheiro «público» é assalto ao bolso de cada um. Há que ser otimistas: aos pouquinhos estamos melhorando.

Aqui é meu lugar

José Horta Manzano

Semana passada, comemoraram-se os cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Para a ocasião, o governo francês providenciou cerimônia solene. A França, palco principal do sanguinário conflito, foi um dos países que mais sofreram naqueles anos sombrios.

Dirigentes de mais de setenta países acudiram ao convite e acorreram a Paris. Ao pé do Arco do Triunfo, entre dezenas de outros, estavam Trump, Putin, Merkel, Netanyahu. Procurei, na foto de família que se costuma tirar nessas ocasiões, nosso presidente. Perda de tempo. Ele não se dignou de comparecer. Apesar de o Brasil ter atuado nessa guerra ao lado dos aliados ‒ numa participação modesta mas ativa ‒, doutor Temer não julgou necessário estar presente de corpo.

Tampouco a ocasião de manter colóquio informal com algum colega dirigente motivou nosso cansado presidente. Doutor Temer, aprecie ou não, ainda tem mês e meio pela frente na chefia do Executivo. Está sendo pago pra isso.

Nestes dias, tem lugar, na capital da Guatemala, a Cúpula Ibero-Americana 2018, encontro dos dirigentes dos países ibéricos e latino-americanos. Com exclusão dos EUA, não precisa nem dizer. A intenção dos participantes é encontrar solução para desviar o planeta do destino trágico ao qual está condenado caso nacionalismos e regionalismos continuem a vicejar. Observo uma curiosa contradição: organiza-se uma cúpula regional, que exclui todo forasteiro, no intuito de denunciar e condenar regionalismos.

Doutor Temer, que não deu o ar da graça em Paris, embarcou dia 15 de novembro para Guatemala City. Tinha encontro marcado com o rei da Espanha ‒ figura politicamente decorativa ‒ e com o dirigente do Principado de Andorra. Estava previsto também um encontro reservado com o anfitrião, o presidente da Guatemala. São todos colóquios de primeira grandeza, como se vê.

Doutor Temer mantém-se fiel à doutrina da diplomacia Sul-Sul, instaurada por seus antecessores. Afinal, não se deve esquecer de que ele foi eleito na chapa de Dilma Rousseff. O passado deixa marcas.

Pontos de atrito

José Horta Manzano

Ao redor do globo, há numerosas regiões onde as populações vivem em tensão crônica. Na raiz, pode estar antagonismo religioso, étnico, linguístico, político ou histórico. Pode ainda haver uma combinação de mais de um desses fatores.

O caso mais conhecido, mais midiatizado e de maior poder explosivo é, sem sombra de dúvida, o conflito que envolve Israel e seus vizinhos. Já centenária, a tensão começou a nascer à época em que começaram a chegar, vindo principalmente da Europa, imigrantes judeus. A situação naquela região é bem mais complicada que um duelo: a soma de interesses envolvidos tece uma tela emaranhada. A solução do problema ‒ se é que um dia será encontrada ‒ não é pra já.

As tensões na Irlanda do Norte, que deram origem a ondas de atentados e de assassinatos políticos no último quartel do século XX, tinham sido acalmadas desde que Irlanda e Reino Unido passaram a integrar a União Europeia. A convivência entre católicos e protestantes, entre separatistas e unionistas, tinha se tornado habitual e sem solavancos. Isso durou até que, por um descuido da maioria silenciosa que se omitiu de votar, os eleitores britânicos deram voto favorável ao Brexit.

Os britânicos e os demais europeus tomaram um susto. Mas não havia nada a fazer, que o povo havia votado. Desde então, as negociações pra fixar os termos do divórcio têm sido duras, complicadas. Afinal, um casamento de 45 anos não se desmancha assim, sem mais nem menos. Não basta cada um levar sua escova de dentes. Há uma infinidade de pontos a discutir.

O problema mais espinhoso, todo o mundo já sabia desde o começo das negociações, é a questão da fronteira entre as duas Irlandas, a do Norte e a independente. É outro exemplo de atrito regional insolúvel. A solução, seja ela qual for, pode até agradar a um lado mas certamente vai desagradar ao outro.

O único jeito de pacificar a região seria o povo britânico voltar atrás e renunciar ao Brexit. Mas, a depender de Theresa May, nem pensar. Portanto, as brasas estão sendo atiçadas na Irlanda do Norte. É só questão de tempo pra irromperem as labaredas.

Brega

José Horta Manzano

Como detectar um novo-rico? A resposta, como diz o outro, está na própria pergunta. A expressão novo-rico define o sujeito que, tendo enricado de repente e abandonado os fins de mês apertados pra gozar de considerável folga financeira, faz questão de anunciar ao mundo que tem dinheiro. E o faz do modo mais espalhafatoso possível.

O enriquecimento súbito não é necessariamente fruto de práticas criminosas. No Brasil destes últimos anos, é verdade, temos convivido com descobertas assustadoras nesse campo. Tivemos a dança dos guardanapos protagonizada em Paris por doutor Sergio Cabral, então governador do Rio, acompanhado de amigos. Tivemos também as despesas suntuosas da família de doutor Eduardo Cunha quando estavam em vilegiatura na Europa. Espantamo-nos ainda com a antena de celular, a adega, o lago artificial e os pedalinhos personalizados instalados num certo sítio de Atibaia.

Mas há os que, apesar de terem enriquecido honestamente, se perdem e não resistem a comportar-se como novos-ricos espalhafatosos. Outro dia, o jogador de futebol português Cristiano Ronaldo estava em Londres com a namorada e mais dois amigos. Preparavam-se para assistir ao jogo de tênis estrelado por Nôvak Djókovitch. Como tinham tempo pela frente, decidiram entrar num bar de Mayfair pra tomar alguma coisa.

Quinze minutos mais tarde, quando deixaram o estabelecimento, tinham tragado duas garrafas de vinho. A primeira era um Richebourg Grand Cru, um tinto de Bourgogne do Domaine de la Romanée-Conti, pela qual o craque pagou 18 mil libras (= 88 mil reais). A segunda, bem mais barata, foi um Petrus Pomerol, um tinto de Bordeaux. Custou ‘apenas’ 9 mil libras (= 44 mil reais). A conta final ficou em 27 mil libras (= 132 mil reais), que nosso herói pagou sem reclamar. Deve estar habituado. Detalhe: a segunda garrafa foi consumida pela metade.

Robert Parker, talvez o conhecedor de vinho mais respeitado no mundo, disse uma vez que nenhuma garrafa de nenhum vinho deveria custar mais de 50 dólares. No preço das que se vendem mais caro que isso, estão embutidos outros componentes, como a raridade, o prestígio, o luxo e outros quesitos que nada têm a ver com a qualidade da beberagem. O homem tem razão. Não é concebível pagar perto de 50 mil reais por uma garrafa de vinho tinto. Só faz isso quem ganhou dinheiro fácil ‒ que é o caso de Cristiano Ronaldo e também dos que assaltaram o erário do Brasil.

Mas não adianta: quem é brega, é brega até o fim. Nosso amigo futebolista engoliu, com os amigos, uma garrafa de Bourgogne seguida de uma de Bordeaux. Beber nessa sequência, em tão pouco tempo, não é de bom-tom. Não se deve misturar, no curto espaço de 15 minutos, dois néctares de origem diferente.

Que se há de fazer? Mau gosto salta aos olhos, não dá pra disfarçar. É como gato que, quando se esconde, deixa o rabo de fora.

Lorenzoni e a Mata Atlântica

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro precisa nomear, com urgência, um porta-voz. Ainda deslumbrado pelo sucesso nas urnas, o entourage do presidente eleito tem ido ao pote com muita sede e já dá sinais inquietantes de embriaguez. A vaidade de quem se vê de súbito num palco iluminado está contaminando a fala do primeiro círculo e poluindo a comunicação.

O doutor tem de mostrar quem é que manda no barraco. Entre o general vice, o primeiro-filho, o ministro da Justiça designado e o coordenador-geral da transição, reina a cacofonia. Não se passam dois dias sem que um deles dê declaração-bomba, daquelas que fazem a delícia da imprensa e semeiam desconforto na população.

BR18 – Estadão
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A mais recente vem de doutor Lorenzoni, importante peça no tabuleiro, atual coordenador da transição de governo. Em declaração dada ontem, passou um pito nos noruegueses e incitou-os a «aprender com o Brasil». A briga é com ONGs ambientais que cuidam da floresta tropical. Irritado, doutor Lorenzoni acusou a Noruega de não ter preservado suas florestas, enquanto o Brasil «preservou a Europa inteira, mais cinco Noruegas».

Mata Atlântica em 1500 e atualmente: restam 8%
crédito: planetabiologia.com

Melhor seria se tivesse guardado a língua no bolso. Falar sabendo é uma coisa, falar sem saber e ainda de modo debochado é o fim da picada. Aqui acima, está um mapa da Mata Atlântica. Compara a floresta que os primeiros europeus encontraram em 1500 com o que resta atualmente. Conseguimos aniquilar 92% da cobertura. Isso é que é preservação!

Aqui abaixo vai um mapa da cobertura florestal da Europa atualmente. É fácil constatar que os países escandinavos ‒ Noruega incluída ‒ são justamente os mais verdes, os que melhor preservaram suas florestas.

Europa: cobertura florestal
crédito: jakubmarian.com

O falatório no seio da equipe de doutor Bolsonaro está ensurdecedor. O fato de falarem todos ao mesmo tempo já é irritante. Se, além de falarem junto, ainda proferem besteiras, é caso de polícia.

É pouco

José Horta Manzano

Consoante THE – World University Rankings, instituição amplamente reconhecida, nenhuma universidade brasileira está classificada entre as 200 melhores do mundo. Entre o 200° e o 500° lugar, aparecem duas universidades brasileiras. São as únicas instituições nacionais entre as 500 melhores do mundo. A mais bem classificada é a Universidade de São Paulo (USP), cotada entre as 300 melhores. Em seguida, vem a Universidade de Campinas (Unicamp), situada entre o 400° e o 500° lugar.

Além das duas mencionadas, quatro outras universidades brasileiras aparecem entre o 600° e o 800° lugar. São elas: a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Unifesp. Portanto, apenas meia dúzia de universidades brasileiras estão classificadas entre as mil melhores do mundo. É muito pouco.

Para efeito de comparação, está aqui um quadro com o mapa da Europa e a menção, para cada país, de quantas universidades estão entre as 500 melhores.

Mapa preparado por jakubmarian.com

Note-se que o Reino Unido tem 58(!) instituições classificadas. Seguem-lhe a Alemanha (44) e a Itália (33). Até a pequena Irlanda tem 7 universidades entre as 500 primeiras, quando o imenso Brasil tem apenas 2.

Nosso país é o 5° do mundo em território e o 5° em população. Partindo da premissa que o brasileiro não é menos inteligente que o resto da humanidade, a indigência de nosso desempenho é incompreensível. Não seria exagero esperar que ao menos uma universidade nossa ‒ umazinha só ‒ se classificasse entre as dez primeiras. Ou entre as vinte melhores. Ou, com muita condescendência, entre as cinquenta campeãs. Em vez disso, nossa melhor instituição só aparece depois das 200 primeiras. É desesperante.

O lulopetismo, que dominou a política nacional durante a última década e meia, se gaba de ter aberto mais faculdades do que nenhum outro governo anterior ‒ como nunca antes neste país. Há de ser verdade. Mas a posição brasileira na classificação global dá prova de que o balanço é ruim. Os estrategistas do partidão confundiram quantidade com qualidade. Pode trazer votos, mas não leva à excelência.

Falam de nós – 26

José Horta Manzano

No Brasil, os espíritos já vão serenando. Lá fora, no entanto, o mundo continua abismado com a ousadia da maioria de brasileiros que deram voto de confiança a doutor Bolsonaro. Basta abrir qualquer jornal pra encontrar análises tingidas de incompreensão. Este apanhado de manchetes colhidas estes últimos dois dias revela que a ficha ainda não caiu.

La Depêche, França
«Le Brésil est revenu cinquante ans en arrière»
«O Brasil retrocedeu cinquenta anos»

Le Monde, França
«Sergio Moro adhère au programme répressif de Jair Bolsonaro»
«Sergio Moro adere ao programa repressivo de Jair Bolsonaro»

The New York Times (Spanish edition), USA
«Bolsonaro representa el pasado colonial de Brasil»
«Bolsonaro representa o passado colonial do Brasil»

Le Point, França
«Brésil: Bolsonaro et Israël, une relation politico-religieuse à haut risque»
«Brasil: Bolsonaro e Israel, uma relação político-religiosa de alto risco»

Sydöstran, Suécia
«Brasilien: nationalismen ett allvarligt hot mot våra barn»
«Brasil: nacionalismo é ameaça séria contra nossos jovens»

Le Monde, França
«Au Brésil, la détresse des homosexuels et des trans»
«No Brasil, a aflição dos homossexuais e dos trans»

O que fica desta vida

José Horta Manzano

A Primeira Guerra Mundial, carnificina que castigou a Europa de 1914 a 1918, foi orquestrada por generais, como é costume em tempos de conflito. Na França, depois que as armas se calaram, os oito generais que mais se tinham destacado foram proclamados marechais ‒ um título honorífico que se outorga àqueles cuja atuação tenha sido considerada extraordinária. Um dos homenageados foi o marechal Philippe Pétain, cujo gênio tático havia permitido a vitória do país na terrível Batalha de Verdun. O homem entrou para a memória coletiva como salvador da pátria.

Passaram-se pouco mais de vinte anos. Na irrequieta Europa do século 20, foi tempo suficiente pra estourar nova guerra ‒ a que viria a ser conhecida como Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1940, num ataque relâmpago de apenas três semanas, a Alemanha nazista invadiu a França, destroçou-lhe as forças militares e ocupou o país. Dernorteados, os franceses se lembraram do herói da guerra anterior. Chamaram o marechal, já então com 84 anos de idade, para de novo salvar a pátria.

O ancião assumiu as rédeas do governo. Depois de avaliar prós e contras, tomou a decisão de baixar os braços, assinar a rendição, aceitar a ocupação do território pelo exército estrangeiro e dar início a um período de colaboração com o inimigo. Não foi pra isso que tinha sido chamado e não era exatamente o que se esperava dele. Mas os franceses tiveram de engolir a pílula, por mais amarga que fosse. O exército de Hitler continuou ocupando a França pelos anos seguintes.

Quepe de general francês

Cinco anos depois, vencidos os alemães e terminada a guerra, chegou a hora do acerto de contas. O marechal Pétain, acusado de alta traição e conluio com o inimigo, foi processado e condenado à pena capital acrescida da perda de todas as honrarias. Recebeu também o castigo simbólico de desonra nacional. Levando em conta a idade do militar ‒ o homem já estava com 90 anos ‒, o general De Gaulle decidiu graciá-lo. Sua pena foi comutada em prisão perpétua. O ancião morreria na prisão alguns anos mais tarde. Desde então, Pétain reside na galeria dos anti-heróis, dos traidores da pátria, dos personagens sinistros da história da nação.

Estes dias a Europa celebra o centenário do fim da Primeira Guerra. O ponto alto das comemorações será sábado próximo nos Invalides, um complexo arquitetônico que compreende uma catedral, diversos museus e um cemitério militar. Na ocasião, o nome dos marechais de 1914-1918 será solenemente pronunciado. Voluntorioso, o presidente Macron declarou, faz alguns dias, que o nome de Pétain fará parte dos que vão ser enunciados. Ah, pra quê! Alevantou-se uma grita nacional. Políticos, figurões, entidades, analistas, jornalistas ‒ a França inteira se eriçou em protesto. Ficou claro que a pátria não perdoou a Pétain. O papel que ele representou na Segunda Guerra anulou a glória conquistada na Primeira. Em vista do clamor, Monsieur Macron teve de recuar: o nome do marechal não será pronunciado. A nação não quer ouvi-lo.

Essa historinha de personagem que chegou ao topo para depois descer às profundezas me lembrou um conhecido ex-presidente nosso. Lula da Silva de fato subiu ao ponto mais alto a que se pode aspirar, festejado dentro e fora das fronteiras. No entanto, desvelada a podridão de certos atos seus, despencou do pedestal para ingressar na galeria dos caídos. Cruel e imperdoável, toda queda cassa e revoga as glórias do passado. O que fica é a última impressão. Como aconteceu com o velho marechal francês, a memória de Lula da Silva está para sempre avariada. Ainda que se lhe comutasse a pena de prisão, a desonra é definitiva, uma via sem retorno.

Apocalipse vende mais

José Horta Manzano

Puxa! Nunca imaginei que o Brasil se tivesse tornado tão importante! Visto do exterior, parece que o país subiu de nível. Passou a eleição, o novo presidente está definido há dez dias, mas o assunto continua a ser comentado na imprensa. Em volume de citações, este período supera com folga a época de ouro do lulopetismo, quando se imaginava que um salvador da pátria tinha surgido da secura da caatinga para redimir definitivamente a nação tupiniquim. Quá!

A abundância de artigos, entrevistas e análises atuais se deve, com certeza, à rede mundial de telefones e computadores, que faz que a informação circule fluente e dê volta ao planeta num segundo. No entanto, apesar das facilidades modernas, constato que a informação que chega ao exterior pende para um lado que não é o que os brasileiros escolheram. Com folgada maioria, os eleitores elegeram doutor Bolsonaro. Passando por cima dessa realidade, a mídia europeia continua de queixo caído, incapaz de reconhecer que o eleito encarna a mudança pela qual todos anseiam, tanto os que votaram nele, quanto os demais.

Por aqui, o discurso que se ouve é aflitivamente semelhante ao do lulopetismo. Analistas continuam a mostrar-se escandalizados com a «deriva conservadora» do eleitorado do maior país da América Latina. Acusam os brasileiros de ‘fascistas’, ‘adeptos da extrema-direita’, ‘homofóbicos’, ‘machistas’, ‘adeptos do autoritarismo’ e outros apodos graciosos.

Também, brasileiros com projeção internacional não ajudam. Outro dia, ouvi nosso ultraconhecido fotógrafo Sebastião Salgado, convidado matinal da rádio pública francesa, declarar que ‘os brasileiros ficaram loucos’ e martelar o relato do golpe sofrido por doutora Rousseff. Entre dezenas de outros, essa mesma ex-presidente, mais Chico Buarque e até FHC ‒ quem diria! ‒ botam lenha na fogueira. Correspondentes da mídia internacional baseados no Brasil também contribuem para difundir a versão lulopetista. É que anunciar o apocalipse vende mais do que falar em esperança de enfiar corruptos na cadeia e pôr ordem no país.

O festival de desinformação continua. Por minha parte, preferia que se falasse do país por outros motivos. Mas as coisas são como são. The (poor) show must go on. O show (mambembe) tem de continuar.

Adendo 1
Signor Paolo Mieli é colunista do italiano Corriere della Sera há 25 anos. Passando por cima do fato de que foi o próprio povo brasileiro a fazer sua escolha, ele assina um artigo publicado domingo passado que dá a impressão de que o novo presidente nos tenha sido imposto por algum poder extraterrestre. Aqui vai a primeira frase:

“Il trionfo elettorale di un personaggio discutibile e discusso come Jair Bolsonaro è stata una pessima notizia non soltanto per il Brasile, ma anche per l’America Latina tutta e, probabilmente, per il mondo intero ‒ O triunfo eleitoral de um personagem discutível e discutido como Jair Bolsonaro foi péssima notícia não só para o Brasil, mas também para toda a América Latina e, provavelmente, para o mundo inteiro.”

Precisa ler o resto?

Adendo 2
Ouvi outro dia no rádio, no dia seguinte ao da eleição do novo presidente, o comentário de um jornalista, que soava como trovão:

«Les minorités entendent déjà le bruit des bottes sur le sable de Copacabana ‒ As minorias já podem ouvir o ruído de botas nas areias de Copacabana.»

Que talento dramático! De todo modo, pouco importa o conteúdo, o que conta é a embalagem. Não é pra assustar qualquer cristão?

Visão do exterior

José Horta Manzano

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

A representação que os europeus se fazem das recentes eleições presidenciais brasileiras está sintetizada no traço de Patrick Chappatte, desenhista suíço.

A charge apareceu no New York Times dois dias atrás. O artista é colaborador permanente da grande mídia planetária. Desenha para o NYT, o alemão Der Spiegel, o suíço Le Temps, o francês Herald Tribune.

Lembrete horário

José Horta Manzano

Este lembrete é pra você que tem conhecidos na Europa. Neste último domingo de outubro, mudamos de hora ‒ provavelmente pela última vez. Voltamos à hora de inverno. Na madrugada passada, quando o relógio marcou 3 horas, voltou a ser 2 horas.

As autoridades encarregadas do assunto estão atualmente considerando acabar com esse vaivém horário que perturba todo o mundo duas vezes por ano. Se as discussões forem bem sucedidas, esta terá sido a última mudança de hora. Vai valer para todos os países da União Europeia e para os vizinhos que aderem à norma.

Seja como for, convém ajustar sua agenda de contactos. Se você vive no Brasil, a distância que o separa de seu amigo na Europa fica diminuída de uma hora a partir de hoje. Se eram quatro horas, agora são três. Se eram cinco horas, agora são só quatro. E assim por diante.

Olhar vesgo

José Horta Manzano

Não sei quem está mais próximo do desespero, se a mídia nacional ligada ao PT ou a mídia internacional em bloco. Enquanto, no Brasil, veículos próximos ao lulopetismo estão em estado de agitação, no exterior todos os veículos parecem em estado de convulsão, pouco importando em que bordo político estejam ancorados.

Os artigos e as análises são diários. Jornais, rádios de informação, tevês, portais ‒ todos se mostram horrorizados com a perspectiva de a malvada extrema direita tropical suplantar a bondosa esquerda, tão preocupada com o bem-estar dos desvalidos. (Mas tão empenhada em roubar o dinheiro desses mesmos desvalidos ‒ detalhe que passa em silêncio.) Falas e escritos vêm por atacado.

A rádio Europe 1, emissora francesa, no jornal falado e no portal, mandou ao ar: «Brasil, há urgência: a esquerda continua com dificuldade na mobilização contra Jair Bolsonaro».

Por seu lado, a oficial Rádio França Internacional dá destaque, no portal internet, ao fechamento ordenado pela Justiça de dezenas de páginas de apoio a doutor Bolsonaro. Assim mesmo, concede que se trata do “provável futuro presidente do Brasil”.

O sisudo primeiro canal da televisão pública alemã lança ao ar uma pergunta inquietante: “Com fake news rumo à vitória?”

Já o quoditiano austríaco Wiener Zeitung aborda uma outra faceta da inquietação internacional. O artigo que discorre sobre os eleitores de doutor Bolsonaro leva o título “Brasil a caminho de se tornar estado religioso”. Note-se que esse receio não costuma estar presente no argumentário de analistas tupiniquins.

O alemão Westfälische Rundschau trata Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo como ETs. Em alentado artigo, procura explicar a seus incrédulos leitores as razões pelas quais os craques apoiam o capitão reformado.

Jornal suíço Le Matin

Até o quotidiano suíço Le Matin dá contribuição ao alvoroço. Em artigo intitulado “ Os desafios da eleição presidencial no Brasil”, o site do jornal mostra vídeo de um minuto com cenas de rua de nossa campanha eleitoral acompanhadas de informações em sobreimpressão. A uma certa altura, mostram meia dúzia de gatos pingados empunhando cartazes sob a legenda: “Em Genebra, os brasileiros da Suíça protestaram contra Bolsonaro”. (A palavra ‘protestaram’ vem em letras vermelhas.)

Só que tem uma coisa. No primeiro turno, 3077 eleitores compareceram às urnas instaladas na cidade suíça. Nada menos que 51,2% escolheram doutor Bolsonaro. Doutor Haddad não ficou senão em terceiro lugar, atrás de Ciro Gomes, com apenas 12,4% dos votos. Dependesse de Genebra, o capitão já estaria eleito. É curioso ver a imprensa dar mais importância aos protestos ‒ que podiam até estar sendo organizados pela militância paga ‒ do que ao voto secreto, que é a palavra final dos eleitores. Curioso.