Climatocéticos

José Horta Manzano

Você sabia?

A vida anda dura para os que ainda insistem em ser climatocéticos – neologismo pescado no francês, próprio para designar aqueles que não acreditam que o clima esteja mudando. Não adianta ser descrente da realidade quando ela te persegue todo dia.

Alguém imaginaria o plácido Grão-Ducado do Luxemburgo, país de conto de fadas, açoitado por um tornado? Isso é coisa que combina mais com as planícies do meio-oeste americano, entre Kansas e Ohio, lugar de clima rude e impetuoso. Logo no Luxemburgo, gente? Só pode ser brincadeira.

Pois não é. Aconteceu sexta-feira passada, 9 de agosto. A chegada de uma massa de ar frio encontrou um acúmulo de ar anormalmente superaquecido pelo verão saariano deste ano. Pronto, foi a conta. O pacato grão-ducado viveu momentos de pânico, coisa nunca dantes vista por nenhum luxemburguês, nem em pesadelo.

Dezenove feridos e uma centena de casas destruídas foi o balanço do inesperado fenômeno cujos ventos sopraram a 130km/h. Como hoje todos levam máquina fotográfica no bolso, há diversos registros de qualidade caseira. Num apanhado interessante, a televisão belga apresentou alguns deles. Dá pra imaginar o medo que sentiram os que estavam por lá naquela hora.

Aceita um cálice?

José Horta Manzano

Você sabia?

Se o distinto leitor for amador de vinho, será que já provou um cálice do vigoroso tinto lituano da casta syrah? Ou do suave espumante polonês de casta pinot blanc? Ou talvez do delicioso branco sueco de casta chasselas? Por enquanto ainda é brincadeira, mas peritos em aquecimento global reunidos ontem em congresso(*) afirmam que o mapa da vinha europeia, daqui a 30 anos, será bastante diferente do que conhecemos.

Três décadas pode parecer muito tempo, mas muitos de vocês que hoje leem este escrito ainda estarão neste vale de lágrimas quando a «linha da vinha», que hoje roça o paralelo 50° Norte, tiver se deslocado para perto do paralelo 60° Norte. Falo da linha imaginária que assinala o limite além do qual, por razões climáticas, vinhedo não vinga.

Na França, vão trocar seis por meia dúzia. O sul (Bordeaux principalmente) não dará mais vinho. Em compensação, as planícies de todo o norte se transformarão em território vinícola.

VINHEDOS EUROPEUS
Hoje e daqui a 30 anos

O mais impressionante na previsão dos entendidos – posto que tenham razão – é que boa parte das atuais regiões viníferas da Europa terão desaparecido. Portugal e a Itália serão as maiores vítimas da catástrofe: não darão mais uma gota da preciosa bebida. Adeus, Chianti! Adeus, vinho do Porto! Na Espanha, apenas uma pequena região do norte, hoje fora da linha de produção, dará algumas pipas.

Em compensação, muitos vão trocar campos de cevada, tulipa, trigo e batata por vinhedos. Será o caso de países inteiros como a Alemanha, a Polônia, a Bélgica, a Holanda e os países bálticos. Até o sul da Inglaterra, da Dinamarca e da Suécia se tornarão regiões vinícolas.

Na Suécia, aliás, isso já começa a ser realidade. Campos cobertos de vinhedo já fazem parte da paisagem rural. Por enquanto, o vinho sueco é de caráter experimental e ainda não se compara com o que se produz no sul da Europa. Mas do jeito que vai o aquecimento climático, não será espantoso chegarem a fazer tintos encorpados.

Mr. Trump e doutor Bolsonaro, que têm a arrogância que só a ignorância lhes permite, podem continuar duvidando. De todo modo, daqui a 30 anos, não estarão mais aqui pra conferir. Se estiverem, estarão caducos.

(*) Refiro-me ao congresso do GIEC (Grupo intergovernamental de peritos internacionais sobre o clima), cujos aderentes se reuniram ontem em Lausanne, Suíça.

Ícaro moderno

José Horta Manzano

Você sabia?

Franky Zapata é piloto profissional de jet ski. Apesar do nome de revolucionário mexicano, o moço é francês de Marselha. Tem uma coleção de medalhas conquistadas em campeonatos nacionais e internacionais.

Acontece que Monsieur Zapata é buliçoso e criativo. Com um grupo de amigos, trabalhou duro durante anos a fim de construir o que chamou de Flyboard. O nome da geringonça corresponde ao que ela faz: é uma prancha que voa. Desde 2012, ele comercializa exemplares de seu invento.

Trata-se de uma prancha de diminutas dimensões, sobre a qual cabe apenas um homem de pé. Debaixo estão instalados os turbopropulsores. O reservatório de combustível fica… adivinhem onde? Numa mochila, nas costas do piloto. Precisa ser meio maluquinho, não?

Bom de marketing, o rapaz achou que precisava dar ao mundo um exemplo marcante do funcionamento da engenhoca. A travessia do Canal da Mancha – 35km entre França e Inglaterra – é o sonho de todos os que inventam algum objeto voador. Desde que o pioneiro Blériot atravessou o canal com seu precário avião, em 1909, muitos seguiram sua iniciativa. Nosso campeão de jet ski sentiu que tinha chegado sua vez.

Franky Zapata de ‘Flyboard’

Depois de uma tentativa infrutifera em julho, Franky Zapata conseguiu atravessar o canal neste domingo 4 de agosto. Decolou de Sangatte, uma praia na costa francesa, e pousou em St. Margaret’s Bay (Inglaterra), 20 minutos mais tarde. Voou a uma altura de 15-20 metros, a uma impressionante velocidade média de 160-170km/h. Foi acompanhado por helicópteros. No meio do percurso, um barco estava a postos, esperando por ele. Chegando lá, o aventureiro pousou por alguns segundos, só pra apanhar nova mochila. Em outras palavras: reabasteceu.

Um grupo de cinegrafistas disse adeus ao piloto quando levantou voo na França e outro grupo saudou sua chegada à Inglaterra. O engenhoso inventor já foi sondado pelo exército francês, interessado na utilidade que o Flyboard possa ter para o Ministério da Defesa.

Ainda bem que o voo experimental ocorreu antes do Brexit. Se tivesse sido depois de 31 de outubro, Monsieur Zapata poderia até ser preso assim que pisasse solo inglês. Seria processado por ter entrado no país através de passagem fronteiriça não autorizada. E era bom que tivesse o passaporte no bolso, se não ia ser ainda pior.

Para ter uma ideia de como é ver um homem voando, assista à chegada do aventureiro à praia inglesa neste videozinho de um minuto.

Acordo Comercial Canadá-Europa

José Horta Manzano

Mais uma vez, agricultores e cidadãos franceses estão em pé guerra. Desta vez, o estopim foi a ratificação, pela Assembleia Nacional, do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Canadá. Para entrar em vigor, esse tratado, assinado anos atrás, precisa ser referendado por todos os estados-membros da UE. Agora foi a vez da França. Passou pela assembleia semana passada.

Dado que o presidente Macron conta com maioria no parlamento, o acordo foi aprovado sem problemas, ainda que alguns deputados do partido presidencial tenham votado contra. Ah, não deu outra. Dia seguinte, agricultores furiosos começaram a atacar sedes provinciais do partido governamental. Uma delas foi apedrejada. Outra, incendiada. Houve até uma que amanheceu murada – uma parede de tijolo tinha sido levantada na fachada! Já faz uma semana, mas a raiva ainda não desapareceu. Não se passa um dia sem que um deputado seja incomodado pelos descontentes.

CETA: Acordo contestado

Como o Brasil, o Canadá é país onde a agricultura segue padrões industriais, com plantações geneticamente modificadas, uso de pesticidas, semeadura e colheita mecanizadas. Isso assusta muita gente na velha Europa. A definitiva entrada em vigor do acordo com o Canadá periga demorar. Nem metade dos países europeus ratificou o acordo até agora. Foram só 13. Faltam ainda 14.

A acordo comercial UE-Mercosul vai pelo mesmo caminho. Quem achar que em um ou dois anos estará ratificado pelos 27 membros, pode tirar o cavalo da chuva. Se o Canadá assusta os agricultores europeus, o Brasil os apavora. Os produtos da agricultura brasileira são vistos como ameaça por diversas razões: concorrência devido ao baixo preço, risco para a saúde em decorrência do uso de sementes geneticamente modificadas (transgênicas), toxicidade aumentada em consequência do uso de pesticidas proibidos.

Agricultores e ecologistas europeus farão tudo o que estiver em poder deles pra frear a entrada em vigor do livre comércio com o Mercosul. Temos pela frente anos e anos de tergiversações.

Nota
O nome do acordo com o Canadá é C.E.T.A. Oficialmente, são as iniciais de Comprehensive Economic and Trade Agreement. Como essa expressão soa técnica demais, o acrônimo acabou sendo entendido como Canada-Europe Trade Agreement = Acordo comercial Canadá-Europa. Fica mais a gosto.

O curioso caso do vereador suíço

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 julho 2019.

Monsieur Patelli, cidadão suíço, é rapaz decidido. Seu caráter por vezes impulsivo costuma pregar-lhe peças. Arrebatado, perde rápido as estribeiras e se deixa subjugar pelo ardor que a juventude lhe concede. Anda pelos vinte e poucos anos, idade em que se acredita ter o poder e a missão de consertar o mundo – crença que leva a dar valor exagerado a causas menores.

Uma tarde de 2014, participou de manifestação de rua em protesto contra a violência policial. Tachar a polícia suíça de violenta é rematado exagero. Aos muito jovens, porém, há que relevar certos desacertos. Acontece que a marcha de protesto desandou e virou batalha campal. (Francamente, usar de violência numa marcha que se propõe a denunciar a violência é atropelo ao bom senso. Mas assim são as coisas, que não se pode exigir coerência de todo o mundo a todo instante.) Câmeras de segurança gravaram a arruaça e registraram imagens do jovem Patelli justamente quando mandava uma pedrada pra cima da polícia. Com tantos manifestantes, não foi possível identificar cada um de imediato. As investigações continuaram.

Quatro anos mais tarde, a identidade do jovem foi descoberta. A vida tinha corrido e ele já havia progredido. Tinha-se candidatado às eleições municipais da cidadezinha onde vive. Eleito, é agora vereador. Mas ‒ que fazer? ‒ o gesto de quatro anos antes tinha de ser sancionado. Monsieur Patelli foi condenado a passar três meses em prisão domiciliar. Para controlar seus passos, leva uma tornozeleira.

Monsieur Patelli fotografado de tornozeleira na entrada da república onde mora.
Imagem: V.Cardoso, 24 Heures, Lausanne

Menos comum do que no Brasil, o caso do vereador suíço enrolado com a justiça trouxe à pauta a questão da compatibilidade entre as duas condições ‒ a de eleito e a de condenado. Tivesse a infração sido cometida depois da eleição, o mandato seria cassado de ofício, sem recurso possível. Mas o delito tinha ocorrido antes da eleição, de modo que não houve quebra do juramento que todo parlamentar faz de jamais infringir a lei. Monsieur Patelli se encontra agora na bizarra condição de condenado que cumpre pena de cerceamento de liberdade sendo, ao mesmo tempo, vereador em pleno exercício. Se, em outras terras, casos assim não surpreendem, na Suíça deu manchete na imprensa.

A Justiça do país não dá moleza pra quem está em prisão domiciliar. Os controles são rigorosos. Para seguir seus estudos, o jovem tem direito a deixar somente três vezes por semana a república onde vive em comunidade, com destino à faculdade. Para ir ao supermercado, tem de pedir autorização prévia. A licença virá com hora pra sair e hora pra voltar, com tolerância zero para atrasos. Se quiser comparecer a uma das três sessões semanais da Câmara, terá de renunciar a uma ida à faculdade. O que mais o aborrece, no fundo, é a proibição rigorosa de participar de protestos e passeatas, sua paixão.

O caso do jovem suíço que, por um lado paga pena por ter transgredido às regras da sociedade e, por outro, é legítimo representante dessa mesma sociedade, convenhamos, é extravagante. Raras no passado, não há mais como esquivar tais ocorrências nestes tempos de internet planetária, redes sociais abelhudas, pirataria informática e câmeras de segurança onipresentes. Singularmente, a Justiça suíça entende que, tendo o malfeito sido cometido antes da eleição, o condenado conserva o mandato que o povo lhe confiou. Recentemente, a Justiça espanhola mostrou ser da mesma opinião ao conceder a dirigentes catalães, procurados pela polícia mas exilados no exterior, o direito de candidatar-se às eleições para o Parlamento europeu.

No Brasil temos tido casos parelhos. Aqui e ali, vozes se alevantam pra denunciar incompatibilidade entre o estatuto de condenado e o de eleito. Em minha opinião, no caso de o fato delituoso ter ocorrido antes da eleição, a cassação automática do mandato seria pena abusiva. Com o cerceamento do direito de ir e vir, o indivíduo já está ressarcindo a sociedade dos prejuízos causados. Se já está a pagar o débito, não é justo aplicar-lhe pena extra. Por seu lado, é importante, isso sim, reforçar a caça aos eleitos que, embora tenham cometido ‘malfeitos’ – quiçá durante o mandato corrente! – continuam livres, leves, soltos, sem processo, sem julgamento, sem embaraço e sem pudor.

Círculo Polar

José Horta Manzano

Nos últimos dias de junho, fomos castigados por uma onda de calor vinda direto do Saara. Aquela bola de fogo estacionou sobre a Europa central. Bem na época do solstício, em que os dias são mais longos, tivemos 8 dias de sufoco, sem vento, sem nuvens, com céu azul e sol brilhando das 5h da madrugada até as 9h30 da noite.

Nem no Piauí, nem no Ceará, nem no Tocantins faz calor assim. Duvida? Pois saiba que o Serviço Nacional de Meteorologia francês acaba de corrigir um dos dados publicados naqueles dias. O recorde de temperatura registrado no país não foi de 45,9°, mas exatamente de 46°. Quase cinquenta graus à sombra! Naturalmente, ninguém é obrigado a ficar à sombra.

Passados os primeiros dias de julho, acalmou. Não digo que esfriou, mas o tempo voltou ao habitual para esta época do ano. Quando todos já estavam guardando ventiladores e ventarolas no porão, catapum! Lá veio outra onda saariana. Começou anteontem e deve durar até sábado. De novo, noites mal dormidas, vegetação morrendo, racionamento de água, hospitais em alerta máximo. Em Paris, está previsto que o termômetro supere 40° hoje e amanhã. Em Genebra, 35°. Em vastas regiões da Alemanha, da Holanda e da Bélgica, 38°.

Escandinávia, 24 julho 2019
Temperaturas por volta do meio-dia

Até o extremo norte do continente está transpirando. Lá na Lapônia, no norte da nevosa Finlândia, pelas bandas onde Papai Noel vive, estão todos transpirando, inclusive as renas que servem ao bom velhinho. Coisa do outro mundo. Pra lá do Círculo Polar, a 70° de latitude, está fazendo hoje um calor de 29° ou 30°, fato jamais registrado. É a um pulinho do Polo Norte, minha gente! Muito impressionante.

Enquanto isso, com o planeta derretendo, o desmatamento da Amazônia come solto. E tudo segue tranquilo, sob a batuta de um Bolsonaro instalado em palácio, alheio ao que ocorre no mundo real, aplaudido e instigado pela corte de bajuladores.

Do jeito que vai, uma coisa parece certa: o presidente só tem alguma chance de ser reeleito se o adversário for um político identificado com o lulopetismo. Sempre que o planeta não se tenha incendiado daqui até lá, naturalmente.

A small step for man

José Horta Manzano

Você sabia?

Literalmente, a máxima italiana “traduttore, traditore” quer dizer “tradutor, traidor”. Na prática, deve ser entendida como “traduzir é trair”. Muitas vezes, corresponde à realidade. Uma tradução, ainda que esmerada, pode não transmitir exatamente a intenção do autor. Isso ocorre principalmente quando o contexto é intraduzível. Por exemplo, nossa palavra saudade costuma dar dor de cabeça a tradutores, porque é difícil achar correspondente exato em outras línguas. O tradutor, nessa hora, será necessariamente um ‘traidor’, faça o que fizer.

Há casos, no entanto, em que a ‘traição’ melhora o original. Nestes dias em que se comemora o 50° aniversário do primeiro pouso de um homem na Lua, as imagens do evento vêm sendo repetidas, com insistência, por toda a mídia. No meio de um chuvisqueiro cinzento, aparece a vaga silhueta de um astronauta descendo uma escadinha e firmando o pé no solo lunar. Nessa hora, no meio de um chiado de fazer inveja a tacho de fritura de manjuba, vem a voz anasalada: «A small step for man, a giant leap for mankind».

Mr. Armstrong, o astronauta que pronunciou a frase, estava visivelmente emocionado. Apesar de ter ensaiado com afinco, atrapalhou-se na hora e pulou uma palavra. Era uma palavrinha curtinha, à toa, mas faz toda a diferença. Devia ter dito: «A small step for a man, a giant leap for mankind», que se traduz por «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade». Do jeito que ele pronunciou, sem o a, a sentença ficou aleijada, capenga. Sem o artigo, a palavra “man” deixou de significar “um homem” para designar a humanidade. Assim, a frase pronunciada foi: «Um pequeno passo para a humanidade, um salto gigantesco para a humanidade» – o que, convenhamos, fica pra lá de esquisito.

Foi aí que entraram em ação os tradutores. Desta vez, traíram. Consertaram o soluço de Mr. Armstrong. Até hoje, em toda transcrição brasileira, a frase aparece correta, bonita e com sentido. Curiosamente, os americanos preferiram manter fidelidade ao original. Pode conferir no Google. Continuam a transcrever a frase sem o pequenino a.

A aventura de julho de 1969 foi bem sucedida, mas a frase gravada no mármore da história está torta. Para todo o sempre.

Presidente espada em punho

José Horta Manzano

Na manhã de sexta-feira passada, doutor Bolsonaro mandou arrumar a mesa com cuidado evitando expor latinha de leite condensado. Preparou-se pra tomar café em companhia de jornalistas estrangeiros.

Ele teria preferido que os convidados lhe fizessem perguntas amenas sobre o sol de Copacabana, a última vitória do Palmeiras, o turismo no Pantanal, a esperança de ratificação-relâmpago do acordo comercial Mercosul-UE. Mas… que remédio? Por dever de ofício, jornalista é formatado a ser inconveniente. Os estrangeiros principalmente. As perguntas pisaram os calos presidenciais. Direto, com força e com vontade.

Bolsonaro diz que desmatamento da Amazônia é mentira
BBC, Reino Unido

Os questionamentos giraram em torno do desmatamento que governo nenhum, inclusive o de doutor Bolsonaro, conseguiu conter até hoje. Há que frisar que o fato é incompreensível para cidadãos de países mais avançados. Como é que pode? – se interrogam eles. O governo central do país não tem força pra impor lei e diretivas em todos os pontos do território nacional?

Para Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia é ‘fake news’
AGC News, Itália

Perguntaram também sobre os bolsões de pobreza, borrões que arruínam qualquer quadro geral de prosperidade que se queira mostrar. O contingente de população que depende da bolsa família é prova escancarada da evidente pobreza de um naco enorme de brasileiros. Para quem vive num país mais adiantado, é um mistério que os impostos coletados dos abastados não seja suficiente pra alavancar a ascensão social dos desfavorecidos. Onde vai parar essa dinheirama? Em que finalidade é gasto?

Esses dois pontos são básicos. Quer o presidente aprecie, quer não, voltarão sempre à mesa. Pode ser café da manhã, almoço, jantar ou até entrevista nos jardins da Casa Branca. Jornalistas do Primeiro Mundo vão continuar a pedir explicações sobre o que não conseguem entender. Não é pra encher o picuá. É porque não conseguem entender que, entra governo, sai governo, e as coisas não mudam.

A Amazônia é do Brasil, não de vocês! – diz Bolsonaro aos europeus.
Bloomberg, EUA

Doutor Bolsonaro tem as certezas só permitidas aos ignorantes. Incapaz de interpretar as razões da inquietação dos estrangeiros, toma as perguntas por ofensa grave. Logo desembainha a espada e põe-se a defender a pátria de uma agressão que só existe em sua imaginação. «A Amazônia é nossa e não cabe a ninguém nos ensinar como cuidar dela» – é o mantra rebatido nessas ocasiões. O caminho não é esse. Negar a realidade não a faz desaparecer.

Somos todos cidadãos do mesmo planeta. O bom senso ensina que é como se fôssemos viajantes de um mesmo barco. Ninguém quer ver o barco afundar. Ninguém quer ver a comida acabar. Ninguém quer sofrer incêndio a bordo. Ninguém quer que o ar condicionado enguice. Ninguém quer enfrentar tempestade.

Apesar das afirmações de Bolsonaro, a Amazônia pertence a todos
Taipei Times, Taiwan (Formosa)

A Amazônia está sob nossa guarda, mas a saúde do planeta depende da saúde da floresta equatorial. O clima mundial já não anda lá essas coisas. O avanço do desflorestamento nas regiões equatoriais só pode piorar uma situação já fragilizada. Vem daí a preocupação dos estrangeiros. Pouca diferença faz que doutor Bolsonaro os receba com aparato ou com leite condensado no pão. Enquanto os grandes problemas brasileiros persistirem, todos continuarão a se perguntar por quê. Menos acanhados, jornalistas estrangeiros continuarão ousando perguntar em voz alta.

A Cancún brasileira

José Horta Manzano

Em 2012, o cidadão Jair Bolsonaro iniciava o último ano de seu terceiro mandato consecutivo como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Nascido e criado em São Paulo, estava estabelecido no Rio havia décadas e, como parlamentar, representava aquele estado.

Na manhã de 25 de janeiro – uma quarta-feira – o parlamentar achou que o dia estava excelente pra uma pescaria. Navegou até as águas claras da Estação Ecológica de Tamoios, unidade de conservação marinha criada em 1990 na Baía da Ilha Grande, região de Angra dos Reis (RJ). A área, reservada à pesquisa científica, é interditada ao acesso público. Estende-se por 5,7% da superfície da Baía da Ilha Grande.

Pouco tempo depois de chegar ao local e sacar dos apetrechos do perfeito pescador, aconteceu o que tinha de acontecer: foi apanhado por um fiscal do Ibama em flagrante delito de pesca proibida. Observe-se que o deputado não vestia escafandro de exploração submarina, mas camiseta e sunga. Nas mãos, não segurava aparelho fotográfico subaquático, mas uma vara de pesca. Não havia como negar a razão da excursão. O fiscal ainda tomou a precaução de guardar registro fotográfico da cena.

Habituado à dissimulação descarada típica dos políticos de alto coturno e baixa moralidade, cujo arquétipo é o integrante do baixo clero da Câmara, Bolsonaro começou por negar a evidência. Deu carteirada, perguntou ao fiscal se sabia com quem estava falando, sacou do celular e mostrou intimidade com o ministro da Pesca da então presidente Dilma Rousseff. Enfurecido, acabou se retirando sem pagar a multa aplicada pelo fiscal. E ainda debochou do funcionário: prometeu voltar dia seguinte pra continuar a pescaria interrompida.

A partir daí, o deputado Bolsonaro agiu como costumam agir os poderosos. Além de negar-se a pagar a multa pela infração, acionou a (já sobrecarregada) justiça do país. Mandou alegar ter estado ausente do local no dia do flagra. Vingativo, fez o que estava, então, em seu poder para retaliar o Ibama, na forma de um projeto de lei para desarmar os fiscais do órgão quando em cumprimento de missão.

O tempo passou. Bolsonaro não pagou a multa, nem se desculpou, nem deu sua versão do ocorrido. Mais tarde, elevado ao cargo maior do Executivo nacional, (o agora doutor) Bolsonaro não se deu conta de que, nestes tempos de feicibuque, uotisápi e vazamentos de tudo quanto devia ser secreto, tornou-se impossível guardar segredo de deslizes passados. A solução rápida e indolor para pôr panos quentes e esvaziar toda controvérsia seria pagar a multa e virar a página. Não foi o que ele fez.

Que tal um “Spring break” (férias de Páscoa) na paradisíaca Cancún?

‘Vingança é prato que se come frio’ – costuma dizer o povo sabido. Doutor Bolsonaro parece ser daquele tipo descrito pelo velho Tancredo Neves no dia em que comentou que ‘tem gente que guarda mágoa em geladeira’. Seis anos depois do episódio da infração, além de não pagar o que devia ao Ibama, Bolsonaro foi bem mais longe. Assim que lhe passaram a faixa, deu ordem para que o fiscal que ousara multá-lo seis anos antes fosse sumariamente desbancado – perdeu o cargo e foi rebaixado.

A vingança que sufoca o coração de nosso presidente vai além. É poderosa e irrefreável. Já propôs ideia fabulosa: transformar o santuário ecológico de Tamoios em estação turística de alta frequentação. Uma «Cancún brasileira», segundo sua visão. Pobre presidente!

Sua experiência no campo turístico, além de invadir reserva ecológica, não enxerga mais longe que estações de turismo de massa. Cancún (México), Varadero (Cuba), Punta Cana (Rep. Dominicana) são exemplos dessa versão ultrapopular de turismo. Caravanas de voos charters decolam toda sexta-feira à noite da Europa, abarrotados de turistas, em direção a esses «paraísos» tropicais. A troca da guarda, isto é, a partida dos antigos ocupantes e a chegada dos novos, se faz aos sábados.

Os turistas, em geral de baixo poder aquisitivo, adquirem pacote completo incluindo voo, alojamento e refeições. Despejados à beira da praia de destino, enfurnam-se no hotel e de lá não arredam pé até o sábado seguinte. Dormem, comem, brincam, dançam, avermelham-se na praia particular – tudo no terreno do hotel, cercado como fortaleza e vigiado como prisão. Não estão interessados em conhecer a cultura do país que os acolhe, muito menos em gastar um dinheiro de que não dispõem. Não precisa dizer que, para construir um ‘paradisíaco’ complexo hoteleiro nas beiradas de Angra dos Reis, largas extensões de mata nativa terão de ser destruídas.

Ninguém sabe até que ponto pode chegar o implacável sentimento de vingança de doutor Bolsonaro e quais são os castigos que, para aplacá-la, ele poderá impor ao povo brasileiro. Ousará, realmente, transformar o entorno da Baía da Ilha  Grande na «Cancún brasileira»? Valei-nos, São Jorge e São Sebastião!

Observação
Este blogueiro não é adepto de nenhuma denominação dita ‘evangélica’. Assim mesmo, posso afirmar, sem medo de errar, que a vingança é considerada, em todas elas, falta pesada, pecado grande do qual convém se livrar. Doutor Bolsonaro certamente estava ausente no dia desse sermão. Um ministro evangélico nomeado para o STF há de dar cabo dessa questão. Deus acima de todos!

 

Ode ao ódio

José Horta Manzano

Quando, em 1785, o poeta alemão Friedrich Schiller deitou no papel os versos que viriam a ser conhecidos como An die Freude (=Ode à Alegria), estava longe de imaginar o destino fabuloso que teriam aquelas poucas linhas.

Da mesma forma, quando Ludwig van Beethoven, tempos depois, poria música em cima dos versos do poeta e os incluiria ao último movimento de sua 9Sinfonia, não podia sonhar que aquela melodia se tornaria um dia o hino de uma Europa pacificada e unida. Logo ele que, contemporâneo de Napoleão, passou a vida num continente conflagrado.

E nem em delírio algum dos dois ousaria supor que a obra sofreria, duzentos e tantos anos mais tarde, agressão tão pesada como a que sofreu em 2 de julho de 2019. E justamente no recinto aveludado do Parlamento Europeu! A peça de Schiller e Beethoven serviu de fundo musical para o espetáculo mais incivilizado e deprimente que aquela Casa já conheceu.

Três anos atrás, como se sabe, um plebiscito revelou que metade do povo britânico queria abandonar a União Europeia enquanto a outra metade preferia continuar no barco comum. A estreita diferença entre o ‘sim’ e o ‘não’ ao Brexit tem dado margem a muito conflito. Dois primeiros-ministros já caíram por isso. O divórcio, que já devia estar consumado, continua emperrado. Alguns sugerem a organização de nova consulta. Desorientada, a política britânica vive um deus nos acuda.

Faz algumas semanas, foram eleitos os novos deputados europeus, que são, na União Europeia, os únicos representantes eleitos diretamente pelo povo. A câmara é composta de 751 deputados. Cada país tem direito a um contingente correspondente a sua população. Dos 79 deputados britânicos, 29 são afiliados ao partido favorável ao Brexit, cujo lider é Mr. Nigel Farage. Vivem uma situação surreal: embora sejam contrários à permanência de seu país na União Europeia, têm assento garantido no parlamento europeu.

A decência ensina que, quando o deputado está numa situação delicada como essa, se faça o mais discreto possível. Faltar às sessões, em sinal de protesto, é solução aceitável. Pois não foi o caminho escolhido pelos membros do partido do Brexit no dia 2 de julho, na sessão inaugural da nova legislatura. Estavam todos presentes à sessão solene, com direito a música ao vivo e até soprano para abrilhantar a execução do hino europeu. (É justamente a Ode à Alegria, obra bicentenária de Beethoven e Schiller.)

Assim que a música começou, no entanto, os deputados britânicos do partido do Brexit puseram-se de pé e viraram as costas para o plenário, numa atitude de escracho e desrespeito, não habitual em ambientes solenes. E não foi só. Cada um deles já tinha instalado uma bandeirinha britânica, bem visível sobre a escrivaninha, ato que não combina com um ambiente pan-europeu e supranacional.

Não se deve desrespeitar um hino nacional, ainda que seja de país estrangeiro. O que os deputados brexistas fizeram foi ofensa gravíssima a todos os europeus. Imagine se, durante uma sessão do parlamento inglês, alguém desse as costas durante a execução do ‘God save the Queen’. Perigava ser linchado. Pois foi exatamente o que fizeram os deputados do Brexit. Coisa de gentinha.

O comentário de um leitor do site da BBC acertou na mosca: eles certamente não dariam as costas ao salário nem às mordomias do cargo. Ao final do ultraje explícito, não ganharam um voto a mais. O desaforo só acentuou a antipatia que eles já despertam em muita gente. Foi tremendo erro de marketing. Além de gentinha, são pouco inteligentes.

Aqui está um vídeo de menos de um minuto em que a BBC flagra o momento do insulto.

Greve – 2

José Horta Manzano

Outro dia eu contava a origem da palavra greve. (Pra quem perdeu, o post está aqui.) O tempo que levei escrevendo sobre essa palavra me levou a um momento de reflexão sobre o significado dela, tanto na etimologia quanto na vida real e nas consequências para cada cidadão.

Os franceses inventaram a greve e… abusam dela. Eu me lembro de um exemplo clássico. Era no tempo em que eu viajava frequentemente ao Brasil. Como todo o mundo, eu procurava escolher companhia que oferecesse bom preço e conexões decentes – evitando, se possível, aquelas que cobravam um pouco menos mas, em compensação, te faziam passar uma noite dormindo nos agradáveis bancos de madeira do aeroporto de Uagadugu. Com direito a mosquitos, pernilongos e muriçocas.

A preocupação maior era evitar a Air France, ainda que os preços fossem promocionais. A razão não era nenhuma desconfiança com a empresa, que é cotada entre as melhores do planeta. O nó do problema eram as greves, imprevisíveis e frequentes. Nesse ponto, francês é campeão. Quem faz escala em Paris está sujeito a elas. Ora são os controladores aéreos, ora os comandantes, ou o pessoal de solo, ou as aeromoças (adoro o sabor antiquado e romântico desse nome). É sempre arriscado. Se acontece no dia do seu voo, é pandemônio garantido.

No mundo, em qualquer empresa, quando surge desavença entre patrão e empregados, o caminho usual e adequado é discutir primeiro. Se realmente não houver jeito, aí sim, como último recurso de pressão, entra-se em greve. Na França, não funciona dessa maneira. Quando há uma reivindicação qualquer, entra-se logo em greve antes de discutir. A discussão, tumultuada, ocorre durante a greve. É balbúrdia na certa, que acaba prejudicando empresa, funcionários e usuários. Todos saem perdendo.

O distinto leitor ficará espantado se eu lhe disser que na França, duas ou três vezes por ano, até o rádio entra em greve. Falo das emissoras públicas, que são as mais sintonizadas e populares do país. Um belo dia de manhã, você liga o rádio pra ouvir as notícias e só vem música. A cada dez minutos, a música é interrompida por uma voz aveludada que informa que, em razão de um ‘movimento’ de funcionários por questões salariais, a emissora não está em condições de oferecer os programas habituais. E o ouvinte que se vire. A parede não tem prazo pra terminar e pode durar vários dias.

Para entrar em greve, cada categoria de profissionais escolhe o momento em que o cidadão ficará mais incomodado. Funcionários de metrô não vão parar de trabalhar no fim de semana, mas em plena segunda-feira de manhã, quando o movimento é mais intenso. Enfermeiras grevistas não escondem a seringa em agosto, mês de férias, mas numa época em que todos estejam no batente. E assim por diante, todo grevista procurando atrapalhar o mais possível.

Atualmente, está ocorrendo uma greve pra lá de original. As provas do baccalauréat (equivalente a nosso Enem) realizaram-se estes dias. Nessa época, a moçada do país inteiro fica em efervescência, todos nervosos e ansiosos. Pois acredite, distinto leitor: parte dos professores encarregados de corrigir as provas escolheu exatamente este momento pra entrar em greve. Recusaram-se a entrar as notas no sistema informático. Compreensivelmente, o país ficou indignado e o auê foi ensurdecedor – a tal ponto, que a reivindicação dos grevistas passou para segundo plano em meio à grita geral. É demais cruel impor esse suspense aos já estressados estudantes. Até o presidente da República interveio por meio de fala à nação, acontecimento raro.

Diante da ameaça de punição equivalente a 15 dias de desconto de salário, muitos grevistas entregaram os pontos e devolveram as provas corrigidas. Pequena minoria, no entanto, resistiu até o fim. Para contornar o problema, o ministério da Educação decidiu considerar que, para aqueles cujas provas tinham sido confiscadas pelos grevistas, valeria a média das notas das provas parciais do último ano letivo. Mais à frente, quando chegasse a nota do baccalauréat, valeria a mais favorável – a do ‘bac’ ou a média do ano.

No Brasil de antigamente, havia alguma greve. Nunca chegamos à recorrência que o fenômeno assume na França, mas greve sempre houve. Depois que o andar de cima foi capturado pelo lulopetismo, quinze anos atrás, sindicatos foram amansados com generosos mimos e as greves minguaram. Renascerão, sem dúvida. Por enquanto, estão quietinhos. Devem estar catando os cacos pra remendar o vaso.

Ignorantões

José Horta Manzano

Confirmando que o alto escalão da República continua nadando de braçada na arrogância que só a ignorância permite, doutor Bolsonaro reeditou uma fala já soltada em novembro passado por aquele seu ministro que tem nome de pedra semipreciosa.

Na época, o time presidencial tinha ficado ressentido por causa de um comentário feito por uma ONG norueguesa sobre a destruição que aniquila o que resta de nossa cobertura vegetal. Doutor Onyx disse então que, em matéria de preservação ambiental, o Brasil não tinha nada a aprender com a Noruega, país que já tinha destruído todas as florestas. Santa ignorância! Logo a Noruega, um dos países mais verdes da Europa!

Chamada do Portal BR18 (Estadão) – 4 julho 2019

Desta vez, foi o próprio presidente da República. Se contar, ninguém acredita. Durante café da manhã tomado com parlamentares hoje de manhã, doutor Bolsonaro saiu-se com esta: «Sobrevoei a Europa, já por duas vezes, e não encontrei 1km2 de floresta». De novo: santa ignorância!

Europa: cobertura florestal
crédito: jakubmarian.com

Está aqui um mapa que mostra, em verde, as regiões da Europa que têm mais de 15% do território coberto de floresta. Além dessas zonas, há quantidade de outras onde a cobertura florestal existe, mas não atinge 15%. Há trechos de floresta por toda parte. Daqui de casa, por exemplo, avisto floresta pelas janelas de um lado e de outro do imóvel. E olhe que vivo em zona densamente construída!(*)

Em torno da mesa desse café da manhã presidencial deviam ser todos broncos, tanto quem falava quanto quem ouvia e achava graça. Mapeamentos feitos por peritos valem mais do que ‘dois sobrevoos’ do continente.

Mas que gente é essa?

(*) A Suíça e outros países europeus contam com técnicos especializados em preservação da floresta. São a versão moderna do antigo lenhador, aquele que ia buscar lenha no mato. Os de hoje são funcionários contratados pela administração local. Com formação em botânica, examinam as árvores e dão instruções aos operários para abater aquelas que chegaram ao fim da vida ou que estão doentes. Uma floresta tem de ser vigiada, saneada, observada, cuidada.

Além de ser homem de poucas letras, nosso presidente tem assessores fracos, mancos e zarolhos. O resultado é esse aí: desastroso.

Greve

José Horta Manzano

Você sabia?

A palavra que utilizamos para indicar uma parada de trabalho ― organizada voluntária e coletivamente na esperança de alcançar melhora salarial ou vantagem laboral ― vem do francês. Tem longa história.

Na época em que rei detinha poder absoluto, decisões dependiam, naturalmente, de sua excelsa vontade. Na Paris do século XII, a burguesia pleiteava um espaço público adequado para cerimônias e festas. Em resumo: queriam um salão de festas ao ar livre. O rei Luís VII aquiesceu, mas impôs uma condição: exigia que, em troca, os burgueses lhe pagassem a soma de 70 libras, montante considerável para a época. Concluído o trato, um terreno às margens do Rio Sena ficou reservado para cerimônias e festejos. Era o salão de festas da alta burguesia. O rei garantiu que nunca se construiria ali.

Place de Grève em 1746 Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

Place de Grève em 1746
by Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

A proximidade do rio era bem prática. Tirando ocasiões em que era ocupado para festejos, o espaço era regularmente utilizado como atracadouro para barcaças que traziam carvão e outras mercadorias para abastecer a cidade. Grève é o nome dado pelos franceses a um terreno de pedrisco que se inclina em direção à água. Uma praia de cascalho, em suma. Daí o nome de Place de Grève ― a Praça do Cascalho.

A promessa do rei foi mantida e o enorme espaço retangular está lá até hoje. Séculos depois, a majestosa sede da prefeitura foi construída no alto da praça. O palácio acabou provocando a mudança do nome da praça. Ela passou a ser conhecida como Place de l’Hôtel de Ville ― Praça da Prefeitura. É o nome atual.

Nem só de festas viveu a Place de Grève. Execuções públicas foram praticadas lá, desde fogueiras medievais reservadas para bruxas e hereges até as primeiras cabeças guilhotinadas pelos revolucionários de 1792.

A Revolução Industrial deu nascimento às primeiras manufaturas e, em consequência, aos primeiros operários. O grande espaço que a praça oferecia era raridade na Paris de princípios do século XIX ― uma teia irregular de ruelas estreitas e malcheirosas. Assim, em pouco tempo, tornou-se ponto de encontro de homens à procura de trabalho. Donos de manufatura à cata de mão de obra passavam por lá para engajar pessoal.

Place de l'Hôtel de Ville nos dias atuais

Place de l’Hôtel de Ville
nos dias atuais

Com o passar dos anos, os operários foram-se dando conta de que, unidos, tinham mais força pra reivindicar melhores salários ou melhores condições de trabalho. A maneira mais simples e mais visível de mostrar descontentamento era deixar de comparecer ao emprego. Coletivamente, de preferência. A Place de Grève encontrou vocação nova: tornou-se ponto de agrupamento dos que se recusavam a trabalhar em razão de alguma reivindicação.

A praça acabou emprestando seu nome à novidade. A língua francesa adotou o termo grève para designar paralisação de trabalhadores. Faire la grève (=fazer a greve) é como dizem. Cada língua encontrou solução própria pra descrever o fenômeno novo. Das 30 línguas mais faladas, somente duas adotaram o termo francês: o turco e o português.

Eis por que, enquanto outros dizem huelga, sciopero, Streik, stávka, nós permanecemos fiéis ao original e não arredamos pé. Greve é greve.

Texto originalmente publicado em 21 set° 2014.

Exportando veneno

José Horta Manzano

O acordo agrícola entre o Mercosul e a União Europeia está emperrado há anos. Entra governo, sai governo, e a coisa não anda. De relance, sem analisar a fundo, a gente imagina que o problema seja o corpo mole dos dirigentes do Mercosul, essa gente despreparada. É apenas parte da verdade.

De fato, há certa inabilidade dos governantes mercossulinos, que têm feito mal seu trabalho. Do lado europeu, no entanto, também há resistência. Alguns países travam luta encarniçada contra o acordo. O carro-chefe dos que se opõem é a França, o maior produtor agrícola da UE.

O receio de Paris é vir a perder mercado caso o continente seja invadido por produtos agrícolas brasileiros, mais baratos porque produzidos em grande escala. Outra queixa dos que se opõem a importações do Brasil – queixa esta exprimida por quase todos os países – vem do medo de serem introduzidos no mercado europeu alimentos infectados por pesticidas.

A mídia brasileira informa que, só neste primeiro semestre de 2019, o Ministério da Agricultura já liberou 239 novos pesticidas para uso no Brasil. Duzentos e trinta e nove somente este ano! A imensa lista de produtos inclui artigos já banidos pela União Europeia.

Para um governo que diz estar trabalhando para alargar os horizontes do comércio exterior brasileiro, essa permissividade é verdadeiro gol contra. Desfazem com uma mão o que fizeram com a outra. Esse governo mostra não estar preocupado com as exportações agrícolas. Nem com a saúde dos brasileiros.

Tempo quente

José Horta Manzano

Fica até cansativo, mas convém repetir: o clima está mudando. Donald Trump e doutor Bolsonaro podem não apreciar, mas não há como negar a realidade. Fenômenos climáticos extremos, que costumavam ocorrer uma ou duas vezes por século, estão se tornando corriqueiros. Neste ritmo, daqui a duas décadas a vida no planeta vai se tornar insuportável.

Este ano, nova onda de calor excepcional está varrendo a Europa. Além de forte, ela chega em junho, o que é considerado muito cedo. Vinda direto do Saara, está lambendo uma dezena de países: Espanha, França, Itália, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia e Polônia. Até na amena Escandinávia, onde o tempo é geralmente fresco, o povo está se estorricando.

by Vincent L’Epée, desenhista suíço

Já faz uns dois dias que o tempo está esquentando. Mas a intensidade aumenta. A partir de hoje, já são esperadas temperaturas acima dos 40 graus em diversos pontos da Espanha e da França. Nenhum dos países vizinhos vai escapar de ver o termômetro subir acima dos 35 graus. E frise-se que ar condicionado é raridade por aqui. Os próximos dois dias prometem ser infernais.

Os meteorologistas acreditam que, a partir de domingo, a temperatura deve arrefecer. Mas é previsão sem garantia porque, além de um horizonte de cinco dias, os dados não são confiáveis. Pra quem quiser escapar a esta fornalha, recomendo a Islândia. O tempo por ali é fresquinho. Por enquanto.

A origem da receita

José Horta Manzano

Você sabia?

Quem vai ao médico, nos dias de hoje, não se dá conta de que a regulamentação da profissão ― em terras europeias e americanas ― é relativamente recente.

Da Idade Média até o século XIX, a arte de curar foi exercida por corporações disparates, tais como: homens de igreja, barbeiros, boticários, tira-dentes, curandeiros, charlatães, feiticeiras.

Prescription 2

A Revolução Francesa, entre outros feitos, tornou a sociedade consciente de que certas práticas ancestrais reclamavam por normatização. O sistema métrico, por exemplo, é fruto daquela época. Até então, havia um rosário de unidades de medida ― de peso, de capacidade, de tamanho. Pés, polegadas, quintais, braças, arrobas variavam de uma região a outra.

A Revolução, assim como normalizou as unidades de medida, apontou para a necessidade de sistematizar outros atos e procedimentos que cada um costumava, até então, executar a seu modo. A regulamentação de certos ofícios começou naquela época.

A valorização das profissões da área de saúde ― medicina, cirurgia, farmácia ― gerou, como corolário inevitável, o rebaixamento de curandeiros e feiticeiras. Barbeiros passaram a dedicar-se unicamente à pilosidade de seus clientes, deixando sangrias e extrações dentárias para profissionais habilitados.

Olho de Horus

Olho de Horus

Embora já fosse adotada esporadicamente desde o século XVII, ganhou força aquela marca de que uma receita tinha sido prescrita por um profissional. Tratava-se de um R barrado ― este aqui: .

Está em uso até nossos dias. É muito provável, distinto leitor, que o médico que cuida de sua saúde tenha guardado o que lhe ensinaram na escola e continue a marcar suas receitas com o símbolo distintivo da corporação. Preste atenção da próxima vez.

De onde vem essa, digamos assim, logomarca? Pois parece que a origem é incrivelmente longínqua. Dizem que as raízes descem até o Egito antigo. O R barrado seria a transcrição, se assim podemos nos exprimir, do hieroglifo que simbolizava o olho esquerdo de Horus, um dos deuses da mitologia egípcia.

Olho de Horus

Olho de Horus

Por que o olho esquerdo? Ih, é uma história complicada, com briga entre deuses, assassinato, esquartejamento, muito sangue. Pra resumir, saiba-se que, numa luta entre Seth e Horus, o olho esquerdo deste último foi arrancado e picado em 64 pedaços. Toth, o deus da ciência e da medicina, foi quem conseguiu dar jeito de recompor o despedaçado olho de Horus.

Seja como for, é surpreendente que milhares de médicos ao redor do planeta encabecem suas prescrições, talvez sem o saber, com símbolo forjado milênios atrás.

Publicado originalmente em 22 agosto 2014.

Garde à vue

José Horta Manzano

Michel Platini, glória do futebol francês nos anos 80, subiu na vida depois que abandonou o gramado. Chegou à presidência da Uefa, a União das Associações Europeias de Futebol, equivalente a nossa Conmebol.

Acusado de envolvimento em obscuras negociatas, voltou à luz dos holofotes. Só que, desta vez, não são os holofotes do estádio, mas os da mídia internacional, que se delicia quando um figurão tem contas a acertar com a justiça.

Chamada do Estadão, 18 jun 2019

O Estadão errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada da Folha de SP, 18 jun 2019

A Folha de São Paulo errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada d’O Globo, 18 jun 2019

O Globo acertou! Platini foi detido.

Na França – e também no Brasil – ser preso e ser detido são coisas diferentes. Platini foi hoje «placé en garde à vue».

Segundo os procedimentos policiais e judiciais da França, no decurso de uma investigação policial, o suspeito pode ser detido e instalado numa cela especial, dentro da delegacia de polícia. A todo momento, pode ser chamado para interrogatório. Dorme ali. Come ali. Esse regime, chamado de «garde à vue – retenção à vista», dura geralmente 48 horas. Ao final, o suspeito será apresentado a um juiz, que decidirá se o deixa livre ou se o despacha direto para a prisão.

Atualmente, Michel Platini está nessa situação. Nos filmes policiais, a cela costuma ser um engradado, num canto da delegacia, sem privacidade, à vista de quem por ali passar. Na vida real, pode ser situada em local mais discreto.

Amanhã ou depois, conheceremos a decisão do juiz. Saberemos se será aberto processo judicial e, se for o caso, se Platini poderá responder em liberdade. Ou não.

The bac is back!

José Horta Manzano

Como todos os anos, a estudantada francesa está em efervescência. É época do «bac», que equivale a nosso Enem. «Bac» é redução de baccalauréat, o nome completo. Encolhido a uma sílaba só, o exame parece menos assustador, torna-se quase amigo íntimo. Isso deve servir pra esconjurar o pânico.

Nesta época, a mídia dá conselhos aos candidatos. Evitar comida pesada, não tomar calmante, não varar a noite estudando de última hora, tomar café da manhã antes de sair de casa (ou, se o nervoso tiver causado enjoo, tomar pelo menos um chá com açúcar e levar um lanchinho pra mais tarde). Chegar ao local da prova com boa antecedência. São recomendações de bom senso.

A estranha palavra baccalauréat formou-se no latim medieval. Naquela época, era o nome da primeira distinção concedida pelas universidades de Teologia, de Medicina e de Direito. Na composição do termo, é evidente a influência de laureare (=oferecer ao homenageado uma coroa de folhas de louro). Acredita-se que a primeira parte da palavra venha de bacca (=designação comum a certas frutinhas silvestres). Portanto, baccalaureatus é aquele que recebeu a coroa de louros. Note-se que a forma latina bacca deu, em português, bago e baga.

No país de Voltaire, Sartre, Montesquieu e Raymond Aron, a Filosofia ocupa lugar de destaque. As provas do ‘bac’ sempre começam por essa disciplina. Todos os candidatos têm de passar por ela, embora o peso atribuído varie conforme a carreira. Tem peso maior para os que escolheram Letras. Mas até os que se propõem a fazer estudos científicos têm de enfrentar a ‘filô’.

E a prova de ‘filô’ foi hoje. Não sei como anda o nível do Enem, mas é de constatar que o “bac” francês mantém padrão elevado. Aqui estão os temas de Filosofia correspondentes a cada carreira. O candidato pode escolher entre duas proposições e tem quatro horas pra bolar uma dissertação.

Carreira científica
Tema 1
A pluralidade de culturas é nociva à unidade da humanidade?

Tema 2
Reconhecer seus deveres significa renunciar à própria liberdade?

Carreira econômico-social
Tema 1
A moral é a melhor das políticas?

Tema 2
O trabalho divide os homens?

Carreira literária
Tema 1
É possível fugir ao tempo?

Tema 2
Vale a pena explicar uma obra de arte?

Pronto. Celular desligado, o distinto leitor dispõe de quatro horas pra produzir sua obra-prima. Em francês, s’il vous plaît.

ET
A palavra “baccalauréat” pertence à família que deu o inglês bachelor e nosso familiar bacharel – todos eles bambambãs em Filosofia, naturalmente.

Libra

José Horta Manzano

Não é clara a origem da palavra libra. Parte dos etimologistas acredita que descenda de um hipotético proto-itálico *leithra, já então nome de uma unidade de peso. O que se sabe é que o nome passou para as línguas neolatinas.

Em italiano moderno, aparecem as formas libra/libbra (= unidade de peso) e lira, que é o nome da defunta moeda nacional.

Em francês, a forma evoluiu para livre, com dois significados: por um lado, é nome da unidade de peso utilizada nos países anglo-saxônicos; por outro, é a moeda em vigor em diversos países (Reino Unido, Turquia, Líbano, Egito).

Em espanhol, a forma libra é usada com vários significados. Pode ser a unidade monetária em vigor em diversos países; pode também ser o nome de moeda usada antigamente em algumas regiões do país; pode ainda dar nome a uma medida de capacidade equivalente a aproximadamente meio litro. Pode ainda se referir à constelação da Balança.

Em português, a forma é idêntica ao castelhano: libra. Encerra diversos significados: unidade de peso, nome da moeda em vigor no Reino Unido e em mais meia dúzia de países, constelação zodiacal, signo do zodíaco.

Saiu hoje a notícia de que, no rastro de outras criptomoedas que circulam por aí, Facebook está preparando o lançamento de moeda virtual própria. A novidade deve começar a circular daqui a alguns meses, mas o bebê já tem nome: vai-se chamar libra.

Libra: a criptomoeda de Facebook

Fico meio pensativo. A central de inteligência dessa empresa deve concentrar elevado número de gênios. É gente (muito bem) paga, que está lá justamente pra espremer as meninges e gerar ideias fabulosas, daquelas que fazem a empresa dar saltos à frente da concorrência. Cáspite! Como é que podem dar à nova moeda o nome de libra?

O nome já existe e é amplamente utilizado. Se a palavra soa exótica aos ouvidos formatados dos gênios californianos, deveriam, pelo menos, ter consultado gente de ouvidos mais arejados. Não precisa ir muito longe: nos USA, calcula-se que 40 milhões de pessoas sejam de língua castelhana. Além deles, os latino-americanos são centenas de milhões a falar espanhol ou português. Todos (ou quase) são usuários de Facebook. E todos dão o nome de libra à moeda inglesa.

Não acredito que o fato de haver duas moedas importantes com o mesmo nome venha a criar confusão. Também não acredito que alguém deixe de investir na nova ‘moeda-fumaça’ por causa do nome. Mas, francamente, com tanto nome por aí, deram prova de tremenda falta de imaginação.

Prisão aos 13 anos

José Horta Manzano

Desde sempre, a legislação francesa tem sido vaga e pantanosa no trato de delinquentes juvenis. Um decreto de 1945, ainda em vigor apesar de inúmeras alterações, proíbe que um jovem infrator seja submetido à justiça dos adultos. Menores de idade serão sempre julgados por tribunal especial e, em caso de condenação, não serão encarcerados em companhia de condenados adultos. Serão objeto de medidas de proteção, de educação ou de reforma.

O decreto de 1945 é vago e impreciso, permitindo que o jovem delinquente seja efetivamente preso em estabelecimento dedicado à juventude. Para coibir abusos, a ministra da Justiça acaba de anunciar novo projeto de lei a ser apresentado pelo governo daqui a dois meses.

A ideia principal é fixar uma idade mínima, abaixo da qual o jovem será considerado inimputável. A idade proposta é de 13 anos. Portanto, caso seja aprovada a nova lei, crianças com menos de 13 anos só poderão ser julgadas (e eventualmente condenadas) com autorização especial emitida pelo Juiz de Menores.

Para delinquentes a partir de 13 anos de idade, nada muda: continuarão a ser enquadrados pela justiça de menores. Não sei se os ativistas do ‘politicamente correto’ já baniram a expressão que estou para usar. Seja como for, uso assim mesmo: eles, que são brancos, que se entendam.

Essa historinha francesa merece ser comparada com a situação brasileira. Enquanto nós discutimos o adiantamento da maioridade penal de 18 para 16 anos, eles propõem que se deixe de julgar menores de 13 anos.

No fundo, adiantar ou atrasar a maioridade penal não resolve o problema da criminalidade. No Brasil, o santo remédio está assentado em dois pilares: a instrução dos cidadãos e a diminuição da desigualdade social. Fora disso, toda reforma será apenas cosmética.