Proibições

José Horta Manzano

Na Coreia do Norte, tudo é proibido ‒ até aquilo que é permitido.

Na Alemanha, tudo é proibido ‒ salvo o que é permitido.

Na Itália, tudo é permitido ‒ salvo o que é proibido.

No Brasil, tudo é permitido ‒ especialmente o que é proibido.

Visita ao Piauí

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro visitou o interior do Piauí. Visita de médico, rapidinha. E pensar que médicos fazem falta por aquelas lonjuras. Talvez a população gostasse mais de receber um doutor de verdade, daqueles que examinam e dão remédio. Mas remédio que cura, não desses fajutos que a gente vê por aí, pô!

by Antônio Carlos Nicolielo (1948-), artista paulista

Visita de doutor de araque é como chuva no sertão. Vem de repente, faz um barulhão e deixa todo o mundo alegre. Mas vai-se embora logo, deixa a terra mais seca que antes, não tem serventia. É mera ilusão, que hoje responde pelo nome mais sofisticado de marketing eleitoral.

Curiosidade
Você sabia que a palavra piauiense reúne 5 vogais grudadas umas nas outras? Em nossa língua, está aí a mais extensa coleção de vogais, em sequência, numa só palavra.

Outras línguas ostentam impressionantes sequências de consoantes. O alemão, por exemplo, tem o sobrenome Schürch, um cacho de 6 consoantes para uma vogalzinha. Enquanto isso, o gênio do português é conviver com fileiras de vogais. E ninguém se assusta com isso. Uai, é? Ô, é e é, uai!

As águas vão rolar

Canivete do exército suíço

Canivete do exército suíço

Interligne 28a

Canivete do exército francês segundo Michael Crawford, desenhista americano

Canivete do exército francês
segundo Michael Crawford, desenhista americano

Interligne 28a

Os menores de 60 anos devem estar se perguntando o que é que o título tem a ver com as imagens. Explico. Para o carnaval de 1954, Zé da Zilda compôs uma marchinha muito simples, fácil de memorizar, daquelas que todos se lembram com facilidade. Ia assim:

As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo a mão no saca, saca, saca-rolha
E bebo até me afogar.

Fosse hoje, o autor perigava ser processado por incitação à bebedeira (ou, como convém dizer agora, à ingestão indiscriminada de bebida alcoólica). Na época, o mundo funcionava diferente. A gravação original está no youtube.

Publicado originalmente em 10 set° 2015

Acôrdo ortographico

Eduardo Affonso (*)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z. Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial. Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana. Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal. Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

O pirata maluquinho

José Horta Manzano

Acabo de ler a notícia. Um dos cidadãos detidos sob suspeita de terem pirateado numerosos celulares, entre os quais o de doutor Moro, confessou o crime. Réu confesso, minha gente! Cenário ao qual a Justiça brasileira não está mais acostumada. Réu confesso! Como é que pode?

Imediatamente, seu advogado(*) asseverou que o cliente tem problemas psiquiátricos. Ato contínuo, correu às dependências da Polícia Federal com cobertor e remédios próprios para controlar a saúde de doentes mentais.

crédito: Ziraldo Alves Pinto

Faz sentido. No Brasil deste século 21, só quem não bate bem da bola confessa crime. Condenados em primeira instância negam ter delinquido. Condenados em segunda instância fincam pé no brado de inocência. Até um conhecido condenado em terceira instância continua a considerar-se ‘a alma mais pura dessepaiz’.

Réu que confessa antes mesmo de ser julgado só pode ser débil mental. Onde é que já se viu?

(*) É de se perguntar como é possível que um indivíduo – ao que se saiba, virgem de antecedentes criminais – disponha de advogado criminalista assim, imediatamente, ao alcance da mão. Quem encontrou? Quem contratou? Quem paga?

Só mais uma pergunta. Não pode ofender.
Por que, diabos, um individuo ‘com problemas psiquiátricos’ se poria a piratear telefone de altas autoridades da República? Piratagem informática não é jogo da velha. Exige formação pontuda e rigorosa.

Quem desvendar o mistério ganha a eterna gratidão de doutor Moro. Cartas para o Ministério da Justiça, Brasília.