Vírus brasileiro

 

José Horta Manzano

Os jornais televisivos desta terça-feira abriram todos com a notícia principal: a França fecha seus aeroportos para todo voo proveniente do Brasil. Dos países com os quais temos relações mais próximas, três já tomaram medida idêntica – França, Portugal e Reino Unido.

Não estou familiarizado com viagem em jatinhos executivos, mas imagino que a restrição lhes diga respeito também. Pelo jeito, deve ter por aí muita gente fina aborrecida por não poder mais dar um pulinho a Paris pra degustar um croissant fresquinho saído do forno de uma boulangerie.

Emissoras de rádio e de tevê têm feito programas especiais com entrevistas e mesas redondas em torno das quais se discute a periculosidade da variante brasileira do coronavírus e os meios de evitar sua propagação.

No Brasil, adeptos de teorias complotistas juram de pés juntos que essa variante mais peçonhenta do vírus veio direto da China, desenvolvida por comunistas malvados cuja única intenção é derrubar nosso presidente, para poderem em seguida dominar o mundo. Por seu lado, gente com a cabeça no lugar começa a considerar uma origem interna. A nova cepa teria conseguido desenvolver-se em nosso país justamente por encontrar aqui terreno propício.

Ainda é cedo pra apontar culpados. Vamos esperar que a pesquisa científica tire as devidas conclusões. (A não ser que a CPI o faça…) A tese de que a variante brasileira teria nascido no Brasil mesmo faz sentido. A contínua sabotagem com que o capitão nos brindou desde a chegada da pandemia – com recusa de distanciação social, de máscara e de confinamento – criou terreno fértil para mutações aceleradas do vírus.

Enquanto não se determina com exatidão a origem do novo patógeno, o que se percebe é mais uma picaretada na rápida destruição da imagem do Brasil no exterior. Essa descida de nosso país ao limbo dos ‘emergentes que não conseguem emergir’ é efeito secundário indesejável do ambiente tóxico que se instalou em terras nacionais.

Euclides da Cunha disse que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Tomando como gancho o pensamento do escritor, pode-se dizer que todo brasileiro conservou, lá no fundo do peito, a alma forte do sertanejo. Todavia, a conjunção Bolsonaro + pandemia é dose pra leão. Não sei se vai dar pra aguentar.

Observação
Está chegando a hora em que as redes devotas vão ter de se render à evidência. O “vírus chinês” se naturalizou e procriou. Os filhinhos, todos nascidos em território nacional, são gente de casa. Recusam-se a ser tratados como estrangeiros. Cada um deles é agora um legítimo vírus brasileiro.

École Nationale d’Administration

Ecole Nationale d’Administration, Estrasburgo (França)

José Horta Manzano

Em novembro de 2018, a França viu surgir um movimento de protesto que, em pouco tempo, se espalhou por todo o território nacional. Eram os “gilets jaunes” (coletes amarelos). Bloqueio ilegal de estradas e manifestações todos os sábados tornaram-se constantes. Com o passar do tempo, as passeatas foram atraindo um povo estranho, sem eira nem beira, daquela gente que aprecia evacuar o excesso de agressividade praticando atos violentos. Vitrines quebradas, automóveis incendiados, monumentos vandalizados, comércios saqueados – esse foi o pesadelo que a França teve de suportar durante meses. O primeiro confinamento, decretado em março de 2020 por causa da pandemia, acabou com o movimento.

As reivindicações eram tantas e tais, que confundiram a cabeça de eleitores e de eleitos. Tudo o que é demasiado dá indigestão. Reclamava-se do preço dos combustíveis (como acontece às vezes no Brasil, veja só), do custo de vida, das alíquotas do imposto de renda, do desemprego, da classe política, das desigualdades sociais. Era um programa pra lá de vasto.

Quando as demandas são tão plurais, as respostas perigam não satisfazer plenamente a ninguém. Foi o que aconteceu. No balanço final, praticamente nada mudou. O presidente continua lá, o primeiro-ministro e seu governo também. E a vida segue.

Com o fito de mostrar-se empenhado em diminuir o vão entre os do andar de cima e os demais, o presidente Macron decidiu fazer um gesto vistoso. Anunciou ontem que vai extinguir a École Nationale d’Administration (ENA).

Com sede em Estrasburgo, a ENA é a instituição de ensino que visa a preparar futuros quadros superiores da administração pública. Para se ter uma ideia da importância da instituição, note-se que de lá saíram 4 dos últimos 6 presidentes da França – Macron incluído. Nove dos 23 primeiros-ministros, desde 1958, também foram alunos. Também estudaram na ENA quase 15% dos ministros de Estado dos últimos 60 anos.

A fundação da escola foi determinada em 1945 pelo general De Gaulle. Seu objetivo era formar pessoal altamente qualificado com vistas à recomposição de um Estado que havia sido destruído pela Segunda Guerra.

Com o anúncio do fechamento da instituição, Emmanuel Macron dá a entender que contribui para diminuir a desigualdade social. A meu ver, a decisão é meramente eleitoralista – vistosa, mas sem efeito prático. Desníveis sociais não se corrigem podando as excelências, mas eliminando as deficiências.

Seria mais proveitoso gastar tempo e esforço numa reflexão sobre como melhorar a instrução básica da população. De qualquer maneira, sem a ENA, outro instituto virá fatalmente preencher o vácuo. O que não se pode é deixar que, por falta de formação, quadros despreparados venham a ocupar postos importantes no futuro.

Dá inveja ver o presidente de um país como a França esnobando ao suprimir um instituto que já provou sua excelência, enquanto, no Brasil, ai ai ai… Temos de nos contentar com gente do nível do Lula, da Dilma, do Bolsonaro. Sem esquecer gurus, ministros e assessores atrasados, incultos, burros, sem formação, incompetentes e mal-intencionados como Araújo, Pazuello, Salles, Damares & companhia.

Um estabelecimento de formação de quadros superiores não é máquina niveladora; os que lá se formam não saem idênticos, todos iguais e formatados como soldadinhos de chumbo. Cada um continua carregando a própria personalidade. O que os iguala e nivela, na verdade, é a solidez da cultura, a visão política e a percepção de mundo.

Se nossos últimos presidentes tivessem passado por lá, pelo menos saberiam se exprimir e não nos envergonhariam tanto. Já seria melhor que hoje.

Au pair

José Horta Manzano

Pouco conhecida entre nós, a expressão au pair define uma atividade difundida e bastante apreciada pelos jovens europeus. A falta de intimidade com a expressão, faz que ela seja às vezes traduzida por ‘babá’, o que não corresponde necessariamente à realidade.

A imagem de um rapaz (mais frequentemente de uma moça) au pair surge no século 19. A construção de estradas de ferro facilitou muito as viagens. Trechos que demandavam dias de estrada passaram a ser percorridos em poucas horas – um achado. O mundo ficou mais perto, e a mocidade se empolgou.

Aos poucos, foi se firmando nova atividade para a juventude. A jovem au pair é aquela que passa algum tempo – geralmente um ano – no exterior, hospedada na casa de uma família com crianças. O trato é paritário (=au pair), ou seja: a moça tem casa, comida e roupa lavada; em troca, dá um pouco do seu tempo para cuidar das crianças e ajudar na arrumação da casa.

Em geral, o principal interesse da jovem au pair não é tanto cuidar de criança, mas aprender a língua, num regime de mergulho total. A família costuma pagar o curso intensivo de língua e dar horas livres para a hóspede poder frequentá-lo. A jovem recebe, além disso, uma mesada, coisa pouca, que não chega a ser um salário, mas dinheiro de bolso.

De origem francesa, a expressão au pair é utilizada na maioria das línguas, sem tradução nem adaptação. Na origem, o termo era usado unicamente em economês, para tratar de paridade entre moedas.

Até pouco tempo atrás, grande parte das jovens candidatas a uma colocação como au pair sonhavam com a Inglaterra. É natural, a atração da língua inglesa supera a das demais. Só que, passado o Brexit, as autoridades britânicas tomaram uma decisão polêmica.

Talvez com intenção de melhorar as estatísticas de desemprego, decidiram despertar à força vocações de mocinhas britânicas candidatas a uma colocação au pair dentro das fronteiras do Reino Unido. Para aumentar a atratividade da “profissão”, promoveram-na à categoria de profissão especializada, com piso salarial fixado em 20 mil libras por ano.

Não sei se vai dar certo. Por um lado, jovens britânicos não parecem muito interessados em mergulhar no ‘aprendizado’ da própria língua materna; preferem estudar na Espanha, na França ou na Itália. Por outro, o elevado piso salarial é proibitivo para uma família inglesa comum. O interessante da atividade era justamente essa informalidade, esse toma lá dá cá (no bom sentido).

As novas regras britânicas vão conseguir frustrar nas duas pontas. As famílias inglesas que gostariam de contratar uma estrangeira para cuidar das crianças não vão mais poder fazê-lo. E os jovens europeus, que adorariam passar um ano no Reino Unido aprendendo inglês, vão ter de saciar sua sede de viagens em outro lugar.

De quebra, fecha-se um canal barato de projeção da língua inglesa. Está aí uma decisão mal ajambrada, em que todos saem perdendo.

Um torturante band-aid no calcanhar

José Horta Manzano

Entre nós, a gigante norte-americana Johnson & Johnson é identificada com o Óleo Johnson, produto que mães aplicam há décadas nos pequerruchos. Sem saber que são produzidos pela mesma empresa, conhecemos também o Tylenol e o Band-aid (que nem todos usam no calcanhar, aliás). Além desses três artigos, o cidadão comum pouco conhece da firma.

Com a pandemia, o mundo começa a tomar conhecimento de que a Janssen – braço do conglomerado Johnson & Johnson – desenvolveu com sucesso uma vacina contra a covid-19. Por estar chegando ao mercado um pouco depois das primeiras, a vacina Janssen é menos conhecida. Que não seja por isso: apresenta vantagens consideráveis.

Em primeiro lugar, conserva-se a uma temperatura entre 2° e 8°, vantagem apreciável em comparação com a Pfizer, que exige armazenamento a 70° abaixo de zero – um senhor desafio para a trôpega logística do Ministério da Saúde.

A segunda vantagem é o preço. Visto que as negociações nem sempre são transparentes, valores raramente são publicados; assim mesmo, estima-se que cada dose saia pela metade do preço das concorrentes Pfizer e Moderna.

A terceira vantagem é importantíssima: uma dose é suficiente, enquanto todas as concorrentes exigem duas. É um benefício supimpa para países em que o avanço da vacinação é lento.

É verdade que a eficácia (66%) é mais baixa do que a das concorrentes. No entanto, sem atingir os 90% das que funcionam melhor, a Janssen é mais eficaz do que a Coronavac, que gira em torno de 50%.

A vacina Janssen estará disponível no segundo semestre deste ano. Visto que, até lá, nossa população ainda vai estar longe da imunização geral, o governo federal devia considerar com muita atenção a possibilidade de adquirir esse imunizante. E, desta vez, fazê-lo antes que outros países passem à frente.

Confinamento na França

França: coletiva de imprensa do primeiro-ministro

José Horta Manzano

Como todo governo responsável, também o francês está atento à curva de progressão da pandemia, que continua dando sinais inquietantes apesar do avanço da vacinação.

O primeiro-ministro fez ontem pronunciamento solene. Lembrou que o país se aproxima da terrível marca de 100 mil mortos. Tendo em vista a chegada do que parece ser uma terceira onda de contaminações por covid, novo confinamento será aplicado à população de extensas regiões do país a partir desta sexta-feira, por quatro semanas. O território confinado inclui a capital e engloba um total de 21 milhões de habitantes, o que equivale a 1/3 da população do país.

Confinamento
As escolas permanecerão abertas. O comércio terá de baixar as portas, com exceção dos que vendem remédios e gêneros alimentícios. Lojas de música e de livros estão liberadas. Será permitido sair à rua e se deslocar até uma distância de 10km da residência, desde que cada um leve consigo um autoatestado com data e assinatura.

Toque de recolher
O horário do toque de recolher que já vigora atualmente no país inteiro será alterado. Com a chegada da hora de verão, que entrará em vigor dia 28 de março, os cidadãos terão uma horinha a mais de liberdade. Em vez de 18h, todo o mundo terá que estar bonitinho em casa a partir das 19h. O toque de recolher tem se mostrado radical para evitar aglomerações.

Em sua fala, o primeiro-ministro incentivou o teletrabalho. Exortou todas as empresas a aplicar, sempre que possível, esse sistema. Para terminar, tranquilizou a população ao informar que as autoridades sanitárias liberaram a vacina Astra-Zeneca, por considerar que não há prova científica de que os efeitos secundários assinalados possam ser imputados a ela.

Enquanto isso…
Quando vejo que, um ano depois das primeiras mortes, a pandemia ainda continua se expandindo até em países que se conscientizaram desde o início, fico ainda mais preocupado com o Brasil. O que acontece hoje na França, na Itália, em Portugal e em tantos outros países periga se repetir, com mais força ainda, num Brasil em que o governo central foi incapaz de dar diretivas e tomar as rédeas do combate ao vírus.

Pária

José Horta Manzano

Nosso peculiar chanceler declarou outro dia que se orgulha de ver o Brasil na posição de pária entre os países do planeta. Invejoso, Bolsonaro sentiu o golpe. “Como assim? Pária ele? Mais pária sou eu, pô!” – babou.

E não é que nosso presidente está mostrando ser realmente campeão imbatível entre os dirigentes marginalizados?

Bolsonaro está conseguindo a façanha de ser duplamente pária. Não somente está excluído do círculo dos governantes de países civilizados, mas está se tornando pária até entre dirigentes extremistas e negacionistas.

Trump, que era páreo duro para nosso pária nacional, já se foi. Pode até voltar um dia, mas, atualmente, é carta fora do baralho. Pelo mundo, sobraram poucos “colegas” de Bolsonaro. Um deles acaba de se render ao bom senso. E assinou a capitulação diante de câmeras e holofotes.

Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, ao ser vacinado.

Trata-se de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria. Um ano atrás, quando apareceu a pandemia, ensaiou seguir os passos negacionistas de Trump e Bolsonaro. Hoje, com os hospitais lotados e o povo impaciente clamando por uma solução, mudou de ideia.

Com gente morrendo às pencas, tornou-se entusiasta da vacinação. Não só aprovou, como fez questão de ser vacinado em público. E não o fez com as vacinas homologadas pela Agência Europeia do Medicamento (equivalente a nossa Anvisa). Escolheu a vacina da Sinopharm, um laboratório chinês(!).

O gesto tem dois objetivos. Por um lado, tranquiliza a população da Hungria; por outro, faz gesto de independência e de desafio à Europa, que ainda não homologou essa vacina. Uma no cravo, outra na ferradura.

E assim vai a vida. Preocupado em afastar os rebentos da cadeia e em garantir uma reeleição que lhe permita postergar os inevitáveis processos que virão, Bolsonaro continua a mostrar desdém pelo povo que o elegeu. Mostra-se mais impiedoso que seus pares de outros países. No patamar em que está, faz companhia a Maduro (Venezuela) e Kim Jong-un (Coreia do Norte), dois dirigentes conhecidos pelos maus-tratos que infligem à população.

Advertimento

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 fevereiro 2021.

Certos indivíduos têm o dom de expor, com lucidez, os males de sua época a ponto de incomodar os poderosos. Foi o caso do barão de Montesquieu (1689-1755), pensador francês cuja obra O Espírito das Leis, tratado sociológico precursor da própria sociologia, incomodou tanto que, apenas publicado, foi despachado para o Index – o catálogo dos livros proibidos.

Numa época em que regimes absolutistas eram a regra ao redor do planeta, Montesquieu ousou expor sua visão dos princípios básicos do despotismo. Segundo ele, o regime republicano precisa da virtude, enquanto a monarquia requer a honra. Já o governo despótico exige o medo, dispensando a virtude, por desnecessária, e a honra, por ser perigosa.

Nos anos 1930, dois séculos depois dessa análise premonitória, metade das nações europeias estariam dominadas por regimes autoritários. Duas delas padeciam sob despotismo pesado: a Itália e a Alemanha. O fascismo italiano e o nazismo alemão, embora distintos entre si, compartiam pontos comuns a todo governo despótico. A beligerância permanente; a busca da desigualdade entre os cidadãos; a crença na inutilidade da paz; a procura de um Estado forte apoiado em ampla base popular conquistada por bem ou por mal; o repúdio ao sufrágio universal, atitude vendida como prevenção contra a fraude eleitoral; a exigência de obediência absoluta; a convicção de que compete ao Estado controlar e dominar a vida da população – eis alguns dos pontos comuns a ambas as doutrinas.

Dois anos de bolsonarismo já fazem despontar entre nós o espectro do mesmo mal que afligiu a Itália e a Alemanha nos tempos sombrios. A beligerância permanente vai-se firmando como marca do governo atual, desde o primeiro dia, caracterizada por conduta inabalavelmente hostil: parceiros estrangeiros são tratados como inimigos e adversários internos são curto-circuitados. A fixação de Bolsonaro com fraude eleitoral já veio à tona em diversas ocasiões, numa indicação de que eleições incomodam o presidente, que optaria por bani-las. Corte de quotas, redução de programas de assistência e, principalmente, o quase-regozijo com o apuro e o sofrimento de um povo imerso no drama da atual pandemia mostram que a população é vista, não como coletividade a proteger, mas como quantidade estatística em que a individualidade não conta.

Charles Chaplin em O Ditador, filme de 1940

A anuência presidencial à bizarrice de certas categorias de cidadãos receberem vacina antes dos demais, ainda quando o patrocinador seja empresa privada, é sinal inequívoco de crença nas virtudes da desigualdade entre cidadãos. Vale o adágio: aos amigos do rei, tudo; o resto é o resto. Para coroar, há um detalhe assaz inquietante. Em mais de uma ocasião, Bolsonaro deixou claro que, dependesse dele, o regime político brasileiro seria outro. É impossível ser mais explícito.

Falta pouco para sabermos quais minorias serão alvo da fúria de nossos trogloditas tupiniquins. Pretos e pardos? Judeus? Pobres? Mulheres? Estrangeiros? Velhos? Não héteros? Num país miscigenado, em que o fichamento repousa na autodeclaração, é difícil invocar razões étnicas. Judeus? Não estamos na Europa; o brasileiro comum nem faz ideia do significado desse termo. Os «inimigos da nação» ainda estão por ser designados mas, no passo em que vão as coisas, logo o serão. Baixinhos, gordos, enfermos, jesuítas, sindicalistas, maçons, ‘comunistas’, umbandistas, feministas, escritores, artistas, espíritas, pacifistas – nenhum grupo está a salvo. Alvos têm de ser encontrados, que isso faz parte do jogo. Afinal, as hostes milicianas têm de ser alimentadas. E feras alimentam-se de sangue.

Se um artigo deste teor tivesse sido publicado na Itália pré-fascista ou na Alemanha pré-nazista, teria sido visto como teoria delirante e, por inútil, teria sido ignorado. Continuariam todos agindo como os valsistas do Titanic, que se recusaram a ver o drama que se armava e preferiram rodopiar até não haver mais jeito. No Brasil deste começo de século, o processo está avançando, apoiado na cupidez dos que imaginam levar vantagem, na complacência dos ingênuos que se estimam favoritos do rei, no fanatismo crédulo dos que não se dão conta de que serão os primeiros descartados, na indiferença dos demais. Ainda dá tempo, mas o ponto de não-retorno está ali na esquina.

Vacinado

José Horta Manzano

Pronto. Custou, mas chegou. Já fazia mais de mês que este escriba tinha marcado hora pra ser vacinado contra a covid. Eu sei que hoje se diz agendar e que ‘marcar hora’ soa um tanto démodé. Mas agendar é burocrático demais para meu gosto. Vamos em frente. Vacina pouca e demanda grande alongam a fila de espera. Mas o dia chegou. Foi nesta terça-feira. Me aplicaram a Moderna, made in USA.

Não sei como estão organizando a vacinação no Brasil. Apesar das rasteiras aplicadas por doutor Bolsonaro e pelo general Cloroquina, parece que a fila está andando. O presidente deve andar desacorçoado. Ele, que sonhava com o aparecimento de uma situação de insurreição causada pelo alastramento da doença e pela falta de imunizante, há de estar pra lá de decepcionado. A tática sugerida pelos bolsonarinhos falhou e o golpe encruou.

Espero que a fila da vacina no Brasil ande rápido, assim Bolsonaro vai poder mudar de tática e esquecer essa história de criar caos nacional. Mudar de ideia, pra ele, não é difícil: todos já viram que o homem não tem princípios e que se verga conforme manda a ventania. Seus propósitos são tão efêmeros e variáveis quanto pesquisas de opinião e quanto os likes das redes.

Enfim, voltemos à situação daqui. Na Suíça, o governo apostou no cavalo certo. Tinha passado pré-encomenda aos laboratórios Pfizer (EUA), Moderna (EUA) e Astra-Zeneca (UK/Suécia). Deu sorte. São vacinas que têm mostrado boa garantia de imunização. Hoje parece uma evidência mas, no meio do ano passado, quando elas estavam ainda em desenvolvimento, ninguém tinha certeza de nada. Foi um tiro no escuro.

Eficácia vacinal conforme anúncio dos laboratórios

E olhe que não é questão de o fabricante estar baseado em país adiantado ou não. O laboratório francês Sanofi, uma potência, também se lançou na corrida. Mas anunciou recentemente ter desistido de prosseguir com os testes. Sua vacina, muito provavelmente, está morta e enterrada. Enquanto isso, China, Índia e Rússia parece que chegaram lá.

Falando nisso, a Agência Europeia do Medicamento (que equivale a nossa Anvisa) não parece muito inclinada a dar sinal verde à vacina russa. Há de ter suas razões. Dado que Moscou anunciou uma taxa de proteção em torno de 95%, acho que pareceu bom demais pra ser verdade. Deve ser por isso que a agência continua sopesando os resultados. A tecnologia russa sofre os reflexos do autoritarismo de Putin. Não se sabe até que ponto a pressão estatal está influenciando o anúncio do laboratório que desenvolveu o imunizante.

Aqui na Suíça, depois de receber a primeira dose, os velhinhos (e os jovens que têm direito à vacina por apresentarem comorbidades) são convidados a sentar-se num salão de espera e lá permanecer 15 minutos antes de ir embora. É pra ter certeza de que ninguém virou jacaré. Tirando o calombo meio dolorido que fica no lugar da picada, não vi pele virando escama, nem dente crescendo, nem rabo espichando. Acho que o mau-olhado do Bolsonaro não chegou até aqui.

Estou me preparando para o baile funk de hoje à noite. Agora posso.

Covid – desempenho por país

José Horta Manzano

O Lowy Institute da Austrália é um ‘think tank’, expressão inglesa que se traduz por ‘laboratório de ideias’ ou ‘círculo de reflexão’.

Com a intenção de pôr às claras a montanha de narrativas e contranarrativas que criam verdadeira ‘infodemia’ e embaralham a realidade da pandemia, fizeram um estudo minucioso sobre a maneira como cada país enfrentou a pandemia.

Na avaliação consideraram 6 variáveis:

  • Número de casos
  • Número de mortes
  • Casos por milhão de habitantes
  • Mortes por milhão de habitantes
  • Casos em proporção de testes
  • Testes por mil habitantes

O estudo observou o comportamento que cada país adotou a partir da 36a. semana após confirmação do primeiro caso de covid.

Uma conclusão interessante à qual chegaram foi a de que Estados autoritários não obtiveram classificação melhor do que os demais. Um enfrentamento rigoroso mas de curta duração dá resultados semelhantes aos de uma abordagem menos severa porém mais prolongada.

Outra conclusão – e esta explica, até certo ponto, a dramática situação do Brasil e dos EUA – é a de que países vastos e populosos foram mais atingidos que outros. Isso se deve ao fato de que, enquanto fronteiras se fecharam e a circulação internacional de viajantes foi reduzida, as viagens internas nesses países permaneceram livres e autorizadas. Muitos viajaram, o que permitiu o alastramento do vírus para todos os rincões. Países pequenos sofreram menos com o problema.

Apesar dessa justificativa, há que reconhecer que o Brasil não é o único país grande e populoso. Muitos outros estão na mesma situação e obtiveram resultados melhores. A pesquisa estudou o desempenho de 98 países no enfrentamento da covid. Sem surpresa, o Brasil classificou-se em… 98° lugar. O último da classe. Na rabeira, minha gente! Não estamos mais ‘entre os piores’. Somos os piores. Os campeões da indigência.

Para espíritos masoquistas, estou anexando a lista completa. Lá estamos nós, assim como os mais bem classificados, ou seja, o resto do mundo. Para sofrer, basta clicar na ligação (=link) aqui abaixo:

Covid-19 – Desempenho

Ganha uma caixa de Cloroquina quem descobrir a causa principal do vergonhoso desempenho brasileiro. Repare que os 3 países governados por dirigente negacionista – Brasil, EUA e México – estão entre os 5 últimos da lista de 98 nações. Precisa fazer um desenho?

Avanço da vacinação

José Horta Manzano

Eu gostaria muito que 300 milhões de doses de vacina chegassem semana que vem ao Brasil e que, antes da Páscoa, todos os habitantes estivessem imunizados.

Mas o que se vê na Europa é inquietante e não permite excesso de otimismo. Até mesmo países que foram prudentes e encomendaram vacinas com grande antecedência estão recebendo a conta-gotas.

O gargalo está na produção. Pelo que se vê, os laboratórios não dão conta da monstruosa demanda. Os primeiros a encomendar são os primeiros a ser atendidos, diz a prática comercial.

Se essa lógica for realmente seguida, o Brasil, que bobeou e só começou a encomendar agora, vai ter de ser paciente. Quando 2021 terminar, só uma (pequena) parte da população terá sido vacinada. Os demais vão ter de esperar 2022.

 

Avanço da vacinação no mundo
(Situação em 21 janeiro 2021)

Israel, o campeão da rapidez, encabeça a lista: já vacinou 37% da população. Seguem-se pequenos países, como Emirados Árabes, Gibraltar, Seychelles, Samoa, que já imunizaram mais de 10% da população.

Os primeiros países importantes vêm a seguir: República Tcheca e Reino Unido, ambos com 7,5%. Logo após, aparecem os EUA, que já vacinaram 5,4% dos habitantes.

Daí para baixo, a porcentagem vai diminuindo. Alguns exemplos:

Espanha    2,2%
Itália     2,1%
Canadá     1,9%
Alemanha   1,6%
Suíça      1,3%
França     1,2%
Portugal   1,0%
Argentina  0,6%
Chile      0,3%

O Brasil aparece no finzinho da lista, com 0,07% da população imunizada. Falta um bocado.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ânimo!

Indulto presidencial

José Horta Manzano

Ao apagar das luzes, sempre aparece algum engraçadinho pra fazer travessuras. Tem que desconfiar do último minuto; é justamente quando ninguém mais espera, que o demônio ataca.

O instituto da graça presidencial é resquício do ancien régime. De fato, no regime absolutista anterior à Revolução Francesa de 1789, quando a lei seguia apenas a vontade do rei, o monarca tinha o poder de condenar ou até graciar um cidadão. Reis já se foram faz tempo, mas muitos países conservaram o princípio da graça presidencial.

Os Estados Unidos, a França e o Brasil estão entre esses países. Na falta de dirigentes de sangue azul, é o presidente da República quem tem a prerrogativa de indultar e graciar – nossa Constituição fala em conceder indulto e comutar penas.

Na minha opinião, é instrumento poderoso demais para ser confiado a um só indivíduo, ainda que fosse o presidente. Tem de ser muito bem enquadrado pela lei, o que não me parece ser o caso dos EUA.

De fato, um dia antes de deixar a Casa Branca, Mr. Trump extinguiu a pena de 70 pessoas e comutou a sentença de 73 outros indivíduos. Todos são pessoas de suas relações.

Chamada G1, 20 jan° 2021

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas esse dispositivo consitucional me parece uma excrescência, uma prática que combinava com a época de Luís XV, mas que hoje soa anacrônica.

Seja como for, o artigo do G1 contém uma imprecisão. O indulto é sempre coletivo. No Brasil, a concessão de indulto natalino é habitual; ele é concedido a toda uma categoria de sentenciados; por exemplo: os condenados a penas mais curtas do que 4 anos, não reincidentes, sem sangue nas mãos. Não se escolhem os beneficiários, vai a  categoria inteira, desde que responda aos requisitos.

Quando se perdoa a pena de um indivíduo isoladamente, não é indulto, mas graça. Deve-se dizer que o presidente graciou fulano de tal. Apesar de ter perdoado a pena de 70 pessoas, Trump não o fez coletivamente, mas individualmente. Eles não faziam parte de uma categoria precisa; o único ponto comum entre eles era serem todos amigos seus.

A meu ver, a graça presidencial seletiva não devia poder ser exercida pelo chefe do Executivo. Se a Justiça condenou, cabe à Justiça repensar, rever, reestudar, reconsiderar e, eventualmente, extinguir a pena. Essa possibilidade de o rei graciar seus amigos me parece destoar feio da democracia em que imaginamos viver.

Observação
O exemplo dado por Trump há de ter sido anotado com esperança e alegria pelo clã dos Bolsonaros. Se a Justiça condenar algum dos rebentos antes do término do mandato do pai, é mais que provável que o sentenciado seja graciado. Mais vale esperar que o doutor seja despachado de volta à insignificância de onde nunca deveria ter saído.

Loser

José Horta Manzano

Ingleses e americanos são bons pra criar expressões de gíria. Não sei se é a língua inglesa que se presta bem a esse contínuo exercício de criação ou se é o espírito do povo que combina com ele. Talvez os dois.

A palavra loser (=perdedor) é substantivo derivado do verbo to lose (=perder). No meio estudantil americano de meados do século 20, o termo loser adquiriu uma acepção insultuosa. Passou a designar não aquele que eventualmente deixa de vencer numa ocasião precisa – como uma partida de xadrez – mas o perdedor infeliz, habitual e contumaz, o indivíduo que não vence nunca e que passa a vida perdendo todas. No falar popular americano, a melhor tradução é fracassado, ofensa doída num país em que a meritocracia é erigida em ideal nacional.

Faz anos que Donald Trump se apresenta como o homem que vence todas, o líder carismático que tem sempre razão e que traz no bolso do colete a solução simples para males complexos; um verdadeiro deus ex machina que há de redimir o país desnorteado e à deriva. Foi assim que vendeu seu peixe e foi com esse discurso que venceu a eleição de 2016.

Quatro anos se passaram. Trump governou de olho nas pesquisas, sempre jogando para a plateia interna, um tanto descolado do fato de presidir a maior potência planetária. Não há de ter desagradado tanto assim, visto que, na corrida para o segundo mandato, recebeu mais de 70 milhões de votos. Mas o que conta é o resultado, que lhe foi desfavorável: perdeu a eleição.

O balanço de sua gestão é pra lá de negativo: perdeu a Câmara (House of Representatives) para os democratas; perdeu o Senado também para os democratas; e, pra coroar, perdeu as eleições. O homem perdeu todas! Tornou-se um loser! Um fracassado!

Essa pancada no orgulho está na origem de suas atitudes alucinadas estes últimos tempos. Durante a vida, Donald Trump já deve ter usado inúmeras vezes a palavra loser como insulto. Sentir agora a ofensa na própria carne deve ser insuportável. Loser! Loser! Loser!

Rindo da desgraça

José Horta Manzano

A pandemia tem causado stress no mundo todo. Mas a pressão não é uniforme e pode variar conforme as circunstâncias específicas de cada país. Na maior parte da Europa, o que mais tem chateado são os intermináveis períodos de confinamento. As autoridades não têm sido nada camaradas nesse aspecto. Quando decretam um confinamento, não brincam em serviço. A ordem é para a população permanecer em casa mesmo.

Pra sair, precisa levar no bolso uma atestação indicando o motivo da escapada. São poucas as razões aceitas. Entre elas: ir ao (ou voltar do) trabalho, ir ao (ou voltar do) médico, dar assistência a alguém entrevado ou doente, espichar as pernas num raio de 1km em volta da residência durante meia hora. O atestado só vale para uma saída e tem de estar preenchido e assinado antes de eventual controle. Caso o cidadão seja abordado e o atestado falte, a multa chega a R$700; reincidentes pagam o dobro. Não é mole.

Muitos fatos novos apareceram este ano, para os quais não havia palavras. O povo tratou logo de inventá-las. Algumas são mostrengos, mas há pequenas pérolas de inventividade. Em balanço de fim de ano, a mídia de língua francesa (França, Suíça, Bélgica e Canadá) destacou algumas expressões. Algumas são novas, enquanto outras, antigas, passaram a ser intensamente utilizadas.

covid          covid
coronavirus    coronavírus
quarantaine    quarentena
antimasque     antimáscara(os que se opõem à máscara)
antivax        antivacina
isolement      isolamento
faux positif   falso positivo
faux négatif   falso negativo
présentiel     presencial
coronapéro     aperô virtual(happy hour sem contacto)
bulle sociale  bolha social
distanciel     distancial
confinement    confinamento
déconfinement  desconfinamento

A casa editora do Robert, dicionário tão popular quanto nosso Aurélio, também entrou na dança. Incentivou o público a inventar palavras para descrever realidades trazidas pela epidemia. Normalmente, é malvisto criar palavras por conta própria. Neste caso, no entanto, visto que é o respeitado Robert que autoriza, ninguém será criticado.

Já há centenas de sugestões de leitores. A maioria são intraduzíveis, por serem composições de palavras. Umas poucas aguentam a transposição para nossa língua. Por exemplo, mascourir (=mascorrer), que é quando a gente volta pra casa correndo porque se esqueceu de pôr a máscara obrigatória. Ou ainda as reuniões de hydroalcooliques anonymes (=alcoolgélicos anônimos); o trocadilho é atroz, mas o resultado é simpático.

Tem mais uma que me diverte. Os franceses criaram a expressão gestes barrière (=gestos barreira) para dar nome ao conjunto de providências que cada um tem de tomar para conter o alastramento da doença: usar máscara, lavar as mãos, manter distância. Alguém com espírito mais criativo sequestrou a expressão e a transformou em gestes carrière (=gestos carreira). É quando, numa reunião Zoom, o indivíduo veste uma bonita camisa para dar aos superiores a impressão de que é pessoa séria, enquanto, na parte de baixo, está de calção e chinelo de dedo.

Bem, caros amigos, o que eu contei até aqui foi o que espirrou da válvula de escape de populações conscientes de que suas autoridades estão cuidando da saúde e do bem-estar dos habitantes. Já no Brasil, as coisas não são exatamente assim. Enquanto a vacinação já começou em uma quarentena de países, não sabemos ainda nem que vacina nos será proposta. Como consequência, não temos a menor ideia de quando será iniciada a imunização dos brasileiros. Janeiro? Fevereiro? Março? Abril? Como já disse o outro, «Pra que tanta ansiedade?».

Proponho seguir o exemplo interessate dos francofalantes. Mas não precisa inventar palavras para a epidemia e seu entorno, que essas já têm nome. No Brasil, é simples. Em vez de espremer as meninges, costumamos importar o que nos vem do inglês. E engolimos tudo cru, com casca e tudo. Lockdown, homeschooling, self isolation, home office, social distancing – e o problema está liquidado.

Não. Proponho criar palavras e expressões para contar os comportamentos que povoam estes tempos estranhos. Nossa coleção de adjetivos não dá conta, por exemplo, de descrever as barbaridades cometidas por nosso presidente. Repórteres, jornalistas e analistas esgotaram o reservatório contido nos dicionários; já não há expressões suficientemente eloquentes.

Quando é que se viu, no passado, o chefe do Estado Brasileiro ser chamado (com propriedade) de idiota, apalermado, imbecil, parvo, tapado, irresponsável? Pois esses qualificativos, antes impensáveis, estão gastos de tanto ser usados atualmente. Já não bastam. Que a criatividade da nação desperte e se manifeste! Cartas para a Redação, por favor.

Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

Kit covid

José Horta Manzano

Meses atrás, sob instigação de nosso doutor presidente, o Ministério da Saúde havia encomendado caminhões de hidroxicloroquina e de azitromicina para entregar aos estados a título de «tratamento precoce» da covid-19.

Os governadores, mais chegados às orientações da ciência do que o presidente, recusaram-se a fornecer as drogas à população. A montanha de comprimidos encalhou nos armazéns federais. Para esvaziar os galpões, o governo federal planeja despachar os remédios para as farmácias populares, com a ordem de distribui-los gratuitamente a quem pedir.

Na França, logo que a epidemia estourou, um médico do Hospital Universitário de Marselha lançou a ideia de usar hidroxicloroquina combinada com azitromicina em pacientes com covid. Fez, por sua conta, um estudo com apenas uma vintena de (jovens) pacientes seus. Concluiu que o remédio era eficaz, visto que nenhum dos doentes desenvolveu um quadro grave. Vaidoso, convocou a imprensa e foi à televisão divulgar sua descoberta. Teve seu momento de glória e ficou conhecido no país.

As autoridades sanitárias se debruçaram sobre o caso. Depois de analisar os considerandos e os finalmentes, concluíram que a administração dessa combinação de remédios, além de não ter eficiência comprovada por teste de larga escala, é problemática. De fato, exige acompanhamento médico rigoroso e contínuo, pelo risco de importantes efeitos secundários. Desde então, ficou proibido administrar essa combinação de drogas como «preventivo» de covid ou mesmo como «tratamento precoce». Unicamente pacientes hospitalizados podem receber o tratamento.

by Nando Motta, músico e ilustrador

A azitromicina é um antibiótico. Sabe-se que a ingestão indiscriminada de antibióticos favorece o aparecimento de resistência no organismo. No futuro, quando o paciente realmente precisar, esse medicamento poderá não fazer efeito.

Quanto à hidroxicloroquina, contraindicações e efeitos secundários são da pesada. Insuficiência cardíaca, arritmia ventricular, lesões da retina, hipoglicemia, convulsões, vertigens estão entre eles. Não são drogas a serem distribuídas a quem pedir, como se fossem balas de açúcar.

Ao administrar essas drogas ao paciente internado, a intenção é evitar que a doença evolua para um quadro grave. É importante repetir que a combinação de cloroquina e azitromicina não cura a covid-19. Até o momento, não foi descoberto nenhum remédio para curar essa doença.

Na minha opinião, a atitude de nosso governo federal é temerária. Em outras terras, antibióticos só são vendidos com apresentação de receita médica. A ideia do governo brasileiro de distribuir indiscriminadamente drogas que deveriam ser controladas é porta aberta para o surgimento de um problema nacional de saúde: uma legião de cidadãos resistentes a uma classe de antibióticos. Sabe-se que essa situação favorece o aparecimento de superbactérias que não cedem a nenhum tratamento. Uma calamidade.

Um último detalhe
Relatório da Anvisa informa que 72% dos ingredientes básicos que compõem os medicamentos vendidos no Brasil são produzidos na China (37%) e na Índia (35%). De genuinamente nacional mesmo, só a embalagem e a bula, se tanto. Alguém precisa contar a nosso doutor presidente que, com o «kit covid», a China ganha mais que ele.

Mais um sapo

José Horta Manzano

A pandemia pegou o planeta de surpresa – tanto dirigentes, como dirigidos. Até outro dia, epidemia dessas proporções só se via no cinema. Vira e mexe, aparecia um filme de catástrofe, daqueles em que o mundo era contaminado por alguma poeira chegada do espaço.

Falando nisso, nunca entendi por que razão visitantes alienígenas nos visitariam com intenção de extinguir a humanidade. Imagine só: como é que uma civilização adiantada, capaz de construir nave espacial sofisticada e cruzar zilhões de quilômetros, enviaria discos voadores à Terra com o objetivo de brincar de videogame, eliminando seus habitantes. Pode? Que coisa mais sem pé nem cabeça.

Acontece que a covid não é fruto da imaginação de nenhum cenarista criativo. A doença está aí, e seu alastramento está agindo como revelador do patamar civilizatório de cada povo e da engenhosidade de seus dirigentes.

O Reino Unido dobrou pela direita, começou a vacinar e deixou todos comendo poeira. O número de doses atualmente disponíveis no país é pequeno e não dá, nem de longe, para a população inteira. Mas o simples fato de terem começado a injetar a gotinha que salva abriu a válvula de segurança e deixou escapar toda a pressão acumulada. Agora, os britânicos sabem que há uma luz no fim do túnel; se não for hoje, será amanhã, mas todos terão direito à imunização. No final, é capaz de demorarem meses para proteger toda a população. Mas o que vai ficar na memória de todos é a rapidez com que agiram. E a agilidade.

Não devemos nos esquecer que a Inglaterra começou mal. Quando a pandemia se instalou, o país subiu logo ao primeiro lugar entre os mais afectados da Europa, posição pouco invejável. O primeiro-ministro, imprudente, ainda fez pouco caso da ameaça ao declarar que continuaria a «apertar mãos». Não deu outra: apanhou a covid, foi internado e terminou numa UTI. Escapou por sorte e aprendeu a lição. Seu país virou modelo de eficácia no combate à doença.

Do nosso lado do Atlântico, a coisa foi mais problemática. As três maiores economias das Américas (EUA, Brasil e México) tiveram o azar de contar com um negacionista na presidência. Trump, Bolsonaro e López Obrador desdenharam, andaram de costas, relutaram e resmungaram. Além de não ajudar no combate à epidemia, acabaram atrapalhando. O resultado é que os três países continuam a figurar no topo das estatísticas de contágio e morte.

Felizmente nossos países têm estrutura administrativa diferente da maioria dos Estados europeus. Nosso federalismo, que algumas vezes atrapalha, neste caso foi a salvação. Se dependêssemos apenas dos desvarios de nosso doutor presidente, ainda estaríamos navegando às cegas, sem estatística, sem informação sobre a real extensão da epidemia, todos correndo atrás de comprimidos de cloroquina.

Agora, que o governador de São Paulo anunciou que a vacina está quase pronta, é missão impossível doutor Bolsonaro tentar usar uma aparelhada Anvisa para retardar a homologação da vacina do Instituto Butantã. É mais um sapo que o presidente terá de engolir.

O pós-pandemia

José Horta Manzano

Em março último, assim que o surto de coronavírus apertou e virou pandemia, o presidente da França fez importante pronunciamento em cadeia nacional de rádio e tevê. Na fala, destacou os perigos da doença nova e, solene, declarou que o país estava em estado de guerra. Guerra contra o vírus, naturalmente.

Acrescentou que muitos sacrifícios estavam por vir e que o combate não podia ser encarado com pouco caso. Talvez, naquele momento, nem ele nem ninguém tivesse consciência da extensão da diabrura que o coronavírus estava aprontando.

Passados nove meses, a tempestade continua rugindo. E ainda estamos no olho do furacão, posição de onde ainda não dá pra ver o fim da agitação. Não sabemos quanto tempo ainda vai durar nem qual será o desfecho. Muitas interrogações ainda flutuam, irrespondidas.

Será que as vacinas vão imunizar mesmo? Quem já teve a doença pode ter de novo? E se o vírus sofrer mutação, a vacina continua valendo? Por que razão pessoas relativamente jovens são vítimas de forma grave da doença, enquanto outras, mais velhas, dão três espirros e logo estão curadas? Só não continuo a lista de perguntas por falta de espaço.

Entre altos dirigentes mundiais, poucos devem estar vislumbrando com exatidão as consequências da pandemia. Ela botou por terra muitas das certezas que a humanidade tinha acreditado serem direito adquirido. Quem, em sã consciência, dois anos atrás, teria imaginado um mundo em que os cidadãos andam mascarados, não apertam mãos, não se abraçam? Um mundo em que adultos não vão a restaurante, e crianças não vão à escola? Um mundo em que cúpulas de chefes de Estado se fazem por vídeo?

Algumas consequências, mais evidentes que as outras, me ocorrem.

  • A juventude ficará marcada por um ano em que o aprendizado foi perturbado, interrompido, chacoalhado.
  • Companhias aéreas estão todas com a língua de fora. As que puderem contar com repescagem governamental se salvarão; para as outras, o futuro é escuro. O ramo de transporte e turismo vai guardar sequelas por anos.
  • A indústria, que tende a acelerar a cadência a fim de recuperar as perdas causadas pela pandemia, deve provocar forte aumento da poluição atmosférica e, como consequência, precipitação do desastre climático.

Muitas mudanças mais hão de ocorrer. Conceitos terão de ser revisitados e leis terão de ser reescritas.

O pós-pandemia será período propício para a introspecção e para a reflexão. Ainda não é possível avaliar o mundo que emergirá deste período turbulento. Se ele for menos injusto que o atual, já estaremos no lucro.

Valéry Giscard d’Estaing

José Horta Manzano

Valéry Giscard d’Estaing, que presidiu a França de 1974 a 1981, era uma dessas figuras sorridentes que a gente achava que não fossem morrer nunca. Mas ninguém é eterno. Ele faleceu ontem, aos 94 anos de idade, de complicações da covid.

Valéry Giscard d’Estaing

VGE, como era popularmente chamado, ficou conhecido pelas reformas instauradas durante seu governo, que ajudaram a desempoeirar uma França que cheirava a mofo. A sociedade avançou em diversos pontos.

  • A maioridade civil, congelada na idade de 21 anos desde 1792, foi reduzida a 18 anos de idade.
  • A mulher casada ganhou direitos, entre os quais o de abrir uma conta bancária em seu nome, sem ter de pedir autorização ao marido. Embora hoje pareça algo evidente, foi um grande avanço numa época em que a mulher casada era vista como uma espécie de ‘propriedade’ do esposo.
  • O aborto voluntário foi legalizado e regulamentado.
  • VGE foi o primeiro governante a criar uma Secretaria de Estado dedicada à mulher.
  • O divórcio amigável passou a ser admitido nos tribunais. Até então, para divorciar, o cônjuge requerente tinha de provar a culpabilidade do outro.

Visto que foi presidente jovem, sobreviveu muito tempo depois de deixar o poder. Foram praticamente 40 anos de aposentadoria da vida política.

Seu falecimento me fez lembrar Rodrigues Alves, presidente do Brasil de 1902 a 1906, vítima da Gripe Espanhola em 1919. São ex-presidentes que sucumbiram à pandemia de seu tempo.

Pérfida Albion

José Horta Manzano

O governo britânico acaba de anunciar que a vacinação contra a covid-19 começa semana que vem em todo o reino. O primeiro lote de 10 milhões de doses já está pronto. Ingleses, escoceses, galeses e norte-irlandeses já estão de braço estendido à espera da picada.

Governo e população dos demais países europeus estão espantados e incomodados. Uns, por acharem que é temerário utilizar vacina nova demais, recém-saída do forno. Outros, por se sentirem despeitados de ver a ‘pérfida Albion’ queimando a largada e deixando os vizinhos (e o resto do mundo) a comer poeira.

Meus distintos leitores hão de estar intrigados com o título deste artigo. Que história é essa de ‘Pérfida Albion’? É expressão pejorativa usada na França para designar a Inglaterra.

Albion, tradicional alternativa para nomear a ilha, faz referência à cor das falésias que se erguem abruptas no litoral de Dover, porta de entrada da ilha para quem chega da Europa continental. O adjetivo latino albus/alba significa branco/a. A propósito, entre nós, essa raiz deu alvo, alvura, alvorada, alviverde, albino, albumina.

White cliffs of Dover: as brancas falésias de Dover

Quanto à perfídia, não é característica geográfica; neste caso, a palavra é pronunciada com entonação de ofensa. Como toda expressão antiga, sua origem se perde na memória. Há conjecturas. Já encontrei longas listas com momentos históricos em que a Inglaterra teria traído a França. Nesse histórico de deslealdade e traição, finco um pé atrás.

Quando há grande permeabilidade entre países vizinhos, é natural que, em momentos da história, haja surgido uma rusguinha aqui, outra ali. Os argentinos, por exemplo, não hão de ter apreciado nem um pouco quando doutor Bolsonaro declarou, mês passado, que a Argentina ‘vai pessimamente mal por causa do comunismo’. Esse foi um ato de deslealdade para com nossos hermanos, uma ofensa gratuita ao povo que, em voto majoritário, elegeu o presidente Fernández.

Desde tempos antigos, a proximidade entre França e Inglaterra tem favorecido as trocas. Trocas de mercadoria, de ideias e… de flechadas. Para o bem ou para o mal, os atritos continuam e hão de continuar por muitos e muitos anos. Excetuando-se uma catástrofe tectônica, os dois países vão continuar sendo vizinhos de parede.

Quanto à vacina, estão todos acompanhando com atenção a evolução da situação em terras britânicas. Se der certo, eles estarão mostrando o caminho a seguir; se der errado, estarão mostrando o caminho a não seguir. Olho neles!

Ilha da Trindade

José Horta Manzano

Vendée Globe é uma competição esportiva. Considerada a mais importante corrida em barco a vela do mundo, é organizada a cada quatro anos. O regulamento é rigoroso. Cada barco tem de ter um único tripulante – sem direito a assistência. Pode comunicar-se e receber instruções por rádio ou telefone, mas não pode pedir ajuda física a ninguém nem que haja problema no barco. Se precisar, pode até parar num porto, mas terá de fazer sozinho qualquer conserto. Se alguém ‘der uma mão’, o corredor será desclassificado.

A largada se dá na cidade francesa de Sables d’Olonne. Em seguida, os concorrentes devem dar a volta ao mundo, fazendo o percurso na direção oeste-leste (Atlântico Norte, Atlântico Sul, Índico, Pacífico, Estreito de Magalhães, Atlântico de novo). O ponto de chegada é o mesmo porto de onde partiram. O recordista de velocidade conseguiu fazer o percurso em pouco mais de 74 dias.

Não há de ser fácil fazer esse trajeto. Frio, calor, vento, tempestade, ondas de alto-mar – cada um tem de enfrentar isso sozinho, sem ajuda e com muito pouco tempo pra dormir. Se houver problema maior, o socorro pode levar dias pra chegar, o que pode ser um problema em caso de acidente grave.

O sinal de partida da atual edição foi dado quinze dias atrás. Os competidores ainda estão em mar calmo, ‘descendo’ o Oceano Atlântico ao longo das costas do Brasil. As coisas vão se complicar daqui a alguns dias, à medida que se aproximarem do Polo Sul. Aí, vento, frio e ondas gigantescas vão começar a castigar feio.

A bela foto que ilustra este post foi tirada estes dias por Yannick Bestaven, um dos concorrentes. Ao fundo, aparece a silhueta das ilhas da Trindade (à direita) e de Martim Vaz (à esquerda), sentinelas avançadas da terra brasileira, plantadas em pleno Atlântico a mais de 1000km da costa capixaba.