Desculpa esfarrapada

José Horta Manzano

O Partido dos Trabalhadores deu a público um filmezinho gravado por Lula da Silva pouco antes de ser preso, semanas atrás.

No vídeo, como de costume, o demiurgo peita a Justiça. Sem ruborizar, declara que podia ter fugido; se não o fez, foi porque é inocente e pretende se defender.

Dizem as más línguas que a coisa não é bem assim. Se Lula não fugiu é porque não imaginava que ordem de prisão contra ele fosse dada. Caso fosse dada, não seria cumprida. Caso fosse cumprida, ele sairia do cárcere em 24 horas.

Deu tudo errado. Ele estaria mais bem acomodado se tivesse buscado refúgio numa confortável embaixada amiga. Ah, se arrependimento matasse…

Cada uma!

José Horta Manzano

Visitantes no cárcere
Uma caravana de políticos, incluindo senadores da República, solicitou ‒ e obteve! ‒ autorização especial para visita ‘de inspeção’ à cela onde está recolhido o cidadão Lula da Silva. Desejavam conferir se o cômodo estava nos conformes e se o encarcerado estava sendo bem tratado.

Da solicitação, destaco a arrogante petulância. Imperdoável, principalmente por serem senadores da República. Haja cara de pau!

Da autorização, depreende-se que o sistema carcerário ainda não se livrou da praga do «jeitinho». As normas de visitação não preveem caravanas, ainda mais quando não são compostas de parentes ou amigos íntimos do preso. Não há razão pra flexibilizar regras. A “visita de inspeção” é insultante para as autoridades que cuidam da execução das penas.

Um ponto positivo: nenhum dos visitantes denunciou a má qualidade das condições carcerárias. Conclui-se que devem ser pra lá de boas. Se assim não fosse, imaginem a gritaria.

Aécio candidato
É verdade que um escândalo a mais ou a menos pouca diferença faz nesta terra castigada. Assim mesmo, alguns deles conseguem chocar mais.

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

Semana passada, doutor Aécio, aquele que ludibriou metade do eleitorado nas últimas eleições, passou à condição de réu em processo criminal. E nesta semana, o que é que se lê? Que o ora acusado «ainda vai resolver se se candidata à presidência da República».

Como é que é? Com acusação confirmada pelo egrégio STF, ainda pensa em se candidatar? Pouca vergonha! Devia mais é ser expulso do partido.

Perguntar não ofende: quem é mais descarado, o candidato ou quem votar nele?

Lula roubado
O veículo de Lula, confiado a um de seus oito assessores, foi assaltado. Furtaram pertences do encarcerado, objetos que a gente se pergunta o que é que estariam fazendo lá. Um frigobar, um telefone celular, peças de roupa, passaporte. Tudo declarado como pertencente a Lula da Silva. Agora vêm as inevitáveis perguntas.

O que fazia um frigobar (repleto?) no carro do Lula? A intenção era subornar um carcereiro e introduzir o objeto na cela? Fora isso, que raios fazia essa geladeira num automóvel?

Telefone celular? Do Lula? Era destinado ao preso? E eu que, ingênuo, acreditava que presos fossem proibidos de guardar celular.

E o passaporte então? Preso não costuma passar fronteira, portanto não precisa de passaporte. Pra quê o documento estava lá?

No dia seguinte ao do furto, doutora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, botou a boca no trombone para denunciar o provável envolvimento da “zelite” no assalto. Exigiu que tudo fosse investigado a fundo. Um dia mais tarde, dando-se conta de que indagações surgiriam e que o feitiço perigava virar-se contra o feiticeiro, esqueceu o assunto. E não falou mais nisso, que a emenda podia ficar pior que o soneto.

Como é que é? ‒ 4

José Horta Manzano

Revista Época, 14 abr 2018

É verdade que “dinheiro em espécie” ou “dinheiro vivo” são expressões impressionantes. Mas, pensando bem, se os dólares não fossem “em espécie”, seriam como? Em cartão de crédito? Em conta bancária? Em cheques?

Não tem jeito: dinheiro apreendido na casa de alguém só pode ser “em espécie”.

Competir o Bocuse?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 14 abr 2018

O autor da chamada escorregou. Os verbos competir e disputar, embora tenham sentido similar, não são sinônimos perfeitos.

Competir não pode ser empregado como transitivo direto. Pra acertar, o moço devia ter escrito:

  • Brasil garante vaga para competir no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para disputar o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para concorrer no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para brigar pelo Bocuse…
  • Brasil garante vaga para pleitear o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para lutar pelo Bocuse…

Quem foi que xingou?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 9 abr 2018

Entendo que a exigência do nobre advogado contribua para o objetivo maior, que é manter o Lula diariamente no noticiário.

Assim mesmo, se ele tiver intenção de investigar a autoria de cada ofensa dirigida a seu cliente, vai ter muito trabalho.

Baixa popularidade

José Horta Manzano

Estadão digital – primeira página
4 abril 2018

O demiurgo anda bem caído, com a popularidade na sola do sapato, é verdade. Assim mesmo, não é de bom-tom escrever o nome dele com minúscula. É “politicamente incorreto”, como se deve dizer hoje em dia.

1964 bis

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 4 abr 2018

E vosmicê acha que, em 1964, os fardados se preocuparam em perguntar antes se a reviravolta era “aceitável”?

Reviravoltas, golpes, rebeliões e revoluções nunca são aceitáveis, cara-pálida! Mas acontecem assim mesmo. Entram sem pedir licença.

Não vão caber

José Horta Manzano

Imagine o distinto leitor uma procissão de mil e quinhentos magistrados, uns de terno e gravata, outros de toga, todos transpondo o portal do STF na véspera do «dia D do Lula». É multidão pra nenhum sindicalista botar defeito, né não?

Chamada do Estadão

Ok, Ok, eu sei que dá pra entender. Mas não custava fazer um esforçozinho pra encontrar verbo mais adequado e, em seguida, ajustar a frase.

Para dar o recado com precisão e elegância, vários verbos estão à disposição. Entre eles:

apelar,
recorrer,
suplicar,
pedir,
solicitar,
invocar,
valer-se,
rogar,
clamar,
requerer,
implorar,
pleitear,
requestar,
reivindicar,
exortar.

A lista não é exaustiva.

Fake news ‒ 1

José Horta Manzano

No blogue do perspicaz jornalista gaúcho Políbio Braga, está a denúncia de uma fotomontagem grosseira feita pra encorpar artificialmente a fracassada caravana do Lula, que circulou pelo sul do país.

O jornalista confirma que o cenário de fundo é real: mostra a catedral e a Praça XV, Florianópolis. No entanto, a multidão não corresponde aos gatos pingados que compareceram ao comício.

Lula com dez dedos diante de multidão imaginária.
Clique, amplie e constate.

Pior que isso, a foto mostra um Lula com cinco dedos na mão esquerda, pode conferir. Ora, todos sabem que o demiurgo tem apenas quatro. A imagem é obra de um ‘fotoxopeiro’ mambembe. Tsk, tsk…

Diante de tal manipulação, o jornalista confessa ter sérias dúvidas quanto ao «atentado» de que teria sido vítima a comitiva ‒ um ataque que não deixou vítimas. Não só ‘fotoxopeiros’, mas também terroristas são mambembes…

Quem desdenha quer comprar

José Horta Manzano

Nota do Estadão desta Quinta-Feira Santa traz a explicação do Lula para a baixíssima adesão do povo à passagem de sua caravana pelo Sul:

«Se quisesse fazer campanha, não faria esse percurso, em locais desabitados, onde tem mais cabeça de gado do que gente(sic). Eu não iria pra Bagé fazer campanha. Mas eu queria ir lá pra conhecer a Unipampa, que eu criei».

Os habitantes de Bagé e os de todo o Rio Grande apreciarão a elegância do comentário.

Cosmética

José Horta Manzano

Juro que, quando li a chamada, imaginei um STF constrangido pela repercussão do triste espetáculo que deu ao aceitar discutir o livramento do Lula do perigo de prisão.

Chamada Estadão, 25 mar 2018
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Ingênuamente acreditei que estivessem prestes a agir para melhorar a imagem perante a população. Mandando para a cadeia quem merece. Quem sabe? Já seria um bom começo.

O subtítulo me desencantou e me trouxe de volta à fria realidade. A melhora da imagem não passa de cosmética. O que realmente interessa continua inalterado.

Pra que mudar o que está dando certo (pra eles), não é mesmo?

Tarda mas não falha

José Horta Manzano

Doutor Antônio Delfim Netto, criado no modesto e industrial bairro paulistano do Cambuci, subiu muito na vida. Formou-se e doutorou-se em Economia. Antes de completar quarenta anos de idade, já era Ministro da Fazenda, posto que ocupou durante sete anos.

Esteve, ao lado do generalato que dirigia o país naqueles anos sombrios, entre os signatários do famigerado AI-5, aquele ‘golpe dentro do golpe’ que cassou de vez, por muitos anos, o que restava de liberdade ao povo brasileiro.

Em 1975, trocou o trono de ministro por uma poltrona de embaixador em Paris, onde foi titular do cargo por três anos. Eram os tempos do milagre econômico, quando o mote nacional era «ninguém segura este país». As embaixadas do Brasil eram centro de interesse de muita gente disposta a investir na emergente potência.

Chamada Rádio Jovem Pan – 9 março 2018
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O que aconteceu naquela época não saiu nos jornais. Era um tempo em que a censura comia brava, a democracia estava de férias e não havia Lava a Jato. Melhor valia calar. Assim mesmo, notícias corriam à boca pequena. Faz mais de quarenta anos, mas muita gente ainda há de se lembrar.

Em Paris, a embaixada do Brasil era conhecida como «l’ambassade dix pourcent» ‒ a embaixada dez por cento. Por coerência, o embaixador era dito «Monsieur dix pourcent» ‒ senhor dez por cento. Não há documentos que atestem irregularidades. Aliás, esse tipo de irregularidade não costuma deixar rastro escrito.

Afirmam ‒ sem provas! ‒ que todo contrato que tramitasse pela embaixada tinha de deixar um óbulo de dez por cento para a caixinha de Monsieur l’Ambassadeur. Sem dúvida, não deve passar de boato maldoso. Afinal, nada ficou provado.

 

Como é que é?

José Horta Manzano

Deu no Estadão

Não entendi, sem brincadeira. Acho que, desta vez, o estagiário se superou. Para decifrar o texto, pensei em três possibilidades:

    1. Ele se refere a aeroportos que, de tão bonitos, nos deixam sem ânimo de sair e apanhar um táxi.
    2. Ou talvez sejam aeroportos que, de tão assustadores, a gente vai evitar a todo custo.
    3. Quem sabe ainda ele tenha querido dizer que aeroportos “pelo mundo” são tão numerosos que a gente até perde a vontade de ir embora (de viajar).

Se você entendeu, parabéns pela argúcia. E não se esqueça de mandar carta para a redação. Agradecimentos antecipados.