Antepassados analfabetos

José Horta Manzano

Primeiro, uma afirmação peremptória: todos nós temos antepassados que nunca aprenderam a ler nem a escrever. Basta lembrar que, como ninguém foi trazido no bico da cegonha, descendemos todos de seres selvagens. Que tenham vindo das savanas africanas, das cavernas europeias, das grutas extremo-orientais ou das florestas tropicais, todos temos antepassados analfabetos. Podem ser mais distantes ou mais próximos, mas, lá na origem, a realidade é sempre a mesma.

Cento e cinquenta anos atrás, só ínfima porção da população do país era letrada. Também dos estrangeiros que aportavam, boa parte era constituída de analfabetos. Não há que se envergonhar disso, que era assim no mundo todo. Do encontro desses dois contingentes de semiletrados, algumas consequências nos afetam ainda hoje. Uma delas é a deturpação na grafia do nome de família de imigrados.

Vários fatores se conjugaram para generalizar erros na transcrição:

  • A dificuldade de compreensão mútua entre o que chegava e o encarregado de registrar a entrada
  • A imprecisão de documentos de viagem
  • O iletrismo que grassava à época
  • A necessidade de transcrição de nomes que, na origem, não eram grafados em alfabeto latino
  • O stress do momento

Ainda está para ser feito estudo para quantificar a frequência de erros de grafia de sobrenomes importados. Eu arriscaria dizer que um em cada quatro ou, quem sabe, até um em cada três nomes está mal escrito e não bate com o original.

Estes dias, duas figuras de primeiro plano estão em todas as bocas. São os doutores Bolsonaro e Bebianno, respectivamente presidente da República e (quase ex-) ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Além do título imponente, têm ambos um ponto em comum: a grafia estropiada do sobrenome.

Bolsonaro
Tudo indica que Bolsonaro é transcrição errônea do original Bolzonaro. Etimologistas e genealogistas não estão totalmente de acordo, mas deveria tratar-se de topônimo, isto é, nome de lugar geográfico. O patriarca da família ‒ aquele que, lá pelo século 13, legou sobrenome à descendência ‒ há de ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza (Vêneto), Itália. Outra corrente propõe o vocábulo dialetal vêneto ‘bolzon’ como origem. É palavra-ônibus de múltiplos significados. Na Itália, Bolzon sobrevive como nome de família.

Bebianno
O original italiano se escreve Bibbiano, com dois bb e um só n. Esse sobrenome é um patronímico, ou seja, deriva do prenome do patriarca que deu nome à estirpe. Esse antepassado longínquo há de ter recebido o prenome de Bibiano, que lhe terá sido dado em devoção a São Bibiano (São Viviano). Na Itália, restam pouquíssimas famílias com esse sobrenome, concentradas no sul do país.

Pessoalmente, não gostaria de carregar um nome mal grafado. Parece que emperra a vida. Faria o possível e o impossível pra consertá-lo. Seja como for, com nome certo ou errado, é importante ser sempre claro em gestos e palavras. Os dois protagonistas citados neste post caíram na cilada da comunicação truncada e obscura. As intrigas palacianas, que saltam sobre qualquer ocasião, deram conta da cordialidade que terá um dia existido entre os dois. Nesse episódio, só houve perdedores. Por falta de clareza, saíram ambos chamuscados e diminuídos.

Com ou sem crase? ‒ respostas

Dad Squarisi (*)

Aqui está a solução do teste de ontem sobre o emprego do sinal indicativo de crase.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer às mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes às duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu à sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava à toa na vida.

10. Aquela pasta é igual à que comprei.

11. Fez prova semelhante à de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou à conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h às 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a (à) tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê à vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h às 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido à percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido à falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar à frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol à brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se à Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei à Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a (à) Teresinha.

36. Retornou à casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde às expectativas do grupo.

40. Colocou o painel à direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a (à) instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá às pessoas.

43. Fez referência a (à) minha tia e à sua.

44. Dirigiu-se àqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se às que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria à qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou à casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente à distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife à milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. À medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores à beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas à senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui à Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Com ou sem crase?

Dad Squarisi (*)

Muitas vezes, o uso da crase dá dor de cabeça. Vai aqui abaixo um teste com 65 questões sobre o emprego do sinalzinho indicativo de crase. O distinto leitor está convidado a examinar cada frase e anotar se o a (as) deve ou não receber acento grave. As respostas serão publicadas amanhã.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer as mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes as duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu a sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava a toa na vida.

10. Aquela pasta é igual a que comprei.

11. Fez prova semelhante a de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou a conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h as 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê a vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h as 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido a percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido a falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar a frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol a brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se a Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei a Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a Teresinha.

36. Retornou a casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde as expectativas do grupo.

40. Colocou o painel a direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá as pessoas.

43. Fez referência a minha tia e a sua.

44. Dirigiu-se aqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se as que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria a qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou a casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente a distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife a milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. A medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores a beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas a senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui a Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

Amanhã vêm as respostas!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

De onde vem o nome dos meses?

Dad Squarisi (*)

Janeiro
O primeiro mês do ano homenageia Jano. O deus grego tem duas caras. Uma olha pra frente. A outra, pra trás. A primeira abre as portas dos 365 dias que se iniciam. A segunda fecha as do ano que se despede. Janela, que também abre e fecha, pertence à família do entra e sai.

Fevereiro
O segundinho, que tem menos dias que os irmãos, se inspira em Februa, deus da purificação dos mortos.

Março
Epa! Marte, o deus da guerra, originou vários nomes na nossa língua de todos os dias. Um deles é março. Outros, Márcio e Márcia. Marciano também. E marcial? Idem.

Abril
Todos a amam e todos a querem. Trata-se de Vênus, a deusa do amor e da entrega. Em homenagem a ela, criou-se aprilis. Trata-se da comemoração sagrada dedicada à musa olímpica. Daí nasceu abril.

Maio
A primavera no Hemisfério Norte corresponde ao nosso outono. Com inverno rigoroso, os campos se cobrem de neve, e a agricultura sofre. As comemorações que se faziam depois do frio reverenciavam Maia e Flora – deusas do crescimento de plantas e flores.

Junho
Hera em grego. Juno em latim. Ela era a primeira-dama do Olimpo. Defensora incondicional do casamento, ao descobrir as traições do marido, Zeus, não punha em risco o próprio lar. Punia a outra. Passou a ser considerada a protetora da maternidade. Para render-lhe loas, junho se chama junho.

Julho
Julho era o quinto mês do ano antes de janeiro e fevereiro mudarem de lugar. Chamava-se quintilis. Mas, em 44 a.C., mudou de nome por causa de Júlio César. O grande líder romano foi assassinado por gente de casa, Brutus, o próprio filho. Mas não caiu no esquecimento. Ganhou lugar cativo na história e no calendário.

Agosto
Agosto, que rima com desgosto, serve de prova da ciumeira. Por ser o sexto mês do ano, chamava-se sextilis. Mas, como julho balançou o calendário, o primeiro imperador de Roma, sucessor de Júlio César, não ficou atrás. “Eu também quero”, disse ele. Levou. Agosto se chama agosto em homenagem a Augustus.

Setembro, outubro, novembro e dezembro
O quarteto não estava nem aí para a mudança de janeiro e fevereiro. Eles mantiveram o nome. Setembro, do latim septem, era o sétimo mês do ano. Outubro, de octo, o oitavo. Novembro, de novem, o nono. Dezembro, de decem, o décimo.

Gregoriano
Ufa! Até chegar à forma de hoje, o contar dos meses sofreu muitas alterações. Com elas, falhas foram corrigidas. A última mexida, do papa Gregório XIII, ocorreu em 1582. Por isso nosso calendário se chama gregoriano.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Naturalizadas

José Horta Manzano

O que têm em comum as palavras envelope, etiqueta, guichê e raquete? Aparentemente, nada. O que as põe na mesma lista é o fato de virem todas do francês.

O apogeu da França como potência colonial e centro difusor do saber coincidiu com a Revolução Industrial, a expansão da ferrovia, a navegação a vapor. Foi período em que palavras tiveram de ser inventadas pra designar fatos e objetos novos. Como as novidades apareciam na França, as palavras foram criadas no idioma daquele país.

Durante séculos, o francês esteve na posição que ocupa hoje a língua inglesa. Foi o maior fornecedor de termos não só para o português mas para as demais línguas.

Rastros se encontram até hoje, cristalizados, nas mais variadas línguas:

  • Sueco chama a calçada de trottoar (=trottoir) e evento de evenemang (=évènement).
  • Italiano chama mamadeira de biberon (=biberon) e sobremesa de dessert (=dessert).
  • Inglês chama terça-feira de Carnaval de mardi gras (=terça-feira gorda) e beco sem saída de cul-de-sac.
  • Turco chama cadeira de praia de şezlong (=chaise longue) e enxaqueca de migren (=migraine).
  • Alemão chama escritório de Büro (=bureau) e beringela de Aubergine.
  • Espanhol chama a estreia de um artista de debut (=début) e o papel que ele representa de rol (=rôle).
  • Dinamarquês chama motorista de chauffør (chauffeur) e guarda-chuva de paraply (=parapluie).
  • Russo chama concreto armado de Бетон (=béton) e estribilho de Куплет (=couplet).

Em nossa língua, palavras de origem francesa existem de baciada. A maior parte delas está aportuguesada. A quantidade é tamanha, que, em muitos casos, a gente nem se dá mais conta de serem artigos importados.

Madame, abajur, guidom e croqui ainda conservam um pouco de sotaque. Mas quem se lembra de que paletó, filé, chapéu, choque e chantagem entraram um dia de passaporte na mão?

A lista é muito longa. Aqui vai um apanhado bem resumido:

        • carnê
        • patoá (dialeto não escrito)
        • placar
        • cachecol
        • greve
        • jargão
        • purê
        • bijuteria
        • tricô
        • crochê
        • gafe
        • cupom
        • cabaré
        • bidê
        • bufê
        • maionese
        • omelete
        • garagem
        • brevê
        • habitué
        • déjà-vu
        • marrom
        • dossiê,
        • boate
        • cassetete
        • sutiã
        • vitrine
        • suflê
        • couvert
        • croissant
        • avalanche
        • réveillon
        • charrete
        • cachê
        • buquê
        • maiô
        • maquiagem.

      E por aí vai.

Cavanhaque

José Horta Manzano

Na primeira metade do século 19, a França viveu uma época de grande agitação social, com insurreições, golpes e revoluções. Louis Eugène Cavaignac (1802-1857) destacou-se como militar e homem político. O homem marcava presença em todos os movimentos. Só sossegou quando perdeu (feio) as eleições presidenciais de 1848. A propósito, diga-se que, despeitado, recusou-se a reconhecer o resultado do pleito.

Na França, é um nome histórico um tanto esquecido. Pouco se ouve falar dele. Já no Brasil, curiosamente, o general é lembrado diariamente. É que, por uma dessas peças que história prega, o francês emprestou seu sobrenome a um atributo masculino que está muito de moda: o cavanhaque.(*)

É interessante notar que, de uma trintena de línguas que consultei, nenhuma usa essa palavra pra indicar a barbicha que muitos homens, hoje em dia, deixam crescer na ponta do queixo. Na pátria do general, o atributo se chama barbiche ou barbichette. Várias línguas lembram da imagem do bode e dizem algo como barba de bode (kaprobarbo em esperanto, por exemplo).

General Louis Eugène Cavaignac (1802-1857)

Descobrir o porquê desse uso nosso custou alguma pesquisa. Em Portugal, a barbicha chama-se pera(ê). A palavra cavanhaque, para nomear essa excrescência pilosa, é exclusividade brasileira. Pelo que consegui encontrar, teria sido usada pela primeira vez por um dos integrantes da equipe do Marechal Rondon, o conhecido sertanista.

Quem relata é o filósofo e linguista francês Jacques Derrida (1930-2004), em seu livro De la Grammatologie. Os sertanistas costumavam dar apelidos aos índios. Numa incursão, em contacto com uma tribo de nhambiquaras, travaram conhecimento com um indígena de barbicha ‒ coisa rara, visto que índios costumam ser imberbes. Um dos sertanistas deu-lhe o apelido de Cavanhaque, justamente por achá-lo parecido com o general francês. Não consegui saber como é que o apelido de um índio se difundiu a ponto de cobrir o país inteiro.

Se tudo isso é verdade, não posso garantir. É o relato fiel do que encontrei. Se alguém tiver melhor explicação, eu ficaria feliz em conhecer.

(*) Cavaignac pronuncia-se cavenhac.

Deportação e extradição

José Horta Manzano

«Battisti foi extraditado imediatamente pelo governo boliviano» ‒ li nalgum lugar. Bobeou quem escreveu isso. Confundiu atos distintos.

Deportação
É a expulsão sumária de indivíduo indesejado no país ‒ o mais das vezes, por ter entrado irregularmente. Frequentemente, brasileiros incapazes de demonstrar possuir meios de subsistência durante a estada no país são deportados da Espanha, de Portugal, dos EUA. Em geral, não chegam nem a sair do aeroporto.

Extradição
É processo muito mais complexo que a simples deportação. A extradição de um indivíduo se concede em atendimento a pedido de país estrangeiro. Só é autorizada depois de exame aprofundado da documentação enviada pelo governo requerente. Via de regra, os extraditandos são pessoas condenadas ou acusadas de crime.

O caso Battisti
Culpado de ter adentrado o território boliviano irregularmente, Battisti foi deportado pelo governo daquele país. Os policiais italianos, que por acaso passavam por ali, ofereceram-se para escoltar o clandestino de volta à pátria. Agradecidas, as autoridades bolivianas entregaram o homem.(*)

Comentário malicioso
No oficial, o governo de Evo Morales entregou o criminoso de mão beijada, sem contrapartida. No paralelo, não é proibido imaginar que tenha recebido um agradozinho. Aviões costumam levar muitas malas ‒ e o trimotor da aeronáutica militar italiana era bem grandinho.

(*) No rigor jurídico, o terrorista foi mesmo é sequestrado pela polícia italiana, enfiado num avião militar e carregado à Península. Guardadas as devidas proporções, lembra o caso de Adolf Eichmann, nazista de alto coturno sequestrado na Argentina em 1960 por agentes secretos israelenses e levado a Israel, onde foi julgado, condenado e executado.

Sentar perto e sentar longe

José Horta Manzano

O presidente que, há duas semanas, assumiu o mandato confiado pelo povo brasileiro será, pelos próximos quatro anos, um residente do Palácio da Alvorada. A não ser que prefira viver na Granja do Torto. Ou, caso anseie por maior destacamento do bem público, opte por morar em casa própria ‒ ou em apartamento próprio, o que vem ao mesmo.

Sedente no trono e motivado pela obsidente catástrofe causada pelas gestões precedentes, torce pra conseguir apoio parlamentar para as reformas que pretende implementar. Faz votos pra que, nas próprias tropas governistas, não apareça nenhum dissidente.

Observação etimológica
As palavras grifadas em azul pertencem todas à mesma família. São todas aparentadas aos verbos latinos sĕdēre «estar sentado» e sīdĕre «pôr-se a sentar, fazer o movimento de sentar-se».

Sentido original das palavras grifadas

  • presidente: aquele que se senta antes dos outros ou à frente dos demais
  • residente: aquele que permanece sentado em algum lugar
  • sedente: aquele que está sentado
  • obsidente: aquele ou aquilo que causa obsessão
  • dissidente: aquele que, por discordar, se senta afastado dos demais

Pente-fino

José Horta Manzano

Chamada O Globo, 8 jan° 2019

Este blogueiro é do tempo em que goiaba não nascia em pé de goiaba, mas em goiabeira.

Tudo era diferente naquela época. Quem fazia pente, por exemplo, era a fábrica. O utilizador passava o pente.

Ah, tem mais! Substantivo composto, pente-fino se escrevia assim, com hífen. (Aliás, continua-se a escrever do mesmo jeito.) Pente fino (sem hífen) é qualquer pente de pouca espessura. Pente-fino (com hífen) é objeto específico, que todos conhecemos, excelente pra tirar piolho. Aliás, o pente-fino nem é tão fino assim ‒ o espaço entre os dentes é que é reduzido.

Dicionários, que não costumam mentir, estão aí, loucos pra serem consultados.

Extorsão ‒ bis

Texto publicado originalmente em 12 maio 2016

José Horta Manzano

O verbo latino torquere deixou descendência abundante. Está na raiz de torcer, distorcer, contorcer, retorquir, torto, torso, entortar, tocha. Aparece também em derivados como torção, distorção, tortuoso, retorção (retorsão), tortilha, contorção, torta. Torcedor, tortura, tortellini e até torcicolo estão na mesma árvore genealógica.

Deixei fora da lista um filhote importante: extorquir. Nestes tempos violentos em que bandidos fazem a lei, o verbo anda muito na moda. O assaltante que, num sequestro relâmpago, obriga o infeliz cidadão a retirar dinheiro do caixa eletrônico está cometendo extorsão. O criminoso que chantageia alguém está tentando extorquir algo da vítima, geralmente dinheiro.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016 A moça não foi extorquida. Informações foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência)do telefone dela. Em seguida, o pirata tentou chantageá-la.

Chamada do Estadão, 12 maio 2016
Essa notícia fez furor cerca de três anos atrás. Erraram todos os jornais que consultei. A moça não foi extorquida. Informações é que foram extorquidas (arrancadas por ardil ou violência) do telefone dela.

O conceito envolve sempre a violência, explícita ou velada. Extorquir é obter alguma coisa de alguém por meio violento ou ameaçador. Portanto, não se extorque uma pessoa, extorque-se algo dessa pessoa.

Embora seja corriqueiro dizer que «fulano foi extorquido», a boa língua recusa essa formação. Correto será dizer que dinheiro foi extorquido do indivíduo assaltado ou que a confissão foi extorquida por meio de pressão psicológica.

Em resumo, a coisa é que é extorquida, não a pessoa. Extorquir equivale a arrancar com violência. Portanto, arrancar algo de alguém.

Noite Feliz

José Horta Manzano

Você sabia?

Os tempos eram duros na Áustria daquele começo de século 19. Naquele mundo mal emergido do regime feudal, a luta pela sobrevivência era espinhosa. Longe dos grandes centros, pior ainda.

O jovem Franz Xaver Gruber teve a sorte de receber instrução e iniciação musical. Ao atingir a maioridade, casou-se. Logo chegaram os filhos. À busca de rendimento pra sustentar a família, Herr Gruber encontrou uma colocação como professor de primeiras letras e organista na igreja do vilarejo de Arnsdorf, perto de Salzburgo.

Selo lançado pelos Correios Austríacos por ocasião do 150° aniversário do falecimento de Franz Xaver Gruber

Mais adiante, o músico recebeu novas responsabilidades. Foi nomeado organista e maestro de coro no vizinho Oberndorf bei Salzburg, vilarejo bem maior. Compositor a horas perdidas, ele decidiu apresentar uma peça nova para ser tocada na Missa do Galo daquele ano. Era bom de música, mas não tinha o dom de escrever versos. Deu com uns escritos de Joseph Mohr, padre que exercia seu ofício na mesma paróquia, e pôs-se a musicá-los.

Na véspera do Natal de 1818, o mundou ouviu, pela primeira vez, a melodia criada por Gruber: Stille Nacht, Heilige Nacht, que conhecemos como Noite Feliz. ‘O mundo ouviu’ é afirmação pra lá de exagerada. Quem ouviu a ‘première’ foram os poucos fiéis que tinham enfrentado o frio para assistir à missa da meia-noite. Como acontece muitas vezes, um sucesso planetário teve início modesto.

Partitura manuscrita de Noite Feliz.
Ainda sem título, vem descrita como Weyhnachts-Lied – Canção de Natal

Esquecida durante as primeiras décadas, a melodia ressurge em meados do século 19, primeiro como peça orquestral. A simplicidade da linha melódica, comovente, parece combinar com o espírito de Natal. Tanto é que, já na virada do século 19 para o 20, boa parte da Europa já conhecia a canção.

Estes dias, Noite Feliz está comemorando 200 anos de existência. De seu nascimento até hoje, já se registram mais de 300 versões gravadas em 45 línguas. De Bing Crosby a Justin Bieber, de Plácido Domingo a Fats Domino, muitíssima gente fina já gravou a canção.

A versão portuguesa foi feita há mais de cem anos. Por questões de métrica, o original alemão «Stille Nacht, Heilige Nacht», que significa «Noite Silenciosa, Noite Santa» deu lugar a nosso familiar «Noite Feliz».

Sem dizer água vai

José Horta Manzano

Você sabia?

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

No Rio de Janeiro, a solução era simples. Os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam-se na bacia e faziam suas necessidades no penico. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

Paraty (RJ)

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgoto doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo. Ainda bem.

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

As vigílias

José Horta Manzano

Champanhe na geladeira, peru no forno, castanhas e avelãs sobre a mesa, rabanada preparada, é o réveillon que chegou. Época de confraternização, de alegria e de bons propósitos para o novo ano.

Réveillon – mas de onde é que vem essa palavra tão repetida e tão exótica? Pois é francesa. É da família do verbo latino vigilo, que significa estar desperto.

Em nossa língua, a parentela é extensa: vigia, vigiar, vigilante, velar, vigília (véspera de certas festas religiosas). Vela e velório fazem parte do clã. Todas essas palavras carregam o sentido de cuidar, de não estar dormindo.

Reveillon 1No Brasil, associamos o réveillon unicamente à noite de fim de ano. Já os franceses dão sentido mais amplo. Em princípio, qualquer noite em que se vai para a cama mais tarde poderia ser chamada de réveillon. O uso, no entanto, é dar esse atributo a duas noites especiais. A primeira é a noite de Natal, réveillon de Noël – a vigília de Natal. A segunta é a noite da passagem de ano, dita réveillon de la Saint-Sylvestre.

Bom réveillon a todos e boas-entradas, como se dizia antigamente. Que 2019 seja alegre, sorridente e traga muita saúde!

Lunfardo ‒ bis

Texto publicado originalmente em 19 dez° 2012

José Horta Manzano

Você sabia?

Lunfardo é a gíria que nasceu e cresceu em Buenos Aires, na malavita portenha, no submundo dos fora da lei. Com o passar das décadas, um número cada vez maior de expressões foi caindo, digamos assim, no ‘domínio público’. Palavras e expressões antes reservadas a bandidos são hoje utilizadas no dia a dia por pessoas comuns.

Surpreendentemente, muitos desses termos de argot argentino passaram ao português brasileiro. Não se sabe direito se atravessaram a fronteira ou se terão vindo de contrabando embutidos na letra de velhos tangos. Talvez um pouco de cada. O fato é que usamos, sem saber, gíria importada. Para os ultranacionalistas, pode até parecer um escândalo. No fundo, é simplesmente um aporte a mais, uma contribuição para a riqueza de nossa fala.

by Liliana Rago, artista argentina

Aqui está uma pequena coletânea de expressões lunfardas que aparecem na gíria brasileira.

Lunfardo    Brasileiro
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Machete     Macete (ajuda-memória)
—————————————————————————————————————————————————-Malandro    Malandro
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Piráo       Pirado
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Mamado      Mamado (bêbado)
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Campana     Campana (ajudante de ladrão que vigia)
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Mancar      Se mancar (compreender)
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Cana        Cana (prisão)
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Matina      Matina (manhã cedo)
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Mortadela   Presunto (cadáver)
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Patota      Patota (bando)
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Punga       Punguista (batedor de carteira)
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Vivo        Vivo (astuto)
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Bacanazo    Bacana (refinado)
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Bancar      Bancar (pagar)
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Dar bola    Dar bola (prestar atenção)
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Bronca      Bronca (raiva)
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Chupado     Chupado (bêbado)
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Burro       Burro (ignorante) (1)
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Tira        Tira (investigador de polícia)
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Labia       Lábia
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Mina        Mina (moça)
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Llenar      Encher (aborrecer)
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Lleno       Cheio (mal-humorado)
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Cabrero     Cabreiro (furioso)
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Mangos      Reais (dinheiro)
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Caradura    Caradura
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Catinga     Catinga (mau cheiro corporal)
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Manyado     Manjado (conhecido)
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Chumbo      Chumbo (bala de revólver) (2)
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Pechar      Peitar
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Coco        Coco (cabeça)
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Gozar       Gozar (zombar) (3)
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Grupo       Grupo (mentira, história inventada)
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Gurí        Guri (criança) (4)
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(1) Normalmente, burro é usado para qualificar indivíduo cabeçudo

(2) Chumbo (o elemento) é palavra portuguesa. Em espanhol, diz-se plomo. Poderia bem tratar-se de palavra exportada do português para o lunfardo.

(3) Os espanhóis usam gozar com o sentido de passar um bom momento. Para dizer zombar, preferem mofarse

(4) Alguns etimólogos atribuem a essa palavra origem tupi, o que explicaria que se encontre no castelhano platino e também no português do Brasil

Os automóveis

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos primeiros anos dos século XX, a língua francesa vivia um período de prestígio mundial. Embora já não exercesse predominância absoluta como nos anos 1700, sua influência ainda era notável. No Brasil, a moda, os remédios, os alimentos enlatados, os livros e as revistas vinham de Paris.

Aprisionado a seu desterro tropical, o brasileiro endinheirado só tinha olhos para o que chegasse da França. Tudo o que de lá viesse era bem-vindo. Chique mesmo era mandar vir uma preceptora francesa para guiar os pequerruchos ‒ privilégio só concedido a muito poucos.

Por aqueles anos, os primeiros automóveis começaram a rodar sobre os sacolejantes paralelepípedos das ruas brasileiras e pelos caminhos do interior, picadas poeirentas que só costumavam ver passar carros de boi. Dá pra imaginar o espanto das gentes que, à beira da estrada, observavam bólidos malucos, que desafiavam as leis do bom senso ao disparar a 25 ou 30 quilômetros por hora!

O ‘vehiculo automovel’ descrito no Almanaque Richards de 1909
Repare que a palavra automóvel é usada indistintamente como substantivo e adjetivo

A maior parte das peças que compõem o automóvel tem nome francês. Embreagem, capô, freio, marcha, banco, carburador, virabrequim, manivela, escapamento, volante, vela, radiador, alternador, pistão, biela, bobina, distribuidor, bateria, condensador ‒ cada uma dessas palavras é o aportuguesamento ou a tradução literal do original francês.

A palavra automóvel, naturalmente, também vem de Paris. A curiosidade é que, no início, era um adjetivo. A expressão original é «veículo automóvel», que designa o veículo que se move por si mesmo, como uma geladeira autodescongelante ou um profissional autodidata. Nos primeiros anos, a palavra importada foi utilizada como adjetivo. Na França, ainda hoje, um carro pode ser chamado indiferentemente de automobile ou de véhicule automobile.

No Brasil, essa flutuação vigorou durante uns poucos anos. Rapidamente, na certa por ser expressão muito comprida, o antigo vehiculo automovel saiu de cena e abriu passo para o substantivo automóvel. Bênção e praga dos tempos modernos.

Ordem inversa traiçoeira

José Horta Manzano

Quando estamos numa roda de amigos ou papeando na cozinha de casa, temos todos o direito de soltar o verbo sem dar atenção especial à colocação dos pronomes, ao tempo verbal, a repetições e pleonasmos. Podemos “comer” um s de plural aqui, outro ali. Entre gente de casa, o clima é de liberou geral.

Quando se fala ou escreve «pra fora», ou seja, quando o que dizemos ou escrevemos é para uso externo e periga ir além do círculo mais chegado, a coisa muda de figura. Na categoria dos que escrevem «pra fora», estão, lá no topo, jornalistas e homens de imprensa. Nesse nível, um deslize em qualquer setor da gramática pode pegar mal, muito mal.

Continuo surpreso de constatar que diretores de redação ainda não se deram conta do estrago que pode causar ao jornal um erro bem na primeira página. No mínimo, deixa a impressão de desleixo. No pior dos casos, transpira ignorância.

Chamada Estadão, 17 dez° 2018

Na manchete de hoje, a ordem inversa dos termos levou o estagiário a trocar os pés pelas mãos. Não tendo entendido que o sujeito de aparecer era melhores jogadores, deixou o verbo no singular. Ficou esquisito.

No entanto, é fácil não errar. Em casos como esse aí, quando há dúvida, basta botar a frase na ordem direta, que tudo fica mais claro. «Em 2019, se melhores jogadores não aparecerem, os técnicos serão astros.» Assim, fica evidente que o sujeito no plural (melhores jogadores) exige verbo no plural (aparecerem).

O problema é que estagiários se têm comportado com crescente displicência, como se vivessem numa permanente roda de amigos. Aí, o espírito crítico afrouxa. É desastre à certa.

Portuñol

Ruth Manus (*)

Hoy estoy volvendo para mi casa después de 15 dias en México. Estoy enamorada, que maravilla que és este país. Pero este texto no és para hablar de México (bamos a tener muchas chances de hacer-lo en otras ocasiones). Este texto sierve para hablarmos sobre la beleza de este idioma lindo, em cual escrivo, llamado portuñol.

El portuñol nasció por uma razón muy bonita que és la perserberância que nosotros brasileños tenemos cuando queremos nos comunicar com nossos hermanos de América Latina. Pienso que los portugueses también lo hacen con los españoles (pelo mienos mi esposo lisboeta habla un portuñol mucho respectable, o que és claramiente una de las raziones que me llevaram a casar-me con el).

Nosotros, que dominamos el portuñol, tenemos mucha admiración por las personas que saben hablar español de verdad. Nos gustaria mucho. Pero hacemos lo que nos és posible, una vez que, infelizmiente, no frecuentamos el Instituto Cervantes o otra maravillosa instituición de enseño del español. Mas, sobretodo, el portuñol represienta una cosa muy linda que és la resistência a hablar inglés cuando estamos entre hermanos. Por que decir “a glass of water, please” cuando podemos pedir “un copito de aguita” con uma sonrisa nel ruesto? Mucho más lindo.

El facto de hablar portuñol también és um sinctoma de buen senso porque hay mucha gente (lê-se rrrrrrrente) de Brasil que hace una cosa muy constrangedora (lê-se constranrrrrrrredora), que és hablar português cada vez más alto e más despacito, como si eso fuera capaz de hacer nuestros hermanos latinos nos compreedieren sin dificuldades.

Yo pude presenciar una brasileña en la alugadora de coches que dice devagar “vocês têm uma tabela de multas?”, el mexicano (lê-se merrricano) no comprendió. Ella habló más alto “VOCÊS TÊM UMA TABELA DE MULTAS”, sin sucesso decía mucho mucho alto e mucho mucho despacito “VOCÊÊÊS. TÊMMM. UMMMA. TABEEELA. DE. MUUULTAS?”. Mi amiga, por que haces esto? Nosotros que hablamos portuñol quedamos muy enverguenzados de situaciones como esta. Era mucho mejor decir “ustedes tienem uma tabellita de mueltas?”. Ellos puedem continuar sin compreender nada do que queriemos, pero és certamiente una actitud mucho más hermosa.

Hay momientos en que hacemos tanto esfuerzo para hablar portuñol com riqueza, que percebiemos que el verdadeiro español no és así tan difícil. Yo estaba em Ciudad de México y quería comprar una cosa que em português llamamos “acetona”. Lleguei en el supermiercado y pregunté para la mueça que trabajava (lê-se trabarrrrrava) en la sección de productos de higiene (lê-se hirrrriene) “ustedes tienen una cosita, química, líquida, con um olor un poco fuerte que vien en una garrafita pequeña y sirve para quitar el verniz de las uñas utiliçando pedacitos de algodón?” y entonces la mueça me preguntó “acetona?”. Yo me sentí bastante ridícula, pero conserbei la sonrisa y dice muy contenta “Ai que rico! La palabrita és la misma que la de Brasil, somos miesmo hermanos!”.

A los pocos bamos aprendiendo. Yo yá sé que la cosa que llamamos em portuñol de “canetita” en verdad llama-se “bolígrafo”. Aprendí que apesar de “mulher” ser “mujer”, “colher” no és “cojer”, mas sí “cuchara”. Tambien ya sé que la erba verde (lê-se bbbbberde) no se llama “salsita”, pero “perejil” y que apesar de “coentro” sonar muy bien como “cuentro”, el correcto és “cilantro”. Y lo más importante: jamás llamar aquela cosita amarilla que vien en espigas o en latas de “mijo”, mas sí de “maiz”. También me gustó mucho de descubrir que “pecho de flango” em verdad tiene um nombre muy muy muy hermoso, que me gustaria decír todos los dias de mi bida: “pechuga de pollo”.

El español és muy lindo. Pero el portuñol és un acto de amor. No dejen este idioma murrir, por fabor. Muchas gracias.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Entre duas canoas

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, escrevi sobre Monsieur Valls, que já foi primeiro-ministro da França e que hoje, transformado em Señor Valls, tenta a eleição para prefeito de Barcelona (Espanha). Não são comuns esses casos de figura pública transnacional, que brilha num país para depois continuar em outro.

Hoje surge mais uma estrela nesse peculiar firmamento. Trata-se de Madame Salomé Zourabichvili. Até poucos anos atrás, era diplomata francesa, com o grau de embaixadora. Hoje acaba de tornar-se presidente da Geórgia, pequena república do Cáucaso, vizinha da Rússia. Foi eleita no segundo turno com estonteantes 60% dos votos ‒ uma consagração.

A história de muitas famílias georgianas se acelerou faz um século. A Revolução Russa de 1918 chacoalhou a vizinhança. Na Geórgia, aqueles que, implicados na política local, caíram do lado errado da nova ordem, tiveram de arrumar a trouxa e se exilar antes que mal maior adviesse. Foi o que aconteceu com os avós da recém-eleita presidente.

Sua mãe nasceu na Turquia, em plena rota de exílio. Seu pai já nasceu na França. Nascida, ela também, em território francês, cedo sentiu-se atraída pela diplomacia. Entrou para a carreira e chegou ao grau de embaixadora. Não foi senão em 1986, quando já estava perto dos 35 anos de idade, que visitou a Geórgia pela primeira vez.

Salomé Zourabichvili, presidente da Geórgia

Depois da virada do século, sua carreira entrou em fase trepidante. Em 2003, chefiava a embaixada da França em Tbilisi, capital da Georgia. No ano seguinte, já se viu projetada ao cargo de ministra das Relações Exteriores do país de seus antepassados, nomeada pelo recém-empossado presidente. A vida dá voltas.

A partir daí, Madame Zourabichvili teve de se decidir. Não era possível servir, ao mesmo tempo, ao governo de dois países. Optou pela terra dos ancestrais e continuou na política georgiana. Conservou a dupla nacionalidade durante alguns anos. Poucos meses antes da eleição presidencial, renunciou à cidadania francesa e tornou-se 100% georgiana.

Ao depositar o voto na urna, Kalbat’oni Zourabichvili(*) declarou «Minha escolha é uma Geórgia em paz, uma Geórgia unida, uma Geórgia sorridente». São nossos votos também, dona Salomé. Amém para todos nós!

(*) Kalbat’oni é a transcrição de ქალბატონი, bordado georgiano que significa senhora.