Loser

José Horta Manzano

Ingleses e americanos são bons pra criar expressões de gíria. Não sei se é a língua inglesa que se presta bem a esse contínuo exercício de criação ou se é o espírito do povo que combina com ele. Talvez os dois.

A palavra loser (=perdedor) é substantivo derivado do verbo to lose (=perder). No meio estudantil americano de meados do século 20, o termo loser adquiriu uma acepção insultuosa. Passou a designar não aquele que eventualmente deixa de vencer numa ocasião precisa – como uma partida de xadrez – mas o perdedor infeliz, habitual e contumaz, o indivíduo que não vence nunca e que passa a vida perdendo todas. No falar popular americano, a melhor tradução é fracassado, ofensa doída num país em que a meritocracia é erigida em ideal nacional.

Faz anos que Donald Trump se apresenta como o homem que vence todas, o líder carismático que tem sempre razão e que traz no bolso do colete a solução simples para males complexos; um verdadeiro deus ex machina que há de redimir o país desnorteado e à deriva. Foi assim que vendeu seu peixe e foi com esse discurso que venceu a eleição de 2016.

Quatro anos se passaram. Trump governou de olho nas pesquisas, sempre jogando para a plateia interna, um tanto descolado do fato de presidir a maior potência planetária. Não há de ter desagradado tanto assim, visto que, na corrida para o segundo mandato, recebeu mais de 70 milhões de votos. Mas o que conta é o resultado, que lhe foi desfavorável: perdeu a eleição.

O balanço de sua gestão é pra lá de negativo: perdeu a Câmara (House of Representatives) para os democratas; perdeu o Senado também para os democratas; e, pra coroar, perdeu as eleições. O homem perdeu todas! Tornou-se um loser! Um fracassado!

Essa pancada no orgulho está na origem de suas atitudes alucinadas estes últimos tempos. Durante a vida, Donald Trump já deve ter usado inúmeras vezes a palavra loser como insulto. Sentir agora a ofensa na própria carne deve ser insuportável. Loser! Loser! Loser!

Rindo da desgraça

José Horta Manzano

A pandemia tem causado stress no mundo todo. Mas a pressão não é uniforme e pode variar conforme as circunstâncias específicas de cada país. Na maior parte da Europa, o que mais tem chateado são os intermináveis períodos de confinamento. As autoridades não têm sido nada camaradas nesse aspecto. Quando decretam um confinamento, não brincam em serviço. A ordem é para a população permanecer em casa mesmo.

Pra sair, precisa levar no bolso uma atestação indicando o motivo da escapada. São poucas as razões aceitas. Entre elas: ir ao (ou voltar do) trabalho, ir ao (ou voltar do) médico, dar assistência a alguém entrevado ou doente, espichar as pernas num raio de 1km em volta da residência durante meia hora. O atestado só vale para uma saída e tem de estar preenchido e assinado antes de eventual controle. Caso o cidadão seja abordado e o atestado falte, a multa chega a R$700; reincidentes pagam o dobro. Não é mole.

Muitos fatos novos apareceram este ano, para os quais não havia palavras. O povo tratou logo de inventá-las. Algumas são mostrengos, mas há pequenas pérolas de inventividade. Em balanço de fim de ano, a mídia de língua francesa (França, Suíça, Bélgica e Canadá) destacou algumas expressões. Algumas são novas, enquanto outras, antigas, passaram a ser intensamente utilizadas.

covid          covid
coronavirus    coronavírus
quarantaine    quarentena
antimasque     antimáscara(os que se opõem à máscara)
antivax        antivacina
isolement      isolamento
faux positif   falso positivo
faux négatif   falso negativo
présentiel     presencial
coronapéro     aperô virtual(happy hour sem contacto)
bulle sociale  bolha social
distanciel     distancial
confinement    confinamento
déconfinement  desconfinamento

A casa editora do Robert, dicionário tão popular quanto nosso Aurélio, também entrou na dança. Incentivou o público a inventar palavras para descrever realidades trazidas pela epidemia. Normalmente, é malvisto criar palavras por conta própria. Neste caso, no entanto, visto que é o respeitado Robert que autoriza, ninguém será criticado.

Já há centenas de sugestões de leitores. A maioria são intraduzíveis, por serem composições de palavras. Umas poucas aguentam a transposição para nossa língua. Por exemplo, mascourir (=mascorrer), que é quando a gente volta pra casa correndo porque se esqueceu de pôr a máscara obrigatória. Ou ainda as reuniões de hydroalcooliques anonymes (=alcoolgélicos anônimos); o trocadilho é atroz, mas o resultado é simpático.

Tem mais uma que me diverte. Os franceses criaram a expressão gestes barrière (=gestos barreira) para dar nome ao conjunto de providências que cada um tem de tomar para conter o alastramento da doença: usar máscara, lavar as mãos, manter distância. Alguém com espírito mais criativo sequestrou a expressão e a transformou em gestes carrière (=gestos carreira). É quando, numa reunião Zoom, o indivíduo veste uma bonita camisa para dar aos superiores a impressão de que é pessoa séria, enquanto, na parte de baixo, está de calção e chinelo de dedo.

Bem, caros amigos, o que eu contei até aqui foi o que espirrou da válvula de escape de populações conscientes de que suas autoridades estão cuidando da saúde e do bem-estar dos habitantes. Já no Brasil, as coisas não são exatamente assim. Enquanto a vacinação já começou em uma quarentena de países, não sabemos ainda nem que vacina nos será proposta. Como consequência, não temos a menor ideia de quando será iniciada a imunização dos brasileiros. Janeiro? Fevereiro? Março? Abril? Como já disse o outro, «Pra que tanta ansiedade?».

Proponho seguir o exemplo interessate dos francofalantes. Mas não precisa inventar palavras para a epidemia e seu entorno, que essas já têm nome. No Brasil, é simples. Em vez de espremer as meninges, costumamos importar o que nos vem do inglês. E engolimos tudo cru, com casca e tudo. Lockdown, homeschooling, self isolation, home office, social distancing – e o problema está liquidado.

Não. Proponho criar palavras e expressões para contar os comportamentos que povoam estes tempos estranhos. Nossa coleção de adjetivos não dá conta, por exemplo, de descrever as barbaridades cometidas por nosso presidente. Repórteres, jornalistas e analistas esgotaram o reservatório contido nos dicionários; já não há expressões suficientemente eloquentes.

Quando é que se viu, no passado, o chefe do Estado Brasileiro ser chamado (com propriedade) de idiota, apalermado, imbecil, parvo, tapado, irresponsável? Pois esses qualificativos, antes impensáveis, estão gastos de tanto ser usados atualmente. Já não bastam. Que a criatividade da nação desperte e se manifeste! Cartas para a Redação, por favor.

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

Kit covid

José Horta Manzano

Meses atrás, sob instigação de nosso doutor presidente, o Ministério da Saúde havia encomendado caminhões de hidroxicloroquina e de azitromicina para entregar aos estados a título de «tratamento precoce» da covid-19.

Os governadores, mais chegados às orientações da ciência do que o presidente, recusaram-se a fornecer as drogas à população. A montanha de comprimidos encalhou nos armazéns federais. Para esvaziar os galpões, o governo federal planeja despachar os remédios para as farmácias populares, com a ordem de distribui-los gratuitamente a quem pedir.

Na França, logo que a epidemia estourou, um médico do Hospital Universitário de Marselha lançou a ideia de usar hidroxicloroquina combinada com azitromicina em pacientes com covid. Fez, por sua conta, um estudo com apenas uma vintena de (jovens) pacientes seus. Concluiu que o remédio era eficaz, visto que nenhum dos doentes desenvolveu um quadro grave. Vaidoso, convocou a imprensa e foi à televisão divulgar sua descoberta. Teve seu momento de glória e ficou conhecido no país.

As autoridades sanitárias se debruçaram sobre o caso. Depois de analisar os considerandos e os finalmentes, concluíram que a administração dessa combinação de remédios, além de não ter eficiência comprovada por teste de larga escala, é problemática. De fato, exige acompanhamento médico rigoroso e contínuo, pelo risco de importantes efeitos secundários. Desde então, ficou proibido administrar essa combinação de drogas como «preventivo» de covid ou mesmo como «tratamento precoce». Unicamente pacientes hospitalizados podem receber o tratamento.

by Nando Motta, músico e ilustrador

A azitromicina é um antibiótico. Sabe-se que a ingestão indiscriminada de antibióticos favorece o aparecimento de resistência no organismo. No futuro, quando o paciente realmente precisar, esse medicamento poderá não fazer efeito.

Quanto à hidroxicloroquina, contraindicações e efeitos secundários são da pesada. Insuficiência cardíaca, arritmia ventricular, lesões da retina, hipoglicemia, convulsões, vertigens estão entre eles. Não são drogas a serem distribuídas a quem pedir, como se fossem balas de açúcar.

Ao administrar essas drogas ao paciente internado, a intenção é evitar que a doença evolua para um quadro grave. É importante repetir que a combinação de cloroquina e azitromicina não cura a covid-19. Até o momento, não foi descoberto nenhum remédio para curar essa doença.

Na minha opinião, a atitude de nosso governo federal é temerária. Em outras terras, antibióticos só são vendidos com apresentação de receita médica. A ideia do governo brasileiro de distribuir indiscriminadamente drogas que deveriam ser controladas é porta aberta para o surgimento de um problema nacional de saúde: uma legião de cidadãos resistentes a uma classe de antibióticos. Sabe-se que essa situação favorece o aparecimento de superbactérias que não cedem a nenhum tratamento. Uma calamidade.

Um último detalhe
Relatório da Anvisa informa que 72% dos ingredientes básicos que compõem os medicamentos vendidos no Brasil são produzidos na China (37%) e na Índia (35%). De genuinamente nacional mesmo, só a embalagem e a bula, se tanto. Alguém precisa contar a nosso doutor presidente que, com o «kit covid», a China ganha mais que ele.

Mais um sapo

José Horta Manzano

A pandemia pegou o planeta de surpresa – tanto dirigentes, como dirigidos. Até outro dia, epidemia dessas proporções só se via no cinema. Vira e mexe, aparecia um filme de catástrofe, daqueles em que o mundo era contaminado por alguma poeira chegada do espaço.

Falando nisso, nunca entendi por que razão visitantes alienígenas nos visitariam com intenção de extinguir a humanidade. Imagine só: como é que uma civilização adiantada, capaz de construir nave espacial sofisticada e cruzar zilhões de quilômetros, enviaria discos voadores à Terra com o objetivo de brincar de videogame, eliminando seus habitantes. Pode? Que coisa mais sem pé nem cabeça.

Acontece que a covid não é fruto da imaginação de nenhum cenarista criativo. A doença está aí, e seu alastramento está agindo como revelador do patamar civilizatório de cada povo e da engenhosidade de seus dirigentes.

O Reino Unido dobrou pela direita, começou a vacinar e deixou todos comendo poeira. O número de doses atualmente disponíveis no país é pequeno e não dá, nem de longe, para a população inteira. Mas o simples fato de terem começado a injetar a gotinha que salva abriu a válvula de segurança e deixou escapar toda a pressão acumulada. Agora, os britânicos sabem que há uma luz no fim do túnel; se não for hoje, será amanhã, mas todos terão direito à imunização. No final, é capaz de demorarem meses para proteger toda a população. Mas o que vai ficar na memória de todos é a rapidez com que agiram. E a agilidade.

Não devemos nos esquecer que a Inglaterra começou mal. Quando a pandemia se instalou, o país subiu logo ao primeiro lugar entre os mais afectados da Europa, posição pouco invejável. O primeiro-ministro, imprudente, ainda fez pouco caso da ameaça ao declarar que continuaria a «apertar mãos». Não deu outra: apanhou a covid, foi internado e terminou numa UTI. Escapou por sorte e aprendeu a lição. Seu país virou modelo de eficácia no combate à doença.

Do nosso lado do Atlântico, a coisa foi mais problemática. As três maiores economias das Américas (EUA, Brasil e México) tiveram o azar de contar com um negacionista na presidência. Trump, Bolsonaro e López Obrador desdenharam, andaram de costas, relutaram e resmungaram. Além de não ajudar no combate à epidemia, acabaram atrapalhando. O resultado é que os três países continuam a figurar no topo das estatísticas de contágio e morte.

Felizmente nossos países têm estrutura administrativa diferente da maioria dos Estados europeus. Nosso federalismo, que algumas vezes atrapalha, neste caso foi a salvação. Se dependêssemos apenas dos desvarios de nosso doutor presidente, ainda estaríamos navegando às cegas, sem estatística, sem informação sobre a real extensão da epidemia, todos correndo atrás de comprimidos de cloroquina.

Agora, que o governador de São Paulo anunciou que a vacina está quase pronta, é missão impossível doutor Bolsonaro tentar usar uma aparelhada Anvisa para retardar a homologação da vacina do Instituto Butantã. É mais um sapo que o presidente terá de engolir.

O pós-pandemia

José Horta Manzano

Em março último, assim que o surto de coronavírus apertou e virou pandemia, o presidente da França fez importante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e tevê. Na fala, destacou os perigos da doença nova e, solene, declarou que o país estava em estado de guerra. Guerra contra o vírus, naturalmente.

Acrescentou que muitos sacrifícios estavam por vir e que o combate não podia ser encarado com pouco caso. Talvez, naquele momento, nem ele nem ninguém tivesse consciência da extensão da diabrura que o coronavírus estava aprontando.

Passados nove meses, a tempestade continua rugindo. E ainda estamos no olho do furacão, posição de onde ainda não dá pra ver o fim da agitação. Não sabemos quanto tempo ainda vai durar nem qual será o desfecho. Muitas interrogações ainda flutuam, irrespondidas.

Será que as vacinas vão imunizar mesmo? Quem já teve a doença pode ter de novo? E se o vírus sofrer mutação, a vacina continua valendo? Por que razão pessoas relativamente jovens são vítimas de forma grave da doença, enquanto outras, mais velhas, dão três espirros e logo estão curadas? Só não continuo a lista de perguntas por falta de espaço.

Entre altos dirigentes mundiais, poucos devem estar vislumbrando com exatidão as consequências da pandemia. Ela botou por terra muitas das certezas que a humanidade tinha acreditado serem direito adquirido. Quem, em sã consciência, dois anos atrás, teria imaginado um mundo em que os cidadãos andam mascarados, não apertam mãos, não se abraçam? Um mundo em que adultos não vão a restaurante, e crianças não vão à escola? Um mundo em que cúpulas de chefes de Estado se fazem por vídeo?

Algumas consequências, mais evidentes que as outras, me ocorrem.

  • A juventude ficará marcada por um ano em que o aprendizado foi perturbado, interrompido, chacoalhado.
  • Companhias aéreas estão todas com a língua de fora. As que puderem contar com repescagem governamental se salvarão; para as outras, o futuro é escuro. O ramo de transporte e turismo vai guardar sequelas por anos.
  • A indústria, que tende a acelerar a cadência a fim de recuperar as perdas causadas pela pandemia, deve provocar forte aumento da poluição atmosférica e, como consequência, precipitação do desastre climático.

Muitas mudanças mais hão de ocorrer. Conceitos terão de ser revisitados e leis terão de ser reescritas.

O pós-pandemia será período propício para a introspecção e para a reflexão. Ainda não é possível avaliar o mundo que emergirá deste período turbulento. Se ele for menos injusto que o atual, já estaremos no lucro.

Valéry Giscard d’Estaing

José Horta Manzano

Valéry Giscard d’Estaing, que presidiu a França de 1974 a 1981, era uma dessas figuras sorridentes que a gente achava que não fossem morrer nunca. Mas ninguém é eterno. Ele faleceu ontem, aos 94 anos de idade, de complicações da covid.

Valéry Giscard d’Estaing

VGE, como era popularmente chamado, ficou conhecido pelas reformas instauradas durante seu governo, que ajudaram a desempoeirar uma França que cheirava a mofo. A sociedade avançou em diversos pontos.

  • A maioridade civil, congelada na idade de 21 anos desde 1792, foi reduzida a 18 anos de idade.
  • A mulher casada ganhou direitos, entre os quais o de abrir uma conta bancária em seu nome, sem ter de pedir autorização ao marido. Embora hoje pareça algo evidente, foi um grande avanço numa época em que a mulher casada era vista como uma espécie de ‘propriedade’ do esposo.
  • O aborto voluntário foi legalizado e regulamentado.
  • VGE foi o primeiro governante a criar uma Secretaria de Estado dedicada à mulher.
  • O divórcio amigável passou a ser admitido nos tribunais. Até então, para divorciar, o cônjuge requerente tinha de provar a culpabilidade do outro.

Visto que foi presidente jovem, sobreviveu muito tempo depois de deixar o poder. Foram praticamente 40 anos de aposentadoria da vida política.

Seu falecimento me fez lembrar Rodrigues Alves, presidente do Brasil de 1902 a 1906, vítima da Gripe Espanhola em 1919. São ex-presidentes que sucumbiram à pandemia de seu tempo.

Pérfida Albion

José Horta Manzano

O governo britânico acaba de anunciar que a vacinação contra a covid-19 começa semana que vem em todo o reino. O primeiro lote de 10 milhões de doses já está pronto. Ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses já estão de braço estendido à espera da picada.

Governo e população dos demais países europeus estão espantados e incomodados. Uns, por acharem que é temerário utilizar vacina nova demais, recém-saída do forno. Outros, por se sentirem despeitados de ver a ‘pérfida Albion’ queimando a largada e deixando os vizinhos (e o resto do mundo) a comer poeira.

Meus distintos leitores hão de estar intrigados com o título deste artigo. Que história é essa de ‘Pérfida Albion’? É expressão pejorativa usada na França para designar a Inglaterra.

Albion, tradicional alternativa para nomear a ilha, faz referência à cor das falésias que se erguem abruptas no litoral de Dover, porta de entrada da ilha para quem chega da Europa continental. O adjetivo latino albus/alba significa branco/a. A propósito, entre nós, essa raiz deu alvo, alvura, alvorada, alviverde, albino, albumina.

White cliffs of Dover: as brancas falésias de Dover

Quanto à perfídia, não é característica geográfica; neste caso, a palavra é pronunciada com entonação de ofensa. Como toda expressão antiga, sua origem se perde na memória. Há conjecturas. Já encontrei longas listas com momentos históricos em que a Inglaterra teria traído a França. Nesse histórico de deslealdade e traição, finco um pé atrás.

Quando há grande permeabilidade entre países vizinhos, é natural que, em momentos da história, haja surgido uma rusguinha aqui, outra ali. Os argentinos, por exemplo, não hão de ter apreciado nem um pouco quando doutor Bolsonaro declarou, mês passado, que a Argentina ‘vai pessimamente mal por causa do comunismo’. Esse foi um ato de deslealdade para com nossos hermanos, uma ofensa gratuita ao povo que, em voto majoritário, elegeu o presidente Fernández.

Desde tempos antigos, a proximidade entre França e Inglaterra tem favorecido as trocas. Trocas de mercadoria, de ideias e… de flechadas. Para o bem ou para o mal, os atritos continuam e hão de continuar por muitos e muitos anos. Excetuando-se uma catástrofe tectônica, os dois países vão continuar sendo vizinhos de parede.

Quanto à vacina, estão todos acompanhando com atenção a evolução da situação em terras britânicas. Se der certo, eles estarão mostrando o caminho a seguir; se der errado, estarão mostrando o caminho a não seguir. Olho neles!

Ilha da Trindade

José Horta Manzano

Vendée Globe é uma competição esportiva. Considerada a mais importante corrida em barco a vela do mundo, é organizada a cada quatro anos. O regulamento é rigoroso. Cada barco tem de ter um único tripulante – sem direito a assistência. Pode comunicar-se e receber instruções por rádio ou telefone, mas não pode pedir ajuda física a ninguém nem que haja problema no barco. Se precisar, pode até parar num porto, mas terá de fazer sozinho qualquer conserto. Se alguém ‘der uma mão’, o corredor será desclassificado.

A largada se dá na cidade francesa de Sables d’Olonne. Em seguida, os concorrentes devem dar a volta ao mundo, fazendo o percurso na direção oeste-leste (Atlântico Norte, Atlântico Sul, Índico, Pacífico, Estreito de Magalhães, Atlântico de novo). O ponto de chegada é o mesmo porto de onde partiram. O recordista de velocidade conseguiu fazer o percurso em pouco mais de 74 dias.

Não há de ser fácil fazer esse trajeto. Frio, calor, vento, tempestade, ondas de alto-mar – cada um tem de enfrentar isso sozinho, sem ajuda e com muito pouco tempo pra dormir. Se houver problema maior, o socorro pode levar dias pra chegar, o que pode ser um problema em caso de acidente grave.

O sinal de partida da atual edição foi dado quinze dias atrás. Os competidores ainda estão em mar calmo, ‘descendo’ o Oceano Atlântico ao longo das costas do Brasil. As coisas vão se complicar daqui a alguns dias, à medida que se aproximarem do Polo Sul. Aí, vento, frio e ondas gigantescas vão começar a castigar feio.

A bela foto que ilustra este post foi tirada estes dias por Yannick Bestaven, um dos concorrentes. Ao fundo, aparece a silhueta das ilhas da Trindade (à direita) e de Martim Vaz (à esquerda), sentinelas avançadas da terra brasileira, plantadas em pleno Atlântico a mais de 1000km da costa capixaba.

Lei do Ecocídio

José Horta Manzano

O governo francês acaba de anunciar o envio ao parlamento de uma lei que criminaliza todo e qualquer ato capaz de causar dano importante ao meio ambiente. Visto que o governo conta com folgada maioria, o novo dispositivo deverá ser aprovado. Será provavelmente conhecido como Lei do Ecocídio.

O texto ainda deve sofrer alterações, mas o cerne permanecerá. Na mira do legislador, estão não somente os danos intencionais, mas também os que forem causados por negligência. Deverão ser punidos comportamentos como despejar num rio material poluente, atear fogo à vegetação, expelir fumaça tóxica.

As multas previstas são dissuasivas: vão de 375.000 a 4,5 milhões de euros. Segundo a ministra da Ecologia, o poluidor periga levar multa de até dez vezes o valor que ele economizou despejando seu esgoto industrial no rio.

Um segundo projeto de lei está em preparação para punir as agressões ainda mais graves. Os crimes que se enquadrarem neste outro dispositivo vão render ao autor pena de até um ano de prisão em regime fechado.

Não se deve esquecer que os 594 membros de nosso Congresso constituem um Poder independente do Executivo e do Judiciário. Tirando os que, por convicção ou por interesse, se ajoelham diante de doutor Bolsonaro, os demais deveriam mirar-se no exemplo francês.

Com o presidente empacado que temos e com o execrável ministro do Meio Ambiente que o assessora, não há esperança. Está claro que o Executivo não vai se mover na boa direção.

O Congresso está aí justamente para servir de contrapeso a uma presidência que bate cabeça enquanto nossos rios se enchem de mercúrio e de esgoto, e nossa vegetação vira fumaça.

No dia em que nossos desmatadores e poluidores começarem a ser encarcerados, os atentados contra a natureza cessarão rapidinho.

O seleto clube dos negacionistas

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, nosso Itamaraty – momentaneamente entregue aos delírios persecutórios de um embaixador júnior – ainda não reconheceu a vitória de Joseph Biden nas eleições presidenciais americanas. O clube dos renitentes está cada dia mais seleto.

Agora que a China, meio acanhada, deu os parabéns ao vencedor, ficamos na companhia de: Eslovênia, Rússia, Hungria, México e Coreia do Norte. Não tenho notícias da Mongólia nem da Quirguízia mas, salvo erro ou omissão, todos os demais já levaram a maçã para a professora.

Cada retardatário arrasta o chinelo por um motivo diferente. Vamos ver um por um.

Eslovênia
Eles estão fazendo papelão por motivo fútil, que combina mais com concurso de Miss Universo do que com relações internacionais. Neste pequeno país de 2 milhões de habitantes e área equivalente à de Sergipe, não acontece grande coisa. Um dia, uma modelo internacional natural do país casou-se com um multimilionário americano. O sonho da moça de origem simples ecoou no país inteiro. Pouco tempo depois, o maridão se tornou presidente. Desde esse dia, o pequeno país anda em cima de uma nuvem. É compreensível hesitarem em reconhecer que o sonho acabou.

Rússia e Hungria
Razões diferentes levam os dois países a almejarem o enfraquecimento da União Europeia. Para a Rússia, uma Europa fraca é desejável, pois alavanca o projeto de poder de Moscou. Para a Hungria, cujo governo atual tende para a direita extrema, o raciocínio é ideológico: uma Europa fraca – se possível esquartejada – liberaria seus Estados membros; nesse caso, alguns poderiam até juntar-se à Hungria e reforçar o clube de dirigentes extremistas autoritários. Aos olhos de russos e húngaros, a permanência de Trump no trono de Washington é a melhor receita para despedaçar a Europa.

México
Este caso também é transparente. Depois das promessas de Trump de construir um muro na fronteira entre os dois países, o relacionamento azedou. É compreensível. Por um lado, é humilhante ver um vizinho dizer por aí que vai levantar muro no quintal dele para se proteger de você. Por outro, caso a passagem entre os dois países ficasse realmente vedada, o México teria de hospedar todos os migrantes oriundos da miséria centro-americana.

Coreia do Norte
Bom, essa é fácil de entender. Faz alguns meses, um planeta estupefato viu imagens inimagináveis: um alaranjado Trump a cumprimentar o rechonchudo herdeiro da dinastia que há 75 anos domina a Coreia do Norte. Encantado com as perspectivas que começavam a se abrir para seu país, Kim Jong-Un reluta em aceitar a partida de Trump.

E o Brasil, nesse clube, que pito toca?

Diferentemente da Eslovênia, não temos primeira-dama brasileiro-americana. Aliás, o Brasil costuma mostrar indiferença quanto ao destino de conterrâneos que vivam além-fronteiras. Sei de muita gente que, vivendo no estrangeiro, tem ou teve relativo sucesso nas letras, nas artes ou nas ciências; gente que, no entanto, é desconhecida no Brasil.

Diferentemente da Rússia e da Hungria, não temos interesse em desmontar a União Europeia. Os projetos de poder do Brasil costumam estender-se ao relacionamento com a vizinhança. Aliás, no atual governo, até com os vizinhos andamos emburrados.

Diferentemente do México, não temos ressentimento contra o grande irmão do norte. O desvario de Trump não chegou ao ponto de imaginar construir muro em nossas fronteiras.

Pode parecer curioso, mas nossa motivação para a ausência de parabéns a Biden tem afinidade com a Coreia do Norte.

Para a galeria, a explicação é ideológica: Mr. Trump representa a defesa dos tradicionais valores ocidentais e cristãos. Mas isso é fachada. No duro, a explicação é mais terra a terra.

Não temos (ainda) nenhuma dinastia despótica no poder, mas o clã aboletado momentaneamente no Planalto é candidato forte. Iludidos com a pseudoideologia de Trump, esperavam que o apoio incondicional e servil dado ao americano pudesse servir de rampa de lançamento para se tornarem donos do Brasil pelas próximas décadas.

Apostaram todas as fichas. Perderam. E ficaram sem ficha.

O fim

José Horta Manzano

A agilidade da informação, porporcionada pela internet, é responsável por profundas mudanças no comportamento dos indivíduos e na organização da sociedade.

É verdade que a Revolução Francesa já tinha mostrado o caminho. Só que não é fácil promover mudança quando se vive sob regime repressivo. Durante os séculos 19 e 20, praticamente todos os povos do planeta viviam sob regime autoritário – uns mais, outros menos. Nas Américas, com exceção dos EUA, golpes de Estado e ditaduras estavam na ordem do dia. Na Europa, o tom foi dado por dirigentes de mão de ferro, como Napoleão, Salazar, Stalin, Hitler, Mussolini, Franco, pra citar os mais importantes.

Atualmente, a impressionante penetração da informação, se não eliminou, pelo menos reduziu o risco de ruptura das instituições e de surgimento de salvadores da pátria.

A queda de Donald Trump, derrubado graças à resistência da grande imprensa e à circulação da informação pelas redes sociais, serve de alerta para todos os candidatos a ditador, sejam eles quais forem. Se caiu Trump – figura marcante que exalava autoconfiança e infundia segurança –, qualquer um pode cair.

Restolho

A derrota do exótico dirigente americano deve-se, sim, ao vigor das instituições de seu país; mas teria sido praticamente inviável se ainda estivéssemos meio século atrás, num tempo em que a informação circulava a passo de tartaruga.

É um alívio constatar que o surgimento desse tipo de personagem mal-intencionado está ficando cada dia mais difícil. Quanto mais adiantado for o país, menor será o risco. Trump já se foi, assim como o italiano Salvini já tinha ido. A Rússia e a China não têm jeito. São países que nunca conheceram a democracia; vai demorar.

Aqui no Brasil, sobrou um restolho(*). O risco de uma guinada autocrática desse estropício fica cada dia mais distante. Aos poucos ele vai se esbagaçar. Com o passar dos meses, vai revelando ser apenas um péssimo governante que faz malabarismos para escapar da cadeia. Já vimos esse filme e sabemos como acaba. The End.

Nota 1
(*)Restolho, palavra pouco utilizada atualmente, aparece há mil anos em textos portugueses. É termo ligado à agricultura, atividade que, a nossa civilização urbana, parece distante. Restolho é a palha seca que sobra no campo depois de terminada a ceifa. Vem de um hipotético latim vulgar *restuculum, através do espanhol restojo.

Foi usada aqui em sentido metafórico com o sentido de o resto, o que não tem serventia, o que não serve mais pra nada. É sinônimo de rebotalho.

Casa com telhado de colmo (restolho)

Nota 2
Não é verdade que restolho não sirva mais pra nada. Durante milênios, serviu para cobrir a casa dos camponeses. Ainda hoje, há muito cottage e muito chalé charmoso coberto com essa palha. Na função de telhado, o restolho se diz colmo.

Carolina do Norte e Niterói

José Horta Manzano

Para quem está acostumado com o esquema 1 eleitor = 1 voto, o sistema eleitoral americano parece surpreendente. Como é que é? Não é o mais votado que vence? Pois é, não é necessariamente o mais votado que vence. Em cinco ocasiões, ao longo da história americana, aconteceu de o vencedor ser o candidato que tinha ficado em segundo no voto popular. Da última vez, foi justamente em 2016, quando competiam Donald Trump e Hillary Clinton. Para nós, é desnorteante. É o famoso “ganha, mas não leva”.

Tudo tem um porquê. Nos tempos de antigamente, quando o sistema foi instituído, o mundo era outro. Não havia internet, nem tevê, nem rádio, nem fax, nem telex, nem telefone. Não havia nem mesmo estrada de ferro. Ainda que o território fosse menos vasto que o de agora, os EUA já eram um país enorme. Viagens eram demoradas e penosas, por estradas poeirentas ou nevadas, em veículo a tração animal.

Por essa razão, ficou combinado que, a cada 4 anos, na hora de escolher o presidente do Executivo, os eleitores de cada estado federado escolheriam, por voto popular, uma comitiva de grandes eleitores, cujo papel era representar os eleitores do estado. No dia marcado, cada unidade da federação enviaria seu grupo de grandes eleitores à capital do país. Cada grupo levava o resultado do voto de seu estado. Na época, a solução era excelente: evitava transportar papéis, borderôs, livros ou urnas.

O tempo passou, muita coisa mudou. Hoje há rádio, tevê, telefone, internet. Viaja-se de trem, de carro, de avião. As mulheres têm (já faz tempo) o direito de votar. No entanto, acomodados com um sistema secular, os americanos hesitam em alterá-lo. A cada vez que a apuração se espicha e ameaça terminar nos tribunais, volta-se ao assunto. Em seguida, as coisas se acalmam e o assunto morre. Até a próxima eleição.

by Adam Zyglis (1982-), desenhista americano

Outra particularidade da eleição americana, surpreendente para um país avançado, é a lentidão da apuração. Neste ano de pandemia, a razão da demora foi o fato de grande parte do eleitorado ter dado preferência ao voto enviado por correio em vez de se arriscar a apanhar um vírus qualquer num local apinhado.

Os estados têm bastante autonomia para fixar as regras da apuração. Alguns deles só validam as cédulas que forem recebidas até o dia do voto nacional – o que me parece correto. Já outros reconhecem votos que cheguem mais tarde; a Carolina do Norte, um caso extremo, aceita votos que deem entrada até 12 de novembro (9 dias depois da eleição). Essa medida é uma maçada, na medida que trava a proclamação do resultado nacional.

Não acredito que o esquema de eleição indireta venha a ser modificado tão cedo. Mas ouso esperar que, com o objetivo de evitar a angústia deste 2020, as normas de aceitação de votos antecipados seja revista. Dependesse de mim, só os votos recebidos o mais tardar 3 dias antes do pleito seriam validados. Assim, a comissão de apuração já poderia começar a trabalhar antecipadamente, de modo que, no dia do voto final, o resultado final sairia rapidinho.

O que eu disse acima não passa de visão de espírito, pura opinião pessoal. Como diziam os gaiatos no Rio de antigamente: ‘não sou daqui, sou de Niterói’(*).

(*) São palavras de um samba de Ataúlfo Alves e Wilson Batista, lançado em 1941 por Aracy de Almeida. No youtube aqui.

Brincando com fogo

José Horta Manzano

A ignorância beata de Jair Bolsonaro se somou ao oportunismo criminoso do ministro Salles para gerar uma clamor planetário em torno do desmatamento. A falta de modos de ambos levantou a lebre. Talvez não fosse o que pretendiam, mas conseguiram girar os holofotes internacionais para a violência com que estão incentivando a rápida destruição, em benefício de poucos, de um patrimônio que é de todos nós.

As queimadas deste ano – acidentais ou provocadas – chocaram o mundo. Ao redor do planeta, todos os cidadãos esclarecidos, ainda que residam longe do Brasil, sentem como se a própria casa estivesse pegando fogo. É sensação assaz desconfortável.

Bolsonaro perdeu o espírito crítico, se é que ele o teve algum dia. O homem se isola de toda crítica externa. Passa os dias mergulhado nas redes sociais trocando figurinhas com seus devotos. Dizem que o único canal ainda aberto entre sua bolha e o mundo exterior é o Jornal Nacional – emissão que ele odeia, embora ela não lhe faça oposição frontal. O isolamento do presidente alimenta seu alheamento. Enquanto isso, o mundo avança.

Lá fora, o mar não está pra peixe. Risco de reeleição de Trump, atentados terroristas na França, segunda onda de covid ainda pior que a primeira – o nível de humor do planeta anda próximo de zero. Constatar que Bolsonaro, um pequeno tiranete, taca fogo na mais importante floresta equatorial do mundo é insuportável. O contragolpe vem aí.

Ainda estes dias, Les Echos, jornal francês equivalente a nosso Valor, publicou artigo emblemático. Um grupo de importantes ONGs dedicadas à preservação da natureza juntaram forças pra pressionar o mundo das finanças. Em nota, informam que a soja brasileira está entre os principais fatores de desmatamento no mundo e que, com 50% do cerrado brasileiro arrasado, seu plantio já começa a invadir a (ex-)selva amazônica.

As ONGs estão pressionando os bancos para que cortem o financiamento dos grandes negociantes internacionais de grãos que contribuírem para o desflorestamento. Esses intermediários são conhecidos pela sigla ABCD – ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, empresas que respondem juntas por quase 60% do comércio internacional de soja. Juntamente com o membro mais recente do clube – o chinês Cofco International – estão sentindo a pressão e já estão se preparando para deixar de comprar soja proveniente de municípios brasileiros onde o desmatamento é mais forte.

O financiamento bancário, nesse campo, é pra lá de importante. Para o comércio de grãos, somente os bancos franceses bancaram empréstimos de 9,5 bilhões de euros entre 2016 e 2019.

O que está acontecendo é muito grave para o futuro da economia brasileira de exportação. O Brasil não é o único produtor de soja. Estados Unidos, Argentina, China e Índia, que também plantam essa leguminosa, estão esfregando as mãos. Assim que a pressão da sociedade nos países importadores estiver insuportável, os negociantes serão obrigados a agir de verdade. Em vez de ficar discriminando municípios brasileiros um a um, a solução mais comercial será boicotar o Brasil e passar a comprar dos outros produtores. Com os bancos fechando a torneirinha do financiamento, essa troca de fornecedores não vai demorar.

Esse periga ser o legado que o atual governo vai deixar. Atingirá em cheio os produtores de soja; e, de tabela, a economia brasileira como um todo.

Couvre-feu

José Horta Manzano

Devido ao alastramento da pandemia, 46 milhões de franceses entraram neste 25 de outubro em regime de toque de recolher (couvre-feu) por um período inicial de 6 semanas. Essa medida pesada e excepcional atinge 2/3 da população do país. Entre as 21h e as 6h da manhã, é proibido sair de casa. Umas poucas exceções estão previstas.

Quem tiver de sair, tem de baixar um formulário oficial, preenchê-lo e levar no bolso para mostrar caso seja controlado. Quem for apanhado em infração vai pagar multa de 135 euros (900 reais). A dolorosa sobe a 3750 euros (25.000 reais) em caso de reincidência.

A intenção das autoridades é dupla. Por um lado, buscam reduzir o contágio, inevitável entre frequentadores de bares e outros locais noturnos. Por outro, com a eliminação da circulação noturna de automóveis, acidentes decorrentes do consumo de álcool – comuns entre jovens, em fins de semana – desaparecerão; com isso, leitos hospitalares de reanimação e de UTI estarão liberados e prontos para receber pacientes com covid.

by Bernard Jullien, artista francês

Couvre-feu
Couvre-feu é expressão muito antiga, presente na língua francesa desde os anos 1200. De origem militar, significava o toque de um sino ou de uma corneta informando aos soldados que era hora de voltar para o quartel. Nosso toque de recolher é perfeita tradução.

Com o tempo, a expressão passou a ser também usada fora do círculo militar. No entanto, num mundo civil em que liberdade individual não combina com rigidez disciplinar de quartel, seu uso é raro.  Na França, já houve imposição de toque de recolher em momentos de estado de sítio e também quando o país esteve ocupado, na Segunda Guerra. Fora isso, é a primeira vez.

Hora de inverno
É interessante anotar que, neste domingo 25 de outubro, a Europa atrasou seus relógios e voltou à hora normal, também conhecida como hora de inverno. Agora vai assim até o último domingo de março do ano que vem.

Silêncio!

José Horta Manzano

Onde muitos veem um problema, outros enxergam uma oportunidade – é axioma que se ouve frequentemente. A epidemia de covid que transtorna o mundo atualmente se encaixa nesse raciocínio. Ela traz morte e desolação, mas também acende luzes.

Quando a progressão da epidemia se intensificou, muitos países tomaram a difícil decisão de confinar a população. Em muitos deles, não foi só um suave conselho do tipo “Fique em casa”. Na França, na Itália, na Espanha e em outros países, o confinamento rigoroso foi pra valer. Os comércios fecharam, com exceção dos essenciais (farmácias e supermercados). Escolas deixaram de funcionar. E – o mais chato – o povo foi obrigado a ficar em casa, só podendo sair para fazer compra de comida ou de remédio. Tudo isso, sob controle rígido e multas pesadas.

Um dos efeitos colaterais desse confinamento foi a drástica diminuição do tráfego urbano. Menos tráfego = menos barulho. Como se sabe, ruídos fortes produzem efeitos na audição e podem ocasionar perda irreversível do olfato e do paladar.

Os dois meses (março a maio) durante os quais a população francesa permaneceu confinada dentro de casa foram psicologicamente difíceis, mas trouxeram de volta um mundo silencioso como não se via desde os tempos de antigamente.

Uma pesquisa informa que, depois do período de confinamento, 57% dos habitantes das metrópoles ficaram mais sensíveis aos ruídos. É que, antes da pandemia, o barulho era tão intenso e constante que ninguém mais prestava atenção. Agora, sim. Todos entenderam que é bem mais agradável viver num universo pouco barulhento.

Paris: os Champs Elysées em dia de confinamento.

Pesquisadores do Instituto Francês de Pesquisa Científica (CNRS) empreenderam um estudo relevante sobre o assunto. O projeto chama-se Silent Cities e visa a modelizar os fatores que reduzem o barulho. Por exemplo, uma distribuição mais inteligente e integrada dos horários de trabalho pode contribuir para a diminuição do ruído urbano. A pesquisa pode também indicar ser mais racional instalar ciclovias nesta rua em vez de noutra.

Atualmente, diversas sociedades desenvolvem asfalto menos barulhento e edifícios que absorvem o barulho. Certas empresas chegam a criar bolhas de silêncio. Para leigos como eu, a explicação sobre o funcionamento da bolha vem a seguir.

Caixinhas com alto-falantes são instaladas nos cômodos da casa. Visto que o barulho é uma onda, quando ela é detectada pelos sensores, os alto-falantes emitem uma onda inversa para neutralizar o som. O princípio é genial. Mas é bom que funcione direitinho, porque se não, vão surgir interferências desagradáveis. A sociedade Silentium está desenvolvendo um sistema de “bolha de silêncio”. Prometem que, quando estiver pronto e for posto no mercado, deverá neutralizar 90% dos sons externos. Boa notícia pra quem vive em lugar barulhento.

Certamente muitos outros projetos só estão saindo do papel graças à pandemia. Como diziam os antigos, há males que vêm pra bem.

Tuíte – 16

José Horta Manzano
Seguindo uma tradição da América espanhola iniciada em 1692, quando indígenas atearam fogo ao Palacio Nacional da Cidade do México, arruaceiros incendiaram e destruíram ontem a Igreja da Assunção de Santiago (Chile), que tinha sido inaugurada em 1876.

O templo chileno é o mais recente exemplo desse bizarro pendor hispano-americano de exprimir insatisfação queimando edifícios públicos e religiosos. Outro exemplo desse comportamento medieval é o Palacio Quemado, de La Paz (Bolívia), criminalmente incendiado em 1875.

No Brasil, temos grande respeito por edifícios, templos e toda obra humana. Preferimos incendiar e arrasar florestas, o que traz vantagem dupla. Por um lado, nos livramos do mato; por outro, abrimos espaço para erguer edifícios e templos à vontade.

Ah, e tem mais um benefício: dado que a destruição da vegetação enxuga a atmosfera e desertifica o clima, o problema das enchentes das metrópoles brasileiras se resolve sozinho. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Penitência

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos anos 1600, a Espanha era dona de meio mundo. Além do espaço peninsular, a coroa contava com outras possessões: as extensas colônias na América, as Filipinas, entrepostos comerciais na costa africana e ainda territórios na Europa: Sardenha, Sicília, Milão, o Condado da Borgonha (hoje na França), a Bélgica, os Países Baixos, Luxemburgo e alguns territórios hoje alemães. Era um império vastíssimo que despertava muita cobiça.

No ano de 1700, Carlos II, rei da Espanha, morreu sem deixar descendência. Ele era da poderosa linhagem dos Habsburgos – a Casa da Áustria –, família cujos membros reinaram por séculos na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Croácia, na Hungria e em outros territórios.

Famílias da alta nobreza europeia costumam ser muito entrelaçadas e exibir parentesco intrincado. Esse fenômeno perdura até nossos dias. Os reis e rainhas atuais são todos primos próximos ou distantes. É fácil entender que, com a morte de Carlos II, tenha aparecido meia dúzia de pretendentes ao trono, todos oriundos dessa consanguinidade e, de certa forma, parentes do falecido.

Como não houve meios de se pôr de acordo, o jeito foi entrar em guerra. Desses conflitos antigos, não se fala muito. A razão é simples: vivemos num mundo de imagem e dessas velhas guerras não há foto, nem filme, nem vídeo. O máximo que se tem é uma ou outra pintura, em geral executada décadas mais tarde.

A Guerra de Sucessão espanhola foi feroz; representou um prenúncio dos futuros conflitos mundiais. Opôs a dinastia dos Habsburgos à dos Bourbons. Batalhas travaram-se não só na Europa, mas também na América, entre colonos ingleses, espanhóis e franceses. É complicado explicar em duas linhas os comos e os porquês do enfrentamento. Alguns números dão uma ideia da amplitude. A guerra se estendeu de 1701 a 1714. É impossível calcular o total de vidas humanas perdidas, visto que os observadores da época não dispunham dos instrumentos de hoje. As estimativas variam muito, mas a contagem mais impressionante chega a 1.250.000 mortos, entre militares e civis. A fome e a doença são a causa principal de mortes civis.

Importante batalha ocorreu em 1713 na região de Valencia, na cidadezinha de Xàtiva. Dado que o enredo é complicado, não vale a pena descer aos pormenores. Convém notar que a memória coletiva dos habitantes guarda gosto amargo dos massacres de que seus antepassados foram vítimas. O ressentimento contra os Bourbons perdura até hoje.

Felipe V, rei da Espanha

Passados 300 anos, é justamente a Casa de Bourbon que ocupa o trono espanhol. Tanto Juan Carlos I como seu filho e atual rei, Felipe VI, pertencem a essa dinastia. Em Xàtiva, que hoje conta com 30 mil habitantes, há um museu de arte que abriga pinturas. Entre os quadros, há um retrato do rei Felipe V, aquele que reinava na época da batalha de 1713. Artisticamente, não é nenhuma obra-prima, mas representa justamente o detestado opressor, fato que incomoda os nativos.

Nos anos 1950, o diretor do museu era um señor mais ousado que seus antecessores. Um dia, tomou a decisão de pendurar o quadro de cabeça para baixo. Está até hoje nessa posição. Ficou combinado que só voltará à posição original no dia em que um dos descendentes pedir desculpas pelo massacre que seus antepassados cometeram contra o povo da cidadezinha.

Até hoje, nenhum dos reis da Espanha aquiesceu ao pedido. Para surpresa de visitantes do museu que não conhecem a história, o quadro continua de ponta-cabeça. A depender da vontade dos habitantes de Xàtiva, assim vai continuar.

E o santo remédio?

José Horta Manzano

Neste dias em que um planeta paralisado e aflito mantém os olhos voltados para o hospital onde o presidente Donald Trump está internado, seu médico pessoal, Dr Sean Conley, é a voz oficial que traz as esperadas notícias sobre a evolução clínica do ilustre paciente.

No boletim da noite de ontem (sábado), ele informa que Trump recebeu a segunda dose de Remdesivir(*) sem complicações. Acrescenta que o paciente está sem febre e que a saturação de oxigênio arterial está entre 96% e 98%, nível plenamente aceitável. Diz ainda que, embora Trump ainda não esteja fora de perigo, a equipe guarda prudente otimismo. O plano para domingo é manter o paciente em observação entre as doses de Remdesivir.

Trump com covid
Boletim médico de 3 out° 2020

Ué? Acho que meus distintos leitores também repararam: onde está a cloroquina? Li o boletim de frente pra trás e de trás pra diante e… nada. O santo remédio foi abandonado!

No entanto, não faz muito tempo que assisti a um vídeo em que o próprio Trump afirmava tomar hidroxicloroquina regularmente como preventivo contra a covid. E o devoto Bolsonaro, então, que de tanto botar fé na palavra do mestre, chegou a mostrar o remédio às emas do Planalto!

Pelo que agora se vê, tanto a gesticulação de lá quanto a de cá não passavam de blá-blá-blá, fruto de ignorância malandra. Ou de ignorância autêntica, o que é ainda pior.

(*) Remdesivir é um medicamento antiviral que tem dado resultados positivos em alguns pacientes com covid. É aquele tipo de remédio que, na falta de outro, o médico receita. “Se não tem tu, vai de tu mesmo.”

As surpresas de outubro

José Horta Manzano

Agosto e nossos distúrbios

No Brasil, dizem que agosto é mês de vento e cachorro louco. Mas parece que não passa de crença de gente antiga, daquelas que fazem sorrir. Mas há fatos ocorridos nesse mês, que não tem nada a ver com brincadeira. Todos ligados à Presidência da República, estão mais para tragédia nacional.

Em 24 agosto de 1954, suicidou-se o presidente Getúlio Vargas. O país entrou em comoção.

Sete anos mais tarde, em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo e zarpou para a Inglaterra.

Passados mais nove anos, chegou a vez do presidente Costa e Silva: em 31 de agosto de 1969, sofreu um AVC e foi afastado do cargo.

Mais sete anos, e a tragédia atingiu Juscelino Kubitschek, então já ex-presidente: morreu num terrível acidente de automóvel em 22 de agosto de 1976.

Em 13 de agosto de 2014, Eduardo Campos, candidato à Presidência, morreu num acidente de jatinho que se estatelou na cidade de Santos (SP). Não era candidato nanico – tinha até boas chances.

Dois anos mais tarde, nova convulsão na Presidência. O fim do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff foi em 31 de agosto de 2016. Nesse dia, a presidente foi destituída.

Outubro e os distúrbios deles

Nos EUA, o mês reservado aos perigos parece ser outubro. Afeta, em especial, candidatos à Presidência. Criativos, os americanos inventaram até a expressão «October surprise – surpresa de outubro» para designar o fenômeno. Dependendo da magnitude, a ‘surpresa’ – que costuma ser fruto de conspiração – pode até afetar o rumo da eleição.

No finzinho de outubro 1972, dias antes da eleição, Henry Kissinger, secretário de Estado, deixou vazar a informação de que a Guerra do Vietnam estava para acabar. Peace is at hand – a paz está ao alcance da mão”. Considera-se que a notícia foi responsável por um fabuloso empurrão na candidatura de Nixon, o presidente que tentava a reeleição. De fato, o homem foi reeleito, mas a guerra, que estava longe de acabar, ainda duraria longos anos.

Em novembro de 1979, na presidência Carter, estudantes iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã e tomaram centenas de americanos como reféns. O sequestro foi longo. Já ia para um ano, mas as negociações continuavam no ponto morto. No fim de outubro de 1980, perto das eleições, os sequestradores anunciaram que só soltariam os reféns quando Jimmy Carter tivesse deixado a presidência. A notícia foi tão impactante, que os eleitores descartaram Carter (sem trocadilhos) e deram ampla vitória a Reagan. (Dizem que os sequestradores receberam uma ‘ajudazinha’ da campanha de Reagan, mas pode ser intriga da oposição.)

Nas eleições de 2000, outra ‘surprise’ apareceu. Em outubro, cinco dias antes do voto, vazou a (velha) notícia de que George W. Bush, então governador do Texas, tinha sido preso em 1976 (24 anos antes!) por dirigir embriagado. A equipe de campanha de Al Gore foi suspeitada de estar por trás do vazamento. Bush ganhou, mas teve a vitória mais apertada que se tinha visto até então. Perdeu no voto popular e só se elegeu após recontagem de votos na Flórida e batalha na Suprema Corte.

Em outubro de 2004, os EUA patinhavam nas batalhas do Oriente Médio e caçavam Bin Laden sem nunca conseguir encontrá-lo. Menos de uma semana antes da eleição, a emissora de tevê Al Jazeera exibiu um vídeo de Bin Laden com ameaças ao então presidente George W. Bush e com críticas a seu desempenho. Desconfia-se de que a exibição do vídeo tenha resultado de um acerto entre John Kerry, o adversário de Bush, e a tevê árabe. Esperto, Bush virou o jogo ao convencer os eleitores de que somente ele era capaz de proteger o país. Venceu com facilidade.

Nos últimos dias de outubro de 2012, uma verdadeira surpresa aconteceu: o violento furacão Sandy atingiu Nova Jersey. Ainda que, neste caso, a surpresa de outubro não fosse resultado de conspiração, acabou sendo benéfica para Barack Obama, o presidente que tentava reeleger-se. Por um lado, Obama foi magistral ao aproveitar a ocasião para se mostrar à altura do cargo no trato da emergência. Por outro, Mitt Romney, o adversário, teve de suspender a campanha na reta final, visto que pegaria supermal fazer comício em tempo de tragédia nacional. Obama foi reeleito sem problemas.

Estamos em outubro de 2020. O presidente Trump, adulado por uns, abominado por outros, tenta a reeleição. Desta vez, a “October surprise” veio logo no começo do mês: ele anunciou hoje que apanhou a covid. Pode ser que seja jogada de marketing – com Trump, nunca se sabe. (É curioso notar que, dos dirigentes mundiais mais conhecidos, os únicos três que se contaminaram foram justamente os negacionistas, aqueles que afirmaram que a doença não passava de uma gripezinha: Boris Johnson, Donald Trump e Jair Bolsonaro. Alguém acredita em castigo de Deus?)

Para saber se a safra 2020 da “October surprise” afetou a eleição, vai precisar esperar que os americanos votem. Ouvi dizer que, ao saber que Trump está com covid, muita gente se pôs a fazer novena. Parece que até alguns agnósticos aderiram à reza.