Coleção de imprecisões

José Horta Manzano

Logo de manhã, costumo dar uma olhada nas manchetes de meus jornais habituais. Algumas merecem reflexão. As de hoje estão aqui.

Portal BR18, 6 julho 2019

Do Portal BR18
Maia não vê ‘crime’. Fico aqui tentando adivinhar qual teria sido a misteriosa razão que levou o estagiário a proteger a palavra “crime” com um par de aspas. Esses urubus gráficos se usam em citações. Não é o caso. Podem-se também usar pra sublinhar palavra usada em sentido irônico ou desvirtuado. Não parece ser o caso – doutor Maia acredita realmente que a divulgação não constitui crime. Portanto, salvo melhor juízo, as aspas podem voltar pro armário. (De onde nunca deviam ter saído.)

Até agora, falamos da forma. Agora, vamos ao fundo. A manchete diz que doutor Maia não vê crime. E daí? Ainda que ele esteja no topo do Legislativo, não lhe cabe emitir opinião sobre o grau de criminalidade do que quer que seja. A opinião dele vale tanto quanto a minha ou a de qualquer vivente. Quem deve dizer se há ou não há crime é a Justiça. Ponto final.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Quando o político se vê encurralado e sem argumentos convincentes, costuma apelar para a velha saída do julgamento popular. Costumava aparecer ao pé do patíbulo, como última declaração do supliciado. Getúlio Vargas, que se autossupliciou, escreveu que deixava a vida pra entrar na história. Fidel Castro foi pelo mesmo caminho e disse, com voz trêmula, que a história o absolveria. (Até hoje, não ocorreu.) Lula da Silva ressuscitou a formulação do caudilho cubano ao repetir que a história o absolveria. (Por enquanto, continua cumprindo pena na cadeia.) Doutor Bolsonaro, ao lançar mão desse tipo de argumento, está indo pelo mau caminho. (Pode dar azar.)

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Maia de olho em 2022! No andar de cima, a compostura anda fazendo muita falta. Doutor Maia é presidente da Câmara. O cargo, pra lá de importante, deveria absorver todo o seu tempo. Sua preocupação deveria ser com o hoje, com o que está acontecendo agora, com os acertos que serão feitos amanhã de manhã. Não é hora de se preocupar com apoios políticos a vigorar daqui a três anos. Doutor Maia deixa claro que não está nem aí para o que acontece hoje na Casa que preside. Parece mais preocupado com assegurar a continuidade da boquinha.

Estadão, 6 julho 2019

Do Estadão
Um esquema de segurança que deixa passar uma mala com 39 quilos de cocaína num avião da frota presidencial não merece o nome que tem. Esse, sim, merece aspas: esquema de «segurança». Estava na hora de reforçá-lo. Assim mesmo, fica a interrogação sobre o que terá acontecido. Quem carregou a mala? Quem entrou com ela no avião? Por que não passou pelo raio X como toda bagagem? Houve cumplicidades? Quem ganhou com isso? A quem seria entregue? Quem forneceu a mercadoria? Saberemos um dia. Ou não.

Folha de São Paulo, 6 julho 2019

Da Folha
De novo, gente de olho em 2022. Será por isso que somos invadidos por essa sensação difusa de que não há governo. Estão todos fixados no que vai acontecer daqui a três anos. E daqui até lá, como é que fica? Continuamos empurrando com a barriga?

O Globo, 6 julho 2019

Do Globo
Por mais bem-intencionado que esteja o secretário da Desestatização, a afirmação é obtusa. As estatais não são corruptas. Nem mesmo a Odebrecht é corrupta. Nenhuma empresa é corrupta. Quem se deixa corromper são os diretores e demais funcionários dessas empresas. Dizer que uma empresa é corrupta, além de incorreto, é perigoso: acaba criando uma imagem distorcida. Durante os governos petistas, a Petrobrás foi conduzida por gente corrupta e criminosa. A empresa, em si, nunca foi corrupta.

A agonia de um regime

José Horta Manzano

Não há perigo
Duas vezes por dia, um general brasileiro acalma a população dizendo que «não há risco de guerra» entre Brasil e Venezuela. Tamanha é a insistência, que a gente acaba acreditando que há risco, sim, senhor. E pela frequência dos pronunciamentos pacificadores, o perigo deve ser grande.

Exército desastrado
No sábado 23 fev°, militares venezuelanos estacionados na fronteira de Roraima atiraram bombas lacrimogêneas em compatriotas deles que se encontravam em território brasileiro. Na prática, houve agressão belicosa contra o território nacional.

Em outros tempos, o ato seria objeto de protesto enérgico e indignado por parte de Brasília. Mas isso era em outros tempos. Hoje, há muito blá-blá e pouca ação.

Se soldados venezuelanos atiraram granadas contra solo estrangeiro, é porque foram mal-treinados. Se foram mal-treinados, é porque oficiais não sabem treinar. Se oficiais não sabem treinar, é porque o alto comando é incompetente. Portanto, não há por que temer a Venezuela. Ficou claro que as tropas que defendem o ditador são formadas por trapalhões.

Concerto de arromba
O concerto organizado em território colombiano, na fronteira com a vizinha Venezuela, atraiu 317 mil espectadores. É muita gente! Num desafio tolo e desnecessário, señor Maduro decidiu confrontar o espetáculo. Organizou um concerto paralelo para competir e para agradar aos militantes. Não reuniu mais que 20 mil pessoas. Um fiasco evitável, mas não previsto por uma elite que já perdeu o contacto com a realidade.

Fizeram falta?
Ao concerto de arromba, compareceram artistas de numerosos países da América Latina. Até artistas europeus fizeram questão de responder ‘presente!’. A ausência de astros brasileiros contrastou com o fervor dos colegas hermanos. Os artistas brasileiros engajados, aquelas figurinhas carimbadas que todos conhecem, tampouco deram as caras no concerto organizado pelos chavistas. Preferiram sorver um uisquinho em Ipanema. Pobre só é bom quando visto de longe, não é mesmo?

Sapateando no caixão
Causou escândalo o vídeo em que señor Maduro aparece ‘bailando’ em Caracas, no momento em que conterrâneos seus eram massacrados na fronteira. Por ordem sua, diga-se.

Comida destruída
Sob ordens do governo, as forças armadas atearam fogo a dois caminhões repletos de remédios e gêneros alimentícios. Ambos os veículos haviam logrado atravessar a fronteira e já se encontravam em território venezuelano.

O ato é um escárnio contra o povo sofrido, que morre por falta de alimentos e de remédios. A clique do andar de cima ‒ militares incluídos ‒ não vive essa penúria, donde o desprezo. Não dá mais pra esconder a face feia da repressão que se erigiu como sistema de governo.

Bandeira Venezuela – Cuba

Oito estrelas
Desde a independência do país, alcançada duzentos anos atrás, a bandeira da Venezuela é ornada de 7 estrelas, que representam as regiões do país. Em 2006, um Hugo Chávez no auge do poder mandou que fosse acrescentada uma oitava estrela à bandeira.

No oficial, a razão era integrar a hipotética oitava região, um naco do território da vizinha República da Guyana reivindicado havia já muito tempo. No paralelo, diz-se à boca pequena que a oitava estrela era uma preparação para futura união da Venezuela com Cuba, que se tornariam um só país. Cuba tem uma estrela na bandeira. A Venezuela tem sete. Portanto, sete + uma = oito.

Criar novo

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 nov 2018

Se não havia regime tributário para montadoras, o decreto presidencial cria um. O ‘novo’ sobra. De fato, vai um doce pra quem conseguir criar regime velho.

Se já havia um regime tributário para montadoras, não há por que criar outro. Se ele foi modificado, será melhor utilizar outro verbo que dê o recado.  Fica assim: «Temer assina decreto que modifica (altera, transforma, mexe com, remodela, muda) regime tributário.»

Pronto, o recado estará dado. Utilizar «criar novo» é uma tentação. Mas é baita redundância.

É pouco

José Horta Manzano

Consoante THE – World University Rankings, instituição amplamente reconhecida, nenhuma universidade brasileira está classificada entre as 200 melhores do mundo. Entre o 200° e o 500° lugar, aparecem duas universidades brasileiras. São as únicas instituições nacionais entre as 500 melhores do mundo. A mais bem classificada é a Universidade de São Paulo (USP), cotada entre as 300 melhores. Em seguida, vem a Universidade de Campinas (Unicamp), situada entre o 400° e o 500° lugar.

Além das duas mencionadas, quatro outras universidades brasileiras aparecem entre o 600° e o 800° lugar. São elas: a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Unifesp. Portanto, apenas meia dúzia de universidades brasileiras estão classificadas entre as mil melhores do mundo. É muito pouco.

Para efeito de comparação, está aqui um quadro com o mapa da Europa e a menção, para cada país, de quantas universidades estão entre as 500 melhores.

Mapa preparado por jakubmarian.com

Note-se que o Reino Unido tem 58(!) instituições classificadas. Seguem-lhe a Alemanha (44) e a Itália (33). Até a pequena Irlanda tem 7 universidades entre as 500 primeiras, quando o imenso Brasil tem apenas 2.

Nosso país é o 5° do mundo em território e o 5° em população. Partindo da premissa que o brasileiro não é menos inteligente que o resto da humanidade, a indigência de nosso desempenho é incompreensível. Não seria exagero esperar que ao menos uma universidade nossa ‒ umazinha só ‒ se classificasse entre as dez primeiras. Ou entre as vinte melhores. Ou, com muita condescendência, entre as cinquenta campeãs. Em vez disso, nossa melhor instituição só aparece depois das 200 primeiras. É desesperante.

O lulopetismo, que dominou a política nacional durante a última década e meia, se gaba de ter aberto mais faculdades do que nenhum outro governo anterior ‒ como nunca antes neste país. Há de ser verdade. Mas a posição brasileira na classificação global dá prova de que o balanço é ruim. Os estrategistas do partidão confundiram quantidade com qualidade. Pode trazer votos, mas não leva à excelência.

Inadequação vocabular ‒ 10

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 4 nov° 2018

As consequências nefastas das notícias falsas são tema da redação do Enem este ano. Na chamada do Estadão, o ‘sobre’ sobra.

O tema é a própria manipulação. Melhor será dizer: ‘O tema da redação do Enem é a manipulação de usuários na internet’.

Lembrete horário

José Horta Manzano

Este lembrete é pra você que tem conhecidos na Europa. Neste último domingo de outubro, mudamos de hora ‒ provavelmente pela última vez. Voltamos à hora de inverno. Na madrugada passada, quando o relógio marcou 3 horas, voltou a ser 2 horas.

As autoridades encarregadas do assunto estão atualmente considerando acabar com esse vaivém horário que perturba todo o mundo duas vezes por ano. Se as discussões forem bem sucedidas, esta terá sido a última mudança de hora. Vai valer para todos os países da União Europeia e para os vizinhos que aderem à norma.

Seja como for, convém ajustar sua agenda de contactos. Se você vive no Brasil, a distância que o separa de seu amigo na Europa fica diminuída de uma hora a partir de hoje. Se eram quatro horas, agora são três. Se eram cinco horas, agora são só quatro. E assim por diante.

Falsos amigos ‒ 1

José Horta Manzano (*)

Para aqueles que acham que Espanhol é fácil, é bom saber que lá: Boliche se diz Bolos, Bolo se diz Bizcocho, Biscoito é Galleta, Cupcake é Madalena, Waffle é Gofre e Porra é Churros.

Pra piorar, Taza é Xícara, Copa é Taça, Vaso é Copo, Lentilla é Lente de contacto, Lentilha é Lenteja, Bolso da calça é Bolsillo, Bolsa de braço é Bolso e Bolsa é saco plástico de mercado.

Também é importante saber que: Cajones é Gaveta, mas Cojones não é algo legal. Pollo é frango, mas polla não é a mulher do galo. Carrera é Corrida, mas Corrida é… bem, deixa pra lá.

E se tudo isso parece esquisito, saiba que, na Espanha, Exquisito é Gostoso, Gostoso é Rico e gente adinheirada é Rica também.

(*) Com base nas informações de Andrea Martínez.

Como é que é? ‒ 7

José Horta Manzano

Chamada de O Globo, 14 out° 2018

Por mais irresistíveis que sejam os pratos, é bom tomar cuidado com a correção. Certos erros podem dar dor de barriga.

Resistir não pede objeto direto, mas indireto com preposição. Quem resiste, resiste a alguma coisa. Esse a tem de reaparecer sempre que o verbo resistir for utilizado.

A manchete teria ficado bem mais digesta se estivesse escrito: “pratos infantis aos quais os adultos não resistem”.

Afinal, o que perdemos no incêndio?

«O incêndio do Museu Nacional só veio comprovar o descaso dos governos federal e estadual com a ciência, história e cultura do Brasil, uma vez que, anualmente, ele custava aos cofres públicos menos do que se gasta com apenas um dos 18 mil juízes do país.

Assim como o Museu Nacional, milhares de outros museus do país ainda dependem de verbas públicas que, muitas vezes, são mal direcionadas. O Museu do Amanhã, por exemplo, não realiza pesquisas e, mesmo assim, recebe anualmente 24 vezes mais do que o Museu Nacional necessitava para a sua manutenção.»

Trecho de excelente artigo publicado no blogue Tunes Engenharia Ambiental, com o detalhe do que se perdeu no incêndio do Museu Nacional. Vale a pena dar uma olhada.

Mão pesada

Sônia Racy (*)

Cláudia Cruz, ao ser condenada por evasão de divisas anteontem no TRF4, tornou-se o mais novo exemplo de como a corte é mais dura que Moro, que a havia inocentado.

Até agora, 134 sentenças do juiz de Curitiba passaram pelo TRF4. Em 67 casos, a pena aplicada ficou igual ou… aumentou. Em outros 8 casos, o tribunal condenou quando Moro havia absolvido.

(*) Sônia Racy (1956-) é jornalista.

Perguntar não ofende ‒ 6

José Horta Manzano

Dois destacados políticos presos, pilhados fazendo o que não deviam, foram transferidos para o setor de segurança máxima da cadeia. Deve-se concluir que existe um setor de segurança mínima? Faz sentido?

Perguntar não ofende ‒ 5

José Horta Manzano

Por que será que as instâncias superiores não põem em pauta o julgamento dos recursos do Lula? É a melhor maneira de dar um cala a boca a essa choradeira insuportável. Uma vez o processo transitado em julgado, não há volta possível. Que estão esperando? É passo importante para a pacificação nacional.

O limite da informação ‒ 2

José Horta Manzano

Faz dois dias, escrevi sobre os limites da utilidade da informação. Hoje apareceu mais um excelente exemplo de notícia perversa.

Chamada Estadão, 12 jun 2018

Informar sobre a progressão do vandalismo, dando a sequência de ataques como num placar que aumenta a cada dia é prejudicial. Dá ideia a bandido. Mais ajuizado seria renunciar a esse tipo de notícia.

Explicar a explicação

José Horta Manzano

Esta é do Estadão deste sábado:

Chamada Estadão, 9 jun 2018

Do jeito que está, entende-se que a Justiça determina que doutor Lindbergh entre em contacto com doutor Doria e lhe dê explicação sobre determinadas críticas.

Mas não é isso que se quis dizer. Doutor Doria é quem está a exigir explicação de críticas proferidas por doutor Lindbergh.

Portanto, a chamada devia ter dito: «Justiça intima Lindergh a explicar-se sobre críticas a Doria», onde explicar-se vale dar explicações.

Juros civilizados

José Horta Manzano

Os clientes do banco suíço UBS ‒ o mais importante do país ‒ receberam estes dias uma cartinha. O banco lembra aos que possuem cartão de crédito que podem parcelar pagamentos, se lhes for conveniente.

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O estabelecimento informa que um pagamento mínimo de 50 francos por mês é obrigatório. E adverte para a taxa de juros: são 12% ao ano. Sim, você leu bem. Ao ano.

Foi só pra dar água na boca.

De dar nó

José Horta Manzano

Suponhamos que aqui no Brasil seja sábado e, por questões de fuso horário, na Nova Zelândia já seja domingo. Eles estão «antes» ou «depois»?

Duas respostas parecem possíveis.

Estarão «antes» se considerarmos que chegaram ao domingo antes de nós.

mas…

Estarão «depois» se considerarmos que o domingo vem depois do sábado.

E durma-se com um barulho destes…