Passatempo

José Horta Manzano

Faz 35 anos, tive um colega de trabalho chamado Joel, quase um menino na época. Depois disso, nos perdemos de vista. Já há de estar um senhor, quem sabe até avô. Remexendo em meus guardados, encontrei um enigma que ele tinha me dado para publicar no jornalzinho interno da firma. A solução não é fácil, mas também não é extremamente difícil. Basta um pouco de paciência e atenção.

Achei que valia a pena ressuscitar o papel que dormiu tanto tempo numa gaveta, e passar adiante aos distintos leitores – ‘compartilhar’, como se diz hoje.

O problema se apresenta sob forma de uma cartinha escrita ao tempo em que telefone era precário e celular não havia. Ocultos por entre as palavras do enigmático recado, estão os nomes de 11 estados e 13 capitais de estados brasileiros. Aos curiosos, deixo a tarefa de descobrir.

Quem encontrar tudo direitinho ganha uma passagem rodoviária Boa Vista – Caracas, ida simples. O bilhete está vencido, mas o que importa é participar.

Dou a solução amanhã e desejo a todos um bom exercício de decifração.

Observação
Duas palavras contêm um errinho. Mas deixei assim pra não desmanchar o esconderijo de dois nomes ocultos. Por seu lado, uma das capitais aparece duas vezes – não é erro, é abundância.

Brasília, 25 de abril de 1984

Amigo Iasias,

Respondo-lhe num recado simples, pois estarei com você no domingo, respirando a doce aragem da fazenda. Aqui em casa, todos brigam para acompanhar-me, parecendo a Torre de Babel em pleno século XX. Só vendo para crer.

O Vitor ia comigo, mas nesta semana, tal como na outra, terá provas na escola. Sob pressão, Paulo concordou em ficar em companhia dos irmãos e da mãe. Ele foi até a praia, onde sua mulher, Vilma, ceiou. Eu me aborreci ferozmente com todos esses acontecimentos e agora felizmente encontrei o consolo que me conforta, lezado que estava em minha tranquilidade. Pensei até em exasperar-me, mas bah!, ia ser inútil.

Das encomendas que você fez, mando-lhe somente resina e o inseticida para caju. Segue tudo sob a guarda do portador desta, que é João, pessoa contratada para a limpeza da lagoa seca. O restante levarei comigo.

Chegarei sábado à noite e pousarei na pensão Luisiânia, seguindo no domingo cedo para a fazenda.

É pensamento meu acampar aí bastante tempo (até a festa do Divino Espírito Santo), andar por toda a fazenda, para na volta fazer um balanço completo das atividades realizadas.

Compre-me um par de rubis para fazer brincos, para a mana usar no seu casamento. Como presente ao cunhado, ofereci festa de despedida de solteiro.

Um abraço do sócio e amigo,

Salvador Amin Assunção

Feliz ano-novo ou feliz ano novo?

José Horta Manzano

O ano de 2020 não foi fácil. Pandemia nas ruas e destrambelhados no governo criaram uma combinação tóxica que nos envenenou a todos. Salvou-se quem pôde, mas muitos ficaram pelo caminho. Todos nós almejamos por um 2021 melhor. O que queremos mesmo é ver 2020 pelas costas.

Pessoalmente, o ano que finda vai deixar uma única saudade: é ter sido número redondo. O próximo só daqui a dez anos. Ano redondo facilita contas do tipo ‘faz 30 anos’ ou ‘daqui a 25 anos’ – o resultado sai numa conta de cabeça, rápida e sem erro. Além disso, 2020 tinha o jeitão simpático de duas dezenas que se repetem, um fenômeno raro. Pra revê-lo, precisa esperar até 2121. Temo que nenhum de nós consiga chegar lá. Infelizmente.

Estes dias, todos querem desejar aos amigos um novo ano feliz. Falar é fácil, escrever é mais complicado. Ano-novo ou ano novo? Com tracinho ou sem? Ambas as formas são aceitas, só que elas não dão o mesmo recado. Vamos conferir.

Ano-novo (com hífen) é expressão que consta nos dicionários brasileiros. Tem o significado de «a passagem de 31 de dezembro para o 1° de janeiro» ou «o dia 1° de janeiro». Portanto, ano-novo (com hífen) delimita um momento preciso: o nascimento do novo ano, que é o espaço de tempo englobando, grosso modo, o último dia de um ano e o primeiro do ano seguinte.

Ano novo (sem hífen) é reles sequência de substantivo + adjetivo; não aparece no dicionário. Refere-se ao ano inteiro.

Quando a gente quer exprimir os votos, fica assim. Se o desejo for expresso oralmente, o problema desaparece. Com ou sem hífen, a pronúncia é a mesma. Já se for por escrito, é bom saber que:

Feliz ano-novo! (com hífen)
exprime o desejo de que a pessoa passe um réveillon feliz. Equivale à saudação ‘Boas entradas!’.

Feliz ano novo! (sem hífen)
exprime o desejo de que a pessoa passe um ano inteiro feliz.

Desejo a todos os distintos leitores um feliz ano-novo e um feliz ano novo.

Observação
Em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, ninguém dá atenção a essas sutilezas. Não se usa hífen. Maiúscula ou minúscula? Fica ao gosto do freguês, mas geralmente se vê com maiúsculas. Nossa obsessão com minúcias gráficas não combina com um povo que devia mais é se preocupar em despoluir a escrita a fim de simplificar a instrução de sua massa de iletrados.