Dia da caça

José Horta Manzano

Mais dia, menos dia, doutor Bolsonaro volta pra casa. Pode ser que aguente até o fim do mandato, mas pode também ser que não. O futuro dirá. Até agora, não há sinais de a próxima residência ser na sede da PF em Curitiba. Vamos admitir que escape ileso. Pode ser que ele deixe o Planalto daqui a três anos, no fim deste mandato; pode também ser que fique mais sete anos, caso o reelejam (hipótese em que não acredito); pode até sair antes, como dona Dilma, aquela que todos imaginavam estar parafusada ao trono. O fato é que, um dia, ele sairá. Ninguém escapa ao destino.

Sabe o que vai acontecer então? Ora, as cartas estão dadas. Basta refletir um pouquinho. Vamos fazer isso juntos? Pois bem, ao assumir o cargo, o que é que doutor Bolsonaro anunciou, alto e bom som? Muitas bobagens que, na maior parte, acabaram esquecidas. Mas uma das promessas foi cumprida. O novo presidente tinha garantido, já durante a campanha, mandar «desaparelhar» a máquina do Estado. Dito assim, quem é que pode ser contra? Ou alguém gostaria de ser governado por um aparelho partidário – sinistra expressão que lembra o regime de Pequim, de Moscou, de Havana e outras excrescências por aí. Vade retro, Satanás!

Apesar disso – ou talvez justamente por causa disso – doutor Bolsonaro foi eleito com confortável maioria de votos. Desde então, o que tem feito? Ora, tem «desaparelhado» a máquina do Estado. Ou «despetizado», que é a expressão oficial pras bandas do Planalto. Só tem uma coisa. Quem é que está ocupando o lugar dos antigos picaretas? Novos picaretas, ora! Todos os recém-chegados se declaram bolsonaristas desde criancinhas, assim como os antigos eram lulopetistas de carteirinha. O ponto comum entre os antigos e os novos? A incapacidade, a ineficiência, a ausência de espírito público, a firme intenção de nunca contradizer o chefe.

Diante da paralisação do MEC em virtude do caos administrativo gerados por incompetentes instalados em postos que não têm capacidade de ocupar, o folclórico ministro da Educação mandou gastar as verbas atualmente «contingenciadas». Só que, na ausência de projetos e de gente qualificada, ninguém tem a menor ideia de como empregar o dinheiro. Pode uma coisa dessas? Dinheiro, há; só que ninguém sabe o que fazer dele.

Agora chegamos ao ponto. No dia em que o atual presidente, digamos assim, “se aposentar” do cargo, virá um outro – é o que reza a Constituição. Que fará esse outro? Seja ele quem for, tomará, entre as primeiras medidas, a «desbolsonarização» de ministérios, repartições, autarquias. Toda essa cambada de incapazes perderá a boquinha e cederá o lugar a nova… cambada de incapazes.

E assim vai nosso país. Aos trancos e barrancos. Só que fica a impressão de que os barrancos são sempre descendentes. Sente-se o tranco, e aí vem o barranco que leva pra baixo. Da vez seguinte, sente-se novo tranco e cai-se mais um pouquinho. E assim por diante. Depois do tranco, nunca se sobe. É uma pirambeira(*) sem fim.

No exame de aptidão para o cargo, que eu incluiria entre os requisitos obrigatórios para todo cidadão que quisesse se candidatar à presidência, eu incluiria que o postulante desse prova de ter lido – e entendido – pelo menos uma vintena de livros. Romance e HQ não valem. Enquanto isso não for implementado, continuaremos a suportar, empoleirados lá em cima, os que escolhemos. Não há que se iludir: a faixa presidencial não transforma ignorantes em sábios.

Pardus maculas non deponit.
O leopardo não perde as manchas.

Máxima latina

(*) À atenção de meus distintos leitores portugueses, explico que pirambeira (ou perambeira) é brasileirismo. Termo de origem pré-cabralina, corresponde ao panluso despenhadeiro, conhecido em todos os países de língua portuguesa.

Golfo Pérsico

José Horta Manzano

Nosso inconsequente aprendiz de presidente teve de se dobrar.

•Apesar de ter jurado que mudaria de endereço a embaixada brasileira em Israel;

• apesar de ter asseverado que bastava estar bem com Israel para nosso comércio exterior com o Oriente Médio estar garantido(!!!);

• apesar de ter menosprezado o poderoso conjunto dos países árabes, dizendo que «não precisamos dessa gente»,

foi obrigado a se humilhar.

Desagravo indispensável

O que não deveria passar de uma rotineira visita de Estado transformou-se num ritual expiatório. Passando por cima das imposições de seu guru boca-suja, vergou-se a uma verdadeira visita de desagravo ao Oriente Médio. Não conseguiu suportar o peso econômico dos países do Golfo Pérsico. Depois de levar um choque de realidade, foi forçado a penitenciar-se.

Um dia, quem sabe, doutor Bolsonaro aprenderá que política externa não se faz insultando parceiros, nem menosprezando clientes. Ou, quem sabe, não dará tempo de aprender. Cada um que escolha a opção que lhe parecer mais realista.

Nota geográfico-linguística
Faz meio século, desde o surgimento do pan-arabismo e do sentimento nacionalista – impulsionado pelo petróleo, que lhes trouxe riqueza – os países árabes, majoritários na região, sentem-se incomodados com a tradicional denominação daquele mar interior: Golfo Pérsico.

«Por que só pérsico» – perguntam –, «se banha também uma pancada de países árabes como o Iraque, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Sultanato de Omã, os Emirados?» Alternativas criativas têm sido propostas, como «Golfo Islâmico» ou até «Golfo Muçulmano», expressões que soam estranhas, como se aquele braço de mar fosse a entrada de um templo.

O formato atualmente aceito sem muita cara feia é Golfo Árabo-Pérsico. Pra não ofender ninguém, a mídia francesa costuma utilizar essa forma. Quanto a nós, um nome que não desagradaria e certamente pegaria bem seria «Golfo das Mil e Uma Noites». Já pensou? Dá quase pra ouvir Xerazade contando histórias.

Dos males, o pior

José Horta Manzano

Pra saber o que vai acontecer neste ziguezagueante governo que nos cabe tolerar, só tendo bola de cristal guardada no armarinho da farmácia do banheiro. Bem à mão, como escova de dente e cortador de unha.

No momento em que escrevo, a mídia séria (ainda) afirma que um dos bolsonarinhos – aquele que é deputado estadual – desistiu de postular posto de embaixador da República do Brasil junto aos Estados Unidos da América do Norte. Nada garante que, quando este post tiver sido mandado ao éter, a notícia já não se tenha modificado. You never know – nunca se sabe.

No país, os que têm ouvidos de ouvir ouvem. Os que ainda têm um olho aberto observam. Os que guardam capacidade de cogitar cogitam. E todos eles se perguntam: «Que será pior? Guardar o filho deslumbrado junto ao regaço do pai ou despachá-lo pra além-mar?».

Se ficar por aqui, periga reforçar o time da maldade, aquele grupelho já conhecido como ‘gabinete do ódio’. Bom para o país é que não há de ser. Pode-se ter certeza de que as intrigas palacianas só tenderão a aumentar.

Se for mandado pra longe, sua exposição internacional será necessariamente maior. Sabe Deus a vergonha que nos fará, então, passar! E tudo junto à corte do país mais vigiado do planeta, aquele de que todos escrutam o menor suspiro. Vai ser um sufoco.

Confesso que, as duas opções traduzem o real significado da palavra dilema, qual seja, uma escolha obrigatória entre duas possibilidades más. Seja o que acontecer, será ruim para o Brasil. Valha-nos, São Benedito!

Chamada Esdatão, 22 out° 2019

Ao dar a notícia, o repórter do Estadão escorregou. Disse que o bolsonarinho desistiu da embaixada em meio à resistência de seu nome no Senado.

Enganou-se. Devia ter dito que o rapaz desistiu em meio à resistência a seu nome no Senado. Quem resiste, resiste a algo, não de algo. Existe resistência a alguma coisa, não de alguma coisa. Exemplos:

Resistiu à ideia de ir ao cinema.

Resiste a aceitar a oferta.

Não ofereceu resistência à prisão.

Meu querido subjuntivo

José Horta Manzano

Tradicionalmente, o modo subjuntivo é exclusividade das línguas latinas. É quase desconhecido em inglês e alemão, idiomas nos quais somente o verbo ser/estar costuma ser expresso nesse modo. E olhe lá, só de vez em quando!

Em nossa língua, sem chegar a ser bicho de sete cabeças, o subjuntivo era um modo que, podendo, se procurava evitar. Mesmo porque, em certos casos, é difícil acertar. Quer ver? «Se ele pôr isso aqui», «quando nós nos vermos de novo», «se ele não fazer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervir» são frases que se ouvem dez vezes por dia. Há erro em cada uma. Veja a correção lá no fim.(*)

Apesar do respeito que o modo subjuntivo impõe, tenho notado sua aparição frequente em frases onde antes se usava o infinitivo pessoal, nosso velho conhecido. O Brasil não é um país simples, todo o mundo sabe. Taí um exemplo: o complicado dando um chega pra lá no simples. O que se tem visto, de braçada, são frases iniciadas por «para que», seguidas de um subjuntivo. Veja, aqui abaixo, uma coleção colhida em recentes notícias de jornal.

O órgão fixou prazo de dez dias para que o MEC informe se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para que estudantes e professores participem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para que a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo aconteça o quanto antes.

Disse que o esforço é para que ele continue a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para que a gente consiga o mais rápido possível superar essas tensões.

Errado, não está. Mas fica com sotaque. Parece tradução automática, dessas que qualquer um pode pedir ao Google. Por que recorrer ao sofisticado modo subjuntivo quando temos nosso infinitivo tão simples, tão caseiro, tão nosso? E que dá conta do recado! Veja se não fica mais natural substituir subjuntivo por infinitivo. Repito abaixo as frases mencionadas.

O órgão fixou prazo de dez dias para o MEC informar se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para estudantes e professores participarem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo ocorrer o quanto antes.

Disse que o esforço é para ele continuar a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para a gente conseguir o mais rápido possível superar essas tensões.

Quando vejo esse tipo de formulação, lembro sempre do ditado alemão: «Warum einfach, wenn es auch kompliziert geht?» – Por que fazer fácil, se complicado também funciona? É sabedoria teutônica.

Se eu tivesse acesso a essas redes sociais de grande alcance, lançava uma campanha de apoio ao infinitivo, algo como #infinitivotambéméserhumano. Não sei se as regras permitem acento. Se não, fica descaracterizado. Ah, melhor deixar pra lá.

(*) Corrigindo
«Se ele puser isso aqui», «quando nós nos virmos de novo», «se ele não fizer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervier».

Eleições: as novas regras

José Horta Manzano

Nas eleições de 2018, quase nenhum dos políticos tinha se dado conta de que o mundo estava mudando. A maioria apostou na permanência dos costumes dos bons velhos tempos, quando a propaganda eleitoral pela tevê reinava poderosa. Perderam o bonde. Não se deram conta de que nova mídia tinha surgido e estava sendo potencializada pelas redes sociais. O único que acreditou nessa força foi doutor Bolsonaro.

Talvez ele tivesse vencido mesmo sem a ebulição de fêices e zaps. Ou, quem sabe, o generalizado sentimento de ojeriza ao lulopetismo, sozinho, não tivesse sido suficiente para garantir-lhe a vitória. O fato é que exasperação contra a corrupção aliada à agitação das redes constituiu combustível suficiente para o sucesso nas urnas.

Será interessante observar a evolução da estratégia dos candidatos na próxima campanha. Agora, que todos já se entenderam que a antiga propaganda eleitoral televisiva morreu, substituída pelo fervilhar das redes, teremos, em princípio, jogo plano. Todos entrarão no páreo sabendo. Todos lutarão com armas idênticas. A nova realidade tende a aplainar, a igualar candidatos. Por detrás de um tuíte, todos se parecem.

Antigamente, construção de uma ponte ou de uma estrada tinha peso capaz de arrecadar votos – e só quem estava na presidência podia cortar a fita da inauguração. Hoje mudou. Tuitar, todos podem. Pra ter legião de seguidores, é só pagar, que robôs e hackers de aluguel estão aí pra isso. Foi-se o tempo em que marqueteiros espertos, com um único slogan maroto, recrutavam milhões de eleitores. A eleição está se democratizando. Não é impossível que tenhamos, daqui a três anos, a disputa de maior suspense desde 1988, quando entrou em vigor a atual Constituição.

Aviso aos futuros candidatos
A eleição começa agora. Não convém esperar a abertura da temporada oficial de campanha pra começar a agir. Quem tiver pretensões a subir ao Planalto tem de começar a agitar já. Uma simples consulta ao google ensina o que é e como se fabrica um ‘bot’ – um robô informático. Pra principiantes, não sai caro. Dá pra faer em casa. Pra atigir escala industrial, custa um bocadinho mais. Mas não muito.

Robô
É termo que se difundiu em todas as línguas europeias a partir dos anos 1920, através de uma peça de ficção científica de Karel Čapek (1890-1938), escritor de língua tcheca, nascido no então Império Austro-Húngaro. O autor povoou sua peça R.U.R. de autômatos dedicados ao trabalho. Chamou-lhes roboty, plural de robot.

Robot é raiz presente em todas as línguas eslavas para designar o trabalho e derivados (trabalhador, trabalhoso). Chegou a nossa língua através do francês.

Ignorantes e ignorantes

José Horta Manzano

A palavra ignorante pertence a família numerosa. Seus membros estão presentes não só entre nós, mas também em quase todas as línguas europeias. Mas esse é assunto que desenvolveremos numa outra oportunidade.

Hoje gostaria de lembrar ao distinto leitor que, na variante brasileira da língua portuguesa, o termo ignorante tem dois significados principais.

Ignorante 1
É aquele que ignora, que desconhece, que não sabe. Exemplos:

Joãozinho é realmente um ignorante; imagine que tirou zero em três provas!

Está escrito ali na parede! Não sabe ler, ignorante?

Ignorante 2
É o indivíduo abrutalhado, malcriado, tosco, pesado, grosseiro, não necessariamente ignaro. Exemplos:

Você viu? Uma velhinha de pé e aquele ignorante sentado!

Marido que maltrata a mulher é ignorante.

Tivemos, na época em que a patota lulopetista estava aboletada nas poltronas macias do andar de cima, bom exemplo de ignorantes no poder. Eram do tipo 1, aqueles que não sabem. A tônica era dada pelo próprio presidente, avesso a todo tipo de alimento que lhe pudesse enriquecer o intelecto. Obedientes, os demais acompanhavam o chefe. Com deleite.

Varridos os ignorantes do tipo 1, convivemos agora com um bando de ignorantes do tipo 2. Ai, Jesus! Em matéria de conhecimento, embora não sejam luminares, até que sabem o básico. Não se imagina, por exemplo, que acreditem na terra plana. Já no quesito civilidade, são todos espinhudos. De novo, quem dá o tom é o presidente, o mais ignorantão, aquele que carrega sempre um insulto no bolsinho, pronto a ser disparado. Obsequiosos, os demais seguem o chefe. Com facilidade, desdenham e ofendem. São pesadões, vulgares, rasteiros.

Este blogueiro, já entrado em anos, tem pouca esperança de vir a conhecer um governo cuja característica maior não seja a ignorância. Por enquanto, estamos condenados a assistir a um desfile de ignorantes, com direito a alternância entre ignorantes 1 e ignorantes 2. Até quando vai durar? Cabe à próxima geração decidir se rompe esse círculo vicioso ou se deixa tudo como está.

Um bom homem

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa das mais simples. Quando o tradutor tem tempo pra refletir, o trabalho é mais maneiro. Mas se o trabalho tiver de ser feito às pressas, então, a coisa se complica. É o que acontece na mídia. Nem sempre há tempo pra lapidar o escrito.

Chamada do Estadão

Um bom homem?
No original Donald Trump qualificou doutor Bolsonaro de good man. “He’s a good man” – foi exatamente o que ele disse. De fato, a good man é um bom homem. To the foot of the letter.(*)

Em geral, o tradutor tem duas opções. Pode ater-se rigorosamente à língua de partida e manter fidelidade a cada palavra. Nesse caso, seu texto poderá às vezes soar estranho, como se falasse com sotaque. Pode também optar por palavra ou expressão que, embora se afaste do original, leva ao leitor a imagem que o autor do texto original quis dar. Esse trabalho visa a «eliminar sotaque», mas toma tempo.

Chamada da Folha de São Paulo

Tanto o Estadão quanto a Folha de SP optaram pela via mais rápida. O good man de Trump virou bom homem. Errado, não está. Mas ficou esquisito, com sotaque. Viria à cabeça de alguém dizer que Collor, FHC, Lula ou qualquer político é um bom homem?

Pra dizer que alguém é bom de coração, o mais comum é defini-lo como um homem bom, expressão raramente usada pra políticos de alto coturno. Corações bondosos são artigo raro nas prateleiras no andar de cima.

Afora isso, sem descambar para o lado sentimental, diremos simplesmente que alguém é boa gente ou boa pessoa. Se tivesse tido tempo o tradutor teria caprichado no trabalho e, certamente, teria chegado a essa conclusão. Faltou tempo.

(*) ‘To the foot of the letter’ é tradução literal de nossa expressão ‘ao pé da letra’. Mas é só pra brincar, que nenhum falante de inglês compreenderia o sentido.

Nossa língua

José Horta Manzano

Surpreso (quem diria!) com a avalanche de críticas ao discurso que pronunciou no púlpito da ONU, doutor Bolsonaro reage e persevera: “Não fui agressivo”. Insiste na tese de que foi um discurso ‘patriótico’, seja lá o que isso quer dizer. Tentou ser espirituoso perguntando se queriam que ele ‘falasse abobrinhas’. Ficou, de fato, gracioso.

Para emendar, voltou a questionar a liderança do velho cacique Raoni, exatamente como já tinha feito na ONU. Não parece ter-se dado conta de que não cai bem um presidente se queixar, perante plateia planetária, do comportamento de um de seus 200 milhões de governados. É como se Monsieur Macron fosse à ONU queixar-se do chefe do movimento dos Coletes Amarelos. Coisa sem pé nem cabeça.

Doutor Bolsonaro desqualificou o cacique ao dizer que «ele não fala nossa língua». Agora ficou urgente. Alguém precisa dizer imediatamente ao presidente que a frase está expressa ao contrário.

Na verdade, somos nós que não falamos a língua dele. Afinal, os povos nativos – como o nome indica – já eram donos destas terras milênios antes da chegada do europeu e do africano. Assim, nós todos é que devíamos ter aprendido a língua deles, e não o contrário.

Baile das letras

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

Foi uma daquelas idéias que no fim ninguém sabe dizer de onde surgiu. E da qual ninguém quer assumir a autoria. A maioria dos consultados a respeito concordaram em se reunir para uma espécie de, poderia assim se chamar, confraternização. Afinal, todos sempre trabalharam em equipe e, em princípio, parecia uma boa ideia.

Logo de saída, quando foram formalizar o convite, o C já foi logo dizendo que não prestaria nenhum tipo de colaboração. Poderia até participar da reunião, mas não queria ser usado, ficando mais uma vez entre duas vogais só para dar sentido à vida delas. Que fizessem o convite sem ele.

enluminure-k1

Mantiveram o convite feito à letra C para participar do evento, apenas para não criar caso. E tiveram que improvisar com a letra K, que foi a solução mais próxima que encontraram. No alto, lia-se Konvite. O primo do C, o cê cedilha, ofereceu-se para a função. Todos agradeceram muito pela boa vontade, mas acharam melhor usar os préstimos do K. Mesmo porque o K, sempre tão esquecido, coitado, sentia-se orgulhoso com a honra oferecida. Além do mais, não haveria como esconder o rabinho do cê cedilha.

Tudo bem. Todo grupo sempre costuma ser dividido em alas. Sempre aparece algum ti-ti-ti. Houve até um princípio de confusão entre as vogais, que alegavam estarem cansadas de ficar dando sentido a tudo, sempre usadas pelas consoantes que, apesar de serem em maior número, sempre se mostram tão dependentes delas.

Mas a situação foi contornada pelos parênteses que, como sempre, acolheram a todos com braços e abraços apaziguadores. Alguns diziam que os parênteses só ficavam fazendo cochichinhos entre eles e que não eram confiáveis. Eles fingiram não ter entendido. Aliás, a idéia da reunião era justamente essa: promover confraternização e convivência pacífica entre todos.

enluminure-m1

O M compareceu ao encontro e chegou, como sempre, antes do N. Sempre correu mais, por causa das três perninhas enquanto o companheiro andava em desvantagem, com duas. Assim que chegou à reunião, o M foi agradecer pessoalmente ao P e ao B pela deferência de serem precedidos por ele. Em detrimento do N, coitado.

A turma elogiou muito o hífen pelo trabalho que vinha desenvolvendo, sempre um fator de união que ninguém poderia deixar de reconhecer e comentar. Sempre auxiliou com sua presença a todos que um dia precisaram de sua ajuda para se unirem.

Chegou o W dando tapinhas nas costas do M, chamando-o de “colega”, fazendo-se de acróbata. Foi o que bastou para fazer com que o M fizesse verdadeiros contorcionismos com seu ego para manter a compostura.

As aspas compareceram também. Muito humildes como sempre, desculparam-se com todos os presentes. Reconheceram o trabalho e o esforço de todas para formar as palavras e elas, as aspas, sempre deixando pairar no ar alguma dúvida quanto à veracidade delas. Explicaram que não faziam isso por mal. Era apenas por força da obrigação.

Enluminure V 1

Avoadas, andando ordeiramente em fila indiana, as reticências também apareceram. Na ocasião conversaram muito com todos, muito embora nunca conseguissem terminar um pensamento com muita clareza. Já a interrogação, por mais que falasse, nunca demonstrava saber de nada. Não ajudava muito. Mas como já era mais velha do que os outros ‒ tanto que utilizava uma bengalinha para caminhar por onde quer que fosse ‒ era muito respeitada no lugar. Ninguém reclamava dela.

A exclamação apareceu calçada com seu saltinho alto. Muito magrinha, alta e elegante, teve alguma dificuldade quando lhe pediram para pular para a linha de baixo. Era quase um salto mortal. A letra A, que estava por perto, teve até que dar-lhe um empurrãozinho. E ela quase formava uma entrelinha vaga, não tivesse se enganchado no anzol do S que estava logo ali também. Ela não queria se fazer de esnobe. Não era charme. Era apenas o seu jeitão, coitada. Até que ela era legal! Só não gostava muito das frequentes insinuações que a letra i (a minúscula) lhe fazia sempre que a encontrava. Ao contrário do que dizia o i, ela não andava de cabeça pra baixo. E como o i ainda era uma criança, minúscula que era, não provocava reação mais violenta.

A turma não gostava muito era da dona Vírgula, sempre se intrometendo nas conversas, interrompendo os outros. Fazia isso a toda hora e até sem necessidade. Pior que ela, só mesmo seu irmão mais velho, o ponto e vírgula. Esse era de desanimar qualquer um.

Enluminure B 1

Aquela confraternização seria de grande utilidade para as vogais, que não viam com bons olhos os acentos. A nenhum deles. Tanto os agudos, quanto os graves, os circunflexos e até mesmo o simples til. Sentiam-se incomodadas. Diziam que os acentos eram perfeitos parasitas que se apoiavam nelas sempre e com sérias intenções de modificar seu caráter. Não deixavam que elas fossem quem elas realmente eram. Não se davam realmente muito bem. Para os acentos a idéia da confraternização pareceu muito boa.

Todos pararam de conversar quando chegaram os dois pontos. Egocêntricos, sempre exigiam a atenção de quem quer que fosse. Mania de querer explicar alguma coisa. Todos paravam para ouvir. Sabiam que, depois deles, sempre vinha alguma coisa.

A reunião estava boa, juntou todos num mesmo local. De A a Z. Até o asterisco, que compareceu à festa todo despenteado. O q e o p minúsculos permaneceram um de costas para o outro, dado ainda não contarem com a maturidade das letras maiúsculas. Falando nisso, o Q ficou a maior parte do tempo procurando pelo U. Sinal de alta insegurança.

De repente, tudo terminou. Não teve jeito de seguir em frente. Nem mesmo com a intervenção (de pura boa vontade) do parágrafo, tentando dar um tempo e começar tudo de novo. Foi só aparecer o ponto final e aí sim: acabou-se a reunião. Pronto. Ponto final.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Publicado originalmente em 20 nov° 2016.

Fundo eleitoral crescidinho

José Horta Manzano

Nossa língua é muito difícil. Principalmente pra quem não aprendeu. A crise que assola a mídia tradicional – falo dos grandes jornais – deve ser realmente bem mais acachapante do que imaginamos. Os cortes salariais não estão atingindo só o porteiro e a mulher do café; já chegam à redação.

Estranhas chamadas de primeira página andam aparecendo. Algumas são tão absconsas que só podem ser compreendidas por iniciados; outras tiranizam a língua. Hoje o Estadão online estampou esta pérola:

Chamada Estadão, 19 set° 2019

A maior parte das vezes, o verbo crescer é intransitivo. Algo cresce. Ponto e basta, sem complementos.

Em casos mais raros, pode aparecer como transitivo indireto. Por exemplo:
À medida que discursava, o deputado transpirava mais e mais abundantemente e seu verbo crescia em furor.

Crescer não será jamais transitivo direto. Ninguém pode crescer algo.

Portanto, pra retomar o texto do jornal, a brecha aberta pela Câmara não crescerá o fundo eleitoral. Pra consertar, há diversas soluções. À escolha do freguês.

A brecha fará fundo eleitoral crescer.

A brecha aumentará fundo eleitoral.

A brecha inflacionará fundo eleitoral.

A brecha ampliará fundo eleitoral.

A brecha inchará fundo eleitoral.

A brecha expandirá fundo eleitoral.

Essa história deixa um gosto amargo. Constata-se, mais uma vez, que Suas Excelências estão legislando em causa própria. Isso não me parece republicano. Acho que certas decisões que dizem diretamente respeito aos parlamentares deveriam ser tomadas por outras instâncias.

Não faz sentido que eles fixem o próprio salário, as mordomias, os adicionais, o número de assessores, a remuneração do pessoal, as condições de aposentadoria, o valor do fundo eleitoral. Essa tarefa deveria ser atribuída a um coletivo independente de cidadãos, que nada tivesse que ver com o Congresso. Pode-se discutir sobre a composição do plantel e a forma de escolher os componentes. O importante é que cessasse essa aberração de congressistas legislarem em benefício próprio.

Não é admissível que subsistam cidadãos ‘mais iguais que os outros’, gente que tem a faca e o queijo na mão. E a boca.

Senão ou se não? Depende

Dad Squarisi (*)

A questão surgiu no fechamento do jornal. A frase na qual apareceu a dúvida era esta: o ministro não teve alternativa… ops! senão ou se não pedir demissão? Palpites não faltaram. O que faltou foi certeza. A saída? Pesquisar. Eis o resultado:

Se não
Use separado quando:

a) puder substituí-lo por caso não: Se não chover (caso não), vamos viajar de carro. Levará falta se não (caso não) for à aula. A declaração deve dizer tudo. Se não (caso não), precisa ser revista.

b) equivaler a quando não: Pareciam amigos, se não (quando não) bons companheiros. O desafio é, se não (quando não) de solução impossível, pelo menos muito difícil. Se lhe convém, leva o trabalho a sério; se não (quando não), leva-o na brincadeira. A empresa vai demitir quatro empregados, se não (quando não) cinco.

c) for conjunção integrante. Aí, é moleza. Ninguém erra: O pai quer saber se não é melhor o filho estudar de manhã. O governador perguntou se não era possível adiar a votação do projeto. Ele se questionou se não era preferível viajar de carro.

Senão
Use coladinho nos demais casos:

Nada lhe restava senão (a não ser) a aposentadoria. O deputado não é senão (mais do que) um representante do povo. Não fazia nada senão (a não ser) chorar. Isto não compete à Câmara, senão (mas) ao governador. Não há beleza sem senão (defeito). Não lhe restava alternativa senão (a não ser) pedir demissão.

Resumo da ópera
O senão rouba pontos, promoções e prestígio. Olho vivo! Entenda as manhas do danadinho. Se não, você engordará as estatísticas de vítimas. Valha-nos, Deus!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Os filhos da Igreja

José Horta Manzano

No tempo em que era rezada em latim, a missa era muito solene. Ninguém entendia nada do que dizia o padre, mas o rito impressionava. O único momento inteligível era a hora do sermão, quando o celebrante subia ao púlpito e fazia a pregação dominical.

Na Idade Média, época em que o falar popular não havia ainda adquirido status de língua de verdade, tanto a missa quanto o sermão eram ditos em latim. Em terras ibéricas, assim que chegava ao púlpito, o padre abria os braços e conclamava num vocativo cerimonioso: Filii Ecclesiæ! – Filhos da Igreja!. Era a forma habitual de dar boas-vindas aos presentes.

O tempo passou. Aquelas palavras, que soavam tão estranhas aos ouvidos do populacho, passaram a designar o conjunto dos que frequentavam a mesma igreja. Cada região reproduziu os sons conforme seu aparelho fonador lhe permitia. Depois de séculos de pronúncia flutuante, a formas dialetais acabaram desaparecendo, absorvidas pelo castelhano. Hoje, em espanhol e nas demais línguas faladas na Espanha, a saudação ritual ”Filii Ecclesiæ“ transformou-se em feligrés.

Já em Portugal, a pronúncia sofreu deformação maior. Como sabemos, a língua portuguesa tem um problema com a letra L. Volta e meia, ela acaba substituída por R. Como exemplo, o francês blanc e o espanhol blanco deram branco em português. Assim como: clou/clavo = cravo; plat/plato = prato; plage/playa = praia. E mais uma infinidade de palavras. A forma ibérica feligrés não foi exceção. Perdeu um L e ganhou um R. Virou freguês.

Além da deformação fonética, a antiga saudação eclesial conheceu também uma ampliação de sentido. Além de continuar designando o paroquiano, a palavra freguês passou a ser usada pra indicar os clientes de um estabelecimento qualquer. Ela tem ainda outro sentido, um tanto depreciativo. Dizemos freguês pra zombar do time de futebol que costuma perder para o nosso. Diz-se freguês também do indivíduo a quem o mesmo infortúnio acontece mais de uma vez, como aquele que é vítima de trombadinha pela enésima vez.

Com isso, os ”filhos da Igreja“ acabaram virando vítimas de assalto, quem diria! Sinal dos tempos.

Faça como a Odebrecht

José Horta Manzano

“Hoje, a Odebrecht está inteiramente transformada. Usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente”.

Essa é a frase padrão com que a construtora responde a todo questionamento relativo aos ‘malfeitos’ do passado. A sentença é pau pra toda obra. Já faz algum tempo que vem aparecendo nos comunicados oficiais da empresa. Recentemente, apareceu de novo por ocasião da enésima prisão do casal Garotinho, acusado de ‘ligações perigosas’ com a empreiteira. Assim que veio à tona o relacionamento entre o casal e a empresa, lá veio a frase estampada na mídia.

Se a construtora está de fato ‘inteiramente transformada’, não sei. O que sei é que, ao usar a palavra conformidade, dá importante passo em direção ao… não conformismo.

Faça como a Odebrecht. Dispense o pernóstico “compliance” e adote a simpática “conformidade”. É gente de casa. Diz exatamente a mesma coisa sem agitar bandeira de colonização cultural.

Pouco tempo atrás, ninguém imaginaria que a Odebrecht, com sábios ensinamentos, ainda havia de iluminar a nação. Quem havera de dizer…

Acôrdo ortographico

Eduardo Affonso (*)

Uma comissão discute hoje na Câmara a revogação do Acordo Ortográfico de 1990 (esse que matou o trema, tirou o acento de ideia, fez as pazes com o K, o W e o Y, e nos tornou analfabetos em hífen).

Tudo bem que o acordo foi mal feito e que os portugueses se recusaram a adotá-lo (adoptá-lo) de fato (de facto). Em vez de unificar o idioma, o tiro ficou pior que o soneto e a emenda saiu pela culatra.

Mas se é para revogar por questões etimológicas ou por respeito a certas tradições, então revoga direito.

Podemos começar revogando a mudança feita em 1973, que aboliu unânimemente os acentos grave e circunflexo em palavras formadas pelo sufixo -mente e pelos sufixos iniciados por z. Voltemos a escrever sòzinhos, sem corretor ortográfico por perto, como fazemos ùltimamente.

Depois a de 1971, quando caiu o acento diferencial. Bora escrever que êste govêrno não tem pilôto (até porque – apertem os cintos! – não tem mesmo).

Em seguida, cancelamos a de 1945 e voltamos a escrever que êles teem sciencia de que a raínha ennegreceu o côco da Güiana. Ok, ninguém nunca jamais escreveu isso, mas era assim que se escreveria até aquele anno.

Recuemos a 1943, quando respirávamos a athmosphera, caprichávamos na caligraphia, usávamos o telegrapho, desenhávamos polygonos, nos falávamos ao telephone (que então só falava, não tirava photoghraphia), e comíamos vegetaes. Nosso idioma era o portuguez e assim é que devíamos escrevel-o, fosse no Alentejo, fosse no Piauhy.

Anulemos também a de 1911, que levou Fernando Pessoa a declarar que sua pátria era a língua portuguesa (ops, portugueza), e que não se incommodaria se tomassem Portugal, mas sentia odio (sem acento) da pagina (também sem acento) mal escripta, não de quem não soubesse syntaxe ou escrevesse em orthographia simplificada.

Foi nessa epocha que o escriptor Teixeira de Pascoaes choramingou:

“Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.”

E bora anular também a reforma de 1907, quando tiveram fim a deshonra e a inharmonia, bem como as palavras começadas por Ç. Foi também quando o idioma ficou orpham do K, do W e do Y (excepto no vocabulário de origem indígena, que manteve suas characterísticas originaes). Foi n’aquelle anno que o Brazil virou Brasil.

As reformas têm sido desde sempre um desacordo só. A de 1911 foi adoptada só por Portugal. Houve um acôrdo em 1931, que não deu em nada. Este facto levou à convenção ortographica de 1943, que tampouco deu em alguma coisa – tanto que foi feita outra em 1945, com o mesmo triste fim.

Se é para unificar, melhor rebobinar a 1500, quando a língua chegou aqui, e encontrou homeës pardos todos nuus sem nenhuűa cousa que cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãos e suas see tas. vijnham todos Rijos pera o batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posessem os arcos, e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala nem antë dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deu;hes huum barete vermelho e huűa carapuça de linho que leuaua na cabeça e huűsombreiro preto. E huűdeles lhe deu huűsombreiro de penas daues compridas com huűa copezinha pequena de penas vermelhas e pardas coma de papagayo e outro lhe deu huűramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira asquaes peças creo que o capitam manda a vossa alteza e com isto se volues aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar.

De lá pra cá, somos dois fados desencontrados, dois amantes desunidos. Eles lá, agarrados ao latim e ao grego; nós aqui, aos abraços e beijos com o tupi, o guarani, o quimbundo, o quicongo e o umbundo (sem contar os adultérios posteriores, com o francês e o inglês).

Vai dar certo trabalho aprender a falar como Camões, Cabral e Caminha. Mas não tendo hífen, é lucro.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.