Extorquir: regência

Dad Squarisi (*)

Extorquir não é lá coisa boa. Significa obter por violência, ameaças ou ardis. O verbo tem uma manha. Seu objeto direto tem de ser coisa. Nunca pessoa. Extorque-se alguma coisa. Não alguém.

Fiscais extorquiram dinheiro de comerciante.
A polícia tentou extorquir o segredo.
Extorquiram a fórmula ao cientista.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho tão pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto. Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso, foi substituído por co-lo-car.

Mais uma palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente final de semana. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

No cabeça

José Horta Manzano

Monsieur Jules Ernest Séraphin Valentin Rimet (1873-1956), cartola de alto coturno, foi presidente da Fifa durante 33 anos. Começou em 1920 e permaneceu enquanto a saúde ajudou. Inspirado pelo sucesso dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928, teve a ideia de organizar um campeonato mundial unicamente para o futebol, separado dos demais esportes.

A ideia foi posta em prática pela primeira vez em 1930. O Uruguai foi designado como sede. Os europeus demonstraram flagrante desdém pela distante e atrasada América do Sul ‒ apenas quatro países se dignaram de mandar a seleção enfrentar a longa viagem: França, Romênia, Iugoslávia e Bélgica. Ressalte-se que o pequeno país sul-americano só foi escolhido porque seu governo se dispôs a custear todas as despesas das equipes participantes, transporte inclusive.

O troféu, que o presidente da Fifa carregou na bagagem pessoal, tinha sido confeccionado na Europa. Era uma peça de ourivesaria em puro estilo art-déco ‒ uma espécie de taça montada sobre um pedestal e sustentada por uma figura alada. Apropriadamente, foi chamada Coupe Jules Rimet, numa homenagem pouco modesta ao cartola.

Coupe Jules Rimet

Em francês, a palavra coupe traduz nossa taça. Em razão da forma do troféu, o campeonato foi aqui chamado, nos primeiros anos, de Taça do Mundo. A vitória brasileira de 1958 deu origem a várias marchas triunfais, a mais conhecida das quais dizia «A Taça do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa».

De lá pra cá, distraídos, deixamo-nos contaminar pelo estrangeirismo, decerto visto como mais chique. A taça virou copa, que, aliás, é como os espanhóis chamam o objeto. De qualquer maneira, o troféu já não tem mais forma de taça. Ficam elas por elas, que nem taça nem copa correspondem ao desenho do troféu atual.

O termo copa vem do latim cupa (também cuppa), que é como os romanos chamavam a taça. Descende de antigo radical kup/kap, que tem sentido de encurvar, arquear. A família conta com muitos parentes: copo, cubo, cúpula, cúbito e seus derivados. Desconfia-se que até o alemão Kopf (cabeça) seja parente desgarrado. De fato, a forma arredondada da cabeça bate com o sentido de encurvar.

Falando em Kopf, muitos especialistas predizem que a partida final da Copa será entre Brasil e Alemanha. Naturalmente, com Brrrasil no cabeça ‒ perdão ‒ Brasil na cabeça!

Polô Coelô

José Horta Manzano

Meio distraído, estava outro dia ouvindo a rádio francesa quando o locutor informou que o novo livro de Polô Coelô já estava nas livrarias. Levei um instante tentando identificar esse autor cujo nome não encontrava eco no meu disco rígido. Logo caiu a ficha: era Paulo Coelho pronunciado à francesa.

O anúncio me trouxe à memória um artigo que tinha lido muitos anos antes. Era uma avaliação do romance O Alquimista sob o ângulo gramatical. O escrito expõe impressionante quantidade de erros, fato surpreendente na obra de escritor tão afamado.

O artigo, publicado anos atrás, é uma aula de gramática portuguesa. Vale a pena conferir. Quanto a Monsieur Coelô, hoje um homem rico, espero que, de lá pra cá, tenha contratado um bom revisor. Aqui está a crítica gramatical.

As “pérolas” de Paulo Coelho

J. Milton Gonçalves (*)

A presente crítica mostra as duas faces de Paulo Coelho: escritor de imaginação fértil, mas que se revela medíocre no manejo da linguagem escorreita.

A apreciação minuciosa do livro O Alquimista (do referido autor) não deve ser tomada como uma ofensa de caráter pessoal; o intuito é mostrar – principalmente aos leitores jovens e aos jornalistas – que nossa língua tem normas e regras que precisam ser obedecidas (sem as quais – quer queiram quer não queiram alguns – nossos objetivos jamais serão alcançados), pois, como observa o gramático Sacconi, “não há profissional sério que não sinta a necessidade de utilizar a norma culta; não há profissional respeitado que não tenha suficientes razões para conhecê-la”.

O escritor Paulo Coelho, que diz já ter encontrado sua pedra filosofal, precisa urgentemente encontrar uma boa gramática, um bom dicionário, e, se preferir – é claro! –, uma pitada de mundrunga para resolver sua deficiência vernácula.

Numa entrevista à revista Playboy, o rei dos best-sellers disse que consegue separar nuvens com a força da mente, parar o tempo, fazer chover e até ficar invisível (entre outras coisas fantasmagóricas). Se nosso mago literário tem tantos poderes assim, bem que poderia invocar os espíritos dos grandes escritores brasileiros para expressar suas idéias, sem maltratar tanto o nosso idioma.

Encontram-se, aqui, apenas algumas das “pérolas” extraídas do seu famoso livro publicado pela Editora Rocco, edição de número 159. É isto mesmo: centésima quinquagésima nona edição. Sinto um extraordinário dó pelos leitores da primeira edição.

1. “Lembrou-se da espada — foi um preço caro contemplá-la um pouco, mas também nunca tinha visto algo igual antes.” (Pág. 71)

Preço caro é erro indecoroso. Caro já significa de preço elevado. O correto é dizer que o produto está caro ou o preço está alto, exagerado, excessivo (o que não é nenhuma novidade hoje em dia).

2. “Haviam certas ovelhas, porém, que demoravam um pouco para levantar.” (Pág. 22)

Não há registro, em nossa literatura, de nenhum outro escritor que tenha empregado haver no plural, com o sentido de existir. Não se pode atribuir a culpa ao revisor, uma vez que esse modelo de concordância aparece mais de dez vezes em todo o livro.

Demorar, no sentido de tardar, custar, usa-se com a, e não com para: Demorou a retornar à casa dos pais.

Levantar é sinônimo de erguer; levantar-se é que significa pôr-se de pé.

3. “ dois dias atrás você disse que eu nunca tive sonhos de viajar.” (Pág. 86)

A impressão que fica é que PC adora brincar de escrever português. Qualquer pessoa com dois dedinhos de leitura descontraída sabe que e atrás não combinam.

“Há dois dias atrás” é expressão redundante, pois a idéia de passado já está contida no verbo haver, sendo desnecessário o uso do advérbio atrás. Só um cego não vê que os dois termos estão brigando. A excrescência também ocorre nas páginas 103, 133, 161, 210, 242…

4. “O teto tinha despencado muito tempo, e um enorme sicômoro havia crescido no local que antes abrigava a sacristia.” (Pág. 21)

“Fazia aquilo anos, e já sabia o horário de cada pessoa.” (Pág. 76)

Definitivamente o verbo haver é uma enorme pedra no sapato do nosso alquimista. Quando o verbo haver é usado com outro no tempo imperfeito (ou mais-que-perfeito), emprega-se havia, e não : “Quando você chegou, eu já estava na sala havia cinco minutos”. (Arnaldo Niskier)

O mesmo erro encontra-se ainda nas páginas 22, 83, 133, e 157…

5. “Em 1973, já desesperado com a ausência de progresso, cometi uma suprema irresponsabilidade. Nesta época eu era contratado pela Secretaria de Educação de Mato Grosso…” (Pág. 8)

Nesta época refere-se ao período em que o escritor estava escrevendo, e não a 1973. Nessa é que se usa com referência a tempo passado ou futuro. Naquela seria outra opção ajuizada. Os erros se repetem nas páginas 50, 54, 77, 119, 143, 238…

6. “— Então, nas Pirâmides do Egito, — ele falou as três últimas palavras lentamente, para que a velha pudesse entender…”(Pág. 37)

O verbo falar é intransitivo (não pede complemento); o verbo dizer é que se usa transitivamente. Falar só se usa com objeto em expressões como falar verdade, falar inglês, francês etc.

Veja outros casos em que o verbo falar foi usado indevidamente:

“Por isso lhe falei que seu sonho era difícil.” (Pág. 38)

“O velho, entretanto, insistiu. Falou que estava cansado, com sede…” (Pág. 42)

Antes da palavra que, usa-se dizer, e não falar.

7. “E quero que saiba que vou voltar. Eu te amo porque…” (Pág. 189)

Fazer alquimia com as pessoas de tratamento, parece ser a diversão preferida de Paulo Coelho. O próximo exemplo é ainda mais dramático:

“— Eu te amo porque tive um sonho… Eu te amo porque todo o Universo conspirou para que eu chegasse até você.” (Pág. 190)

Sei que é covardia comparar PC com um dos clássicos de nossa literatura. Mas confesso que não resisti à tentação. Compare este trecho de Machado de Assis, extraído de Dom Casmurro: “Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés…”

8. “Por isso costumava às vezes ler… ou comentar sobre as últimas novidades que via nas cidades por onde costumava passar.” (Pág. 22)

Não se diz comentar sobre alguma coisa , mas sim comentar alguma coisa: “Todos comentavam o desastre.” (Aurélio)

Dizer últimas novidades é chover no molhado. Novidade já pressupõe algo novo ou acontecimento recente. Não vou dizer que a expressão às vezes deveria estar entre virgulas, para não me tacharem de ranzinza. Veja outros deslizes semelhantes:

“O pastor contou dos campos de Andaluzia, das últimas novidades que viu nas cidades onde visitara.” (Pág.24)

“A gente sempre acaba fazendo amigos novos, e não precisa ficar com eles dia após dia.” Pág. 40)

“O alquimista enfiou a mão dentro do buraco, e depois enfiou o braço até o ombro.” (Pág. 184)

Últimas novidades… fazer amigos novos… enfiar dentro… Por que será que os alquimistas gostam de fazer isso com a gente? Por quê?!

9. “Todos os dias o rapaz ia para o poço esperar Fátima.” (Pág. 157)

A preposição a indica deslocamento rápido, provisório; para, permanência definitiva: Quem vai à praia vai passear; quem vai para o litoral vai morar lá.

10. “Entretanto, à medida em que o tempo vai passando, …”(Pág. 47)

Não existe a expressão à medida em que, mas sim à medida que.

11. “O rapaz deu uma desculpa qualquer para não responder aquela pergunta.”(Pág. 25)

“Então ele sentiu uma imensa vontade de ir até lá, para ver se o silêncio conseguia responder suas perguntas.” (Pág. 161)

Quem responde responde a alguma coisa: (responder àquela pergunta, responder a suas (ou às suas) perguntas)

12. “O rapaz assistiu aquilo tudo fascinado.” (Pág. 207)

O verbo assistir no sentido de observar exige a preposição a. A expressão àquilo tudo equivale a a tudo aquilo.

13. “Mas tinha a espada em sua mão.” (Pág. 175)

“…Um cavaleiro todo vestido de negro, com um falcão em seu ombro esquerdo.” (Pág. 173)

Não se emprega o possessivo quando se trata de parte do corpo, qualidade do espírito ou peças do vestuário. Nesse caso, usa-se apenas o artigo: (na mão, no ombro).

14. “A menina ficava deslumbrada quando ele começava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trás para frente.” (Pág. 41)

“— Daqui para frente você vai sozinho — disse o Alquimista.” (Pág. 229)

A expressão correta é para a frente (sempre com a presença do artigo). Qualquer gramática elementar registra isso.

15. “Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa…” (Pág. 58)

Ao invés do aço ou da bala de fuzil, ele foi enforcado numa tamareira também morta.” (Pág. 178)

A locução ao invés de só se usa quando há idéias opostas; significa ao contrário de: Ao invés de atacar, o time só joga na retranca. Quando as alternativas não são contrárias, utiliza-se em vez de, que quer dizer em lugar de: Em vez de jogar com dois atacantes, o time jogou apenas com um.

16. “Tinham-se passado onze meses e nove dias desde que ele havia pisado no continente africano.” (Pág. 95)

O verbo pisar é transitivo direto; rejeita, pois, a preposição em. (Corrija-se para: …havia pisado o continente) “O chão estava coberto com os mais belos tapetes que já havia pisado, e do teto pendiam lustres de metal amarelo trabalhado, coberto de velas acessas.” (Pág. 167)

Aqui o verbo pisar foi empregado corretamente. O exemplo só perde o brilho devido ao erro que aparece na última palavra. É culpa do revisor.

17. “Quase ia falando do tesouro, mas resolveu ficar calado. Senão era bem capaz do árabe querer uma parte…” (Pág. 65)

Na linguagem escorreita não se usa capaz por provável (nem possível), fato comum na comunicação descontraída, em portas de botequins: (…era bem provável que o árabe quisesse).

18. “A África ficava a apenas algumas horas da Tarifa.” (Pág. 43)

“Ah, se eles soubessem que a apenas duas horas de barco existem tantas coisas diferentes.” (Pág. 71)

“Estamos há apenas duas horas da Espanha.” (Pág. 65)

O advérbio apenas não deve ficar entre a preposição e o termo regido. Corrija-se para apenas a.

Não se deve dizer da Tarifa, como está no primeiro exemplo, e sim de Tarifa. Com exceção de Cairo, Rio de Janeiro e Porto, nomes de cidade não exigem artigo.

A presença da palavra exercendo o papel de preposição, no terceiro exemplo, é um pecado inominável. Não é coisa de gente sóbria.

Desculpe-me de minha franqueza, meu prezado alquimista, mas quem redige dessa maneira não deve ter a menor consideração para com seus leitores.

19. “Já não havia mais a esperança e a aventura…” (Pág. 79)

O uso simultâneo de e mais constitui redundância. Elimine um dos dois termos, e a oração ficará irrepreensível.

“Se a gente não for como elas esperam ficar, chateadas.” (Pág. 40)

Tarefa ingrata é tentar descobrir o sentido dessa frase. Cabeça de mago e bumbum de criança sempre têm coisas estranhas, muito estranhas…

20. “‘O pipoqueiro’, disse para si mesmo, sem completar a frase.” (Pág. 55)

Ora, se a frase não foi concluída, então a expressão deve terminar com reticências. Pois a função dos três pontos é exatamente indicar a omissão intencional de uma coisa que se devia ou podia dizer:

Correção: “O pipoqueiro…”

21. “Depois de vencidos os obstáculos, ele voltava de novo…” (Pág.113)

Obstáculos não se vencem; superam-se. Os desafios é que são vencidos.

22. “E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes, sempre conheciam…” (Pág. 26)

Nas palavras compostas por substantivo + adjetivo, flexionam- se os dois elementos.

23. “Assim que sentaram na única mesa existente, o Mercador de Cristais sorriu.” (Pág. 78)

Sentar na mesa deve ser muito engraçado mesmo. Os alquimistas, assim como os políticos, talvez tenham por hábito sentar na mesa; pessoas normais, contudo, sentam-se à mesa.

24. “Naquela época não havia imprensa… Não havia jeito de todo mundo tomar conheci-mento da Alquimia.” (Pág. 133)

Devemos empregar todo o e toda a quando essas expressões equivalerem a o …inteiro e a …inteira: Não havia jeito de o mundo inteiro tomar conhecimento da Alquimia. Todo e toda (sem o artigo) significa qualquer. Toda gramática ensina isso.

25. “A visão logo sumiu, mas aquilo lhe deixou sobressaltado.” (Pág. 162)

Segundo mestre Aurélio, o verbo deixar no sentido de “fazer que fique (em certo estado ou condição); tornar é transitivo direto: Deixei-o alegre; A transação deixou-o rico”.

Na página 167, PC escreveu com rara sobriedade: “O que viu deixou-o extasiado”.

26. “Para quê tanto dinheiro?” (Pág. 203)

O acento só se justificaria se o que estivesse no final da frase: “Tanto dinheiro para quê?”.

27. “Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu tenho todo o tempo que preciso.” (Pág. 100)

Na linguagem apurada, o verbo precisar não abre mão da preposição de: (todo o tempo de que preciso), a menos que ele venha antes de infinitivo.

Sem querer me parecer ranheta, acho que “de repente” ficaria bem entre vírgulas. É só uma questão de estilo…

28. “As pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores.” (Pág. 49)

O correto é preferir uma coisa a outra, e nunca do que outra. (Corrija-se para: …pipoqueiros a casá-las com pastores.)

29. “Então os guerreiros viviam apenas o presente… e eles tinham que prestar atenção em muitas coisas.” (Pág. 164)

“No presente é que está o segredo; se você prestar atenção no presente, poderá melhorá-lo.” (Pág. 166)

Presta-se atenção a alguém ou a alguma coisa, e não em.

30. “Ninguém disse qualquer palavra enquanto o velho falava.” (Pág. 170)

“O camelos são traiçoeiros: andam milhares de passos, e não dão qualquer sinal de cansaço.” (Pág. 181)

Qualquer se usa nas orações declarativas afirmativas; nas negativas, usam-se nenhum e suas variações: “Veio duma cidade qualquer, sua vida não foi boa nem má; foi como a dos homens comuns, a dos que não fizeram nenhum destino…” (Cecília Meireles)

31. “A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus.” (38) (Correção: …pediu que ele…)

“…Pediu para lhe mostrar onde morava Fátima.” (Pág. 189) (Correção: Pediu que lhe mostrasse…)

Seguindo a gramática à risca, pedir para só se usa para solicitar licença, permissão ou autorização. Nos demais casos, usa-se pedir que: “Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro”. (Machado de Assis) / Pedira delicadamente que não se deixasse exposto à vista nada de valor”. (Carlos Drumond de Andrade).

32. “— Podemos chegar amanhã nas Pirâmides…” (Pág. 66)

“O rapaz se aproximou de uma mulher que havia chegado no poço…” (Pág. 150)

“Chegou na pequena igreja… quando já estava quase anoitecendo.” (Pág. 245)

Chegar em um lugar é regência dominante na fala brasileira e é encontradiça em alguns escritores medíocres ou sem muita expressão no meio literário, salvo raríssimas exceções.

Verbos de movimento exigem a, e não em: Chega-se sempre, e bem, a algum lugar. O único caso em que se pode empregar em com chegar é na referência a tempo: chegar em cima da hora.

É muito comum a expressão chegar em casa. Os escritores de boa nota, contudo, preferem chegar a casa: “Ao chegar a casa, Tavares encontrou a irmã preocupada“. (Dias Gomes)

33. “— Por que quis me ver? — disse o rapaz.” (Pág. 180)

“— E por que o deserto ia contar isto a um estranho, quando sabe que estamos há várias gerações aqui? — disse outro chefe tribal.” (Pág. 168)

Quando há uma pergunta, no discurso direto, o sensato é empregar um destes verbos: indagar, perguntar, interrogar…

34. “Mas as crianças sempre conseguem mexer com os animais sem que eles se assustem. Não sei porquê.” (Pág. 36) (Correção: Não sei por quê.)

“E por que ?” (Pág. 56) (Correção: E por quê?)

“Até que um deles, o mais velho (e o mais temido), perguntou porque o cameleiro estava tão interessado em saber o futuro.” (Pág. 165) (Correção: …por que o cameleiro…)

“Não pergunte porquê; não sei.” (Pág. 209) (Correção: Não pergunte por quê;…)

Entre muitas outras coisas, Paulo Coelho também não domina o uso dos porquês.

Veja como mestre Salomão Serebrenick elucida o caso sem magia nem bruxaria, no seu fabuloso livro 70 Segredos da Língua Portuguesa:

“A melhor norma prática a seguir é esta: só juntar os dois elementos num único caso — quando se tratar de uma resposta ou de uma explicação; nos demais casos, que constituem a grande maioria, separar os dois elementos.

Em final de frase, acentua-se o e: Já sei por quê. Também se acentua quando se trata de substantivo: É bom conhecer o porquê das coisas.

35. “Eu lhe ensinarei como conseguir o tesouro escondido. Boa tarde.” (Pág. 51)

O verbo ensinar merece atenção muito especial. Quando se ensina algo a alguém, temos: O professor ensinou-lhe a lição. Quando se ensina alguém a fazer algo, temos: O professor ensinou-o a ler e escrever.

No segundo caso, temos um erro quase que insignificante. Mas não nos esqueçamos de que a língua é feita de detalhes: os cumprimentos bom-dia, boa-tarde e boa-noite só se constroem com hifem. É uma pena que certos alquimistas não estejam preocupados com essas coisas miúdas: o negócio deles é encontrar a pedra filosofal. Aposto que nem querem saber se hifem é variante de hífen. O vernáculo para eles está em último plano.

36. “Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas.” (Pág. 25)

O verbo mandar na acepção de ordenar rege o pronome oblíquo o. No entanto, se o infinitivo for um verbo transitivo, como no caso em questão, é admissível também o pronome lhe. Segundo Celso Luft, também é correto construir: mandou-o (ou mandou-lhe) que tosquiasse as quatro ovelhas. Assim, PC teria quatro motivos para não pecar:

a) …mandou-o que tosquiasse…
b) …mandou-lhe que tosquiasse…
c) …mandou-o tosquiar…
d) …mandou-lhe tosquiar…

Todos sabemos que consultar um dicionário de regência verbal não é tão divertido quanto separar nuvens com a força da mente (ou fechar os olhos e viajar pelos campos de Andaluzia…), mas aprendem-se coisas insuspeitas.

O enredo do livro O Alquimista é interessante. Isso nos faz entender por que Paulo Coelho é um dos dez escritores mais lidos em todo o mundo. Li a versão em inglês, e fiquei encantado. Com certeza, ele faz jus a todos os prêmios que tem recebido até aqui. Mas uma coisa precisa ficar bem clara: enquanto Paulo Coelho não permitir que suas obras sejam revisadas por pessoas competentes, jamais será reconhecido, no Brasil, como um grande escritor, porque definitivamente nosso mago vendedor de livros não conhece o idioma em que se exprime.

E digo mais: se continuar atropelando nossa tão maltratada língua, sempre haverá alguém com motivo de sobra para escrever frases como esta: “Podia haver prêmios literários conferidos a escritores para que não escrevessem.” (Afonso Lopes Vieira, Nova Demanda do Gral, pág. 319)

(*) J. Milton Gonçalves é escritor graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Pres. Venceslau (SP), com especialização em Metodologia do Ensino Superior e em Linguística Aplicada (PUC/SP). Hoje é diretor de duas escolas de idiomas e presta serviços de consultoria bilíngue e de revisão linguística a várias editoras do país.

Nota deste blogueiro
Desde 2002, Monsieur Polô Coelô é membro da Academia Brasileira de Letras — um verdadeiro imortal.

Explicar a explicação

José Horta Manzano

Esta é do Estadão deste sábado:

Chamada Estadão, 9 jun 2018

Do jeito que está, entende-se que a Justiça determina que doutor Lindbergh entre em contacto com doutor Doria e lhe dê explicação sobre determinadas críticas.

Mas não é isso que se quis dizer. Doutor Doria é quem está a exigir explicação de críticas proferidas por doutor Lindbergh.

Portanto, a chamada devia ter dito: «Justiça intima Lindergh a explicar-se sobre críticas a Doria», onde explicar-se vale dar explicações.

Badalação

José Horta Manzano

Surgida no fim dos anos 70, a palavra ‘tietagem’ é relativamente nova. Nos tempos em que ela não existia, usava-se bajulação ou ainda badalação, mais coloquial. Aluno que trouxesse presentinho para a professora era chamado de «badalo» ou, de forma mais crua, «puxa-saco».

Outro dia, a mídia se deliciou com a notícia de que um juiz do Rio de Janeiro tinha tietado Lula da Silva, por ocasião de um depoimento no âmbito da Lava a Jato. É que o magistrado fez confidência pública já no finzinho da audiência. Revelou já ter comparecido a comício, vestindo camiseta e boné com o nome do então candidato ‒ hoje encarcerado.

Dia seguinte, numerosos magistrados e criminalistas vieram a público manifestar indignação com a fala do juiz carioca. Qualificaram as declarações de inconvenientes. De fato, são.

Depois de viver décadas em sociedade carrancuda, estou em posição de observador privilegiado. Posso dizer que o brasileiro me surpreende pela cordialidade, me encanta pela prestatividade, mas me irrita pela exagerada sem-cerimônia.

Em sociedades mais reservadas, a fronteira entre formalidade e familiaridade é fosso intransponível. Um exemplo revelador: colegas de escritório, ainda que de idade equivalente, podem chegar a trabalhar anos e anos lado a lado sempre tratando-se por senhor. Parece lorota, mas ocorre com frequência. No Brasil, assistimos ao extremo oposto. Uma familiaridade ‒ que, às vezes, soa falsa ‒ invade terreno sério. Foi o que aconteceu na conversa entre o Lula e o juiz.

In medio stat virtus, a virtude está no meio-termo. Nenhum dos comportamentos é desejável: nem a formalidade castrante, nem a familiaridade invadente. Enfim, que fazer? Cada um é como é, difícil será mudar. Mas, convenhamos, não custa fazer um esforço pra refrear exageros. O juiz escorregou.

Os trancos e os barrancos

José Horta Manzano

A etimologia é ciência fascinante e curiosa. Fascinante porque acompanha a evolução de palavras ao longo de um percurso, às vezes tortuoso, que pode remontar a passado longínquo. Curiosa porque, quando falta comprovação escrita, dá margem a suposições por vezes ousadas.

Quando um termo encontra equivalente em latim, não há muito que discutir. Já quando a palavra escapa ao léxico latino e ao germânico, a falta de documentos dificulta o estudo. Volta e meia, aparece nova explicação assaz fantasiosa que, por falta de coisa melhor, acaba aceita como verdade bíblica.

Sem querer contradizer ninguém, relato o que li estes dias e que me deixou com um pé atrás. Um homem pra lá de erudito, doutor em Filologia Semítica, tornou-se membro, estes dias, da respeitável RAE ‒ Real Academia Espanhola.

O filólogo apresentou nova explicação para a origem de algumas expressões da língua espanhola. Nenhuma delas tem correspondente em português, com exceção de uma: a trancas y barrancas, a forma castelhana de nossa conhecida aos trancos e barrancos.

Qualquer dicionário informa que tanto tranco quanto barranco são consideradas pré-romanas, ou seja, vozes que já faziam parte da língua antes da chegada das tropas romanas à Península Ibérica. O acadêmico garante que a expressão nada tem a ver com trancos e muito menos com barrancos. Segundo ele, vem do árabe atrakkán barrámka que significa “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”.

Não falo árabe. Mas tiro o chapéu para o excepcional espírito sintético de uma língua que, com apenas duas palavras, consegue dizer “procura um lugar com a égua para defender-te de vários atacantes simultâneos”. Parabéns!

Bahia sem agá

José Horta Manzano

A primeira grande reforma ortográfica da língua portuguesa foi posta em prática em 1911, mas só valeu em Portugal. Atribuem ao baiano Rui Barbosa (1849-1923) uma observação lapidar. Ao saber que desaparecia o agá intervocálico indicativo de ditongo (Juquehy, sahida, ahi), pontificou: «Não quero que minha terra se transforme numa baia». De fato, Bahia grafada sem agá fica parecendo baia, o lugar onde se guardam os cavalos.

A reforma ortográfica de 1943, que valeu para o Brasil, respeitou o desejo do grande nativo de Salvador. O agá intervocálico foi eliminado de todos os ditongos com exceção do nome do Estado da Bahia.

As atuais regras ortográficas determinam que o som ss dos nomes de origem tupi seja grafado com cê cedilha e que o som j seja sempre escrito com jota. Pela regra, temos:

Jenipapo
Araçoiaba
Catuji
Curuçá
Quijingue
Ibiraçu
Itaguajé

Regras são importantes, é fato. Sem elas, é bagunça na certa. No entanto, quem faz a língua é o usuário. Quando a regra bate de frente com o uso tradicional, instala-se a discórdia.

Diferentemente do nome Bahia, a reforma de 1943 não abriu exceções para nomes tupis. No entanto, algumas palavras eram ‒ e continuam sendo ‒ grafadas fora da norma.

Poucos respeitam a regra ao escrever o nome das cidades de Mojimirim e Mojiguaçu. Nem os dicionários estão de acordo. O Michaelis menciona somente Mogi Guaçu, com gê. O Aulete considera Mogi tão correto quanto Moji. O Houaiss é ortodoxo: só contempla Mojimirim, grafia que choca muita gente.

O edifício que desmoronou em São Paulo dia primeiro de maio pôs em evidência o nome do logradouro em que estava situado. Contrariando a regra que determina que se escreva Paiçandu, com cê cedilha, a maioria grafa Largo do Paissandu. É a tradição. Aliás, até a placa oficial plantada pela prefeitura usa dois ss. Realmente, «Paiçandu» fica esquisito pra danar. Parece que foi escrito por semianalfabeto.

Acredito que as regras ortográficas deveriam ser mais elásticas quando tratam de topônimos de grafia consagrada há muito tempo. Assim como se pode escrever Bahia, não deve atirar pedra em quem escreve Mogi ou Paissandu.

Profissão e função ‒ 2

José Horta Manzano

Mais uma vez, volto ao assunto. É sempre bom repisar. Costumamos confundir profissão e função, que são duas realidades diferentes.

Profissão, mormente quando tiver sido adquirida por formação (eventualmente confirmada por diploma), tem caráter permanente. Faz parte do indivíduo. Ainda que ele quisesse, não poderia se livrar dela.

Quem completou curso de torneiro mecânico será torneiro mecânico pelo resto da vida, ainda que não exerça a profissão. O mesmo vale para o médico, o alfaiate, o padeiro, a parteira, a enfermeira.

Função é o nome do cargo ocupado, é o trabalho que o indivíduo exerce. Pode (ou não) empatar com sua profissão.

Um engenheiro de profissão pode estar exercendo função de sorveteiro. Nem por isso deixará de ser engenheiro.

Um advogado eleito deputado exercerá o cargo político sem que possa ser chamado de «ex-advogado». Já quando deixar a política, aí sim, será «ex-deputado», porque deputado não é profissão mas função.

Chamada Estadão, 27 abr 2018

A chamada do jornal fala em «ex-músicos», o que é um disparate. Um músico, ainda que, por algum motivo, se tenha afastado do instrumento, sempre músico será.

Mais um reparo sobre a chamada do jornal: por que «terceira idade»? Ninguém diz «primeira idade» nem «segunda idade», pois não? Então por que a terceira? Vamos dar nome aos bois. Jovem, adulto e velho. O termo “velho” não me parece ofensivo. Ainda assim, há quem prefira “idoso”. Ok, idoso, vá lá, ainda passa. Mas “terceira idade”, convenhamos, é de amargar…

A chamada ficará melhor se disser: «Mansão vira casa de repouso para músicos idosos».

 

Competir o Bocuse?

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 14 abr 2018

O autor da chamada escorregou. Os verbos competir e disputar, embora tenham sentido similar, não são sinônimos perfeitos.

Competir não pode ser empregado como transitivo direto. Pra acertar, o moço devia ter escrito:

  • Brasil garante vaga para competir no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para disputar o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para concorrer no Bocuse…
  • Brasil garante vaga para brigar pelo Bocuse…
  • Brasil garante vaga para pleitear o Bocuse…
  • Brasil garante vaga para lutar pelo Bocuse…

Quanta hipocrisia!

José Horta Manzano

O STF votou ontem o pedido de habeas corpus de doutor Antônio Palocci. Confesso que não tive tempo nem paciência pra assistir do começo ao fim. Só dei alguma bicadinha aqui e ali. Perto do final, vi que algumas poltronas de ministros já estavam vazias. Achei estranho. Num tribunal, não é comum ver juízes abandonando o picadeiro antes do final. Imagino que, como eu, estivessem entediados com aquela monotonia.

Que espetáculo enfadonho, não? Dos debates depreende-se que nenhum ministro está ali pra formar opinião ‒ todos já vêm com o voto pronto e empacotado. Assim mesmo, levam horas lendo laudas e laudas, numa ladainha aborrecida. A gente se pergunta por que razão não simplificam e não dizem logo a que vêm. Seria tão mais simples declarar o voto e, em seguida, publicar o calhamaço de alegações na internet. Quem quisesse consultar tim-tim por tim-tim que consultasse o site. Procedessem assim, o ritmo dos trabalhos se aceleraria.

Warum einfach, wenn es auch kompliziert geht? ‒ Por que fazer fácil, se complicado também funciona?, filosofam os alemães. Se levam dia inteiro pra julgar um caso, certamente está aí a razão do acúmulo de processos que entopem os escaninhos do tribunal.

Apesar da profusão dos «Vossa Excelência» pra cá e dos «Nobre Ministro» pra lá, paira no ar uma nuvem pesada. A gente percebe que, por detrás do verniz forçado das aparências, reina um clima de animosidade. Um dos togados trata as ministras com palpável desdém, enquanto se dirige aos ministros com deferência. A gente se sente até incomodado com os apartes sarcásticos e viperinos deste ou daquele magistrado. Há até quem lance um trocadilho ou uma zombaria, um horror. Dá arrepio ver sumidades do saber jurídico se comportarem como escolares na hora do recreio.

De qualquer maneira, quando o caso envolve algum corrupto da Lava a Jato, já se sabe de antemão qual será o resultado. Dá sempre um 6 x 5 cravado. Cá entre nós: é uma vergonha. A decência ensina que o resultado deveria ser sempre um 11 x 0 contra os corruptos, não é não?

Mas não tem jeito, os mesmos ministros sentem-se à vontade para votar sempre da mesma maneira. Também, pudera: na avolumada jurisprudência do tribunal, procurando bem, encontra-se embasamento pra tudo. Tanto um sim quanto um não podem ser sustentados com brilhantismo. Até para um talvez se encontrariam argumentos sólidos…

Tudo bem. Enquanto estiverem votando, ainda que por margem apertada, contra os interesses da bandidagem, a gente aguenta o palavrório. Mas… ai deles se começarem a desencarcerar criminosos!

Silepse de gênero

Dad Squarisi (*)

Silepse vem lá do grego. Significa compreensão. A concordância não se faz com o termo que está escrito, mas com outro, oculto, subentendido. Na língua, há muitos casos de silepse. Quer ver?

Santos é palavra masculina, não? Dizemos, normalmente, os santos. Mas, quando nos referimos à cidade, apelamos para a concordância com a ideia, não com o nome: Santos foi alagada na última enchente.

Percebe? Subentende-se o substantivo cidade: (A cidade de) Santos foi alagada.

Meandros do Rio Paraíba do Sul

Há mais. Paraíba é feminino. Até a música popular confirma-lhe o sexo: “Paraíba masculina, mulher macho sim, senhor”. Mas, ao nos referirmos ao rio, lá vem a silepse: O (rio) Paraíba é caudaloso.

Os pronomes de tratamento são os campeoníssimos da concordância ideológica. Excelência, majestade, senhoria, santidade são femininas. Mas os nomes que se referem a elas têm que ser flexíveis. Concordam com o sexo da pessoa (ai deles se não o fizessem): Vossa Excelência, senhor Presidente, é orador nato. Vossa Excelência, senhora senadora, é oradora nata.

Deixemos de cerimônia. A língua simples do povo está cheia de concordâncias ocultas. “Ele é um banana? Não, um besta”. Quantas vezes você ouviu essas gentilezas? Pois acredite: são silepses.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Que se danem!

José Horta Manzano

Toda seita é composta de adeptos aglutinados em torno de um guru. Quanto mais carismático e manipulador for o mentor, mais o grupo tenderá a se fanatizar.

Este blogueiro se lembra de um fato que estarreceu o mundo. Aconteceu 40 anos atrás, razão pela qual o distinto leitor ‒ que talvez nem fosse nascido ‒ pode não ter assistido. Foi o drama que exterminou uma seita nascida nos EUA e denominada People’s Temple (Templo do Povo).

Jim Jones, o paranoico guia supremo da seita, temia que os EUA fossem atacados por armas nucleares. Em 1977, para fugir ao perigo, trouxe cerca de mil adeptos para fundar um vilarejo na Guiana, nosso vizinho do norte. Ególatra, o pastor deu à aldeia o próprio nome: Jonestown.

Acontece que congressistas americanos andavam meio desconfiados de que algo estava errado com a seita. Uma comitiva, que incluía jornalistas, se dirigiu a Jonestown para investigar. Foi um desastre. Foram recebidos à bala.

Ao se dar conta de que o fim da brincadeira estava próximo, o guru resolveu suicidar-se. Mas foi mais longe: decidiu arrastar consigo todos os adeptos. Fez distribuir para todos um copinho de plástico com cianureto de potássio misturado com limonada. A quase totalidade dos fiéis aceitou de bom grado. Os poucos renitentes foram obrigados a tomar.

Uns poucos gatos pingados, que tinham conseguido refugiar-se na mata, sobreviveram e acionaram a polícia. Ao chegar, os agentes descobriram mais de 900 cadáveres e um mar de copos de plástico.

A descida aos infernos do Lula me lembrou esse episódio. Ao se dar conta de que chegou ao fim da linha, nosso guru tropical decidiu arrastar o partido consigo. Durante quarenta anos, ele foi fiel à estratégia de podar o topete de todo militante que se mostrasse capaz de assumir, um dia, a liderança da seita. Nunca designou braço direito e muito menos sucessor.

Chegada a hora em que a porca torce o rabo, o guia tinha uma derradeira ocasião para se redimir. Bastava apontar explicitamente o adepto que deveria continuar a luta. Mostrando o imenso desprezo que tem pelos afiliados ao partido, não o fez. Disse que Manuela d’Avila e Guilherme Boulos(*) são «bons candidatos» para a eleição presidencial.

Ora, todos sabem que esses dois não são afiliados ao partido e não têm a menor chance de chegar ao segundo turno. Todos sabem que Jacques Wagner e Fernando Haddad, membros da seita, teriam perspectiva melhor de sucesso.

Até na queda, o Lula mostra a aura escura que lhe envolve a personalidade. A conclusão é inevitável. Na cabeça do guru, o veredicto é taxativo: «se não vai de eu, vai de eu mesmo». Traduzindo para linguagem mais inteligível: se não for eu o chefe, que se dane a seita.

(*) Boulos é a forma árabe do nome Paulo.

Umbral

José Horta Manzano

A raiz latina lumen (= luz) deixou descendentes. A luz e a iluminação estão entre eles. Deixou também luminar, liminar, lume, lumbrada (= raio luminoso) e umbral. Essa família vem a calhar nesta quarta-feira histórica.

O «habeas corpus», que o cidadão Lula da Silva requereu para livrar-se da cadeia, está previsto para ser julgado hoje. A decisão liminar será (ou não) transformada em resolução definitiva. A responsabilidade está nas mãos dos onze ministros do STF, tidos como luminares do saber e do bom senso.

O que está em jogo não é exatamente o destino da pequena pessoa chamada Lula da Silva. Sinceramente, todos estão se lixando para o fato de ele ir ou não para detrás das grades. Cada um de nós se aflige, isso sim, pelas consequências que tal prisão possa trazer para nossa pequena pessoa.

O resultado do julgamento será um marco. Manuais escolares do século 22 comemorarão o 4 de abril de 2018. Dependendo da decisão que os luminares tomarem, a data será lembrada como o dia em que uma lumbrada riscou os céus de Brasília e assestou golpe fatal na corrupção sistêmica. No entanto, caso vença a hipótese tenebrosa, a data será recordada como o dia em que o Brasil desprezou a luz para descambar nas sombras, o dia em que a corrupção foi oficialmente reconhecida como algo conveniente, desejável, apropriado, legítimo e legal.

Não tenho bola de cristal que me ilumine e mostre como ficará o país caso os luminares decidam abandonar a luz e precipitar o país nas trevas. A pista mais evidente e natural me parece ser a de intervenção militar. Por muito menos, isso já ocorreu meio século atrás. Quando todas as tentativas de impor o bom senso fracassam, só resta a imposição pela força.

Alguém tem de pôr ordem no país. «Se não for pelas boas, vai pelas más» ‒ como dizia meu pai. Se intervierem os fardados, não acredito que se mantenham no poder por muito tempo. Hão de tomar as medidas urgenciais e, em seguida, convocar assembleia constituinte. Promulgada a nova Constituição, hão de devolver o poder à sociedade civil.

Estamos no umbral, na porta de entrada de novo capítulo da história nacional. A decisão está nas mãos de nossos onze luminares ‒ que, aliás, talvez nem se estejam dando conta do alcance do julgamento de hoje. Vamos torcer pra que a luz desça sobre eles. Caso derrapem, cairemos todos.

Observação
Todas as palavras escritas com tinta azul são filhotes do lumen latino.

Pacto oligárquico

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José Horta Manzano

O distinto leitor que costuma passear por este modesto blogue por certo entende a frase do ministro. Mas não é o caso de meio Brasil. Metade de nossos conterrâneos, ainda que fizessem o esforço de consultar dicionário pra descobrir o significado de cada palavra, dificilmente conseguiriam captar a concatenação.

Recorde-se que o «exame da Ordem», que todo bacharel em Direito tem de enfrentar se quiser obter o brevê de advogado, expõe a catástrofe da Instrução Pública no país: em média, nove entre dez candidatos são reprovados. Triste Brasil.

Após treze anos de domínio absoluto do lulopetismo ‒ capitaneado por aquele partido que prometia a redenção nacional ‒, o que é que temos? Um terço da população dependendo da bolsa família para sobreviver ‒ e sem perspectiva de sair da miséria. Diplomados da faculdade sendo reprovados no exame de entrada na profissão que escolheram. Sessenta mil homicídios por ano, taxa superior a qualquer país em guerra. A mais profunda recessão que o país já conheceu.

Chega. Não vou repetir aqui a procissão de misérias que nos assolam. Vale apenas constatar que os que nos governaram desde 2002 não entregaram o que haviam prometido. No mínimo, são tratantes. Mas fizeram pior. Além de nos terem vendido gato por lebre, deram forte contribuição para engrossar o tal «pacto oligárquico».

Do grego olígos (pouco) e archía (autoridade, supremacia), a oligarquia designa o domínio exercido por um pequeno grupo. É termo perfeito para exprimir o Estado brasileiro. Pensar que nascimento, vida e morte de duzentos milhões de almas são regulados por um reduzido número de integrantes de nossa nomenklatura! É de dar arrepio!

O ministro mencionou «agentes públicos e privados». Com isso, quis sublinhar que o grupinho oligarca inclui não só políticos, mas grandes empresários. Todos se beneficiam do sistema. A Lava a Jato desmascarou os mais importantes, mas ainda há muita poeira debaixo do tapete.

O sistema é relativamente simples. A oligarquia tem o domínio sobre os cofres públicos. O grosso da população não se dá conta de que aquele tesouro pertence a todos nós. Os poucos que percebem a realidade gritam no deserto ‒ ninguém lhes dá ouvidos. Em consequência, o grupelho lá de cima se sente à vontade pra se servir do tesouro que é de nós todos.

O grão-mestre, que dirigiu a orquestra dos oligarcas durante 13 anos, não foi (nem será) julgado pelo estrago que infligiu aos brasileiros. Como o sanguinário Al Capone, que só pôde ser sentenciado por evasão fiscal, nosso demiurgo foi condenado por uma sombria história de propina materializada por um apartamento. Uma ninharia perto das artes que o homem fez.

Agora, com medo da cadeia, esperneia. Vendo-o condenado por dois tribunais, o brasileiro de bem achou que era o fim da viagem. Só que… agora entra em cena a nomenklatura, a oligarquia. Lá no andar de cima, estão todos incomodados. O acusado é um deles, faz parte do grupo. Se ele cair, os demais estarão em perigo. Uma providência precisa ser tomada.

A decisão que o STF tomará amanhã se anuncia apertada. Nenhuma sondagem de boca de urna é capaz de predizer, neste momento, o resultado. Conseguirá a oligarquia preservar seu domínio? Ou vai abrir-se a brecha que anuncia o esvaziamento da nomenklatura atual?

Seja como for, visto o nível de instrução do brasileiro médio, a oligarquia ainda tem muita lenha pra queimar. Ainda que alguns integrantes caiam em desgraça, logo serão substituídos. E a vida vai seguir.

Ponto crucial

José Horta Manzano

A cruz vem do sânscrito, passou pelo latim e se espalhou pelas línguas europeias. Palavra forte, conservou o sentido original em todos os idiomas. Começou dando nome ao artefato composto de dois paus cruzados e firmemente atados, usado, nos tempos idos, para castigar malfeitores.

Esse tipo de suplício saiu de moda, mas a cruz e seus derivados continuam presentes na língua nossa de cada dia. Por extensão, quando o encontro de dois elementos lembra uma cruz, eis que emerge um descendente da raiz. Alguns exemplos são: cruzamento, encruzilhada, crucifixo, cruzeiro, crucial.

Vários desses termos se aplicam ao momento trágico em que o Brasil se encontra. É um momento crucial. O país está numa encruzilhada, tenso, com a respiração presa, pendente da decisão que for tomada pelo Supremo Tribunal Federal daqui a dois dias. Tomando inspiração na frase atribuída a Winston Churchill, podemos dizer que nunca tanta gente dependeu do veredicto de tão poucos.

Onze togados, que representam o nec plus ultra do pensamento jurídico do país, deverão tomar uma decisão histórica. Qual deve ser o destino de um criminoso condenado sucessivamente em dois tribunais, sendo o segundo composto de um colegiado de juízes? Deve ser tirado de circulação e encarcerado ou será deixado livre e solto à espera de um terceiro julgamento, que pode demorar dez, quinze ou vinte anos pra chegar?

Argumentos jurídicos sólidos existem tanto para manter o entendimento atual (prisão após julgamento em segunda instância) quanto para alterá-lo. Isso dá grande liberdade aos onze ministros: cada um está livre de votar de acordo com sua íntima convicção. O momento é capital. Veremos se Suas Excelências têm a grandeza de deixar de lado interesses pessoais e pensar no futuro dos duzentos milhões de conterrâneos.

Cruzada

No colegiado do STF, há quem esteja compromissado com este ou aquele político, há quem deva favores a fulano, há quem tenha relação privilegiada com sicrano. É da vida. Mas Suas Excelências deveriam deixar de lado conveniências pessoais, elevar-se, e compenetrar-se de que têm nas mãos o destino de milhões.

Caso se deixem vencer pela mesquinhez de interesses pequenos, estarão crucificando os brasileiros e condenando gente honesta a conviver com o crime. No entanto, se tiverem a nobreza de optar pela manutenção do entendimento atual, terão dado enorme passo para coibir a criminalidade que corre solta no país.

Este blogueiro se junta à cruzada que se alevanta em favor da manutenção da jurisprudência em vigor. Três mil magistrados já assinaram um manifesto nesse sentido. Sabem que são apoiados por milhões de brasileiros do bem.

Rebus angustis, fortis ‒ em situações difíceis, manter-se forte. Eis a divisa que Suas Excelências deveriam adotar. Não sucumbir a pequenezas pessoais. Lembrar que representam a última diga que protege os brasileiros. Se ruirem, a inundação é certa. O tsunami nos engolirá a todos.

Observação
As palavras escritas em azul são descendentes de cruz. Cada um carrega a sua, mas a dos brasileiros anda muito pesada ultimamente.

Não vão caber

José Horta Manzano

Imagine o distinto leitor uma procissão de mil e quinhentos magistrados, uns de terno e gravata, outros de toga, todos transpondo o portal do STF na véspera do «dia D do Lula». É multidão pra nenhum sindicalista botar defeito, né não?

Chamada do Estadão

Ok, Ok, eu sei que dá pra entender. Mas não custava fazer um esforçozinho pra encontrar verbo mais adequado e, em seguida, ajustar a frase.

Para dar o recado com precisão e elegância, vários verbos estão à disposição. Entre eles:

apelar,
recorrer,
suplicar,
pedir,
solicitar,
invocar,
valer-se,
rogar,
clamar,
requerer,
implorar,
pleitear,
requestar,
reivindicar,
exortar.

A lista não é exaustiva.

Inadequação vocabular ‒ 7

José Horta Manzano

Folheando um dos grandes quotidianos nacionais, topo com uma colorida foto que ilustra uma matéria sobre a retomada do ritmo de consumo.

Em primeiro plano, aparece uma vistosa banca ‒ ou gôndola, como se deve dizer ‒ carregada de frutas. Em cima, em letras brancas sobre fundo vermelho, está escrito com todas as letras «Frutas Exóticas».

Debaixo do cartaz, distingo goiabas e, se não me traem os olhos, mamões. Fica claro que quem determinou classificar goiabas e mamões como «frutas exóticas» ignora o significado da palavra.

O Sherlock aqui reconstruiu o caminho da esquisitice. O gerentão da empresa, pessoa viajada, há de ter visitado dúzias de supermercados de França, Oropa e Bahia. Em todos eles, sob a indicação «frutas exóticas», encontrou goiabas, papaias, mangas, abacates. Logo, deduziu que a denominação se referia a essa classe de frutos. Não hesitou em reproduzir, na própria loja, as palavras que soam tão chiques.

Bobeou. Exótico, do latim exoticus, carrega o prefixo grego exô (o ex latino), que indica fora de. A palavra se aplica àquilo que vem de fora, que não é daqui, que é forasteiro ou de origem estrangeira.

Na Europa, na América do Norte e em toda região de clima temperado, goiabas e mamões não crescem. Têm de ser importados. Como vêm de fora, são ditos «frutos exóticos».

No Brasil, não é assim. Em virtude do clima, as frutas tropicais são justamente as mais comuns. Para nós, exóticos são frutos como o abricô (damasco), a avelã, o mirtilo e outras raridades.