Falam de nós – 23

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Chamada jornal AS (Madrid), 10 ago 2017

Elefante branco
O portal espanhol As, especializado em esportes, repercute anúncio feito por senhor del Nero, presidente da Confederação Brasileira de Futebol. «Brasil no jugará en Maracaná porque está abandonado» ‒ é a declaração do cartola, referindo-se à partida Brasil x Chile prevista para outubro próximo.

Quando se leva em conta que, doze meses atrás, o estádio carioca fervilhava com numerosas competições dos Jogos Olímpicos, a notícia é de pasmar. Bastou um ano para o Maracanã se tornar um elefante branco, imprestável para acolher um simples jogo de futebol.

Quem são os culpados? Estão por aí, passeando, ricos, sorridentes, livres e soltos. A vergonha fica por nossa conta.

 

Chamada The Guardian (Londres), 10 ago 2017

Um problema esconde outro
O inglês The Guardian estampa a pergunta que está em todos os lábios: Por que, empacado nos distúrbios da Venezuela, o mundo ocidental ignora os problemas do Brasil?

E discorre longamente sobre as atribulações de doutor Temer, sem esquecer doutora Dilma, a corrupção, o Congresso, o Partido dos Trabalhadores, a taxa de desemprego difícil de explicar, o atraso do pagamento de salários de funcionários públicos. Um balaio de gatos.

É verdade que a desordem venezuelana, que é bem mais espetacular e que já coleciona quase 150 mortos, chama a atenção. Vista da Europa, ofusca o que possa estar acontecendo nos países vizinhos. Vista do Brasil, não é bem assim. Mas o Guardian não é obrigado a saber.

 

Chamada Ynetnews (Israel), 10 ago 2017

Terra de asilo
Cria fama e deita-te na cama, diz o provérbio. Muita gente, ao redor do mundo, continua acreditando no clichê: o Brasil é terra de asilo para bandidos. Às vezes, funciona. Para um certo senhor Elitzur, falhou.

O israelense, condenado a 20 anos de cadeia por um assassinato cometido em 2004 em seu país, conseguiu escapar para a Alemanha. É que, sendo duplo nacional, dispunha de passaporte germânico. De lá, embarcou para o Brasil, onde logrou viver anos tranquilos sob falsa identidade.

Em 2015, com ajuda da Interpol, a polícia brasileira acabou localizando o indivíduo em São Paulo. Levado à prisão, está há dois anos esperando a tramitação do processo de extradição.

Mostrando que não está lá unicamente para julgar políticos, o STF acaba de aceitar o pedido do Estado de Israel. O cidadão será extraditado dentro em breve para cumprir o resto da pena no país de origem. Parte da opinião pública israelense gostou.

 

Chamada South China Morning Post (Hong Kong), 11 ago 2017

Trump & Bolsonaro
A fama de doutor Bolsonaro já deu a volta ao mundo. O South China Morning Post, jornal publicado em Hong Kong, dá conta da ambição presidencial do deputado e o retrata como «Brazil’s Trump» ‒ o Trump brasileiro.

Dá, em seguida, um breve currículo do quase futuro candidato descrevendo-o como “versão brasileira” do nacionalismo e do conservadorismo que se espalham pelo mundo. Explica que é contrário ao aborto e aos direitos dos gays, mas favorável às armas e aos militares. Esclarece que os brasileiros, exaustos de conviver com a corrupção e com um Estado ausente, tendem a dar ouvidos à fala de doutor Bolsonaro.

Teremos um Trump tropical?

Melhor que novela

José Horta Manzano

Hoje eu ia contar algumas particularidades curiosas do exército suíço. Atropelado pelos acontecimentos pátrios, deixo para uma próxima vez.

Provando que realmente faz jus ao mais alto cargo da Câmara, senhor Cunha mostrou empatia com o anseio de 90% dos brasileiros e, magnânimo, abriu as portas para o processo de destituição de dona Dilma. Foi gesto louvável de desprendimento.

Aliás, fez-me lembrar o adágio «alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo». Ao dar-se conta de que estava cercado por todos os lados – ilhado em seu universo de mentiras desmascaradas, abandonado pouco a pouco por gente com quem imaginava poder contar, ameaçado de perder o cargo, o mandato e a liberdade, com fortuna confiscada –, o deputado jogou a última ficha.

Dilma 15Doravante, sua única (tênue) esperança é ver a tempestade se transformar em forte furacão, daqueles que carregam tudo. Se não vier o tufão, nosso rancoroso presidente da Câmara tem pouca esperança de sair incólume.

Os mais antigos hão de se lembrar da novela Vale Tudo, exibida 25 anos atrás. O Brasil parou durante os capítulos finais, quando todos queriam saber quem tinha matado Odete Reutemann(*). Curiosamente, o intuito do autor da obra era abrir o debate sobre um problema de sociedade. «Até que ponto vale ser honesto no Brasil?» – era a questão de fundo. A resposta clara não veio até hoje.

Como o distinto leitor há de imaginar, a notícia do iminente processo de destituição da presidente repercutiu na mídia mundial. Dou aqui uma coletânea.

(*) Talvez para evitar erros de pronúncia, os responsáveis decidiram grafar Roitman no lugar do original Reutemann.

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Chamada de The Guardian, Inglaterra

Chamada de The Guardian, Inglaterra

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Chamada de Le Figaro, França

Chamada de Le Figaro, França

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Chamada de Der Spiegel, Alemanha

Chamada de Der Spiegel, Alemanha

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Chamada de La Nación, Argentina

Chamada de La Nación, Argentina

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Chamada de Digi24, Romênia

Chamada de Digi24, Romênia

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Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

Chamada de El Periódico Internacional, Catalunha, Espanha

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Chamada de Sveriges Radio, Suécia

Chamada de Sveriges Radio, Suécia

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Chamada de De Volkskrant, Holanda

Chamada de De Volkskrant, Holanda

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Chamada de El País, Espanha

Chamada de El País, Espanha

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Chamada de TVN24, Polônia

Chamada de TVN24, Polônia

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Chamada de Corriere della Sera, Itália

Chamada de Corriere della Sera, Itália

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Chamada de Observador, Portugal

Chamada de Observador, Portugal

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Frase do dia — 104

«Brazil’s government has set the favelas and middle classes against each other»

«O governo do Brasil incentiva o enfrentamento entre favelas e classes médias»

Título de artigo publicado no jornal britânico The Guardian em 8 fev° 2014. Para ler o texto integral (em inglês), clique aqui.

Que trapalhada!

José Horta Manzano

A Cinematográfica Atlântida, criada no começo dos anos 40, especializou-se nas chamadas chanchadas(*), gênero próximo do vaudevile burlesco. Durante 20 anos, produziu mais de meia centena de filmes. Depois, os tempos mudaram, a televisão criou músculos e acabou se impondo. A Atlântida não aguentou o baque e fechou seus estúdios.

Chanchada

Chanchada

Na época em que a companhia cinematográfica nacional encerrava suas atividades, apareciam os primeiros filmes com o personagem James Bond, agente dos serviços secretos britânicos. Contavam histórias rocambolescas, engalanadas por beldades de fechar o comércio e animadas por espetaculares efeitos especiais. No final, o espião e galã, de aparência eternamente impecável ainda que tivesse atravessado um deserto a pé, era sempre vencedor.

Dois meses atrás, com a defecção de Edward Snowden, teve início uma nova história em capítulos. É uma história real, começada como um bom filme de James Bond e que, pelo que o sacolejo da carroça indica, periga terminar em chanchada. Os capítulos têm trazido trapalhadas de dar inveja aos Três Patetas ― os Three Stooges, cômicos do cinema americano dos anos 30. Uma impressão geral de amadorismo impera.

Tudo começou quando um certo senhor Snowden, pequeno funcionário de uma empresa terceirizada contratada pelos serviços secretos americanos, teve um súbito acesso de dom-quixotismo. Ou terá sido de estrelismo, é difícil saber. O fato é que o homem fraudou a confiança que nele haviam depositado seus empregadores e se apoderou de informações que não lhe eram destinadas. Achou de bom alvitre divulgá-las. Estava armada a primeira trapalhada: como é possível que informação confidencial de tal importância seja deixada ao alcance de um funcionário não graduado?

Em seguida, nosso protagonista confia as informações ao correspondente de um jornal inglês, baseado no Rio de Janeiro. Por que essa escolha? Por que um jornal britânico? O Reino Unido é extremamente severo com toda transgressão. O amador Snowden certamente desconhecia esse pormenor. Melhor teria feito se optasse por um jornal francês, italiano, ou de qualquer outro país menos rigoroso com essas bizarrias.

O senhor Greenwald, correspondente do jornal inglês, teme ausentar-se do Brasil. Pressente que, assim que puser os pés em terra estrangeira, será detido e extraditado para o Reino Unido ou para os EUA. Assim, para fazer chegar certas informações a uma jornalista na Europa e de lá trazer outras, serviu-se de seu companheiro brasileiro como portador.

James Bond

James Bond

Parece brincadeira: deixou que o plano de viagem do amigo incluísse uma escala… em Londres! Justo ele, que conhece como poucos a teia de espionagem mundial, deveria saber que, ao dirigir os holofotes sobre si mesmo, tornou-se uma das pessoas mais vigiadas do planeta. Todos os seus atos e gestos estão sendo perscrutados e anotados em Londres e em Washington.

Em mais uma trapalhada ― desta feita, de autoria dos serviços secretos britânicos ―, o emissário de Greenwald foi detido quando da escala londrina. Só foi liberado depois de revistado, interrogado durante horas e despojado dos objetos e das informações sensíveis que carregava.

A desastrada intervenção da polícia britânica teve duas consequências, ambas nefastas. Primeiro, trouxe à ribalta um caso que já andava meio esquecido. Segundo, incomodou um cidadão brasileiro, obrigando Brasília a um protesto formal e despertando indignação no povo brasileiro. De tabela, cutucou nossos aliados bolivarianos. Como se sabe, nossos vizinhos de parede não deixariam passar esta excelente oportunidade de esbravejar contra o «império», em cuja conta debitam todos os males do globo.

Há maneiras mais sutis de subtrair um PC, um telefone celular e alguns bastõezinhos de memória. Uma valise pode desaparecer, por exemplo. Pode-se até organizar um pseudoassalto. Afinal, quem pode o mais, pode o menos.

E assim vai a valsa, de trapalhada em desastre. Os serviços secretos americanos, Snowden, as autoridades russas, Greenwald, os serviços secretos britânicos, todos deram sua contribuição para a geleia geral. Mas o fim do filme já se conhece: Snowden e Greenwald condenaram-se a si mesmos a um degredo ad vitam æternam. O primeiro cumprirá sua pena nas estepes siberianas. Já o segundo teve mais sorte: poderá circular entre Oiapoque e Chuí, com direito a mergulho nas águas de Copacabana.

Espiões continuarão espionando e serviços secretos continuarão servindo e secretando. A Terra não vai parar de girar. Francamente, não se fazem mais bons filmes como antigamente.

(*) Chanchada ― do espanhol, por via platina. Pelas bandas do Rio da Prata, significa baixeza, deslealdade, aquilo que é informal, enganoso. No Brasil, assumiu significado mais macio.