République bananière

 

José Horta Manzano

“Mas… de onde saiu essa gente?” – é a pergunta que se faz desde que o capitão vestiu a faixa. De onde vem esse povo estranho que cerca o presidente, gente desprovida de inteligência, de bom senso e de lógica, sempre com quatro pedras no bolso e uma faca entre os dentes? Onde se escondiam antes? Como é que passaram despercebidos até chegar ao entorno de Seu Mestre?

Todos os jornais da França, sem exceção, reproduziram a inacreditável fala de Sua Excelência Guedes, ministro-chave desta República, que ousou apontar o dedo para a França e declarar que ela estava “ficando irrelevante para nós”.

O trecho do discurso em que o ministro chantageia o tradicional parceiro do Brasil e o ameaça de “irrelevância”caso não cessem as críticas sobre o desmatamento da Amazônia foi estampado em todos os jornais. Até o palavrão (coisa fina, Guedes!) sujou o papel. Fico aqui imaginando a incredulidade que marcou a expressão dos leitores, gente pouco habituada ao baixo nível da fala de Guedes. Talvez o ministro nem desconfie, mas francês é um povo que lê.

Falando nisso, muitos dados importantes sobre o comércio exterior brasileiro devem estar escapando a nosso bizarro ministro. Levantamento do Estadão mostra que, segundo dados fornecidos pela embaixada da França em Brasília, há 1.042 empresas francesas instaladas em nosso país, que dão emprego a 471.784 funcionários e atingem um volume anual de negócios de 66,1 bilhões de euros (R$ 350 bi).

No ano de 2020, com um volume de 32,3 bilhões de dólares (R$ 165.3 bi) a França foi o terceiro investidor estrangeiro no Brasil, atrás apenas dos EUA e da Espanha. Agora vem o dado mais interessante: enquanto a França ocupa o 11° lugar entre todos os países que vendem para o Brasil, o Brasil ocupa o 36° lugar entre todos os países que vendem para a França.

Tenho o dever de contradizer o ministro e informá-lo de que, no ponto em que estamos, é o Brasil que se está tornando irrelevante para a França, não o contrário. Sem as importações do Brasil, a França poderia continuar funcionando sem sobressaltos. Já sem as importações da França, o Brasil teria problemas.

É verdade que Paulo Guedes é reincidente. Já reclamou do horror que seria ter de viajar de avião ao lado de uma empregada doméstica; já deixou claro que lugar de filho de porteiro não é na faculdade; já insultou a primeira-dama da França ao dizer (em discurso público) que ela era feia mesmo. Tudo isso é verdade.

É verdade que ele é tolo, arrogante, boca-suja, inconsequente, imbuído da própria importância. Só que tem uma coisa: se seu chefe fosse um outro presidente que não Bolsonaro, sua soberba e essa sujeira que lhe sai pela boca ficariam quietinhas, guardadas no fundo de uma gaveta e trancadas a sete chaves. Se abre as asinhas e se comporta como se discursasse para bêbados num botequim, é porque se integrou no time presidencial e absorveu os princípios éticos e morais em vigor no Planalto.

Senhor Guedes acaba de dar excelente contribuição para cristalizar, aos olhos europeus, a imagem do Brasil como legítima república de bananas.

No Brasil, sua fala já saiu das manchetes e faz parte do passado; na França, há de marcar nossa imagem por décadas.

Carta aos brasileiros

José Horta Manzano

 

Como é que é? Vosmicê ainda não assinou? Corra, que amanhã já é o dia da leitura oficial da carta. Não deixe passar a oportunidade de fazer parte oficial da História do Brasil.


Neste 10 de agosto,
o total de adesões está batendo nos

850.000  cidadãos!


 

Não sabe onde assinar? É por aqui:

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Sabonete Lever e… democracia

José Horta Manzano

Quando eu era criança (faz muito tempo), muito anúncio de sabonete aparecia em rádio, jornal e revista. As marcas mais conhecidas – algumas hoje desaparecidas – eram: Palmolive, Eucalol, Gessy, Phebo, Lifebuoy. E também o conhecido Lever, o “sabonete das estrelas”, que um dia passou a chamar-se Lux.

Esse Lever se gabava de ser usado por 9 entre 10 estrelas do cinema. (Que se saiba, o fabricante nunca publicou pesquisa feita por instituto sério para embasar a afirmação.) Já este blogueiro, que nunca teve vocação pra acreditar em tudo o que se diz, ficava a matutar: “Mas qual será a marca usada pela estrela que, numa amostragem de 10, recusa o Lever?”.

Estes dias, tive notícia de uma pesquisa levada a cabo pela Fundação Tide Setúbal. Mais de 400 empresários brasileiros foram entrevistados e responderam a uma lista de questões. Note-se que eles provêm de empresas grandes e pequenas, de todas as regiões do país. Representam toda a paleta: comércio, indústria e serviços. Segue um apanhado da sondagem.

Democracia
Forte maioria deles (82%) concorda que a democracia, ainda que imperfeita, é preferível a qualquer outro sistema de governo.

Tortura
Uma pergunta era concernente à tortura: 82,5% dos entrevistados repeliu o emprego de tal violência, independentemente das circunstâncias.

Autocracia
Indagados se achavam que, em situação de crise, seria justificável que o presidente da República fechasse o Congresso e governasse sozinho, 55% repudiaram vigorosamente essa solução.


Agora vamos voltar à brecha aberta pelo velho sabonete Lever. Como em toda sondagem, uns concordam com isto, outros discordam daquilo. Voltemos à pesquisa em pauta e analisemos o outro lado da medalha.


Democracia
Considerável fatia dos entrevistados (18%) prefere um sistema de governo diferente da democracia. A pesquisa não perguntou qual era esse regime, mas é lícito supor que 18% dos empresários dão preferência a um regime ditatorial. Não está longe de 1 em cada 5 empresários.

Tortura
De novo, quase 1 em cada 5 empresários (17,5% dos pesquisados) não vê nenhum inconveniente em empregar a tortura em determinadas situações. A pesquisa não perguntou quem teria o poder de utilizar esse método brutal. O carcereiro na cadeia pra corrigir um preso indisciplinado? O policial na delegacia pra extorquir uma confissão? O dirigente de empresa dentro da fábrica pra dar uma lição nos representantes sindicais? O pai de família no quartinho dos fundos pra corrigir o filho rebelde ou a empregada respondona?

Autocracia
Esta parece pior que as demais. Dos empresários entrevistados, 45% acham normal que, em situação de crise, o Congresso seja extinto e que plenos poderes sejam dados ao presidente da República. Não ficou claro o significado de “situação de crise” mas, seja como for, o Congresso abriga os representantes do povo. Fechar essa instituição equivale a curto-circuitar a população e dar plenos poderes à panelinha que constitui o Executivo. Quase metade dos empresários não vê nenhum mal nisso.


Se a pesquisa tiver sido bem conduzida – e tudo indica que foi – a paisagem do empresariado nacional é aterradora. Porção significativa de grandes e pequenos empresários encara a tortura, a autocracia e a ausência de democracia como situações aceitáveis, pra não dizer desejáveis.


A conclusão a que se chega é que o país vai mal mesmo. Pior do que se imaginava. A disposição do empresariado diante dessas três questões concretas é estonteante. Se a pesquisa tivesse sido feita num reduto de devotos do capitão, não se esperaria outro resultado. Agora, de uma amostragem variada de empresários, é de dar vertigem.

Com um empresariado assim, falta muito pouco pra batermos no fundo do poço.

Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.

O paladar

José Horta Manzano

Pequim está fortemente empenhado em demonstrar sua tese de que Taiwan, a “província rebelde”, é parte histórica da grande nação chinesa e que um dia há de ser reintegrada à pátria-mãe. Para reforçar a posição de seu governo, a senhora Hua Chunying, porta-voz do Ministério Chinês de Relações Exteriores, tuitou:

“Em Taipé (capital de Taiwan), há 38 restaurantes que vendem ravioli de Xantum (província chinesa) e 68 que vendem talharim de Xanxi (outra província chinesa). O paladar não mente! O filho desgarrado há tantos anos voltará à pátria.”

Por mais que o governo de Pequim gostasse, não é possível controlar integralmente a internet. O Tweeter, por exemplo, escapa à censura. Os internautas aproveitaram e comentaram com ironia:

“Quer dizer então que o monte de McDonald’s que temos em Pequim informam que somos todos historicamente americanos?”

Homem de moral

Lagoinha, Belo Horizonte, 7 ago 2022

José Horta Manzano

Em 1962, pela voz do cantor Noite Ilustrada, foi lançado um dos sambas mais conhecidos do grande Paulo Vanzolini. O título era Volta por cima. A música foi responsável pela difusão da expressão hoje dicionarizada ‘dar a volta por cima’.

A certa altura, a letra dizia:

O homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher lhe venha dar a mão

O samba falava de um homem de moral.

De carona

O Globo, 7 jul° 2022

José Horta Manzano

Artigo d’O Globo informa que dezenas de candidatos às eleições deste ano para os cargos de deputado estadual ou federal têm bancado anúncios no feicebúqui e no instagrã. Espero que vosmicê saiba como funciona esse sistema de anunciar em rede social. Quanto a mim, não faço a menor ideia. Sou do tempo em que anúncio se punha no jornal. Não frequento “redes”.

Bom, imagino que, como todo anúncio que se preze, essas inserções tenham um custo. É difícil acreditar que os candidatos enfiem a mão no próprio bolso, portanto devem estar se servindo no fundo partidário – aqueles bilhões desviados de nossos impostos e entregues ao apetite da coleção de partidos que compõem o tabuleiro das incongruências desta exótica República.

Resultado do jogo: os anúncios, na verdade, estão sendo financiados por todos nós.

A maioria dos anunciantes da base bolsonarista se dedica a um sistemático exercício de desinformação, seguindo à risca a cartilha do conspiracionismo. As investidas mais recorrentes, como se pode imaginar, vão contra o sistema de voto eletrônico e contra os ministros do STF – os judas favoritos da turma.

O teor dos anúncios intriga. De candidatos normais, se esperaria que se apresentassem ao grande público, que louvassem as próprias qualidades, que dissessem a que vêm. Em vez disso, temos um bando de zumbis, que entram na sala de visitas dos outros para denunciar o sistema que há de elegê-los – ou até, em numerosos casos, que já os elegeu. Por que fazem isso?

A primeira explicação, que me parece evidente, é não terem nada de substancial a contar sobre a própria personalidade, suas convicções e seu plano de trabalho.

A segunda razão, que decorre da anterior, é que, não tendo nada de interessante a apresentar, tomam carona no bonde do capitão, na esperança de recolher o voto de um punhado de seus devotos mais medrosos.

Em seguida, vem a dúvida. O que pretende essa gente? Será que não se dão conta de que, com esse comportamento, estão jogando um grão de areia na engrenagem bem azeitada da votação eletrônica, consagrada há um quarto de século? Será que não percebem que, ao contribuir para eventual tentativa de golpe, correm o sério risco de serem tragados por ele?

Se – que Deus nos livre e guarde – golpe houvesse e fosse bem sucedido, a primeira providência seria fechar a Câmara Federal e as Assembleias estaduais. Por duração indeterminada, Suas Excelências seriam mandadas de férias sem vencimentos. Talvez fosse organizada nova eleição, talvez não. Em regime autocrático, tudo depende dos caprichos do autocrata, de suas fobias e de sua paranoia.

Com ou sem golpe, esse punhado de candidatos-zumbis já nos dá um antegosto do nível intelectual e moral da nova leva de parlamentares, todos afiados e prontos para se aboletar no bem-bom.

É tão simples!

Carlos Brickmann (*)

Tem gente discutindo política externa Sul-Sul, tem gente discutindo se urnas eletrônicas são confiáveis ou não, tem gente fazendo coisas que nos velhos tempos seriam chamadas de compra de votos, tem casal que vive sob o mesmo teto em que a residência do marido é contestada e a da esposa é aceita, tem gente que não consegue viver sem um tacão de coturno nos calcanhares.

Há candidatos que só querem saber se alguma coisa dá voto. E a resposta é tão simples! Um garoto de onze anos de idade telefonou para a Polícia, na região metropolitana de Belo Horizonte, pedindo comida. “Estamos com fome!”

Talvez nem seja necessário alimentar esse nosso povo por muito tempo: basta criar condições para que os pais possam trabalhar e ganhar um salário suficiente para oferecer três refeições diárias à família. Não é preciso importar armas caríssimas e perigosas: bastam talheres à mesa.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Patrulha julga atos do passado com régua moral de hoje

Eduardo Affonso (*)

O telescópio James Webb apresentou um grave defeito antes mesmo de ser lançado ao espaço. Não nas lentes e espelhos (que funcionaram magnificamente), mas no nome. O homenageado é um ex-diretor da Nasa, nascido em 1906, acusado de perseguição à comunidade LGBTQIAP+ nas décadas de 1950 e 1960.

Sim, não basta não ser homofóbico hoje, quando a homofobia é entendida como violação de um direito humano fundamental. É preciso não o ter sido no passado, sob a vigência de outra régua moral. Algo como receber multa retroativa por haver circulado numa rua cuja mão foi invertida. Você não estava na contramão em 1960, mas isso é irrelevante – perde pontos na carteira assim mesmo.

A Nasa ignorou os protestos do movimento #RenameJWST – ou abriria um flanco para o rebatismo de boa parte de seu equipamento. Antibelicistas poderiam exigir um novo nome na fuselagem do Hubble. Afinal, graças aos estudos do astrônomo Edwin P. Hubble na divisão de balística do Exército americano, bombas e foguetes tornaram-se mais eficazes – vale dizer, mais mortíferos. Kepler (1571-1630) tampouco seria poupado: filho de pai mercenário e mãe curandeira, não se dedicou apenas à matemática e à astronomia, mas também à astrologia – uma crendice, segundo a ciência moderna. Sem falar na indignação de ateus militantes e cristãos fundamentalistas diante de artefatos que evocam divindades como Júpiter, Saturno e Apolo.

Não adianta lançar esses nomes ao círculo do inferno destinado aos hereges: nada nos garante que os novos agraciados (progressistas, descolados, desconstruídos) não estejam sujeitos a pecados ainda por inventar. Quando os veganos dominarem o planeta, quem quer que tenha traçado uma picanha ou pedido um misto-quente na padaria (com uma média de café com leite) estará automaticamente no índex dos canceláveis.

Se o Webb perscruta lá fora, com sua nebulosa sexualidade, as origens do Universo, aqui neste planetinha pedregoso os arqueólogos agora discutem não o sexo dos fósseis, mas seu gênero. Pela análise do tamanho e formato dos ossos, é possível determinar se um esqueleto é de um espécime macho ou fêmea. Ativistas argumentam que essa atribuição presta um desserviço à causa, pois não leva em conta a maneira como aquele indivíduo se identificava. Ninguém garante que Lucy (hominídeo que viveu há cerca de 3 milhões de anos onde hoje é a Etiópia) e Luzia (sapiens de aproximadamente 11.500 anos, em Minas Gerais) se reconhecessem como mulheres. Seus nomes deveriam ser mudados, pois perpetuam a cisnormatividade, o colonialismo e a supremacia branca. Esse anacronismo vem de longe, e o céu parece não ser o seu limite.

O Hubble e o James Webb – rebatizados ou não a cada geração de acordo com os novos ideais de pureza ideológica – prosseguirão em sua jornada por onde nenhum homem (ou mulher, ou homem trans ou mulher trans) jamais esteve, desvendando a gênese do Universo. Enquanto isso, seguiremos aqui adaptando nosso próprio passado às conveniências contemporâneas.

Com uma única certeza: ao contrário do que sonhava Fidel Castro, a História não nos absolverá.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

750.000 adesões!

José Horta Manzano

Me lembro de uma velha tia que costumava mostrar, com muito orgulho, seu certificado de doadora de 1932. O diploma era conferido àqueles que houvessem doado alguma joia de ouro para contribuir com o esforço comum em prol da Revolução Constitucionalista.

Passados noventa anos, chegou minha vez de receber meu certificado. Desta vez, não foi preciso doar ouro nem enfiar a mão no bolso. Bastou botar a mão na consciência e dar, com minha assinatura, modesta contribuição para deter o descalabro que tomou conta de nosso país. Convém agir enquanto é tempo.

No momento em que escrevo, madrugada de sexta-feira 5 de agosto, já somos mais de 750.000 aderentes à Carta aos Brasileiros. Ela será lida oficialmente dia 11 de agosto, quinta-feira que vem. Se você não assinou, ainda dá tempo. É simples como dar bom-dia.

Coragem, gente, que o bicho não vai comer! O leão ruge, mas é covarde e desdentado.

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Jecas, incendiários, invertebrados

Lúcia Guimarães (*)

Os crassos jecas da Faria Lima, os incendiários do agronegócio e os invertebrados da avenida Paulista podem ter se fartado de comer mingau pela beirada do fascismo. Talvez agora tenham começado a entender o preço de negar que a agenda que apoiaram não é conservadora ou cristã, é terrorista e demolidora.

Se quiserem continuar decolando para Paris e manter o privilégio de tirar férias do martírio brasileiro, precisam de um país para onde possam voltar.

(*) Lúcia Guimarães é jornalista e colunista. O texto é fragmento de artigo seu publicado no Estadão.

#naovaitergolpe

José Horta Manzano


Não vai haver golpe.

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Se houver, não vai dar certo.

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Se der certo, não vai vingar.

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Se vingar, não terá apoio militar.

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Se tiver apoio militar, não terá apoio popular.

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Se tiver apoio popular, será derrotado pela reação externa.

Por mais que persista a ilusão de que o Brasil é uma ilha, não é verdade. O Brasil precisa mais do mundo do que o mundo precisa do Brasil.

Ninguém vai suportar ser apartado do convívio do mundo civilizado. Perguntem a Putin se ele gostou.

Mesas berlinenses

José Horta Manzano

A desigualdade financeira está presente em todas as sociedades. O Brasil é um exemplo flagrante de abismo entre abastados e despossuídos. Mas a carestia não é exclusividade de países em desenvolvimento. Os países ditos “ricos” também contam com cidadãos na faixa de pobreza.

Um exemplo? A Alemanha, país onde a inflação atualmente bate em 8% ao ano, taxa nunca vista em mais de três décadas. Quando os preços sobem desse jeito, os primeiros a sentir o baque são justamente os que vivem com pouco dinheiro.

Cerca de 14 milhões de alemães recebem um salário ou um benefício que não chega para as necessidades básicas. Essas pessoas dependem de um complemento de renda providenciado pelo Estado. Dado que essa ajuda extra nem sempre é suficiente, o problema dos que têm renda muito baixa continua. A maioria dos integrantes dessa faixa são idosos e famílias uniparentais (mães solo).

Em Berlim, que tem 4 milhões de habitantes e é a capital do país, já faz anos que uma interessante solução foi encontrada. Cidadãos de boa vontade formaram uma associação sem fins lucrativos que opera de modo singular. Diariamente, correm os supermercados, padarias e outros comércios de alimentos da cidade e recolhem os invendidos. Há muitas mercadorias que, se não forem vendidas no dia, vão terminar no lixo.

Esses produtos passam por uma triagem e em seguida são levados a vários pontos de distribuição espalhados pela cidade. As pessoas necessitadas que frequentam esses depósitos têm o direito de escolher o que querem levar e encher um saco com cerca de 4 quilos de alimentos. Mas não sai de graça: a compra sai por um euro simbólico, quantia muito baixa. Essa cobrança é muito importante para evitar que os beneficiários tenham a sensação de estar recebendo uma esmola. Pagam um preço especial, mas põem a mão no bolso, tiram a carteira e pagam.

A associação é inteiramente composta por voluntários, geralmente aposentados ou pessoas de boa vontade que têm tempo disponível. Aos sábados e domingos, muito mais gente vem dar uma mão. Ninguém recebe salário. A associação, que se chama Berliner Tafeln (mesas berlinenses) já existe faz muitos anos e vive com doações de seus membros. Qualquer um pode se tornar membro; a contribuição mínima é de 2,75 euros por mês.

No Brasil, vivemos sempre na expectativa de que o poder público tome esse tipo de iniciativa. Não seria má ideia que cidadãos de boa vontade se reunissem e, à imagem das “mesas berlinenses”, criassem as mesas cariocas, ou paulistas, ou soteropolitanas, ou curitibanas, ou manauaras, ou fortalezenses. Os que vivem apertado agradeceriam.

O que a pesquisa revela

José Horta Manzano

A análise de uma pesquisa eleitoral traz muitos ensinamentos. É claro que seu objetivo maior é vislumbrar o(s) vencedor(es) da disputa, mas as informações vão além. A sondagem diz muito mais do que simplesmente quem deve ganhar ou quem deve perder. Vamos ver.

Faz uns dias, saiu a mais recente edição da pesquisa DataFolha, que afere a temperatura da campanha para as presidenciais de outubro. Faltando só dois meses, o Brasil começa a prender a respiração à espera do veredicto das urnas. Eletrônicas, of course.

Uma das técnicas dos sondadores é perguntar ao eleitor, de chofre, a quem ele pretende dar seu voto. Nenhum nome de candidato é sugerido. Eleitoralmente, o valor desse capítulo da pesquisa é relativo, visto que a campanha ainda não começou pra valer, e o nome dos candidatos ainda não foi martelado no ouvido de cada um.

Essa pesquisa, chamada espontânea, apreende o “voto de coração” do eleitor. Se a pergunta fosse, por exemplo, “Pra que time você torce?”, não haveria necessidade de apresentar lista de nomes de clube – cada torcedor traz na ponta da língua o nome de seu time favorito. Na pesquisa presidencial, funciona igualzinho. Os que têm um candidato de coração declaram sem hesitar.

Na espontânea da Datafolha de julho, quando não foi apresentada nenhuma lista, 41% dos pesquisados declararam voto em Lula, enquanto 17% disseram ter intenção de votar em Bolsonaro. A meu ver, esses números dão boa indicação do cerne do eleitorado de cada um – os eleitores fiéis até debaixo d’água.

Que leitura se pode fazer dessa constatação? Salta aos olhos que o candidato que conta com a fidelidade de 41% do eleitorado tem mais chances de vencer o jogo do que seu adversário, que só tem 17% de adeptos. Mas há uma outra verdade, ainda que menos charmosa.

O candidato mais apreciado pelo distinto público já presidiu o país por 8 anos. É aquele que detém o triste primado de ser o primeiro ex-presidente que amargou ano e meio de cadeia por crime de corrupção – julgado, confirmado e reconfirmado por 3 diferente tribunais.

O candidato que vem em segundo lugar já presidiu o país por quase 4 anos. Sob sua batuta, o coro desafinou e o Brasil está à beira do descarrilamento. Por culpa dele, milhares de infelizes foram largados ao deus-dará, sem cuidados médicos e sem respiradores, nas horas mais sombrias da pandemia. O personagem ainda não passou uma temporada de vilegiatura na prisão, mas, ao término do mandato, será difícil deixar de responder por seus crimes.

No final, percebe-se que 58% dos brasileiros (41 + 17) se derretem por dois personagens que já deveriam estar há muito tempo na lata de despejo, junto com os outros detritos da República. Essa constatação é aterradora. Ela significa que corrupção e ineficiência não são freios ao louvor popular. Que o postulante à Presidência roube o dinheiro do povo, minta, maltrate o povo, minta, suborne representantes do povo, minta, zombe do povo, minta – não desencoraja grande maioria dos eleitores.

Não sei qual é a origem dessa macabra recusa a enterrar cadáveres políticos. Em terras mais civilizadas, uma disputa entre um ex-presidiário e um provável futuro presidiário não teria razão de ser. Ainda que fossem autorizados a se candidatar, não teriam chance. Será ingenuidade do eleitor brasileiro? Ignorância? Alienamento? Falta de percepção das grandes questões nacionais? Ideologia? Salvacionismo?

Visto isso, sabe quando é que virá a “salvação” do Brasil? No dia de São Nunca.