República ou republiqueta?

José Horta Manzano

De 24 a 30 de setembro, terão lugar os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, encontro que marca o início dos trabalhos do período 2019-2020. Como manda uma regra não escrita – mas respeitada todos os anos –, o Brasil tem a honra e o privilégio de ser o primeiro na lista de oradores.

Visto que todo país pode se inscrever, a lista de discursantes é longa, com dezenas e dezenas de chefes de Estado, chefes de governo, chefes de delegação. Doutor Bolsonaro vai ser o primeirão. Vai encontrar uma plateia cujos ouvidos ainda guardam o frescor de quem saiu da cama pouco tempo antes. É uma oportunidade e tanto.

Ser o primeiro orador é oportunidade única. Imperdível, como diria o outro. Ele vai falar antes de Trump, antes de Macron, antes de Putin, antes de Xi Jinping. Como é fácil imaginar, o primeiro discurso é ouvido com mais atenção do que o décimo sétimo ou o trigésimo terceiro.

O momento é solene. Neste anos recentes, o discurso do presidente do Brasil tem saído pasteurizado, sem grande relevo, sem força. Ninguém se lembra do que disse Michel Temer, nem do teor das palavras da doutora. Quanto ao Lula, então, sua fala ficou prisioneira da espessa bruma do passado.

Que dirá doutor Bolsonaro? Esperamos todos que ele já chegue com discurso pronto, escrito no papel, com letra bem grande. É a melhor maneira de prevenir que nos envergonhe proferindo torrente de bobagens. Imaginem o que seria se ele soltasse uma daquelas falas proibidas pra menores, daquelas que terminam invariavelmente com um ‘talquei’?

Dizem que ele anda preocupado com a sabatina que o bolsonarinho deve enfrentar no Senado antes de assumir a embaixada de Washington. Receia que o filho leve bomba no exame. (Essa era a expressão que se usava, nos tempos de antigamente, pra dizer que alguém foi reprovado.) Não quer que os dirigentes presentes à assembleia o enxerguem como incapaz de obter maioria no Senado. Considera que seria uma vergonha.

No meu entender, doutor Bolsonaro está equivocado. Nas democracias, descompasso entre o Executivo e o Legislativo é coisa corriqueira. Essas rusgas só são dramáticas em regimes autoritários. Se o parlamento chinês, por exemplo, desautorizasse Xi Jinping, seria o fim do mundo. No nosso tipo de regime, não tem grande importância. O próprio Trump encontra resistência, a toda hora, na Casa de Representantes.

Muito mais grave que desentendimento entre poderes é a própria nomeação do filho. Toda a imprensa mundial terá dado a notícia. O presidente do Brasil subirá ao púlpito no papel caricato daquele personagem de republiqueta de banana que distribui, entre parentes, cargos importantes e bem remunerados.

Não adianta. Se, no momento do discurso, a nomeação do filho já tiver sido confirmada pelo Senado, doutor Bolsonaro não será enxergado como presidente de uma República decente, mas como chefe de clã. Será visto com bigode e chapelão tipo sombrero. Ainda que apareça com a cara habitual.

Tripudiar

José Horta Manzano

Não há consenso sobre a origem do termo tripúdio. A corrente mais forte acredita que a palavra se componha de dois elementos: tri (do latim tres = três) + pud (do latim pes,pedis = pé). Teria origem em antiga dança festiva, organizada em regozijo por vitória conquistada. Era marcada com batidas de pé em compasso ternário, o que explica a presença do ‘tri’. Além disso, já foi proposta a hipótese de o verbo alemão atual trippeln (=trotar) ser descendente do tripúdio. O verbo trepar, presente nos falares ibéricos, é visto por alguns como membro da mesma família. Mas não há consenso.

Em português atual, a palavra tripúdio e o correspondente verbo tripudiar são muito raramente usados no sentido próprio de dançar saltitando ou sapateando. O uso mais frequente é no sentido figurado, com o significado bastante sádico de alegrar-se com a derrota do adversário ou com a desgraça de alguém, aproveitando a ocasião para debochar do infeliz. É verdadeiro sapateado em cima do caixão, imagem evocada por Noel Rosa, num momento de masoquismo, ao implorar pra ser tripudiado(*). O sentido de tripúdio é próximo do da palavra alemã Schadenfreude, que exprime a alegria que alguém sente com a desgraça alheia.

By R. Paschoal, ilustrador

Em entrevista a uma jornalista, doutor Bolsonaro tripudiou. Querendo fazer graça, veio com a conversa de que o embaixador do Brasil em Washington «tem que ser filho de alguém, então por que não pode ser meu?». O presidente debochou dos demais candidatos que, embora infinitamente mais bem qualificados para o cargo, não são filhos do presidente. Debochou da frustração dos que foram abandonados pelo caminho.

Pra piorar, disse, com todas as letras, que o embaixador é «um cartão de visitas» do Brasil. Não é. Embaixador é trabalhador da sombra. Há pouca gente capaz de se lembrar do nome dos três últimos ocupantes da chefia de nossa embaixada em Washington, a mais importante de todas. Embaixador, antes de ser ‘cartão de visitas’, é alto-funcionário, tarimbado, flexível quando é preciso, firme quando tem de sê-lo, profundo conhecedor do movimento contínuo entre as potências do planeta, a par das idas e vindas do mercado mundial. Tem de dispor de sólida formação em línguas, relações internacionais, macroeconomia, problemas brasileiros, cenário de trocas econômicas internacionais (exportação e importação de cada país). É muita coisa pra um inexperiente ‘filho de presidente’.

Enquanto doutor Bolsonaro tripudia, quem perde mesmo é o Brasil. Mas ele não está nem aí. Beneficiou o filho, que era o que interessava.

(*)Fita amarela
Noel Rosa
(…)
Se existe alma, se há outra encarnação
eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Aqui na gravação original de 1933 por Francisco Alves e Mário Reis

Favas contadas?

José Horta Manzano

Quando foi anunciada, a provável nomeação de um dos bolsonarinhos para chefiar a representação diplomática mais importante do Brasil no exterior parecia boato. Ou ‘fake news’, como convém dizer hoje. Era tão fora de esquadro, que nem as carolas frequentadoras da capela dos Aflitos acreditaram.

O passar do tempo, que cicatriza feridas, serve também pra acostumar o homem a consentir com ideias que, ainda ontem, rechaçava. É o que se deduz da chamada de hoje do Estadão: o moço terá de completar uma tarefa antes de se mudar para o palacete de Washington. Está subentendido que a mudança está no papo, que são favas contadas. Será mesmo?

Chamada Estadão, 2 ago 2019

Não é tão garantido assim. Ainda tem ainda uma pedra no caminho. Ou o primeiro-filho contorna essa pedra, ou não passa. Refiro-me ao Senado da República. Como bem sabe o distinto leitor, os senadores são 81, três pra cada unidade federativa. Considerada a votação que receberam, são mais legítimos do que o próprio presidente da Republica. Enquanto doutor Bolsonaro recebeu em torno de 57 milhões de votos, o conjunto dos senadores foi eleito com mais de 100 milhões. Ou seja: aqueles 81 personagens representam a totalidade do eleitorado; estão lá pra defender todos os brasileiros.

Todo embaixador, antes de ser efetivado no cargo, tem de ser aprovado pela maioria dos senadores. Doutor Bolsonarinho, goste ou não, recém-casado ou não, filho de presidente ou não, fâ ardoroso de Trump ou não, respeitado fritador de hambúrguer ou não, ignorante de questões internacionais ou não, terá de passar pelo crivo dos sisudos senadores. Em votação secreta! Vamos ver se passa.

Por sorte não é o Carlos

Ascânio Seleme (*)

O fato é que [na novela da nomeação do filho para embaixador em Washington], Bolsonaro já perdeu, não importa qual seja o desfecho do episódio.

Se Eduardo for indicado pelo pai, aprovado pelo Senado e pelo Supremo, o deputado vira embaixador, vai embora e enfraquece o bloco monolítico familiar que ajuda a sustentar emocionalmente o presidente.

Bolsonaro & bolsonarinhos
Crédito: vespeiro.com

Se for indicado e acabar caindo no Senado ou no Supremo, seu pai terá sofrido a mais dura derrota desde a posse, já que o rejeitado será, para lá da questão política, seu filho.

Se o presidente recuar e acabar não fazendo a indicação, terá mostrado fraqueza diante de um ambiente político hostil que não teve coragem de enfrentar. E, ainda pior, terá um filho melindrado. Por sorte não é o Carlos.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. O texto integral foi publicado n’O Globo de 18 julho 2019.

Direto pra casa

José Horta Manzano

«Não é republicano!»

«É imoral!»

«Nunca se viu coisa parecida!»

«O currículo do rapaz é ridículo!»

«A lanchonete onde diz ter fritado hambúrguer só vende frango!»

«Mentiu ao dizer que tem mestrado!»

«É nepotismo puro!»

«O Brarão do Rio Branco deve estar se revirando na tumba»

«Devia ser proibido por lei!»

«Só pode ser provocação do presidente!»

«Ele só pretende beneficiar o filho, nada mais!»

«Há profissionais muito mais competentes!»

Tenho lido centenas de diagnósticos como esses aí acima. Todos se insurgem contra a intenção de doutor Bolsonaro de transformar o filho deputado em embaixador do Brasil em Washington – de longe, o posto mais elevado, mais cobiçado e mais prestigiado da carreira diplomática.

Só há um meio de baixar a porteira e trancar o avanço do desvario presidencial, realidade cada dia mais evidente. Esse meio chama-se Parlamento. Desde que Montesquieu, na primeira metade do século 18, distinguiu três tipos de Poder, todos eles complementares, independentes e postos em pé de igualdade, esse problema de presidentes que tendem a extravasar de suas funções deixou de existir. A mesma urna que elege o presidente elege também deputados e senadores. A legitimidade de todos é exatamente a mesma.

A democracia na qual – em teoria – vivemos é um sistema de pesos e contrapesos. Cada um dos três Poderes está concebido de forma a agir como barreira para impedir excessos dos demais.

Nomeação de embaixador tem de ser aprovada com o voto da maioria dos senadores, em escrutínio secreto. Pronto, esse mal tem remédio. Caso não tenham vendido a alma ao diabo, os senadores de bom senso vetarão a nomeação do pimpolho presidencial. Caso aprovem, a coisa se complica. E a conclusão fica evidente: estão vendidos. Ou não têm bom senso.

Se isso acontecer, anote o nome dos três senadores de seu estado e guarde bem guardado. Na próxima eleição, simplesmente não vote neles. Talvez algum inocente venha a pagar pelos pecadores mas… que remédio? Se todos os eleitores agirem assim, é certeza que os senadores vendidos voltarão pra casa e não voltarão à Casa.

Ispiquingri?

José Horta Manzano

Fosse doutor Bolsonaro dotado de sagacidade em matéria política, a gente até acreditaria ser balão de ensaio, daqueles que a gente solta só pra ver que efeito faz. Mas não. Nosso presidente passou longe da fila da sutileza logo antes de descer à terra no bico da cegonha. Com ele, não há balão de ensaio. O que diz é o que pensa, vem cru e sem tempero. O problema, como bem frisa o Conselheiro Acácio, é que as consequências costumam vir depois. E olhe que vêm mesmo.

A mais recente tirada estapafúrdia do presidente foi o anúncio de sua intenção de nomear um dos bolsonarinhos para chefiar a embaixada do Brasil em Washington. Não é balão de ensaio, acreditem. É o que doutor Bolsonaro pensa, o que ele acha melhor para ele, logo, para o Brasil. Escolheu o filho que, eleito deputado federal em outubro passado, com monumental votação, não tem sido a figura mais assídua do hemiciclo.

Mas os brasileiros podem dormir tranquilos porque, antes de assumir o posto, o bolsonarinho deverá passar pelo crivo do Senado da República. Por pior que sejam os parlamentares da Câmara Alta – e não são tão ruins assim – não deixarão passar esse disparate.

Cego guiando cego
by Frits Ahlefeldt, desenhista dinamarquês

O filho do presidente não é diplomata. Nunca chefiou embaixada, nem consulado. Não foi sequer atendente de guichê de entrega de passaporte. É lícito pensar que não passaria no exame de entrada no Instituto Rio Branco. No de saída, então, nem em sonho. Nossos diplomatas são numerosos e estão entre os profissionais mais bem formados do país. Não faz sentido introduzir um estranho no ninho. Em festa de inhambu, jacu não entra.

A escolha do rebento presidencial para o mais alto posto de nossa diplomacia passa incontestável atestado da falência da Instrução Pública no país e dá prova escancarada do constrangedor monolinguismo nacional: o rapaz conhece bem inglês. Ah, se o rapaz conhece bem inglês, então está em condições de assumir o cargo – é o que imagina doutor Bolsonaro.

Ora, ora… Vejam, senhores: a ignorância nacional em matéria de conhecimento de línguas estrangeiras é tão monumental que o fato de um cidadão arranhar seu inglesinho já lhe dá currículo suficiente pra ser titular da mais importante embaixada que o Brasil mantém.

In terra caecorum monoculus rex.
Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

A que ponto chegamos!

O crustáceo censurado

José Horta Manzano

A mídia israelense não deixou barato – crucificou o conterrâneo deles que atualmente ocupa a função de embaixador em Brasília. Talvez o distinto leitor já tenha tomado conhecimento através de redes sociais. Se não for o caso, conto a história.

Desde que o ainda candidato Bolsonaro, sem atinar com as consequências do que dizia, declarou que, se eleito, transferiria a embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém, o alto escalão israelense ficou alvoroçado. Se Bolsonaro fosse eleito e cumprisse a promessa, a mudança de endereço da embaixada do Brasil seria um importantíssimo gesto de apoio à política do país.

Doutor Bolsonaro acabou eleito. No dia da tomada de posse do cargo – um incômodo primeiro de janeiro que atrapalha todo o mundo – Israel foi o único país não latino-americano a prestigiar o evento com a presença do chefe de governo. Enquanto os demais países enviavam ministros, encarregados de negócios, chefes de gabinete, Israel mandou um sorridente Benjamin Netanyahu, tratado aqui como convidado VIP.

O tempo passou, a ideia de mudança de endereço da embaixada foi colocada no fundo da geladeira, e ninguém por aqui fala mais nessa tolice. Acontece que o governo israelense não esqueceu. Assunto importante para eles, continua na pauta. Nesse cenário, o embaixador de Israel em Brasília almoçou domingo passado com doutor Bolsonaro, antes de irem juntos assistir ao jogo da Seleção.

Na refeição, nada de pão com leite condensado como nos tempos de demagogia forçada. O chef preparou lagosta – coisa fina e cara. (Mas quem paga é a viúva.) Como é moda nestes tempos de selfies pra cá e pra lá, uma foto imortalizou a cena da refeição. A forma dos copos revela que ambos se hidratam com sorsos alternados de vinho tinto e de uma bebida escura que lembra suco de uva ou coca-cola. (Deve substituir o leite condensado ausente.)

Ao aceitar compartilhar um prato de lagosta regado a vinho, o embaixador mostra não seguir a linha ortodoxa da religião hebraica. Não é tão grave assim, mas, como integrante da casta dos dirigentes do país, não lhe cai bem mostrar desabrido desrespeito à dieta kosher, sob pena de chocar parte importante do eleitorado. Ora, lagosta, assim como tudo o que vem do mar e não tem escamas nem nadadeiras, é alimento proibido pelas regras religiosas. Antes de tuitar a foto, a embaixada de Israel em Brasília não teve dúvidas: borrou grosseiramente os pratos pra esconder a transgressão alimentar.

Acontece que, talvez por ser domingo, o especialista em photoshop devia estar de folga. Os borrões pretos pintados em cima dos crustáceos são tão malfeitos que deixam aparecer parte da cor típica do alimento refinado que pretendiam esconder. Clique na foto pra ampliar e comprovar. Pegou mal pra caramba. As redes sociais não perdoaram. O almoço com lagostas ao molho de photoshop foi ridicularizado. Até (ou principalmente) a imprensa israelense deu cobertura à gafe. Aqui está o artigo do The Times of Israel.

Ah, essas redes sociais! Quando a gente está crente de abafar, dá o maior furo… Como diz o outro, ‘em boca fechada, não entra mosca’. Atualizando, fica assim: ‘Em almoço sem foto, ninguém fica sabendo qual foi o prato’. De qualquer modo, amanhã todos terão esquecido. E a conta, naturalmente, vem pra nós.

Paranoias presidenciais

José Horta Manzano

Estes dias, doutor Bolsonaro botou as manguinhas de fora. Falou muito e… acabou dizendo alguma coisa. O mais impactante foi quando confessou dormir com arma de fogo ao lado da cama, pronto a enfrentar assombração e assaltante. Encafifado com os serviços de segurança palacianos, comporta-se como todos os que se sentem perseguidos.

Todo governante autoritário tem esse traço de personalidade: mania de perseguição. Paranoia, se preferirem. Nosso presidente ainda não teve tempo de imprimir rumo autoritário a sua gestão. Talvez nunca tenha a ocasião de fazê-lo, o que será melhor pra todos. Assim mesmo, o costume do revólver na cabeceira é revelador. Só falta contratar um provador de comida ‒ aquele que experimenta a refeição que lhe será servida, só pra ter certeza de que não está envenenada.

Além desse pronunciamento, doutor Bolsonaro deu outro, profundo e importante para o futuro do país. Referiu-se a embaixadores do Brasil lotados em postos importantes no exterior. Já se sabia que nosso presidente não é grande admirador da diplomacia. Ficamos agora sabendo que, além de não ser admirador, ele pouco entende do ramo. Não parece ter ideia precisa da função dos que representam o Estado brasileiro no exterior.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O presidente declarou não estar satisfeito com a atuação de vários desses profissionais porque não estariam defendendo com eficiência a reputação do chefe de Estado. Ele se queixa da péssima imagem de que goza no exterior e considera que compete aos diplomatas limparem a má fama. O presidente não se dá conta de que o pessoal diplomático tem mais que fazer do que louvar a figura do chefe. Tampouco se dá conta de que é ele próprio o único responsável pela péssima reputação de que goza no exterior. Não se deve atribuir a terceiros a culpa por nossos erros.

O presidente tem a intenção de afastar uma dúzia de embaixadores importantes e botar, no lugar deles, um grupo de profissionais (que ele julga) afinados com o pensamento do governo atual, mais aptos a apagar incêndios ateados pelo próprio chefe.

Melhor faria o presidente se prevenisse em vez de remediar. No lugar de chamar bombeiros, seria mais simples evitar acender o fogaréu. Mas ‒ que fazer? ‒ há gente que ataca os problemas pelo lado errado.

O suicídio de um partido

Pedro Luiz Rodrigues (*)

Caso fatos notáveis não venham a ocorrer, o Partido dos Trabalhadores deverá sofrer amarga derrota no segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 28 de outubro.

Era apenas uma questão de tempo para que o partido começasse a se esboroar. Dado que desde sua criação (1980) viveu de contradições, de meias-verdades e de falsas aparências, nunca transitou com desenvoltura no ambiente da democracia. Como em obras que desabam, sobrou areia, faltou cimento.

A partir de quando o PT deixou de ser oposição e se tornou governo, suas bandeiras originais – que por vinte anos haviam seduzido massas de jovens idealistas – foram sendo jogadas na lata do lixo.

Honestidade, decência, transparência, todas deixaram de ser qualidades admiradas e praticadas por seus dirigentes. Os jovens idealistas ‒ não mais tão jovens assim ‒ perceberam (pelo menos alguns deles) que não haviam sido usados apenas como massa de manobra.

Fazer o quê? Quem nasceu pra tubarão não pode pretender ser golfinho. O PT diz que é democrata, mas não pode ser, porque seu objetivo final é a implantar uma ditadura, a do proletariado. Lula já jurou que o partido não é marxista, mas os intelectuais da agremiação continuam a produzir artigos recomendando seguir a pauta marxista-gramsciana, que rejeita a alternância democrática.

O povo não é burro, e aqueles que não esperam prebendas ou favores do petismo têm razões para morrer de rir com a notícia de que o PT, juntamente com seus aliados (PCdoB, PSOL e outros), estariam para formar uma “frente democrática” para contrapor-se à candidatura de Jair Bolsonaro.

Falsear, mudar de cara, é o que a dobradinha PT-PCdo B está fazendo agora, mais uma vez. Um de seus anúncios de campanha do primeiro turno era do tipo tradicional, muito vermelho, com os dois candidatos secundados pela imagem de Luiz Inácio Lula da Silva. Na versão para o segundo turno, o vermelho deu lugar ao verde, ao amarelo e ao azul, e Lula ‒ ao melhor estilo soviético ‒ foi simplesmente removido da fotografia.

Pedro Luiz Rodrigues

Para o PT, a derrota que se avizinha será estrondosa e definitiva; vai ser a pá de cal no túmulo de um partido que vem se suicidando aos poucos, desde 2005, quando o mensalão revelou à sociedade que o PT falseara suas credenciais morais para chegar ao poder e lá se manter.

Esse falseamento moral foi necessário para a participação do PT num regime democrático, onde as regras do jogo pressupõem aceitação da diversidade ideológica, alternância no poder e máxima lisura na defesa dos interesses do Estado.

O PT não aceita a democracia, nem a diversidade ideológica, nem a alternância no poder. Quanto ao Estado, cuidaram de aparelhá-lo partidariamente – inclusive o Itamaraty, instituição à qual pertenço – privilegiando a lealdade ou a subserviência ao partido em detrimento da qualidade e dos méritos profissionais.

Se saíram do poder no impeachment de Dilma (“o golpe, o golpe, o golpe”, do refrão partidário), serão definitivamente escorraçados agora, no final de outubro, pelo voto popular.

O PT não teve forças para corromper as instituições brasileiras, muito mais fortes do que as da Venezuela ‒ país próspero que os aliados do PT conseguiram levar à ruína.

(*) Pedro Luiz Rodrigues é embaixador e jornalista. Este artigo foi publicado originalmente no Diário do Poder.

Tarda mas não falha

José Horta Manzano

Doutor Antônio Delfim Netto, criado no modesto e industrial bairro paulistano do Cambuci, subiu muito na vida. Formou-se e doutorou-se em Economia. Antes de completar quarenta anos de idade, já era Ministro da Fazenda, posto que ocupou durante sete anos.

Esteve, ao lado do generalato que dirigia o país naqueles anos sombrios, entre os signatários do famigerado AI-5, aquele ‘golpe dentro do golpe’ que cassou de vez, por muitos anos, o que restava de liberdade ao povo brasileiro.

Em 1975, trocou o trono de ministro por uma poltrona de embaixador em Paris, onde foi titular do cargo por três anos. Eram os tempos do milagre econômico, quando o mote nacional era «ninguém segura este país». As embaixadas do Brasil eram centro de interesse de muita gente disposta a investir na emergente potência.

Chamada Rádio Jovem Pan – 9 março 2018
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O que aconteceu naquela época não saiu nos jornais. Era um tempo em que a censura comia brava, a democracia estava de férias e não havia Lava a Jato. Melhor valia calar. Assim mesmo, notícias corriam à boca pequena. Faz mais de quarenta anos, mas muita gente ainda há de se lembrar.

Em Paris, a embaixada do Brasil era conhecida como «l’ambassade dix pourcent» ‒ a embaixada dez por cento. Por coerência, o embaixador era dito «Monsieur dix pourcent» ‒ senhor dez por cento. Não há documentos que atestem irregularidades. Aliás, esse tipo de irregularidade não costuma deixar rastro escrito.

Afirmam ‒ sem provas! ‒ que todo contrato que tramitasse pela embaixada tinha de deixar um óbulo de dez por cento para a caixinha de Monsieur l’Ambassadeur. Sem dúvida, não deve passar de boato maldoso. Afinal, nada ficou provado.

 

Venezuela, a barata tonta

José Horta Manzano

«Embaixador brasileiro em Caracas considerado ‘persona non grata’ pelo governo venezuelano.»

«Itamaraty não tem previsão de enviar outro embaixador à Venezuela.»

Entre ontem e hoje, a mídia estampou essas duas manchetes. Uma sequência radicalmente fora de esquadro. Espero que a segunda manchete não passe de cochilo do estagiário de plantão nesta véspera de Natal. Mostra total desconhecimento dos sutis códigos que se utilizam na comunicação internacional.

A linguagem diplomática, de aparência aveludada, pode revelar-se contundente, violenta até. Declarar um embaixador persona non grata, é dar um tapa na cara do país que ele representa. Não é a pessoa física do diplomata que está sendo ofendida, mas o Brasil inteiro. É sinal claro de repulsa, de ‘chega pra lá’, de ‘põe-te daqui pra fora’, de ‘não queremos conversa com vocês’.

Previsão de enviar outro embaixador? O estagiário devia estar no primeiro dia de trabalho. Repito, para que fique claro: não é doutor Pereira, o embaixador, quem está sendo rejeitado. Caracas não quer conversa é com o Brasil. Portanto, enviar novo embaixador está fora de questão.

Unha e carne com señor Maduro, Delcy Rodríguez é presidente da Assembleia Constituinte. Coube a ela expulsar nosso embaixador.

Daqui pra frente, a questão subiu de patamar. Cogita-se sobre o rompimento de relações diplomáticas com o infeliz vizinho do norte. A ruptura é ato político que exige avaliação dos prós e dos contras. Embora, de supetão, a reação epidérmica seja cortar imediatamente todo contacto com aquele regime selvagem, o Itamaraty terá a sabedoria de tomar a decisão adequada. Pelo menos, assim espero.

A iniciativa de Caracas não se sustenta. Expulsaram o embaixador do Canadá sob a alegação de que aquele país se imiscui em assuntos internos da Venezuela. Ao mesmo tempo, expulsaram nosso embaixador argumentando que nosso governo é fruto de golpe de Estado, portanto, ilegítimo.

Não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Se, por um lado, repreendem o Canadá pela intromissão em assuntos internos venezuelanos, não faz sentido se intrometerem, por outro lado, em assuntos internos brasileiros. Se foi «gópi» ou não, o problema é nosso. A Venezuela não tem de meter o bedelho.

Feito barata tonta, os dirigentes de Caracas andam atirando em todas as direções e serrando o galho onde se assentam. Com o país em estado de indigência, melhor fariam se baixassem a crista e procurassem aproximação com quem ainda lhes pode dar uma mão. Por incompetência, estão construindo uma cintura de vácuo em torno de si próprios. Quando se derem conta de que já não conseguem sobreviver sozinhos, talvez seja tarde demais.

Aventura no consulado

José Horta Manzano

Faz alguns dias, publiquei um artigo sobre o preço exagerado do passaporte brasileiro. Mostrei também minha indignação com a profusão de nossas representações diplomáticas em partes do mundo onde são claramente supérfluas.

Semana passada, estive no consulado do Brasil em Genebra para tirar novo passaporte, que o meu acaba de vencer. Comparado com o de dez anos atrás, o atendimento melhorou, está mais civilizado. Ainda assim, a recepção me pareceu fria e distante. Está mais com cara de repartição pública do que tinha sido da última vez, cinco anos atrás.

Dizem que todo grupo de pessoas assume características do chefe. Tive o prazer de conhecer o embaixador que exercia as funções de cônsul-geral até poucos anos atrás, um gaúcho boa cepa. O atendimento de então se parecia com ele. A acolhida amistosa fazia que a gente se sentisse bem-vindo. Por razões que não cabe aqui explicar, o embaixador foi despachado para o outro lado do planeta. O atual ocupante do cargo será talvez dono de personalidade mais austera, o que explicaria a acolhida menos efusiva.

Para ser atendido, convém marcar hora por internet ou por telefone (agora se deve dizer «agendar», verbo com o qual tenho dificuldade em me acostumar). No consulado, apesar da aparência de modernidade, a marca da negligência nacional continua presente. O burburinho e a agitação dos presentes contrastam com o comportamento silencioso e organizado do país. Como se sabe, no Brasil, as coisas não costumam ser claras e nítidas. Tudo é mais ou menos. No consulado de Genebra, essa impressão já começa pelo prédio. Há outros escritórios e firmas no mesmo edifício. No térreo, há elevador dos dois lados. Não está escrito qual deles serve o consulado. Talvez todos cheguem lá, mas não há indicação.

Vencida a etapa do elevador, você chega ao andar e entra. No imenso salão, logo enxerga, à sua frente, quatro guichês numerados de 1 a 4. Entre você e os guichês, umas três fileiras de quatro cadeiras cada uma, todas de frente para os guichês, como se estivesse lá um palco. Para o lado direito, o salão se espicha, largo e comprido. Serão uns dez metros de largura. Não dá pra ver o fim, de tão longo que é.

Falta cor no chão, nas paredes, no sóbrio mobiliário, no teto rebaixado. Através de uma parede de vidro, percebe-se um jardim interno, dotado de iluminação natural. A entrada não é franqueada ao distinto público. Acostumados à sociedade compartimentada do Brasil, os frequentadores devem achar normal. Não há nenhuma máquina distribuidora de café, bebidas e salgadinhos. Dado que são aparelhos que não acarretam custo ao consulado, a gente fica sem entender por que ninguém pensou nisso.

Vê-se gente por aqui e por ali, grupinhos conversando, um ou outro apoiado em mesinha preenchendo um formulário, dois ou três carrinhos de bebê sem passageiro. Nenhum relógio nas paredes. Várias telas de vídeo, todas com imagens fixas, imóveis e inúteis que teimam em indicar: «guichê n° 1, senha n° 1». Não vi distribuidor de senhas.

Você pára, olha, e fica sem saber o que fazer. Não há um estandezinho de informações para orientar. Nenhuma indicação escrita. Estava eu parado, olhando para um lado e para o outro, sem saber se corria ou se gritava. De repente, uma mocinha mais caridosa, atrás de um guichê vazio, fez sinal pra me aproximar. Dei meu nome. Depois de conferir no computador, ela me disse, apontando para o fundo do corredor comprido: “O senhor pode esperar em frente aos guichês, que será chamado pelo nome”. Agradeci. Os guichês? ‒ pensei. Haverá outros? Caminhei até a outra ponta do corredor, uns 100 passos. A paisagem era idêntica à da entrada: outros quatro guichês enfileirados, numerados de 1 a 4, e as fileiras de cadeiras alinhadas em frente. Sentei-me numa delas e esperei.

Passeando os olhos ao redor, vi cartazes com os dizeres «Você nunca é culpada! Chame 180». Fiquei imaginando o que pudesse significar. Mais tarde, soube pela internet que é o número de telefone de uma central que, no Brasil, cuida de mulheres maltratadas. Fiquei sem entender a razão pela qual esses cartazes enfeitavam paredes aqui, a dez mil quilômetros de distância. Cogitei que seria mais útil criar uma hipotética Central de Amparo ao Imigrante Clandestino. Juro que a central telefônica havia de explodir.

De repente, uma mocinha detrás de um dos guichês me chama pelo nome. Me senti muito importante! Com certa decepção, constatei que atendentes não sorriem mais. Executam ordens. Mostrei os documentos. Me mandou encostar os dedinhos (os dez!), um por vez, no visor de vidro de uma geringonça que tira impressões digitais. O paninho e o vidro de álcool desinfetante, presentes da vez anterior, não estavam mais lá. Vivemos tempos de penúria. Deixei de lado o nojo e me verguei à ordem. Ainda argumentei que já tinha deixado ali minhas impressões digitais cinco anos antes. Por que repetir o processo? Data de nascimento e impressões digitais não costumam mudar. Ela retrucou que o sistema era assim mesmo e que, por favor, seguisse as instruções. Segui.

Daí mostrei o recibo do pagamento de 150 francos (quase 500 reais), feito oito dias antes em agência de correio, em benefício do consulado. Ela olhou e me disse que ia conferir se o dinheiro tinha chegado. Já um tanto incomodado, esclareci que, aqui na Suíça, os Correios são uma instituição. O carimbo aposto no papelzinho garante que o pagamento foi efetuado. Tem fé pública e não permite discussões. Ela não pareceu abalada. Guardou o recibo assim mesmo para conferir. Eu já estava começando a ficar alterado. Afinal, faz décadas que renovo meu passaporte no mesmo consulado. Já deviam ter um arquivo com meus dados, não?

Nisso, a mocinha viu de relance, na minha pasta de documentos, minha cédula de identidade e meu título de eleitor, documentos não exigidos para renovar o passaporte. Pediu os dois. Eu fiz notar que meu RG, tirado 52 anos atrás, mostra uma foto que já não identifica o titular. Quanto ao título, que hoje é um papelzinho sem foto, não identifica ninguém. E tem mais: para fins eleitorais, sou domiciliado exatamente naquele consulado que, portanto, tem todos os meus dados.

Ela foi-se embora dizendo que ia «processar» meu passaporte. Fiquei imaginando como se «processa» um passaporte. A primeira impressão que me veio à mente foi a de uma fábrica de salsicha ‒ com ou sem papelão, tanto faz. Acho que ela quis simplesmente dizer que ia «fazer», «preparar» ou «aprontar» o documento. Me pediu que voltasse à poltroninha e que lá aguardasse. Fui e fiquei quietinho.

Apreciei de novo, de longe, os cartazes insistindo pra eu ligar, sem medo, para o 180. Ao lado, havia outro cartaz mencionando que a lei número tal confere prioridade no atendimento a pessoas com mais de 60 anos, grávidas, portando criança de colo e com sobrepeso. Fiquei matutando como seria possível alguém ter mais de 60 anos, estar grávida, obesa e ainda aparecer carregando criança no colo. Ah, essas negligências na formulação de leis ainda hão de nos atormentar por muito tempo.

O tempo de espera começou a parecer longo. Divaguei. Empaquei nessa lei que privilegia uns com base na aparência. Considerei que velhice não é doença. Gravidez tampouco. Para carregar criança, existem hoje em dia carrinhos muito práticos e levinhos. Constatei que a lei se limitava a casos visíveis, omitindo os demais. Como ficam pessoas com câncer, insuficiência cardíaca, reumatismo, dor na espinha, calo no pé? Ou bem se ajuda a todos os que precisam ou não se ajuda a ninguém. A tal lei me pareceu capenga.

Reparei ainda numa coleção de uma dezena de gravuras penduradas na parede do fundo do imenso salão, reprodução de obras do século 17. Cada gravura de uns 30cm de altura por um metro de largura traz a silhueta, traçada a bico de pena, de cidades europeias. Berlim, Berna, Bordeaux, Antuérpia, Bruxelas estão ali. Tudo coisa fina. Fiquei um tanto nostálgico com a ausência das araras, dos papagaios, do bondinho do Pão de Açúcar, da calçada de Copacabana que costumavam aparecer nos cartazes de antigamente. Os velhos posters da Varig desapareceram com a própria.

Uma hora, a mocinha reaparece e me chama, sempre exibindo fisionomia de esfinge sem sorriso. Vou até lá e, antes de mais nada, boto reparo nas mãos dela. «Ufa!» ‒ pensei ‒ «Ela vem com dois passaportes, sinal de que o novo saiu.» De fato, devem ter constatado que meu pagamento chegou. Com os passaportes, me devolveu o RG e o título de eleitor, mas não o recibo de pagamento. Perguntei onde estava. «O recibo é nosso» ‒ me diz ela. Aí, me empertiguei. «Não, senhora, o recibo é de quem pagou. Vocês ficam com o dinheiro e eu, com o recibo. Sem meu recibo, não saio daqui». Sem saber como reagir, ela me pediu um instantinho e desapareceu.

O instantinho foi longo. Deu pra ouvir um vozerio lá atrás. Acho que não é todos os dias que aparece um conterrâneo tão chato. Mas, sacumé, como eu falo grosso e uso argumentação lógica, costumo obter o que peço. Depois de um tempo, volta a moça com um recibo emitido pelo consulado, com papel timbrado com as armas da República, tudo em cores, numa folha de papel A5, chique que só vendo. Senti-me satisfeito. Desejei à mocinha boa continuação, virei as costas e fui-me embora.

Com meu limitado senso de orientação, foi difícil encontrar a saída. Cheguei a enxergar até a porta do banheiro, mas nada de saída. Não ocorreu ao pessoal do consulado instalar um cavalete com uma seta indicando por onde se deve passar. Acabei encontrando e saí. Sem lenço, mas… com documento.

Deu uma pontinha de saudade do tempo em que a salinha do consulado não tinha mais de dez ou doze metros quadrados. Era um em que, por falta de conterrâneos nesta parte do mundo, o atendente ‒ havia um só ‒ era um simpático senhor português. Era um tempo em que a gente dava uma passadinha no consulado só pelo prazer de manusear um exemplar amarrotado d’O Cruzeiro ou da Manchete ou, com sorte, um exemplar do Estadão ou d’O Globo com notícias do mês anterior. Eram o cordão umbilical de um tempo sem internet. Que fazer? Ninguém segura o progresso.

Golpe de Estado bolivariano

José Horta Manzano

Mui acertadamente, o Itamaraty, quando da gestão de senhor Serra no Ministério das Relações Exteriores, mostrou os músculos, deu um murro na mesa e, na prática, suspendeu a Venezuela do Mercosul. Impediu assim que Caracas assumisse a presidência rotativa do grupo econômico. Bem haja, senhor chanceler!

Nosso vizinho petulante, habituado a contar com a boa vontade da companheirada, imaginou que tudo não passasse de jogo de cena. Em ofensa explícita ao Itamaraty, chamou a atitude brasileira de golpe e tentou forçar a entrada. Não deu certo. Encontrou portas e janelas fechadas.

Dois dias atrás, o tiranete venezuelano mandou fechar o Congresso de seu país. Ao eliminar um dos três poderes da república bolivariana, deu um golpe de Estado. Contando com a fidelidade canina de um Judiciário cooptado, señor Maduro tornou-se ditador de facto do país.

A Venezuela não é um país relevante na política nem na economia do planeta. O que se passa por lá não comove a humanidade, e as notícias não vão além de nota de rodapé. Vai daí, a atitude truculenta do brutamontes de Caracas não mereceu atenção planetária. Se o golpe tivesse acontecido no Zimbábue, o efeito não teria sido muito diferente.

Quanto ao Brasil, é outra coisa. Afinal, somos vizinhos de parede e sócios do mesmo clube. O Peru, que não é fronteiriço da Venezuela nem membro do Mercosul, chamou de volta seu embaixador em Caracas ‒ sinal de profundo desagrado, pelos sutis códigos diplomáticos. Já Brasília se contentou de um protesto mole, brando, protocolar, como mãezona que ralhasse com o filho: «Não faça mais isso, filhinho, senão a mamãe fica triste.»

A reação brasileira não está à altura da situação. Nosso protesto tem de ser enérgico, claro e ameaçador. Nosso embaixador tem de ser retirado imediatamente. Faz anos que o sofrido povo venezuelano vem vivendo um calvário inimaginável. Nem que seja por razões humanitárias, temos de dar uma mão ao vizinho. O melhor favor que podemos fazer a eles é forçar a queda do ditador. A solução do problema venezuelano passa obrigatoriamente por aí. Caído o mandatário e restabelecida a ordem constitucional, fica aberto o caminho para o país voltar aos trilhos.

Em outros tempos, podia-se esperar por uma intervenção dos EUA. Todavia, Mister Trump já deixou claro que esse tempo passou. O homem provavelmente nem sabe onde fica a Vene.. Vene… o que mesmo? O Brasil tem de assumir seu papel de membro mais importante do Mercosul. Vamos, senhores Michel Temer e Aloysio Nunes, coragem! Ou vamos nos conformar com uma ditadura colada à nossa fronteira amazônica?

Reclamar do quê?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 dez° 2016

Os brasileiros vivem num país gigantesco. Para a maioria, fronteira não passa de conceito vago, um ponto perdido no meio da Amazônia, afundado no Pantanal ou açoitado pelo pampeiro nos pastos sulinos. Mal e mal, nos inteiramos do que se passa do lado de cá. Acompanhar o que acontece além-fronteira, então, já é pedir demais. No entanto, lá como cá, há mundo. Por toda parte, gente ama e briga, se entristece e se alegra, nasce e morre. Vale a pena dar uma espiada no que se passa do outro lado.

Fim de ano é momento de balanço. Neste finalzinho de 2016, tenho visto muito desencanto. «O ano que não terminou» é a tônica das análises. O gosto de inacabado, a apreensão com o que está por vir, a carestia e a perda de vigor da economia, os relatos sobre o aumento do desemprego, a recapitulação do nome dos figurões já encarcerados e dos que o serão em breve, o embate entre os Poderes da República ‒ eis os temas dominantes. Todos eles deprimentes, desacoroçoados e angustiantes. Ânimo, minha gente! Ou, como diriam os antigos: sus! Basta olhar em roda pra ver que, se nosso país atravessou um ano difícil, há quem esteja pior que nós. Não acredita?

tanque-de-guerra-1No Brasil, 2016 já começou com cara de golpe. Revolução à antiga, com obuses e trincheiras, anda meio «démodée» por aqui. Mas muita gente imaginava que meia dúzia de brucutus surgiriam a qualquer hora pra derrubar o governo e tomar o poder. Pois não aconteceu! A destituição da presidente e a consequente assunção do substituto legal se deram dentro da mais estrita ordem constitucional. Tirando pequenos engasgos, normais e desculpáveis em situações insólitas, o processo deslizou sem tropeços. Reclamar do quê?

Na primeira metade do ano, conforme iam se aproximando os Jogos Olímpicos, a ansiedade crescia. Até policiais, agentes e peritos do exterior foram convocados para reforçar o time nacional e garantir paz e segurança aos atletas e ao público. Bilhões de olhos ao redor do planeta se encantavam com as imagens do Rio de Janeiro. Cada um torcia por seus atletas. Tudo ao vivo. De novo, tirando escorregões de pouca monta, tudo deu certo, sem catástrofes. Reclamar do quê?

O povo da França, da Índia, do Egito, da Bélgica, de numerosos países africanos e até da Alemanha foi castigado por atentados que deixaram centenas de mortos, milhares de feridos e um cruel sentimento de impotência. Tanto os do andar de cima quanto os do porão se sentem igualmente desarmados, perdidos. No Brasil, tirando a violência à qual, de tão corriqueira, ninguém mais presta atenção, nenhum atentado aconteceu. Reclamar do quê?

Os que vivem na infeliz Venezuela, nossa vizinha de parede, esses, sim, têm do que se lamentar. A situação lá anda tão feia que impele cidadãos a escapar do país para conseguir alimento. Nem comida eles têm! Preferem tornar-se flanelinhas clandestinos em Roraima e dormir ao relento a passar fome no país de origem. Nas grandes cidades da república bolivariana, não há passeata ou manifestação popular que não deixe rastro de mortos e feridos. Do lado de cá da fronteira, não nadamos em dinheiro, é verdade. Mas, ao menos, não vivemos em penúria alimentar. Reclamar do quê?

flanelinha-1Na República Democrática do Congo ‒ país africano de 85 milhões de viventes ‒, o presidente foi batido nas urnas quando buscava reeleger-se. Em vez de passar o poder ao vencedor, como manda o figurino, agarrou-se ao trono. A confusão e a violência se instalaram no país. Pressões externas estão tentando conciliar os dois presidentes autoproclamados. Pra evitar mal maior, cogita-se dar o cargo de presidente a um deles e o de primeiro-ministro ao outro. No Brasil, faz uma pancada de décadas que passação de mando se tornou rotina sem surpresas. Reclamar do quê?

E os apuros dos pobres 80 milhões de turcos? Depois de mal explicada tentativa de golpe de Estado, milhares de cidadãos foram encarcerados. Ninguém sabe o total, mas fontes confiáveis estimam que cem mil estejam presos. Com vocação para ditador, o presidente aproveitou para expurgar o país dos cidadãos que o incomodavam. Fechou jornais e prendeu multidão de jornalistas. Semana passada, na esteira do assassinato do embaixador da Rússia em Âncara, mais 17 mil turcos foram enjaulados. Dezessete mil! Na aprazível Terra de Santa Cruz, abençoada por Deus e bonita por natureza, não temos nada disso. Reclamar do quê?

Feliz ano-novo, brava gente!

Engolindo sapo

José Horta Manzano

Tem horas em que a gente tem de engolir cobras, lagartos, lagartixas, sapos e o que mais houver no prato. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Tem outras horas em que dá pra escapar do vexame. Quando é assim, só engole sapo quem for bobo.

Quando a doutora foi destituída do trono presidencial e despachada de volta pra casa, houve gente ‒ pouca gente ‒ que tentou classificar o impeachment na categoria de golpe. A cômoda categorização servia de desculpa a maus perdedores. Mas deu no que deu, não veio a reviravolta, a destituição foi-se tornando definitiva, e os descontentes tiveram de engolir os sapos. Não só os sapos, como o brejo inteiro.

Sapo 2Acontece que algumas das republiquetas vizinhas, as mais pobres por sinal, compraram a tese do «golpe» e embarcaram nessa canoa furada. Quem sabe imaginavam que o «exército do Stedile» ou outra milícia qualquer fosse soltar brucutus nas estradas e conseguir reverter a decisão do Congresso.

Um dos inconformados foi señor Evo Morales, medalhão-mor do paupérrimo Estado Plurinacional de Bolivia, alinhado com os bolivarianos puro-sangue. Inconformado, atropelou sutis códigos diplomáticos e chamou para consultas seu embaixador em Brasilia. Señor Morales não há de se ter dado conta de que, no aveludado terreno das relações exteriores, a medida é pra lá de grave. Precede e anuncia iminente ruptura de relações diplomáticas. Por reciprocidade, o governo brasileiro teve de chamar de volta nosso embaixador em La Paz.

Passou-se mais de um mês e a situação política brasileira não se alterou. Nenhum exército paralelo soltou os cachorros. A doutora não voltou. O mandachuva boliviano começou a sentir que tinha entrado num poncho justo. Conferiu as estatísticas de comércio e deu-se conta de que o Brasil é, com folga, o maior cliente de seu país. Nada menos de 35% das vendas externas bolivianas são absorvidas por nós.

temer-5O figurão pode ser exótico, folclórico, autoritário, mas… louco não é. Ninguém, em consciência normal, se indispõe com seu melhor cliente ao bater pé firme num tema que, francamente, é página virada. Evo Morales fez, esta semana, um pronunciamento. Disse que estava devolvendo seu embaixador a Brasília apesar (sic) da situação política em nosso país. E não parou por aí.

Sublinhou que o Congresso brasileiro havia, sim, dado um golpe. Acrescentou que, embora legal, o golpe não tem legitimidade. Em suma: tinha dito besteira, tentou consertar, não conseguiu, piorou a situação e ainda se recusou a engolir lagartos.

E como reagiu nosso glorioso Itamaraty? Ostentou sua melhor cara de paisagem, engoliu o sapo inteirinho e fez de conta que nada tinha acontecido. Passando por cima da afronta, vai devolver o embaixador brasileiro a La Paz nesta segunda-feira. Ficou tudo por isso mesmo. O Barão do Rio Branco, onde quer que esteja, há de ter sentido engulho.

Embaixadores bem tratados

Cláudio Humberto (*)

O presidente Michel Temer ordenou uma “repaginada” nas cerimônias de recebimento das credenciais de embaixadores estrangeiros enviados a Brasília.

Dilma Rousseff os tratava mal, demorando meses para receber credenciais. Deixava-os num limbo, sem poderem exercer suas atividades. As mudanças começam nesta quarta-feira 25 maio, quando Temer receberá as credenciais de seis diplomatas.

Rampa 1Os primeiros a conhecerem o jeito brasileiro de bem receber serão os embaixadores do Paquistão, da Grécia, do Congo, da Namíbia, do Iraque e da Croácia. Terão direito à rampa do Planalto, aos Dragões da Independência e até a conversa privada com o presidente.

De forma grosseira, Dilma se recusou, certa vez, a receber as credenciais do embaixador da Indonésia, país que havia fuzilado um traficante de droga brasileiro.

(*) Cláudio Humberto, é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Além da fronteira ‒ 2

José Horta Manzano

Tsunami 2Quando foi deflagrada a Operação Lava a Jato, muitos imaginaram que não passaria de solavanco passageiro, uma marolinha. Presumiu-se que seria respeitada a arraigada tradição nacional de inocentar criminosos de colarinho branco.

Para espanto do cidadão comum ‒ e para «estarrecimento» de figurões, não foi o que aconteceu. Gente graúda começou a ser molestada. Pencas de acusados, alguns de fina estirpe, foram parar no xadrez. Para angústia de muitos, a marolinha converteu-se em tsunami.

O território nacional é vasto. O problema é que, assim como fronteiras não detêm revoada de Aedes aegypti, tampouco barram tsunamis. Vagas ameaçadoras já estão transbordando.

O diário Perú21, um dos mais importantes do país vizinho, traz informação alarmante. O nome do presidente da república andina, Ollanta Humala, é citado nada menos que dez vezes en documentos exumados pela Lava a Jato.

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Chamada do jornal Perú21, 24 fev° 2016

Seu nome aparece em investigação de irregularidades perpetradas em obras de infraestrutura de bilhões de dólares levadas a cabo no Peru pela brasileira Odebrecht. A suspeita é de que desvios tenham gerado propinas milionárias, distribuídas naquele país.

Embaraçado e inquieto, o presidente convocou, às 11h da noite, o embaixador do Brasil em Lima. A transcrição da conversa não foi publicada, mas tudo indica que señor Humala está à cata de esclarecimentos.

Tsunami 1O braço da PF brasileira, por mais longo que seja, não alcança além-fronteira. Portanto, o «japonês da Federal» não periga algemar o medalhão. Assim mesmo, pode-se apostar que, se as suspeitas forem investigadas como se deve, estará aberta uma caixinha de surpresas.

O Peru pode ser só o começo. Mais está por vir.

O agrément do embaixador

José Horta Manzano

Faz um mês, escrevi um artigo concordando com a decisão do Planalto de não conceder o agrément ao novo embaixador de Israel em Brasília. Em correspondência particular, um distinto e fiel leitor, com argumentação muito bem construída, discordou de minha opinião.

Ele tem lá suas razões, admito de bom grado. No entanto, acho que, para ser plenamente entendido, o incidente atual tem de ser considerado como novo capítulo de uma novela que se vem desenrolando faz vários anos.

O assunto é interessante. Assim, gostaria de aproveitar a oportunidade para aprofundar, em atenção a outros distintos leitores, minha visão sobre o acontecido. Eis por que decidi tornar pública a cartinha que acabo de escrever a meu correspondente. Aqui está ela.

Interligne 18h

Prezado amigo,

Peço desculpas antecipadas para a eventualidade de algum propósito meu lhe parecer demasiado cru. Sem chegar ao hiperrealismo, acredito que, em certas ocasiões ambíguas, cada boi deve levar seu nome.

Discussão 1Logo de início, uma premissa tem de ser posta: Estados não têm sentimentos, têm interesses. Nesse nível, relacionamentos não passam pelo coração, mas pelo cérebro. E, naturalmente, pelo bolso…

Imigrantes italianos, alemães e japoneses são componentes pra lá de importantes dos alicerces de nossa nação. Imigrantes franceses, britânicos e americanos foram bem menos numerosos. Se dependesse de razões afetivas, o Brasil, na última grande guerra, teria integrado o eixo Berlim-Roma-Tóquio. No entanto, os interesses do Estado brasileiro falaram mais alto, daí o governo da época ter escolhido o campo aliado.

Discussão 2Ao Estado brasileiro, no fundo, pouco se lhe dá que os ânimos entre israelenses e palestinos se acirrem ou se acalmem. Dito assim, pode até ser chocante, mas, convenhamos, é a realidade. Fazendo abstração do aspecto humanitário, os fatos políticos daquela lonjura não acarretam maiores consequências para nós.

Em condições normais, é mais que provável que a nomeação de novo representante israelense para a embaixada em Brasília passasse totalmente despercebida, fosse quem fosse o indicado. Mas as condições não eram normais, aí está o nó. A história se desenvolve num continuum. Ao isolar um fato, perde-se o fio, e o relato perde coerência. Para entender o imbróglio, não precisa voltar aos tempos bíblicos nem mesmo à criação do Estado de Israel. Basta relembrar o que ocorreu poucos anos atrás, nos tempos do Lula.

Sob inspiração de seus áulicos, o então presidente deu demonstração de que ingenuidade aliada a ignorância e apimentada por mau aconselhamento só pode dar, digamos, desasseio ‒ pra evitar palavra malcheirosa. É inacreditável, mas nosso guia acreditou que, com uns dois jogos de futebol e três tapinhas nas costas, poria fim ao conflito. E que ainda faria jus ao Prêmio Nobel.

Sua intrusão espetaculosa no conflito causou irritação em Israel e em outros atores que, há anos, pelejam para ajeitar a situação. O Lula foi rapidamente instado a descer do imaginário pedestal e a dar-se conta de que sua intromissão não era bem-vinda. A contragosto, o folclórico personagem encolheu-se. Seu entourage engoliu a derrota mas guardou rancor.

Discussão 3Poucos anos mais tarde, em julho de 2014, uma exacerbação no contencioso médio-oriental deu motivo ao Planalto para exteriorizar o rancor refreado. Considerando que Israel usava força desproporcional na Faixa de Gaza, chamou para consultas o embaixador brasileiro em Tel Aviv. Na aveludada linguagem diplomática, isso significa forte desagrado.

Até lá, convenhamos, os acontecimentos eram banais. Não havia ofensa nem descompostura. Foi aí que, destemperado, o governo israelense tropeçou. Em declaração confiada ao porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, proclamou ao mundo que «This is an unfortunate demonstration of why Brazil, an economic and cultural giant, remains a diplomatic dwarf»esta infeliz demonstração dá a prova de que o Brasil, gigante econômico e cultural, permanece um anão diplomático. Ao insulto desnecessário, o porta-voz acrescentou, dias depois, zombaria ainda menos diplomática. Em entrevista à televisão, não hesitou em reforçar a humilhação que o Brasil acabara de sofrer na Copa do Mundo. Disse: «This is not football. In football, when a game ends in a draw, you think it is proportional, but when it finishes 7-1 it’s disproportionate»isto não é futebol. No futebol, quando um jogo termina empatado, o resultado é equilibrado, mas quando termina 7 x 1, é desproporcional.

A fala arrogante e prepotente foi mal recebida por Brasília. É compreensível. O homem, além de dar um tapa na cara, ainda cuspiu em cima. A formulação não ficou bem na boca de quem, dias antes, pretendia nos dar lições de diplomacia. Não é surpreendente que o Brasil tenha guardado sabor amargo.

A recusa do agrément ao novo embaixador proposto por Israel tem de ser analisada na sequência desse diferendo. Estivesse o horizonte desanuviado, ninguém se preocuparia com o fato de o diplomata ser militante e porta-estandarte de uma causa que o Brasil não apoia.

Dislike 2Mas o molho é ainda mais apimentado. Com a intenção de criar fato consumado, Tel Aviv mais uma vez fugiu aos códigos diplomáticos. Em vez de comunicar o nome do novo embaixador a Brasília em primeiro lugar, como manda o figurino, o governo israelense vazou a informação primeiro à imprensa. Foi a conta. O Planalto não estava preparado para nova humilhação.

Portanto, há que relativizar. O Lula trocou os pés pelas mãos, é indiscutível, mas não insultou. Já a reação do governo israelense agrediu e ofendeu. O que vemos hoje se inscreve na continuação daquele desagradável episódio.

Mas não há que botar mais gasolina na fogueira. A melhor resposta que Israel poderia dar seria deixar vago o posto de embaixador no Brasil por longos meses. Com isso, sem voltar a insultar, mostraria seu descontentamento. Passado algum tempo, quando a poeira tiver baixado, volta-se ao assunto.

De qualquer maneira, entre mortos e feridos, todos se salvarão. A meu ver, é muito discurso pra pouco defunto.

Um abraço cordial.

PS: Um artigo do Washington Post de 25 jul° 2014 dá uma panorâmica dos fatos. Está aqui.

Impávido colosso

José Horta Manzano

Meus distintos leitores já devem ter-se dado conta de que estou longe de admirar o desempenho de senhor Marco Aurélio «top-top» Garcia, aquele assessor atarraxado há uma eternidade ao Planalto. De fato, atribuo à má influência desse senhor muitos dos tropeções de nossa diplomacia e boa parte dos vexames internacionais que nos têm humilhado.

O governo israelense tratou um dia o Brasil de «anão diplomático». Se o fez, foi em virtude de nossa errática e inconsequente política externa, da qual «Top-top Garcia» é um dos principais mentores. A ofensa nos foi feita quando um Lula, inebriado pelo incenso dos cortesãos, tinha-se imaginado capaz de resolver, em três tempos, o conflito entre árabes e israelenses. Quanta pretensão…

Embaixador nos tempos de antigamente

Embaixador nos tempos de antigamente

Naquela época, não havia dúvida: o pronunciamento do porta-voz israelense, embora brutal, tinha fundamento. Era como quem advertisse: «Não se meta onde não foi chamado.»

Hoje a situação é outra. Como já comentei duas semanas atrás, Brasília se recusa a conceder o agrément ao novo embaixador designado por Israel. Traduzido da linguagem diplomática para o falar nosso de cada dia, isso quer dizer que o governo brasileiro não aceita aquele diplomata.

De fato, o nomeado é figura de proa do movimento que milita pela implantação maciça de israelenses em territórios ocupados. Como o Estado brasileiro não concorda com essa política do Estado israelense, a rejeição do novo embaixador exprime o desagrado. Como já disse, nossa reação é sensata e respeita os aveludados códigos diplomáticos.

Prédio que abriga a embaixada do Brasil em Tel Aviv

Prédio que abriga a embaixada do Brasil em Tel Aviv

Inconformado com a recusa, o governo israelense decidiu reagir. Segundo nos informa o jornal The Times of Israel, o embaixador enjeitado exige que seu governo dê resposta forte ao que considera uma afronta. A argumentação do diplomata é marota e faz lembrar o artifício habitual de nosso guia quando, na hora do aperto, distribui parte da culpa a outros.

O ex-futuro embaixador passa por cima do fato de ser ativo militante da ala dos favoráveis a novas implantações em terra alheia. Com falsa modéstia, dissolve sua responsabilidade entre todos os moradores das colônias da Cisjordânia ao perguntar se «as portas da diplomacia estariam fechadas a 700 mil israelenses».

O diplomata sabe perfeitamente que Brasília se recusa a aceitá-lo não porque ele habite aqui ou ali, mas por ser porta-bandeira assumido da política de implantações, julgada inaceitável pelo Estado brasileiro. Nem o Lula encontraria argumento mais manhoso. A tentativa de vitimização faz lembrar o “nós x eles” e os olhos azuis.

Tel Aviv

Tel Aviv

Na intenção de pressionar Brasília, o governo israelense já preveniu que a rejeição do embaixador trará graves consequências para as relações entre os dois Estados. Espero que o Planalto tenha a força de resistir e de se manter firme na decisão de não acolher o diplomata. Se se dobrarem à exigência de Israel, aí, sim, estarão comprovando que o Brasil não só é «anão diplomático», como também timorato e frouxo.

Interligne 18b

PS: Impávido, palavra de uso raríssimo, deriva do verbo latino paveo (=tremer de medo). A mesma raiz deu pavor, pavoroso, espavento, apavorar, espavorido & companhia. Portanto, impávido é aquele que não tem medo. Chegou a hora de mostrar ao mundo se o Brasil é impávido colosso ou anão frouxo.

Apagando incêndios

José Horta Manzano

Argentina 5Estas últimas semanas, a República Argentina vive uma febre de nomeação de embaixadores. Um mês antes de deixar o cargo, Cristina Fernández de Kirchner(*) disparou uma série de decretos designando nada menos que sete representantes no exterior.

Não ficou claro o motivo dessas nomeações às carreiras. É permitido imaginar que doña Cristina estivesse pagando dívidas de gratidão. Quando se deu conta de que seus dias na chefia do Estado estavam contados, tratou de resgatar compromissos assumidos de longa data.

É interessante notar que, menos de uma semana depois de assumir suas funções, o novo presidente parece ter sido contaminado pela febre de nomeações. Já designou seis novos representantes.

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Casa Rosada, a sede do Executivo argentino

Se Cristina, em fim de mandato, pagava dívidas, Macri tem outra motivação. As loucuras cometidas nos últimos vinte anos, desde a era Menem, corroeram a imagem da Argentina. O longo reinado dos Kirchner não contribuiu para aplainar arestas. Cabe ao novo presidente enviar, a postos-chave, portadores de mensagem de seriedade.

Compreensivelmente, señor Macri decidiu rapidinho quem serão os representantes nos Estados Unidos e na China – são potências mais que importantes. Os outros quatro enviados vão ao Uruguai, ao Brasil, à Espanha e… ao Vaticano. Por que terão sido escolhidos esses destinos?

Quanto ao Uruguai, é fácil entender: há interesses econômicos e enorme proximidade entre os dois países platinos, amigos de fé e irmãos camaradas.

O Brasil é parceiro incontornável, grande fornecedor, paciente interlocutor e generoso cliente. As boas intenções que o novo presidente tem com relação ao desencalhe do Mercosul dependem desesperadamente da anuência de Brasília.

Embaixada da República Argentina, Brasília

Embaixada da República Argentina, Brasília

Novo embaixador também foi designado para a Espanha. A encampação das atividades que a petroleira espanhola Repsol desenvolvia em solo argentino, decidida faz alguns anos, estremeceu as relações com Madrid e deixou marcas. A missão maior do novo embaixador será restabelecer a normalidade.

E o Vaticano? Sabe-se lá por que razão, a Santa Sé, fugindo à praxe diplomática, não enviou mensagem de felicitações ao novo presidente. E olhe que o papa é argentino! Algum problema há. O novo enviado há de estar incumbido de apagar focos de incêndio e de apaziguar relações.

Interligne 18h

(*) Na tradição espanhola, a mulher casada conserva o sobrenome de solteira – prática cuja imparcialidade me agrada. Em princípio, as antigas colônias hispânicas seguem o mesmo costume.

Nesse particular, nossos hermanos do Sul inovaram. Ao casar-se, a mulher argentina costuma conservar o sobrenome de solteira, podendo agregar o do marido precedido da partícula “de”.

Assim, Cristina Elisabet Fernández, quando se casou, tornou-se Cristina Elisabet Fernández de Kirchner. Para nós, parece estranho. Soa como se a esposa se tivesse tornado propriedade do marido.

Enfim, cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.