Os presentes de Bolsonaro

José Horta Manzano

Outro dia, em cima de um palanque, Bolsonaro exibiu uma camiseta cuja estampa pedia ao povo que votasse de novo nele em 2022. A favor dele, diga-se que a peça de roupa foi um presente que ele acabava de receber. A seu desfavor, porém, frise-se que nada o obrigava a desdobrar o acessório e exibi-lo urbi et orbi – à cidade e ao mundo. O gesto foi visto como campanha eleitoral antecipada, sujeita a sanções.

O Estadão aproveitou a deixa para fazer a conta dos presentes que o capitão recebeu. Desde que vestiu a faixa, já lhe fizeram mais de 6 mil presentes, somando objetos simples e artigos mais sofisticados, o que dá uma média de 7 por dia, sábados e domingos incluídos. Pelo regulamento, tudo é arrolado em lista mantida pelo setor de documentação da Presidência.

Entre insignificâncias como ímãs de geladeira, canetas, panelas, cafeteiras e panos de prato, há também ítens assaz significativos. Vamos citar alguns.

Identificação
Numa mostra de identificação de valores com o mandatário, o comando da Polícia Militar do RJ deu-lhe, de presente de Natal, uma baioneta. A delicadeza do mimo dá prova da meiguice de espírito que une presenteante e presenteado.

Confidencialidade
Visivelmente preocupados com vazamento de informações (ou, quem sabe, com informações que custam a vazar), 353 cidadãos lhe deram pen drives.

Prático e útil
Gravata é presente que a gente compra quando não tem ideia do que oferecer. Não sai muito caro e é útil, visto que todo homem, um dia ou outro, acaba usando. A lista já contabiliza 56 cidadãos que ofereceram gravata ao capitão. Entre os ofertantes do másculo adereço, estão os ministros Heleno e Lorenzoni. Mendonça, o advogado-geral da União, que corre atrás de uma vaga no STF, também teve a original ideia de agradar o chefe com uma gravata.

Camiseta
Só de camisetas, o capitão já tinha recebido 954 até o fim de abril. De lá pra cá, a coleção há de ter inchado. Se o distinto leitor tinha pensado em dar-lhe camiseta de presente, esqueça. As que ele ganhou já não cabem nas gavetas.

Premonição
O assessor Fábio Waingarten, aquele que foi jogado ao mar recentemente, é um visionário. Seguindo uma premonição, tinha dado ao chefe, já em janeiro passado, um colete salva-vidas. Só que o prognóstico furou: o afogado acabou sendo ele mesmo. Devia ter guardado o presente para si, talvez não afundasse.

Sem rancor
O embaixador da China no Brasil demonstrou não ser rancoroso. Apesar de todos os insultos que a nebulosa bolsonárica tem feito a seu país, presenteou o presidente com um vaso chinês em março do ano passado. Deve ser o objeto que aparece entre o presidente e a tela, na foto abaixo,

em que o mandatário mostra estar assistindo ao jogo do Brasil num canal de tevê amigo – o único a transmitir o jogo, pelo que me disseram. Expus minhas considerações sobre a foto em post separado.

Vade retro!
Cidadãos católicos, alarmados com as infidelidades de um presidente que já foi católico e hoje flerta com neopentecostais, já lhe deram 56 terços, 15 imagens de Nossa Senhora Aparecida e mais de 30 de outros santos. Até um frasco de água benta já lhe foi ofertado, que é pra ver se o capitão se emenda.

Como tem gente atrevida!
Certos gestos ousados não têm cabimento, mas tem gente que continua ousando. Talvez com boa intenção, 1.630 cidadãos cometeram o irreparável: deram um livro de presente ao presidente! Um livro! Como se sabe, o capitão associa o livro à cultura, e a cultura ao comunismo. Assim que abre o embrulho e descobre que é livro, joga longe e corre pra desinfetar as mãos. Com a chegada dessas centenas de livros, hão há mão que aguente.

Resumo da ópera
Se o distinto leitor tem intenção de fazer um mimo ao presidente, sugiro um objeto que, acredito eu, ainda não veio à cabeça de ninguém: uma vassoura. Nos tempos que correm, pode ser útil pra varrer a sujeira pra debaixo do tapete.

Rodeios

José Horta Manzano

Às vezes é complicado abordar um assunto. Nessas horas, a gente dá voltas, enrola, tergiversa, rodeia, fica sem jeito e não encontra coragem. O tempo passa e o que tinha de ser feito vai ficando cada dia mais difícil. É o que está ocorrendo há mais de ano na política brasileira.

Logo que assumiu a Presidência, Jair Bolsonaro começou a dar sinais inquietantes de que não era o funcionário certo no cargo certo. Sua adoração por Trump, a história da mudança da embaixada em Israel, a ofensa à mulher de Macron acenderam luz amarela. “Será que esse homem bate bem da bola?” – era a pergunta que corria por becos e ladeiras.

A pergunta continua no ar, sem resposta definitiva. Será um bobão amalucado ou simplesmente um ignorante mal-intencionado? Saberemos um dia com certeza. O que, desde já, sabemos é que a prova de fogo da pandemia foi um revelador que desnudou o rei. O atual presidente não está capacitado pra exercer o cargo. Sua troca é mais que urgente. Só não enxerga quem não quer.

Os poderosos do andar de cima, no entanto, têm-se mostrado incapazes de atacar o problema. Rodeiam, rodeiam e sempre atiram para os lados sem mirar o centro. Faz tempo que estão nesse “faz que vai, mas não vai”. Parece que têm medo do tigre de papel.

Em vez de pressionar o presidente da Câmara para instaurar logo um processo de impeachment, instalaram uma CPI. Convocam gregos e troianos, gente fina e gente à toa, bem-intencionados e mentirosos. Mandaram que um determinado indivíduo seja trazido à força diante do comitê. Sabem todos perfeitamente que o nome do mal é um só: Jair Bolsonaro. Mas evitam atacá-lo de frente.

Será que todos têm medo de melindrar o capitão? Eleitoralmente, terá muito a ganhar quem se dispuser abertamente a desalojá-lo do pedestal. Essa atitude de “rabo no meio das pernas” não é produtiva. Num dos momentos mais dolorosos de sua história, não é disso que o Brasil precisa. Francamente.

Encontro bilateral

Villa La Grange (Genebra) e seu parque
Sede do encontro histórico

José Horta Manzano

Em 1917, a cidade de Genebra, na Suíça, recebeu uma herança valiosa. Monsieur William Favre, riquíssimo habitante, legou à cidade uma propriedade familiar que consistia em uma enorme mansão, grande como um palácio, plantada em meio a um parque de 200 mil m2, área equivalente a 30 campos de futebol. Tudo isso situado às portas da cidade.

A propriedade tem sido utilizada como parque público, aberto para a visitação. Em raras ocasiões, o château é sede de algum evento excepcional. É o que vai ocorrer amanhã, quarta-feira 16 de junho de 2021. Uma cúpula reunindo Joe Biden e Vladimir Putin terá lugar no local.

Pra se ter uma ideia da raridade desses encontros bilaterais, o último que ocorreu entre dirigentes dos dois países teve lugar também em Genebra, no longínquo ano de 1985. Na época, Ronald Reagan havia se encontrado com Mikhail Gorbatchov.

Que ninguém espere grandes resultados do encontro de amanhã. Não será hora e meia de tête-à-tête que há de iluminar o caminho do planeta. O importante desses eventos é o lado simbólico. Com a crescente importância da China no cenário mundial, a Rússia – potência militar de primeira linha – está se tornando o trunfo que tanto chineses quanto americanos gostariam de ter a seu lado. Ciente disso, Putin deve estar adorando a paquera, que fortalece sua imagem.

Faz duas semanas que milhares de pessoas trabalham sem descanso, cada um nas suas atribuições, pra que tudo dê certo amanhã. É um batalhão de gente, operários, especialistas em logística, seguranças, mecânicos, eletricistas, cozinheiros, motoristas, militares, policiais. Por seu lado, o exército suíço deslocou 1000 homens em dedicação exclusiva. Centenas de policiais de Genebra participam, e boa parte da cidade está interditada ao tráfego. Com o espaço aéreo fechado, o aeroporto está sofrendo perturbação. Há atiradores de elite encarapitados nos prédios e homens armados com metralhadora por toda parte. A gente não se dá conta do desafio logístico que representa um deslocamento do presidente americano. É impressionante.

Como eu dizia, não se deve ter ilusões. Em geral, grandes decisões não são tomadas nesses encontros, mas nos bastidores. O encontro vale mais pela imagem que fica. Conversar é sempre melhor do que arreganhar os dentes, cada qual no seu canto.

Transtorno de personalidade

José Horta Manzano

Um time notável, que reúne juristas de peso e professores de Direito e Ética, entrou com ação civil ordinária junto ao STF. Requerem que Jair Bolsonaro seja submetido a minuciosa perícia médica a fim de averiguar a presença nele de transtorno de personalidade que o incapacite para o cargo. O sorteio indicou Gilmar Mendes para a relatoria do processo.

É permitido duvidar que a coisa prospere. Ainda assim, não custa sonhar. Se fosse adiante, a verificação havia certamente de constatar distúrbio feio. A interdição por problemas mentais seria o melhor caminho para alijar essa estrovenga do Planalto.

Todos sabem que o homem é perturbado da cachola, mas falta um laudo oficial, com assinatura de junta médica e firma reconhecida. Impeachment é sempre uma solução política, que alguns podem até enxergar como golpe. Já uma interdição por incapacidade cognitiva daria um cala-boca a todos – doença mental atestada por junta independente e apartidária é fato indiscutível. Contra ela, não há recurso possível.

A ação desses juristas traz à atualidade um debate que já devia ter sido feito desde a redemocratização: o da qualificação de pretendentes a cargo eletivo, seja ele do Executivo ou do Legislativo.

Na iniciativa privada, todo candidato a um emprego passa necessariamente por um exame de avaliação. Informal nas pequenas empresas, ele cresce em forma e estrutura conforme a importância da firma.

Também no funcionalismo, tirando os que ocupam efêmeros cargos ditos “de confiança”, é obrigatório prestar concurso público e ser aprovado.

A aferição da aptidão dos pretendentes também se faz em outros momentos da vida civil: na hora de tirar a carteira de motorista, por exemplo. Todo candidato deve ser bem-sucedido num teste psicotécnico em que sua capacidade de tomada de decisões, seu raciocínio lógico e seu controle emocional são testados.

Acredito que é importante aplicar o mesmo princípio a todo candidato a posto eletivo – vereador, prefeito, deputado, governador, senador e, acima de tudo, presidente da República.

Um candidato habilidoso e com boa lábia pode enganar meio mundo, como tem acontecido com tanta frequência; trapacear num teste bem estruturado são outros quinhentos. Que se institua um exame para verificar o equilíbrio e a integridade psíquica de cada postulante.

Ninguém concordaria em entregar o volante de um veículo a um indivíduo mentalmente perturbado, pois não? Como é então possível entregar as rédeas da nação a um desequilibrado?

É verdade que, desde os tempos do folclórico Jânio Quadros, não tínhamos tido um desequilibrado na Presidência. Tivemos simpáticos e antipáticos, honestos e desonestos, inteligentes e empacados, mas não tivemos nenhum psicopata. Talvez, por isso, a decisão de colocar um filtro antes mesmo do registro da candidatura tenha ficado de molho todos esses anos.

Mas agora o tempo chegou. Estamos sentindo na pele o resultado de termos entregado a direção do país a um ser mentalmente transtornado. É uma catástrofe que teria sido evitada com um simples teste psicotécnico aplicado no momento do registro da candidatura.

O modelo, o melhor momento e as modalidades serão acertados por quem entende do riscado. O importante é começar a pensar nisso já, a fim de evitar termos de reviver, no futuro, um desastre como o atual.

Vacina obrigatória?

José Horta Manzano

Em matéria de saúde, cabe ao poder público informar, orientar e aconselhar a população; em seguida, com a informação no bolso, é a vez de cada um decidir por conta própria.

Tirando menores de idade, impotentes e pacientes com problemas mentais, nenhum cidadão deveria ser submetido a nenhum procedimento médico contra sua vontade. Em tese, é assim que funciona em país civilizado.

Por esse princípio, ninguém deveria ser obrigado a tomar vacina. Acontece que, na prática, a teoria é outra. No Brasil, a colossal desigualdade social faz que a informação não atinja com a mesma precisão todas as camadas da população.

O cidadão esclarecido entende facilmente que a vacina – “chinesa” ou não – é a única tábua de salvação disponível contra a epidemia. Já no cidadão humilde, o pavor da injeção pode superar o medo da covid; fugirá da picada e continuará exposto a ser contagiado e contagiante.

Assim, soluções que funcionam em sociedades homogêneas podem não dar certo entre nós. Em alguns países altamente civilizados, vacinação não costuma ser obrigatória. É o caso da Suíça, por exemplo, onde cada um decide por si. No Brasil, deixar total liberdade a todos os cidadãos é caso complicado.

O problema já existia antes da internet, mas o advento das redes sociais e de toda a cacofonia que ela difunde agravou a situação. Hoje, basta um indivíduo – mal informado ou mal intencionado – soltar um boato sobre supostos perigos da vacina, e pronto: logo uma multidão de “fólouers” sai por aí repetindo a mesma asneira. Quando esse indivíduo mal informado (ou mal intencionado) é o presidente da República, a difusão do pânico é mais abrangente.

Agora vem a parte irônica da situação. Quanto mais o presidente esperneia, mais seus devotos repicam o boato e mais gente foge da vacina. Nesse ritmo, o resultado será o alastramento da doença, o que concorre para a superlotação de UTIs e a falência do sistema hospitalar – situação que não interessa a ninguém.

Portanto, o esperneio do presidente surte efeito contrário ao que ele deseja: acaba reforçando a necessidade de impor a vacinação obrigatória, a fim de evitar o colapso da rede nacional de saúde.

É irônico. Mais ainda, é afligente que ele não se dê conta disso.

Decoro

José Horta Manzano

Nos tempos em que os povos viviam em estado de guerra permanente, era natural que o melhor guerreiro se tornasse chefe. De Júlio César, os romanos esperavam que vencesse batalhas e conquistasse territórios – o que de fato ele fez.

Dois milênios mais tarde, Benito Mussolini e Adolf Hitler ainda seguiam na mesma linha. Tinham a guerra no ADN (=DNA) e só pensavam naquilo. O primeiro anexou a Líbia e a Etiópia; o segundo assenhoreou-se da Europa quase inteira. Fizeram ambos o que deles se esperava. O comportamento de ambos coincidia com o anseio do povo. Combinava com o Zeitgeist, o espírito do tempo.

Os tempos hoje são outros. No mundo civilizado do qual imaginamos fazer parte, guerra de conquista saiu de moda. No Brasil, tirando algum devoto fanatizado, ninguém teme invasão chinesa, americana ou russa. Nem muito menos argentina, preocupação permanente de certos generais cinquenta anos atrás.

Hoje vivemos um tempo de contração, de interiorização. Nosso almejo e nossas esperanças estão voltados para dentro. Nosso sonho é alcançar uma igualdade social finlandesa, com padrão cultural francês, grau de segurança escandinavo e nível econômico americano. Quem é que não gostaria?

O valor simbólico do presidente da República equivale ao dos reis de antigamente – aqueles que eram escolhidos porque mais fortes que os demais e mais ágeis nas artes da guerra. Nossos reis de hoje têm de estar capacitados a conduzir nosso povo em direção aos padrões finlandeses, franceses, escandinavos e americanos.

Por seu valor simbólico, o presidente deveria estar assentado num degrau acima dos demais. Em países adiantados, é o que costuma ocorrer. Em países adiantados, eu disse. Por desgraça, não é nosso caso. A desigualdade social vertiginosa que perpassa nossa sociedade faz que o presidente será tanto mais apreciado quanto mais dinheiro distribua à massa de eleitores.

Quanto ao resto, se tem qualidades ou não, pouco importa. Ele está liberado para fazer o que bem entender: roubar, mentir, transgredir, agredir, regredir, tanto faz. Tudo lhe será perdoado desde que a torneirinha de onde pingam os caraminguás continue aberta.

Só isso explica que o atual inquilino do Planalto se tenha permitido, quando da live de ontem, pronunciar grosserias que nunca, jamais, em tempo algum, se ouviram da boca de um presidente do Brasil. Fico até incomodado de reproduzir aqui as palavras do doutor. Se o distinto leitor já ficou sabendo, tudo bem. Se não, boto aqui abaixo a frase presidencial. Só que, para não chocar nem envergonhar ninguém, escrevo de cabeça pra baixo. Assim, só lê quem quiser.

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Pra quem estiver lendo no telefone, é só virar o aparelho. Pra quem estiver à frente de um computador, é mais complicado. Gire o monitor ou torça o pescoço. Se não conseguir, não tem importância, não estará perdendo grande coisa. Não passa de uma ousadia a mais daquele que não tem categoria para ocupar o lugar onde está.

Nota etimológica
Decoro vem do latim decórum – aquilo que convém, que combina bem. É derivação do verbo decére, convir. Denota conveniência de atos ou de coisas, atributos do homem honrado. Esse verbo também deu decente.

Sinônimos mais ou menos próximos de decoro são: decência, honradez, dignidade, compostura, equilíbrio, vergonha, reserva, resguardo, recato, integridade, nobreza, brio, probidade, respeitabilidade, lisura, retidão, seriedade, moralidade. A lista não é exaustiva.

Agora responda sinceramente: se a frase pronunciada pelo presidente na live de 8 de outubro de 2020 não é quebra de decoro, o que será?

Presidente excepcional

José Horta Manzano

Temos, realmente, um presidente excepcional(*). Calma. Quando digo excepcional, não entendo necessariamente que o homem seja excelente, longe disso! Estou utilizando a palavra na sua acepção primeira: o que é fora dos padrões. De memória de gente, nunca um presidente do Brasil mandou tanta bola fora. Muitos dizem que ele é imprevisível. Não acho. Pelo contrário, o gajo é totalmente previsível.

Quando um repórter lhe faz uma pergunta sobre assunto que não lhe agrada, já se sabe: o repórter será insultado. Quando dirigentes mundiais estão trabalhando para proteger o povo contra uma epidemia, doutor Bolsonaro prefere se sair com um «Muito do que falam (sic) é fantasia, isso não é crise». Foi assim que ele deu as boas-vindas ao covid, cujo estrago em nossa terra já roça os 150 mil mortos.

Todos se lembram ainda de quando, em viagem aos EUA, ele soltou uma abobrinha retumbante. Afirmou ter provas de que as eleições que ele venceu foram fraudadas. Não é comum um candidato, após vencer por ampla margem, acusar o sistema de falcatrua. Trambique em favor de quem, capitão? Em matéria de paranoia, doutor Bolsonaro dá mostras de que seu caso não tem cura. Vê inimigo por toda parte, até no sistema que lhe deu a vitória. Vá entender!

Na Argélia, não faz muito tempo, um presidente senil, paralítico e visivelmente decrépito foi considerado inapto para o exercício do poder e, em seguida, afastado definitivamente. Não sou especialista em afastamento de presidentes; vai daí, não sei dizer se o presidente poderia ser declarado impedido, nem a quem caberia tomar essa decisão. Se for possível, está na hora de seguir esse caminho.

Nosso atual presidente é um engodo. Se fraude houve na última eleição, foi em favor dele… e em desfavor do povo brasileiro. Boa parte dos que o sufragaram, votaram enganados. Não sabiam de que estofo era feito o homem. Agora, todo o mundo sabe.

Bos sibi ipsi pulverem movet
O boi levanta poeira contra si mesmo

(*) Excepcional vem direto do latim. Só aparece na língua no século 16, chegado por via erudita. O verbo originário é excipere, onde cipere significa tomar/tirar e a partícula ex- tem o sentido de fora de. Portanto, o significado final é tirar para fora. Exceptus é o particípio passado. Em nossa língua, a família deu ainda exceto, exceção, excetuar.

Excepcional é o que foi tirado fora do conjunto, ou seja, o que está fora da norma fixada e geralmente aceita, acepção que cai como luva para doutor Bolsonaro.

Outra maneira de exprimir a ideia de fora da norma é anormal. Se preferir, pode aplicar esse termo quando se referir ao doutor. É forma ideológica e gramaticalmente correta.

Aprovação presidencial

José Horta Manzano

O Brasil é um poço de problemas. É um pote até aqui de injustiça, desigualdade e desesperança. Como resolver? Nada é impossível, mas a tarefa é gigantesca. Seria coisa pra duas ou três gerações. Essa conta só vale se houver verdadeira vontade. Como sabemos, verdadeira vontade não há. Portanto, nada vai começar a mudar. Vamos continuar esperando o messias, que esse que está aí não serve.

Toda e qualquer tentativa de esvaziar o poço de problemas e de elevar o nível civilizatório das gerações futuras passa obrigatoriamente pela educação. Não é razoável nem necessário exigir que todos recebam formação acadêmica; escola fundamental já está de bom tamanho, desde que a instrução seja de boa qualidade.

Se alguém ainda duvidava que uma pessoa instruída enxerga o mundo com outros olhos, eis um cala-boca: a mais recente pesquisa do Instituto Atlas. A sondagem, que acaba de ser publicada, constata que 56% da população reprova a atuação do presidente Bolsonaro, enquanto 40% a aprovam.

Esse é o número total, o somatório de todos os entrevistados. Veja agora a diferença que um pouco de estudo faz na capacidade de entendimento de cada um. Dos que fizeram curso superior, 70% reprovam o presidente, enquanto 30% aprovam (ou não respondem). Na outra margem, entre os que não foram além do ensino fundamental, as proporções praticamente se invertem: 60% o aprovam, enquanto 40% desaprovam (ou não sabem).

O distinto leitor sabe que o doutor é um estropício, uma pedra no caminho do Brasil, um prenúncio de tempos ainda mais difíceis que os atuais. Mas essa clareza de visão é privilégio de quem recebeu boa formação – aquela que abre as portas para a boa informação.

Nos tempos do lulopetismo, ainda havia a desculpa da ideologia – muitos se recusavam a admitir que os elevados ideais eram anulados pela vil roubalheira. Hoje, essa desculpa desapareceu. Ideologia não há, o que há é a ignorância rasteira de um governo que está mais para associação mafiosa. Só não se dá conta quem não consegue.

Mais uma boçalidade

José Horta Manzano

A mais recente boçalidade presidencial – (deixe escrever depressa, antes que ele cometa mais uma e esta aqui deixe de ser a última) – a mais recente, dizia eu, é a ameaça que fez a um repórter que lhe cobrava esclarecimentos sobre dinheiro suspeito depositado na conta da primeira-dama.

No mais puro estilo valentão de Xiririca, rosnou que queria quebrar a cara do jornalista atrevido. Cá entre nós, é moleza chamar alguém para a briga, quando se está rodeado de seguranças, cada um medindo dois por dois. Assim, até eu.

Sabe-se que cão que ladra não morde. Queria ver o presidente em campo aberto, sozinho, desarmado, só com o jornalista em frente. Vai que o atrevido é campeão de caratê, nunca se sabe. Queria ver se não afinava.

Jornais, tevês, plataformas, blogues e outros sites por onde passei comentaram a notícia. Imensa maioria disse algo como: «Ao ser perguntado sobre os depósitos na conta da primeira-dama (…)».

Ao ser perguntado? Bobeou que escreveu isso. É tentador dizer «Fulano foi perguntado sobre» ou «Na prova, os alunos foram perguntados se (…)». Mas a norma culta condena. O uso da voz passiva só é possível em presença de verbo transitivo direto. Assim:

O menino viu o livro.
O livro foi visto pelo menino.

A moça leva a sacola.
A sacola é levada pela moça.

O Congresso vai aprovar a lei.
A lei será aprovada pelo Congresso.

O problema é que, na acepção de pedir informação, o verbo perguntar não é transitivo direto. Portanto, nada de utilizá-lo na voz passiva.

Há diversas maneiras de dizer a mesma coisa sem atentar contra a norma culta. Esqueça o «ele foi perguntado». Use outro verbo. Aqui estão alguns:

indagar
interrogar
inquirir
questionar
interpelar
sondar
investigar
(há outros).

Cada um tem sua nuance. Procure o que melhor exprime o que você quer dizer. Todos os que mencionei são transitivos diretos, o que significa que podem ser usados na voz passiva.

O presidente e os testes

José Horta Manzano

Fofocas e boatos sempre existiram, mas a tecnologia moderna exacerba a difusão de informações tortas.

Estes dias, com meio mundo de férias, magistrados e até parlamentares em recesso, o assunto que ainda domina é a doença presidencial. Fatos e gestos de doutor Bolsonaro costumam envelhecer rápido devido à compulsão do capitão em produzir escândalos novos a cada dia. O silêncio que ele vem mantendo há duas ou três semanas espicha a sobrevida dos fatos e escândalos disponíveis.

Eis por que sua enfermidade continua na ordem do dia. Numerosas correntes de pensamento se formaram. Há quem acredite que o presidente já se contaminou faz tempo e que esta agora é uma recaída. Outros juram que o contágio é castigo de Deus, desencadeado pelo próprio Bolsonaro quando zombou dos compatriotas doentes soltando o terrível ‘E daí?’. Há ainda quem afirme que a contaminação é pura jogada de marketing; segundo essa corrente de fofoca, o presidente está em perfeita saúde, e a confissão de ter sido contagiado é só pra enganar trouxa e desviar a atenção das estrepolias dos filhos.

Visto que nós, o populacho, não sabemos ao certo o que aconteceu, há que respeitar todas as linhas de boato. A verdade se esconde em alguma delas. Linha por linha, acrescento mais uma. Vou dizer como imagino que os acontecimentos se tenham desenrolado.

Muita gente anda intrigada com o fato de Bolsonaro se ter negado a publicar o resultado dos primeiros testes de covid-19. Perguntam: «– Se os testes tinham dado resultado negativo, por que é que ele se recusava a mostrar?». E também: «Por que é que mostrou tão rápido desta vez – ainda por cima com resultado positivo?».

Acredito que a primeira bateria de testes foi feita com nomes fictícios exatamente porque não era pra ser mostrada ao público. Na cabeça do doutor, fazer o teste era sinal de que estava com medo da doença. Não cai bem um militar durão e machão, ‘com passado de atleta’, ter medo de uma «gripezinha». Eis por que ele não queria mostrar os exames. Não era tanto pelo resultado, mas pelo fato de ter-se deixado esfregar as fossas nasais – demonstração de fragilidade e de preocupação.

Já da segunda vez, com sintomas presentes, a história era diferente. Obrigado a ficar de quarentena, ele não ia conseguir esconder a doença. O Planalto está cheio de espiões linguarudos. Assim, achou melhor ir contando logo, antes que a verdade estourasse.

A teoria que expus pode não ser inteiramente verdadeira mas vale tanto quanto outra fofoca qualquer.

Um século de pérolas presidenciais

José Horta Manzano

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes, ao terminar o mandato

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Parente em governo sempre cria problemas. Para o governo ou para o parente.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Senador é só pose; quem manda mesmo é deputado.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Todos os dias leio os jornais para saber o que penso.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A esquerda também é conservadora e tem medo do novo.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Greve sem corte de ponto é férias.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, em visita a Windhoek, capital da Namíbia, África

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Eu acredito que nós temos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto (sic)…porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah! O legado é só depois’. Não vai deixar um legado antes, durante e depois.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Eu tenho orgulho de ser presidente. Convenhamos, é uma coisa extraodinária. Para mim, é algo tocante. É algo que não sei como Deus me colocou aqui.”
Presidente Michel Temer

“E daí?”
Presidente Jair Messias Bolsonaro

Atualização de post publicado faz alguns anos. A coleção de pérolas presidenciais se enriquece a cada santo dia.

Presidente Wilson dixit

José Horta Manzano

I am very much more afraid of the man who does a bad thing and does not know it is bad than of the man who does a bad thing and knows it is bad; because I think that in public affairs stupidity is more dangerous than knavery, because harder to fight and dislodge.

Tenho muito mais medo do homem que erra sem saber que errou do que daquele que erra sabendo que errou. Acho que, na trato da coisa pública, a estupidez é mais perigosa do que a velhacaria, por ser mais difícil de combater e eliminar.

Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA, em seu livro The New Freedom, publicado em 1913.

Os exames do presidente

José Horta Manzano

A divulgação dos exames que o presidente fez para detectar coronavírus desconforta os brasileiros aflitos. Responde a dúvidas, mas leva a reflexões.

Era verdade
Já em março, este blogueiro tinha levantado a hipótese de que doutor Bolsonaro pudesse ter sido infectado pelo vírus e que, após ingerir comprimidos de Plaquinol (=cloroquina), estivesse atribuindo sua cura a essa molécula. O esperneio destas últimas semanas confirma amplamente a hipótese, se não da cloroquina, pelo menos da contaminação. Tivessem os testes de março dado resultado negativo, teriam sido publicados imediatamente. E com orgulho de “atleta” invulnerável. Não vieram a público então, o que nos permite duvidar da veracidade dos que acabam de sair. Quem é que já não viu atestado falso assinado por médico de verdade? Quando é para o presidente, então, deve ter fila pra assinar.

Numeração
Uma semana atrás, escrevi um artigo sobre a estranha propensão presidencial de numerar as pessoas de seu entorno. Considerando que seus quatro filhos homens já ocupam as primeiras posições (01, 02, 03 e 04), eu estava curioso de saber que número o doutor teria reservado para si. Seria talvez 00? Não era. O teste do coronavírus (que ele jura ter dado negativo) revela que o capitão, como bom chefe de clã, põe os filhos à frente. Um dos laudos foi feito sob o “codinome” 05. Brasil acima de tudo e a famiglia acima de todos! –, que ninguém é trouxa.

O Estadão não hesitou: mandou brasa.

Sinônimos?
Palavras parecidas nem sempre são perfeitamente sinônimas. Há várias maneiras de designar um nome inventado. Pode ser pseudônimo, apelido, alcunha, apodo, nick – sem contar variedades eruditas como heterônimo, epíteto, cognome, alônimo, criptônimo ou o assustador onomatópose. Há ainda o curioso codinome, cunhado a partir do inglês code + name = nome de código. Cada falante escolhe as palavras que prefere, mas é bom tomar cuidado com codinome. Nos anos 1970, esse termo estava muito em voga pra designar terroristas. De doutora Dilma, afirma-se ter usado diferentes codinomes, entre eles Wanda e Iolanda. Se puder evitar, evite. A menos que esteja se referindo a organização criminosa. (Há quem jure haver uma, instalada no Planalto.)

Memento homo

José Horta Manzano

Diante do que faz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade dos mais recentes presidentes do Brasil. Exceção feita a dona Dilma, parecem todos grandes presidentes. Até o Lula está anos-luz à frente do pedregoso Bolsonaro. Pena que tenha se servido com tanta sem-cerimônia das benesses que o cargo lhe oferecia e – principalmente – que tenha permitido à malta despojar o Estado.

Diante do que diz doutor Bolsonaro, a gente sente saudade de todos os antigos presidentes do Brasil. Todos, de verdade, incluindo até aquele General Figueiredo, que gostava mais de cavalo do que de gente e que costumava dar coices verbais quando estava de mau humor. Em matéria de estilingadas verbais, Bolsonaro ganha estourado de todos eles.

Saiu um bom artigo de FHC no Estadão deste domingo. O antigo mandatário assume a confortável posição de observador distante e, com a autoridade de quem já viveu 9 décadas quase inteiras, distribui conselhos a quem interessar possa. Lá pelas tantas, ele cita um aforismo do Antigo Testamento. Coisa fina. Só que ele comete uma imprecisão. “Pulvis est et in pulvis reverteris” é o que ele diz, quando o correto é “Pulvis es et in pulverem reverteris”. Melhor ainda é citar o axioma na íntegra: Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. – Recorda, homem, que és pó e ao pó retornarás”.

Não tem importância. Só a lembrança de que já tivemos um presidente que fazia citações em latim já é um bálsamo. Acende a esperança de que doutor Bolsonaro não será uma verruga encravada na alma nacional por muito tempo. Um dia, que esperamos seja o mais logo possível, seremos brindados com inquilino do Planalto menos agreste.

Observação
A locução latina aparece na Vulgata da Bíblia (Gênese). São as palavras que Adão ouviu de Deus quando foi expulso do paraíso depois de incorrer no pecado original.

A palavra memento, pronunciada com voz solene e indicador apontado para o alto, tem valor de interjeição. Foi usada por séculos como advertência a alguém que estivesse a ponto de cometer um erro. Em italiano, as duas primeiras palavras da locução se juntaram pra formar «mementomo!», repreensão dicionarizada, mas hoje caída em desuso.

O elixir que salva?

José Horta Manzano

O presidente de Madagascar convocou ministros, embaixadores e jornalistas para assistirem a anúncio importante. Subiu ao palco, tomou o microfone e informou que tinha sido encontrado remédio local contra a covid-19, elaborado com plantas da ilha.

Com a garrafa na mão, acrescentou, entre dois goles tirados direto do gargalo, que o elixir faz efeito em 7 dias. A bebida já tem até nome: chama-se Covid-Organics, marca afinada com o zeitgeist (= espírito do tempo). Andry Rajoelina – esse é o nome do presidente – disse ainda que o remédio já tinha sido testado e aprovado por cientistas locais.

Andry Rajoelina, presidente de Madagascar
apresentação do Covid-Organics

Ficou no ar um certo desconforto. Jornalistas, que queriam ter acesso ao detalhe dos testes clínicos, voltaram de mãos abanando e consideraram que tudo aquilo estava opaco demais. Embaixadores, que examinam o mundo com a régua de medir vantagens para o próprio país, saíram desconfiados de que não passava de marketing barato; de fato, se o planeta passar a se interessar pela bebida, o crescimento das exportações malgaxes será exponencial. A OMS, por seu lado, pôs o “remédio” entre aspas e advertiu que sua eficácia está longe de ser comprovada.

Ocupado em combater inimigos imaginários, doutor Bolsonaro deve ter perdido a informação. Ainda bem, senão haveria o risco de ele também se tornar garoto-propaganda do elixir que salva.

O déficit presidencial

José Horta Manzano

A cada dia que passa, fica mais evidente o déficit de inteligência que acomete nosso presidente. Sua persistência em cometer bizarrices não provém de sua posição à esquerda ou à direita; nem dos conselhos do guru boca-suja ou dos filhos destrambelhados; nem da síndrome do parvenu que subiu rápido demais; nem da paranoia que o domina. Tudo o que mencionei não é causa, mas consequência. A causa de tudo é seu déficit de inteligência; em língua de casa, é burrice mesmo.

No trato que doutor Bolsonaro tem dispensado ao ministro da Saúde, salta aos olhos sua incapacidade de entender o que se passa a seu redor. Já faz dias que as pesquisas de opinião do Datafolha e do Ipesp/XP mostram que a população aplaude o trabalho do ministro, ao mesmo tempo que reprova a ação do próprio presidente.

Ciente da situação, doutor Bolsonaro age como barata: morde e assopra. De manhã, afaga o ministro; à tarde, dá-lhe uma fenomenal desancada. Tenta, sem sucesso, semear intriga entre o ministro e a população. Promete demiti-lo, mas, no último minuto, se acovarda e passa pomada. Não se dá conta de que, agindo assim, propulsa a popularidade do ministro às alturas e empurra a sua para baixo. Cada viravolta se traduz pelo acréscimo de pontos à popularidade do ministro – e, inversamente, pela queda do placar do próprio presidente.

Isso não é estratégia; é sinal de burrice. Sem perceber, doutor Bolsonaro está dando enorme contribuição para a popularidade de um ministro sensato e simpático. Sem se dar conta, está fabricando o adversário que poderá enfrentá-lo em 2022, com boas chances de vencer. Se o doutor continuar presidente até lá, naturalmente.

E agora?

José Horta Manzano

A epidemia de Covid-19, o novo coronavírus devasta o planeta numa onda que veio do Extremo Oriente, chegou à Europa e ameaça as Américas. Escorado no comportamento fanfarrão de seu ídolo americano, doutor Bolsonaro tem se mostrado nulo. Em vez de agarrar a ocasião pra subir ao palanque e mostrar força e vigor na proteção de seu povo contra o inimigo microscópico, deu de ombros e disse que a epidemia é “invenção da grande mídia”. Que cada um cuide de si. Afligente.

Nesta quinta-feira, ao levantar-se, ele há de ter ficado sabendo do que fez Trump durante a noite. O presidente americano deu uma pirueta e mudou radicalmente o discurso. Em tom solene, anunciou haver decretado a proibição de entrada nos EUA de todo estrangeiro que tiver pisado solo europeu nas últimas semanas. Solo chinês pode. A medida só visa a Europa. Mr. Trump encontrou no Velho Continente o inimigo providencial para reforço de sua campanha eleitoral. A medida sem precedentes assustou Oropa, França e Bahia. Bolsas caíram. Aviões voam vazios. Homens de negócio não sabem que fazer. Turistas desacorçoados pousam a mala no chão.

by Luc “O Sekoer” Descheemaeker (1955-), desenhista belga

E agora, doutor Bolsonaro? Como é que fica aquela história de que «esse vírus não é mais que uma gripezinha à toa»? Vai dar uma viravolta também? Agora pode, que Seu Mestre mandou. É nisso que dá viver dentro de uma bolha, cercado de militantes, isolado do mundo. Quem se afasta, como ele, nada aprende, de nada fica sabendo, a nada reage.

Agora doutor Bolsonaro está metido numa saia justa. Se seguir o exemplo de Mr. Trump, a vassalagem vai ficar explícita – um papelão. Se persistir na negação do evidente perigo causado pelo vírus, é o entupimento que vai ficar evidente – um papelão. Dilema é isso: escolha entre duas opções ruins. Quem viver, verá.