Quem manda aqui sou eu!

by Arend van Dam (1945-)
desenhista holandês

José Horta Manzano

Um belo dia de fevereiro, o mundo acordou com o eco de bombas lançadas sobre o território iraniano. Tratava-se de um ataque maciço que os EUA e Israel, aliados, desferiam no Irã. Era Trump que tinha mandado suas tropas com a mensagem: “Quem manda aqui sou eu!”.

Nos dias que se seguiram, num golpe que parecia haver sido preparado por meses, um enorme palácio do centro de Teerã foi tão fortemente bombardeado que virou pó. Dentro, desenrolava-se uma reunião de altos dignitários. De uma tacada só, foram eliminados os principais cabeças do regime, incluindo o aiatolá Khamenei, o líder máximo.

A essas alturas, ninguém dava um tostão pelo futuro da teocracia. Esperava-se que o regime desmoronasse a qualquer momento e que novos dirigentes, favoráveis aos EUA, despontassem.

Com as semanas que passam, a gente vai-se esquecendo da sequência dos acontecimentos, mas a impressão era de que o Irã dos aiatolás era página virada, sobrando um país agora de joelhos e de braços abertos para as empresas americanas.

Não foi o que aconteceu.

No Irã, o regime não caiu. Outro guia espiritual foi imediatamente escolhido. Para cada guarda revolucionário caído, outro surgia não se sabe de onde. O país descobriu que era hora de pôr em prática seus planos de fechamento do Estreito de Hormuz, sua melhor arma.

Contando com uma imensa quantidade de drones, o Irã se valeu deles para sua defesa. Incapaz de disparar mísseis que atingissem o território americano, atacou interesses dos USA na região: dezenas de bases militares instaladas nos países vizinhos foram visadas.

Com seu estoque de armas baixando a olhos vistos e com bilhões de dólares sendo consumidos na guerra, os EUA insistiram na abertura de conversações visando a instaurar a paz. As tratativas ainda estão a meio, mas já se pode perceber claramente quem ganhou e quem perdeu com a guerra.

O Irã provou que a potência militar americana não é lá essas coisas. Dispõem, é verdade, de um arsenal que ninguém iguala, mas mostraram que, para ganhar uma guerra, ter armamento mais poderoso nem sempre é suficiente. Com o fechamento de Hormuz, o Irã conseguiu vergar o poderio americano.

Os EUA, que eram os protetores naturais de todos os países árabes da região, foram incapazes de proteger seus aliados, e decepcionaram. Qatar, Bahrein, Iraq e os demais têm agora maior tendência a voltar-se em direção a outros protetores, como a China, por exemplo.

O Irã, que era o país amaldiçoado da região, sai dessa guerra fortalecido e respeitado. Vai se passar um bom tempo antes que alguém ouse chuchar Teerã com vara curta. Cabe ao Irã agora proclamar:

“Quem manda aqui sou eu!”.

A cúpula e os vândalos

José Horta Manzano

O ano era 2003. No Brasil, Lula era presidente de primeiro mandato, embriagado pelos eflúvios do sucesso, nadando de braçada num ambiente propício. FHC havia deixado a casa em ordem, contas em dia, máquina bem lubrificada. Já Bolsonaro era deputado e se aninhava no ‘baixo clero’, mais preocupado com seus assuntos particulares que com a boa marcha da nação.

No mundo, os dirigentes de turno eram o inefável italiano Berlusconi, o francês Chirac, o inglês Tony Blair, o americano George Bush filho e o principiante Vladimir Putin, da Rússia. Esses personagens, junto com alguns outros líderes, formavam o G8 – grupo dos 8 países mais industrializados, que mais tarde se tornaria G7, com a exclusão da Rússia na esteira da anexação da Crimeia, em 2014.

A cúpula daquele ano estava para realizar-se na França. Para sediar a reunião, Paris havia escolhido uma pequena mas aprazível estação de águas chamada Evian, situada ao pé dos Alpes franceses, à beira do Lago Leman. A cidadezinha fica numa região perdida, longe de qualquer centro urbano francês. A referência mais próxima é a cidade suíça de Genebra, plantada à beira do mesmo lago. Ali está, por exemplo, o aeroporto mais próximo que deve servir a receber os dignitários estrangeiros. Além dos líderes do G8, há convidados, entre os quais estão Lula da Silva mais uma meia dúzia de outros chefes de Estado.

Em 2003, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos – sem mandato da ONU – provocou uma onda mundial de indignação. Na sequência, levantou-se um forte movimento anti-G8. Para prevenir que manifestações viessem perturbar o sossego dos líderes reunidos, o governo francês bloqueou as estradas que levam a Evian. Diante disso, que fizeram os manifestantes? Pois decidiram manifestar em Genebra, a cidade grande mais próxima do evento.

Ao ficar sabendo das manifestações previstas pelos jovens bem-intencionados, afluíram, de todos os países vizinhos, vândalos profissionais que têm prazer em quebrar vitrines e pilhar lojas. Pode parecer inacreditável, mas há gente que vem de longe, toma trem, gasta o dinheiro da viagem, só pelo prazer de estourar vitrines, atirar coquetel Molotov e, se der, carregar alguma mercadoria, nem que seja uma lembrancinha.

O período de 31 maio a 3 junho de 2003 trouxe o caos a Genebra. Felizmente não morreu ninguém, mas houve feridos, incômodos, bloqueio de vias, perturbação do funcionamento da cidade e, principalmente, muita destruição. A polícia, pouco habituada à violência daqueles dias, ficou sobrecarregada, desnorteada, e perdeu as condições de operar. Foi assustador, e todos ficaram felizes quando a cúpula acabou e o pessoal graúdo foi-se embora.

O tempo passou, poucos ainda se lembravam desse episódio. Hoje, 23 anos passados, cabe de novo à França organizar a reunião anual do (agora) G7. E que lugar eles escolhem para o convescote? Adivinhou: de novo, Evian, a estaçãozinha termal ao pé dos Alpes. E pertinho de Genebra.

Como anfitriã, Paris tem o direito de escolher receber os confrades onde quiser, mas bem que podiam ter escolhido uma outra localidade. Fico desconfiado que escolhem Evian justamente porque sabem que os convivas ficarão encantados, e que os espinhos vão para os suíços. Se tivessem preferido outra cidade francesa, colheriam os espinhos.

É verdade que, em quase um quarto de século, o mundo mudou. Talvez os idealistas ingênuos daqueles tempos já não existam. Talvez o sentimento anti-G7 tenha se arrefecido. Mas um fato é certeza: vândalos sempre existiram e sempre existirão.

A manifestação deste ano está marcada para 14 de junho.

Nota:
Para instalar um tapume de proteção diante de uma pequena loja de uma vitrine, os (espertos) profissionais estão cobrando nada menos que 16 mil francos (103 mil reais). Pensava que espertinhos só havia no Brasil, é?

A trapacinha chinesa

Xi Jinping cumprimenta Marco Rubio
Pequim, 14 maio 2026

José Horta Manzano

Preâmbulo
Xi Jinping é o presidente da China. Na língua original, seu nome se escreve com três ideogramas: 习 近 平. Como nem todo o mundo sabe chinês, o nome aparece sempre transliterado, isto é, usando nosso alfabeto para reproduzir os sons chineses. Oficialmente, deve-se escrever Xi Jinping, mas poderíamos também grafar Chi Ginping. Ao menos nós outros pronunciaríamos do mesmo jeito.

Pois esse expediente funciona nos dois sentidos. Para escrever nomes ocidentais, os chineses escolhem ideogramas que, mais ou menos, reproduzam o som original. Diversão comum entre turistas que visitam a China é pedir que o nome de cada um seja escrito em escrita chinesa. Pagando o preço, pode-se mandar escrever e levar de volta para casa o nome gravado em algum suporte mais interessante: porcelana, folha de papel de fabrico artesanal, etc.

Origem da confusão
Marco Rubio, hoje Secretário de Estado do governo americano, já foi senador. Durante seus anos como parlamentar, foi crítico veemente da falta de respeito que o governo chinês dava a suas minorias. Fomentou a imposição de sanções à China por causa do trabalho forçado infligido à minoria uigur. Tanto fez o senador, que Pequim se enervou com a insistência e resolveu aplicar-lhe sanções. Usaram a tática dos próprios EUA, que frequentemente a utilizam contra adversários. A sanção mais pesada foi a de declará-lo persona non grata e proibir-lhe a entrada no território chinês.

Tempo passou e…
Nada com um dia após o outro. Na época, Rubio não deu importância ao fato, visto que não tinha intenção de visitar a China. Mas as coisas mudam. Hoje, num posto que equivale a nosso ministro de Relações Exteriores, visitar países estrangeiros e lidar com eles passou a ser sua atividade principal. Seu chefe, Trump, preparou uma viagem histórica a Pequim. Ficaria esquisito que o ministro mais interessado no assunto não o acompanhasse. Mas como fazer se ele não podia entrar na China?

O jeitinho chinês
Muy discretamente, as autoridades pequinesas já tinham detectado o problema e já tinham posto de pé a solução. Logo que Marco Rubio foi anunciado como Secretário de Estado, em janeiro 2025, a mídia oficial chinesa passou a transliterar o nome do americano com ideogramas diferentes do que costumava fazer. Assim, quem olhasse distraido nem percebia que se tratava do personagem indesejado. Era uma forma de fazer desaparecer o antigo desafeto e abrir as portas para o novo ‘amigo’.

Sem corar
Sem se envergonhar, o porta-voz do governo chinês informou que Rubio não seria bloqueado em virtude de suas ações passadas. Ao tornar-se secretário de Estado, ele deixou de ser senador, e o mal ficou pra trás. Além do que, não é raro que personalidades estrangeiras tenham o nome transliterado de duas formas diferentes. Por exemplo, o próprio nome de Trump é apresentado pela mídia estatal com ideogramas que se leem: Te + lang + pu, ou seja, Telangpu. Mas é também comum ser chamado de Tchuam + pu, ou seja, Tchuampu.

Conclusão
Como se vê, inimigos de ontem podem virar bons amigos. É o esplendor da política brasileira ao molho chinês.

Cruzeiro do inferno

Hondius
Navio de cruzeiro de bandeira holandesa

José Horta Manzano

Para a maioria, um cruzeiro marítimo costuma rimar com excepcional, sensacional, fenomenal. Já o cruzeiro que aparece no noticiário estes dias está rimando com infernal. Vamos aos fatos.

Um grupo de 149 viajantes de 23 diferentes nacionalidades reuniu-se no último 1° de abril em Ushuaia, capital da Terra do Fogo argentina, no extremo sul da América do Sul. O programa era embarcar num navio de cruzeiro da companhia holandesa Oceanwide Expeditions para acompanhar as aves marinhas que deixam a Antártida neste começo de estação fria e migram para o norte em busca de clima mais favorável para passar o inverno.

Além de pouco numerosos (menos de 150 para um navio inteiro), os turistas eram especiais, por serem apreciadores da natureza selvagem, por disporem de tempo à vontade e por terem capacidade financeira folgada, capaz de bancar os milhares de dólares da viagem.

Depois de alguns dias, apareceram alguns casos de passageiros doentes. Os sintomas eram de febre, dor de cabeça, leve diarreia, lembrando uma gripe comum. Em pouco tempo, porém, os sintomas evoluíam para crise respiratória ou renal aguda. Passada uma semana desde o primeiro caso, três passageiros morreram e outros quatro adoeceram. Entre os doentes estava o médico de bordo, um britânico, em estado grave.

Aos 24 de abril, o barco atracou em Santa Helena, a remota ilha que serviu de exílio para Napoleão, situada bem no meio do Oceano Atlântico, a 3.000 km de Angola e 3.700 km de Santos. Consta que 23 passageiros tenham desembarcado ali, para voltar para casa por conta própria. Entre eles, está um suíço, atualmente internado no Hospital Universitário de Zurique. Todos estão sendo monitorados pela OMS.

A esposa da primeira vítima mortal voou de Santa Helena para a África do Sul, onde morreu dois dias depois. Em 27 de abril, um outro passageiro britânico foi internado na África do Sul e, no dia seguinte, um alemão morreu a bordo.

Na virada de abril para maio, o pânico se instalou a bordo do MV Hondius. Enquanto o armador continua a negociar com a Espanha uma autorização humanitária para atracar nas Ilhas Canárias, os passageiros do navio permanecem em quarentena, confinados (e aterrorizados) em suas cabines de luxo.

Em 2 de maio, exames feitos no paciente hospitalizado na Suíça confirmaram que se trata de uma infecção por Hantavírus, de uma cepa disseminada nos Andes argentinos e chilenos, sendo a única, entre as 38 variantes conhecidas desse agente patogênico, capaz de se transmitir entre humanos.

A pandemia de covid-19 paira no ar como lembrança recente e terrível. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e autoridades sanitárias ao redor do planeta estão preocupadas. Para um planeta já mergulhado em guerras, ameaças e incertezas, é grande o risco de que nova pandemia possa vir bagunçar o coreto de vez.

Enquanto isso, ninguém inveja a sorte daqueles cruzeiristas condenados ao confinamento na imensidão do oceano. É uma situação digna de um filme de terror hollywoodiano. Aliás, qualquer dia destes, o filme sai nas telonas e nas telinhas.

Abelhas de bicicleta

José Horta Manzano

Uma cena pouco comum se passou na tarde de sábado passado no centro da cidade de Paris. Um senhor chegou montado em sua bicicleta, que ele diz ser “quase centenária”, estacionou ao longo da mureta que cerca a escadaria que conduz a uma estação de Metro, na proximidade do Museu do Louvre. E afastou-se por alguns minutos.

Quando voltou, meia hora havia passado. Ficou surpreso quando viu, ainda de longe, um pequeno ajuntamento ao redor da bicicleta. “O que é que esse povo está fazendo em volta da minha centenária?” Ao aproximar-se entendeu o que era.

Naquele curto espaço de tempo, um enxame de abelhas, depois estimado entre 10 mil e 15 mil insetos, tinha se instalado debaixo do banco do veículo. Os bichinhos formavam um cacho escuro compacto, preso ao selim. Passado o primeiro momento de susto, o dono da bicicleta se perguntou “Como é que eu faço pra ir embora pra casa?”

Antes que ele tirasse o telefone do bolso, os encarregados da segurança do Metrô de Paris já tinham tomado providências. Faixas foram espichadas em volta do veículo para evitar que curiosos se aproximasse demais e levasse alguma picada. A melhor dica nessas circunstâncias é mandar vir um apicultor, dado que esses profissionais sabem como lidar com abelhas e estão sempre interessados em receber um novo enxame.

Pelas seis e meia da tarde, Monsieur Tanaci, apicultor urbano de provável origem romena, veio atender à ocorrência. Paramentado para enfrentar a colônia de abelhas, recolheu-as todas com o carinho peculiar a todo apicultor – ploft, pluft.

O enxame será instalado no teto de um dos prédios das redondezas, na proximidade de árvores que florescem nesta época do ano. Indagado, o apicultor explicou que daqui a um mês já será possível provar o mel que quase nasceu num selim de bicicleta.

Veja um enxame que se muda de casa.

Um estrangeiro na Presidência?

José Horta Manzano

O Poder Executivo da Suíça é colegial. O governo é exercito por um colégio de sete membros, chamados conselheiros federais. Cada conselheiro federal é eleito pelo Parlamento para um mandato de quatro anos. As eleições para o Conselho Federal têm lugar a cada quatro anos, sempre após a eleição dos novos deputados e senadores. Cada conselheiro tem o direito de se recandidatar tantas vezes quanto desejar. Pode também renunciar ao mandato quando lhe aprouver.

Ignazio Cassis nasceu na Suíça, filho de imigrantes provenientes da Itália. Dado que a lei suíça de nacionalidade não reconhece o “jus soli” (direito de solo), o pequeno Ignazio herdou a cidadania italiana dos pais. Foi assim até a idade de 15 anos quando se tornou suíço “por derivação” – quando da naturalização dos pais, os filhos menores têm direito “por derivação” à nova nacionalidade. A partir daí, Cassis tornou-se binacional, italiano e suíço.

Em seguida, estudou medicina, fez mestrado e doutorado, exerceu por alguns anos e entrou para a vida política. Foi deputado durante dez anos até o dia em que o Parlamento o elegeu para o seleto clube de sete membros do Conselho Federal. Nesse momento, Ignazio Cassis entendeu que não era admissível integrar o Executivo e, ao mesmo tempo, guardar no bolso um passaporte estrangeiro. Ato contínuo, seguiu o rito de renúncia à nacionalidade italiana. Isso foi em 2017. Hoje está em seu terceiro mandato como conselheiro federal.

No Brasil, em 2005, Lula era presidente da República quando uma celeuma correu solta por Brasília e Roma. É que a primeira-dama de então, dona Marisa Letícia, fez saber que tinha conseguido reconhecimento de sua nacionalidade italiana por direito de sangue (jus sanguinis). Tanto ela, quanto os filhos passaram a ser oficialmente binacionais, brasileiros e italianos. Indagada, explicou que não fazia isso por si, mas para “garantir uma oportunidade para os meninos no futuro”. Nem todo o mundo apreciou a explicação. A celeuma também atingiu Roma, mas por outros motivos. Massimo d’Alema, deputado italiano e ex-primeiro-ministro, reclamou que dona Marisa sequer falava italiano, tinha origens peninsulares longínquas e podia votar nas eleições italianas, enquanto a babá de seus filhos, imigrante estabelecida na Itália havia muitos anos, que falava italiano e pagava seus impostos na Itália, não podia.

Passado algum tempo, o assunto morreu e ninguém mais falou disso.

Já faz alguns anos que os quatro filhos homens de Jair Bolsonaro são detentores da nacionalidade italiana, com direito a passaporte no bolso e cédula para votar por correio nas eleições. Pelas informaçôes de que disponho, o pai não requereu o reconhecimento da cidadania. Portanto, continua mononacional.

Preste atenção ao que vem agora. Um dos filhos homens do homem é candidato a ocupar o trono que já foi do pai. Ele recobrou sua cidadania italiana – é, portanto, binacional: meio brasileiro, meio estrangeiro. É impossível asseverar desde já se esse rapaz será eleito ou se vai amargar derrota e comer poeira da estrada. Suponhamos, como exercício de futurismo, que vença a corrida e se torne presidente do Brasil.

Das duas, uma. Ou renuncia, nos conformes, à cidadania italiana, ou teremos um presidente que é, certamente, brasileiro nato, mas que é também… estrangeiro. Uma situação conflituosa, que a Constituição não previu.

Está na hora de promover uma alteração da Lei Maior no sentido de proibir estrangeiros assim como binacionais de se candidatarem à Presidência. O candidato terá de renunciar a sua(s) cidadania(s) estrangeira(s) antes de ser eleito. Caso contrário, a eleição periga ser anulada, por motivo de o candidato ser estrangeiro.

Registro civil

José Horta Manzano


“Não se deve considerar um natimorto como sendo um nada. Ele pertence à família. Não se pode castigar, com o esquecimento, uma tragédia que já é por si insuportável”foi o argumento contundente utilizado pelo ministro da Justiça da França ao defender, no Parlamento, a modificação da lei nacional de registro civil.


Até a Idade Média, o registro das pessoas naturais (nascimento, casamento e óbito) não era sistematizado. Foi só a partir do Concílio de Trento, encerrado em 1563, que a Igreja chamou a si essa responsabilidade. Determinou que as paróquias passassem a registrar os atos da vida civil dos fiéis.

Essa situação perdurou até a Revolução Francesa. Em 1792, constituindo um passo a mais no caminho da laicização da sociedade francesa, foi instituído o Registro Civil oficial – obrigatório e, muito importante: separado da Igreja.

Diferentemente do que conhecemos no Brasil, nos países europeus o Registro Civil é instituição do Estado. Sua gestão não é entregue a amigos do rei, mas a funcionários públicos. Não existe, portanto, a figura do “dono do cartório”. Dado que não “pertencem” a ninguém, não se herdam nem se vendem cartórios de registro de pessoas naturais.

Na França, portanto, faz mais de 200 anos que todos os nascimentos, casamentos, divórcios e falecimentos são obrigatoriamente declarados ao ofício de Registro Civil do lugar onde ocorreram. A obrigação de declaração se estende a crianças natimortas e àquelas que, embora nascidas vivas, não tenham sobrevivido.

O problema é que, até bem pouco tempo atrás, os natimortos não tinham direito a receber nome. É que a lei considerava que a personalidade jurídica de um indivíduo resulta do fato de ter nascido “vivo e viável”, ou seja, ter sobrevivido ao parto. Portanto, os natimortos não tinham personalidade jurídica; não a tendo, não podiam receber nome.

No Brasil, esse nó já foi desfeito. A lei 6.015 de 1973 autoriza a atribuição de nome ao natimorto. Com atraso de meio século, a França seguiu o mesmo caminho. A modificação da lei francesa foi aprovada por unanimidade no Senado e na Assemblée Nationale (Câmara dos deputados). Foi reconhecido o intenso sofrimento das famílias que enfrentam esse drama. A partir de agora, os natimortos e os que não sobreviveram ao parto têm direito a receber oficialmente um nome.

E a lei tem uma característica especial e pouco comum: é retroativa. Os oficiais do Registro Civil estão assistindo a um afluxo de pedidos de correção de registros, alguns de 30 anos atrás.

Politicamente correto
Até ontem, ainda se falava em “enfant mort-né” (criança nascida morta). A expressão foi suavizada. Hoje se diz “enfant né sans vie” (criança nascida sem vida). Mas a supressão da referência à morte não diminui o drama familiar. Como tantos outros corretismos políticos, é emplastro em perna de pau. Encobre a tragédia sem a suprimir.

Micsoda megkönnyebbülés!

Péter Magyar

José Horta Manzano

O título em húngaro, uma língua de insondáveis mistérios, impressiona. Traduzido, fica menos assustador: “Que alívio!”.

Vistos do Brasil, acontecimentos europeus parecem distantes, sem relação com nosso universo. No entanto, num mundo em que tudo está cada vez mais engatado, tudo está de certa maneira relacionado.

Os húngaros votaram domingo. Dado que vivem num regime parlamentar, quem governa é o primeiro-ministro, que costuma ser o chefe do partido vencedor das eleições – como na Inglaterra e na Alemanha. Durante quatro legislaturas (16 anos), o populista Viktor Orbán, chefe do partido Fidesz, esteve à frente do governo.

Como costumam fazer os populistas de extrema direita, foi aos poucos impondo leis que estigmatizam minorias como os LGBTs, modificando a Constituição conforme suas conveniências, redesenhando os distritos eleitorais a fim de garantir sua permanência indefinida no poder. Aproximou a Hungria da Rússia, bloqueou toda ajuda à Ucrânia, e ainda, na reta final, recebeu uma ajudazinha de Trump, que, estes dias, despachou seu vice-presidente para levar apoio ao protoditador.

De repente, surgiu um certo Péter Magyar, jovem político de 45 anos, que criou um partido e decidiu desafiar Orbán. No começo, não pareceu encantar, mas em pouco tempo sua popularidade foi crescendo. Muitos húngaros viram nele o “homem da mudança”, aquele que poria o país de volta aos trilhos e acabaria com o já longo reino do Partido Fidesz. Como se sabe, o poder desgasta e os eleitores acabam se cansando de ver sempre a(s) mesma(s) cara(s). (É, de certa forma, o que está ocorrendo neste momento no Brasil.)

Num resultado que poucos ousavam esperar, o desafiante ganhou de lavada. Seu partido deve conquistar 138 dos 199 assentos do Parlamento contra 55 para o Fidesz. “Isso vai lhe garantir uma supermaioria constitucional”, escreve o Le Monde de Paris, “de cerca de 70% dos deputados”.

“A democracia triufou na Hungria”, resume o semanário alemão Die Zeit. “O conservador pró-europeu Péter Magyar destronou o nacionalista Viktor Orbán”, escreveu Le Figaro. Já Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, “esperou não mais que 17 minutos para comemorar a pesada derrota de Orbán”, nota a publicação Politico. Von de Leyen continuou: “A Hungria escolheu a Europa. A Europa sempre escolheu a Hungria. A União sai fortalecida”.

A participação ao voto, num país onde ele não é obrigatório, chegou a 80% dos eleitores, o que nunca havia acontecido desde a queda do comunismo. Budapeste, fiel à sua fama de cidade festeira, dançou e comemorou até o fim da noite. Le Figaro ainda anotou que a eleição “havia se transformado num grande referendo sobre Orbán e sua diplomacia pró-Rússia. Terá de se despedir após 16 anos de poder.”

O líder, que buscava um quinto mandato consecutivo, não demorou a “ligar para Magyar para dar-lhe os parabéns pela vitória. Logo em seguida, discursou para seus apoiadores para reconhecer sua derrota dolorosa”, destaca o espanhol El País. E prossegue: “Um resultado decisivo não apenas para a Hungria, mas também para toda a União Europeia”.

Os grandes desapontados vivem em Moscou e Washington. Chamam-se Vladimir Putin e Donald Trump. É que faz tempo que ambos estão empenhados em chacoalhar o coqueiro da União Europeia pra ver se conseguem desprender alguns cocos. A Hungria estava no bom caminho, próxima de Moscou e, surpreendentemente, apoiada por Washington. Não deu. O coco continua agarrado ao pé.

Quanto ao futuro da Hungria, é bom não soltar fogos antes da hora. Uma coisa são promessas eleitorais, outra coisa é a vida prática, na hora agá. O que a Europa e o mundo civilizado esperam do novo dirigente é:

  • que ponha freio à subida do autoritarismo no país,
  • que suspenda a política anti-imigração e anti-LGBT,
  • que não insista mais na aproximação com Moscou.

Por enquanto, nâo há certeza de que Péter Magyar corresponderá a essas esperanças. Vamos ver.

PS
Já imaginou se a Hungria tivesse acolhido o capitão quando ele tentou pedir asilo na embaixada húngara de Brasília? Era bem capaz de ser extraditado agora. Ficou no passado o tempo em que a gente fugia, desaparecia e ninguém mais encontrava.

Com informações de touteleurope.eu

Ganhadores, perdedores

José Horta Manzano

Donald Trump deve estar tiririca com Benjamin Netanyahou, o sanguinário primeiro-ministro de Israel. Tendo já visitado Trump seis vezes só neste segundo mandato, o israelense teve tempo suficiente para convencer o vaidoso americano de que tinha bolado um plano infalível para erradicar os aiatolás do Irã e lá instalar um regime pró-americano.

O projeto consistia em esperar que a alta cúpula estivesse toda reunida – aiatolá supremo e as mais altas autoridades. Nesse instante, de surpresa, o palácio onde se reuniam seria reduzido a pó, não deixando a mínima chance a nenhum dos participantes. Eliminados os chefes, acreditava o israelense, o regime ruiria, permitindo que o povo se sublevasse e exigisse a instalação de novo regime. Desta vez, pró-ocidental e filoamericano.

Já salivando de antegozo, Trump comprou a quimera. Parecia, de fato, jogada garantida. Só que nem sempre os planos seguem o roteiro. Às vezes, descarrilam. O palácio em que deliberavam os donos da ditadura foi, de fato, bombardeado e transformado em pó. O regime ficou acéfalo. Só que… não caiu. Qual imortal Hidra de Lerna, duas cabeças novas crescem imediatamente no lugar de cada cabeça decepada.

Além disso, o Irã tinha guardado no bolso uma capacidade de reação agressiva que não tinha sido usada até hoje. Seus mísseis mostraram pontaria bem superior à daqueles que tinham sido lançados sobre Israel quando da guerra de Gaza. Apareceram ainda seus temíveis drones de ataque, feitos de lata barata, mas terrivelmente eficazes. Americanos e israelenses levaram um susto grande. Apesar da vanglória de Trump, todo o poderio do maior exército do mundo foi incapaz de deter a ousadia iraniana.

O objetivo maior da guerra, que era, para os EUA, de pôr a mão sobre as reservas de gás e petróleo do Irã por intermédio de um novo regime amigo, ao estilo venezuelano, foi por água abaixo. Apoderar-se do estoque iraniano de urânio enriquecido foi outro objetivo que gorou – o material nuclear continua bem guardado nas montanhas persas. Para os agressores, o EUA e Israel, pode-se dizer que o esforço de guerra deu chabu. Os fogos não eram Caramuru.

Agora vamos conhecer os ganhadores e os perdedores.

Estados Unidos – Perderam tudo sem ganhar nada.
Perderam bilhões de dólares em dois ou três meses de deslocamento de porta-aviões, submarinos, navios de guerra, milhares de soldados, mísseis lançados, aviões de caça, drones, bombas. Sabe quanto custa um dia de deslocamento da armada americana? Eu também não sei, mas a conta deve passar dos bilhões por dia, se não for por hora.

Além disso, visto que todos os eleitores americanos não têm necessariamente o cérebro entupido ou fanatizado, o capital eleitoral de Trump deve estar hoje mais baixo do que estava antes da guerra. A infeliz aventura iraniana pode vir a custar-lhe as eleições de meio de mandato.

Quem sabe até a ducha fria acaba tirando da cabeça de Trump essa ideia de jogar bomba em país alheio. Pelo menos por enquanto.

Israel – Perdeu tudo sem ganhar nada
Para Israel o Irã representa um perigo existencial, visto que os aiatolás nunca esconderam seu desejo de eliminar o estado judeu. Logo, era Israel o maior interessado em derrubar o regime hostil da antiga Pérsia. Conforme vimos acima, não conseguiram. De quebra, Trump vai, durante algum tempo, guardar ressentimento contra seu colega Netanyahu por seu convite para uma guerra sem pé nem cabeça, sem plano e sem objetivo.

Irâ – Perdeu bastante, mas também ganhou
O Irã apanhou muito, perdeu a cúpula do regime, perdeu praticamente toda a sua aviação militar e sua marinha de guerra – é sempre mais fácil esconder urânio que aviões ou navios. Perderam pontes, edifícios, milhares de cidadãos incluindo crianças.

Por seu lado, o Irã ganhou respeito. Objeto de chacota até outro dia, o país deixou de ser olhado com desdém. Não fosse a opressão e a crueldade com que o regime trata seus cidadãos, o Irã passaria para o lado dos países de bem, simpáticos mas maltratados pelo Ocidente, como Cuba e Venezuela.

No frigir dos ovos, o próximo que tiver ideia de se meter com o Irã vai pensar duas vezes.

Sapatos de abril

José Horta Manzano

Já devo ter contado esta história mais de uma vez. Aproveitando os ecos do primeiro de abril que acaba de passar, conto mais uma vez.

No fim de fevereiro de 1986, uma revolução popular não violenta derrubou o ditador filipino Marcos, que estava no poder havia duas décadas. Os EUA então deram uma mão ao poderoso caído e mandaram um helicóptero buscá-lo, assim como a digníssima esposa. O casal Ferdinand e Imelda Marcos foi então levado a uma base americana para posterior transferência ao exílio no Havaí.

Nessa corrida, deixaram tudo para trás. Com exceção dos fundos extorquidos do povo filipino (e devidamente depositados na Suíça e em outros lugares), todos os pertences dos dois ficaram em Manila. Entre outros bens, a fabulosa coleção de 3.000 pares de calçados de Madame e seu baú de joias. O exorbitante salão onde os sapatos eram armazenados causou muita surpresa aos que penetraram no palácio logo após a apressada fuga dos ocupantes. É compreensível. Nem grandes lojas de calçados costumam contar com estoque de tantos milhares de pares calçados de primeiríssima qualidade.

Logo chegou a Páscoa daquele ano. A Quinta-feira Santa caiu dia 1° de abril de 1986. Naqueles tempos pré-internet, a notícia incomum e curiosa foi trazida pelo jornal 24 Horas, da cidade de Lausanne – leitura quase obrigatória para a população. Um anúncio informava que no dia seguinte, feriado, das 14h às 18h, a coleção de sapatos da senhora Imelda Marcos seria vendida em leilão num dos salões do Lausanne Palace, um dos hotéis mais chiques da cidade.

No dia e hora anunciados, juntou gente no saguão do hotel. Meio tontos, recepcionistas passaram horas explicando aos desenxabidos visitantes que tudo não passava de… brincadeira de primeiro de abril.

Fosse hoje em dia, o diretor do hotel, assim como a parentela até o terceiro grau, seriam todos ‘cancelados’ e excluídos do maravilhoso mundo das redes sociais. Mas os tempos eram outros. Os cidadãos ainda sabiam fazer a diferença entre uma agressão e uma brincadeira.

Estes últimos anos, não tenho mais visto jornais pregando peças no dia 1° de abril. Acredito que esse sumiço do humor se deve à difusão universal da internet e das redes. De fato, o que se constata é o desaparecimento de toda verdade absoluta. Me explico.

Nos tempos de antigamente, para difundir sua opinião, o indivíduo tinha de mandar imprimir suas ideias num livro. Se não pudesse ou não desejasse, tinha de ir à tipografia e mandar tirar em centenas de exemplares um edital de não mais que uma página. Em seguida, tinha de bater perna pela cidade e enfiar um exemplar na caixa de cartas de cada casa. Que mão de obra, hein! Nem fale.

Hoje, como todos sabem, basta datilografar sua mensagem (pode até escrever com um dedo só, que ninguém vai ficar sabendo) e apertar a tecla “Envio”.

Pronto, agora todos podem dar a própria opinião sobre qualquer assunto e, se for o caso, contestar a verdade ouvida 10 minutos antes. Dado que cada um quer dar a própria opinião, a proposição verdadeira vai levando pancada, vai se deformando, vai se distanciando do original. Em pouco tempo, estará desvirtuada e já terá deixado de refletir a proposição inicial.

Só como exemplo, ainda outro dia parlamentares estavam querendo proibir, por lei, toda modificação ao que eles consideram a Bíblia padrão, imutável por definição. Erros de tradução cometidos nos dois últimos milênios ficariam, assim, congelados. Pela lógica, nenhuma nova tradução seria aceita. Parece que não passou. Até no Congresso, tem gente que se tocou que deputados e senadores não estão lá pra introduzir verdades religiosas na legislação nacional.

Portanto, visto que toda afirmação está sujeira a narrativas e modificações, já não faz sentido fazer brincadeiras de 1° de abril. Temos de nos contentar com as que já foram feitas no passado, que não haverá novas.

Daqui a alguns anos, volto a contar a história dos sapatos da mulher do ditador. Para as futuras gerações.

Drone a preço de banana

Drones “a preço de banana”

José Horta Manzano

A prepotência e a ignorância são defeitos feios. Quando se dão as mãos e se juntam numa só pessoa, e se esse indivíduo for um líder poderoso, saia da frente: esse sujeito tem tudo para se tornar perigoso. Se tiver gênio violento, então, é pior. O distinto leitor e a graciosa leitora já sabem de quem estou a falar; é isso, do impagável Donald Trump, presidente dos outrora reverenciados Estados Unidos.

Sabemos a marca de excelência deixada por líderes como Churchill, De Gaulle e Mandela, que eram gente “do bem”. Sabemos também a repulsa deixada por ditadores como Stalin (o russo), Hitler (o alemão) e Idi Amin Dada (o ugandense), gente “do mal” que mandava e desmandava em regime ditatorial. Já na história dos grandes países democráticos, não se tem notícia de um chefe de Estado (e de governo) que tenha agido como Trump.

De fato, a personalidade do líder americano reúne violência, prepotência e ignorância, uma receita explosiva. A esse coquetel de qualidades adversas, se poderia acrescentar a teimosia.

Quando ele assumiu o poder clamando que acabaria com as guerras do planeta, pensava sobretudo em acabar com a invasão da Ucrânia pelas tropas russas. Não tendo tido o cuidado de analisar os antecedentes da guerra, imaginou poder passar por cima do país agredido e convencer Putin a retirar suas tropas. Tentou, convidou o russo a um encontro no Alaska, apregoou que estava tudo encaminhado. Mas não estava. O conflito contiua matando gente, e Trump largou o osso.

Faz um mês hoje, deu início a nova guerra, desta vez no Irã. O objetivo declarado era derrubar o regime, liberar o povo de um jugo violento e desumano, e suspender por completo o programa atômico do país. Imaginou que, decapitando o governo, o resto cairia por si só. Se tinha dado certo na Venezuela, por que não daria no Irã? Só que não deu. Por detrás da fachada, Trump descobriu uma organização do Estado calcada na estratégia militar: caído um soldado, surge imediatamente outro para substituí-lo. E assim por diante. Diferentemente do que Trump imaginou, nunca há vácuo de poder.

O extermínio dos cabeças do regime não alterou em nada a determinação dos que vinham atrás. Pior: uma agressão estrangeira é a melhor maneira de aglutinar o apoio popular. A massa de habitantes que hoje apoia o governo central há de ser bem maior que antes do começo da guerra. A ignorância de Trump e sua teimosia em tomar decisões pessoais sem consultar ninguém levaram um baque pesado desta vez. Ninguém sabe como ele vai conseguir sair desse atoleiro.

Invasão terrestre? Nem pensar! O Irã tem quase 100 milhões de habitantes espalhados por um território maior que o estado do Amazonas, todo constituído de vales espremidos entre altas montanhas, árido, quente. Daqui a um mês, temperaturas diurnas de 40°C ou 45°C já vão começar a ser registradas – e isso vai até outubro. Quem é que vai invadir a pé um território assim? Em cada curva da estrada, uma saraivada de metralhadora pode descer lá do topo. Impensável.

E agora, Mr. Trump? É verdade que ele sempre inventa lendas de vitória e de conquista, dirigidas a seu público. E seu público engole todas, como se verdade bíblica fossem. O resultado final, seja qual for a continuação do conflito, será positivo para o Irã e negativo para os EUA.

O Irã, país até outro dia olhado com certo desdém por causa dos aiatolás e de sua repressão sobre a população, subiu no conceito universal. Ironicamente, nem precisaram de bomba atômica para enfiar o agressor mais poderoso do mundo numa sinuca de bico. O país mostrou ser bom de briga. Não é amanhã que algum outro potentado ousará tomá-lo pela força. Como efeito colateral, encomendas de drones “a preço de banana” vão chover assim que a guerra acabar.

Quanto aos Estados Unidos, esta guerra vai-lhes ficar na História como um segundo Vietnã. Bem mais curto, menos sangrento, mas sempre estigmatizante. Uma guerra que não terá dado certo.

Negócios fraudulentos

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, é difícil abrir uma página de notícias sem encontrar lá o sobrenome Vorcaro. Está por toda parte, é invadente. O dono do sobrenome é um senhor do qual, até seis meses atrás, só iniciados tinham ouvido falar. Algo ele há de ter feito para ser elevado a celebridade nacional, equiparável a um BBB, só que mais fotogênico.

Não tive a ocasião de conhecê-lo pessoalmente, portanto devo fiar no que encontro na mídia e na internet. Seu passado, do qual não se fala com frequência, me parece um tanto esfumaçado. Uma breve biografia publicada na revista Piauí informa que seu avô, o imigrante Serafim, era pastor italiano. Que fosse italiano, não duvido. Mas… pastor? Há de ter sido um dos raríssimos italianos a professar o cristianismo reformado. E a abandonar suas ovelhas na Itália para emigrar. Raro mesmo. De onde terá saído essa informação?

Costuma-se dizer que só há duas maneiras honestas de ficar rico da noite para o dia. Uma delas, todos sabem, é ganhar na loteria. A outra, casar-se em comunhão universal de bens com uma mulher muito rica (ou com um noivo milionário). Há algumas outras maneiras, mas todas rodam fora dos trilhos da honestidade pura.

Vorcaro não cresceu na miséria, longe disso, mas também não chegou à maioridade em condições de comprar um banco. Pois ainda em seus anos de jovem adulto não só comprou um banco, como também aumentou o balanço do estabelecimento para atingir a casa das centenas de bilhões de reais. Foi nesses anos que, coincidentemente, entrelaçou seus negócios aos dos que mandam e decidem em Brasília. Mas não só lá.

Seu joguinho particular de pirâmide inchou, inchou, até que não havia mais ninguém para entrar na roda e alimentar os que estavam no topo a esperar seus ganhos. Foi aí que um pé d’água reduziu o belo castelo de areia a uma poça rasa. Vorcaro é hoje um turista nas malhas do sistema prisional, frenético como um foragido, viajando de prisão em prisão, à espera de ser chamado para o exame oral, a delação premiada.

Na minha lógica caipira, os papéis estão invertidos. Supõe-se que Vorcaro seja o corruptor, aquele que ofereceu dinheiro e vantagens em troca de depósito de dinheiro público em seu banco. Corruptos são os outros, aqueles que receberam dinheiro e vantagens e depois assinaram ordens de depósito de dinheiro público no banco de Vorcaro. Vamos ver se, depois da tal “delação”, todas as partes entram na dança.

Pode parecer inacreditável, mas Vorcaro não é o único self-made man a enveredar pelo caminho perigoso dos negócios fraudulentos. De memória, me vêm dois casos emblemáticos.

O primeiro é o empresário francês Bernard Tapie (1943-2021). Saindo do nada, passou pelos palcos e pela televisão (foi cantor e apresentador), pela política (foi deputado e ministro), pelas artes (foi colecionador de quadros), pela recuperação de empresas (chegou a comprar uma dezena de empresas praticamente falidas por 1 franco simbólico, que revendeu por centenas de milhões – entre elas, a alemã Adidas). Comprou o time de futebol OM (Olympique de Marseille), que andava mal das pernas, e tirou-o do buraco. Só que exagerou na gestão do clube e andou subornando clubes adversários para entregarem o jogo. A mutreta acabou se tornando pública, e Tapie passou uma temporada na cadeia. Morreu de câncer em 2021.

O outro de quem me lembro era o homem de negócios americano Madoff (1938-2021), esse também de nome Bernard. Seu caso foi mais sórdido do que o do francês Tapie, visto que traiu a confiança de amigos pessoais que lhe confiaram dinheiro grosso para investir. Madoff prometia rendimento muito acima do mercado, recebia somas importantes, mas nunca investiu um centavo. Depositava tudo em sua conta bancária pessoal Quando alguém vinha retirar dinheiro, ele retirava de sua conta e entregava ao cliente. Era a típica pirâmide. Foi até o dia em que estourou. Ele pegou 115 anos de cadeia. Morreu na prisão.

Quanto a nosso Vorcaro, ninguém o quer numa prisão, onde ele seria um arquivo vivo. Seria até perigoso para ele, que poderia “acordar morto” a qualquer momento. Ele vai sair livre mais dia, menos dia. Sua clientela é transversal e atravessa o que há de mais “respeitável” na Brasília dos mandos e desmandos. Todos de rabo preso e bem preso. Todos puxando a corda no mesmo sentido, fazendo o que podem para que a delação do ousado banqueiro seja fraquinha, orientada para alvos menores, passando ao largo dos maiorais.

E assim segue a barca que leva políticos e magistrados, todos bem-intencionados, imaculados, sorridentes, altruístas e puros.

O visitante que não veio

Darren Beattie

José Horta Manzano

Vosmecê sem dúvida ficou sabendo da história daquele enviado especial de Donald Trump que queria se encontrar com Jair Bolsonaro na cadeia. Por caminhos tortuosos, doutor Alexandre de Moraes proibiu o convescote. Eu disse “caminhos tortuosos” porque a motivação do STF foi burocrática, uma espécie de erro processual, eludindo a verdadeira razão.

No entanto, o motivo verdadeiro é que está fora de cogitação abrir as portas de uma prisão brasileira para deixar entrar um representante de um governo estrangeiro. Sendo o visitador um enviado de Donald Trump, e o visitando, um antigo presidente brasileiro, preso por tentado golpe de Estado, o pretendido encontro configura total aberração.

O enviado de Trump pode se encontrar com os filhos do encarcerado, com parlamentares, enfim, com quem ele desejar, só não pode trocar figurinhas com um condenado atualmente custodiado pelo sistema prisional brasileiro.

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O que poucos sabem são os princípios supremacistas e racistas que regem o pensamento de Mr. Darren Beattie, o visitante barrado. Nomeado por Marco Rubio, ele é subsecretário para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos, um cargo sênior que representa a política externa dos EUA para o mundo.

“Seres humanos de maior qualidade estão subsidiando a fertilidade de seres humanos de menor qualidade”, já declarou Mr. Beattie, chamando isso de “realidade fundamental da vida social e política no Ocidente pós-guerra”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “A hierarquia dos tabus é interessante. A prática horrível do aborto no segundo trimestre é legal em alguns lugares e está bem dentro da janela de Overton do discurso público. Mas a ideia de oferecer incentivos financeiros a populações que retornaram ao estado selvagem para esterilização voluntária é completamente tabu.”

Em outubro 2023, não se acanhou e voltou a insinuar que os habitantes de um determinado bairro de Atlanta (Geórgia) tinham “voltado ao estado selvagem”, expressão que só se usa para animais, nunca para seres humanos. Nessa ocasião, ensinou que um presentinho, como um bom par de tênis, resolveria o problema.

Em 2018, Mr. Beattie foi demitido por ter discursado numa conferência frequentada por supremacistas brancos.

Em maio de 2025, escreveu: “Pagar pessoas inteligentes para terem mais filhos, desincentivar pessoas estúpidas de terem filhos. Tão simples, mas molda o destino em um nível intergeracional profundo”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “De onde vêm essas conspirações de redução populacional? Tudo o que vejo é lixo se multiplicando”.

As postagens de Beattie frequentemente se concentram em raça, e ele tem menosprezado diferentes grupos.

Em setembro de 2023, ele respondeu a notícias sobre migrantes africanos se amotinando em Israel dizendo que o governo israelense “poderia simplesmente reuni-los e jogá-los no oceano. Deixe os ‘grupos de direitos humanos’ reclamarem… jogue-os no oceano também!”.

Em maio de 2023, Beattie escreveu no Twitter (hoje “X”) que “populações de baixo QI e baixo controle de impulsos carecem de raciocínio superior e faculdades morais — elas precisam de punição corporal rigorosa e da ameaça de violência para funcionar adequadamente dentro de uma sociedade. Em vez de anarcotirania, precisamos de Singapura para os burros e violentos, e da Suécia para os mais elevados.”

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Aí está, em algumas pinceladas, a personalidade perturbada do visitante que não veio. Foi melhor assim. De transtornados desse naipe, nossa vida pública já está repleta. Não faz falta importar mais um.

Marinha de guerra

O porta-drones IRIS Makra, maior nave de guerra iraniana
visto a partir das pedras do Arpoador, Rio de Janeiro

José Horta Manzano

Os mais atentos se lembrarão da visita controversa que dois navios de guerra iranianos fizeram ao Brasil três anos atrás, no finalzinho de fevereiro de 2023. Na ocasião, o governo dos EUA havia exercido forte pressão sobre o Brasil para que não acolhesse as naves. O Planalto bateu o pé, deu de ombros a Tio Sam, deixou-se imbuir do espírito “quem manda aqui sou eu”, e permitiu que os barcos atracassem no Rio de Janeiro.

Eram uma fragata de bom porte e um imenso porta-drones, a maior e mais vistosa nave da armada iraniana. Estavam visitando portos “amigos” numa turnê de exibição ao redor do mundo. Depois de alguns dias, zarparam.

Pois saibam que ambas as naves foram explodidas e afundadas pela aviação americana ontem, 5 de março. E não foram as únicas: a contagem atual de navios de guerra iranianos destruídos já passa de trinta!

Blitzkrieg

José Horta Manzano

É uma bênção poder observar o desenrolar desta nova guerra de Trump do conforto de casa, sem silvo de mísseis por perto. Pelas contagens feitas por quem entende do assunto, esta é a sétima guerra que Donald Trump desencadeia neste seu segundo mandato. Isso dá uma média de uma nova guerra a cada dois meses – uma façanha!

Pelo ranger da carroça e pelo pipocar das bombas, vou me convencendo, pouco a pouco, que o panorama do Irã, depois destes quatro ou cinco dias de bombardeio, não é bem o que Trump esperava. Faltaram, ao presidente americano, astúcia e conhecimentos históricos. Ele é ousado, é verdade, mas não suficientemente astuto. Uso aqui o termo astuto como equivalente a sabido, esperto, sagaz, arguto.

Trump é daqueles que já entram batendo, para só depois procurar se informar do que estava acontecendo. Ao final, descobrem que já distribuíram sopapos a muitos espectadores que não tinham nada a ver com a briga. Entre os que apanharam, está justamente a vítima, aquele que estava sendo agredido.

Trump espezinhou o ucraniano Zelenski, quando este visitou o Salão Oval da Casa Branca. Reservou seus afagos para Putin, que só lhe pagou com traição e desprezo, como numa letra de bolero. O americano jogou flores para o agressor e cuspiu em cima do agredido. Alheamento à realidade ou má-fé?

Em 2022, o csar de Moscou achava que em três dias teria dominado a Ucrânia. Supunha que suas impressionantes colunas de tanques lançados contra o país e apoiados pelos caças seriam amplamente suficientes para decapitar o governo e permitir a instalação de uma presidência fantoche. Não contava com a resistência dos valentes ucranianos. O resultado é que sua “operação especial” durou bem mais do que o esperado. Acaba de entrar no 5° ano, sem perspectiva de sair do atoleiro.

Nesta nova guerra, Trump parece ter incorrido no mesmo erro de Vladimir Putin. Reproduzindo o erro do russo, Donald Trump calculou que a eliminação do aiatolá e dos principais chefes militares fosse colapsar o Irã e provocar total desorganização do país, fazendo com que todos corressem feito baratas tontas, cada um abandonando armas e bagagens pra salvar a própria pele.

Porém, a versão trumpiana da Blitzkrieg imaginada e executada pelos generais de Hitler – uma guerra-relâmpago – não foi eficaz. O Irã não colapsou, nem se desorganizou, pelo menos até agora. Antes, tem mostrado possuir grande estoque de mísseis e drones, todos de pontaria e desempenho superior ao dos de um ano atrás. E, longe de entregar os pontos, continua atirando e revidando contra Israel e dezenas de alvos americanos da região.

Em tuíte destes dias, Trump se mostra inquieto com a rápida diminuição dos estoques americanos de mísseis e de defesa anti-míssil. E, pasme!, atribui a baixa nas reservas ao “sonolento presidente Biden”. Aqui entra o que eu disse alguns parágrafos atrás: Trump é ousado, mas não é astuto. É ousado de dar essa declaração típica de quem não tem vergonha na cara. Mas faltou a astúcia básica de consultar o almoxarifado para verificar os estoques de armas antes de dar início à guerra. Se vê que sonolento não é bem Mr. Biden…

Agora, que as hostilidades parecem querer durar mais algum tempo, Trump periga entrar em período de turbulência. Para quem jurava, quando candidato, que não se meteria em novas guerras, ele entra numa saia justíssima. Que certamente vai piorar se corpos de militares americanos começarem a ser repatriados. Nos EUA, este é um ano eleitoral.

Boa sorte, Mr.Trump!

Caso de consciência

José Horta Manzano

O bombardeio do Irã, executado por um consórcio integrado por EUA e Israel, está se tornando um caso de consciência. É daqueles acontecimentos históricos que não deixam ninguém indiferente, complexo demais para ser julgado apenas com um like ou um dislike.

Ao final dos anos 1970, na sequência de uma revolta popular, o xá, monarca cujo regime prendia o país a moldes medievais, foi a grande vítima de uma revolta popular que o escorraçou e o despachou em humilhante e estéril peregrinação. Nenhum país estava disposto a acolhê-lo.

Mas não vamos aqui contar a história da derrocada da curta dinastia Pahlevi. A Wikipédia conta melhor que eu, com datas e detalhes.

Livre do regime duro do xá, o Irã mergulhou numa teocracia, uma mistura perigosa de religião e política que tem sempre altíssimo potencial de não dar certo. De fato, não deu. Desde os primeiros anos, bateram de frente com os EUA, o que não deixa de ser imprudente. Tiranizaram a população, foram alvo de embargos e sanções, situação nas quais é o povo que acaba sofrendo, não os dignitários.

Nos fortes protestos do começo deste ano, contagem extraoficial chega a 6.000 mortos – assassinados pelo regime. O mundo inteiro sentiu dó dos pobres iranianos, apanhando em casa, sem possibilidade de deixar o país, sem futuro, as mulheres aprisionadas em casa como nos tempos de antigamente.

Foi nesse quadro desolador que as bombas e os mísseis israelo-americanos despencaram. O alvo eram as autoridades maiores do regime, civis e militares, incluindo o guia supremo. Sabe-se que o guia supremo pereceu no bombardeio de seu palácio. O governo americano explica também que praticamente todos os alvos foram “neutralizados”.


“Chanceler da China afirma que matar o líder de um Estado soberano é inaceitável”,
leio numa manchete.


Não há como discordar. O manual do planeta civilizado ensina que não se devem praticar assassinatos políticos, especialmente contra chefes de Estado. Por esse manual, Estados Unidos e seus acólitos israelenses cometeram crime inaceitável. Nenhum país civilizado poderia aceitar um fato como esse. De fato, o Brasil, assim como numerosos países europeus, emitiram notas de protesto.

Por outro lado, o objetivo apregoado por Donald Trump tem forte apelo humanitário. Um povo como o iraniano, que vive há décadas oprimido por um regime tirânico, precisa desesperadamente que a salvação venha de fora. Sozinhos, não conseguirão. A revolta de janeiro já demonstrou que o regime e seus sicários não permitirâo que o poder da cúpula atual seja confrontado.

Nessa visão, dá um grande alívio que os bombardeios tenham dado início à corrida em direção a um futuro melhor para os iranianos. O povo já deve ter entendido que outra oportunidade como esta não vai aparecer tão já. É bom aproveitar. Mas cuidado com aventureiros, que sempre surgem nessas horas, prontos a tomar as rédeas do poder.

Conclusão

1) Como democrata e simpático à causa da soberania dos povos, fico chocado com qualquer intervenção armada vinda do estrangeiro, que tente impor, de fora para dentro, suas convicções.

2) Como adepto de uma visão humanista e universalista, fico aliviado e feliz que um futuro melhor se esteja abrindo para o povo iraniano, ainda que à custa de intervenção armada estrangeira.

E agora?

Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?