Discurso na ONU

José Horta Manzano

Salvo intérpretes simultâneos, ninguém presta muita atenção aos discursos pronunciados na abertura da sessão anual da ONU. Intérpretes, naturalmente, são obrigados, por dever de ofício, a não perder uma palavra. Fora eles, cada um dá importância ao discurso de seu presidente. E a mais nada.

Não escutei todos os discursos – só faltava! –, mas acompanhei o de Bolsonaro, o de Trump e o de mais meia dúzia de dirigentes. Não pretendo aqui fazer análise comparativa entre todos, mas vou revelar a impressão que algumas passagens me deixaram.

Os discursos de Trump e de Bolsonaro seguiram linha semelhante: traziam ambos a palavra de um governante acuado, angustiado, preocupado com o próprio destino. Tanto o discurso de um quanto o do outro se destinavam ao público interno.

Sabe-se que Trump anda pisando em ovos, de olho nas eleições de novembro. Sabe-se também que Bolsonaro anda sentindo o cerco da justiça e da polícia ao próprio clã. Nas entrelinhas, o discurso de ambos deixava transparecer essa preocupação.

Sem atuação internacional digna do tamanho do país, Bolsonaro mencionou as forças de paz que, ao longo da história, contaram com participação de militares brasileiros. Ah, a falta que uma política internacional faz!

Uma diferença notável entre os discursos lulopetistas e o de Bolsonaro é que aqueles reivindicavam, a cada ano, um lugar para o Brasil entre os grandes, com direito a assento permanente no Conselho de Segurança. Com Bolsonaro, parece que o Brasil se acomodou no papel de coadjuvante.

Tanto Trump quanto Bolsonaro se gabaram de ter feito tudo o que não fizeram. Ambos pintaram um quadro de combate à pandemia como se tivessem sido eles os idealizadores. Nada mais falso; foram eles o principal empecilho. Bolsonaro teve o topete de sugerir que foi ele quem deu instruções a prefeitos e governadores. Todos sabem que não foi assim; prefeitos e governadores tiveram que batalhar firme para aplicar as políticas preconizadas pelas autoridades sanitárias mundiais.

Sem se dar conta da contradição, Bolsonaro diz o sim e o não, o verso e o reverso. E faz isso na mesma frase. Em exercício de negacionismo explícito, disse que a floresta, por ser úmida, é incombustível. Logo a seguir, quase sem pausa pra respirar, acrescentou que as queimadas são provocadas pelo caboclo e pelo índio que queimam o roçado em busca da sobrevivência. Afinal, o mato queima ou não queima, doutor?

Trump e Bolsonaro destoaram da polidez aveludada que costuma reinar naquele recinto. O americano atacou veementemente a China, acusando seu maior parceiro comercial de todos os males. O brasileiro acusou (sem provas) a Venezuela pelo derramamento de óleo que atingiu nosso litoral no ano passado. Como se sabe, a origem daquele desastre nunca ficou estabelecida com segurança.

Ficou mais uma vez demonstrado que presidente de uma república não pode ser improvisado. As falas de Trump e de Bolsonaro são a prova disso. Ambos são gente saída não se sabe de onde, sem eira nem beira, oportunistas sem o mínimo de cultura e de abertura de espírito indispensáveis para exercer a função que lhes foi outorgada.

Bolsonaro pronunciou (e louvou) o nome de Trump, o que não é habitual, nem fica bem. Escancara uma subserviência que só faz rebaixar a «soberania» reclamada pelo Planalto. O presidente de Cuba não perdeu a ocasião para queixar-se do «império» (leia-se os EUA); é recorrente.

A Rússia foi feliz na instalação das bandeiras como pano de fundo, atrás de Vladimir Putin. Apareciam, lado a lado, a bandeira nacional e a da ONU. Ficou bonito. Tanto a estética quanto a simbologia ficaram nos trinques.

No fundo, o que mais me agradou da apresentação do Brasil foram as legendas. Tradução benfeita e legenda colocada à margem inferior, permitindo visão integral da imagem. A tradução foi impecável. Pena não se poder dizer o mesmo do discurso. Mas disso a gente já sabia. Ou não?

A contabilidade da epidemia

José Horta Manzano

Até a presente data, os três países que contabilizam maior número de mortos por covid-19 são, na ordem: os EUA, o Brasil e o Reino Unido. Não há como escapar à evidência de serem exatamente aqueles cujos dirigentes ousaram fazer pouco-caso da epidemia. E fizeram isso publicamente.

No começo da onda de contágio, escorregaram os mandatários dos três países. Jair Messias rotulou a doença de ‘gripezinha’ e mandou que todos saíssem às ruas. O inglês Boris Johnson declarou que não via problema em “continuar a apertar muitas mãos” como sempre tinha feito. Por seu lado, Donald Trump deu de ombros e afirmou que os melhores cientistas do mundo eram americanos, e que logo encontrariam um remédio.

Deu tudo errado. O inglês apanhou a doença, foi pra UTI e faltou pouco pra bater de dez e sair de pé junto. O americano anda contrariado por ver que seu país é campeão de mortos por covid-19, fato que hipoteca sua reeleição. Jair Messias, embora não confesse, parece que também apanhou a doença. Ele se safou, mas 40 mil compatriotas seus não tiveram a mesma sorte; são eles que deixam o Brasil na lista incômoda dos países onde a curva de contágio não quer achatar de jeito nenhum.

Países que tiveram a bênção de contar com dirigentes esclarecidos já estão saindo da fase aguda da epidemia. Ao verem desempinar a curva, estão desconfinando e voltando à rotina. Já os que tiveram o azar de serem comandados por mandatário obtuso ainda estão contando mortos aos milhares. Nada acontece por acaso.

Tuíte – 2

José Horta Manzano

Ruy Castro, escritor e jornalista, é da mesma opinião que este blogueiro quanto à relação entre doutor Bolsonaro e a covid-19. Em três ocasiões (25/3, 31/3 e 13/4) escrevi artigos sugerindo que o presidente teria sido contagiado na viagem que fez à granja de Trump. Voltou, tossiu, sentiu falta de ar, tomou cloroquina, os sintomas passaram. E o moço atribui a cura milagrosa ao remédio. O artigo de Ruy Castro está aqui (para assinantes da Folha). O último dos que escrevi está aqui (é boca-livre, não precisa ser assinante).

Namastê

José Horta Manzano

Os franceses costumam dizer: Il n’est jamais trop tard pour bien faire” – nunca é tarde demais pra fazer benfeito. Ainda dá tempo pra aplicar uma excelente ideia. Nestes tempos de coronavírus, é importante substituir apertos de mão, beijinhos, soquinhos de falanges, tapinhas nas costas, apertos de braço e outras manifestações exuberantes por uma saudação que dificulte a transmissão do coronavírus.

Na Europa e nos EUA, está se popularizando a saudação tradicional indiana. Chama-se namastê e é excelente pra evitar todo contacto físico. O uso desse interessante cumprimento ‘no touch’ se alastra. Utilíssimo atualmente, está sendo adotado até por chefes de Estado e pela realeza.

Não tenho o endereço de doutor Bolsonaro. Se o distinto leitor tiver, mande uma cartinha a ele pra contar a novidade. Diga que Mr. Trump já adotou. Se nosso doutor adotar e der o exemplo, contribuirá pra evitar muito contágio. E, de quebra, parecerá menos primitivo.

Emmanuel Macron, presidente da França, já adotou

Donald Trump, presidente dos EUA, já adotou

Até o príncipe Charles, herdeiro aparente do Reino Unido, adotou.

E agora?

José Horta Manzano

A epidemia de Covid-19, o novo coronavírus devasta o planeta numa onda que veio do Extremo Oriente, chegou à Europa e ameaça as Américas. Escorado no comportamento fanfarrão de seu ídolo americano, doutor Bolsonaro tem se mostrado nulo. Em vez de agarrar a ocasião pra subir ao palanque e mostrar força e vigor na proteção de seu povo contra o inimigo microscópico, deu de ombros e disse que a epidemia é “invenção da grande mídia”. Que cada um cuide de si. Afligente.

Nesta quinta-feira, ao levantar-se, ele há de ter ficado sabendo do que fez Trump durante a noite. O presidente americano deu uma pirueta e mudou radicalmente o discurso. Em tom solene, anunciou haver decretado a proibição de entrada nos EUA de todo estrangeiro que tiver pisado solo europeu nas últimas semanas. Solo chinês pode. A medida só visa a Europa. Mr. Trump encontrou no Velho Continente o inimigo providencial para reforço de sua campanha eleitoral. A medida sem precedentes assustou Oropa, França e Bahia. Bolsas caíram. Aviões voam vazios. Homens de negócio não sabem que fazer. Turistas desacorçoados pousam a mala no chão.

by Luc “O Sekoer” Descheemaeker (1955-), desenhista belga

E agora, doutor Bolsonaro? Como é que fica aquela história de que «esse vírus não é mais que uma gripezinha à toa»? Vai dar uma viravolta também? Agora pode, que Seu Mestre mandou. É nisso que dá viver dentro de uma bolha, cercado de militantes, isolado do mundo. Quem se afasta, como ele, nada aprende, de nada fica sabendo, a nada reage.

Agora doutor Bolsonaro está metido numa saia justa. Se seguir o exemplo de Mr. Trump, a vassalagem vai ficar explícita – um papelão. Se persistir na negação do evidente perigo causado pelo vírus, é o entupimento que vai ficar evidente – um papelão. Dilema é isso: escolha entre duas opções ruins. Quem viver, verá.

The dinner

José Horta Manzano

A foto publicada por The New York Times mostra o jantar oferecido por Donald Trump a doutor Bolsonaro. A refeição não foi servida numa residência oficial da presidência, mas numa propriedade pessoal do presidente dos EUA. Pode ser que a intenção tenha sido instalar clima de maior cordialidade. Também pode ser que Mr. Trump, como todos os que enricaram muito rápido, tenha feito questão de reafirmar sua sólida riqueza e exibir sua suntuosa propriedade, situada numa restinga de Palm Beach.

A foto foi batida antes de o jantar ser servido. Alguns detalhes surpreendem este blogueiro que, na longínqua juventude, trabalhou em hotéis de esplêndida categoria.

É verdade que a perspectiva distorce a imagem; assim mesmo, noto que o vaso de flores e a dobra da toalha não coincidem. Das duas uma: ou o vaso está descentrado, ou a toalha foi mal colocada. Ambas as possibilidades depõem contra o excelso anfitrião.

Outro ponto me chama a atenção; em restaurantes de alta categoria, a toalha é passada a ferro diretamente em cima da mesa – justamente pra evitar dobras e amarfanhados que possam enfeiar o conjunto. Vê-se que os integrantes da governança da propriedade de Mr. Trump faltaram a essa aula.

by Juan de Juanes (1523-1579), artista da renascença espanhola

O número de convivas é simbólico: são 12 ao redor da mesa. Em posição de Deus-Pai, o presidente americano sobressai. O conjunto evoca vagamente uma Santa Ceia com um personagem a menos. Só não fica claro qual dos apóstolos está faltando. Note-se, à esquerda, quase caindo da foto, um doutor Bolsonarinho – aquele que é deputado – pasmado diante da sabedoria que emana do dono da casa.

As demais mesinhas redondas que aparecem ao fundo destoam. Por lembrar prosaica festa caipira, elas atrapalham a alteza da cena. Esclareça-se que os dois personagens postados atrás dos presidentes não são apóstolos. São funcionários intérpretes, cada um a serviço do respectivo governo. Doutor Bolsonaro, que passou a vida preso à dura labuta de sete mandatos consecutivos de deputado federal, não teve tempo de aprender inglês, a língua das comunicações internacionais. Continua monoglota. Ou monolíngue, que soa mais chique.

Uma última observação. Comentaristas políticos se perguntam todos os dias quando é que Bolsonaro vai aprender isto ou aquilo. A foto dá uma pista. Reparem que, durante o solene discurso do anfitrião, todos se mantêm empertigados, em posição de respeito. Todos? Não. Doutor Bolsonaro, que não prestou atenção na postura dos demais, continua dentro de sua bolha estreita e aparece debruçado sobre a mesa, como se em casa estivesse.

Conclusão: quem não costuma observar o mundo a seu redor dá mostra de não ter capacidade de aprender. Assim sendo, está condenado a carregar suas lacunas até o fim.

Visto negado

José Horta Manzano

Não sei se a ideia terá saido direto da cabeça de Mr. Trump ou da de algum acólito. Tanto faz. Combina com o estilo de caubói truculento que, para azar dos americanos e do resto da humanidade, está aboletado na Casa Branca. O fato é que os EUA negaram, esta semana, visto de entrada no país ao ministro de Relações Exteriores do Irã. O estrangeiro não tencionava fazer turismo nos Estados Unidos, mas participar de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Como todos sabem, a sede principal da organização está situada exatamente em Nova York.

Que fique claro: não estou aqui louvando o regime dos aiatolás e tampouco recebi procuração para defendê-los; o problema não é esse. O nó está em outro lugar.

Em 1945, a Organização das Nações Unidas estava em formação sobre os escombros da Segunda Guerra. A primeira assembleia teve lugar em 1946, em Londres. Naquela ocasião, os países-membros decidiram aceitar a proposta do Congresso americano de instalar a sede principal nos EUA. Depois de longa hesitação na escolha da cidade que acolheria a organização, ficou acertado que seria em Manhattan, Nova York.

O imenso edifício levou 5 anos pra ser construído. Foi inaugurado em 1951. Um tratado foi então assinado entre a ONU e os EUA. Entre outras especificidades, a sede nova-iorquina goza de estatuto de extraterritorialidade, exatamente como qualquer embaixada. O governo dos EUA comprometeu-se a conceder visto de entrada a toda autoridade estrangeira que o solicitasse. Isso demonstra que, tendo em vista que a sede da ONU goza de estatuto extraterritorial, a entrada do estrangeiro nos Estados Unidos nada mais é que passagem. Ele faz o percurso do aeroporto até Manhattan como qualquer passageiro em trânsito.

Portanto, se a notícia da não concessão de visto ao ministro iraniano for verdadeira, temos aí escândalo de proporções planetárias. Pode-se discutir se o assassinato do general iraniano, ordenado por Donald Trump em pessoa, foi ato de guerra ou não. Pode-se também discutir se a retaliação iraniana foi atentado terrorista ou não. Toda opinião é respeitável e cada um tem a sua. Já quanto ao visto negado, no entanto, nenhuma discussão é permitida: trata-se de atentado contra o bom senso. É não cumprimento de palavra dada. Os EUA estão renegando o compromisso que assumiram ao acolher a ONU. O presidente do país não tem o direito de atropelar o que foi combinado.

Quando doutor Bolsonaro, com seu linguajar tosco, ofende a honra e a dignidade de jornalistas que o vêm entrevistar, ninguém diz nada. Todos enfiam o rabo no meio das pernas e engolem qualquer patacoada como se natural fosse. Espero que a banda pensante dos dirigentes do planeta não se acovarde. Não se pode conceder a Donald Trump o poder de tomar esse tipo de decisão por conta própria. Da próxima vez, pra contornar esse estropício, a ONU devia usar sua sede europeia, situada em Genebra (Suíça). O civilizado governo suíço jamais negará visto a ministro nenhum.

O mundo vai mal?

José Horta Manzano

Nós, os habitantes deste planeta, temos a vaga impressão de que o mundo vai mal. Muitas guerras, muita violência, conflitos, atentados, miséria, imigração clandestina, greves, poluição, consumo de drogas, destruição do meio ambiente. Em resumo: vai tudo de mal a pior.

No entanto, a realidade dos fatos é menos assustadora. A impressão de descalabro vem, muito certamente, da velocidade com que a informação circula. Algumas décadas atrás, vários dias podiam decorrer entre o acontecimento e sua aparição nos jornais. Hoje a propagação é instantânea. A proliferação de notícias falsas (em bom português, fake news) ajuda a piorar o cenário. Mas examinemos alguns pontos altamente positivos escondidos por detrás do fluxo de notícias ruins.

As estatísticas oficiais do Banco Mundial medem a pobreza no planeta. Elas mostram que, em 1990, um terço da humanidade vivia com menos de US$ 1.90 por dia, limite da extrema pobreza. Era uma em cada três pessoas. Atualmente, apenas um em cada doze humanos continua abaixo desse limite. É avanço fenomenal conseguido em menos de 30 anos.

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Outra melhora significativa verificou-se na taxa de mortalidade infantil. Em 1990, de cada mil crianças, 93 não chegavam à idade de 5 anos. Em 2017, esse número baixou para 39 por mil. Isso mostra que há progresso nas áreas de alimentação, vacinação e medicação.

A poliomielite, que flagelava os pequeninos antigamente, está involuindo. Em 1988 foram registrados 350.000 casos. Em 2018, a enfermidade não atingiu mais do que 33 pessoas, uma queda impressionante. Em breve, essa doença estará erradicada.

Pelas estatísticas da Unesco, 67% dos maiores de 15 anos eram alfabetizados em 1980. Em 2017, essa taxa já atingia 86%. Ainda falta um bom pedaço, mas a carroça tem andado na boa direção.

Como se vê, apesar de governantes sombrios e biliosos como Trump, Bolsonaro, Putin, Erdogan, o bando lulopetista e tantos outros espalhados aos quatro ventos, o mundo caminha. Se esses poderosos, que não pensam em outra coisa senão em dinheiro e poder, ajudassem a empurrar o caminhão, a humanidade sairia mais rápido do atoleiro. Mas mesmo sem a ajuda que eles nos sonegam, nós, do andar de baixo, vamos nos virando.

Canoa furada

José Horta Manzano

Donald Trump acaba de renegar os aliados curdos. Esqueceu-se de que a vitória sobre a Organização Estado Islâmico não teria sido possível sem a preciosa ajuda dos curdos sírios e iraquianos, que reconquistaram corajosamente, metro a metro, casa a casa, o território perdido.

Dois dias atrás, ao levantar-se com pé torto, o presidente americano informou, por um tuíte, que tinha resolvido chamar de volta pra casa os militares americanos estacionados na região. Sem a proteção americana, os curdos estarão expostos ao poderio terrestre e aéreo do temível exército turco. Vão levar muita bomba.

Artigo do Washington Post resume bem a situação:

“President Trump’s erratic foreign policy gives allies good reason to doubt America will follow through on its security commitments or protect friends in their hour of need.”

“A política externa errática do presidente Trump dá aos aliados boas razões pra desconfiar que os EUA não honrarão a promessa de proteger os amigos na hora da precisão.”

Doutor Bolsonaro – nosso arremedo tropical de Trump – tem apostado todas as fichas na pessoa do presidente americano. Sua adoração é pessoalmente dirigida a Donald Trump; não é necessariamente extensiva aos demais 330 milhões de americanos. Com insultos, desfeitas e demonstrações explícitas de desprezo, doutor Bolsonaro tem dado de ombros ao resto do planeta. Está fascinado pela figura de Trump.

Seria importante que algum assessor lhe contasse como os aliados curdos foram tratados. Seria importante que algum assessor o alertasse para a instabilidade emocional de seu ídolo. Em conhecimento de causa, talvez doutor Bolsonaro reflita e modere o comportamento antes que seja tarde. Ou não.

Um bom homem

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa das mais simples. Quando o tradutor tem tempo pra refletir, o trabalho é mais maneiro. Mas se o trabalho tiver de ser feito às pressas, então, a coisa se complica. É o que acontece na mídia. Nem sempre há tempo pra lapidar o escrito.

Chamada do Estadão

Um bom homem?
No original Donald Trump qualificou doutor Bolsonaro de good man. “He’s a good man” – foi exatamente o que ele disse. De fato, a good man é um bom homem. To the foot of the letter.(*)

Em geral, o tradutor tem duas opções. Pode ater-se rigorosamente à língua de partida e manter fidelidade a cada palavra. Nesse caso, seu texto poderá às vezes soar estranho, como se falasse com sotaque. Pode também optar por palavra ou expressão que, embora se afaste do original, leva ao leitor a imagem que o autor do texto original quis dar. Esse trabalho visa a «eliminar sotaque», mas toma tempo.

Chamada da Folha de São Paulo

Tanto o Estadão quanto a Folha de SP optaram pela via mais rápida. O good man de Trump virou bom homem. Errado, não está. Mas ficou esquisito, com sotaque. Viria à cabeça de alguém dizer que Collor, FHC, Lula ou qualquer político é um bom homem?

Pra dizer que alguém é bom de coração, o mais comum é defini-lo como um homem bom, expressão raramente usada pra políticos de alto coturno. Corações bondosos são artigo raro nas prateleiras no andar de cima.

Afora isso, sem descambar para o lado sentimental, diremos simplesmente que alguém é boa gente ou boa pessoa. Se tivesse tido tempo o tradutor teria caprichado no trabalho e, certamente, teria chegado a essa conclusão. Faltou tempo.

(*) ‘To the foot of the letter’ é tradução literal de nossa expressão ‘ao pé da letra’. Mas é só pra brincar, que nenhum falante de inglês compreenderia o sentido.

No friends

José Horta Manzano

No original, a frase era Nations have no permanent friends or allies, they only have permanent interests – As nações não têm amigos ou aliados permanentes, têm somente interesses permanentes”. O autor é Henry John Temple (1784-1865), aristocrata e político britânico que passou à história como Lord Palmerston. A frase foi forjada numa época guerreira, em que as alianças entre nações eram de suprema importância. Por isso o termo ‘aliados’ aparece. Hoje, alianças não têm o mesmo peso.

Cem anos depois de Lord Palmerston, o general De Gaulle tomou emprestada a frase e desempoeirou: “La France n’a pas d’amis, elle n’a que des intérêts – A França não tem amigos, ela só tem interesses”. Desapareceram os aliados, mas ficou o que era importante. Aproveitando a deixa, podemos generalizar: “Países não têm amigos, só tem interesses”. Dito assim, o raciocínio serve para todos os países, Brasil incluído. Então, vamos lá: “O Brasil não têm amigos, só tem interesses”.

Algo me diz que doutor Bolsonaro não entendeu o recado. Faltou base cultural. Pior: por ter escolhido assessores que lhe são semelhantes, não conta com ninguém que lhe abra os olhos para o perigo que esse escandaloso namoro com os EUA representa. Entrega total é conceito válido pra um casal de humanos; subserviência entre nações não faz sentido.

Nosso presidente está jogando esforço fora. Ele ainda não verbalizou, mas fica a impressão de que seu sonho é transformar o Brasil num imenso Porto Rico, um Estado ‘associado’ aos EUA. Isso é puro delírio. Bolsonaro não está sendo fiel à Constituição que jurou cumprir. Está abrindo mão de importantes interesses do Estado brasileiro. Amizades passam, assim como Trump e Bolsonaro passarão. Interesses são permanentes.

A argúcia não é a qualidade maior de nosso presidente. Ele não se deu conta de que o ‘amigo’ Trump é homem duro, inflexível, ferrenho, espinhoso, implacável, de trato difícil. Não é o tipo de pessoa que se derrete com um sorriso e um tapinha nas costas. Ainda ontem, Trump tratou o dirigente-mor chinês, Xi Jinping, de “great leader – grande líder”. O chinês conduz seu país com mão de ferro. Trump respeita gente forte e despreza fracotes. Não é lambendo-lhe as botas que Bolsonaro se tornará simpático. Isso vale também para os bolsonarinhos.

Nestas últimas semanas, doutor Bolsonaro conseguiu arrumar briga com a França, a Argentina, a Noruega, a Alemanha, a Dinamarca. Os interesses do Estado brasileiro estão sendo pisoteados pra ceder lugar à paranoia presidencial. Não pode. Isso ainda vai acabar mal.

O Brasil não têm amigos, só tem interesses. Que têm de ser respeitados pelo presidente!

Aceita um cálice?

José Horta Manzano

Você sabia?

Se o distinto leitor for amador de vinho, será que já provou um cálice do vigoroso tinto lituano da casta syrah? Ou do suave espumante polonês de casta pinot blanc? Ou talvez do delicioso branco sueco de casta chasselas? Por enquanto ainda é brincadeira, mas peritos em aquecimento global reunidos ontem em congresso(*) afirmam que o mapa da vinha europeia, daqui a 30 anos, será bastante diferente do que conhecemos.

Três décadas pode parecer muito tempo, mas muitos de vocês que hoje leem este escrito ainda estarão neste vale de lágrimas quando a «linha da vinha», que hoje roça o paralelo 50° Norte, tiver se deslocado para perto do paralelo 60° Norte. Falo da linha imaginária que assinala o limite além do qual, por razões climáticas, vinhedo não vinga.

Na França, vão trocar seis por meia dúzia. O sul (Bordeaux principalmente) não dará mais vinho. Em compensação, as planícies de todo o norte se transformarão em território vinícola.

VINHEDOS EUROPEUS
Hoje e daqui a 30 anos

O mais impressionante na previsão dos entendidos – posto que tenham razão – é que boa parte das atuais regiões viníferas da Europa terão desaparecido. Portugal e a Itália serão as maiores vítimas da catástrofe: não darão mais uma gota da preciosa bebida. Adeus, Chianti! Adeus, vinho do Porto! Na Espanha, apenas uma pequena região do norte, hoje fora da linha de produção, dará algumas pipas.

Em compensação, muitos vão trocar campos de cevada, tulipa, trigo e batata por vinhedos. Será o caso de países inteiros como a Alemanha, a Polônia, a Bélgica, a Holanda e os países bálticos. Até o sul da Inglaterra, da Dinamarca e da Suécia se tornarão regiões vinícolas.

Na Suécia, aliás, isso já começa a ser realidade. Campos cobertos de vinhedo já fazem parte da paisagem rural. Por enquanto, o vinho sueco é de caráter experimental e ainda não se compara com o que se produz no sul da Europa. Mas do jeito que vai o aquecimento climático, não será espantoso chegarem a fazer tintos encorpados.

Mr. Trump e doutor Bolsonaro, que têm a arrogância que só a ignorância lhes permite, podem continuar duvidando. De todo modo, daqui a 30 anos, não estarão mais aqui pra conferir. Se estiverem, estarão caducos.

(*) Refiro-me ao congresso do GIEC (Grupo intergovernamental de peritos internacionais sobre o clima), cujos aderentes se reuniram ontem em Lausanne, Suíça.

Favas contadas?

José Horta Manzano

Quando foi anunciada, a provável nomeação de um dos bolsonarinhos para chefiar a representação diplomática mais importante do Brasil no exterior parecia boato. Ou ‘fake news’, como convém dizer hoje. Era tão fora de esquadro, que nem as carolas frequentadoras da capela dos Aflitos acreditaram.

O passar do tempo, que cicatriza feridas, serve também pra acostumar o homem a consentir com ideias que, ainda ontem, rechaçava. É o que se deduz da chamada de hoje do Estadão: o moço terá de completar uma tarefa antes de se mudar para o palacete de Washington. Está subentendido que a mudança está no papo, que são favas contadas. Será mesmo?

Chamada Estadão, 2 ago 2019

Não é tão garantido assim. Ainda tem ainda uma pedra no caminho. Ou o primeiro-filho contorna essa pedra, ou não passa. Refiro-me ao Senado da República. Como bem sabe o distinto leitor, os senadores são 81, três pra cada unidade federativa. Considerada a votação que receberam, são mais legítimos do que o próprio presidente da Republica. Enquanto doutor Bolsonaro recebeu em torno de 57 milhões de votos, o conjunto dos senadores foi eleito com mais de 100 milhões. Ou seja: aqueles 81 personagens representam a totalidade do eleitorado; estão lá pra defender todos os brasileiros.

Todo embaixador, antes de ser efetivado no cargo, tem de ser aprovado pela maioria dos senadores. Doutor Bolsonarinho, goste ou não, recém-casado ou não, filho de presidente ou não, fâ ardoroso de Trump ou não, respeitado fritador de hambúrguer ou não, ignorante de questões internacionais ou não, terá de passar pelo crivo dos sisudos senadores. Em votação secreta! Vamos ver se passa.

Crista alta

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor já se tenha dado conta: doutor Bolsonaro está mais manso. Oh, não digo que se tenha civilizado de todo. Longe disso! Continua soltando coices, dando pinotes e relinchando feito potro bravo. Mas, aos poucos, vai-se amansando.

Lembram-se da bravata inicial, aquela da transferência da embaixada em Israel de Tel-Aviv pra Jerusalém? Essa provocou até a visita do premiê israelense, única personalidade não latino-americana presente à cerimônia de tomada de posse. Pois a veleidade já foi pra lata do lixo.

De lá pra cá, à força (ou por falta de força), fanfarronices e outras farofas têm sido varridas. A Cancún brasileira na baía de Angra dos Reis, em área de reserva natural? Pode esquecer! E por quê?

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Porque, caso ele ousasse mandar tocar um projeto desse calibre, o mundo civilizado lhe desabaria sobre o cocuruto. Receberia ameaças de toda parte. Tratados de cooperação seriam denunciados. Ajuda financeira seria cortada. Retaliação pesada viria por aí.

O planeta tem regras, algumas escritas, outras habituais ainda que não contratuais – customary, como dizem os ingleses. Só quem pode passar por cima delas é quem tem muuuito poder. Donald Trump, por exemplo, que tem nas mãos as rédeas da maior potência do planeta.

Estados estão sujeitos a um emaranhado de leis, obrigações, dívidas, deveres. Não dá pra fazer de conta que o Brasil é um planeta à parte. Não é assim que funciona. Doutor Bolsonaro é café pequeno perto dessa gente graúda. Vai ter de se amansar, goste ou não.

Aliás, já deve estar se dando conta de que cada pronunciamento seu é um desastre que acaba sendo prejudicial pra ele mesmo. Embora não seja um luminar, tampouco é totalmente tapado. Portanto, aos poucos, de tanto levar pancada, vai acabar aprendendo. Vai baixar a crista e acabar se tornando um presidente comum. E que tome cuidado e ande na linha, que é pra não terminar em Curitiba, como um conhecido antecessor.

Sans moi

Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo ‘trumpista’ é sinal de perda de contacto com a realidade.

José Horta Manzano

O que o brasileiro diz, em falar caseiro, «me inclua fora» tem tradução perfeita em francês. Em Paris, diz-se «ce sera sans moi» (=será sem mim).

Monsieur Macron, presidente da França, usou esse recurso de linguagem hoje em previsão da conversa com doutor Bolsonaro. Logo ao chegar a Osaka, antes do encontro agendado (depois desagendado, em seguida reagendado, afinal realizado), avisou: «Se não pudermos discutir sobre o Acordo de Paris, ce sera sans la France (=sera sem a França)».

Depois da ameaça de «levar um pito» de Frau Merkel, doutor Bolsonaro sofreu ameaça de «levar um fora» de Monsieur Macron. Note-se que não estamos falando de dirigentes da Mongólia ou do Zimbábue. Alemanha e França são os dois países mais importantes da Europa e formam juntos o motor do continente.

França: temperaturas previstas para 28 junho 2019

Meu pai dizia: ‘Se não for por bem, vai por mal’. Em matéria de defesa da ambição climática do planeta, doutor Bolsonaro escolheu ‘ir por mal’. A adesão cega e total aos propósitos ignorantes que Mister Trump emite nesse particular é nociva a nosso país e nos está fazendo mal. A reviravolta climática já não é ameaça, é realidade.(*) Pra evitar catástrofe maior, cada cidadão pode (e deve) fazer sua parte, mas governos podem muito mais.

Liberar, no Brasil, agrotóxicos já proibidos na Europa é atitude insensata. Agasalhar desmatamento desenfreado também é. Nosso presidente é responsável por esses dois atos. Além de prejudicar a saúde, essas atitudes típicas de mentes desinformadas botam obstáculos na negociação de acordos comerciais.

Doutor Bolsonaro devia pôr na cachola que Mr. Trump não é eterno e que será substituído um dia. Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo trumpista é sinal de perda de contacto com a realidade. É como tomar carona num veículo que não se sabe pra onde vai. A gente acaba se perdendo. Doutor Bolsonaro precisa recalibrar seu GPS e começar tudo de novo.

(*) A onda de calor temporã que oprime a Europa neste fim de junho já está aí faz quatro dias. Não se sabe exatamente quando terminará – talvez no meio da semana próxima. No país de Monsieur Macron, preveem-se temperaturas entre 40° e 45° para este fim de tarde. Na amena Suíça onde vive este blogueiro, o termômetro marcava 29° à uma da manhã na noite que passou. Durma-se com um bafo desses.