Mesquinho

José Horta Manzano

«Cancelei, desde o ano passado, todas as assinaturas de jornais e revistas. Ministro que quiser ler jornal e revista vai ter que comprar.»

Essa frase, pronunciada esta semana por doutor Bolsonaro, evidencia mais um aspecto maligno do caráter dele: a mesquinharia. Em repetidas ocasiões, nosso mito tem reafirmado seu agarramento a picuinhas, a revides, a pequenas vinganças.

Se essas birras obstinadas são atributos comuns na adolescência, sua persistência num adulto denota um distúrbio de personalidade. É de crer que nosso presidente teve infância infeliz.

Sabe-se que o presidente tem medo da imprensa, razão pela qual foge de jornais e revistas.

A pequena vingança simbolizada pela suspensão de jornais e revistas no Planalto faz lembrar a história do Joãozinho. Era aquele garoto que ia à rua com a bola (no tempo em que se podia jogar bola na rua) para uma pelada com a garotada. Tudo ia bem até o momento em que Joãozinho, por uma razão qualquer, embirrava. Nessa hora, ele não perguntava se os amiguinhos queriam continuar a jogar ou não: confiscava a bola e ia embora. Para os mesquinhos, vale a norma: os outros que se lixem.

Jairzinho, nosso presidente, é como o Joãozinho da história. Visto que não gosta de ler, confisca jornais e revistas sem se preocupar se os demais gostariam de ler.

Nem o Lula, apesar de confessar seu horror à leitura, ousou confiscar jornais e revistas de seus assessores e privá-los de informação confiável. Nesse ponto, Jairzinho não é igual ao Lula; é pior.

Mesquinho
A palavra mesquinho vem do árabe miskin ou meskin. Nessa língua, significa pobre, desprovido de tudo. A raiz, presente também em hebreu, é atestada já na língua acádia, falada na Mesopotâmia 3.000 anos antes de Cristo. Ao passar para as línguas europeias, o termo sofreu alteração de sentido. Nas línguas latinas, designa aquele que se agarra a coisas pequenas, que não tem grandeza nem generosidade.

Lockdown

José Horta Manzano

Chamada do Correio Braziliense, 26 fev° 2021.

Lockdown 1
Pelo que se pode observar, a imprensa brasileira já dispensa aspas em torno do termo lockdown. Nem em itálico ele vem escrito. É claro sinal de que o recém-chegado foi adotado e já faz parte da família. É gente de casa. Pode ganhar tapinha nas costas e ser chamado por você.

Lockdown é expressão inglesa. Como primeira acepção, pertence à linguagem carcerária. Prisioneiros mal-comportados perigam ser condenados a passar um tempo de castigo, em cela solitária, trancados a chave. É exatamente a situação que traduzimos por confinamento.

Portanto, o lockdown inglês tem perfeita tradução em nossa língua. Mas o som estrangeiro tem um charme irresistível, que fazer? O primeiro usou, o resto copiou.

Lockdown 2
No entanto, para dar nome à proibição de circular durante a noite e a madrugada, a palavra mais adequada não é nem a importada lockdown, nem a nacional confinamento. Quando a ordem é para ficar trancado durante apenas algumas horas, a melhor expressão será: toque de recolher.

Na origem, o toque de recolher era reservado para uso militar. Só se estendia à população em caso de guerra, revolução ou estado de sítio. Mostrando que a pandemia é verdadeiro período de guerra, a expressão foi desempoeirada e trazida à luz do dia. Está em todas as bocas. Cada língua tem seu modo de definir o mesmo dispositivo. Eis alguns exemplos:

Francês: couvre-feu
Ao pé da letra = cobre-fogo. Faz alusão à prática medieval de apagar o braseiro e cobri-lo com cinzas logo antes de ir pr’a cama. Todos os lares faziam isso à mesma hora, chamada ‘hora de cobrir fogo’. A intenção era evitar incêndios.

Inglês: curfew
É a mesmíssima expressão francesa adaptada à fonética inglesa.

Italiano: coprifuoco
Ao pé da letra: cobre-fogo. A expressão segue o modelo francês.

Espanhol: toque de queda
Ao pé da letra: toque do fico (do verbo ficar), o que é bastante explícito.

Alemão: Ausgangssperre
Em alemão, a ordem é cristalina: proibição de saída.

Sueco: utegångsförbud
Como em alemão, a ordem não se discute: proibição de saída.

Russo: комендантский час
Na língua russa, usa-se a saborosa expressão ‘hora do comandante’. Não conheço a origem, mas as duas palavrinhas dão margem a muitas interpretações.

As milhões

José Horta Manzano

Do latim, herdamos coisas boas, sem sombra de dúvida. Mas junto vieram uns espinhos. Os gêneros gramaticais, por exemplo. Pra que atribuir gênero às coisas? Só Júpiter sabe.  Por que uma porta é feminina enquanto um portal é masculino? São sutilezas que só fazem atrapalhar. Ah, que inveja do inglês, que conseguiu desatar esse nó há séculos. Mas os gêneros gramaticais fazem parte de nossa língua e somos obrigados a lidar com eles.

A desastrosa inação do governo federal gerou uma situação de angústia em que a vacinação ocupa o lugar central. Assisti ao Jornal Nacional, coisa que não fazia havia décadas. Por acaso, descobri que as edições antigas ficam disponíveis no YouTube. Na deste sábado, notícias relativas à vacinação preenchem metade do tempo; a outra metade é dedicada às trapalhadas do presidente e a notícias variadas. Imagino que, pouco mais pouco menos, sejam essas as proporções todos os dias.

Não só o jornal da tevê fala de vacina. O assunto está em todas as bocas e a mídia acompanha. Já vi várias vezes algum escriba se exprimir assim: “as 30 milhões de doses foram prometidas”; e também assim: “são dadas como certas 42 milhões de doses”.

Há que distinguir entre fala coloquial e artigo de jornal. Na fala de todos os dias, é permitido omitir um plural aqui e ali, tomar um atalho e esquecer o verbo, estropiar algum gênero gramatical. Ninguém vai olhar feio. Já na escrita séria, são caminhos a evitar. Um escorregão pode, às vezes, comprometer a seriedade de todo um artigo.

Por sua natureza substantiva, o numeral milhão é percebido como masculino. Ninguém dirá “uma milhão”, não é? Pois a regra que vale para “um milhão” vale para qualquer outra quantidade expressa em milhões. Ao fim e ao cabo, milhão será sempre percebido e tratado como se ao gênero masculino pertencesse.

Admito que soa esquisito escrever que os 30 milhões de doses foram prometidas”, mas assim são as coisas; se milhão pede o artigo no masculino, não há jeito de escapar. Reestruturar o trecho é uma solução. Para deixar a frase menos bizarra, o jeito é reescrevê-la. Pode-se reformular, por exemplo, assim: “as doses prometidas, que deverão ser da ordem de 30 milhões”. Pronto, o recado foi dado sem agressão à concordância.

Coragem, gente! Um pouco de criatividade não faz mal a ninguém.

Cara de pau

José Horta Manzano

O distinto leitor há de se lembrar daquele obscuro senador flagrado em outubro passado com cédulas de dinheiro encafuadas na cueca e enfiadas naquele lugar onde, em princípio, se costuma inserir supositório. Um senador da República (como é mesmo o nome dele?) devidamente eleito para representar seu estado!

Ressalte-se que, à época, foi revelada a suspeita de ser ele chefe de um bando criminoso, autor de ‘desvio’ (=roubo) de recursos públicos da Secretaria da Saúde de Roraima. Da Saúde! De Roraima!

Na época em que foi pilhado com o dinheiro no traseiro, foi subitamente acometido do decoro que lhe havia faltado ao preparar as notas para o transporte: pediu afastamento das funções de senador. A velhinha de Taubaté até acreditou que ele não voltasse mais. Qual o quê! Só tinha se escondido por algum tempo pra esperar baixar a poeira. O homem está de volta pra enriquecer o Senado da República com sua nobre presença.

Notas devidamente preparadas para transporte

No Brasil, o caradurismo está se tornando atitude corriqueira. Dá pra desconfiar que não é de hoje que isso acontece, visto que nossa língua tem um balaio de termos que, de perto ou de longe, se aproximam da expressão cara de pau. Vai aqui uma listinha (não exaustiva) com mais de 40 palavras. Pra facilitar a conferência, pus em ordem alfabética.

arrogante
atirado
atrevidaço
atrevido
audacioso
audaz
cafajeste
caradura
cara-lisa
cara-seca
cínico
debochado
desabrido
desabusado
desaforado
desavergonhado
desbriado (=sem brios)
descarado
desembaraçado
desfaçado (=dado à desfaçatez)
deslavado
despejado
despudorado
destravado
desvergonhado
devasso
escandaloso
folgado
imoral
impertinente
impudente (=sem pudor)
impudico (=sem pudor)
indecente
indecoroso
insolente
irreverente
ousado
petulante
procaz (importação direta do latim)
protervo (importação direta do latim)
safado
sem-vergonha
sórdido
sujo

Paetê

José Horta Manzano

Você sabia?

A Suíça carece de matérias-primas. O país não dispõe de petróleo, nem de carvão, nem de ouro, nem de ferro, nem de minerais preciosos. Não tem saída para o mar. As terras cultiváveis são escassas. Sem outra saída, os habitantes sempre tiveram de usar a cabeça – e as mãos – para sobreviver.

A indústria têxtil, que começou a se desenvolver na Idade Média, deu fama ao país. Durante muito tempo, produtos têxteis (sedas, bordados, fitas, rendas e tecidos) foram o primeiro produto de exportação. Até os anos 1920, os têxteis ainda apareciam à frente dos relógios na lista de produtos exportados.

Nos tempos de antigamente, a produção era essencialmente manual, o que pressupõe uma certa lentidão e pequenas quantidades produzidas. Com a Revolução Industrial, a fabricação deixou de ser obra de artesãos e foi se reagrupando em manufaturas organizadas. No século 19, a Suíça viveu a época de ouro de sua indústria têxtil. A máquina de bordar, inventada nos anos 1820 e aperfeiçoada nas décadas seguintes, deu impulso às artes do bordado suíço e fez sua fama.

Antes da automatização, tecidos bordados com lantejoulas, por exemplo, se destinavam a quem tinha muitíssimo dinheiro. A confecção era lenta, visto que cada pecinha de metal era costurada à mão. Essa mão de obra elevava o preço final às alturas; só quem podia encomendar eram rainhas, princesas & assemelhados. As máquinas de costurar e bordar baixaram os custos de produção e puseram tecidos bordados ao alcance da maioria.

O termo lantejoula é corruptela de lentejoula, palavra que vem do espanhol lentejuela (=lentezinha). Já na língua francesa, aquela pecinha de aspecto brilhante e metálico com um furo no meio, destinada a ser costurada ao tecido, chama-se paillette (palhazinha, da família de palha).

Um tecido recoberto de paillettes se diz pailleté, termo que se pronuncia paietê. O distinto leitor já deve ter reconhecido a origem de nossa palavra paetê. Trata-se de aproximação fonética, uma tentativa de reprodução do som original. Paetê combina com estes dias de Carnaval frustrado. E faz par com strass, que aparece no post de 12 fev° 2021.

Gente que virou coisa – 4

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 4

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

Strass
Georg Friedrich Strass nasceu em 1701 num vilarejo alsaciano, a poucos quilômetros de Estrasburgo, hoje em território francês. Desde a Idade Média, aquela região de fronteira era objeto de cobiça. Ao final de cada guerra, o território mudava de dono, oscilando entre príncipes germânicos e o governo central de Paris. Quando nasceu Georg Friedrich Strass, quem mandava era o rei da França. A instabilidade já aparece em seu registro de nascimento: o documento não foi redigido em francês, mas em alemão.

Filho de pastor protestante, Strass entrou como aprendiz num ateliê de joalheria, onde aprendeu a profissão. Com a idade de 20 e poucos anos, já se encontra em Paris trabalhando num ateliê de joalheria que produz joias muito procuradas. Imagina-se que o rapaz fosse bastante esperto, pois em poucos anos já aparece como sócio da firma.

De espírito criativo, Strass se interessou pelas joias de imitação, aquelas que aqui chamamos bijuteria. Modificando a química da preparação, conseguiu fabricar pedras preciosas artificiais tão luminosas e transparentes que tinham aspecto idêntico às verdadeiras.

O sucesso foi tão grande que o moço, que não tinha nem completado 35 anos, foi nomeado ‘joalheiro privilegiado do rei’ – um título de grande prestígio. Graças à invenção, os negócios prosperaram e Strass enriqueceu. Aos 52 anos, pôde aposentar-se e viver tranquilo até seu falecimento em 1773, aos 72 anos.

Nestes dias de Carnaval frustrado, as (falsas) pedrinhas de Strass vêm a calhar. Indumentária carnavalesca exige paetês e strass. Como o distinto leitor já se deu conta, strass – aquelas pedrinhas coloridas que fazem parte da festa – devem seu nome a Georg Friedrich Strass.

(continua)

Impeachment, impedimento

José Horta Manzano

Pela nossa legislação, qualquer cidadão da República pode solicitar a destituição do presidente da República. O pedido fundamentado de impeachment(*) será acompanhado de provas documentais e mencionará 5 testemunhas. Deve ser apresentado à Câmara Federal, que proverá.

É interessante fazer as contas de quantos pedidos de impeachment foram apresentados contra os seis presidentes que antecederam Bolsonaro. Fiz as contas de quanto tempo cada presidente permaneceu no trono e comparei com os pedidos de destituição que sofreu. O resultado é interessante.

Itamar recebeu
um pedido de impeachment a cada 183 dias

FHC recebeu
um pedido de impeachment a cada 108 dias

Lula recebeu
um pedido de impeachment a cada 79 dias

Collor recebeu
um pedido de impeachment a cada 42 dias

Dilma recebeu
um pedido de impeachment a cada 30 dias

Temer recebeu
um pedido de impeachment a cada 26 dias

e agora, senhoras e senhores, o campeão estourado:

Bolsonaro recebeu
um pedido de impeachment a cada 11 dias!

Como diz Dona Cultura
Todo mal tem sua cura
Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Desde tempos antiquíssimos já se sabe que, no final, a insistência sempre acaba vencendo. Apesar da (frágil) barreira representada por cupinchas de circunstância instalados na Câmara, não custa insistir. Pedir o impeachment de Bolsonaro sai de graça e pode render dividendos inestimáveis. Livrar-se do homem não tem preço: vale mais que acertar no milhar. Já preparou seu pedido?

Na origem, o impedimento era feito por meio de um trabelho para entravar os pés e impedir a marcha.

(*) Impeachment é palavra que importamos diretamente do inglês. É substantivo derivado do verbo to impeach. Adotamos com casca e tudo, sem mexer em uma letra sequer.

O inglês importou essa palavra do francês empêcher, lá pelos anos 1300. Na travessia do Canal da Mancha, o verbo sofreu alteração de sentido. Em francês, equivalia a nosso impedir; em inglês, adquiriu o senso de impugnar, incriminar, acusar alguém de crime contra o Estado.

Por seu lado, o francês recebeu o termo do latim medieval impedicare, evolução do latim clássico impedire, que equivale a nosso impedir.

No original latino, o verbo é composto pela partícula in + pes/pedis (=pé). Impedire, na origem, traz a ideia de prender os pés, atravancar, não deixar andar, segurar.

Não é bem o sentido que atribuímos a nosso impeachment nacional. A intenção não é segurar o presidente. O que se quer é o contrário: vê-lo pelas costas. Que corra sem olhar pra trás, vá-se embora pra bem longe e não volte nunca mais.

Preço caro?

José Horta Manzano

Chamada da Folha SP

Barato e caro são atributos da mercadoria, não do preço nem do custo. O preço (=custo) é mero indicador do valor da mercadoria.

A mercadoria pode ter muitas qualidades. Por exemplo, pode ser:

  • barata,
  • cara,
  • bonita,
  • cheirosa,
  • pesada,
  • estragada,
  • duvidosa,
  • valiosa,

que são qualidades que o preço (=custo) não pode ter.

Por seu lado, o preço (=custo) pode ser, por exemplo:

  • elevado,
  • baixo,
  • exorbitante,
  • ínfimo,
  • nas alturas,
  • irrisório,
  • insuportável,
  • dissuasivo,

que são atributos que a mercadoria não pode ter.

Portanto, “custo caro”, “custo barato”, “preço caro” e “preço barato” são expressões a evitar. É a mercadoria que é cara, não o custo. A menção do preço nos permite saber se a mercadoria é cara ou barata. Uma vez que conhecemos o custo, concluímos se a mercadoria é barata, se é cara ou se está em conta.

Na chamada do jornal, entende-se que o voto é que chega a ser mais caro; portanto, seu custo é mais elevado. Consertando:

“Custo de voto em mulheres chega a ser quase 70 vezes mais elevado que em homens”

Negar convite?

José Horta Manzano

Chamada do Valor Econômico

A reação de Donald Trump diante do convite para depor não surpreende, considerando o enorme rabo preso que o homem tem. Com as acusações que lhe pesam nas costas – incitação à violência, achaque às instituições, difusão de notícias falsas, desleixo no trato da pandemia y otras cositas –, é compreensível que ele fuja do depoimento. Já que não passa de “convite”, qualquer um fugia.

Só que o estagiário cometeu um escorrego no enunciado da chamada. Está escrito que Trump «nega convite». Não é uma construção adequada. O verbo negar, embora tenha numerosas nuances, não é sinônimo de recusar.

Negar um convite é afirmação que, neste caso, não tem propósito. Só faria sentido num caso muito especial. Suponhamos que, para o Carnaval americano (Halloween), Trump organizasse o baile das abóboras, uma festa onde só se pudesse entrar com convite. Suponhamos ainda que Biden, louco pra comparecer, pedisse pra ser convidado. Aí sim, Trump podia negar o convite (=negar-se a convidar). É que, neste caso, o emissor do convite é Trump, e ele pode conceder ou negar o convite a Biden.

Não é, evidentemente, o que o estagiário quis dizer na chamada acima. No caso presente, o convidado é o próprio Trump. Esse convite para depor pode ser aceito ou recusado, sem outra opção. Trump recusou. Portanto, a chamada do jornal ficará perfeita assim: “Trump recusa convite para depor em investigação de impeachment”.

Orquídea

José Horta Manzano

Certas palavras têm origem surpreendente. Entre elas, está orquídea, nome da simpática flor cujas múltiplas variedades estão presentes em vastas regiões do globo, da zona tropical à temperada.

O nome vem do grego. Atribui-se o batismo da orquídea a Teofrasto, filósofo grego que viveu 300 anos antes de Cristo. Na língua dele, uma das acepções do termo órkhis designa uma variedade de azeitona. Mas não foi essa acepção que deu nome à flor.

É que órkhis também significa testículo. É daí que vem o nome da orquídea. A associação de ideias tem a ver com a forma da raiz da planta, uma espécie de bulbo que lembra o atributo da genitália masculina. O D que apareceu no meio da palavra – orquíDea – é tentativa tardia de latinização. Não consta no original grego.

Como prova da relação entre a flor e a anatomia, note-se que, em linguagem médica, o elemento de formação orqui- (orquid-) é utilizado para designar os testículos. Orquialgia é dor testicular, orquidectomia – ablação de um/dos testículo(s). E assim por diante.

Parece que, depois disso, o encanto da flor diminui, não? Mas o imenso charme das orquídeas logo faz esquecer a pouca poesia das origens.

Gente que virou coisa – 3

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 3

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

Jacuzzi
Conta a lenda que Cleópatra, rainha do Egito, tomava banho com leite de jumenta. Outros juram que o leite era de cabra. Pouco importa, não vamos nos perder nessas minúcias. O que fica claro é que, já na Antiguidade, acreditava-se que o banho tinha qualidades terapêuticas e que garantia conforto, beleza e longa vida.

Que fosse de leite ou de água mesmo, reparem que Cleópatra, que era rainha, foi a única que ficou lembrada por causa do banho. Nenhum de seus súditos aparece nessa história, sinal de que o banho de imersão não estava ao alcance de qualquer um.

Por muitos séculos, banho foi exclusividade de reis e de nobres. O povão tomava banho de gato, com bacia e paninho pra esfregar. Entre nós, a generalização da água encanada é relativamente recente. Até o fim do século 19, mesmo nas cidades maiores, poucos eram os que dispunham desse conforto.

Nos início dos anos 1900, a família Jacuzzi deixa a Itália e emigra para os EUA. Na bagagem, vão conhecimentos de hidráulica, que acabarão sendo extremamente úteis mais adiante. Durante as primeiras décadas, os Jacuzzi se dedicam a desenvolver bombas d’água para a agricultura. A grande transformação do negócio tem início nos anos 1950.

Para tratar um membro da família que sofria de reumatismo, os irmãos Jacuzzi criam uma bomba de hidroterapia para ser instalada dentro da própria banheira doméstica. O resultado foi tão espetacular que todos se animaram para aperfeiçoar a ideia. Em 1968, um membro da terceira geração do clã integra um sistema de jatos múltiplos a uma banheira e patenteia a invenção: nasce assim a primeira banheira doméstica de hidromassagem.

Daí para a frente, o crescimento foi contínuo. Os sistemas Jacuzzi são hoje comercializados em mais de 60 países. No mundo todo, o nome jacuzzi tornou-se a maneira mais simples de chamar a banheira de hidromassagem. É mais um nome de gente que virou nome de coisa.

Observação
Jacuzzi é sobrenome de origem italiana. Na língua original, a grafia mais utilizada é com i inicial (iacuzzi). Na Itália, pronuncia-se iacútsi (o zz funciona como o zz de pizza). Jacuzzi é forma carinhosa e familiar (embora arcaica) de tratar alguém chamado Iacopo ou Iacobo (Jacó).

Na Idade Média, Iacopo e Iacobo eram prenomes muito apreciados. Por essa razão, são numerosos os sobrenomes que derivam deles: Iacovini, Iacumin, Iacopucci, Iacopino, Iacolucci, Iacubino, Copelli, Cobbe e dezenas de outras. Lá pelos anos 1200-1300, quando nomes de família começaram a ser atribuídos, o patriarca da família dos criadores da banheira devia ser conhecido pela alcunha de Iacuzzi.

(continua)

Cervus et amici eius

José Horta Manzano

Cervus aeger est.
Gravi morbo aeger est.
In campo procumbit, gemens.
Animalia, quae cervi amici sunt, ad eum veniunt.
Bos advenit et dicit,
“Salve, amice!”
Cervum salutans, bos cervi pabulum devorat.
Lepus quoque cervum visitat, et dicit,
“Speramus fore ut convalescas!”
Sic dicens, lepus cervi herbam comedit.
Ovis advenit, et cervi gramina carpit.
Et caper, et equus…
Omnes cervi amici, eum visitantes, pabulum eius comedunt.
Cervus convalescit, sed fame oppressus est.
“Ubi est pabulum meum?” cervus clamat.
“Ubi gramina? Ubi herba?”
Cervus et vitam et pabulum perdit.
Haec fabula docet:
Cave amicos stultos;
Ex eis plus damni quam emolumenti habebis.

O cervo e seus amigos

O cervo está gravemente doente e geme estirado no chão. Os animais, que são seus amigos, vão chegando.

Vem o boi e diz: “Olá, amigo!”. Nem bem cumprimenta e logo devora a comida do cervo.

A lebre também vem visitar e diz: “Esperamos que sares logo!” Dito isso, ela come o capim.

Chega a ovelha e pasta a grama do cervo. E a cabra, e o cavalo… Todos os amigos do cervo, ao visitá-lo, comem a comida dele.

O cervo melhora, mas está fraco e varado de fome. Ele exclama: “Onde está minha comida? Cadê a grama? Cadê a relva?” Além de perder a comida, o cervo perde a vida.

Esta fábula ensina que quem se cerca de amigos ignorantes obtém mais perdas que ganhos.

Nota 1
O texto português, fabricado por este escriba, é adaptação livre do texto latino.

Nota 2
Esta fábula foi colhida na encorpada coleção da latinista Laura Gibbs.

Nota 3
Ao ler a fábula, não pude deixar de pensar na corrida de nosso enfraquecido presidente em direção aos amigos duvidosos que ele acredita ter no Centrão. Todos vêm paparicá-lo mas, quando tiverem se fartado no pasto presidencial, o fim do namoro pode ser a inanição.

Gente que virou coisa – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 2

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

 

Macadame
Na virada do século 18 para o 19, o engenheiro escocês John Loudon McAdam (1756-1836) ocupava o posto de administrador das estradas da Escócia.

Os meios de transporte não haviam evoluído muito desde o tempo dos romanos. Em muitos sentidos, haviam até involuído. Enquanto as estradas que partiam de Roma eram calçadas com paralelepípedos, nem todas as que saíam de Londres eram revestidas. Mas o revestimento de paralelepípedo apresentava o inconveniente de chacoalhar os veículos.

Mr. McAdam inventou então um meio bom e barato de calçar as estradas escocesas. Criou uma técnica inovadora que, assentando camadas de pedras de calibres diferentes, permitia revestimento sólido, firme e mais liso. As carroças e diligências podiam rodar sem chacoalhar tanto.

Na falta de nome, o novo revestimento foi chamado com o nome do inventor. McAdam era, e macadame ficou. Embora seja menos utilizado atualmente, o termo aparece em nossa língua desde os anos 1850.

Como curiosidade, note-se que o filme Midnight Cowboy (1969), estrelado por Dustin Hoffman e conhecido no Brasil com o título Perdidos na Noite, recebeu o nome de Macadam Cowboy nos países de língua francesa.

(continua)

Gente que virou coisa – 1

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 1

Num passe de mágica, Monteiro Lobato criou Emília, a boneca que virou gente. É muito raro ver coisa que se tornou gente. Em geral, a transformação é de mentirinha e só ocorre na imaginação do autor.

No sentido inverso, também há gente que virou coisa. Estou me referindo a alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras comuns.

Silhueta
Etienne de Silhouette (1709-1767) era o alto funcionário encarregado de fiscalizar as finanças da França ao tempo do rei Luís XV. Rigoroso e implacável, granjeou impopularidade por tentar impor reformas que elevavam impostos a níveis confiscatórios.

Para zombar dele, os detratores representavam apenas o contorno de sua imagem, com o miolo vazio, recortado com tesourinha. Com isso, enfatizava-se que se tratava de personagem vazio, como o contribuinte empobrecido, cuja substância tinha sido tragada pelos pesados impostos.

Com o passar do tempo e por extensão, o nome de Monsieur de Silhouette passou a designar também as figuras humanas recortadas em papel, em que se descartava o excesso e se deixava unicamente o miolo. Entre nós, o substantivo comum foi aportuguesado para silhueta.

(continua)

Quiproquó

José Horta Manzano

Quiproquó(*), substantivo dicionarizado, é a expressão latina quid pro quo nacionalizada. Em português, assim como nas demais línguas latinas, o sentido original foi mantido. O significado é ‘isto por aquilo’ ou ‘uma coisa pela outra’. A expressão é geralmente utilizada quando há troca acidental e involuntária.

Um quiproquó pode gerar situação cômica ou até uma baita encrenca. Se, na hora da troca de presentes de Natal, você se enganar e entregar ao sobrinho de 8 anos a bolsa de água quente que era destinada à vovó, o quiproquó vai terminar em gargalhadas. Já se você tiver a infelicidade de chamar a namorada pelo nome errado, pode ter certeza de que o quiproquó não vai sair barato.

Aqui do meu posto de observação, estou vendo nascer um quiproquó originado pelas (pobres) palavras presidenciais. Já faz tempo que doutor Bolsonaro clama pelo voto impresso. Embora venha sendo eleito e reeleito por três décadas pelo sitema eletrônico, mostra-se cético quanto à confiabilidade da urna eletrônica. E não perde ocasião para exigir o tal do ‘voto impresso’.

Nas análises que tenho lido, os autores parecem ter entendido que o presidente, movido talvez por impulso saudosista digno de um Itamar Franco, gostaria que tornássemos a votar por meio de cédula de papel, como se fazia nos tempos de antigamente. Os analistas comentam, então, que isso seria um retrocesso, uma tentativa de ressuscitar um passado morto e enterrado.

A mim, não parece ser esse o desejo do presidente. Pela minha decriptagem, ele não está pedindo que a urna eletrônica seja abolida; gostaria que lhe fosse acoplada uma mini-impressora. O eleitor votaria apertando botões, como está habituado. Só que, em vez de ir embora de mãos abanando, receberia, ainda dentro da ‘cabine’, um papelzinho impresso com o nome do(s) candidato(s) escolhido(s). Com isso, imagina o doutor, o eleitor teria certeza de que seu voto foi para o candidato certo.

Cartaz de meados dos anos 1920 que denunciava o ‘voto de cabresto’.

Quando se trata de acompanhar o raciocínio de Bolsonaro, todo cuidado é pouco. Em decorrência de sua mente pedregosa, seu raciocínio tortuoso e seu vocabulário indigente, a tarefa é árdua. Sua fala exige interpretação, como se ele se exprimisse numa daquelas línguas mortas que os linguistas tentam reconstruir. Se o que o presidente deseja é realmente o que entendi, o remédio é complexo e arriscado.

Em primeiro lugar, seria preciso investir uma nota para comprar uma impressora para conectar em cada uma das 400 mil urnas em uso. Se cada dispositivo custar 100 reais, o gasto será de 40 milhões. Sem contar a quantidade industrial de tinta e de minirrolos de papel. E o agravamento do problema de urnas enguiçadas.

Em segundo lugar, a novidade seria porta aberta para a volta do voto de cabresto, enterrado há décadas. Voto de cabresto ocorre quando o poderoso do lugar (prefeito, homem político influente, patrão de usina, fazendeiro ou o que for) intima a seus comandados que votem em tal candidato. Com a urna eletrônica, não há meio de controlar se a ordem foi cumprida. Já quando o infeliz volta com o papelzinho na mão, não tem como escapar: é obrigado a mostrar ao patrão. Caso não tiver votado conforme a ordem, sofrerá as sanções reservadas aos desobedientes.

Talvez, na mente delirante do doutor, seja exatamente essa a ideia – poder controlar o voto dos humildes, seja por via do patronato fiel à ‘causa’, seja pelos bons cuidados da seita evangélica à qual o eleitor está afiliado. Que São Judas Tadeu nos acuda!

(*) Desde que o malfadado Acordo Ortográfico (AO90) entrou em vigor, a palavra quiproquó perdeu o trema (era qüiproquó). Com isso, a lista de armadilhas e de inseguranças de nossa língua engordou. Meus cultos leitores sabem que não se pronuncia kiproquó, mas sim kuiproquó.

Vista a baixa frequência de uso desse termo, os mais jovens, que nunca viram um trema pela frente, não vão ter como memorizar. É permitido crer que, dentro de alguns anos, a pronúncia padrão terá virado kiproquó. A boa notícia é que, até lá, o doutor terá pendurado as chuteiras – uff! Estaremos lidando com problemas novos. Novos?

FIGHT

José Horta Manzano

Acabo de ler relato que revela que Donald Trump, para incitar sua milícia a marchar sobre o Capitólio de Washington, tuitou a palavra FIGHT (=luta). O artigo diz que o presidente escreveu em letras capitulares. Não é bem assim.

Em tipografia – atividade em via de extinção –, faz-se a diferença entre letras capitulares e letras maiúsculas.

Letras capitulares (ou letras capitais)
Fora de moda há séculos, a letra capitular, como seu nome indica, era a primeira letra de cada capítulo de um livro. Estava de moda na Idade Média, ao tempo em que livros eram copiados à mão, letra por letra, capítulo por capítulo.

A letra capitular, de tamanho bem maior que as demais, era bordada a bico de pena de ganso segundo o estilo de iluminura medieval, com arabescos, douraduras e tudo o mais que a fantasia do escriba criasse.

Letras maiúsculas (ou caixa alta)
Letra maiúscula é artigo bem mais prosaico. Para grafá-la, não precisa ser versado nas artes da iluminura – basta ter seguido com atenção as aulas de dona Dorinha, professora do primeiro ano. Todos conhecem a diferença entre letras maiúsculas e minúsculas – que os tipógrafos chamam de caixa alta e caixa baixa.

Resumindo, Trump não grafou sua LUTA(*) em letras capitulares. Como é que havia de fazer isso numa telinha de celular, com um dedo e sem pena de ganso? O que ele fez foi apenas escrever em letras maiúsculas.

(*) Ao falar de Trump e de Minha Luta, associei imediatamente a Mein Kampf (Meu Combate), livro escrito por Adolf Hitler em 1925, que continha a linha mestra de seu pensamento. Pensamento este que foi posto em prática anos mais tarde e que deu no que deu. Te esconjuro!

Loser

José Horta Manzano

Ingleses e americanos são bons pra criar expressões de gíria. Não sei se é a língua inglesa que se presta bem a esse contínuo exercício de criação ou se é o espírito do povo que combina com ele. Talvez os dois.

A palavra loser (=perdedor) é substantivo derivado do verbo to lose (=perder). No meio estudantil americano de meados do século 20, o termo loser adquiriu uma acepção insultuosa. Passou a designar não aquele que eventualmente deixa de vencer numa ocasião precisa – como uma partida de xadrez – mas o perdedor infeliz, habitual e contumaz, o indivíduo que não vence nunca e que passa a vida perdendo todas. No falar popular americano, a melhor tradução é fracassado, ofensa doída num país em que a meritocracia é erigida em ideal nacional.

Faz anos que Donald Trump se apresenta como o homem que vence todas, o líder carismático que tem sempre razão e que traz no bolso do colete a solução simples para males complexos; um verdadeiro deus ex machina que há de redimir o país desnorteado e à deriva. Foi assim que vendeu seu peixe e foi com esse discurso que venceu a eleição de 2016.

Quatro anos se passaram. Trump governou de olho nas pesquisas, sempre jogando para a plateia interna, um tanto descolado do fato de presidir a maior potência planetária. Não há de ter desagradado tanto assim, visto que, na corrida para o segundo mandato, recebeu mais de 70 milhões de votos. Mas o que conta é o resultado, que lhe foi desfavorável: perdeu a eleição.

O balanço de sua gestão é pra lá de negativo: perdeu a Câmara (House of Representatives) para os democratas; perdeu o Senado também para os democratas; e, pra coroar, perdeu as eleições. O homem perdeu todas! Tornou-se um loser! Um fracassado!

Essa pancada no orgulho está na origem de suas atitudes alucinadas estes últimos tempos. Durante a vida, Donald Trump já deve ter usado inúmeras vezes a palavra loser como insulto. Sentir agora a ofensa na própria carne deve ser insuportável. Loser! Loser! Loser!

Feliz ano-novo ou feliz ano novo?

José Horta Manzano

O ano de 2020 não foi fácil. Pandemia nas ruas e destrambelhados no governo criaram uma combinação tóxica que nos envenenou a todos. Salvou-se quem pôde, mas muitos ficaram pelo caminho. Todos nós almejamos por um 2021 melhor. O que queremos mesmo é ver 2020 pelas costas.

Pessoalmente, o ano que finda vai deixar uma única saudade: é ter sido número redondo. O próximo só daqui a dez anos. Ano redondo facilita contas do tipo ‘faz 30 anos’ ou ‘daqui a 25 anos’ – o resultado sai numa conta de cabeça, rápida e sem erro. Além disso, 2020 tinha o jeitão simpático de duas dezenas que se repetem, um fenômeno raro. Pra revê-lo, precisa esperar até 2121. Temo que nenhum de nós consiga chegar lá. Infelizmente.

Estes dias, todos querem desejar aos amigos um novo ano feliz. Falar é fácil, escrever é mais complicado. Ano-novo ou ano novo? Com tracinho ou sem? Ambas as formas são aceitas, só que elas não dão o mesmo recado. Vamos conferir.

Ano-novo (com hífen) é expressão que consta nos dicionários brasileiros. Tem o significado de «a passagem de 31 de dezembro para o 1° de janeiro» ou «o dia 1° de janeiro». Portanto, ano-novo (com hífen) delimita um momento preciso: o nascimento do novo ano, que é o espaço de tempo englobando, grosso modo, o último dia de um ano e o primeiro do ano seguinte.

Ano novo (sem hífen) é reles sequência de substantivo + adjetivo; não aparece no dicionário. Refere-se ao ano inteiro.

Quando a gente quer exprimir os votos, fica assim. Se o desejo for expresso oralmente, o problema desaparece. Com ou sem hífen, a pronúncia é a mesma. Já se for por escrito, é bom saber que:

Feliz ano-novo! (com hífen)
exprime o desejo de que a pessoa passe um réveillon feliz. Equivale à saudação ‘Boas entradas!’.

Feliz ano novo! (sem hífen)
exprime o desejo de que a pessoa passe um ano inteiro feliz.

Desejo a todos os distintos leitores um feliz ano-novo e um feliz ano novo.

Observação
Em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, ninguém dá atenção a essas sutilezas. Não se usa hífen. Maiúscula ou minúscula? Fica ao gosto do freguês, mas geralmente se vê com maiúsculas. Nossa obsessão com minúcias gráficas não combina com um povo que devia mais é se preocupar em despoluir a escrita a fim de simplificar a instrução de sua massa de iletrados.

Poubelle

José Horta Manzano

O distinto senhor retratado acima é Filippe Poubel. Foto instantânea é às vezes ingrata e pode dar imagem negativa do fotografado, portanto é bom esclarecer: Senhor Poubel é deputado estadual, eleito pelo povo do Rio de Janeiro. A foto foi publicada pelo próprio numa rede social.

Segundo sua assessoria de imprensa, ele se encontra atualmente “sob proteção do Estado após a Polícia Civil do RJ constatar, através de escutas, alto risco contra sua vida”. Essea ameaça pode explicar a pose de “venha me buscar se for homem”.

Na Europa, lá pelo final do século 19, cidades importantes começavam a virar metrópoles, com milhões de habitantes amontoados em espaço exíguo, com ruelas estreitas e malcheirosas. Em Paris, a coleta de lixo já existia. À espera da carroça do lixeiro, a população enchia as ruas com pilhas de entulho, transformando a cidade num espetáculo sórdido.

Em 1883, Monsieur Eugène Poubelle, autoridade regional com jurisdição sobre a cidade de Paris, assinou decreto impondo aos proprietários de imóveis que fornecessem a cada inquilino um recipiente padronizado para armazenar o lixo – o que chamamos hoje lixeira. Dimensões, características e formato estavam definidos no decreto. A novidade foi tão impactante, que o povo acabou dando o próprio nome da autoridade ao recipiente: até hoje, na França, lata de lixo não tem outro nome senão poubelle, substantivo feminino.

Na origem, o sobrenome francês Poubel (e sua variante Poubelle) é uma alcunha. Conto a história. Na época em que nomes de família começaram a ser atribuídos, 700 ou 800 anos atrás, essa estirpe foi iniciada por um indivíduo «pouco belo», um modo eufemístico (e sarcástico) de dizer que ele era muito feio. Na época e no dialeto de determinadas regiões, era assim que se dizia pouco belo: “pou bel”; em francês padrão atual ficou “peu bel” ou “peu beau”. A descendência do patriarca acabou herdando a alcunha, que virou sobrenome.

Pelo que se vê na foto, o nobre deputado, que belo não é, faz jus ao significado originário do sobrenome. Já quanto ao recipiente padronizado inventado por Monsieur Poubelle, cabe ao distinto leitor julgar se a pose do parlamentar merece terminar na lata do lixo. Ou não.