A invasão de Ceuta

Bandeira de Ceuta
Credit: Ulaidh, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3951546

José Horta Manzano

Ceuta é um exclave da Espanha, um pequeno território situado no norte do continente africano, espremido entre o Marrocos e o mar. É parte integrante da nação espanhola, embora não se possa chegar lá por terra a partir do território espanhol. A única ligação entre Ceuta e o território nacional é feita por barco, a partir do porto de Algeciras, numa travessia de aproximadamente uma hora.

Ceuta é também o nome da cidade que ocupa o exclave. Tem cerca de 85.000 habitantes. O território já era ocupado desde a Antiguidade. Depois da invasão da Espanha pelos conquistadores árabes, foi passando de mão em mão, ao sabor da ascensão e queda de pequenos emirados e califados. Expulsos os mouros, portugueses se apossaram de Ceuta em nome da coroa.

O Tratado de Tordesilhas – aquele que dividia o globo entre Espanha e Portugal – reconhecia Ceuta como território português. Como aprendemos na escola, devido a um problema de sucessão, o reino de Portugal foi absorvido pelo reino de Castela, numa união que durou de 1580 a 1640. Ao final desse jejum forçado, quando Portugal se livrou da Espanha e recobrou a independência, Ceuta ficou no meio do caminho e não acompanhou o movimento.

Portugal, naquela altura entretido com suas colônias americanas, não fez questão de lutar por Ceuta. Assim, desde 1640, o exclave pertence à coroa espanhola. Como lembrança do tempo dos portugueses, a bandeira de Ceuta traz até hoje, encravado no centro, o brasão de Portugal, com seus característicos 5 escudos azuis.

A impressionante “invasão” de Ceuta, sexta-feira passada, por dezenas de milhares de jovens marroquinos é resultado dramático de um mal-entendido. Em princípios de julho, o Tribunal Supremo espanhol emitiu o que chamaríamos de “súmula vinculante”. Sacramentou o entendimento de que não se pode rechaçar imediatamente o migrante que chegar ao território espanhol a nado ou de barco.

Numa leitura equivocada, jovens marroquinos imaginaram que isso significava “porteira livre”, ou seja, quem chegar será recebido. Pelas redes sociais, convocaram uma espécie de Festa da Selma ao molho do Marrocos, com o propósito de chegarem todos juntos a Ceuta, a porta de entrada do “eldorado” europeu.

Faltou combinar com o exército espanhol, a polícia e a população da cidade. Alguns dos adolescentes levaram duas horas na travessia, outros nadaram quatro horas. Dado que muitos nem sabiam nadar direito, a taxa de mortalidade foi cruel: deixou uma centena de cadáveres pelo caminho.

Ainda que, por hipótese, quisessem acolher todos os recém-chegados, os ceutenses não teriam condições de fazê-lo. Contagem por alto informa que os chegantes daquele dia equivaliam à totalidade da população da cidade. Como é fácil imaginar, uma cidade pequena não tem condições de ver dobrar seu número de habitantes da noite para o dia.

Desenxabidos e com fome, os jovens marroquinos deram marcha à ré a partir da manhã seguinte. Entenderam que não ia dar pra permanecer. Fica para uma próxima tentativa. Foram-se todos.

Ao assistirem às imagens da chegada dos migrantes, dirigentes europeus se assanharam, principalmente os de direita e extrema-direita. Com estardalhaço, a italiana Giorgia Meloni anunciou o fechamento da fronteira italiana para os viajantes provenientes da Espanha, com exceção dos europeus. Como se fosse possível verificar um por um.

É que as dramáticas imagens provenientes de Ceuta correspondem exatamente ao medo que a extrema-direita europeia instila em seus adeptos: o medo de uma invasão de morenos não cristãos, que viria eliminar a civilização cristã e implantar uma versão bárbara e primitiva do islamismo.

Toda corrente de extrema-direita, seja ela liderada por Trump, Bolsonaro, Meloni ou qualquer outro, se alimenta do medo de um inimigo comum, de preferência externo. Hitler havia dado aos judeus e ciganos o título de inimigos da nação. Trump elegeu os latino-americanos. Os Bolsonaros, na falta de estrangeiros para incriminar, veem inimigo em qualquer um que não pense como eles.

No fundo, quem devia se envergonhar da invasão de migrantes marroquinos é o próprio rei do Marrocos, Maomé VI (Mohammed VI). Cabe a ele fazer o necessário para dar instrução profissionalizante aos jovens do país e ensinar-lhes pelo menos a língua inglesa. Preparar sua juventude para um futuro melhor é tarefa dele, não de dirigentes estrangeiros.

Trump de la pampa?

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

No caso da rápida passagem de Milei, presidente da Argentina, pela convenção que lançou a candidatura de Flávio B. à Presidência da República, tem sido dada mais atenção à forma que ao fundo do pronunciamento do argentino. A virulência dos insultos foi notada (e reprovada) por todos, mas o objetivo central do visitante ainda está por esclarecer.

Olhando de repente, Javier Milei parece um sujeito sem noção por natureza e palhaço por vocação. Um bobalhão, em resumo. Acontece que a realidade não é bem essa. Dono de uma licenciatura em Economia, duas pós-graduações em Economia e Teoria Econômica e autor de uma dezena de livros de Economia, seu lado histriônico não passa de encenação.

A pretensão de Donald Trump de reavivar a Doutrina Monroe – a América para os americanos – fez brotarem caraminholas na cabeça de Javier Milei. Ao se dar conta de que os três maiores países americanos (Brasil, México e Canadá) estavam governados por opositores políticos de Washington (Lula, Sheinbaum e Carney), o argentino teve a peculiar ideia de se autopromover a xerife regional de Trump, uma espécie de interventor do poder americano nesta parte da América.

É dentro dessa óptica que deve ser analisada a ingerência de Milei no processo eleitoral brasileiro. Tratou-se muito mais de autopromoção que de apoio ao filho de B. Mas por que os insultos? O argentino trata de arremedar seu ídolo, que reina na Casa Branca. Falta-lhe o talento teatral, não mente com a mesma convicção que o mestre, sua estridência mais ofende que mete medo. Mas… e daí? O objetivo não era escandalizar? Pois foi amplamente atingido.

Milei sabe que Flávio B. tem certa chance de ser eleito. Não fosse assim, não teria se abalado até aqui colar sua imagem num cavalo fora do páreo. Se de fato o filho de B. ganhar a eleição, Milei saberá cobrar gratidão do novo presidente. Nesse sistema neofeudal, Flávio deve vassalagem a Milei, que, por seu lado, deve vassalagem a Trump. Se funcionava assim no século 13, não há razão para que não funcione hoje, não é mesmo?

Se porventura Lula vencer a corrida, Milei não terá perdido a viagem. Continuará macaqueando no seu canto na esperança de, também ele, ser reeleito em Buenos Aires. Para espichar esta tragicomédia que, se não contribui para o progresso de nossa região, pelo menos entretém a plateia. E rende artigos como este.

Petição

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Petições estão circulando pela internet estes dias, pedindo à Fifa que a final da Copa do Mundo de futebol seja jogada de novo, veja você. Alegam que o árbitro era corrupto e que fez o que pôde para tirar a vitória da Argentina. Contam até que o homem já foi preso, algum tempo atrás, na Bósnia, numa operação contra o crime organizado. Na Bósnia… Crime organizado…

Veja como são as coisas. Até outro dia, antes da final, o que se ouvia era que a Argentina estava sendo favorecida pelos árbitros, como se estivessem todos instruídos para “aliviar” para os hermanos porque a Copa tinha que ir para eles. Certos lances de arbitragem realmente transmitiram essa impressão. É surpreendente ver, agora, reclamações no outro sentido.

Uma das petições que correm atualmente já recolheu quase cem mil assinaturas. Quero acreditar que os signatários estão todos (ou quase) na Argentina.

É comovente ver tanta gente ingênua a ponto de acreditar que uma tal petição tem alguma chance. Imagine só, se a Fifa se desse ao trabalho de atender a petições de torcedores, ainda estaríamos discutindo e jogando de novo a final da Copa de 1958, após pedido da Suécia, réplica do Brasil, tréplica da Suécia, e assim por diante.

Nem que, num rasgo de sincericídio, um árbitro viesse a reconhecer em público – e com firma reconhecida – que trapaceou, ainda assim nenhum jogo poderia ser redisputado. Jogo jogado, apito final dado e resultado homologado é fim de papo. Assunto encerrado.

Não é impossível que nosso amigo Trump tenha, sem querer, incentivado petições dessa natureza. Pois não foi ele que pediu anulação do cartão vermelho recebido por um jogador americado? E não foi a obsequiosa Fifa que, rapidinho, parcelou a suspensão do atleta em suaves prestações? Essa contradança deve ter tocado o coração de torcedores mais ingênuos: se Trump conseguiu sozinho, nós, que somos muitos, podemos também tentar.

Sugiro iniciarmos uma petição para repetir o jogo Brasil x Noruega. Desta vez, vai.

Internet, a regulação necessária

José Horta Manzano

O primeiro automóvel que chegou à cidade de São Paulo foi um Peugeot trazido de Paris por navio em 1891. Era propriedade da família de Alberto Santos-Dumont, o aviador. Há registro de o carro ter sido visto em 1893 dando uma volta pela Rua Direita, hoje via pedestre, mas então logradouro muito concorrido da capital.

Outros “vehiculos automoveis” (hoje diríamos veículos automotores) foram importados nos anos seguintes e engrossaram a circulação da cidade. Nos primeiros anos, um carro que se movia sozinho era novidade absoluta, daí a total ausência de infraestrutura pronta a receber a raridade. Os carros não eram emplacados, não havia sinais de tráfego, o pavimento das ruas não estava preparado para o molejos delicados, não havia CNH.

Com o tempo, foi aparecendo a regulação: placas de identificação do veículo, autorização de conduzir a geringonça, indicação da mão de direção em ruas apertadas, placas que davam prioridade. Não veio tudo duma vez. Foram necessários anos até que a circulação automotora entrasse na paisagem urbana.

A cada vez que uma novidade entra em nossas vidas, o caminho é o mesmo. Primeiro, a surpresa, quando a novidade se agita feito potro assustado que nâo sabe aonde vai. Em seguida, as coisas vão se assentando e a regulação, aos poucos vem chegando.

A internet e suas aplicações, como as redes sociais, não fogem a essa regra. Essas redes, surgidas há anos, foram sendo deixadas soltas e à vontade, sem regras claras que não fossem reclamações e clamores sem amanhã. Alastraram-se e criaram tanta raíz, que muitos Estados têm hesitado em intervir no sentido de impedir que crianças e adolescentes sejam arrebanhados por grupos mal intencionados ou por suas ideias.

Com a lei que obriga plataformas a verificar a idade e a ligar obrigatoriamente os contas dos menores de 16 anos à de seus pais, o Brasil entrou para o seleto grupo de países que já legislaram na matéria. Faz companhia à Austrália, à Malásia, à Indonésia e à China. Outros países têm projetos, uns mais adiantados, outros menos, que visam ao mesmo objetivo.

Esta semana foi a vez da França, o primeiro europeu a legislar sobre a matéria. Esta semana, o parlamento aprovou a lei que visa “a proteger os menores dos riscos representados pelas redes sociais”. O artigo principal proíbe acesso às redes sociais aos menores de 15 anos. Era um projeto para cuja aprovação o presidente Macron tinha se empenhado pessoalmente. A França espera e acredita que foi dado um empurrão à aprovação, por outros países da UE, de legislação semelhante.

O banimento não inclui o acesso a enciclopédias online do tipo Wikipédia ou outras plataformas educativas. O texto de lei não impõe nenhum método de verificação da idade, deixando às plataformas como Facebook ou TikTok a tarefa de definir o método. A lei deve entrar em vigor a partir de setembro próximo, que é o mês da volta às aulas na França.

Na minha opinião a lei francesa era necessária. Efebos ainda não têm a maturidade necessária para mergulhar na insociabilidade das redes “sociais”.

O espetáculo argentino

José Horta Manzano

Quando eu era pequeno, o Brasil era muito diferente de hoje. Era caipira, meio atrasado, e todo o mundo sabia disso. O brasileiro tentava olhar para fora do país e imaginar como seria a vida no estrangeiro.

As influências que recebíamos vinham pelo cinema, com filmes em grande maioria norte americanos. Imaginávamos que os EUA fossem um país fabuloso, em que todos tinham automóvel, viviam em casas rodeadas de jardim, eram ricos e comiam omelete com toucinho de porco logo de manhã. Mas os Estados Unidos estavam muito longe, naquele mundo em que viagens intercontinentais custavam um patrimônio.

Mais próximo de nós estava a Argentina, país que julgávamos adiantado, moderno, nosso vizinho de parede. Vizinho é modo de dizer, porque, apesar da distância relativamente pequena, quase ninguém viajava até lá. Estradas havia, mas era impensável rodar tantos quilômetros. De trem, era impossível. O melhor meio de chegar a Buenos Aires era de navio. Vosmecê não acredita? Pois era assim.

Os poucos que viajavam até lá traziam objetos que não existiam aqui. Mantas de pura lã, frutas secas de produção local, vinhos. Em nossas feiras, vendiam-se maçãs e peras argentinas, porque não havia produção brasileira. Cerejas, quando apareciam, vinham de lá e custavam uma fortuna.

Tive uma tia-avó que, toda semana, comprava uma revista feminina argentina, porque ainda não havia nada parecido no Brasil. Era o Para Ti, que trazia romances em capítulos, receitas, artigos sérios, ilustrações coloridas – um deslumbre. Foi essa revista, aliás, que me deu as primeiras lições de língua espanhola. Sempre tive grande admiração pela Argentina.

Passado tanto tempo, simpatias vindas da infância às vezes se chocam com a realidade. Assisti ao jogo de domingo, final da Copa, com o duelo Espanha x Argentina. Tendo já assistido à partida das semifinais entre a Argentina e a Inglaterra, eu já estava ressabiado. Aquilo foi uma desgraceira, uma pancadaria sem fim. Era assim, então, que a campeã da última Copa pretendia defender seu título? Que horror. Passaram 90 minutos daquela semifinal massacrando fisicamente os ingleses, como se estivessem num campo de batalha.

Um jogador argentino faz um espanhol fazer um voo acrobático e aterrissar no gramado.

Um analista creditou esse comportamento a um “rancor persistente” (pela derrota sofrida 44 anos atrás, na Guerra das Malvinas). Rancor? – pergunto eu. Por algo que ocorreu antes que todos os jogadores tivessem nascido? Não acredito. Aquilo foi mostra de agressividade própria de um grupo desclassificado, surgido não se sabe de que caverna.

No jogo final da Copa, os ferozes jogadores argentinos repetiram a dose. Deram pancada e cotovelada a granel. Abusaram das faltas e do comportamento antiesportivo. Foi constrangedor. Alcançaram um recorde nada invejável: pela primeira vez, uma seleção atravessa os 90 minutos da partida final sem chutar a gol. Não digo nem fazer um gol, mas apenas chutar em direção à meta. Não é impressionante? Acho que estavam tão vidrados na agressividade contra os adversários, que não deu tempo de pensar em fazer gol.

A imprensa mundial pouco falou desse aspecto deplorável do jogo. Artigos e análises preferiram passar batidos por esse capítulo desagradável. O New York Times não deixou passar em branco. O articulista intitulou “A Argentina desonrou a si mesma — e a final da Copa do Mundo — com sua petulância sem charme”. Leandro Paredes, talvez o mais feroz dos argentinos, teve direito ao epíteto de “vilão sorrateiro” por parte do NYT.

Barraco armado por um furibundo jogador argentino depois da derrota.

E o barraco não acabou com o apito final. Terminado o encontro, o mesmo Paredes arrumou confusão com o banco espanhol. Atracou-se furiosamente com um jovem reserva, e atirou-o ao chão com um golpe semelhante ao ippon do judô. Foi apartado, se não o assustado reserva teria ido direto para o Pronto Socorro.

Espetáculo deprimente oferecido por uma turma sem eira nem beira. Alguém sugeriu excluir a Argentina da próxima Copa. Imagine só se a gananciosa Fifa havia de perder a fonte de renda representada por um país de mais de 40 milhões de habitantes.

A Argentina vai estar presente em 2030, pode ter certeza. Resta esperar que a próxima leva seja de jogadores mais civilizados. É permitido duvidar.

Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

Jogadores “estrangeiros”

Crédito imagem: dramafever.com

José Horta Manzano

Se vosmecê observar os jogadores da Inglaterra, da França, da Alemanha, e até da Espanha e de Portugal, vai notar a presença de numerosos pretos, mulatos, turcos e árabes, que não têm a aparência típica dos originários de uma Europa de brancos. Há quem imagine que se trata de esportistas “importados”, trazidos do exterior para serem treinados e naturalizados a fim de engordarem a seleção nacional. Não é bem assim.

Desde os anos 1960-70, com a independência das colônias africanas, a Europa tornou-se terra de imigração. Em vez de exportar contingentes de camponeses pobres, passou a importar ex-colonizados em busca de melhor sorte.

Com isso, a presença, no seio da população, de tipos antes exóticos foi-se tornando cada dia mais comum. Com o passar do tempo, a imensa maioria desses novos imigrantes foi se naturalizando; acabaram tornando-se franceses, espanhóis, alemães. O processo de aquisição da nacionalidade ocorre geralmente a partir do momento em que o interessado chega à maioridade, dependendo do país. Esse movimento de população deu origem a grande número de europeus com dupla nacionalidade: a adquirida por naturalização e a herdada dos pais pela “jus sanguinis”.

Os futebolistas que hoje atuam na seleção inglesa, assim como na francesa, na alemã e nas outras, entram praticamente todos nessa categoria de descendentes de imigrantes. É curioso que essa imigração abriu excelentes possibilidades para os selecionadores dos países de origem dos imigrantes.

Já faz alguns anos que Argélia, Marrocos e países da África Negra enviam “olheiros” à Europa à cata de bons jogadores jovens e com dupla nacionalidade. Após um trabalho de convencimento, evitam que os pupilos joguem partidas internacionais com o uniforne de um país europeu, levam os jovens para o país de origem e os retêm com a perspectiva de virem a entrar para a seleção.

Um exemplo inacreditável vem agora. Vosmecê sabia que, dos 26 selecionados do Marrocos, apenas sete nasceram lá? Pois é, nada menos que dezenove nasceram no estrangeiro. Não tiveram de se naturalizar marroquinos, pois já o eram. Dos 19 jogadores, 6 nasceram na França, 6 na Espanha, 3 na Bélgica, 3 na Holanda e até um no Canadá, o goleiro(*). Assim, de cada 4 jogadores da seleção marroquina, três nasceram fora do país.

(*) Uma curiosidade quanto a Yassine Bounou, o goleiro do Marrocos. Considerando todas as Copas organizadas até hoje, ele é o único jogador a ter atuado duas vezes, em diferentes edições da Copa, contra seu país de nascença. De fato, em 2022 e em 2026, ele esteve no gol marroquino num jogo contra o Canadá. O Marrocos venceu ambos.

O prepotente e o capacho

José Horta Manzano

Interferência do poder público no esporte, sempre houve. Desde o prefeito que “compra” o árbitro com o dinheiro da prefeitura, até o presidente do país que, discretamente, avisa que não aceitará nenhum outro vencedor do campeonato nacional que não seja o time para o qual ele torce.

Às vezes dá certo, às vezes não. O problema é a extrema dificuldade de se denunciarem fatos assim com base em provas irrefutáveis. Essas interferências costumam tomar dois caminhos: ameaça ou “compra” (corrupção).

Já quando se trata de Copa do Mundo, fica mais complicado. Dada a visibilidade desse evento, qualquer interferência fica escancarada, Embora tenha acontecido no passado, a última vez foi há quase meio século.

Não se tem notícias de que Hitler tenha tentado meter o bedelho nas copas de 1934 e 1938, mas sabe-se que Mussolini interferiu. Principalmente na Copa de 1934, sediada pela Itália, há forte suspeita de intervenção do “Duce”, embora a história não tenha guardado prova. Coincidência ou não, a Itália venceu aquela edição.

Foi em 1978, na Copa da Argentina, que a mão pesada da ditadura ficou mais evidente. Se não serve de prova, pelo menos é forte indício. O pecado, desta feita, foi a corrupção, com dinheiro grosso rolando por baixo da mesa. A uma certa altura, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols a fim de deixar o Brasil para trás e chegar à final.

No torneio, até então, a defesa peruana havia se mostrado forte. Pois justamente no jogo contra a Argentina abriram o bico e concederam vitória aos albicelestes pelo inacreditável placar de 6 a 0. Com isso, a Argentina foi à final e, derrotando os holandeses, sagrou-se campeã do mundo.

Prova, não há. Mas há forte suspeita de corrupção. Depois desse episódio, nâo se registraram, em Copas do Mundo, outros eventos dignos de nota. Isso foi até ontem.

Durante o jogo contra a Bósnia, um atacante dos EUA deu um pisão pra valer no pé de um adversário. Depois de consultar o VAR, o árbitro deu cartão vermelho ao agressor, o que significa suspensão para o próximo jogo. Uns gostaram da expulsão, outros não, mas ficou por isso mesmo.

Alertado para o fato de o melhor atacante americano estar suspenso para o próximo jogo, Donald Trump não hesitou: ligou para seu amigo Gianni Infantino, presidente da FIFA, e exigiu anulação do cartão vermelho. Em ato de submissão desbragada, Infantino acedeu ao pedido de Trump: o cartão foi anulado, e o atacante americano poderá jogar a próxima partida.

Inconformados, jornais do mundo inteiro denunciaram o escândalo. Se, no passado, havia suspeita de interferência do poder na Copa, desta vez há denúncias até no ultrassério The New York Times. E Trump ainda se manifestou louvando a FIFA por ter corrigido uma “enorme injustiça”.

É lamentável essa intervenção descarada. Demonstra que, do encontro de um homem prepotente (Trump) com um homem com vocação para capacho (Infantino), não se pode esperar nada de sério. O esporte mundial não ganhou nada com o ocorrido. A credibilidade da FIFA sai do episódio ainda mais arranhada do que de costume.

Infantino, que é candidato à sua própria sucessão na presidência da FIFA, certamente está contando com o apoio de delegações asiáticas e africanas que, contra um punhado de dólares, costumam dar seus votos a ele.

A meu ver, está brincando com fogo. As delegações mais fortes e que mais contribuem para a saúde financeira da FIFA são as europeias, que não hão de apreciar ser participantes de jogo tão abertamente sujo.

Para antes do jogo

Bandeira da Noruega e as bandeiras ocultas

José Horta Manzano

Texto para ser lido imediatamente, antes do jogo deste domingo 5 jul° 2026. Depois, dependendo do resultado, este escrito pode perder o interesse.

Vamos dar uma rápida espiada na elegante bandeira da Noruega. Como a de seus vizinhos escandinavos, ela ostenta a cruz viking inscrita numa feliz combinação de cores: vermelho, branco e azul-marinho.

Muitas bandeiras trazem essas cores, como França, EUA, Reino Unido, Rússia. Mas a da Noruega tem uma particularidade que as outras não têm: ela esconde, como num jogo de paciência, as bandeirinhas de 10 outros Estados.

Apesar da aparência relativamente simples, uma observação mais atenta revelará dez bandeiras nacionais mimetizadas, como naqueles quebra-cabeças que desafiam a «encontrar o coelho».

Há mais casos de bandeiras ocultas dentro de outras. Há que prestar atenção: quem procura, acha. Todavia, uma coisa é certa: nosso lindo pendão da esperança não se aninha dentro de nenhum outro.

Crédito
A descoberta das bandeiras ocultas dentro do pendão norueguês se deve à perspicácia do blogueiro espanhol Diego González.

Europa equatorial

José Horta Manzano

Vosmecê, que vive num clima equatorial ou tropical, não há de se espantar, mas tem muito europeu estonteado, sem saber o que fazer para mitigar o calor infernal que assola o continente. Dantesco é um bom adjetivo, que lembra o inferno descrito pelo grande poeta toscano.

Já no mês de maio, o mês das noivas, que costuma (costumava?) trazer o canto dos passarinhos e as primeiras flores, recebemos uma frente quente diretamente do Saara, a nos lembrar que, em linha reta, não estamos assim tão longe das areias ferventes. Uma semana com temperaturas acima de 30° em pleno maio? Coisa nunca vista.

Entrou junho, voltou um friozinho benfazejo. Todos imaginaram que os calorões estavam conjurados até julho – no mínimo. Que nada! A alegria durou pouco. Já no dia 13, as fogueiras de Santo Antônio esquentaram os termômetros, e as temperaturas subiram de elevador. Vinte e oito, vinte e nove. O que eu sei é que, a partir do dia 16, o mercúrio diurno não desceu mais abaixo de 30°.

E a partir de 22, foi a loucura total: 35° ou mais todos os dias. Sábado, dia 27, tivemos 37,1°C aqui neste canto ameno da amena Suíça, minha gente. Eu mesmo, que já passei 52 verões neste país, juro que nunca tinha enfrentado um problema desses. A amena cidade de Basileia (Basel) bateu nos 39°. Como fazem os que vivem no deserto africano?

Certos lugares da França passaram dos 41°C. O mesmo vale para localidades da (fria) Alemanha. Até a (gélida) Dinamarca teve seus dias piauienses, com 36°C. Portugal, Espanha e Itália estão no mesmo balaio.

Nesta Suíça em que a instalação de ar condicionado em casa é rigorosamente regulamentada por lei, as lojas de eletrodomésticos estão de prateleiras vazias. Assim que vem nova chegada de aparelhos, desaparecem em horas. Os (habitualmente) comportados cidadãos estão passando por cima de leis e regras. O medo de derreter é maior que o medo de levar multa pesada. Vão instalando sem pedir licença a ninguém.

Para este começo de semana, a previsão do tempo nos promete uma volta gradual a padrões habituais de calor. Mas já bisbilhotei a previsão para 10 dias e descobri, com aflição, que o alívio é de curta duração. Depois de poucos dias, vai começar a subir de novo.

Vem nova frente tórrida por aí e alçaremos os picos dos 35° de novo. Quando eu decidi fincar pé nestas terras, ainda nos anos 1960, uma das principais atrações era, para mim, o clima fresco. Para quem vinha de um caloroso Brasil – como eram quentes os anos 60! – era um refrigério. Hoje, nas minhas elucubrações, digo que, se eu tivesse sabido que ia terminar assim, teria escolhido logo uma Finlândia.

Quem manda aqui sou eu!

by Arend van Dam (1945-)
desenhista holandês

José Horta Manzano

Um belo dia de fevereiro, o mundo acordou com o eco de bombas lançadas sobre o território iraniano. Tratava-se de um ataque maciço que os EUA e Israel, aliados, desferiam no Irã. Era Trump que tinha mandado suas tropas com a mensagem: “Quem manda aqui sou eu!”.

Nos dias que se seguiram, num golpe que parecia haver sido preparado por meses, um enorme palácio do centro de Teerã foi tão fortemente bombardeado que virou pó. Dentro, desenrolava-se uma reunião de altos dignitários. De uma tacada só, foram eliminados os principais cabeças do regime, incluindo o aiatolá Khamenei, o líder máximo.

A essas alturas, ninguém dava um tostão pelo futuro da teocracia. Esperava-se que o regime desmoronasse a qualquer momento e que novos dirigentes, favoráveis aos EUA, despontassem.

Com as semanas que passam, a gente vai-se esquecendo da sequência dos acontecimentos, mas a impressão era de que o Irã dos aiatolás era página virada, sobrando um país agora de joelhos e de braços abertos para as empresas americanas.

Não foi o que aconteceu.

No Irã, o regime não caiu. Outro guia espiritual foi imediatamente escolhido. Para cada guarda revolucionário caído, outro surgia não se sabe de onde. O país descobriu que era hora de pôr em prática seus planos de fechamento do Estreito de Hormuz, sua melhor arma.

Contando com uma imensa quantidade de drones, o Irã se valeu deles para sua defesa. Incapaz de disparar mísseis que atingissem o território americano, atacou interesses dos USA na região: dezenas de bases militares instaladas nos países vizinhos foram visadas.

Com seu estoque de armas baixando a olhos vistos e com bilhões de dólares sendo consumidos na guerra, os EUA insistiram na abertura de conversações visando a instaurar a paz. As tratativas ainda estão a meio, mas já se pode perceber claramente quem ganhou e quem perdeu com a guerra.

O Irã provou que a potência militar americana não é lá essas coisas. Dispõem, é verdade, de um arsenal que ninguém iguala, mas mostraram que, para ganhar uma guerra, ter armamento mais poderoso nem sempre é suficiente. Com o fechamento de Hormuz, o Irã conseguiu vergar o poderio americano.

Os EUA, que eram os protetores naturais de todos os países árabes da região, foram incapazes de proteger seus aliados, e decepcionaram. Qatar, Bahrein, Iraq e os demais têm agora maior tendência a voltar-se em direção a outros protetores, como a China, por exemplo.

O Irã, que era o país amaldiçoado da região, sai dessa guerra fortalecido e respeitado. Vai se passar um bom tempo antes que alguém ouse chuchar Teerã com vara curta. Cabe ao Irã agora proclamar:

“Quem manda aqui sou eu!”.

A cúpula e os vândalos

José Horta Manzano

O ano era 2003. No Brasil, Lula era presidente de primeiro mandato, embriagado pelos eflúvios do sucesso, nadando de braçada num ambiente propício. FHC havia deixado a casa em ordem, contas em dia, máquina bem lubrificada. Já Bolsonaro era deputado e se aninhava no ‘baixo clero’, mais preocupado com seus assuntos particulares que com a boa marcha da nação.

No mundo, os dirigentes de turno eram o inefável italiano Berlusconi, o francês Chirac, o inglês Tony Blair, o americano George Bush filho e o principiante Vladimir Putin, da Rússia. Esses personagens, junto com alguns outros líderes, formavam o G8 – grupo dos 8 países mais industrializados, que mais tarde se tornaria G7, com a exclusão da Rússia na esteira da anexação da Crimeia, em 2014.

A cúpula daquele ano estava para realizar-se na França. Para sediar a reunião, Paris havia escolhido uma pequena mas aprazível estação de águas chamada Evian, situada ao pé dos Alpes franceses, à beira do Lago Leman. A cidadezinha fica numa região perdida, longe de qualquer centro urbano francês. A referência mais próxima é a cidade suíça de Genebra, plantada à beira do mesmo lago. Ali está, por exemplo, o aeroporto mais próximo que deve servir a receber os dignitários estrangeiros. Além dos líderes do G8, há convidados, entre os quais estão Lula da Silva mais uma meia dúzia de outros chefes de Estado.

Em 2003, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos – sem mandato da ONU – provocou uma onda mundial de indignação. Na sequência, levantou-se um forte movimento anti-G8. Para prevenir que manifestações viessem perturbar o sossego dos líderes reunidos, o governo francês bloqueou as estradas que levam a Evian. Diante disso, que fizeram os manifestantes? Pois decidiram manifestar em Genebra, a cidade grande mais próxima do evento.

Ao ficar sabendo das manifestações previstas pelos jovens bem-intencionados, afluíram, de todos os países vizinhos, vândalos profissionais que têm prazer em quebrar vitrines e pilhar lojas. Pode parecer inacreditável, mas há gente que vem de longe, toma trem, gasta o dinheiro da viagem, só pelo prazer de estourar vitrines, atirar coquetel Molotov e, se der, carregar alguma mercadoria, nem que seja uma lembrancinha.

O período de 31 maio a 3 junho de 2003 trouxe o caos a Genebra. Felizmente não morreu ninguém, mas houve feridos, incômodos, bloqueio de vias, perturbação do funcionamento da cidade e, principalmente, muita destruição. A polícia, pouco habituada à violência daqueles dias, ficou sobrecarregada, desnorteada, e perdeu as condições de operar. Foi assustador, e todos ficaram felizes quando a cúpula acabou e o pessoal graúdo foi-se embora.

O tempo passou, poucos ainda se lembravam desse episódio. Hoje, 23 anos passados, cabe de novo à França organizar a reunião anual do (agora) G7. E que lugar eles escolhem para o convescote? Adivinhou: de novo, Evian, a estaçãozinha termal ao pé dos Alpes. E pertinho de Genebra.

Como anfitriã, Paris tem o direito de escolher receber os confrades onde quiser, mas bem que podiam ter escolhido uma outra localidade. Fico desconfiado que escolhem Evian justamente porque sabem que os convivas ficarão encantados, e que os espinhos vão para os suíços. Se tivessem preferido outra cidade francesa, colheriam os espinhos.

É verdade que, em quase um quarto de século, o mundo mudou. Talvez os idealistas ingênuos daqueles tempos já não existam. Talvez o sentimento anti-G7 tenha se arrefecido. Mas um fato é certeza: vândalos sempre existiram e sempre existirão.

A manifestação deste ano está marcada para 14 de junho.

Nota:
Para instalar um tapume de proteção diante de uma pequena loja de uma vitrine, os (espertos) profissionais estão cobrando nada menos que 16 mil francos (103 mil reais). Pensava que espertinhos só havia no Brasil, é?

A trapacinha chinesa

Xi Jinping cumprimenta Marco Rubio
Pequim, 14 maio 2026

José Horta Manzano

Preâmbulo
Xi Jinping é o presidente da China. Na língua original, seu nome se escreve com três ideogramas: 习 近 平. Como nem todo o mundo sabe chinês, o nome aparece sempre transliterado, isto é, usando nosso alfabeto para reproduzir os sons chineses. Oficialmente, deve-se escrever Xi Jinping, mas poderíamos também grafar Chi Ginping. Ao menos nós outros pronunciaríamos do mesmo jeito.

Pois esse expediente funciona nos dois sentidos. Para escrever nomes ocidentais, os chineses escolhem ideogramas que, mais ou menos, reproduzam o som original. Diversão comum entre turistas que visitam a China é pedir que o nome de cada um seja escrito em escrita chinesa. Pagando o preço, pode-se mandar escrever e levar de volta para casa o nome gravado em algum suporte mais interessante: porcelana, folha de papel de fabrico artesanal, etc.

Origem da confusão
Marco Rubio, hoje Secretário de Estado do governo americano, já foi senador. Durante seus anos como parlamentar, foi crítico veemente da falta de respeito que o governo chinês dava a suas minorias. Fomentou a imposição de sanções à China por causa do trabalho forçado infligido à minoria uigur. Tanto fez o senador, que Pequim se enervou com a insistência e resolveu aplicar-lhe sanções. Usaram a tática dos próprios EUA, que frequentemente a utilizam contra adversários. A sanção mais pesada foi a de declará-lo persona non grata e proibir-lhe a entrada no território chinês.

Tempo passou e…
Nada com um dia após o outro. Na época, Rubio não deu importância ao fato, visto que não tinha intenção de visitar a China. Mas as coisas mudam. Hoje, num posto que equivale a nosso ministro de Relações Exteriores, visitar países estrangeiros e lidar com eles passou a ser sua atividade principal. Seu chefe, Trump, preparou uma viagem histórica a Pequim. Ficaria esquisito que o ministro mais interessado no assunto não o acompanhasse. Mas como fazer se ele não podia entrar na China?

O jeitinho chinês
Muy discretamente, as autoridades pequinesas já tinham detectado o problema e já tinham posto de pé a solução. Logo que Marco Rubio foi anunciado como Secretário de Estado, em janeiro 2025, a mídia oficial chinesa passou a transliterar o nome do americano com ideogramas diferentes do que costumava fazer. Assim, quem olhasse distraido nem percebia que se tratava do personagem indesejado. Era uma forma de fazer desaparecer o antigo desafeto e abrir as portas para o novo ‘amigo’.

Sem corar
Sem se envergonhar, o porta-voz do governo chinês informou que Rubio não seria bloqueado em virtude de suas ações passadas. Ao tornar-se secretário de Estado, ele deixou de ser senador, e o mal ficou pra trás. Além do que, não é raro que personalidades estrangeiras tenham o nome transliterado de duas formas diferentes. Por exemplo, o próprio nome de Trump é apresentado pela mídia estatal com ideogramas que se leem: Te + lang + pu, ou seja, Telangpu. Mas é também comum ser chamado de Tchuam + pu, ou seja, Tchuampu.

Conclusão
Como se vê, inimigos de ontem podem virar bons amigos. É o esplendor da política brasileira ao molho chinês.

Cruzeiro do inferno

Hondius
Navio de cruzeiro de bandeira holandesa

José Horta Manzano

Para a maioria, um cruzeiro marítimo costuma rimar com excepcional, sensacional, fenomenal. Já o cruzeiro que aparece no noticiário estes dias está rimando com infernal. Vamos aos fatos.

Um grupo de 149 viajantes de 23 diferentes nacionalidades reuniu-se no último 1° de abril em Ushuaia, capital da Terra do Fogo argentina, no extremo sul da América do Sul. O programa era embarcar num navio de cruzeiro da companhia holandesa Oceanwide Expeditions para acompanhar as aves marinhas que deixam a Antártida neste começo de estação fria e migram para o norte em busca de clima mais favorável para passar o inverno.

Além de pouco numerosos (menos de 150 para um navio inteiro), os turistas eram especiais, por serem apreciadores da natureza selvagem, por disporem de tempo à vontade e por terem capacidade financeira folgada, capaz de bancar os milhares de dólares da viagem.

Depois de alguns dias, apareceram alguns casos de passageiros doentes. Os sintomas eram de febre, dor de cabeça, leve diarreia, lembrando uma gripe comum. Em pouco tempo, porém, os sintomas evoluíam para crise respiratória ou renal aguda. Passada uma semana desde o primeiro caso, três passageiros morreram e outros quatro adoeceram. Entre os doentes estava o médico de bordo, um britânico, em estado grave.

Aos 24 de abril, o barco atracou em Santa Helena, a remota ilha que serviu de exílio para Napoleão, situada bem no meio do Oceano Atlântico, a 3.000 km de Angola e 3.700 km de Santos. Consta que 23 passageiros tenham desembarcado ali, para voltar para casa por conta própria. Entre eles, está um suíço, atualmente internado no Hospital Universitário de Zurique. Todos estão sendo monitorados pela OMS.

A esposa da primeira vítima mortal voou de Santa Helena para a África do Sul, onde morreu dois dias depois. Em 27 de abril, um outro passageiro britânico foi internado na África do Sul e, no dia seguinte, um alemão morreu a bordo.

Na virada de abril para maio, o pânico se instalou a bordo do MV Hondius. Enquanto o armador continua a negociar com a Espanha uma autorização humanitária para atracar nas Ilhas Canárias, os passageiros do navio permanecem em quarentena, confinados (e aterrorizados) em suas cabines de luxo.

Em 2 de maio, exames feitos no paciente hospitalizado na Suíça confirmaram que se trata de uma infecção por Hantavírus, de uma cepa disseminada nos Andes argentinos e chilenos, sendo a única, entre as 38 variantes conhecidas desse agente patogênico, capaz de se transmitir entre humanos.

A pandemia de covid-19 paira no ar como lembrança recente e terrível. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e autoridades sanitárias ao redor do planeta estão preocupadas. Para um planeta já mergulhado em guerras, ameaças e incertezas, é grande o risco de que nova pandemia possa vir bagunçar o coreto de vez.

Enquanto isso, ninguém inveja a sorte daqueles cruzeiristas condenados ao confinamento na imensidão do oceano. É uma situação digna de um filme de terror hollywoodiano. Aliás, qualquer dia destes, o filme sai nas telonas e nas telinhas.

Abelhas de bicicleta

José Horta Manzano

Uma cena pouco comum se passou na tarde de sábado passado no centro da cidade de Paris. Um senhor chegou montado em sua bicicleta, que ele diz ser “quase centenária”, estacionou ao longo da mureta que cerca a escadaria que conduz a uma estação de Metro, na proximidade do Museu do Louvre. E afastou-se por alguns minutos.

Quando voltou, meia hora havia passado. Ficou surpreso quando viu, ainda de longe, um pequeno ajuntamento ao redor da bicicleta. “O que é que esse povo está fazendo em volta da minha centenária?” Ao aproximar-se entendeu o que era.

Naquele curto espaço de tempo, um enxame de abelhas, depois estimado entre 10 mil e 15 mil insetos, tinha se instalado debaixo do banco do veículo. Os bichinhos formavam um cacho escuro compacto, preso ao selim. Passado o primeiro momento de susto, o dono da bicicleta se perguntou “Como é que eu faço pra ir embora pra casa?”

Antes que ele tirasse o telefone do bolso, os encarregados da segurança do Metrô de Paris já tinham tomado providências. Faixas foram espichadas em volta do veículo para evitar que curiosos se aproximasse demais e levasse alguma picada. A melhor dica nessas circunstâncias é mandar vir um apicultor, dado que esses profissionais sabem como lidar com abelhas e estão sempre interessados em receber um novo enxame.

Pelas seis e meia da tarde, Monsieur Tanaci, apicultor urbano de provável origem romena, veio atender à ocorrência. Paramentado para enfrentar a colônia de abelhas, recolheu-as todas com o carinho peculiar a todo apicultor – ploft, pluft.

O enxame será instalado no teto de um dos prédios das redondezas, na proximidade de árvores que florescem nesta época do ano. Indagado, o apicultor explicou que daqui a um mês já será possível provar o mel que quase nasceu num selim de bicicleta.

Veja um enxame que se muda de casa.

Um estrangeiro na Presidência?

José Horta Manzano

O Poder Executivo da Suíça é colegial. O governo é exercito por um colégio de sete membros, chamados conselheiros federais. Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento para um mandato de quatro anos. As eleições para o Conselho Federal têm lugar a cada quatro anos, sempre após a eleição dos novos deputados e senadores. Cada conselheiro tem o direito de se recandidatar tantas vezes quanto desejar. Pode também renunciar ao mandato quando lhe aprouver.

Ignazio Cassis nasceu na Suíça, filho de imigrantes provenientes da Itália. Dado que a lei suíça de nacionalidade não reconhece o “jus soli” (direito de solo), o pequeno Ignazio herdou a cidadania italiana dos pais. Foi assim até a idade de 15 anos quando se tornou suíço “por derivação” – quando da naturalização dos pais, os filhos menores têm direito “por derivação” à nova nacionalidade. A partir daí, Cassis tornou-se binacional, italiano e suíço.

Em seguida, estudou medicina, fez mestrado e doutorado, exerceu por alguns anos e entrou para a vida política. Foi deputado durante dez anos até o dia em que o Parlamento o elegeu para o seleto clube de sete membros do Conselho Federal. Nesse momento, Ignazio Cassis entendeu que não era admissível integrar o Executivo e, ao mesmo tempo, guardar no bolso um passaporte estrangeiro. Ato contínuo, seguiu o rito de renúncia à nacionalidade italiana. Isso foi em 2017. Hoje está em seu terceiro mandato como conselheiro federal.

No Brasil, em 2005, Lula era presidente da República quando uma celeuma correu solta por Brasília e Roma. É que a primeira-dama de então, dona Marisa Letícia, fez saber que tinha conseguido reconhecimento de sua nacionalidade italiana por direito de sangue (jus sanguinis). Tanto ela, quanto os filhos passaram a ser oficialmente binacionais, brasileiros e italianos. Indagada, explicou que não fazia isso por si, mas para “garantir uma oportunidade para os meninos no futuro”. Nem todo o mundo apreciou a explicação. A celeuma também atingiu Roma, mas por outros motivos. Massimo d’Alema, deputado italiano e ex-primeiro-ministro, reclamou que dona Marisa sequer falava italiano, tinha origens peninsulares longínquas e podia votar nas eleições italianas, enquanto a babá de seus filhos, imigrante estabelecida na Itália havia muitos anos, que falava italiano e pagava seus impostos na Itália, não podia.

Passado algum tempo, o assunto morreu e ninguém mais falou disso.

Já faz alguns anos que os quatro filhos homens de Jair Bolsonaro são detentores da nacionalidade italiana, com direito a passaporte no bolso e cédula para votar por correio nas eleições. Pelas informaçôes de que disponho, o pai não requereu o reconhecimento da cidadania. Portanto, continua mononacional.

Preste atenção ao que vem agora. Um dos filhos homens do homem é candidato a ocupar o trono que já foi do pai. Ele recobrou sua cidadania italiana – é, portanto, binacional: meio brasileiro, meio estrangeiro. É impossível asseverar desde já se esse rapaz será eleito ou se vai amargar derrota e comer poeira da estrada. Suponhamos, como exercício de futurismo, que vença a corrida e se torne presidente do Brasil.

Das duas, uma. Ou renuncia, nos conformes, à cidadania italiana, ou teremos um presidente que é, certamente, brasileiro nato, mas que é também… estrangeiro. Uma situação conflituosa, que a Constituição não previu.

Está na hora de promover uma alteração da Lei Maior no sentido de proibir estrangeiros assim como binacionais de se candidatarem à Presidência. O candidato terá de renunciar a sua(s) cidadania(s) estrangeira(s) antes de ser eleito. Caso contrário, a eleição periga ser anulada, por motivo de o candidato ser estrangeiro.

Registro civil

José Horta Manzano


“Não se deve considerar um natimorto como sendo um nada. Ele pertence à família. Não se pode castigar, com o esquecimento, uma tragédia que já é por si insuportável”foi o argumento contundente utilizado pelo ministro da Justiça da França ao defender, no Parlamento, a modificação da lei nacional de registro civil.


Até a Idade Média, o registro das pessoas naturais (nascimento, casamento e óbito) não era sistematizado. Foi só a partir do Concílio de Trento, encerrado em 1563, que a Igreja chamou a si essa responsabilidade. Determinou que as paróquias passassem a registrar os atos da vida civil dos fiéis.

Essa situação perdurou até a Revolução Francesa. Em 1792, constituindo um passo a mais no caminho da laicização da sociedade francesa, foi instituído o Registro Civil oficial – obrigatório e, muito importante: separado da Igreja.

Diferentemente do que conhecemos no Brasil, nos países europeus o Registro Civil é instituição do Estado. Sua gestão não é entregue a amigos do rei, mas a funcionários públicos. Não existe, portanto, a figura do “dono do cartório”. Dado que não “pertencem” a ninguém, não se herdam nem se vendem cartórios de registro de pessoas naturais.

Na França, portanto, faz mais de 200 anos que todos os nascimentos, casamentos, divórcios e falecimentos são obrigatoriamente declarados ao ofício de Registro Civil do lugar onde ocorreram. A obrigação de declaração se estende a crianças natimortas e àquelas que, embora nascidas vivas, não tenham sobrevivido.

O problema é que, até bem pouco tempo atrás, os natimortos não tinham direito a receber nome. É que a lei considerava que a personalidade jurídica de um indivíduo resulta do fato de ter nascido “vivo e viável”, ou seja, ter sobrevivido ao parto. Portanto, os natimortos não tinham personalidade jurídica; não a tendo, não podiam receber nome.

No Brasil, esse nó já foi desfeito. A lei 6.015 de 1973 autoriza a atribuição de nome ao natimorto. Com atraso de meio século, a França seguiu o mesmo caminho. A modificação da lei francesa foi aprovada por unanimidade no Senado e na Assemblée Nationale (Câmara dos deputados). Foi reconhecido o intenso sofrimento das famílias que enfrentam esse drama. A partir de agora, os natimortos e os que não sobreviveram ao parto têm direito a receber oficialmente um nome.

E a lei tem uma característica especial e pouco comum: é retroativa. Os oficiais do Registro Civil estão assistindo a um afluxo de pedidos de correção de registros, alguns de 30 anos atrás.

Politicamente correto
Até ontem, ainda se falava em “enfant mort-né” (criança nascida morta). A expressão foi suavizada. Hoje se diz “enfant né sans vie” (criança nascida sem vida). Mas a supressão da referência à morte não diminui o drama familiar. Como tantos outros corretismos políticos, é emplastro em perna de pau. Encobre a tragédia sem a suprimir.

Micsoda megkönnyebbülés!

Péter Magyar

José Horta Manzano

O título em húngaro, uma língua de insondáveis mistérios, impressiona. Traduzido, fica menos assustador: “Que alívio!”.

Vistos do Brasil, acontecimentos europeus parecem distantes, sem relação com nosso universo. No entanto, num mundo em que tudo está cada vez mais engatado, tudo está de certa maneira relacionado.

Os húngaros votaram domingo. Dado que vivem num regime parlamentar, quem governa é o primeiro-ministro, que costuma ser o chefe do partido vencedor das eleições – como na Inglaterra e na Alemanha. Durante quatro legislaturas (16 anos), o populista Viktor Orbán, chefe do partido Fidesz, esteve à frente do governo.

Como costumam fazer os populistas de extrema direita, foi aos poucos impondo leis que estigmatizam minorias como os LGBTs, modificando a Constituição conforme suas conveniências, redesenhando os distritos eleitorais a fim de garantir sua permanência indefinida no poder. Aproximou a Hungria da Rússia, bloqueou toda ajuda à Ucrânia, e ainda, na reta final, recebeu uma ajudazinha de Trump, que, estes dias, despachou seu vice-presidente para levar apoio ao protoditador.

De repente, surgiu um certo Péter Magyar, jovem político de 45 anos, que criou um partido e decidiu desafiar Orbán. No começo, não pareceu encantar, mas em pouco tempo sua popularidade foi crescendo. Muitos húngaros viram nele o “homem da mudança”, aquele que poria o país de volta aos trilhos e acabaria com o já longo reino do Partido Fidesz. Como se sabe, o poder desgasta e os eleitores acabam se cansando de ver sempre a(s) mesma(s) cara(s). (É, de certa forma, o que está ocorrendo neste momento no Brasil.)

Num resultado que poucos ousavam esperar, o desafiante ganhou de lavada. Seu partido deve conquistar 138 dos 199 assentos do Parlamento contra 55 para o Fidesz. “Isso vai lhe garantir uma supermaioria constitucional”, escreve o Le Monde de Paris, “de cerca de 70% dos deputados”.

“A democracia triufou na Hungria”, resume o semanário alemão Die Zeit. “O conservador pró-europeu Péter Magyar destronou o nacionalista Viktor Orbán”, escreveu Le Figaro. Já Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, “esperou não mais que 17 minutos para comemorar a pesada derrota de Orbán”, nota a publicação Politico. Von de Leyen continuou: “A Hungria escolheu a Europa. A Europa sempre escolheu a Hungria. A União sai fortalecida”.

A participação ao voto, num país onde ele não é obrigatório, chegou a 80% dos eleitores, o que nunca havia acontecido desde a queda do comunismo. Budapeste, fiel à sua fama de cidade festeira, dançou e comemorou até o fim da noite. Le Figaro ainda anotou que a eleição “havia se transformado num grande referendo sobre Orbán e sua diplomacia pró-Rússia. Terá de se despedir após 16 anos de poder.”

O líder, que buscava um quinto mandato consecutivo, não demorou a “ligar para Magyar para dar-lhe os parabéns pela vitória. Logo em seguida, discursou para seus apoiadores para reconhecer sua derrota dolorosa”, destaca o espanhol El País. E prossegue: “Um resultado decisivo não apenas para a Hungria, mas também para toda a União Europeia”.

Os grandes desapontados vivem em Moscou e Washington. Chamam-se Vladimir Putin e Donald Trump. É que faz tempo que ambos estão empenhados em chacoalhar o coqueiro da União Europeia pra ver se conseguem desprender alguns cocos. A Hungria estava no bom caminho, próxima de Moscou e, surpreendentemente, apoiada por Washington. Não deu. O coco continua agarrado ao pé.

Quanto ao futuro da Hungria, é bom não soltar fogos antes da hora. Uma coisa são promessas eleitorais, outra coisa é a vida prática, na hora agá. O que a Europa e o mundo civilizado esperam do novo dirigente é:

  • que ponha freio à subida do autoritarismo no país,
  • que suspenda a política anti-imigração e anti-LGBT,
  • que não insista mais na aproximação com Moscou.

Por enquanto, nâo há certeza de que Péter Magyar corresponderá a essas esperanças. Vamos ver.

PS
Já imaginou se a Hungria tivesse acolhido o capitão quando ele tentou pedir asilo na embaixada húngara de Brasília? Era bem capaz de ser extraditado agora. Ficou no passado o tempo em que a gente fugia, desaparecia e ninguém mais encontrava.

Com informações de touteleurope.eu

Ganhadores, perdedores

José Horta Manzano

Donald Trump deve estar tiririca com Benjamin Netanyahou, o sanguinário primeiro-ministro de Israel. Tendo já visitado Trump seis vezes só neste segundo mandato, o israelense teve tempo suficiente para convencer o vaidoso americano de que tinha bolado um plano infalível para erradicar os aiatolás do Irã e lá instalar um regime pró-americano.

O projeto consistia em esperar que a alta cúpula estivesse toda reunida – aiatolá supremo e as mais altas autoridades. Nesse instante, de surpresa, o palácio onde se reuniam seria reduzido a pó, não deixando a mínima chance a nenhum dos participantes. Eliminados os chefes, acreditava o israelense, o regime ruiria, permitindo que o povo se sublevasse e exigisse a instalação de novo regime. Desta vez, pró-ocidental e filoamericano.

Já salivando de antegozo, Trump comprou a quimera. Parecia, de fato, jogada garantida. Só que nem sempre os planos seguem o roteiro. Às vezes, descarrilam. O palácio em que deliberavam os donos da ditadura foi, de fato, bombardeado e transformado em pó. O regime ficou acéfalo. Só que… não caiu. Qual imortal Hidra de Lerna, duas cabeças novas crescem imediatamente no lugar de cada cabeça decepada.

Além disso, o Irã tinha guardado no bolso uma capacidade de reação agressiva que não tinha sido usada até hoje. Seus mísseis mostraram pontaria bem superior à daqueles que tinham sido lançados sobre Israel quando da guerra de Gaza. Apareceram ainda seus temíveis drones de ataque, feitos de lata barata, mas terrivelmente eficazes. Americanos e israelenses levaram um susto grande. Apesar da vanglória de Trump, todo o poderio do maior exército do mundo foi incapaz de deter a ousadia iraniana.

O objetivo maior da guerra, que era, para os EUA, de pôr a mão sobre as reservas de gás e petróleo do Irã por intermédio de um novo regime amigo, ao estilo venezuelano, foi por água abaixo. Apoderar-se do estoque iraniano de urânio enriquecido foi outro objetivo que gorou – o material nuclear continua bem guardado nas montanhas persas. Para os agressores, o EUA e Israel, pode-se dizer que o esforço de guerra deu chabu. Os fogos não eram Caramuru.

Agora vamos conhecer os ganhadores e os perdedores.

Estados Unidos – Perderam tudo sem ganhar nada.
Perderam bilhões de dólares em dois ou três meses de deslocamento de porta-aviões, submarinos, navios de guerra, milhares de soldados, mísseis lançados, aviões de caça, drones, bombas. Sabe quanto custa um dia de deslocamento da armada americana? Eu também não sei, mas a conta deve passar dos bilhões por dia, se não for por hora.

Além disso, visto que todos os eleitores americanos não têm necessariamente o cérebro entupido ou fanatizado, o capital eleitoral de Trump deve estar hoje mais baixo do que estava antes da guerra. A infeliz aventura iraniana pode vir a custar-lhe as eleições de meio de mandato.

Quem sabe até a ducha fria acaba tirando da cabeça de Trump essa ideia de jogar bomba em país alheio. Pelo menos por enquanto.

Israel – Perdeu tudo sem ganhar nada
Para Israel o Irã representa um perigo existencial, visto que os aiatolás nunca esconderam seu desejo de eliminar o estado judeu. Logo, era Israel o maior interessado em derrubar o regime hostil da antiga Pérsia. Conforme vimos acima, não conseguiram. De quebra, Trump vai, durante algum tempo, guardar ressentimento contra seu colega Netanyahu por seu convite para uma guerra sem pé nem cabeça, sem plano e sem objetivo.

Irâ – Perdeu bastante, mas também ganhou
O Irã apanhou muito, perdeu a cúpula do regime, perdeu praticamente toda a sua aviação militar e sua marinha de guerra – é sempre mais fácil esconder urânio que aviões ou navios. Perderam pontes, edifícios, milhares de cidadãos incluindo crianças.

Por seu lado, o Irã ganhou respeito. Objeto de chacota até outro dia, o país deixou de ser olhado com desdém. Não fosse a opressão e a crueldade com que o regime trata seus cidadãos, o Irã passaria para o lado dos países de bem, simpáticos mas maltratados pelo Ocidente, como Cuba e Venezuela.

No frigir dos ovos, o próximo que tiver ideia de se meter com o Irã vai pensar duas vezes.

Sapatos de abril

José Horta Manzano

Já devo ter contado esta história mais de uma vez. Aproveitando os ecos do primeiro de abril que acaba de passar, conto mais uma vez.

No fim de fevereiro de 1986, uma revolução popular não violenta derrubou o ditador filipino Marcos, que estava no poder havia duas décadas. Os EUA então deram uma mão ao poderoso caído e mandaram um helicóptero buscá-lo, assim como a digníssima esposa. O casal Ferdinand e Imelda Marcos foi então levado a uma base americana para posterior transferência ao exílio no Havaí.

Nessa corrida, deixaram tudo para trás. Com exceção dos fundos extorquidos do povo filipino (e devidamente depositados na Suíça e em outros lugares), todos os pertences dos dois ficaram em Manila. Entre outros bens, a fabulosa coleção de 3.000 pares de calçados de Madame e seu baú de joias. O exorbitante salão onde os sapatos eram armazenados causou muita surpresa aos que penetraram no palácio logo após a apressada fuga dos ocupantes. É compreensível. Nem grandes lojas de calçados costumam contar com estoque de tantos milhares de pares calçados de primeiríssima qualidade.

Logo chegou a Páscoa daquele ano. A Quinta-feira Santa caiu dia 1° de abril de 1986. Naqueles tempos pré-internet, a notícia incomum e curiosa foi trazida pelo jornal 24 Horas, da cidade de Lausanne – leitura quase obrigatória para a população. Um anúncio informava que no dia seguinte, feriado, das 14h às 18h, a coleção de sapatos da senhora Imelda Marcos seria vendida em leilão num dos salões do Lausanne Palace, um dos hotéis mais chiques da cidade.

No dia e hora anunciados, juntou gente no saguão do hotel. Meio tontos, recepcionistas passaram horas explicando aos desenxabidos visitantes que tudo não passava de… brincadeira de primeiro de abril.

Fosse hoje em dia, o diretor do hotel, assim como a parentela até o terceiro grau, seriam todos ‘cancelados’ e excluídos do maravilhoso mundo das redes sociais. Mas os tempos eram outros. Os cidadãos ainda sabiam fazer a diferença entre uma agressão e uma brincadeira.

Estes últimos anos, não tenho mais visto jornais pregando peças no dia 1° de abril. Acredito que esse sumiço do humor se deve à difusão universal da internet e das redes. De fato, o que se constata é o desaparecimento de toda verdade absoluta. Me explico.

Nos tempos de antigamente, para difundir sua opinião, o indivíduo tinha de mandar imprimir suas ideias num livro. Se não pudesse ou não desejasse, tinha de ir à tipografia e mandar tirar em centenas de exemplares um edital de não mais que uma página. Em seguida, tinha de bater perna pela cidade e enfiar um exemplar na caixa de cartas de cada casa. Que mão de obra, hein! Nem fale.

Hoje, como todos sabem, basta datilografar sua mensagem (pode até escrever com um dedo só, que ninguém vai ficar sabendo) e apertar a tecla “Envio”.

Pronto, agora todos podem dar a própria opinião sobre qualquer assunto e, se for o caso, contestar a verdade ouvida 10 minutos antes. Dado que cada um quer dar a própria opinião, a proposição verdadeira vai levando pancada, vai se deformando, vai se distanciando do original. Em pouco tempo, estará desvirtuada e já terá deixado de refletir a proposição inicial.

Só como exemplo, ainda outro dia parlamentares estavam querendo proibir, por lei, toda modificação ao que eles consideram a Bíblia padrão, imutável por definição. Erros de tradução cometidos nos dois últimos milênios ficariam, assim, congelados. Pela lógica, nenhuma nova tradução seria aceita. Parece que não passou. Até no Congresso, tem gente que se tocou que deputados e senadores não estão lá pra introduzir verdades religiosas na legislação nacional.

Portanto, visto que toda afirmação está sujeira a narrativas e modificações, já não faz sentido fazer brincadeiras de 1° de abril. Temos de nos contentar com as que já foram feitas no passado, que não haverá novas.

Daqui a alguns anos, volto a contar a história dos sapatos da mulher do ditador. Para as futuras gerações.