Ucrânia: o pós-guerra

José Horta Manzano

Um assíduo leitor que se assina Ricardo fez um comentário interessante no artigo Perigo por 100 anos, publicado faz alguns dias. Achei que podia interessar a todos. Publico aqui o comentário e minha resposta.

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Minha resposta
Hitler e Napoleão estão longe de ter causado à humanidade o estrago que essa estúpida guerra de Putin está provocando.

Nenhum dos ditadores belicosos do passado conseguiu a façanha de unir contra si todos os países da Europa como é o caso atualmente. Com a exceção notável da pouco significativa Bielo-Rússia (que alguns dizem ser “a última ditadura da Europa”), Putin conseguiu ressuscitar na Europa inteira o medo do urso russo, que assustou durante séculos, mas que andava hibernando havia 30 anos, desde a queda do Muro de Berlim.

Nenhum dos ditadores do passado conseguiu, como Putin, a façanha de esfomear o povo de dezenas de países espalhados pelo globo. As primeiras vítimas são os duzentos milhões de habitantes do norte da África (Egito, Argélia, Tunísia, Marrocos), que se encaminham para convulsão social em virtude da fome. Como outros países, eles são inteiramente dependentes do trigo da Ucrânia e da Rússia para fazer o pão, principal alimento da região. E esse trigo não chega mais. Quando os estoques acabarem, problemas graves vão surgir.

Quanto à Otan, ela não podia entrar na guerra como cobeligerante, nem muito menos fazer ataque preventivo à Rússia. A Otan é uma organização defensiva, não ofensiva. Foi criada logo depois da Segunda Guerra como contraponto ao Pacto de Varsóvia, que reunia os países que orbitavam em torno da União Soviética. Sempre funcionou como redoma de proteção para os países europeus que estavam fora da órbita comunista. Seu objetivo não é dar o primeiro tiro, mas responder imediatamente a um ataque inimigo. O Artigo 5° do Tratado reza que, se qualquer dos países-membros for atacado, o ataque será considerado como se fosse contra todos os signatários. A resposta, portanto, será dada por todos, em esforço coordenado.

Putin sabe muito bem disso, tanto é que não atacou os países baltas, por exemplo, que são pequenos e aparentemente indefesos. É que os três são membros da Otan. Quem está apreensivo atualmente é o povo da Moldávia, pequena e pobre vizinha da Ucrânia, que tem o PIB per capita mais baixo da Europa, que não é país-membro da Otan nem da União Europeia. No entanto, visto o fiasco protagonizado na Ucrânia pelo antes temido exército russo, dificilmente os generais de Moscou se arriscarão a atacar um segundo país, ainda que Putin esperneasse.

A decepção
A decepção dos peritos militares do mundo todo com o desempenho do exército russo é enorme. Nem mesmo os serviços de inteligência americanos, que costumam ser muito bem informados, previam um fracasso dessa magnitude. (Se previam, não deixaram vazar nada. Ficaram quietinhos.)

Imaginando que a guerra seria curta, a Rússia lançou milhares de mísseis sobre a Ucrânia. Passados dois meses e meio, não conseguiu capturar nenhuma cidade importante, perdeu sua nave-almirante (Moskvá, o encouraçado capitânia), perdeu mais algumas naves importantes e centenas (talvez milhares) de tanques. Quanto às perdas humanas, as estimações variam entre 15 mil e 30 mil homens e uma dezena de generais. Ainda por cima, o exército teve de abandonar a ideia de invadir e ocupar a capital, Kiev. Um vexame.

Nestas alturas, o estoque de mísseis russos de boa qualidade está praticamente exaurido. Eis por que eles tiveram de reduzir o front e encolher a linha de combate. Abandonaram as amplas ambições iniciais e agora limitam-se ao sudeste da Ucrânia. É exatamente a faixa litorânea que ambicionam tomar, o que incomoda a Turquia, dona do litoral do outro lado do Mar Negro.

Para fazer mísseis de boa qualidade, a Rússia precisa importar componentes eletrônicos dos Estados Unidos. Mas, ai! O comércio está embargado! Nada se vende, nada se compra. Mercadoria americana não entra mais na Rússia. Portanto, nada de míssil de boa qualidade. Os soldados de Putin às vezes lançam algum foguete de segunda categoria, tipo “buscapé”, que acaba atingindo edifício de habitação ou cemitério.

Daqui pra frente, a Rússia entra obrigatoriamente em declínio. Ainda que se aproxime da China, será a “sleeping partner” da sociedade, a parceira secundária do gigante asiático. Viverá na dependência dos caprichos de Pequim.

O futuro
O grosso das exportações russas é constituído de matérias primas: gás, petróleo e trigo. Todas as exportações estão sob crescente embargo dos países ocidentais. Dentro em pouco, as trocas comerciais entre a Rússia e o Ocidente cessarão e hão de permanecer em estado de hibernação por dezenas de anos. A China, por mais boa vontade que tenha, não será capaz de absorver sozinha a produção russa.

A Ucrânia receberá (já está recebendo) bilhões de euros e dólares para a reconstrução. Levará décadas, como foi o caso da Europa após a Segunda Guerra. Pontes, viadutos, aeroportos, estradas de rodagem, redes de saneamento e de eletricidade, edifícios públicos e privados terão de ser refeitos.

A desminagem do país – principalmente dos campos cultivados, onde o trator, a colhedeira e o arado podem roçar uma bomba e matar quem estiver por perto – será um problema a enfrentar com atenção. Vai levar muitos anos para desminar as terras aráveis.

A Rússia terá de se virar sozinha. Materialmente, não foi bombardeada nem destruída, o problema é mais profundo. Os russos terão de cuidar sozinhos de seus demônios. Um flagrante fracasso, como essa guerra de Putin, costuma levar a uma troca de regime. Mas, quando se fala em Rússia, toda previsão é arriscada. Vamos ver no que vai dar.

Por muitos e muitos anos, o país conservará seu armamento nuclear, mas continuará com extrema dificuldade para comprar ou desenvolver armas de alta tecnologia.

A consequência maior é que o medo do urso vermelho voltou à ordem do dia na Europa e na América do Norte. Desde já, no quesito imagem, a Rússia perdeu feio.

Donbas ou Donbass?

Donbas / Donbass

José Horta Manzano

Com a estúpida guerra que se instalou em território ucraniano, a palavra está no noticiário diário. A mídia brasileira hesita entre as duas formas Donbas e Donbass – com um S final e com dois. Qual é a grafia correta?

Pra começar, vamos ver qual é o significado do termo. O Rio Donets(1) é um curso d’água de certa importância. Nasce em território russo, entra na Ucrânia, irriga mais de 700km de terras desse país, em seguida volta a terras russas para desaguar no Rio Don. No total, o Donets percorre mais de 1000 quilômetros.

Desde o fim do século 19, a bacia do Rio Donets é conhecida pela abundância de minas de carvão natural. A conjunção de um curso d’água importante e da presença de carvão deu origem à siderurgia e à indústria pesada que se estabeleceram na região. É uma das razões pelas quais a Rússia faz o que pode para anexar essa província a seu território.

A palavra bacinus tinha, no latim medieval, numerosas variantes: baccinus, bassinus, bachinon e até bacca. Em espanhol, o étimo caiu em desuso, mas permanece vivo no italiano bacino, no português bacia e no francês bassin. Com o significado de “conjunto de terras ligeiramente inclinadas”, como em “bacia amazônica”, o russo e o ucraniano tomaram emprestada a forma francesa bassin, transliterada бассейн (russo) e басейн (ucraniano). Ambas são pronunciadas “basséin”.

A palavra Donbas (Donbass) nada mais é que a contração da expressão Донецкий бассейн (=Donetski bassein, em russo) ou Донецький басейн (=Donetski basein, em ucraniano). Donbas (Donbass) é a Bacia do Rio Donets.

A grafia russa requer dois ss, enquanto a ucraniana se contenta com um só. Dado que a bacia carbonífera se estende pelos dois países, eu diria que ambas as grafias são aceitáveis. Os ucranianos certamente ficarão mais felizes se transliterarmos com um S só – Donbás.(2)

(1) Tanto em russo quanto em ucraniano, o final “ets” indica o diminutivo. Portanto, Donets é “pequeno Don”, em referência ao Rio Don, o mais importante da região. No Brasil, tendo em vista que grande parte dos cursos d’água têm nome indígena, a oposição entre o maior e o menor é indicada pelos termos mirim (pequeno) e guaçu (grande), empréstimos da língua tupi. Em Santa Catarina, por exemplo, temos os Rios Saí Mirim e Saí Guaçu. Em São Paulo, estão os rios Apiaí Mirim e Apiaí Guaçu.

(2) Acentuei o á para indicar que o acento tônico cai na sílaba final. Em ambas as línguas.

Quem vai ganhar a guerra?

José Horta Manzano


Como diz o outro, fazer prognósticos é muito difícil, especialmente para o futuro.


Pra responder à pergunta “Quem vai ganhar a guerra?”, é preciso primeiro saber o que se entende por “ganhar a guerra”.

Rússia
Para a Rússia, ganhar a guerra consistiria numa anexação pura, em que a Ucrânia seria engolida inteira, crua, sem mastigar. A crer nas falas de Putin, a vitória seria coroada pela total ‘desnazificação’ do país – o que subentende a derrubada do governo atual e sua substituição por um governo vassalo. O ditador russo cometeu a afronta de afirmar que a Ucrânia não existe como país, que não passa de uma invenção de prancheta, que aquele território foi, é e sempre será russo.

Decorridos dois meses desde o início da invasão, vai ficando evidente que a Rússia não tem como atingir os objetivos fixados. Submeter e ocupar um país cabisbaixo e desarmado é uma coisa; vencer e se apossar de um país habitado por gente bem armada e disposta a defender seu solo palmo a palmo é outra coisa. Nem o analista mais pró-Putin consegue vislumbrar a bandeira russa ondulando no topo de todas as prefeituras do país.

Nesses termos, a Rússia, desde já, perdeu a guerra. Movimenta-se, agita-se, ameaça o mundo com guerra nuclear. Mas não passa de figuração – pelo menos, é o que se espera. É ponto pacífico que não atingirá os objetivos iniciais.

Ucrânia
Para a Ucrânia, a vitória seria a total expulsão do exército russo do território pátrio, incluindo Crimeia e Donbás. Seria a reconquista de todo o terreno que as tropas russas ocuparam nestes meses de guerra. Impossível não é, mas não será tarefa fácil. A Ucrânia tem drones, mas não tem mais aviação. Tem mísseis antitanque, mas não tem mísseis de longo alcance. Não dispõe de forças navais. Nesse particular, por mais que o Ocidente forneça armamento aos ucranianos, os meios da Rússia serão sempre superiores.

A Ucrânia está semidestruída. Suas cidades foram bombardeadas, aeroportos estão impraticáveis, pontes foram dinamitadas, edifícios, teatros e hospitais foram pulverizados, a infraestrutura foi seriamente danificada.

Nesses termos, pode-se dizer que também a Ucrânia, desde já, perdeu a guerra.

Conclusão
A fim de evitar uma longa guerra de posição, como não se via desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as partes beligerantes terão de sentar-se ao redor de uma mesa e chegar a um acordo. Nenhum dos lados vai atingir seus objetivos. Mas não há outro jeito. Em seguida, cada dirigente poderá apresentar a seu povo a “narrativa” que lhe parecer mais conveniente.

A grande ganhadora deste conflito está a milhares de quilômetros do front. É a China, que, sem disparar um tiro, tem agora a Rússia a seus pés. Uma Rússia que precisa vender seu gás, seu petróleo e seu trigo. Uma Rússia que precisa importar insumos e peças tecnológicas. Pelos próximos anos, as normas do comércio exterior russo e, até certo ponto, da economia russa serão ditadas pela China.

No resultado final, a Rússia sai humilhada e diminuída. A Otan sai ressuscitada. Os EUA mostram quem é que dá as ordens no mundo ocidental. A União Europeia prova que, quando se sente ameaçada, tem capacidade para dar resposta rápida, unânime e enérgica. E a China, que ganha a Rússia como fornecedor e cliente preferencial, continua crescendo.

Até amanhã, se não chover

José Horta Manzano


Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher


É quase indecente mencionar versos de Noel Rosa, o grande poeta de nossa música, em tempos de guerra, com gente morrendo e um país sendo destruído.

É que, ao condenar a barbaridade que está sendo cometida pelos russos, a gente se sente do lado certo da história. E quem está do lado certo tem direito a certa licença poética. Na guerra desencadeada pelo orgulhoso Putin, tudo o que puder atrapalhar o exército agressor é motivo de contento.

As terras negras que cobrem a Ucrânia e o sul da Rússia são extremamente férteis. Aqueles vastos espaços onde se planta trigo são responsáveis pela garantia alimentar não somente de russos e ucranianos, mas também de numerosos países ao redor do globo.

Só no norte da África (o Oriente Próximo), o trigo de lá garante o pão de 100 milhões de egípcios, 45 milhões de argelinos, 12 milhões de tunisinos e quase 40 milhões de marroquinos, num total de quase 200 milhões de indivíduos.

As terras negras, férteis e fofas permitem que o arado se afunde fácil e rasgue sulcos generosos, que permitirão a semeadura anual. Essa mesma fofura, no entanto, já causou sérios problemas a exércitos estrangeiros que tentaram invadir a região.

Napoleão, no começo do século 19, foi um dos primeiros a se afundar naquela terra. A região serviu de barreira natural, ao servir de atoleiro para cavalos e canhões. Mais de um século depois, Hitler voltou a cometer o mesmo erro. Imaginando uma conquista fácil, se afundou nas terras russas e ucranianas.

Ao invadir a Ucrânia em fevereiro último, Putin imaginou trilhar uma avenida asfaltada. Acreditava que, em questão de dois ou três dias, Kiev cairia e o exército russo seria acolhido por uma população entusiasmada. Deu tudo errado.

As estradas estavam minadas. As pontes tinham sido explodidas. O exército ucraniano estava emboscado em cada vilarejo, atrás de cada árvore, um pesadelo.

Putin já avisou que está preparando operação militar importante para assenhorear-se da região do Donbas (Leste da Ucrânia). Impassíveis, os serviços meteorológicos informam que temos pela frente uma semana de chuva pesada, que deverá transformar a terra fofa em lama preta. Aliviados, os ucranianos agradecem aos céus.

Imigrantes ucranianos

Reparem que o único a usar máscara que lhe esconde o rosto é um rapaz de aparência jovem.
O Globo, 11 abr 2022.

José Horta Manzano


Verás que um filho teu não foge à luta


Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que sinto imensa pena do infeliz povo ucraniano, covardemente atacado pelo (que se acreditava ser o) segundo exército do planeta, poderoso e bem armado. Que os agressores não sejam tão treinados nem tão articulados como se imaginava, não muda nada. São mais numerosos e donos de potencial ofensivo de primeira.

O jornal O Globo dá hoje notícia de 74 ucranianos que fugiram da invasão russa e encontraram refúgio em nosso país. O número de abrigados no Brasil é baixo, um nadinha perto dos 4,5 milhões de solicitantes de asilo que já tinham sido contabilizados deixando o país até o meio-dia de ontem. Assim mesmo, é sempre melhor acolher uns poucos do que nenhum.

Acredito que o Brasil tem potencial – e vocação – para receber muito mais gente. Mas o fato é que os que fogem da Ucrânia neste momento saem com intenção de voltar o mais rápido possível. Não são imigrantes como nos tempos de antigamente, que vendiam tudo, escolhiam o destino e vinham com armas e bagagens pra nunca mais voltar.

Os ucranianos só precisam de abrigo temporário; assim que as bombas pararem de cair do céu, querem voltar. Por isso, é compreensível que prefiram não se refugiar a 11.000 ou 12.000 quilômetros de distância de Kiev.

Na notícia d’O Globo, lê-se o seguinte:


“Os homens somam 83% do contingente de imigrantes ucranianos e 46% do total são do sexo masculino na faixa etária entre 25 e 39 anos. As mulheres somam 17% e a maioria delas, cerca de 10% do total de imigrantes, têm entre 25 e 39 anos. Entre homens e mulheres, não houve imigrantes acima de 65 anos e apenas 2% tinham menos de 14 anos na data de entrada no País.”


Fiquei um tanto perplexo. É sabido que os ucranianos do sexo masculino com idade entre 18 e 60 anos estão convocados para a defesa da pátria e, por esse fato, proibidos de deixar o país. Não é opção, é obrigatório.

A todo momento veem-se imagens de jovens que acompanham mulher e filhos pequenos até a fronteira polonesa, e em seguida embarcam de volta no mesmo trem em obediência à convocação.

A torturada redação do texto do jornal não é um primor de clareza. Assim mesmo, entende-se que 83% dos imigrantes acolhidos no Brasil são do sexo masculino e que os 17% restantes são mulheres, o que não deixa de ser lógico (83% + 17% = 100%). Aprende-se também que não há imigrantes com mais de 65 anos.

Agora vem a conclusão: a menos que todos os homens acolhidos em nosso país tenham entre 60 e 64 anos, portanto fora da faixa de alistamento obrigatório, fato bastante improvável, conclui-se que o Brasil está dando abrigo a um contigente de refratários à convocação decretada pelo governo de Kiev.

Pode-se dar um desconto e imaginar que os imigrantes tenham sido declarados inaptos para o serviço militar por serem “portadores” de problemas físicos ou mentais, como se deve dizer atualmente. Parece conjectura altamente improvável.

Resta a hipótese mais provável: o Brasil está concedendo visto humanitário a homens na força da idade, que chegam solteiros a nosso país, por terem se recusado a ajudar a defender a terra que os viu nascer e crescer. E fazem isso justamente na hora em que ela mais precisa deles.

Se assim for, começa a ficar clara a razão de a maioria dos acolhidos ser do sexo masculino. Fica também evidente o porquê de terem buscado refúgio a milhares de quilômetros da terra natal.

Ajudar a Ucrânia a enfrentar o agressor é uma coisa; acolher desertores é outra. Bem diferente.

Seria interessante pedir esclarecimentos ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Por fineza, o distinto teria o número de telefone deles?

Butcha

José Horta Manzano

Uma guerra de conquista travada na Europa em pleno século 21, de tão anacrônica e assustadora, não pôde passar despercebida. Repórteres, jornalistas, cinegrafistas do mundo todo estão de olho grudado no desenrolar dos acontecimentos.

Se a intenção de Putin era lançar uma Blitzkrieg (=guerra relâmpago), deu-se mal. Analisando desse ponto de vista, já perdeu. O bumerangue voltou mais rápido e com mais força. Em maior ou menor medida, o planeta inteiro vai sofrer; mas as consequências da insanidade serão ainda mais pesadas para Putin e seu povo.

Filmado por repórteres e sacramentado por imagens de satélite, um massacre foi cometido numa cidadezinha tranquila, situada na periferia de Kiev, povoada por 35 mil pessoas antes da guerra.

Agências internacionais deram a notícia. Como se sabe, despachos vêm em inglês. Sonolentos, alguns encarregados de traduzir para a mídia nacional descuidaram de adaptar para nossa fonética o nome da cidade agredida.

A grafia cirílica Буча, transliterada para o inglês, dá Bucha, sequência de letras que, lida por um inglês, corresponde à pronúncia original. Não sei como o nome está sendo pronunciado pelo rádio e pela tevê no Brasil. O que sei é que boa parte de nossa mídia escrita adotou, sem refletir, a grafia inglesa.

O problema é que, em inglês, as duas letrinhas “ch” são pronunciadas “tch” – coisa que a gente aprende na primeira aula. Portanto, para permitir que um leitor brasileiro pronuncie corretamente o nome da cidade, é preciso escrever Butcha, não Bucha.

Sempre alerta, a Folha de São Paulo entendeu.

Folha de São Paulo

Já os outros dois grandes órgãos da imprensa nacional continuam cochilando.

Estadão

O Globo

 

O ditador e o aprendiz

José Horta Manzano

Na Europa, o fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial representou o ponto final de um terror de seis anos, que ceifou entre 60 milhões e 70 milhões de vidas humanas. Entre todos os países envolvidos, a União Soviética pagou o tributo mais elevado. A fatura total, entre civis e militares, passa dos 20 milhões de mortos – um cataclismo.

A rendição incondicional da Alemanha foi assinada em Berlim, às 23h de 8 de maio de 1945. Naquele instante, em razão da diferença de fuso horário, já era 9 de maio em Moscou. Essa é a razão pela qual o День Победы (Dia da Vitória) se festeja nessa data na Rússia.

Por feliz coincidência, o 9 de maio coincide com a chegada da primavera. As árvores folhudas, os campos floridos e a temperatura amena propiciam um clima de festa. O fim da “Grande Guerra Patriótica” é festejado com desfile militar na Praça Vermelha na presença do ditador de turno e dos que estiverem no topo do poder.

Este ano, o 9 de maio reveste importância crucial para Vladímir Putin. É a data-limite para anunciar ao bom povo o êxito e a vitória da “operação especial” levada a cabo na Ucrânia. É impensável deixar passar em branco esse dia de comemorações sem dar a boa-nova que todos esperam.

O ministro de Relações Exteriores da França declarou nesta sexta-feira que “o pior está por vir”. Ele também deve estar pensando no frenesi que se apodera de Putin à aproximação do 9 de maio, o prazo-limite.

O ditador russo, como todo autocrata que se preza, tem dado mostras de que a preservação de vidas humanas não está no centro de suas preocupações.


A propósito, repare em nosso Bolsonaro. Nessa matéria, ele ainda não passou do estágio de aprendiz, mas já segue a mesma linha de pensamento do modelo putiniano. Apesar de ser tupiniquim, o capitão leva jeito para a coisa. Basta recordar sua atitude no auge da pandemia, na época em que, ao ver que compatriotas caíam como moscas, repetia que “todo o mundo tem de morrer mesmo”. Como Putin, ele pertence a essa categoria de indivíduos para os quais a vida (dos outros) tem pouca ou nenhuma importância.


Ao fim e ao cabo, Putin tem necessidade absoluta de exibir ao povo russo algo que possa ser chamado de vitória. Afinal, 9 de maio é o Dia da Vitória! A queda de Kiev está descartada. A ocupação da Ucrânia inteira também foi posta de lado. Que rumo tomará a invasão daqui até a data fatídica?

Ocupará a região do Donbass? Conquistará extensa faixa litorânea? Atacará a cidade de Odessa? Usará armas químicas, bacteriológicas ou até nucleares? Ninguém sabe, talvez nem o próprio ditador. O que se sabe é que ele não hesitará em fazer vítimas civis, como acaba de demonstrar ao bombardear a estação ferroviária de Kramatorsk sexta-feira passada. Muita gente ainda há de morrer.

Putin se meteu numa enrascada. Ele já se deu conta de que as sanções econômicas serão mantidas por muito tempo e, irremediavelmente, vão estrangular seu país. Sabe também que, ainda que mandasse suspender a guerra amanhã, as sanções continuariam em vigor. Portanto, a única coisa que ainda pode fazer é manter a censura aos meios de comunicação e apresentar ao povo boas notícias. Talvez isso baste para permitir-lhe permanecer no poder. Talvez.

Boas notícias para Putin são péssimas notícias para o povo ucraniano. É inacreditável o mal que a mente doentia de um só indivíduo pode causar à humanidade.

Sorte temos nós, no Brasil. Sabemos que nosso pequeno aprendiz não tem – e nunca terá – o poderio do compadre russo.


“Somos solidários à Rússia” (sic)
Declaração dada por Jair Bolsonaro em Moscou, no dia 16 fev° 2022 diante de Vladímir Putin.


 

Palavras têm peso

José Horta Manzano

Apesar do descontrole que reina nas redes sociais, terreno em que cada um se sente autorizado a dizer qualquer besteira a qualquer momento, palavras têm peso.

Apesar do descontrole que reina na mente de Bolsonaro, e que o faz sentir-se livre de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça a todo momento, palavras ainda têm peso.

Apesar do descontrole que reina no miolo de muitos políticos, e que lhes permite atacar, insultar e tentar “cancelar” qualquer um a todo momento, palavras continuam tendo peso.

Bolsonaro, que vem sendo eficientemente blindado por correligionários por ele mesmo instalados em postos-chave da República, tem escapado a toda sanção. E vai continuar escapando até o dia em que cair do coqueiro. Como se sabe, tudo o que sobe acaba caindo um dia; e, quanto maior o coqueiro, maior o tombo.

Estes dias, um deputado federal do campo bolsonarista me fez lembrar o Zé Grandão Bobo, personagem de HQ da minha infância. Era um urso, sempre desenhado armado de porrete. Era grandalhão e espalhafatoso mas inofensivo.

O deputado foi condenado a portar tornozeleira eletrônica. Num ato de grande coragem, convocou a mídia e passou 24 horas refugiado na Câmara para escapar ao vexame. Pois o rapaz tem as características do antigo personagem: é grandalhão, é bobo e não passa de um zé qualquer.

Se está nessa sinuca é porque não se deu conta de que as palavras têm peso. Insultou, em mais de uma ocasião, magistrados do STF, uma temeridade para quem goza de foro especial e sabe que, se for julgado um dia, seus juízes serão… os magistrados do STF.

Parece coisa de débil mental. Como resultado evidente, o deputado não contou com a indulgência dos juízes. Vai ter de usar a algema eletrônica, queira ou não queira. Mostrou fazer jus a minha observação: é zé, é grandão e é bobo.

O mundo inteiro descobriu ontem cenas de horror provenientes da Ucrânia. Em peso, a mídia mostrou as atrocidades cometidas pelo exército russo na pequena cidade de Butcha, abandonada pelos invasores coalhada de cadáveres de civis executados a sangue-frio.

Chocados com o que viram, alguns dirigentes não pesaram as próprias palavras e falaram em genocídio. Zelenski, o presidente da Ucrânia, foi o primeiro a usar esse qualificativo para o que se passou naquela cidadezinha da periferia de Kiev. Sendo ele o presidente do país agredido, dá pra relevar o deslize.

Fica mais difícil dar o mesmo desconto aos primeiros-ministros Pedro Sánchez (Espanha) e Mateusz Morawiecki (Polônia), que utilizaram o mesmo termo de genocídio. Estão enganados.


Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é oficial e rigorosa: é a exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. Corresponde, portanto, a limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos étnico-religiosos ou por loucura.


Aconteceu na Bósnia-Herzegovina nos anos 90, quando batalhões sérvios cuidaram de eliminar sistematicamente populações inteiras de muçulmanos.

Fica fora de esquadro falar em genocídio de russos contra ucranianos. Os dois povos compartilham a história e a religião; falam línguas muito próximas; têm entrelaçamento familiar: grande parte dos ucranianos têm parentes russos e vice-versa. Difícil mesmo é encontrar russos ou ucranianos “de raça pura”.

Pode até ser que, lá no fundo da cabeça de Putin, esteja a ideia de “cancelar” o povo ucraniano, talvez até de partir para a eliminação física. No entanto, enquanto isso não for comprovado, não convém usar o termo genocídio. Que se diga crime de guerra, expressão que não será contestada por ninguém.

Baseada no que aconteceu em Butcha, a acusação de genocídio tem pouca chance de ser recebida pelo Tribunal Penal Internacional.

Atrocidade, brutalidade, crueldade, barbaridade, massacre, selvajaria, bestialidade, desumanidade são termos de bom tamanho. Exprimem julgamento de valor e não entram em colisão com nenhuma definição oficial.

Destalinização

José Horta Manzano


Não se fazem mais guerras como antigamente.


As guerras de antigamente eram sinônimo de morticínio em grande escala. Só a Segunda Guerra (1939-1945) deixou um rastro de desolação estimado entre 70 milhões e 80 milhões de mortos, barbaridade difícil de imaginar.

Estas últimas décadas, vem se aperfeiçoando a técnica de guerra à distância, em que um indivíduo fica comodamente acomodado numa poltrona em frente a um monitor e, de lá, aciona um míssil para um “ataque cirúrgico” a ser desfechado a milhares de quilômetros de distância, visando a atingir unicamente determinado objetivo, sem deixar vítimas colaterais. A falácia é evidente, visto que todo bombardeio, por mais “cirúrgico” que seja, deixa vítimas.

Não se pode negar que as guerras modernas causam menos mortes civis e militares do que os horrores do passado. Mas não se pode esquecer tampouco um dado importante: conflitos de antigamente tinham vencedor e perdedor. A distinção era nítida entre quem ganhou e quem perdeu a guerra. Rendição ou capitulação eram o final esperado de todo conflito.

Hoje a distinção ficou bem mais difícil. Nesse arranca-rabo entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, sabe-se desde já que não haverá vencedor. A guerra só pode ser encerrada por meio de acordo. Pra não perder a face, as duas partes vão cantar vitória, mas todo o mundo sabe que ambas terão perdido. Uma Ucrânia semidestruída vai demandar anos de trabalho duro pra ser reconstruída – mas vai poder contar com ajuda do mundo civilizado.

Quanto à Rússia, vai continuar se estrangulando aos poucos. Além de ter angariado a antipatia do mundo, suas exportações de petróleo e gás tendem a minguar. Uma Europa assustada, que se deu conta de sua dependência energética para com a Rússia, está mexendo os pauzinhos para acelerar o passo em direção a energias renováveis.

Três anos depois da morte de Stalin, a União Soviética denunciou seus crimes e deu início ao grande movimento de destalinização, que funcionou para cancelar o antigo ditador, como se diria hoje. Não seria espantoso se, num futuro bastante próximo, os crimes de Putin fossem denunciados e a Rússia virasse a página e cancelasse o antigo ditador. O único caminho que a Rússia tem para se eximir de culpa é jogá-la inteirinha no ditador atual.

E passar algum tempo tranquila até que novo aventureiro se apodere do Kremlin.

Ucrânia: os refugiados

Fluxo de refugiados que deixam a Ucrânia
Crédito Infográfico: Alto-Comissariado da ONU para Refugiados

José Horta Manzano

Na terça-feira 29 de março, a contagem oficial dos ucranianos que deixaram o país em busca de refúgio no exterior atingiu a marca simbólica e impressionante de 4 milhões. Pela contagem do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, exatamente 4.019.287 pessoas tinham atravessado a fronteira.

A imensa maioria de solicitantes de asilo é constituída de mulheres, crianças e anciãos. De fato, todos os homens com idade entre 18 e 60 anos foram convocados pelo Ministério da Defesa. Não podem partir. Têm de ficar para defender a pátria agredida.

Embora todas as mulheres tenham permissão para ir-se, muitas delas preferiram ficar para ajudar como podem. Enfermeiras, parteiras, médicas e outras terapeutas estão nesse caso. Mas outras, ainda que não estejam familiarizadas com funções médicas nem paramédicas, contribuem na logística, na preparação de refeições para os combatentes, na confecção de peças de camuflagem e em outras atividades que não exijam extraordinária força física.

Mais da metade dos ucranianos que buscam refúgio no estrangeiro se dirigiram à Polônia. Exatamente 2.336.800 pessoas entraram no país, segundo o governo polonês. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, entre as fronteiras da Ucrânia com países ocidentais, a polonesa é a mais extensa. Em segundo lugar, a Polônia sofre com falta crônica de mão de obra, provocada pela emigração de muitíssimos poloneses que partiram em busca de trabalho mais bem remunerado em outros países da Europa.

Os países europeus – incluindo a Suíça, que não é membro da União Europeia – decidiram, em conjunto, conceder gratuidade de transporte a todo titular de passaporte ucraniano. Os requerentes de asilo podem viajar de ônibus ou de trem sem pagar. Quando passa o controlador, basta exibir o passaporte. É medida simbólica, simpática e extremamente útil. Muitos deles deixaram tudo pra trás e não têm mais que a roupa do corpo.

Faz muito tempo que a Europa não assistia a uma onda de solidariedade tão intensa. A última vez tinha sido em 1956, quando a Rússia (sempre ela!), que se chamava então União Soviética, mandou suas tropas à Hungria para esmagar no nascedouro um levante popular contra o autoritarismo do regime comunista, vassalo de Moscou. Os refugiados húngaros de então se espalharam por toda a Europa ocidental. Mas dois grandes fatores fazem a grande diferença entre os civis que fugiram da Hungria em 1956 e os ucranianos de hoje.

O primeiro é uma simples questão de volume; os húngaros eram “apenas” 200 mil, ao passo que os ucranianos já passam de 4 milhões – 20 vezes mais. Em seguida, o que talvez seja a diferença mais importante. Os húngaros deixaram o país natal em família (homens, mulheres, crianças e até anciãos), ou seja, saíram para não mais voltar. Já os refugiados ucranianos são praticamente só mulheres e crianças; as famílias estão separadas. Todos têm em mente a ideia fixa de reunir a família e retomar a vida de antes.

Assim, prevê-se que a maioria dos ucranianos expatriados retornará ao país natal assim que as coisas se acalmarem e que o ogro russo tiver voltado a hibernar nas neves da Sibéria. Até despertar de novo.

Cidades-irmãs

José Horta Manzano

Nós dizemos cidades-irmãs, enquanto os lusos preferem cidades gêmeas ou cidades geminadas. Mas a ideia é a mesma. A diferença aparece porque, no Brasil, traduzimos do inglês “sister cities”, ao passo que os portugueses se basearam no francês “villes jumelées”.

Embora haja menção de que algumas cidades, já na Idade Média, tenham concluído pacto de defesa mútua, o conceito só se difundiu a partir de meados do século 20.

De fato, a Segunda Guerra tinha deixado, entre outras desgraças, ressentimentos profundos. Num esforço para aplainar esses sentimentos negativos entre povos vizinhos, diferentes estratagemas foram bolados.

A partir dos anos 1960, assim que a tecnologia de tevê permitiu transmissões internacionais ao vivo, foram organizadas competições entre cidades de diferentes países. Eram brincadeiras ao estilo pastelão, com jogos realizados diante público entusiasta, cada um torcendo por sua cidade. O programa Intervilles, da televisão francesa, ficou 50 anos em cartaz.

Outra ideia posta em prática a partir dos anos 1970 foi a difusão do conceito de cidades-irmãs. Longe do propósito medieval de proteção mútua, a moderna geminação de cidades é um meio de aproximar cidades, geralmente de diferentes países. Acordos de trocas culturais, de promoção turística, de aprendizado de línguas, por exemplo, estão entre os objetivos desses acordos.

Existe até um site especializado no assunto – uma espécie de Tinder de cidades, vilas e vilarejos que buscam um par. O site, financiado pela União Europeia, está disponível em 20 línguas.

Hoje existem centenas de cidades-irmãs ao redor do globo. É comum ver um “casamento” entre cidades de importância equivalente (São Paulo + Milão). Há também cidades irmanadas por terem nome igual ou semelhante (Osasco/SP + Osasco/Itália). Outras se sentem próximas por causa de origem comum. É o caso de Pomerode (SC), colonizada por imigrantes da região da Pomerânia (Alemanha); a cidade catarinense firmou acordo de geminação com a cidade de Torgelow, que fica na Pomerânia.

A China, que não perde ocasião para parecer menos distante, menos exótica e mais amada, tem concluído pactos de geminação com muitas cidades do planeta todo. Só no Brasil, a lista de cidades-irmãs que juntam uma chinesa com uma brasileira já se aproxima de 50 “casamentos”.

No Brasil, no concurso “Quem tem mais irmãs?”, o Rio de Janeiro ganha de lavada. Já firmou 56 parcerias internacionais, sem contar as nacionais. O placar de Brasília é bem mais modesto; tem acordos com uma dezena de parceiras. Mas uma peculiaridade é comum tanto à atual capital (Brasília) quanto à antiga (Rio de Janeiro): ambas são cidades-irmãs de Kiev, capital da Ucrânia.(*)

Curiosamente, o Rio e Brasília não somente são irmanadas por terem ambas sido capitais do Brasil; dado que têm uma irmã em comum (Kiev), são irmãs duas vezes.

Neste momento, a Ucrânia está passando um mau bocado. Estava quietinha no seu canto, quando se viu invadida por um inimigo poderoso, que foi entrando sem pedir licença. Não se pode dizer que a Rússia tenha comportamento cavalheiro. Ataca escolas, destrói hospitais, derruba prédios de apartamentos. Está utilizando a Ucrânia até como campo de teste de mísseis de última geração.

Nessa briga de gente grante, o Brasil não tem força bélica nem peso econômico capazes de fazer cócegas no agressor. Apesar de nosso estúpido presidente ter declarado, às vésperas da invasão, sua “solidariedade à Rússia”(sic), o povo brasileiro está assistindo com horror ao suplício que Putin vem infligindo à população do país invadido. Solidariedade, hein? Xô!

Quando se assina acordo de geminação, não é para ter mais um diploma pra pendurar na parede da prefeitura. É nas horas ruins que se conhecem os verdadeiros amigos. Assim que as coisas se acalmarem, seria ótima ideia as autoridades municipais do Rio e de Brasília entrarem em contacto com a prefeitura de Kiev. Se não souberem o que dizer, que pelo menos ofereçam seus préstimos. Devastada, a infeliz Ucrânia precisa de tudo. Toda colaboração será bem-vinda.

Quando isso tudo terminar, vai sobrar um país a ser recontruído. Kiev é uma cidade-irmã à qual o Rio e Brasília têm de estender a mão.

(*) Kiev é transliteração (transposição para caracteres latinos) do nome da cidade tal como é escrito em russo. Os ucranianos ficam felizes quando veem o nome de sua capital transposto da forma ucraniana, que dá Kyiv. Só que, no Brasil, a forma Kiev já está demais cristalizada. Mudar agora fica complicado. Então, vamos de Kiev mesmo.

Lista das cidades-irmãs do Brasil.

A guerra e a mídia

Folha da Manhã (SP), 24 junho 1941
Capa mostra exclusivamente notícias da guerra

José Horta Manzano

É curioso constatar a que ponto o peso de cada acontecimento depende do ponto do planeta onde se situe o observador.

Nesta semana que assinala o início da primavera, olho pela janela e vejo a vegetação começar a dar sinal de vida. Saio à rua e assisto, em cada esquina, ao milagre do renascimento que retorna todos os anos. Os galhos das árvores, secos e nus de novembro até agora, soltam folhas novas, pequeninas, de um verde infantil.

Abro os jornais. A imprensa da Europa segue o mesmo roteiro das últimas 4 semanas: fala da invasão da Ucrânia – ou “Guerra de Putin”, como possivelmente virá a ser lembrada nos livros de história.

Na França, dado que o primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para daqui a menos de duas semanas, o noticiário político devia estar ocupando todo o espaço midiático, com informações, análises e comentários. No entanto, o drama ucraniano supera as paixões partidárias. São as notícias do front que ocupam as manchetes.

Lembro as palavras que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, pronunciou ao discursar perante o Congresso no dia seguinte ao do ataque japonês ao Havaí: “… a date which will live in infamy” (… uma data que ficará marcada pela infâmia).

Na memória dos europeus, o 24 de fevereiro de 2022 também ficou marcado para sempre. Foi tão impactante, que conseguiu a façanha de mandar para escanteio até a interminável pandemia – que ainda dá sinais de sobreviver nos acréscimos, pra continuar na metáfora futebolística.

Tivesse o ditador russo invadido o Turcomenistão ou a Quirguízia, não teria levantado oposição tão forte. Protestos protocolares, uma ou outra sançãozinha, e mais nada. O mundo teria continuado a girar. Mas não: o infeliz resolveu invadir um país europeu. Terrível engano.

Em matéria de guerra de conquista, a invasão da Ucrânia foi o maior erro tático cometido por um chefe de guerra desde que um certo Adolf Hitler decretou a Operação Barbarossa – a invasão da União Soviética, 81 anos atrás.

Apesar das declarações de vitória que cada uma das partes beligerantes possa vir a fazer, esta guerra não terá vencedor. Perderão todos. Uma vez cessadas as hostilidades, a Ucrânia receberá ajuda maciça para sua reconstrução. Vai levar alguns anos, mas o país vai ficar melhor do que era antes. Quanto à Rússia, sofrerá embargo, má-vontade e antipatia durante décadas.

As consequências negativas serão duradouras. Enquanto isso, quais são as manchetes na imprensa do Brasil? O tapa desferido no palco de entrega do prêmio Oscar ainda ressoa. Bolsonaro foi internado com “desconforto” digestivo (por “desconforto”, entenda-se “dores fortíssimas”; sem isso, dificilmente o homem teria sido internado). O ministro da Educação foi demitido por motivo de corrupção, deixando no ar a pergunta “cui bono?” – quem deu as diretivas ao ministro-pastor?

Notícias da guerra? Sim, há. Mas relegadas a segundo plano. A Operação Barbarossa, desencadeada num tempo sem internet e sem tevê, recebeu cobertura bem mais importante. Na imprensa, as informações cobriam a primeira página inteirinha. Os tempos mudaram.

Naquele ano de 1941, James Stewart (melhor ator) e Ginger Rogers (melhor atriz) tinham vencido o Oscar. Ainda não era costume astros e estrelas se estapearem no palco.

Standing ovation

José Horta Manzano

Até um mês atrás, a popularidade de Volodímir Zelenski, presidente da Ucrânia, andava baixa. Ele seguia o destino reservado a todos os políticos de quem os eleitores esperam milagres. Dado que, em tempos normais, milagres não costumam ocorrer, a população que conta com eles acaba se sentindo frustrada.

Acontece que a invasão das tropas russas virou o país de ponta-cabeça, e a situação mudou drasticamente. Calcula-se que, até agora, 10 milhões de cidadãos tiveram de fugir abandonando casa e bens. Isso representa 23% da população do país. Proporcionalmente, é como se 49 milhões de brasileiros tivessem sido obrigados a fugir, sem destino certo, só para salvar a pele. Uma calamidade!

O Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados informa que, até ontem 23 de fevereiro, 3,7 milhões de ucranianos – um contingente constituído basicamente de mulheres, crianças e anciãos – foram mais longe: atravessaram a fronteira e deixaram o país natal em busca de refúgio no estrangeiro, principalmente na Polônia.

Zelenski, o presidente em quem ninguém botava muita fé até outro dia(1), tem mostrado ser excelente chefe de guerra. Encarna o herói tal como é definido nos dicionários: aquele ser carismático que, em circunstâncias adversas, se destaca como figura protetora que mostra o caminho a seguir.

Seu passado de ator tem sido precioso na adversidade. O trabalho de anos diante das câmeras deu-lhe segurança na hora de falar ao público. Por meio de internet, zoom e telão, tem sido o convidado de honra de numerosos parlamentos ao redor do globo.

Sempre ovacionado de pé por parlamentares, já discursou ao vivo, por meio de telão, no Parlamento da União Europeia, no Congresso Americano, no Bundestag (Parlamento Alemão). Já se exprimiu também nos seguintes parlamentos: Canadá, Itália, Japão, Israel, Reino Unido. Ontem foi a vez da França, onde foi ouvido por deputados e senadores reunidos em sessão extraordinária. Recebeu a habitual standing ovation.

Zelenski sabe encontrar as palavras certas para tocar o fundo da alma dos que o escutam. Nos EUA, lembrou os ataques a Pearl Harbour e às torres gêmeas; na Europa, mencionou as invasões da Segunda Guerra; na França, comparou as ruínas da cidade-mártir de Mariúpol à destruição da francesa Verdun, na Primeira Guerra.

Diferentemente de seu xará russo, que pensa muito em si e pouco no próprio povo, Volodímir Zelenski tem demonstrado pouco apego à própria vida e grande amor pelo povo que o elegeu. Sabe perfeitamente que, a todo momento, um míssil russo pode destruir o palácio do governo, que ele transformou em seu quartel-general. Transpira coragem, enquanto Putin, seu agressor, vive cercado por um batalhão de seguranças e não come nada que não tenha sido antes experimentado por um dos provadores oficiais.

A Ucrânia, a Europa e o mundo inteiro torcem para que esse pesadelo termine logo. Esta é uma guerra que só deixará perdedores. Perde a Ucrânia, um país destruído. Perde a Rússia, um país condenado a passar as próximas décadas à margem da civilização. Perde o mundo, que vê ressurgir o pavor do urso soviético, que todos imaginavam morto e enterrado.

Folha de São Paulo, 20 out° 1977

Zelenski não discursou para os parlamentares brasileiros. Desconheço a razão. Talvez, ocupados com escândalos paroquiais, tenham esquecido de convidá-lo. Ou talvez nosso Congresso não disponha de telão – deve ser isso.

Em outubro de 1977, em pleno regime militar – só os muito antigos se lembrarão – nosso Congresso recebeu a visita da lindíssima atriz holandesa Sylvia Kristel. Ela tinha sido a estrela do filme Emmanuelle. A exibição do filme tinha sido proibida no Brasil, por ele ter sido considerado ousado demais. A censura só viria a liberá-lo 3 anos mais tarde.

Jornais da época relatam a tietagem de que a moça foi objeto por parte de assanhados parlamentares. (A palavra tietagem ainda não existia; dizia-se paparicação.) Sylvia Kristel conversou com deputados e senadores, todos encantados e admirativos. Foi recebida até pelos presidentes do Senado e da Câmara, respectivamente Petronio Portella e Marco Maciel(2).

Não se deve tirar nenhuma conclusão apressada. Seria injusto afirmar que nossos parlamentares se encantam mais com a visita de uma beldade estrangeira do que com um drama que sacode a Europa e que trará, é certeza, repercussões (negativas) para a economia nacional e para o dia a dia de nossa população.

Vai ver que só não convidaram Zelenski para discursar por videoconferência por não disporem do número de telefone dele.

(1) Muitos não botavam fé em Zelenski, é verdade. Mas eu não soube de nenhum chefe de Estado que tenha cometido a imprudência de zombar dele, logo nos primeiros dias da invasão, como fez nosso capitão Bolsonaro, quando fez pouco e tentou rebaixar o colega ucraniano chamando-o de “comediante”. Com direito a muxoxo.

(2) Marco Maciel, que foi vice-presidente do Brasil ao longo dos dois mandatos de FHC, faleceu no ano passado. Ele e um certo Olavo de Carvalho foram as únicas personalidades falecidas durante o governo Bolsonaro que tiveram direito a um decreto de luto oficial. (Coincidentemente, ambos faleceram de covid, doença que o capitão diz que não existiu.) Diga-se, em desagravo à memória de Maciel, que ele dificilmente terá cruzado algum dia com o outro homenageado. Não frequentavam a mesma paróquia.

O pós-guerra na Ucrânia

Dorrit Harazim (*)

Até 25 dias atrás, excetuando os diretamente interessados, brasileiros podiam confundir Carcóvia, na Ucrânia, com Cracóvia, na Polônia — ambas majestosas segundas maiores cidades de seus países. Não mais.

Também foi preciso desempoeirar às pressas nosso mapa-múndi escolar e aprender, com esta primeira guerra “live” da humanidade, a chamar Carcóvia de Kharkiv, versão anglicizada do nome original da cidade. Tudo em vão. Quando a guerra acabar não haverá mais a Kharkiv/Carcóvia de antes. Restarão apenas pirâmides de escombros e uma abissal dor coletiva, misturada a um oceano de luto individual.

Serão inúmeros os horrores e as memórias a reparar por toda a nação invadida. Da eviscerada Mariúpol, no sul do país, à europeia Lviv, no oeste, ficarão as marcas da desumanidade. A Ucrânia inteira, ou o que dela restar, precisará juntar seus cacos como sociedade.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 20 mar 2022.

Lviv

José Horta Manzano

As bombas de Putin trouxeram ao noticiário o nome de Lviv, importante cidade da Ucrânia. Para alívio de seus assustados habitantes, Lviv não foi sitiada, nem invadida, tampouco bombardeada. Até o momento em que escrevo.

A cidade foi fundada numa dessas esquinas estratégicas da Europa medieval, no que era então o Reino da Galícia-Volínia. Foi durante o reinado de Daniel I, em meados do século 13.

Nestes oito séculos, a cidade mudou de mãos numerosas vezes, pertenceu a reinos, principados, impérios e repúblicas. Teve grande número de “donos”. A impressionante lista vai aqui abaixo.

Principado da Galícia-Volínia (1256-1349)
Reino da Polônia (1349-1569)
República das Duas Nações (Polônia e Lituânia) (1569-1772)
Reino da Galícia e Lodoméria (1772-1804)
Império Austríaco (1804-1867)
Império Austro-Húngaro (1867-1918)
República Popular da Ucrânia Ocidental (1918)
Polônia (1918-1939)
União Soviética (1939-1941)
Alemanha nazista (1941-1944)
União Soviética (1944-1991)
Ucrânia (1991 até o presente)

Essa concentração de heranças tão diversas fez de Lviv uma cidade que destoa, em arquitetura, das demais cidades ucranianas. Enquanto as outras, em maior ou menor escala, guardam fortes traços da era soviética, Lviv ostenta um charme tranquilo, indefinível, com toques germânicos, bálticos e até nórdicos.

Outra marca do cosmopolitismo da cidade é sua coleção de nomes. O rei fundador deu-lhe o nome do filho Lev – que significa Leão nas línguas eslavas. Diferentes línguas traduziram, bem ou mal, o nome original. Ou simplesmente o adaptaram a sua fonética.

Os franceses hesitaram entre Léopol, Léoville e Lionville. Acabaram ficando com Lviv mesmo. Em italiano e em espanhol, o nome é Leopoli/Leópolis(*). Lituanos e letões preferem Lvovas/Lviva. Os alemães deram-lhe o nome de Lemberg. Os judeus, que chegaram a ser numerosos por lá antes dos massacres da Segunda Guerra, utilizavam o mesmo nome Lemberg, embora escrito com caracteres hebraicos. Em russo, o nome é Львов (pr: Lhvôf). Os poloneses utilizam praticamente o mesmo nome, mas escrevem em caracteres latinos: Lwów. Os ucranianos, que são os donos atuais, escrevem Львів (pr: Lhvif). Entre nós, visto que a cidade era muito pouco conhecida até outro dia, tem sido adotada a transliteração do ucraniano = Lviv.

O centro histórico da cidade está inscrito na lista do patrimônio arquitetural da Unesco. Ao sabor de guerras e ocupações, sua demografia sofreu mudanças drásticas. Em 1931, a população se subdividia em 50% de poloneses, 32% de judeus e 16% de ucranianos – cada grupo falando sua língua. Na virada do século, por volta do ano 2000, os judeus haviam praticamente desaparecido, assim como os poloneses. Por seu lado a porcentagem de ucranianos havia saltado de 16% para 88% e persistia um contingente de russos de 9%, num resquício da era soviética.

Atirar bombas sobre populações civis, como vêm fazendo as tropas de Putin em outros centros urbanos da Ucrânia, é crime contra a Humanidade. Bombardear Lviv agravaria o nível da ação celerada, acrescentando mais um crime à extensa lista de selvajaria: a destruição de patrimônio da Humanidade.

(*) Temos, no estado do Paraná, um município de nome Leópolis. Logo que fiquei sabendo, imaginei que fosse região de colonização polonesa ou ucraniana. Engano. A origem é mais prosaica. Trata-se simplesmente de homenagem ao proprietário da gleba na qual o povoado foi fundado. Ele se chamava Léo, donde o nome de Leópolis. Portanto, nada a ver com Lviv.