O Jato d’Água de Genebra

José Horta Manzano

Você sabia?

O século 19 foi um tempo de expansão e de progresso em muitos campos da ciência. Na Europa, a instalação de indústrias atraiu populações rurais; as cidades cresceram rapidamente. Metrópoles como Londres, Paris e Viena são esplêndido exemplo do fenômeno. Até na pequena Suíça, o inchaço da cidade de Genebra foi significativo. Dos 64 mil habitantes de 1850, ela passou a mais de 100 mil em 1890 – crescimento comparável ao que a cidade de São Paulo conheceu por aqueles anos.

O fim do século se aproximava, mas Genebra ainda não dispunha da infraestrutura necessária para a geração de força e a distribuição de água à população. A água abundante do Lago Léman e do Rio Ródano estava à disposição, mas faltava uma instalação que gerasse pressão para distribui-la a todas as casas.

Com essa finalidade, pequena usina hidroelétrica foi construída. Em 1886, as cinco primeiras turbinas foram inauguradas, capazes de fornecer força e água tanto às indústrias quanto aos lares.

Genebra: o primeiro Jato d’Água, inaugurado em 1886

Acontece que, à noite, quando as fábricas paravam, o rio continuava a correr fazendo girar as turbinas, o que gerava excesso de pressão. Ninguém sabia quando se atingiria nível crítico, o que obrigava uma equipe a ficar todas as noites de prontidão. Um dia, alguém teve a ideia de criar uma válvula de segurança para evacuar automaticamente o excesso. Quando se atingia uma determinada pressão, o dispositivo liberava um esguicho d’água destinado a aliviar o mecanismo.

Sem se dar conta, tinham inventado o futuro cartão postal da cidade. Paris tem a Torre Eiffel; Roma, o Coliseu; Lisboa, a Torre de Belém; o Rio de Janeiro, o Corcovado. Genebra tem seu esguicho, o Jato d’Água, marca turística da cidade.

Hoje em dia, sistemas mais modernos dão conta de manter a pressão sob controle permanente, sem necessidade de recorrer ao esguicho para aliviar o excesso. O esguicho de Genebra é mantido unicamente com finalidade turística. Aliás, o atual nem está no mesmo lugar do primeiro. A municipalidade logo se deu conta do potencial turístico do Jato. Ele está hoje localizado num ponto mais afastado das margens e mais visível.

Genebra: o Jato d’Água na atualidade

O original de 1886 alcançava 30m de altura. O atual vai bem mais alto, podendo atingir 140m – a altura de um prédio de 45 andares. O jato sai num fluxo de 500 litros por segundo, a uma velocidade de 200km/h. À noite, é iluminado por 21 projetores.

Funciona o ano inteiro e só é interrompido em duas ocasiões: 1) quando o vento sopra forte e na direção errada; 2) quando a temperatura desce abaixo de 2°C, por causa do risco de projeção de gotículas de gelo, que podem causar ferimentos.

Faz mais de 130 anos que Genebra se orgulha de seu símbolo animado e ecológico. É monumento autossustentável, em harmonia com os tempos atuais.

O general ministro

José Horta Manzano

Posse?
Toda a mídia deu notícia de que o general Eduardo Pazuello é o novo ministro da Saúde. Todos, sem exceção, falaram da posse do novo ministro. Quando se olha de perto, falar em tomada de posse não é a melhor maneira de descrever o que ocorreu.

Embora o general carregasse o incômodo adjetivo ‘interino’ diante do título, já fazia quatro meses que era o ministro da Saúde de facto. A não ser que tenha passado quatro meses como figurante inativo – o que não seria surpreendente num governo em que nada mais espanta –, Pazuello já havia tomado posse do cargo há quatro meses, ainda que interinamente.

Portanto, não lhe foi dada a posse do cargo, que essa ele já tinha. A cerimônia solene marcou sua efetivação no cargo. Agora, efetivo, livrou-se do epíteto e mandou o ‘interino’ para a lata do lixo.

De toda maneira, tomar posse é força de expressão. Pode-se tomar posse de um livro, de uma casa, de um objeto, mas não de um cargo público. Cargos públicos são, por natureza, passageiros. É verdade que certos figurões se agarram ao cargo como se dele se tivessem apossado. Há deputados que chegaram a ficar três décadas no cargo. Mas essa é outra história.

Onomástico
Pazuello é um sobrenome de evidente origem ibérica. Na língua galega, falada nas províncias do noroeste da Espanha, a raiz latina Palatium evoluiu para pazo, que equivale a nosso paço. Designa um solar, uma casa suntuosa.

Pazuello seria, pois, o diminutivo de pazo = um pequeno solar, um palacete. O nome é curiosamente de formação híbrida. Embora o núcleo seja galego, o sufixo uello é castelhano legítimo. Em galego, faz-se o diminutivo com o sufixo iño, que corresponde a nosso inho. Portanto, seria de esperar um Paziño (Pazo + iño).

Entre a cruz e a espada

Híbrido ou não, neste ponto, surge um problema. O sobrenome é raríssimo. Tão raro que, vasculhando a lista telefônica da Espanha inteira, não se encontra ninguém que o ostente.

Por seu lado, ele aparece no Dicionário Sefaradi de Sobrenomes, obra compilada por Paulo V. Faiguenboim & alia, ao lado de variantes tais como Pazuelo (com um L só) e Pazuelos (com S no final).

Sefaradis são os judeus espanhóis. Eles foram expulsos do país em 1492 pelos reis católicos, o que explica o desaparecimento do nome na Espanha. É concebível que o general seja descendente de uma dessas famílias forçadas ao exílio.

Expressão
É interessante como um assunto puxa outro. Falando em expulsão dos judeus ibéricos, me veio à mente a expressão «Entre a cruz e a caldeirinha». Refere-se justamente àqueles infelizes expulsos de repente da terra que lhes dava abrigo havia séculos e na qual se sentiam integrados.

Quando foi decidido o desterro da comunidade judaica, foi dada a seus membros uma única opção: se quisessem ficar, teriam de se converter ao cristianismo. Era condição obrigatória para a permanência. Quem se recusasse a se converter e teimasse em ficar seria entregue aos cuidados da terrível Inquisição, cujos métodos não eram lá de grande delicadeza.

Eis por que se diz que os judeus foram postos «Entre a cruz e a caldeirinha» ou também «Entre a cruz e a espada», expressões que hoje continuam significando estar diante de duas opções ruins.

É permitido crer que, naquela ocasião, os antepassados de nosso ministro (agora efetivo) tenham optado por deixar o país para sempre.

Dólar & covid

José Horta Manzano

Atualmente, a rapidez com que as notícias circulam é vertiginosa. Um rápido passeio pelos principais sites de informação do planeta confirma: nem bem aconteceu, já apareceu. Assim que o fato se produz, vira manchete.

A pressa é inimiga da perfeição – já diziam as professorinhas de antigamente. É verdade. Como as agências noticiosas despacham em inglês, funcionários desatentos acabam escrevendo chamadas com sotaque. Parece até filme mal dublado(*), daqueles em que certos diálogos soam artificiais.

Dólar bate R$ 5
As palavras são nossas, mas a sintaxe é inglesa. Em inglês, de fato, dizem: “Dollar hits …”. Resolve-se o problema com a substituição de bate por atinge, chega a, alcança ou outra forma verbal que se preferir.

Ele testa positivo
É outro sintoma do mesmo fenômeno. Em inglês, fica: “he tests positive”. Em português, soa esquisito. Para o resultado do teste, é preciso modificar a estrutura da frase, que a ossatura do inglês não combina com nosso falar. Em vez de começar falando do doente, é melhor falar do teste. Assim:

Em vez de “ele testa positivo”, prefira “o teste dele deu positivo”.

Nos tempos de antigamente, se contraía uma doença. Pra seguir a receita tradicional, seria excelente dizer: “o teste confirma que o figurão contraiu o coronavirus”.

Mas quem faz a língua são os falantes. Vamos em frente com o dólar que “bate 5 reais” e com o figurão que “testa positivo”. E não se fala mais nisso.

(*) Falando em dublagem, ainda bem que esse termo foi importado numa época em que o aportuguesamento era comum. A forma francesa doublage foi adaptada à fonética nacional. Fosse hoje, o termo seria importado do inglês e utilizado sem alteração: diríamos dubbing.

Presidente excepcional

José Horta Manzano

Temos, realmente, um presidente excepcional(*). Calma. Quando digo excepcional, não entendo necessariamente que o homem seja excelente, longe disso! Estou utilizando a palavra na sua acepção primeira: o que é fora dos padrões. De memória de gente, nunca um presidente do Brasil mandou tanta bola fora. Muitos dizem que ele é imprevisível. Não acho. Pelo contrário, o gajo é totalmente previsível.

Quando um repórter lhe faz uma pergunta sobre assunto que não lhe agrada, já se sabe: o repórter será insultado. Quando dirigentes mundiais estão trabalhando para proteger o povo contra uma epidemia, doutor Bolsonaro prefere se sair com um «Muito do que falam (sic) é fantasia, isso não é crise». Foi assim que ele deu as boas-vindas ao covid, cujo estrago em nossa terra já roça os 150 mil mortos.

Todos se lembram ainda de quando, em viagem aos EUA, ele soltou uma abobrinha retumbante. Afirmou ter provas de que as eleições que ele venceu foram fraudadas. Não é comum um candidato, após vencer por ampla margem, acusar o sistema de falcatrua. Trambique em favor de quem, capitão? Em matéria de paranoia, doutor Bolsonaro dá mostras de que seu caso não tem cura. Vê inimigo por toda parte, até no sistema que lhe deu a vitória. Vá entender!

Na Argélia, não faz muito tempo, um presidente senil, paralítico e visivelmente decrépito foi considerado inapto para o exercício do poder e, em seguida, afastado definitivamente. Não sou especialista em afastamento de presidentes; vai daí, não sei dizer se o presidente poderia ser declarado impedido, nem a quem caberia tomar essa decisão. Se for possível, está na hora de seguir esse caminho.

Nosso atual presidente é um engodo. Se fraude houve na última eleição, foi em favor dele… e em desfavor do povo brasileiro. Boa parte dos que o sufragaram, votaram enganados. Não sabiam de que estofo era feito o homem. Agora, todo o mundo sabe.

Bos sibi ipsi pulverem movet
O boi levanta poeira contra si mesmo

(*) Excepcional vem direto do latim. Só aparece na língua no século 16, chegado por via erudita. O verbo originário é excipere, onde cipere significa tomar/tirar e a partícula ex- tem o sentido de fora de. Portanto, o significado final é tirar para fora. Exceptus é o particípio passado. Em nossa língua, a família deu ainda exceto, exceção, excetuar.

Excepcional é o que foi tirado fora do conjunto, ou seja, o que está fora da norma fixada e geralmente aceita, acepção que cai como luva para doutor Bolsonaro.

Outra maneira de exprimir a ideia de fora da norma é anormal. Se preferir, pode aplicar esse termo quando se referir ao doutor. É forma ideológica e gramaticalmente correta.

Perdão da dívida

José Horta Manzano

Em mais uma atitude de hipocrisia explícita,
nosso presidente comeu e cuspiu.

O país inteiro está a par: movimentos neopentecostais têm uma monstruosa dívida para com a Receita. É quase nada: um bilhão de reais. É quantia que, de tão grande, nenhum cidadão normal pode imaginar. Quanto dá um bilhão de reais? Quantas malas? Quantas cuecas? Um baú cheio? Umas vinte gavetas transbordando? Um quarto cheio talvez? Está fora de nossa realidade quotidiana.

Essas prósperas entidades se recusam a pagar os tributos que lhe são cobrados. Cobram o dízimo de seus membros, mas refugam na hora de dar o próprio dízimo para o cofre comum da sociedade brasileira.  O acúmulo desse não-pagamento deu nisso: um bi. Mas esse dinheiro é nosso, minha gente, pertence a todos os contribuintes. Não é justo nem normal que uma penca de indivíduos ávidos se apoderem do que é de todos.

Não sei quanto precisa pra montar um posto de saúde, mas essa bolada certamente permitiria construir milhares deles. Daria pra dar aumento aos professores. Daria pra comprar material e vacinar a população do país. Daria pra sanear centenas de riachos poluídos. Daria até – cúmulo do luxo – pra guardar no fundo do cofre do erário para uso futuro.

Só que, esquecidos de que estão lá para servir à população, suas excelências tiveram o desplante de aprovar uma lei de anistia fiscal que cobre todas as dívidas desse pessoal. Por lei, estão quites. Esse pastel de vento foi levado ao presidente para sanção.

Receoso de agravar o risco de ser destituído, Doutor Bolsonaro vetou a lei. No entanto, antes de que os brasileiros bem-intencionados se levantasse para aplaudir a atitude sensata do presidente, ele recomendou ao Congresso que derrube o próprio veto. É a hipocrisia elevada à categoria de membro permanente do arsenal presidencial.

Não sou especialista em Direito Constitucional. Assim mesmo, gosto de dar uma espiada no ‘livrinho’, como dizia o presidente Dutra, quando tenho alguma dúvida. No Artigo 19, encontrei um texto enxuto e cristalino que vai assim:

Art. 19
É vedado à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança […].

Viram? É expressamente vedado ao Poder Público subvencionar igrejas. Agora diga-me: se o perdão de dívidas fiscais não é subvenção disfarçada, é o quê?

Em conclusão, a constitucionalidade da lei votada pelo Parlamento pode ser contestada com base nesse artigo. Quanto ao presidente, não se deve esquecer que ele jurou cumprir a Constituição; assim, sua fala hipócrita pode ser considerada incitação ao desrespeito constitucional – portanto, repreensível.

A ver navios

José Horta Manzano

Como tantas outras expressões, também esta tem origem incerta, pouco evidente, perdida na poeira dos séculos. “Estar a ver navios” ou “ficar a ver navios” tem sotaque luso; fosse nossa, é provável que fosse “ficou vendo navios”. Assim, pode-se garantir que tenha surgido em Portugal.

No uso popular, quando se diz de alguém que “ficou a ver navios”, informa-se que esse alguém sofreu frustração, ficou decepcionado. Equivale a dizer que “voltou de mãos abanando”. Encontrei numerosas hipóteses para explicar sua origem – nenhuma delas muito convincente, por sinal.

A mais difundida é a que liga a expressão à saga de Dom Sebastião, aquele jovem rei de Portugal desaparecido em 1578 na Batalha de Alcácer-Quibir (Ksar el-Kebir, no atual Marrocos). Inconformados com o sumiço do rei, provavelmente morto no campo de luta, integrantes do establishement português puseram-se a esperar por sua volta. Esse movimento dito sebastianista foi persistente, atravessou séculos; prolongou-se até um tempo em que o bom senso indica que o rei já teria morrido de velhice. Hoje arrefeceu.

Segundo esta hipótese, multidões de lisboetas subiam ao Alto de Santa Catarina e lá permaneciam, a fitar o horizonte, pra ver se descortinavam a volta do barco do rei desaparecido. Fico um tanto desconfiado com essa lenda. Será que, em Lisboa, havia “multidões” sem outra ocupação que não fosse subir o morro pra passar horas olhando paisagem? A vista do mar é certamente linda, mas, assim mesmo, é difícil acreditar neste conto de fadas.

Há outras hipóteses. Uma delas faz referência a um rico armador da cidade do Porto, um certo Pedro Sem, que teve a péssima ideia de desafiar o Todo-Poderoso a fazê-lo empobrecer. Naquele exato instante, toda a sua frota naufragou ali, sob seus olhos, sem mais nem menos, deixando-o a ver navios indo ao fundo. Esta fantástica história me faz lembrar Jonas, o personagem bíblico que foi engolido por uma baleia, ficou três dias e três noites em seu ventre e, em seguida, foi regurgitado. Inteiro e com vida. Uma história fabulosa (no sentido de fábula).

by Louis-Philippe Crépin (1772-1851), artista francês

Outra explicação nos faz de novo subir ao Alto de Santa Catarina. Conta que armadores portugueses da época da expansão colonial lá permaneciam a perscrutar o horizonte à espera das caravelas que retornavam carregadas de mercadoria. Ainda que fosse verdade, não vejo relação entre uma coisa e outra. Se esperavam a chegada dos navios para, em seguida, descer ao porto para comerciar, onde está a decepção contida em “ficar a ver navios”?

Quem procurar encontrará ainda mais hipóteses, umas mais cabeludas que as outras. Não tenho pretensão de ter inventado a pólvora, mas acredito que a origem há de ser uma situação bem mais simples. Nada de Dom Sebastião ou de caravelas de retorno das colônias. Imagino origem próxima do dia a dia dos portugueses daquele tempo.

Tenho uma proposição de hipótese a ser acrescentada à lista das candidatas a verdade incontestável. Portugal é país voltado para o mar. Desde sempre, a pesca tem tido peso importante em sua economia. Fico imaginando um grupo de meia dúzia de pescadores que deixem a costa num barquinho e se aventurem a jogar rede mar adentro. Passado o dia, voltam com um par de sardinhas, nada mais.

“– Então, António, como foi a pesca?”

“– Péssima! Não deparámos nenhum cardume. Passámos o dia a ver navios.”

De tanto ser repetida, a expressão entrou para a língua com o sentido de voltar decepcionado. Se não for verdade, bem que poderia ser.

Aprovação presidencial

José Horta Manzano

O Brasil é um poço de problemas. É um pote até aqui de injustiça, desigualdade e desesperança. Como resolver? Nada é impossível, mas a tarefa é gigantesca. Seria coisa pra duas ou três gerações. Essa conta só vale se houver verdadeira vontade. Como sabemos, verdadeira vontade não há. Portanto, nada vai começar a mudar. Vamos continuar esperando o messias, que esse que está aí não serve.

Toda e qualquer tentativa de esvaziar o poço de problemas e de elevar o nível civilizatório das gerações futuras passa obrigatoriamente pela educação. Não é razoável nem necessário exigir que todos recebam formação acadêmica; escola fundamental já está de bom tamanho, desde que a instrução seja de boa qualidade.

Se alguém ainda duvidava que uma pessoa instruída enxerga o mundo com outros olhos, eis um cala-boca: a mais recente pesquisa do Instituto Atlas. A sondagem, que acaba de ser publicada, constata que 56% da população reprova a atuação do presidente Bolsonaro, enquanto 40% a aprovam.

Esse é o número total, o somatório de todos os entrevistados. Veja agora a diferença que um pouco de estudo faz na capacidade de entendimento de cada um. Dos que fizeram curso superior, 70% reprovam o presidente, enquanto 30% aprovam (ou não respondem). Na outra margem, entre os que não foram além do ensino fundamental, as proporções praticamente se invertem: 60% o aprovam, enquanto 40% desaprovam (ou não sabem).

O distinto leitor sabe que o doutor é um estropício, uma pedra no caminho do Brasil, um prenúncio de tempos ainda mais difíceis que os atuais. Mas essa clareza de visão é privilégio de quem recebeu boa formação – aquela que abre as portas para a boa informação.

Nos tempos do lulopetismo, ainda havia a desculpa da ideologia – muitos se recusavam a admitir que os elevados ideais eram anulados pela vil roubalheira. Hoje, essa desculpa desapareceu. Ideologia não há, o que há é a ignorância rasteira de um governo que está mais para associação mafiosa. Só não se dá conta quem não consegue.

Caçar arroz na prateleira

José Horta Manzano

Jovens brasileiros caçam arroz na prateleira como seus pais caçaram boi no pasto em 1986, na época do pranteado Sarney.

A capa do Estadão de ontem traz foto de um supermercado. À frente de uma montanha de sacos de arroz, um cartaz previne:

«Todos arroz está limitado a 03 unidades».

O confuso recado combina com os tempos estranhos que vivemos. Assim como o país, o texto não tem rumo, não sabe a que veio, nem como sair desta.

É irônico ver no mesmo jornal, lado a lado, a notícia do perdão da dívida de ‘igrejas’ – leia-se bilionárias multinacionais da fé. As notícias estão na mesma página, o que faz sentido: são duas faces da mesma moeda.

Capa do Estadão – 10 set° 2020

Do lado cara, temos um presidente que apelou aos supermercados para que renunciem ao lucro. O pedido é um rematado absurdo, considerando-se que estabelecimentos comerciais não são obras de benevolência. O lucro é o objetivo final de toda empresa.

Do lado coroa, está sobre a escrivaninha desse mesmo presidente, para sanção, uma lei recém-votada por nosso desvairado Parlamento, referente à pesada dívida que certas denominações neopentecostais têm com a Receita(*). A nova lei isenta de vez igrejas e ‘igrejas’ de todo e qualquer tributo; além disso, concede perdão fiscal a elas por todos os débitos pendurados. Isso quer dizer: sonegaram, mas está tudo bem, a conta será dividida entre todos os brasileiros. É a socialização da safadeza.

No Brasil atual, sob a orientação do clã que nos dirige, a orientação é tirar dinheiro de empresas normais, que compram e vendem, para entregá-lo a ‘bispos’ auto-ordenados e trambiqueiros, que se tornaram bilionários à custa da ingenuidade alheia. Pode?

Bem voltemos a todos arroz. O cartaz tem poucas palavras, mas alguns grãos de areia incomodam.

1. Dado que o sujeito está no plural, o verbo deve acompanhar. “Estão limitados” ficaria melhor. Como o “está limitado” já vinha pré-impresso, vamos deixar barato.

2. “03 unidades”. Ah, esse zero inútil antes dos números é praga. Este blogueiro é do tempo em que dígito se chamava algarismo e valia por si, sem precisar da inútil companhia de um zero à esquerda.

3. Ainda “03 unidades”. Por que “unidades”? A palavra saco tornou-se politicamente incorreta? Pois acho que “3 sacos” fica melhor; são 3 sacos de arroz.

4. “Todos arroz”. Em duas palavras, dois escorregões. Primeiro, falta o artigo. Segundo, muita gente não sabe, mas arroz tem plural. É arrozes. Não é usual, mas no cartaz do supermercado caberia perfeitamente. Portanto: “Todos os arrozes”.

Arrozes num restaurante espanhol

(*) Caso o distinto leitor queira, por curiosidade, saber se seu deputado foi cúmplice da aprovação dessa velhacaria, consulte a lista que a Câmara publicou com o voto de cada um. Pode-se ordenar por unidade da Federação, por partido ou por deputado. Clique aqui.

Bye bye, Oscar!

Fernão Lara Mesquita (*)

Depois da britânica British Academy of Film and Television Arts, a americana Academy of Motion Pictures Arts and Sciences anunciou terça-feira que qualquer filme que queira candidatar-se ao Oscar terá de atender a uma lista de exigências que incluem:

• o uso de atores de grupos raciais ou étnicos sub-representados;

• roteiros centrados nesses temas;

• lideranças criativas ou posições-chave ocupadas por mulheres ou membros de grupos raciais e étnicos, da comunidade LGBTQ+ ou pessoas com problemas físicos ou cognitivos;

• estagiários pagos pertencentes a esses grupos e marketing de distribuição com componentes de diversidade.

Num escalonamento de três anos a começar pelo Oscar do ano que vem, quando pelo menos dois desses quatro quesitos já terão de ser atendidos, as exigências serão crescentes nas áreas de Atuação, Temas e Narrativas, Liderança Criativa e Equipe Técnica, Acesso à Industria e Oportunidades de Desenvolvimento de Audiências.

Na Alemanha nazista, assim como na União Soviética e países da Cortina de Ferro antes da queda do Muro, ou ainda na Coréia do Norte de hoje, normas de adequação política sempre condicionaram absolutamente a produção intelectual e artística, sob pena de morte.

Mesmo nos próprios Estados Unidos, não é a primeira vez que a Academia impõe regras alheias à qualidade do filme como condição para concorrer ao Oscar. Entre 1950 e 1957 eram desqualificados filmes que incluíssem qualquer ator, diretor ou pessoa com função proeminente na produção que tivesse sido membro do Partido Comunista ou que tivesse recusado testemunhar para o Comitê de Atividades Anti-americanas do Congresso, período durante o qual o apedrejamento tornou-se obrigatório para qualquer pessoa sonhando com fazer carreira no cinema americano ou de qualquer outra nacionalidade hoje.

Mesmo com um paralelo tão evidente não caiu a ficha dos novos macarthistas de Hollywood, o que confirma minha tese de que o melhor investimento do momento é comprar lotes de passagens para Marte pois é já que elas estarão sendo disputadas a peso de diamantes nesse mundo insuportavelmente chato que está aí.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista, articulista do Estadão e editor do blogue Vespeiro

Reeleição presidencial

José Horta Manzano

Costuma dizer-se que, em política, o brasileiro tem memória curta. No entanto, uma vista d’olhos à paisagem além-fronteiras ensina que esse traço de caráter não é exclusividade nacional. Em outras partes do mundo, dá-se o mesmo. O que pode variar é o intervalo que vai do fato ao esquecimento. Para casos comuns, um período de 15 a 30 anos é de bom tamanho. Passado esse tempo, o que aconteceu vai para o arquivo morto da memória.

Em momentos conturbados como o que o Brasil atravessa atualmente, o caudal de horrores produz duas consequências. Por um lado, o limite do aceitável se alarga, fazendo com que o indizível, antes obsceno, passe a ser dito em salões de respeito. Por outro, dado que a baciada de barbaridades é ininterrupta, seu volume age como fator suavizante – cada nova enormidade enterra a anterior.

Casos absolutamente fora do comum demandam mais tempo: as marcas da tragédia da Segunda Guerra, por exemplo, ainda são vivas na memória coletiva alemã, 75 anos depois do fim das hostilidades. E isso ainda periga durar um bom tempo.

A memória da presidência FHC, que terminou há 18 anos, já está encaixotada para arquivamento. Basta imaginar que os brasileiros de menos de 25 anos – quase metade da população – ainda não estavam em idade de compreender, quando o sociólogo deixou o trono. Há que ressalvar, é verdade, que os que lhe sucederam não economizaram esforços na tarefa de embaçar-lhe a imagem.

À beira dos 90 anos, FHC já chegou àquela idade em que o grosso da existência ficou para trás. Não vendo razão para continuar a dourar a pílula, comete um ou outro curioso sincericídio. A mídia costuma publicar artigos seus. O mais recente saiu no passado fim de semana.

Os mais velhos se lembrarão de que, antes de Fernando Henrique, a legislação política brasileira não previa a reeleição para cargos do Executivo. Tal como acontece ainda hoje no Chile, por exemplo, o presidente da República tinha direito a mandato de 4 anos, único e não renovável. Se quisesse voltar, tinha de entregar a faixa e esperar a eleição seguinte para se candidatar.

A emenda constitucional que abriu caminho para a reeleição foi votada no primeiro mandato de FHC. Levantando os braços aos céus, seus adversários denunciaram o escândalo: os votos para a vitória da PEC da reeleição teriam sido comprados! (Diga-se de passagem que, mais adiante, nenhum deles desdenharia o benefício desse dispositivo legal; mas essa já é outra história.)

Em seu último artigo, num sussurro e por linhas tortas, FHC admite que foi realmente assim. Surpreendentemente, confessa que errou. O erro não está em ter eventualmente cooptado parlamentares, mas em ter contribuído para enxertar na legislação política um instituto pernicioso. Tenho tendência a concordar com o ex-presidente.

A mim parece que, no universo político brasileiro, a possibilidade de reeleição, seja no nível que for, é péssima ideia; para a Presidência da República, é catástrofe anunciada. Todos já se deram conta de que doutor Bolsonaro, depois de cumprir ano e meio de mandato (dos quatro a que se comprometeu), entrou firme em campanha de reeleição. Não precisa ser futurólogo para adivinhar que, nos próximos dois anos, o fenômeno vai se acentuar. Se seu modo de governar já não era grande coisa, a perspectiva é de piora.

A possibilidade de reeleição inserida na legislação gera um quadro peculiar. Nos primeiros dois anos de mandato, o presidente tateia, sonda, vê ‘se dá pé’. Passado esse período, em vez de tomar as rédeas e executar seu programa de governo, põe-se a trabalhar para a reeleição. Vira presidente-boiadeiro, presidente-chapéu de couro, presidente-caiçara. Passeia pelo país, beija criancinhas, distribui benesses a parlamentares transformados em cabos eleitorais. Governar, que é bom, fica pra uma outra vez.

Caso seja reeleito (tanto o Lula quanto a doutora foram), já entra no segundo mandato sem ânimo. Terá gastado, no primeiro, toda a energia de que dispunha. Já que a lei não permite um terceiro mandato, pra que se esforçar?

Por essa razão, concordo com FHC em sua recusa (tardia, mas bem-vinda) do instituto da reeleição. No Brasil, enquanto o nível de consciência política não tiver se elevado, mais vale voltar ao sistema anterior, com mandato único e não renovável.

Se essa volta atrás for decidida um dia, é bom não esquecer de vedar a possibilidade de um parente do presidente pleitear o cargo. Que se exija um intervalo de pelo menos quatro anos entre o antigo dirigente e seu parente. Isso é pra evitar a implantação duma ‘dinastia familiar’ por rodízio, como fez o casal Kirchner na Argentina, alternância danosa que só foi quebrada com a morte de um dos atores.

São outros quinhentos

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem sempre é fácil encontrar a origem de expressões da língua. Algumas são tão evidentes que não precisam de explicação. Outras são misteriosas, como é o caso desta que tratamos hoje. Que outros quinhentos serão esses?

Fosse feita anos atrás, uma busca desse tipo seria trabalhosa. Precisava conversar com os mais velhos, perguntar ao professor de Português, ir até a casa de um amigo que tivesse a Enciclopédia Barsa – mas ir com disposição pra passar a tarde consultando os intermináveis 22 volumes. Era complicado, mas tinha uma vantagem: achada uma resposta, a gente se contentava. Era aquela, e não se falava mais nisso.

Hoje mudou. Em três rápidos cliques, encontram-se respostas. O problema é que surge logo uma dúzia de explicações, que nem sempre têm a ver uma com a outra. O engraçado é que tem gente incapaz de transmitir com as próprias palavras aquilo que leu; então, num rápido exercício de copiar/colar, apanham parágrafos inteiros e apresentam como se fosse obra sua. Curioso. O resultado é a multiplicidade de pistas, umas mais consistentes, outras menos.

Uma origem, apresentada por alguns como legítima, é a história engraçada de um trapaceiro que chega a uma cidadezinha e, com sua lábia, acaba enganando o padre, o fazendeiro, o dono da venda. E consegue extorquir 500 (reais, cruzeiros, milréis, como queira) deles. A historieta é engenhosa, mas não convence. Como é que uma piadinha que quase ninguém conhece havia de se transformar em expressão popular tão arraigada?

Outra origem – esta, mais consistente – situa a origem da expressão nos tempos medievais, uns 700 anos atrás. Encontrei um bocado de gente fina sustentando esta explicação. Naqueles tempos, a nobreza formava casta superior, cujos membros escapavam à lei comum. Até para punir delito de injúria, a pena variava conforme o ofendido pertencesse à nobreza ou ao povão. Quem ofendesse gente simples pagava 300 soldos de multa; se ofendesse barão, duque ou marquês, o descuido ia lhe custar 500 soldos(*).

Acontece que o pagamento da multa não livrava o ofensor de futuros arroubos. Caso escorregasse e reincidisse, pagava nova multa: eram outros 500. A história parece um tanto esquisita, mas é o que encontrei. Quando topam com uma explicação dessas, meio tortuosa, os franceses dizem que foi «tirée par les cheveux – puxada pelos cabelos». Ai, meu couro cabeludo!

(*) O soldo
Durante toda a Idade Média, antes da reforma introduzida no século XV pelo rei Eduardo 1°, a unidade monetária do Reino de Portugal foi o dinheiro, nome simples mas evidente, derivado do denarius romano.

De toda maneira, na Idade Média, dinheiro não era como hoje; não havia notas e os valores não circulavam. O escambo (sistema de trocas) era o modo habitual de comerciar. Portanto, que o dinheiro se chamasse dinheiro não incomodava ninguém. Doze dinheiros valiam um soldo (do latim solidus), e vinte soldos valiam uma libra (do latim libra).

Quem se lembrou do sistema vigente na Inglaterra até 1971, antes da decimalização da moeda, acertou. A libra se dividia em 20 xelins(shillings), subdivididos em 12 pence cada um. Como no Reino de Portugal, era reminiscência do sistema romano.

Sete de Setembro

José Horta Manzano

Pra quem não conhece, vamos começar do começo. Por estrada de rodagem, a distância entre Santos e São Paulo é de mais ou menos 70km. Dizendo assim, parece pouco, mas o desnível faz toda a diferença. Santos fica à beira-mar, enquanto SP se encontra num platô, a uma altitude de mais de 700 metros. Hoje, viajando num carro confortável, sobre quatro rodas de borracha girando no asfalto, a gente nem se dá conta de que subiu a serra. Duzentos anos atrás, eram outros quinhentos.

Dia 7 de setembro de 1822, o filho do rei fez a viagem de subida. Não se sabe como estava o tempo, se fazia sol, se chovia, se estava fresquinho ou quente como o diabo. Aliás, não se sabe grande coisa. Certo é que a viagem era laboriosa, cheia de perigos e imprevistos. Caminhava-se com as próprias pernas, quiçá agarrando em árvores. Cavalo não subia a serra. A tarefa de portar as bagagens era entregue a mulas. Nenhum viajante estava ao abrigo de um temporal, de um deslizamento de terreno ou de uma onça faminta que atacasse um infeliz que tivesse se apartado por via de uma necessidade urgente.

O príncipe, cujo caráter não era dócil, há de ter chegado ao planalto exausto e de maus bofes. Dizem que, naquele dia, estava com dor de barriga, o que só fazia piorar a situação. Na escola, aprendemos que um mensageiro o alcançou. Falando em mensageiro, não sei de onde terá saído esse personagem. Vinha do litoral ou de São Paulo? A história diz que a mensagem vinha do Rio. Dado que, naquele tempo, não havia estrada de ferro nem de rodagem, o moço terá vindo necessariamente pelo mesmo caminho que o príncipe. Portanto, também terá subido a serra. Como é que ele fez pra alcançar o príncipe às margens do Ipiranga, já às portas de SP? Subiu às carreiras? Enfim, isso não tem muita importância.

O magrinho e bem-comportado Riacho Ipiranga, São Paulo. Ao fundo, o Monumento da Independência.

O fato é que Dom Pedro não apreciou continuar a ser teleguiado desde Lisboa. Aconselhado por assessores, entrou na onda da independência das colônias americanas. A febre de movimentos independentistas tinha começado com as colônias inglesas da América do Norte, em 1776. A partir daí, os territórios castelhanos já se haviam despedaçado em quase duas dezenas de países. As colônias portuguesas estavam até atrasadas, situação que ajudou o filho do rei a tomar sua decisão (antes que algum aventureiro o fizesse).

Festejamos o Sete de Setembro como se dia de glória fosse. Fico um tanto pensativo. Gosto de examinar as coisas pelo avesso, fazendo a pergunta: “E se não tivesse acontecido?”. É puro exercício intelectual, que ninguém muda o passado. Mas como teria sido se Dom Pedro, cansado e com fome, tivesse decidido guardar a mensagem no bolso pra ler mais tarde, e tivesse tocado a mula pra chegar a São Paulo antes do anoitecer?

Neste ponto, pra continuar no exercício de futurologia-do-que-não-foi, é preciso admitir que nenhum movimento posterior tivesse conseguido a independência do Brasil. Os territórios lusos da América do Sul fariam parte do Império Português até hoje. Para nós, os brasileiros do século 21, isso seria um drama?

Não acredito. O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves seria um império rico e importante. Seria, de longe, a nação mais populosa da Europa, bem mais que a Alemanha. Não haveria essa incômoda distinção entre europeus e americanos, dicotomia que, em geral, nos humilha. Assim como a Guiana Francesa faz parte da França, nós faríamos parte da União Europeia – uma vantagem e tanto.

Quanto ao desenvolvimento do Brasil, não acredito que tivesse sido muito melhor nem muito pior. Não há relação direta entre o desenvolvimento e o fato de o país ser independente. Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que estão entre os países mais avançados, fazem parte do Commonwealth e reconhecem a rainha da Inglaterra como soberana, numa situação de semidependência.

Poderíamos ficar até amanhã neste exercício de futurologia-do-que-não-foi. De qualquer maneira, toda comprovação será impossível. Acredito que, muito mais do que comemorar bobamente uma independência que não mudou grande coisa no país, deveríamos escolher outros heróis. Mais vale festejar os que trabalharam para melhorar a Instrução Pública e a Saúde Pública. A abertura de um posto de saúde vale tanto quanto ou mais que um grito de independência, ainda que saído da boca de um príncipe.

Um é pouco, dois é bom

Dad Squarisi (*)

R$ 600 é muito, R$ 200 é pouco:
o porquê da concordância

A pandemia nos pegou de surpresa. Ceifou vidas e roubou empregos. Nada menos de 66 milhões de brasileiros ficaram sem salário e sem renda. O governo fez o que tinha de fazer — criou o auxílio emergencial de R$ 600. A ajuda, pra lá de bem-vinda, chega ao fim. Mas a crise sanitária continua.

E daí?
A saída é prorrogar o socorro. A equipe econômica disse que o país não aguenta manter o valor. Propôs reduzi-lo pra R$ 200. O Congresso bate pé nos R$ 600. Bolsonaro se opôs aos extremos: “R$ 600 é muito, 200 é pouco. Vamos ficar no meio-termo”.

A fala presidencial foi seguida de murmúrios. Não sobre montantes. Mas sobre a concordância: R$ 600 é muito, R$ 200 é pouco. O verbo no singular está correto? Está.

A manha
As locuções é muito, é pouco, é suficiente & cia. acompanhadas de especificação de quantidade, medida, preço, tempo e valor são invariáveis:

R$ 600 é muito.
R$ 200 é pouco.
Quinze anos é tanto tempo!
Dois quilos é pouco.
R$ 10 é suficiente.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. É editorialista do Correio Braziliense e blogueira – Blog da Dad.

PEC italiana

José Horta Manzano

Embora diferentes países possam enquadrar-se na categoria de Estados de direito, o arcabouço legal de cada um não é necessariamente idêntico ao dos demais.

No Brasil, para ser aprovada, uma PEC – dispositivo legal que modifica a Constituição – precisa obter o voto de 2/3 dos parlamentares. Obtida essa quota, entra em vigor.

Na Itália, funciona mais ou menos assim, mas há um fator complicador. A PEC passa primeiro pelo Congresso, em duas votações. Caso alcance maioria de 2/3 dos congressistas, entra em vigor, como no Brasil. No entanto – e aqui está a diferença – caso alcance apenas maioria simples (50% dos parlamentares), será submetida a referendo popular.

Em outubro de 2019, o Parlamento italiano aprovou modificação importante na Constituição, alterando o número de parlamentares. O projeto foi aprovado nos conformes, só que a maioria não alcançou 2/3 dos congressistas. É compreensível: a mudança diminui drasticamente o número de parlamentares, fato que incomoda muita gente.

Num corte de 40% (!), o número de deputados cai de 630 para 400, e o de senadores despenca de 618 para apenas 392. Pedir aos parlamentares que aprovem essa mudança é como pedir-lhes que serrem o galho onde estão sentados. É até surpreendente que o texto tenha obtido maioria simples.

O referendo popular, previsto para o mês de março mas suspenso por causa da pandemia, deve realizar-se daqui a duas semanas. As pesquisas são contraditórias, de modo que seus dados têm de ser tomados com precaução. Espera-se, de qualquer maneira, que a maioria dos eleitores aprove a mudança. É verdade que, com a nova configuração, os distritos eleitorais serão modificados. Mas esse é um mal menor, comparado com a robusta economia obtida com a supressão de 456 cadeiras de parlamentares.

Sabem quando é que o Congresso brasileiro vai suprimir 40% das cadeiras? No dia de São Nunca, como dizia minha avó.

Congresso de luxo
Segundo levantamento publicado em dez° 2018 pela BBC Brasil, o Brasil tem o segundo Congresso mais caro do mundo. Nosso parlamento custa mais que o francês, o alemão, o japonês ou o britânico. Só perde para o dos EUA.

Cada parlamentar nosso custa ao contribuinte, segundo o método de paridade de poder aquisitivo, a bagatela de US$ 7,4 milhões por ano. Dólares! Multiplicando pelo número de cadeiras, dá um custo total de quase 4,5 bilhões de dólares. Bilhões! Só pra efeito de comparação, um parlamentar francês custa 6 vezes menos que um brasileiro; um britânico sai por 20 vezes menos.

Os nossos recebem, além do salário, auxílio moradia, plano médico (de categoria nec plus ultra) extensivo à família, transporte. Sem contar os assessores. Para senadores, por exemplo, não há limite para contratação. Sabe-se de caso de senadores que têm mais de 100 colaboradores – porta aberta a todo tipo de rachadinha. E esse povo todo vivendo à nossa custa! Revoltante.

Trompe-l’œil ‒ 7

José Horta Manzano

O japonês Akiyoshi Kitaoka (1961-) é professor de Psicologia no College of Letters da Universidade Ritsumeikan, em Kyoto (Japão). Há décadas vem-se especializando no estudo da percepção visual e de ilusões de óptica. Seus trabalhos demonstram que é possível «trapacear» com a visão humana, em especial a visão periférica.

Como se sabe, nossa visão bruta está longe de ser perfeita. As imagens que captamos precisam ser processadas pelo cérebro para fazerem sentido. Ao manipular as informações de que o cérebro necessita para interpretar o quadro, os desenhos do cientista conseguem dar um «nó nos miolos». Acabamos enxergando movimento em imagens estáticas.

As manchas vermelhas parecem girar em sentido horário, mas estão paradas.
Clique para ampliar e ver melhor.

Quando se fixa o olhar numa das rodas, a outra parece girar. Estão ambas paradas.
Clique para ampliar e ver melhor.

Passeando os olhos pelo desenho, tem-se a impressão de que os corações se movem. É só impressão.
Clique para ampliar e ver melhor.

Passeando os olhos pela imagem, tem-se a impressão de que o ressalto central incha. É impressão.
Clique para ampliar e ver melhor.

 

Passeando os olhos pela imagem, tem-se a impressão de que as rodas que estão fora do foco visual giram. É impressão.
Clique para ampliar e ver melhor.

 

Quando se fixa o olhar numa das rodas, a outra parece girar. É ilusão de óptica.
Clique para ampliar e ver melhor.

Nota
Trompe-l’œil (literalmente ‘engana o olho’) é a expressão francesa para ilusão de óptica.