Exame para presidente

José Horta Manzano

Quando a gente escreve muito, não tem jeito, acaba se repetindo. Bom, tem uma coisa. Pra todo observador do mundo, há uma justificativa: escândalos, enormidades e bizarrices se repetem. Não passa um dia sem alguém voltar a dizer a mesma besteira, cometer a mesma asneira, tropeçar na mesma pedra. Assim é, não há como mudar. Vamos agora ao que interessa.

Será que o distinto leitor confiaria sua saúde aos cuidados de um indivíduo não formado, que não tivesse, pendurado na parede do consultório, diploma de habilitação para a profissão? Contrataria para defendê-lo no tribunal, numa causa cabeluda, um sujeito que não tivesse concluído uma faculdade de direito? Deixaria alguém que não tivesse cursado engenharia ou arquitetura construir seu sobrado? A resposta a todas essas perguntas é, sem dúvida, um sonoro não.

Pra dirigir um simples automóvel, a lei exige do condutor que tenha tido sucesso no exame de habilitação. Enfermeiro tem de ter estudo e diploma. Até para funções mais simples como faxineiro, vigia e operador de empilhadeira, exigem-se experiência anterior e referências.

Agora reflita um instante e diga-me se não é uma irresponsabilidade confiar o cargo mais importante do país – a Presidência da República – a alguém que não estudou para isso nem deu prova de estar preparado pra exercer o cargo. Em linguagem imaginária, pode-se dizer que essa pessoa vai dirigir o Brasil sem ter carteira de habilitação. Que vai cuidar dos males do país sem ter conhecimentos médicos. Que vai construir o futuro da nação sem a menor noção de engenharia. É loucura ou não é?

A meu ver, o voto de sei lá quantos milhões de eleitores não basta. Pra complicar, o voto no Brasil é obrigatório, fato que arranha a legitimidade do pleito. Quantos votaram por convicção e quantos compareceram unicamente pra não levar multa? Ninguém sabe. Seja como for, não são três ou quatro debates mambembes e engessados que permitem conhecer profundamente cada candidato.

Acredito que a Constituição deveria aumentar as exigências para os candidatos a presidente. Ser brasileiro nato e ter 35 anos é muito pouco. Tinham de enfrentar um exame, exatamente como qualquer brasileiro que pleiteia um emprego ou um diploma. Exame escrito e oral. Teriam de demonstrar que, além de serem alfabetizados, têm conhecimento básico de como funcionam as instituições, de como o Brasil se posiciona em meio às demais nações. Tinham de mostrar noções básicas de Geografia e História. Não me refiro a detalhes pontudos, falo de noções básicas.

Uma prova teria de ser exigida também de candidatos a outros cargos eletivos, mormente senadores e deputados federais. Um exame bem estruturado nos teria evitado os palhaços (profissionais e virtuais) que aparecem vez por outra. Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro não teriam como passar pela prova. A ausência desse trio infernal na chefia do Executivo teria evitado graves problemas que nos castigam agora e que continuarão a infernizar gerações inteiras de brasileiros.

Os prejudicados pela incapacidade de nossos dirigentes somos nós e nossos compatriotas inocentes. Estamos todos pagando caro pela incapacidade (apimentada pela má-fé) de dirigentes, indivíduos que bem podiam estar fazendo outra coisa na vida em vez de afundar o país.

Macron e a casca de banana

José Horta Manzano

A notícia passou meio despercebida na imprensa francesa, neste momento mais preocupada com as consequências das eleições europeias, com o interminável folhetim do Brexit e com os irritantes protestos dos derradeiros Coletes Amarelos. Vamos rebobinar o filme.

Dia 21 de abril, Volodimir Zelenski, jovem ator ucraniano de 41 anos, foi eleito presidente de seu país. Exemplo de ficção que se torna realidade, o moço tinha encarnado, numa minissérie televisiva, um professor de História que se tornava, por acaso, presidente do país. No auge da popularidade mas sem nenhuma experiência política, candidatou-se à Presidência assim como quem não quer nada. Com estonteantes 73% dos votos, venceu, no segundo turno, o presidente atual, que disputava a reeleição. Foi bem sucedido num desafio que nem nosso Tiririca ousou enfrentar!

Como acontece nessas horas, todos os dirigentes do planeta sentiram a necessidade de dar parabéns ao recém-eleito e desejar-lhe boa sorte. Dois humoristas russos, especialistas em dar trotes e pregar peças a personagens importantes, resolveram preparar uma pegadinha pra Monsieur Macron, presidente da França. Valendo-se do caminho mais simples, ligaram para o palácio presidencial francês e deixaram o número de celular do novo presidente. O número, naturalmente, era do celular deles.

Tranquilizados pela voz com sotaque carregado, os responsáveis pelo cerimonial da Presidência francesa não desconfiaram. Transmitiram o número a Emmanuel Macron. Pouco depois, o francês liga para o número que lhe haviam dado e, convencido de que estava a conversar com o novo presidente ucraniano, sente-se à vontade e solta as amarras.

 Do outro lado, a suposta voz do presidente recém-eleito provoca:

«– Veja, Monsieur Macron, com meus 73%, eu me sinto como meu vizinho Vladimir Putin, o presidente da Rússia.»

E Macron, que não perde a ocasião pra responder na lata:

«– É, mas eu tenho a impressão de que o sistema na Ucrânia ainda não está tão bem organizado como na Rússia. Você ainda não botou todos os seus oponentes na cadeia.»

Ai, ai, ai… Os humoristas russos, que tinham gravado tudo, puseram o áudio à disposição em sua conta no Twitter. Estavam à mesa todos os ingredientes de um sério incidente diplomático. Alguns poucos comentaristas franceses se mostraram surpresos pelo fato de o Palácio do Eliseu ter se deixado tapear com tanta facilidade. E também pela imprudência de Macron ao pronunciar palavras sarcásticas contra o presidente da Rússia, país importante e amigo.

Passado um mês, uma constrangida Presidência francesa segue firme na recusa de confirmar o fato. Tampouco emitiu desmentido, o que já é meia confissão. Por seu lado, a embaixada da Rússia em Paris informou não ter intenção de tecer comentários sobre o ocorrido.

Como se vê, não é só nosso presidente linguarudo que se mete em palpos de aranha ao dizer o que não deve a quem não convém. A diferença é que, enquanto outros escorregam na casca de banana que alguém lhes colocou no caminho, doutor Bolsonaro atravessa a rua pra escorregar na casca que avistou na outra calçada.

Recolha

José Horta Manzano

Uma das lembranças que guardo da infância é a dos ônibus que circulavam com o letreiro «Recolhe». Nem iam ao destino habitual, nem voltavam ao ponto de partida. Aquela palavrinha informal, pura expressão de português caseiro, ia direto ao que interessava. Sem floreios. Quem recolhia? Recolhia o quê? Não tinha importância. A informação era despretensiosa mas eficaz. De um relance, a gente entendia que aquele veículo não estava de brincadeira. Não ia parar. Acontecia, de raro em raro, que o motorista – que a gente chamava então de ‘chofer’ –, condoído da sorte de quem esperava no ponto, desse uma paradinha camarada e embarcasse algum passageiro. O homem atropelava o regulamento mas fazia a alegria de quem se dispusesse a compartilhar aquela viagem ao repousante destino. «Recolhe»…

Não sei se ainda se veem ônibus com convite tão explícito ao descanso e ao adeus às armas como aqueles da minha infância. Espero que sim. Afinal, ônibus também são seres humanos, como diria o outro, e têm direito a um descansozinho.

Li estes dias que a ideia de uma versão moderna de recolhimento perpassa o Congresso. Não visa a mandar veículos para o descanso. Bem mais ambicioso, o objetivo é aposentar o próprio presidente da República. Recolhida ou recolha há de ter soado jeca para os ouvidos de nossos sofisticados parlamentares. Vamos banir esse jeito primitivo de falar, que diabos! O projeto fala em «recall». A realidade é a mesma, mas a palavra estrangeira soa tão melhor. Fica muito chique.

O objetivo é deixar cair um grão de areia na engrenagem da Presidência. Dessacralizá-la. Fazer que o ocupante não se sinta onipotente e blindado contra vento de boreste ou tempestade de bombordo. Em princípio, tudo o que possa levar o presidente a refletir é bem-vindo. O projeto em tramitação, no entanto, parece-me de difícil aplicação. Para lançar um plebiscito revocatório, será preciso colher um número de assinaturas equivalente a 10% dos votantes na eleição precedente. Parece pouco, mas estamos falando de mais de dez milhões de peticionários, uma enormidade! Fica no ar um problema complementar: quem é que vai atestar a veracidade de cada assinatura? Com base em quê? Como evitar assinaturas repetidas?

Nosso país não tem tradição plebiscitária. Não há um órgão depositário da amostra da assinatura de cada cidadão. Não temos um registro de residência dos habitantes. Não vejo como um voto popular revocatório possa um dia ser implantado. O bom e velho impeachment – que já serviu um par de vezes – ainda me parece o único caminho viável. A recolha de presidente por iniciativa popular direta vai ficar pra uma próxima vez.

Vestibular pra presidente

José Horta Manzano

Quando o distinto leitor precisa de um médico pra cuidar da saúde, não há de se entregar ao primeiro charlatão que lhe apareça pela frente. Vai exigir que o profissional tenha seguido boa formação e que seja diplomado nos conformes. Da mesma maneira, se procura um advogado pra defender seus interesses, não há de se contentar em contratar um simples curioso que, embora esteja cheio de boa vontade, tenha pouca familiaridade com as leis. O raciocínio se repete na escolha do contador que vai cuidar da contabilidade da firma familiar, do arquiteto que vai assinar a planta da casa. E assim por diante, cada macaco no seu galho.

Cada campo de atividade humana exige o respectivo especialista. Por que é que, justamente quando se trata de escolher o presidente da República ‒ o dirigente-mor, aquele que vai traçar as grandes linhas do destino dos duzentos milhões que somos ‒ a gente se contenta com qualquer um, malformado, sem estudo, sem especialização, sem visão de mundo, sem experiência?

Toda profissão regulamentada tem suas exigências. Conforme a complexidade da atividade, o titular precisa ser alfabetizado, ter idade acima de certo patamar, mostrar atestado de antecedentes criminais virgem, provar ter sido diplomado. No mínimo. Justamente quando um grupo de candidatos se apresenta pra concorrer ao cargo maior, ninguém exige nada deles, a não ser que pareçam alfabetizados e que tenham completado 35 anos. É insuficiente. As responsabilidades pesadas do cargo não podem repousar sobre os ombros frágeis de um ignorantão.

Cá entre nós, convenhamos: se nossos últimos três presidentes eleitos tivessem sido submetidos à formalidade de um exame de passagem antes da oficialização da candidatura, é certeza que nenhum deles teria passado. Nem que o exame fosse «facinho, facinho». Nem o Lula, nem a doutora, nem doutor Bolsonaro estavam ‒ ou estão ‒ em condições de ter sucesso em exame básico de cultura geral. Cada um pode gostar dele ou detestá-lo, mas doutor FHC é o único, dos presidentes eleitos estes últimos 20 anos, que passaria no exame.

Ora, muitos dos grandes males que nos assolam atualmente têm origem em más decisões que se prendem à ignorância e ao despreparo do Lula e da doutora. O capitão que ora nos governa, infelizmente, dá continuidade à tradição apedeuta. Se um ponto é comum aos três, é justamente esse. Ai, como custa caro ao país!

Os candidatos a uma vaga no STF têm de ser sabatinados pelo parlamento. E olhe que, em princípio, os postulantes são juízes de fama ilibada e de notório saber jurídico. Todos têm de passar pelo exame. Por que diabos o presidente de todos nós escaparia a essa avaliação? Hoje em dia, a eleição está-se tornando um perigo. Com um bom exército de robôs a repicar tuítes elogiosos, qualquer iletrado pode ser eleito. O caminho do Planalto está ficando cada vez mais aleatório. Está mais que na hora de instaurar um vestibular pra presidente. Não garante que maus presidentes sejam eleitos, mas evita que indivíduos obtusos possam candidatar-se.

A contradança

José Horta Manzano

Com a redemocratização, começaram a ser feitos levantamentos de opinião pública para aferir a popularidade do presidente. Já temos hoje um estoque de 25 anos de dados, prazo que confere credibilidade a essas pesquisas. Hoje é possível comparar a marca atingida pelos diferentes presidentes em determinadas fases do mandato.

Os números referentes a doutor Bolsonaro, quentinhos do forno, acabam de ser publicados pelo Ibope. Ao dá-los a público, a mídia se encarregou de os confrontar com o escore obtido pelos presidentes anteriores, cuja popularidade foi medida na mesma altura do mandato. O resultado é desastroso.

O histórico de aprovação de governo inclui os presidentes Collor de Mello, FHC, Lula da Silva e Dilma Rousseff ‒ uma boa amostragem. Os resultados referentes a doutor Bolsonaro informam que a pontuação do presidente atual é inferior à de qualquer outro presidente no terceiro mês de mandato. (Do cálculo, estão excluídas as avaliações de presidentes em segundo mandato.)

Nem Collor, nem Dilma ‒ que seriam mais tarde destituídos ‒ sofreram apreciação tão baixa já no terceiro mês. No caso deles, a degradação da opinião pública só se manifestou mais tarde. Se eu estivesse na pele de doutor Bolsonaro, levaria muito a sério esses primeiros resultados. É hora de parar pra pensar, analisar, descobrir onde é que a engrenagem está pegando e tratar de consertar rápido antes que seja tarde.

É verdade que não precisa pensar muito pra encontrar o problema. Ele não decorre das ações do governo, praticamente inexistentes até aqui. Vem, antes, da contradança entre o despreparo e a incapacidade. As ações dos três irrequietos primeiros-filhos tem dominado a crônica de costumes.

Não se passa um dia sem que um deles não protagonize episódio bizarro. Por capricho ou vaidade, já derrubaram até ministro. Já armaram futricas contra gente graúda. Já cutucaram militares. Já se indispuseram com meio mundo. Na louvável intenção de ajudar o pai, ainda vão ser responsáveis por sua perdição. O levantamento do Ibope está aí plantado como presságio: «Depois não digam que não avisei».

Os palpites do presidente

José Horta Manzano

Presidente da República pode até ter opinião sobre tudo, mas não convém torná-la pública sistematicamente. Na escala social da nação, a posição do presidente não é a de cidadão comum. Assim como tem direitos que nós não temos (imunidade judicial, foro privilegiado, segurança pessoal, palácio pra morar, pensão e transportes grátis), tem um dever de reserva que não nos é imposto.

O distinto leitor e eu podemos, se assim o desejarmos, sair por aí dando nossa opinião e palpite sobre qualquer assunto. Se formos elegantes ou politicamente incorretos, tanto faz, desde que não ultrapassemos os limites da ofensa. O presidente não tem a mesma latitude que nós. Suas palavras têm peso maior e alcance mais amplo. Além do que, o bom senso ensina que o que é mais raro é mais precioso. Quanto menos se exprimir, com mais atenção será escutado.

Nosso caro doutor Bolsonaro, embora estique as asas, ainda não conseguiu alçar voo pra alcançar o trono presidencial. Continua se comportando como se ainda estivesse no baixo clero da Câmara. Diga-se, a seu desagravo, que ele não é o primeiro nessa situação. Todos se lembrarão do Lula, que passou oito anos na presidência se conduzindo como se no botequim da esquina estivesse.

Firme na linha do homem que ainda não vestiu a roupa do cargo, doutor Bolsonaro decidiu opinar sobre… placas de automóvel. Imaginem só, com todos os problemas que temos, o presidente perder tempo dando sua visão de estadista sobre aquela chapa de metal que todo carro leva (ou deveria levar).

Os menos jovens se lembrarão de doutor Itamar Franco, que presidiu esta República faz um quarto de século, nos anos de 1993 e 1994. Ele ficou na história por ter solicitado à Volkswagen que ressuscitasse o Fusquinha, modelo que havia saído de linha em 1986. É o tipo de assunto em que presidente que se preza não deveria meter o bedelho. Doutor Bolsonaro está repetindo a dose. O que é que tem placa de automóvel de tão importante pra entrar nas preocupações presidenciais?

Imagino que o fato de a nova placa se chamar «do Mercosul» e ser comum a meia dúzia de países da região incomode a visão estreita do Planalto. Devem estar achando que uma tal abertura nos faça mergulhar direto num perigoso terceiro-mundismo. Cada bobagem… Alguém precisa explicar àquele gente empacada que a introdução do novo modelo de placa é necessária porque as possibilidades de combinação do modelo antigo estão prestes a esgotar-se. Não é difícil entender, pois não?

Será que, se as novas placas copiassem modelo americano, seriam mais bem aceitas?

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

Da Vice-Presidência

José Horta Manzano

Uma de minhas birras recorrentes liga-se à figura bizarra do vice-presidente da República. O Artigo 79 da Constituição, o único que explica para que serve o vice, diz o seguinte: «Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente». É só, mais nada. Outras atribuições do vice ficaram pra ser especificadas em lei complementar, lei esta que nunca foi votada.

Assim sendo, além de aparecer nas fotos e consumir dinheiro público com salário, mordomias, transporte, segurança e manutenção do Palácio do Jaburu e da respectiva criadagem, o vice só serve pra substituir o titular em caso de impedimento deste. A palavra impedimento, para o pessoal do andar de cima, parece ter significado diferente do que lhe atribuímos nós outros, do andar térreo. É curioso.

Quando o presidente viaja para o exterior, servem-nos o requentado prato da despedida ao pé do avião, aformoseada com a cerimônia da transmissão de poder do titular ao vice. A transferência de poder é perfeitamente dispensável na era da comunicação planetária instantânea. Onde quer que esteja o presidente, as informações de Brasília lhe chegarão na hora, permitindo tomada de decisão imediata. Um vice imbuído de poderes presidenciais só traz confusão: durante esse período, o país conta com dois presidentes, ambos válidos e legítimos.

Quando Sua Excelência é internado para operação severa que o deixará fora do ar por semanas, aí sim, seria hora de o vice assumir as rédeas. No entanto, que vemos? Um presidente acamado, entubado, febril, doente, mas oficialmente em função. E um vice-presidente serelepe, pimpante, falante, sorridente, livre, desimpedido, mas… sem função de mando nem autoridade para tanto.

Se esta não é a hora de passar por cima de resistências do clã presidencial e transmitir logo os poderes ao vice, quando será?

Samba de um homem só

José Horta Manzano

Somos duzentos e tantos milhões. Pra enquadrar a marcha da nação e marcar o compasso dos cidadãos, há dezenas de ministros, centenas de parlamentares federais e estaduais, milhares de magistrados, prefeitos, vereadores, altos funcionários. Esse povo todo está lá, numeroso, justamente pra dar equilíbrio ao andamento da máquina. A multiplicidade de atores é garante dessa harmonia. Quando exercido por milhares de autoridades ao mesmo tempo, o poder se dilui, assegurando a despersonalização das diretivas. É importante para o bom funcionamento da democracia representativa.

Entre estarrecido e deprimido, o Brasil assistiu a espetáculo desagradável no fim de semana que passou. O drama representado no palco do Senado Federal foi grotesco, indigno de um país que se quer ‘emergente’. (Bem longe de emergir, ficou claro que ainda falta muito pra botar a cabeça fora d’água.) Só faltaram sopapos, porque o resto se viu: gente falando errado, discursos trôpegos, traições, gritos, atropelos, tentativa primária de fraude, casuísmos, decisões conforme a cabeça do cliente, indisciplina generalizada. Uma barafunda.

E tudo isso por quê? Que é que há de tão importante no cargo de presidente do Senado pra provocar tamanho apetite entre 81 marmanjos? Aí é que reside a negação do poder difuso e equilibrado. O presidente da Câmara Alta detém nas mãos imenso poderio. Cabe a ele ‒ e a ele só ‒ determinar a pauta das deliberações. Um projeto de lei que não lhe agrade? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment de ministro do Supremo, que não lhe pareça oportuno? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment do presidente da República, que não lhe convenha? Vai pra gaveta. Um pedido de suspensão da imunidade de um colega simpático? Vai pra gaveta e lá fica.

by R. Paschoal, ilustrador

Esse poder desmedido dado a um só homem abre as portas pra obscuras transações. Não é à toa que um despeitado Renan, ao jogar a toalha, lamentou ter sido traído por um dos Bolsonaros juniores ‒ aquele que é senador e que anda enrolado com a Justiça. Ficou subentendido que o enrolado dava seu voto em troca do apoio de Renan em caso de pedido de suspensão de imunidade parlamentar. É o toma lá dá cá florido e vigoroso.

O presidente da República tem o direito de governar por decretos, se assim o desejar. Isso lhe confere poder discricionário. Um solitário ministro do STF tem o direito de expedir decisões que balançam as estruturas da República. Isso lhe confere poder discricionário. Agora sabemos que também o presidente do Senado detém o controle do que será ou não votado. Isso lhe confere poder discricionário.

Conclui-se que, no frigir dos ovos, passando por cima dos milhares de pequenas autoridades que exercem um nacozinho do poder global, o grosso mesmo está concentrado nas mãos de um punhado de indivíduos, que se podem contar nos dedos das mãos. Cada um deles, quando age solitário, nos faz dançar o samba de um homem só.

Observação
Davi Samuel Alcolumbre (1977-) é o novo presidente do Senado. O intrigante e raro sobrenome é judeu sefardi(*). Os antepassados de doutor Alcolumbre hão de ter deixado um dia a Espanha, muito provavelmente quando da expulsão de 1492, para se estabelecerem nalgum país do leste do Mediterrâneo, de onde, séculos depois, emigraram para o Brasil. A grafia do nome flutua conforme a transcrição: Alcolumbre, Alculumbre, Alkulumbre são algumas das variantes.

O «Al» inicial denota arabização. De fato, ‘al’ é o artigo em árabe. Essa característica do nome Alcolumbre reforça a tese de a família estar estabelecida na Espanha à época do domínio mouro, que durou sete séculos.

(*) Diz-se sefardi (plural: sefardim) dos judeus originários da Península Ibérica. Em hebreu moderno, Sefarad é o nome dado à Espanha.

Sentar perto e sentar longe

José Horta Manzano

O presidente que, há duas semanas, assumiu o mandato confiado pelo povo brasileiro será, pelos próximos quatro anos, um residente do Palácio da Alvorada. A não ser que prefira viver na Granja do Torto. Ou, caso anseie por maior destacamento do bem público, opte por morar em casa própria ‒ ou em apartamento próprio, o que vem ao mesmo.

Sedente no trono e motivado pela obsidente catástrofe causada pelas gestões precedentes, torce pra conseguir apoio parlamentar para as reformas que pretende implementar. Faz votos pra que, nas próprias tropas governistas, não apareça nenhum dissidente.

Observação etimológica
As palavras grifadas em azul pertencem todas à mesma família. São todas aparentadas aos verbos latinos sĕdēre «estar sentado» e sīdĕre «pôr-se a sentar, fazer o movimento de sentar-se».

Sentido original das palavras grifadas

  • presidente: aquele que se senta antes dos outros ou à frente dos demais
  • residente: aquele que permanece sentado em algum lugar
  • sedente: aquele que está sentado
  • obsidente: aquele ou aquilo que causa obsessão
  • dissidente: aquele que, por discordar, se senta afastado dos demais

Caiu na rede

José Horta Manzano

Alguém disse que foi no Facebook que doutor Bolsonaro cresceu, e que de lá não quer sair. É verdade, é sinal dos tempos. Quem precisou levar uma sova pra aprender isso foi doutor Alckmin, candidato infeliz à Presidência. Não se tendo dado conta de que os tempos haviam mudado, ele apostou todas a fichas no horário eleitoral ‘gratuito’ transmitido pela tevê. Perdeu todos os anéis e, por um triz, não se foram os dedos.

Doutor Bolsonaro não mora no Alvorada nem no Torto. Fixou residência nas redes sociais. Disse adeus a palanques e comícios, dos quais nunca foi grande fã. Passa longe de escrever artigos para a imprensa e de discursar no rádio. Desdenha aparições na televisão. As redes sociais são sua praia favorita. Esse é, por sinal, o ponto de maior semelhança entre ele e seu homólogo dos EUA. De fato, Mister Trump reza pelo mesmo missal: tudo pelas redes, nada fora delas.

Quem achar isso estranho, que vá se acostumando: estamos no limiar de nova era no terreno das comunicações. Discursos radiofônicos e comícios para um mundaréu de gente traziam ao ouvinte a desagradável impressão de que a fala não havia sido dirigida a ele, mas a uma multidão ‒ um discurso impessoal, que sempre deixava um gostinho de insatisfação.

A comunicação por meio das redes é direta. O recado aparece na palma da mão do eleitor, como se lhe fosse pessoalmente endereçado. Frases curtas e despojadas convidam à leitura e facilitam o entendimento. O cidadão tem uma sensação de intercâmbio amistoso entre o líder e ele, como se a hirerarquia tivesse desaparecido ‒ ainda que isso não seja verdade.

O governo de um país da importância do Brasil, no entanto, é por demais complexo pra ser exercido em ritmo de tuitadas. Frases de efeito, ainda que angariem milhões de likes, se não forem seguidas de ação concreta, não levarão a bom porto. Dez dias é pouco pra avaliar um governo de quatro anos. Mas é bom que, lá em cima, doutor Bolsonaro comece a se preocupar menos com palavras impactantes e mais com ações concretas. É pra isso que foi eleito.

Desleixo quadrienal

José Horta Manzano

A faixa verde-amarela, símbolo mais vistoso da Presidência, passa do antigo ao novo inquilino. A cerimônia é solene, encenada diante de câmeras e plateia. De tanta importância que se dá ao adereço, a gente fica com a impressão de que presidente usa faixa o tempo todo. Será que dorme com ela?

No entanto, um detalhe não costuma ser contado. A faixa é renovada a cada mandato. A que doutor Bolsonaro recebeu não é a que doutora Dilma tinha usado. Foi confeccionada especialmente para ele. Foi apenas ‘emprestada’, por alguns minutos, a doutor Temer, só para a cerimônia de passação.

Olhando de longe, o amarelo da faixa inaugurada ontem me pareceu meio pálido. Os símbolos da nação são rigorosamente codificados, fato que não é conhecido de todos. As estrelas da bandeira têm lugar astronomicamente definido. O verde, o amarelo, o azul e até o branco são descritos nos sistemas de cores RGB, CMYK e Hexadecimal. Se bandeirinha vendida em banca de jornal sair do tom, não será tão grave assim. No entanto, para uso oficial, os símbolos deverão respeitar fielmente o figurino.

Pelas imagens, é difícil julgar se a palidez do amarelo era verdadeira ou só impressão minha. De repente, lá vem doutor Bolsonaro agitando bandeira que tinha levado no bolso. O contraste foi impiedoso. Não era impressão minha. O amarelo intenso ‒ e oficialmente correto ‒ da bandeira de bolso escancarou a palidez da faixa.

É preocupante que o símbolo do cargo tenha empalidecido antes mesmo da assunção do novo ocupante. É mau sinal. Lembra aquele carro russo que importavam nos anos 1980, cuja chave, diziam as más línguas, já vinha enferrujada.

Assim mesmo, é de indignar o fato de a insígnia do chefe de Estado ser confeccionada com tamanho desleixo. Têm quatro anos pra pensar no assunto e, apesar disso, ainda sai com defeito. Desleixo quadrienal.

Chefe de Estado

José Horta Manzano

A data de entrada em função do presidente da República variou ao longo dos anos. Até 1930, o eleito tomava posse do cargo num 15 de novembro. Terminado o interregno getulista, o dia mudou para 31 de janeiro. No período militar, passou a ser dia 15 de março. Os constituintes de 1988, talvez preocupados em eliminar tudo o que dizia respeito aos militares, decidiram fazer coincidir o ano presidencial com o ano civil: a posse passaria a ser em 1° de janeiro.

Trinta anos se passaram mas, assim mesmo, a data continua incômoda. Atrapalha muita gente. Cai em pleno período de festas. Estraga o feriado de todos os convocados a trabalhar em virtude da tomada de posse: policiais, seguranças, servidores e funcionários rasos, repórteres, jornalistas, gente do rádio e da tevê, militares, controladores de tráfego aéreo, pessoal médico e paramédico de prontidão. E muito mais gente.

Outro ponto chato é a influência negativa que a escolha infeliz faz recair sobre o prestígio internacional do empossado. Se a data é incômoda para nacionais, o é também para estrangeiros. Raríssimos são chefes de Estado ou de governo a se abalarem no meio da festa de passagem de ano. Tirando os dirigentes de países vizinhos, contam-se nos dedos de uma mão os visitantes graduados. Cerimônia assistida por apenas meia dúzia de gatos pingados vindos do estrangeiro soa como desapreço ao presidente estreante.

Os países que não podem deixar de marcar presença mandam representante de patente mais ou menos elevada. Da Itália, está anunciada a presença do ministro da Agricultura. Outros europeus mandarão representantes de nível equivalente. Fico imaginando que o pau deve comer feio entre assessores susceptíveis de serem designados para vir a Brasília. É possível que tirem no palitinho. Deixar a festa e a família falando sozinha pra viajar milhares de quilômetros a fim de assistir a uma cerimônia sem graça é o fim da picada.

Jornalistas distraídos, ao comentar a longa estada de Benjamin Netanyahu no país, dão-lhe o título de «chefe de Estado». Erram. Bibi Netanyahu, aliás bastante enrolado com a Justiça de seu país sob acusação de corrupção, não é chefe de Estado. Como primeiro-ministro, ele é o chefe do governo israelense. Desde julho de 2014, o chefe de Estado de Israel é Reuven Rivlin, o presidente da República.

Que se observe: tampouco Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, é chefe de Estado. Não passa de chefe do governo húngaro. Nas repúblicas latino-americanas, na falta de primeiro-ministro, o presidente da República encarna as duas funções: chefe de Estado e chefe de governo. Em regimes parlamentares, não funciona assim.

Está aí um efeito colateral pernicioso da fixação da tomada de posse em 1° de janeiro. Israel é um país simpático, sem dúvida, mas está longe de ter a importância de EUA, China, Rússia, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão. Na falta de dirigentes graduados representando esses países de destaque, doutor Netanyahu, chefe de governo de Israel, virou a estrela do momento. Está vivendo seu momento de glória nos trópicos, antes de ser de novo engolfado pelo dia a dia de seu país. Quem não tem cão, caça com chefe de governo mesmo.

Solução
Há maneira simples de remediar a esse transtorno sem modificar a Constituição. Quem já não viu alguém fazer anos numa quarta-feira e organizar a festa no sábado seguinte? Pois é só aplicar o mesmo raciocínio para a entrada em funções do presidente.

A tomada de posse continua dia 1° de janeiro, nada muda. Será cerimônia simples, entre quatro paredes, sem desfile, sem parada, sem convidados estrangeiros. A festa será marcada para daí a dez ou quinze dias, num fim de semana. Aí, sim, convidados nacionais e estrangeiros poderão apreciar o desfile, o carro aberto, a subida da rampa, os salgadinhos e as bebidinhas. Sem excesso.

Um século de pérolas presidenciais ‒ bis

Texto publicado originalmente em 28 jun° 2015

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

Presidente 3“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.

Entre duas canoas

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, escrevi sobre Monsieur Valls, que já foi primeiro-ministro da França e que hoje, transformado em Señor Valls, tenta a eleição para prefeito de Barcelona (Espanha). Não são comuns esses casos de figura pública transnacional, que brilha num país para depois continuar em outro.

Hoje surge mais uma estrela nesse peculiar firmamento. Trata-se de Madame Salomé Zourabichvili. Até poucos anos atrás, era diplomata francesa, com o grau de embaixadora. Hoje acaba de tornar-se presidente da Geórgia, pequena república do Cáucaso, vizinha da Rússia. Foi eleita no segundo turno com estonteantes 60% dos votos ‒ uma consagração.

A história de muitas famílias georgianas se acelerou faz um século. A Revolução Russa de 1918 chacoalhou a vizinhança. Na Geórgia, aqueles que, implicados na política local, caíram do lado errado da nova ordem, tiveram de arrumar a trouxa e se exilar antes que mal maior adviesse. Foi o que aconteceu com os avós da recém-eleita presidente.

Sua mãe nasceu na Turquia, em plena rota de exílio. Seu pai já nasceu na França. Nascida, ela também, em território francês, cedo sentiu-se atraída pela diplomacia. Entrou para a carreira e chegou ao grau de embaixadora. Não foi senão em 1986, quando já estava perto dos 35 anos de idade, que visitou a Geórgia pela primeira vez.

Salomé Zourabichvili, presidente da Geórgia

Depois da virada do século, sua carreira entrou em fase trepidante. Em 2003, chefiava a embaixada da França em Tbilisi, capital da Georgia. No ano seguinte, já se viu projetada ao cargo de ministra das Relações Exteriores do país de seus antepassados, nomeada pelo recém-empossado presidente. A vida dá voltas.

A partir daí, Madame Zourabichvili teve de se decidir. Não era possível servir, ao mesmo tempo, ao governo de dois países. Optou pela terra dos ancestrais e continuou na política georgiana. Conservou a dupla nacionalidade durante alguns anos. Poucos meses antes da eleição presidencial, renunciou à cidadania francesa e tornou-se 100% georgiana.

Ao depositar o voto na urna, Kalbat’oni Zourabichvili(*) declarou «Minha escolha é uma Geórgia em paz, uma Geórgia unida, uma Geórgia sorridente». São nossos votos também, dona Salomé. Amém para todos nós!

(*) Kalbat’oni é a transcrição de ქალბატონი, bordado georgiano que significa senhora.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Eleições concentradas

José Horta Manzano

Em primeiríssimo lugar, quero expressar meu mais veemente repúdio ao chocante atentado de que foi vítima doutor Bolsonaro. O homicídio é a pior maneira de enfrentar um problema. Além de não resolvê-lo, cria outros mais graves. Assassinato é a marca do homem primitivo, daquele que não tem argumentos mais inteligentes.

Aproveito o portador pra declarar que doutor Bolsonaro não é meu candidato favorito. Considero que, depois de 13 anos de governantes toscos, o país merece outra coisa. De direita, de esquerda, de centro, de frente ou de fundos, pouco importa. Gostaria que o novo presidente fosse instruído e bem-intencionado. Doutor Bolsonaro me parece cru, cheio de rebarbas que ainda precisam ser desbastadas. Talvez possa recandidatar-se daqui a alguns anos. No intervalo, seria bom ele se jogar de cabeça num curso de Conhecimentos Gerais. Pelo menos.

Depois do atentado, a eleição deste ano, que já estava atípica e esquisita, ficou desnorteante. Tirando doutora Rousseff, que entrou pesado como elefante em loja de porcelana, os demais figurões estão cheios de dedos, sem saber direito o que declarar. Perderam todos a coragem de atacar o adversário ora acamado. Mas isso passa.

Mesmo antes do atentado, o clima de insegurança já estava instalado. Conforme vai-se aproximando o dia do voto, é normal, a adrenalina vai subindo e baralhando as cartas. Candidatos discursam com um olho na plateia e outro nas pesquisas. O teor dos pronunciamentos varia conforme o dia, o lugar e a última sondagem de opinião. Com razão, o eleitor se sente confuso.

Eleição é evento raro no país. E, quando vem, vem com uma fiada de cargos e uma baciada de candidatos. A propaganda eleitoral do rádio e da tevê mais faz amolar que esclarecer. Não me parece sensato exigir que o eleitor declare, de um só golpe, sua preferência para deputado estadual, deputado federal, governador, primeiro senador, segundo senador e ainda para presidente da República. Uma eleição acaba ocultando outra. A escolha do presidente ‒ importante por natureza ‒ encobre o voto para governador, que deita sombra sobre a escolha dos parlamentares.

O calendário tem de ser apurado. Seria muito mais ajuizado separar as eleições gerais em três blocos. No primeiro, os cidadãos escolheriam somente o presidente. A campanha não seria poluída por ruídos estranhos. Escolhido o presidente, viriam duas semanas de campanha e todos voltariam às urnas para eleger o governador. Após novo período de duas semanas de campanha, seria a vez de votar para deputado estadual, deputado federal e senador.

Se parece longo é porque não estamos habituados. Em outros países é assim. Faz mais sentido escolher os parlamentares federais quando já se sabe quem é o presidente. Faz mais sentido escolher os parlamentares estaduais quando já se sabe quem é o governador. A longa temporada de votação é o preço a pagar para aperfeiçoar a democracia. Do jeito que está, fica a impressão de que puseram tudo junto no mesmo dia só pra cumprir tabela e satisfazer exigências legais.