Libra

José Horta Manzano

Não é clara a origem da palavra libra. Parte dos etimologistas acredita que descenda de um hipotético proto-itálico *leithra, já então nome de uma unidade de peso. O que se sabe é que o nome passou para as línguas neolatinas.

Em italiano moderno, aparecem as formas libra/libbra (= unidade de peso) e lira, que é o nome da defunta moeda nacional.

Em francês, a forma evoluiu para livre, com dois significados: por um lado, é nome da unidade de peso utilizada nos países anglo-saxônicos; por outro, é a moeda em vigor em diversos países (Reino Unido, Turquia, Líbano, Egito).

Em espanhol, a forma libra é usada com vários significados. Pode ser a unidade monetária em vigor em diversos países; pode também ser o nome de moeda usada antigamente em algumas regiões do país; pode ainda dar nome a uma medida de capacidade equivalente a aproximadamente meio litro. Pode ainda se referir à constelação da Balança.

Em português, a forma é idêntica ao castelhano: libra. Encerra diversos significados: unidade de peso, nome da moeda em vigor no Reino Unido e em mais meia dúzia de países, constelação zodiacal, signo do zodíaco.

Saiu hoje a notícia de que, no rastro de outras criptomoedas que circulam por aí, Facebook está preparando o lançamento de moeda virtual própria. A novidade deve começar a circular daqui a alguns meses, mas o bebê já tem nome: vai-se chamar libra.

Libra: a criptomoeda de Facebook

Fico meio pensativo. A central de inteligência dessa empresa deve concentrar elevado número de gênios. É gente (muito bem) paga, que está lá justamente pra espremer as meninges e gerar ideias fabulosas, daquelas que fazem a empresa dar saltos à frente da concorrência. Cáspite! Como é que podem dar à nova moeda o nome de libra?

O nome já existe e é amplamente utilizado. Se a palavra soa exótica aos ouvidos formatados dos gênios californianos, deveriam, pelo menos, ter consultado gente de ouvidos mais arejados. Não precisa ir muito longe: nos USA, calcula-se que 40 milhões de pessoas sejam de língua castelhana. Além deles, os latino-americanos são centenas de milhões a falar espanhol ou português. Todos (ou quase) são usuários de Facebook. E todos dão o nome de libra à moeda inglesa.

Não acredito que o fato de haver duas moedas importantes com o mesmo nome venha a criar confusão. Também não acredito que alguém deixe de investir na nova ‘moeda-fumaça’ por causa do nome. Mas, francamente, com tanto nome por aí, deram prova de tremenda falta de imaginação.

Hacker

José Horta Manzano

No original, o verbo inglês to hack significa cortar grosseiramente. O nome hacker, portanto, designa o sujeito que passa o dia com a faca na mão a cortar, decepar, romper ou rachar. Dado que cortadores profissionais não são multidão, deduz-se que esse substantivo não há de ter sido muito usado nos séculos de antigamente.

A segunda metade do século 20 assistiu a lento movimento de popularização do computador. Alguém teve a ideia de pescar no vocabulário inglês o termo hacker pra designar o perito em segurança informática. No início, o termo indicava o profissional ‘do bem’, que exercia suas funções sem causar dano a ninguém.

Com o passar dos anos e a crescente democratização dos computadores, o número de especialistas mal-intencionados aumentou. Muito agressivo, este novo tipo de hacker age por curiosidade, por pura má-fé, por consciência política ou por interesse financeiro. Diante de um leque tão amplo de motivações, todos nós estamos ameaçados de hackeamento.

O cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder, não precisa temer que sua privacidade seja invadida por razões políticas. Assim mesmo, é aconselhável proteger-se contra ataques movidos por hackers de má-fé, que nunca se sabe – tem muita gente perturbada por aí.

Já os que navegam nas esferas mais elevadas – políticos, magistrados, milionários, grandes empresários – têm de ser espertos. Por óbvio, estão em permanência no olho do furacão, na mira de muitos interesses. Não há problema em usarem o telefone pra dar bom-dia ou pra marcar encontro. O embaraço começa quando têm de manter conversa confidencial, seja verbal ou escrita.

Pra garantir privacidade total, só há um meio: utilizar telefone criptografado(*), daqueles cuja inviolabilidade é garantida. Assim mesmo, o utilizador, seja ele magistrado, político ou empresário, deveria procurar assistência de um perito que o iniciasse nas artes de bloquear tentativas de invasão.

Pode parecer complicado, mas é indispensável. Mentir, mentimos todos. Bobagens, proferimos todos. Atalhos pouco republicanos, tomamos todos. Pra resumir: ninguém é santo. Portanto, mais vale prevenir antes que nossos podres sejam expostos em praça pública.

Antes de fechar, uma reflexão: todas essas revelações não fazem Lula da Silva inocente. Nem Eduardo Cunha. Nem Sergio Cabral Filho. Nem o resto da turma.

(*) Criptografado não me parece palavra adequada a esse caso. O segundo elemento (grafado) desorienta. Melhor seria dizer “telefone criptado”. Acontece que o verbo criptar ainda não está dicionarizado. Um dia, quem sabe.

Birra
Sei que não tem jeito – hacker, hackear e hackeamento vieram pra ficar. Ainda assim, continuo preferindo pirata, palavra muito mais flexível. Dá pra usar: piratagem, pirateamento, piratear, piratinha (já imaginaram “hackinho”?). E mais: piratesco, piratada, piratíssimo. O resto fica por conta da criatividade de cada um.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.

Ministro evangélico

José Horta Manzano

O comportamento de doutor Bolsonaro e dos bolsonarinhos tem marcas peculiares. Uma delas é a intempestividade – qualidade daquilo que ocorre fora do momento ideal. Timing errado é como se deve dizer em portinglês(1). Outra característica dos atuais gestores do país é o costume de dirigir a fala ao auditório presente, esquecendo-se de que tudo o que dizem em público é gravado, filmado e reproduzido para plateia nacional. O Lula costumava fazer isso, só que, naquela época, internet e redes sociais estavam engatinhando. Hoje mudou. O que se diz a um público alegre e receptivo acaba extravasando e chegando aos ouvidos de uma multidão mal-humorada que rechaça aquela ideia. Aí, danou.

Na sexta-feira 31 de maio, o presidente esteve de visita a um templo da associação religiosa Assembleia de Deus, um dos numerosos grupos neopentecostais surgidos nos últimos vinte anos. Sentindo boa receptividade na fervorosa audiência, fincou pé e soltou o verbo. Disse estar convencido de que «está na hora de termos um ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal». Abafou. Foi standing ovacionadover (1) durante quase um minuto, duração que o aplausômetro do envelhecido plantel atual de artistas brasileiros já não costuma registrar.

É, mas uma coisa é falar para plateia homogênea e outra é falar para o conjunto do eleitorado. Tudo o que o presidente diz em público, ainda que falando para círculo restrito, acaba ecoando no país inteiro. E a fala se alastra em questão de minutos. Levando em conta esse parâmetro, deduz-se que doutor Bolsonaro não foi muito esperto.

De fato, apesar do crescimento exponencial que vêm conhecendo estes últimos anos, as denominações neopentecostais (ditas ‘evangélicas’) englobam, grosso modo, um terço dos brasileiros. Por exclusão, conclui-se que dois em cada três conterrâneos não são adeptos de nenhum desses movimentos. É um contingente enorme.

Ao preconizar que o próximo ministro a ser nomeado para o STF seja ‘evangélico’, doutor Bolsonaro agrada um terço dos eleitores enquanto irrita os outros dois terços. Não me parece um bom cálculo. O marketing presidencial dá prova de continuar enguiçado.

E tem mais. A Constituição dá ao presidente total liberdade na hora de escolher ministro para o STF. Trocado em miúdos: quem decide é ele mesmo, sem precisar dar satisfações a ninguém. Portanto, além de imprudente, a fala presidencial é intempestiva – ocorre na hora errada. Irrita quem não devia, na hora em que não devia, sem necessidade real. É ruído desnecessário.

(1) Portinglês (ou portuglês, ou portenglish, ou portunglês) é uma língua mista – um crioulo, como dizem os linguistas – formado do encontro de uma língua estrangeira (inglês) com a língua nativa (português). A sintaxe segue o modelo da língua nativa, enquanto o léxico é fortemente alterado pela língua importada. O crioulo fica impregnado de termos ingleses tratados conforme a sintaxe portuguesa.

A parte importada é frequentemente truncada e sistematicamente pronunciada com sonoridade distante do original. Por exemplo, a palavra importada “doping” é pronunciada “dópinh”, quando o original é “dôuping”. Para o falante do crioulo, bem pronunciada ou não, a importada soa mais chique que a reles dopagem nacional – palavra, aliás, dicionarizada.

Mãe analfabeta

José Horta Manzano

Tirei esta frase do editorial do Estadão deste domingo:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens negros, residentes em áreas rurais do Nordeste e que a mãe é analfabeta, apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Muitos escribas, seja pra dar prova de maior proximidade com o leitor, seja por outra razão qualquer, reproduzem na escrita a linguagem oral. É um recurso de estilo muito útil, que este blogueiro usa com frequência.

Como sabemos, o português brasileiro apresenta crescente afastamento entre a escrita e a oralidade. Na verdade, ninguém aprende em casa o português dito “certo” ou “correto”. A língua materna de todos nós não tem nome, mas qualquer um concordará: ela é diferente da língua escrita. Esse não é um fenômeno universal. Em países como a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Suécia e tantos outros, a língua falada coincide com a escrita. Se diferenças há, elas se limitam a uma ou outra expressão familiar ou coloquial.

O respeito e o receio que nos inspira a língua culta vem do fato de nos sentirmos inseguros ao lidar com ela. Seria exagero classificar o português culto como língua estrangeira, mas a forma erudita não nos é nada familiar. Pra manejá-la, temos de calçar luvas, usar pinças e trabalhar com muito cuidado.

Em outras terras, o único problema de quem escreve é a ortografia, dificuldade que qualquer corretor automático elimina. Fora isso, quem escreve pode soltar as amarras. Basta escrever como está acostumado a falar, que vai dar certo. Uma delícia que nós outros não conhecemos.

Em contexto informal, o uso de fórmulas coloquiais na escrita é permitido. No editorial de um jornal de referência, cai mal. Pois foi o que fez o Estadão hoje, na frase que destaquei no alto desta página. Convido o distinto leitor a relê-la. Todo o mundo entende, é verdade, mas não é assim que se deve escrever em português culto. A frase é torturada. Pega mal, principalmente inserida em editorial que se alarma com os índices de evasão escolar.

Na linguagem oral, faz muito tempo que o pronome “cujo” desapareceu. Mesmo na escrita, só aparece raramente. Quem escreve, sempre dá um jeito de torcer a frase pra evitar usá-lo. Tivesse sido usado na frase do Estadão, teria aliviado a tortura – que, todos sabem, é proibida pela Constituição!

A frase do jornal reproduziu o formato popular que substituiu o “cujo” pelo “que”. É o que ocorre em frases como:

Aquela moça que o pai morreu (= moça cujo pai morreu)

O livro que a capa estragou (livro cuja capa estragou)

O carro que a porta caiu (carro cuja porta caiu)

No artigo do jornal, mesmo sem o “cujo” teria sido possível evitar essa reprodução da fala popular. Poderiam ter escrito:

“Se o recorte for feito, por exemplo, entre jovens nordestinos negros, com mãe analfabeta e residentes em áreas rurais, (vai-se constatar que) apenas 8% concluíram o ensino médio até os 18 anos.”

Há outras possibilidades de revirar a frase sem escorregar da forma culta para a coloquial. É sempre a mesma história: pra quem sabe, é fácil; pra quem não sabe, é mistério insondável.

Outras máximas ― 48

José Horta Manzano

Justiça autoriza transferência do detento Eduardo Cunha de Curitiba a uma prisão carioca.

Furem fur cognoscit, et lupum lupus.
Ladrão reconhece ladrão e lobo reconhece lobo.
Máxima latina

Salsicha, salame e charque

José Horta Manzano

A gente pronunciava salsicha e achava muita graça em quem dizia salchicha. Foi só muitos anos mais tarde que descobri que os castelhanos só conhecem a segunda variante. E só juram por ela. Na língua deles, a palavra foi vítima de assimilação fonética, bem conhecida dos estudiosos.

Dada a lentidão dos órgãos da fala, esse fenômeno de relaxamento ocorre com frequência. De fato, a sequência chi + cha é mais fácil de pronunciar do que si + cha. Este último parzinho requer certa dose de ginástica bucal. Bom exemplo de quebra-língua é o desafio infantil de mandar pronunciar rapidamente «um tigre, dois tigres, três tigres». O exercício é perigoso – experimente. A gente se surpreende ao não ser capaz de pronunciar essas seis palavrinhas com velocidade.

Tanto nossa salsicha quanto a salchicha espanhola derivam do italiano salsiccia, onde o primeiro componente é sal. É da família do salame e de outras salgaduras. O salgamento é um dos métodos mais antigos de conservação de alimentos.

Charcuteria pertence a outra família. É a palavra usada pelos franceses para designar coletivamente os embutidos. O termo se decompõe em chair (=carne) e cuite (=cozida). É caso pouco comum em que o nome do estabelecimento (charcuterie) precede o nome do profissional (charcuitier). Charcuteria corresponde, grosso modo, a nossa salsicharia. Mas, convenhamos, é bem mais chique.

Nossos dicionários dizem da palavra charque (carne seca) que é de origem desconhecida. O dicionário da língua espanhola informa que charque (ou charqui) é palavra platina de origem desconhecida. Sem querer ser mais esperto que os estudiosos, a semelhança com a ‘carne cozida’ francesa (chaircuite) me parece sugestiva. Pode ser apenas coincidência.

Recolha

José Horta Manzano

Uma das lembranças que guardo da infância é a dos ônibus que circulavam com o letreiro «Recolhe». Nem iam ao destino habitual, nem voltavam ao ponto de partida. Aquela palavrinha informal, pura expressão de português caseiro, ia direto ao que interessava. Sem floreios. Quem recolhia? Recolhia o quê? Não tinha importância. A informação era despretensiosa mas eficaz. De um relance, a gente entendia que aquele veículo não estava de brincadeira. Não ia parar. Acontecia, de raro em raro, que o motorista – que a gente chamava então de ‘chofer’ –, condoído da sorte de quem esperava no ponto, desse uma paradinha camarada e embarcasse algum passageiro. O homem atropelava o regulamento mas fazia a alegria de quem se dispusesse a compartilhar aquela viagem ao repousante destino. «Recolhe»…

Não sei se ainda se veem ônibus com convite tão explícito ao descanso e ao adeus às armas como aqueles da minha infância. Espero que sim. Afinal, ônibus também são seres humanos, como diria o outro, e têm direito a um descansozinho.

Li estes dias que a ideia de uma versão moderna de recolhimento perpassa o Congresso. Não visa a mandar veículos para o descanso. Bem mais ambicioso, o objetivo é aposentar o próprio presidente da República. Recolhida ou recolha há de ter soado jeca para os ouvidos de nossos sofisticados parlamentares. Vamos banir esse jeito primitivo de falar, que diabos! O projeto fala em «recall». A realidade é a mesma, mas a palavra estrangeira soa tão melhor. Fica muito chique.

O objetivo é deixar cair um grão de areia na engrenagem da Presidência. Dessacralizá-la. Fazer que o ocupante não se sinta onipotente e blindado contra vento de boreste ou tempestade de bombordo. Em princípio, tudo o que possa levar o presidente a refletir é bem-vindo. O projeto em tramitação, no entanto, parece-me de difícil aplicação. Para lançar um plebiscito revocatório, será preciso colher um número de assinaturas equivalente a 10% dos votantes na eleição precedente. Parece pouco, mas estamos falando de mais de dez milhões de peticionários, uma enormidade! Fica no ar um problema complementar: quem é que vai atestar a veracidade de cada assinatura? Com base em quê? Como evitar assinaturas repetidas?

Nosso país não tem tradição plebiscitária. Não há um órgão depositário da amostra da assinatura de cada cidadão. Não temos um registro de residência dos habitantes. Não vejo como um voto popular revocatório possa um dia ser implantado. O bom e velho impeachment – que já serviu um par de vezes – ainda me parece o único caminho viável. A recolha de presidente por iniciativa popular direta vai ficar pra uma próxima vez.

Cargos & encargos

José Horta Manzano

Ultimamente, os diagnósticos emitidos por gente que entende de política são convergentes quando apontam a causa da paralisia do governo Bolsonaro. Tirando as traquinagens dos bolsonarinhos, que atrapalham mas não paralisam, o motivo maior é o descontentamento de parlamentares. Suas Excelências não estariam sendo contemplados com os cargos que esperavam receber do governo.

Peço vênia para discordar. Suas Excelências não querem cargos. Vamos refletir um pouco.

A palavra cargo pentence a extensa família espalhada por todas as línguas latinas. Em italiano: carica, caricare, incarico, caricatura. Em francês: charge, charger, chargement, décharger. Em espanhol: carga, cargar, encargue, encargamiento. E em nossa língua: carga, carregar, encargo, encarregar, recarregar, descarregar, carregamento. Está também atestada a presença do termo medieval carcare.

Como pode o distinto leitor perceber, todas essas palavras, de perto ou de longe, têm a ver com peso, que lembra esforço, que lembra cansaço, que lembra deus me livre. Cargo é sinônimo de encargo, que é sinônimo de trabalho. Ora a distância que costuma separar nossos parlamentares da noção de esforço se mede em anos-luz. Quer um exemplo? No começo de maio, um dia feriado caiu numa quarta-feira. Foi a conta: a semana inteira foi praticamente enforcada no Congresso. Ninguém ficou em Brasília. Na caradura.

Agora diga-me com toda sinceridade: vosmicê acredita que Suas Excelências estejam buscando cargos? Nem aqui, nem na Lua! Os nobres parlamentares se contentam com as benesses que eventuais cargos lhes possam propiciar. Na verdade, dispensam os cargos. Bastam as benesses. Os governos petistas, especialistas no assunto, tinham entendido isso. Em vez de perder tempo com fachada, distribuíam diretamente as propinas.

Com o passar do tempo, talvez doutor Bolsonaro venha a ser obrigado a dobrar-se à realidade da mecânica parlamentar. Ou quem sabe encontrará a solução miraculosa na qual ninguém havia ainda pensado. Será?

Terremoto – 2

José Horta Manzano

Em nosso país, os terremotos mais frequentes são de natureza política – esses estouram dia sim, outro também. Tremores de terra no sentido original, daqueles que derrubam gentes e prédios, são fenômeno bem mais raro. Ocorrem, às vezes, mas em geral em zonas de escassa habitação, o que suaviza o problema. A gente só fica sabendo quando algum sismógrafo ultrassensível, montado a milhares de quilômetros dali, registra e publica o acontecido. Já nossos hermanos do Peru, do Chile, do Equador, da Colômbia estão muito mais expostos a esse tipo de ocorrência. Quando violentos, os terremotos podem causar perda de muitas vidas além de grande estrago material.

Terremoto de 26 maio 2019

No domingo 26 de maio, forte sismo de magnitude estimada em 7,5 graus na Escala Richter sacudiu a região do Alto Amazonas, no Peru. Foi sentido no país inteiro e até nos vizinhos Equador e Colômbia. É mais que provável que pudesse ter sido sentido também no Brasil, no oeste do Amazonas e no Acre, se essas regiões fossem mais densamente povoadas. Como há pouca gente por ali, só ficamos sabendo porque os sismógrafos peruanos registraram.

Em nota discreta, a notícia foi dada pela mídia brasileira. Como acontece a cada vez, escorregaram na hora de dar os detalhes. O Estadão, por exemplo, escreveu que o epicentro do tremor foi registrado a uma profundidade de 141km. Bobeou. Já falei nisso antes mas, como o erro se repete, repito eu também.

Estadão, 26 maio 2019

Epicentro é o ponto da superfície (da terra ou do mar) situado exatamente acima do lugar onde teve origem a ruptura que causou o terremoto. Portanto, é incorreto dizer que o epicentro está situado a tal profundidade. Está sempre na superfície. A palavra epicentro utiliza o prefixo grego epi = acima, na superfície. O hipocentro é o ponto onde se produziu a ruptura. Esse, sim, está sempre na profundidade.

O escorregão se explica. Pra terremoto político, estamos escolados. Já tremor de terra não é nossa praia. Cada qual com sua especialidade, ué.

Maiúsculas e minúsculas: quando usar

Dad Squarisi (*)

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) manda grafar com inicial grandona:

1. Nomes próprios
Rafael, Renascimento, Avenida Atlântida, Presidência da República, Poder Judiciário, Região Sul, o Sul do Brasil, Região Centro-Oeste, o Centro-Oeste, o Nordeste, Oriente, Ocidente, Antiguidade, Idade Moderna, Renascimento, Belle Époque, Seleção Brasileira, Seleção Chinesa de Vôlei Feminino, Campeonato Nacional, Copa do Mundo, Olimpíadas, Medalha do Pacificador.

2. Nome de disciplinas
Marcos levou pau em Português e Matemática. Mas safou-se em Inglês.

3. Nomes de impostos e taxas
Imposto de Renda, Imposto Predial Urbano, Taxa do Lixo.

4. Atos de autoridades quando especificado o número ou o nome
Lei 2.346; Medida Provisória 242; Decreto 945; Lei Antitruste.

O ato perde a majestade em dois casos

Um: depois da 1ª referência.
A medida provisória mencionada trata do Plano Real.

O outro: na ausência do número
O presidente vetou a lei.

5. Os pontos cardeais
Norte, Sul, Leste, Oeste.

Se o ponto cardeal define direção ou limite geográfico, usa-se a inicial minúscula
O carro avançava na direção sul. Cruzou o Brasil de norte a sul, de leste a oeste.

6. As palavras Estado (país), União e Federação (associação de estados)
A sociedade controla o Estado. A Constituição enumera as competências da União. Impõe-se preservar a Federação.

7. Datas comemorativas e nome de festas religiosas
Sete de Setembro, Proclamação da República, Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia da Árvore.

Atenção, gente fina. As festas pagãs se escrevem com a inicial pequenina: carnaval, ano-novo. Também: quaresma, semana santa, quarta-feira de cinzas, sábado de aleluia.

8. Nomes científicos de famílias animais e vegetais (o segundo elemento com minúscula)
Coffea arabica, Hevea brasiliensis, Ranitomeya vanzolinii.

9. Oração incluída dentro de parênteses quando constitui oração à parte, completa, precedida de ponto. No caso, começa com letra maiúscula e termina por ponto
Na praça, o sentimento geral era de grande frustração. (Nenhum candidato se dignara comparecer ao comício.)

10. Citação
Quando vem depois de dois pontos, a citação começa com letra maiúscula. Caso contrário, com minúscula:
Fernando Pessoa escreveu: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Segundo Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Curiosidade
Na língua dos Césares, majusculus quer dizer um tanto maior. Maioral, maioria, maioridade, major, majoritário, majorar pertencem à mesma família. Todos são aparentados com maior. Por isso, têm complexo de Deus. Se deixar, ocupam um senhor espaço. Manda o bom senso pôr-lhes o pé no freio. Para dar-lhes um chega pra lá, dois princípios se impõem. Um deles: só as use nos casos obrigatórios. O outro: não as empregue para valorizar ou destacar ideias. Maiúsculas devem ser as ideias, não as letras.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Formar

José Horta Manzano

Forma é voz amplamente difundida nas línguas latinas. Com pequenas diferenças de grafia, aparece em todas elas. Em nossa língua, é responsável por centenas de palavras derivadas. Entre muitas outras, temos: formal, formoso, formulário, formação, formalidade, formatura, reforma, informe, transformação, uniforme, deformação, conformidade. E muitas mais.

Essa raiz nos legou boa coleção de verbos: enformar (botar na fôrma), informar, reformar, uniformizar, conformar, pré-formar, deformar, transformar, disformar. Sem contar, naturalmente, com o mais simples deles, que é formar.

O verbo formar é sempre transitivo ou pronominal. Há um único caso, bastante raro, em que é usado com valor intransitivo. É quando indica alinhar, enfileirar, dispor em certa ordem: o batalhão formou para homenagear o visitante ilustre. O uso intransitivo raramente estravasa da área militar.

Chamada d’O Globo, 17 maio 2019

A esse propósito, um cartaz revelador foi levantado por um manifestante quando dos protestos estudantis de alguns dias atrás. Está reproduzido acima destas letras. Diz lá: «Eu formei, tu formaste, mas eles não formarão se a universidade parar». O rapaz que segura o papel mostra semblante bastante convicto da justeza do próprio protesto. Pelo uso da primeira pessoa (‘eu formei’), deduz-se que ele ostenta na parede de casa um diploma universitário.

Pois é, pode até ser que nosso protestatário tenha obtido o diploma, mas fica claro que faltou a algumas aulas de Português. É de crer que o cartaz não se esteja referindo a formação de fila, mas a formação universitária. Nesse caso, o verbo formar não pode ser usado intransitivamente. No sentido de terminar o curso e diplomar-se, o verbo é reflexivo: eu me formei, tu te formaste, eles se formarão.

Parece simples pra quem sabe. Pra quem não sabe, é mistério insondável. Quando foi mesmo que a obtenção de diploma se divorciou da vontade de aprender pra se tornar um fim em si? Quando foi mesmo que formação deixou de significar construção intelectual para ser só sinônimo de diploma pendurado na parede? Algumas peças da engrenagem se perderam pelo caminho, e a máquina parou de funcionar.

Queísmo

Dad Squarisi (*)

Certos verbos sofrem de alergia. Ficam vermelhos, empolados e com coceira quando seguidos do quê. Transitivos diretos, exigem objeto direto nominal, mas não aceitam a oração objetiva direta. Veja alguns:

  •  alertar (alerta-se alguém, mas não se alerta que)
  • antecipar (antecipa-se alguma coisa, mas não se antecipa que)
  • definir (define-se alguma coisa, mas não se define que)
  • denunciar (denuncia-se alguma coisa ou alguém, mas não se denuncia que)
  • descrever (descreve-se alguma coisa, mas não se descreve que)
  • expor (expõe-se alguma coisa, mas não se expõe que)
  • falar (fala-se de alguém ou de alguma coisa, mas não se fala que)
  • indicar (indica-se alguma coisa ou alguém, mas não se indica que)
  • lamentar (lamenta-se alguma coisa, mas não se lamenta que).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

‘Insitando’ o ‘recentimento’

Sérgio Rodrigues (*)

Temos um ministro da Educação que escreve “insitar”. O erro de grafia poderia ser um deslize sem maior significado: ortografia, afinal, é só a casca da palavra. É tão possível pensar errado com letrinhas certas quanto pensar certo com letrinhas erradas.

Se nesse caso a grafia torta de “incitar” (verbo que significa estimular, instigar) tem, sim, um significado maior, isso se deve ao fato de a batatada ter sido cometida pelo ministro da Educação de um país tragicamente iletrado.

Mais: um ministro da Educação que, logo após ter negado “insitar” a violência, demonstrou que, além de usar letrinhas erradas, também é desafeto do pensamento certo ao anunciar uma violência inédita: o corte de verbas para “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia”.

“A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo”, explicou Abraham Weintraub. Exemplos de evento ridículo, segundo ele: “Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”.

UnB, UFF e UFBA, as três instituições nomeadas pelo ministro da Educassão (atenção, revisores!), estão entre as de melhor desempenho acadêmico do país. E daí? A ala do governo que reza pela cartilha do guru Olavo de Carvalho, à qual pertence Weintraub, tem se especializado em desprezar fatos. Seu motor é puramente ideológico.

As barreiras – inclusive constitucionais – diante dessa máquina de ceifar verbas universitárias são vultosas. No fim das contas, é possível que tudo dê em nada e o episódio fique na história como mais um dos tiroteios de festim com fumaça de gelo seco em que o governo Bolsonaro é pródigo – espetáculos que seriam anódinos se não fizessem perder tempo um país já tão atrasado.

De todo modo, ao expor de forma cândida suas motivações, Weintraub abre a guarda e incita uma reflexão sobre o solo, digamos, emocional em que se fundam essas e outras balbúrdias provocadas por um governo de triste desempenho. A palavra-chave é ressentimento.

Na referência a eventos de sem-terra, evidencia-se o rancor com a inclinação esquerdista que predomina no meio acadêmico – como se a liberdade de pensamento não fosse garantida pela Constituição e como se fosse preciso ser de esquerda para divergir do bolsonarismo.

Isso é óbvio até demais, mas o melhor vem agora. Na denúncia ridícula de delirantes orgias de peladões no campus, fica escancarada a semente rancorosa de todo moralismo: “Malditos depravados – e nem me convidaram!”

O ressentimento, “mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal que se recebeu” (Houaiss), é forte candidato a síntese do espírito desse tempo esquisito.

Palavra do século 16, o verbo “ressentir” se formou no próprio português, segundo os estudiosos, pela junção re + sentir. O prefixo indica reforço e reiteração: ressentir é sentir muito, continuadamente. Para o ressentido, a ofensa – real ou imaginária – nunca vai embora. Perdão e superação são ideias que ele não consegue conceber. Vingança, ainda que à custa da destruição de tudo à sua volta e até de si mesmo, é seu único horizonte.

“Nada no mundo consome um homem mais depressa do que a paixão do ressentimento”, escreveu Nietzsche em “Ecce Homo”. Em tempo: talvez o ministro goste de saber que, por um breve período no século 18, uma flutuação ortográfica levou a palavra a ser grafada “recentimento”. Fica a dica.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista.

Castigo

José Horta Manzano

Huancavelica é uma pequena cidade peruana, capital da região de mesmo nome. A vida não é fácil naquelas alturas. A mais de 3.500 metros de altitude, o clima é rigoroso. No mês mais quente do ano, a temperatura máxima raramente chega a 20 graus. Neve e gelo são ocorrências corriqueiras. Terremotos são registrados com espantosa frequência.

Como em toda parte, em Huancavelica também há jovens descabeçados. Numa fria madrugada de outubro passado, Jhonatan Michael(sic) e Michael Jordan(sic), rapazes de pouco mais de 20 anos de idade, tiveram a péssima ideia de assaltar um cidadão que, sentado num banco da praça, telefonava para a namorada. Roubaram-lhe o celular.

Indignado, o cidadão deu queixa, e os ladrões acabaram descobertos e presos. Levados a julgamento, receberam pena de 4 anos em regime fechado. No entanto, magnânima, a juiza ofereceu-lhes uma alternativa pra escapar da cadeia. Se aceitarem, terão de cumprir regras de conduta rigorosas. Não poderão frequentar discotecas nem bares de reputação duvidosa. Terão de retomar estudos universitários. E, cereja em cima do bolo, estão obrigados a ler o livro O Alquimista, de Paulo Coelho. A leitura de outro livro, escrito por autor americano, também faz parte das obrigações impostas. As duas obras deverão ser lidas no prazo de um ano.

Portal RPP, Peru

A mídia peruana está elogiando a bondade da juíza. Não é todos os dias que se assiste a uma conversão de pena tão generosa. Quanto a mim, concordo que cadeia em regime fechado pode não ser a pena adequada a todos os casos. No entanto, não acho que a juíza tenha sido tão bondosa assim. Retomar estudos, evitar lugares duvidosos, cumprir regras de conduta – ainda vá lá. Mas ler Paulo Coelho? Cruzes! É cruel demais! A juíza revelou seu lado sádico.

Se o distinto leitor não leu, recomendo dar uma espiada no texto que publiquei no ano passado sobre o livro O Alquimista. É uma análise, feita por J. Milton Gonçalves, que ressalta os erros gramaticais cometidos por senhor Coelho. É impressionante constatar a que ponto esse senhor trata a língua a bofetões. Imagino – e espero – que a tradução para o espanhol tenha corrigido os escorregões do autor. Sorte de nossos ladrões de celular, que lerão a obra num castelhano castiço e expurgado de pedregulhos.

Proficiência

José Horta Manzano

Vez por outra, topamos com alguma imprecisão de tradução na mídia brasileira. O texto original é mal transcrito, e a gente acaba não entendendo. É compreensível que isso aconteça, tão parco é nosso conhecimento de línguas estrangeiras. É pena, porque essa pobreza cultural acaba por estreitar o horizonte de todos, mas assim são as coisas. A gente imagina que, em outras terras, seja bem diferente. Em geral é – mas nem sempre.

É verdade que, na Holanda e na Dinamarca, são todos praticamente bilíngues. São pequenos países de língua praticamente desconhecida além-fronteira, onde o aprendizado de inglês é incentivado desde a escola elementar. O exemplo dos mais velhos, que praticam essa língua com habilidade, dá ânimo aos pequenos. E o círculo virtuoso se perpetua.

Mas nem todo estrangeiro é holandês ou dinamarquês. Alguns povos, mais recalcitrantes, são conhecidos pela aversão que sentem pelo aprendizado de línguas estrangeiras. Entre eles, destacam-se os franceses. Saudosos, talvez, do tempo em que a língua de Molière pairava acima das demais em prestígio e difusão internacional, resistem a estudar idiomas. Nesse terreno, são duros de molejo.

Acabo de topar com um magnífico exemplo da imperícia francesa com línguas estrangeiras. Le Petit Journal é um portal voltado para expatriados franceses. Gratuito, é financiado pelos anunciantes. Acolhe colaboração de franceses residentes no mundo inteiro. Na sequência da entrevista concedida por Lula da Silva estes dias, publicaram artigo assinado que leva título inquietante: «L’interview de Lula censurée par les médias brésiliens? – A entrevista de Lula censurada pela mídia brasileira?».

Le Petit Journal

No corpo do artigo, a dúvida do título se torna certeza. Afirmam, com todas as letras, que sim, a entrevista de nosso guia foi boicotada pelos outros veículos brasileiros. Incrédulo, tive de ler até o fim pra entender a trapalhada. A confusão baseia-se num tuíte da jornalista da Folha que entrevistou o Lula. Mônica Bergamo tuitou: «A entrevista de Lula (…) foi um ROMBO na censura no Brasil (…)». E a articulista francesa traduziu: «A entrevista de Lula (…) foi alvo da censura brasileira (…)». A autora do texto afirma ainda que a mídia brasileira não tratou do assunto e que a entrevista só foi mencionada em sites alternativos. Pra você ver aonde pode levar a pobreza de conhecimento de línguas.

Em conclusão, a moça leu o tuíte, não entendeu mas achou que devia ser o que não era pra ser mas que achava que era, resolveu seguir adiante assim mesmo, publicou o que não devia, seus leitores ficaram meio sem entender, e… viva São João!

Nesta era de fake news propositais, precisa acrescentar nova categoria: as fake news por imperícia. Assim caminha a humanidade.

Se quiser conferir, clique aqui.

Da cadeia para o mundo

José Horta Manzano

Entre surpreso e incrédulo, o mundo recebeu a notícia de que Lula da Silva tinha dado entrevista à imprensa.

– Entrevista? Como assim? Mas ele não estava preso até outro dia?

– Pois ainda está. Mas o Brasil, sacumé, é um país que às vezes corre fora dos trilhos. Preso pode dar entrevista. Depois do Lula, dá pra imaginar um punhado de grão-condenados fazendo fila pra aparecer diante dos holofotes.

– Vão permitir que outros deem entrevista também?

– Se permitiram a um, não vejo como poderiam negar a outros. Quem se habilitar já pode começar a fazer fila.

Esse diálogo é imaginário. Mas não fantasioso. Fico realmente preocupado ao pensar que Marcola, Eduardo Cunha, Fernandinho Beira-mar e outros meliantes podem exigir o mesmo tratamento. Sempre haverá algum órgão de imprensa interessado em colher a entrevista. Já pensou?

Voltando à entrevista do Lula, foi particularmente edificante o trecho em que ele diz que essepaiz está sendo governado por «um bando de maluco». (Já reparou que Lula da Silva nunca pronuncia o nome dessepaiz? Freud deve poder explicar.) Pessoas sensíveis devem ter se sentido incomodadas com a violência das palavras proferidas por alguém que, afinal, já foi presidente da República. Não é comum. Bom, também não é comum um ex-presidente estar encarcerado por corrupção. Talvez isto explique aquilo.

Pouco comum também foi a resposta do atual presidente. Irritado, doutor Bolsonaro retrucou que mais valia o Brasil estar sendo governado por um bando de loucos do que por um bando de cachaceiros. Touché! Impressionante mesmo é o nível do palavreado dessa gente – tanto os loucos quanto os cachaceiros. Tudo farinha do mesmo saco.

Fiquei curioso em descobrir como a imprensa internacional tinha dado a notícia, em especial como tinham traduzido a expressão ‘bando de maluco’.

Os órgãos de língua francesa foram unânimes: disseram todos que o Brasil era governado por «une bande de fous». É tradução ao pé da letra.

A mídia de língua inglesa foi mais variada. Alguns, como The Guardian, traduziram por «lunatics». Outros, como o Washington Post, preferiram «crazy people». A edição inglesa de France 24 foi mais elaborada. Optou por «gang of madmen» – gangue de gente louca.

Os castelhanos também foram sortidos. TeleSur, a tevê de Maduro, tascou «una banda de locos». O Portal Notimerica foi mais sóbrio: «un puñado de locos». E o argentino Clarín escolheu uma formulação mais coloquial: «una banda de chiflados» – um bando de gente de raciocínio perturbado.

Antes, os cachaceiros. Agora, os loucos. Essepaiz está bem arrumado.

Decretar falência

José Horta Manzano

Falência? De filial de multinacional? Coisa mais estranha. Cheira mal. É esquisitíssimo assistir à quebra de uma filial de grande multinacional. Estranho também é dizer que a empresa «decretou falência».

Chamada d’O Globo, 1° abr 2019

A falência (ou quebra, ou bancarrota) é decretada por autoridade judicial. Quando a firma não tem meios de honrar os próprios compromissos, cabe-lhe pedir falência. Constatado o estado falimentar e cumprido o devido ritual, cabe a um magistrado tomar a decisão de decretar a falência.

Pleonasmos: relação em ordem alfabética

Dad Squarisi (*)

A novela é antiga como o rascunho da Bíblia. A prova está na etimologia da palavra. Pleonasmo vem do grego. Lá e cá mantém o significado. É a redundância de termos, a superabundância. Como sobremesa em excesso, enjoa. É o caso de subir pra cima, descer para baixo, entrar pra dentro, sair pra fora. Só se entra pra dentro, só se sai pra fora, só se sobe pra cima, só se desce pra baixo. Entrar, sair, subir e descer são suficientes. Dão o recado. Exemplos de abusos não faltam. São tantos que os apresentamos em ordem alfabética. Como livrar-se do desperdício? É fácil. Basta tirar a palavra que está entre parênteses.

A
Abertura (inaugural)
Abusar (demais)
Acabamento (final)
(Ainda) continua, se mantém
Além…(também)
Almirante (da Marinha)
Alvo (certo)
Amanhecer (o dia)
Assessor direto (não existe indireto)
A seu critério (pessoal)
Avançar (pra frente)
A razão é (porque)

B
Brigadeiro (da Aeronáutica)

C
Cale (a boca). Diga “cale-se”.
Certeza (absoluta)
Colaborar (com uma ajuda)
Comparecer (pessoalmente)
Com (absoluta) correção
Como (por exemplo)
Compartilhar (conosco)
(Completamente) vazio
Comprovadamente (certo)
Consenso (geral)
Continua a (permanecer)
Continua (ainda)
Conviver (junto) com
Criar (novo)

D
(Demasiadamente) excessivo
Descer (pra baixo)
Destaque (excepcional)
De sua (livre) escolha
Detalhes (minuciosos)

Subir pra cima
by Mysticlolly, desenhista francesa

E
Elo (de ligação)
Em duas metades (iguais)
Empréstimo (temporário)
Encarar (de frente)
Entrar (pra dentro)
Epílogo (final)
Erário (público)
Escolha (opcional)
Estrear (novo)
Estrelas (do céu)
Eu (particularmente)
Exceder (em muito)
Experiência (anterior)
Exultar (de alegria)

F
Fato (real)
Frequentar (constantemente)

G
Ganhar (grátis, de graça)
Goteira (do teto)
Gritar (alto)

H
Há … atrás
Habitat (natural)

I
Individualidade (inigualável)

J
Já… mais (já não faz (mais) isso; não faz mais isso)
Jantar de noite
(Juntamente) com

L
Labaredas (de fogo)
Lançar (novo)
Luzes (acesas) — as lâmpadas é que estão acesas ou apagadas

M
Manter (a mesma)
Medidas extremas (de último caso)
Minha opinião (pessoal)
Monopólio (exclusivo)
Multidão (de pessoas)

N
Número (exato)

O
Obra-prima (principal)
(Outra) alternativa

P
País (do mundo)
Panorama (geral, amplo)
Particularmente (do meu ponto de vista)
Passatempo (passageiro)
(Pequenos) detalhes
Planejar (antecipadamente)
Planos (para o futuro)
Pode (possivelmente ocorrer)
Pôr algo em seu (próprio) lugar
Pôr algo em seu (respectivo) lugar
Preconceito (intolerante)
Prevenir (antes que aconteça)
Propriedade (característica)

Descer pra baixo

R
Relações bilaterais (entre dois países)
Repetir (de novo): se for mais de uma vez
Retroceder (pra trás)
Retornar (de novo)

S
Sair (pra fora)
Sentido (significativo)
Seu (próprio)
Sintomas (indicativos)
Sorriso (nos lábios)
Subir (pra cima)
Sugiro (conjecturalmente)
Superavit (positivo)
Surpresa (inesperada)

T
(Terminantemente) proibido
Todos foram unânimes (Todos indica unanimidade. É melhor: todos concordaram. A decisão foi unânime)
(Totalmente) lotado

U
Última versão (definitiva)

V
Vandalismo (criminoso)
Vereador (da cidade)

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.