Os descendentes de Jacó

José Horta Manzano

Você sabia?

A tradição hebraica, atestada pela Gênese ― um dos livros que compõem o Antigo Testamento ― ensina que, muitos anos antes de nossa era, viveu Yakov. Neto de Abraão, filho de Isaac e de Rebeca, é patriarca bíblico.

Acreditam alguns que seu nome derive de uma palavra significando calcanhar, dado que Yakov teria nascido agarrado ao calcanhar de Esaú, seu irmão gêmeo. Afirmam outros que o termo poderia ter o sentido de suplantar, numa alusão ao prato de lentilhas que Yakov deu ao irmão para conquistar os direitos que correspondem à condição de primogênito.

Embora a gente não se dê conta à primeira vista, está aí um dos nomes mais comuns no planeta. Sua propagação foi impressionante. Teve início com a conquista dos territórios do Oriente Médio pelos romanos. Os invasores, sabe-se lá por que razão, apreciaram o nome e logo trataram de latinizá-lo. O original Yakov assumiu a forma Jacobus. Mais raramente, aparecem também alguns Jacomus.

Passaram-se alguns séculos. A expansão do cristianismo por toda a Europa, aliada ao fato de numerosos Jacobus terem sido santificados, fez que o nome se alastrasse pelo continente. O passar do tempo se encarregou de adaptá-lo ao vernáculo de cada região.

Em algumas línguas, o antigo Yakov mantém-se ainda bem próximo da forma original. Em outras, contudo, sofreu importantes transformações gráficas e fonéticas que o tornaram quase irreconhecível.

Assim, encontramos hoje, em praticamente todas as línguas europeias, filhotes de Jacó. Dou-lhes abaixo uma lista. Ela está longe de ser exaustiva. Apreciem a diversidade de descendentes do Jacó bíblico.

Bible
Inglês:
Jacob, Jakob, Jake, Jack, Jackie, Jock, Cobb, Cobby, Jeb, James, Jim, Jay, Jimmie, Jamie

Alemão:
Jakob, Jakobus, Jeckel, Jockel, Jocki, Jakel, Kobi, Köbes

Francês:
Jacques, Jacob, Jacquot

Espanhol:
Jacobo, Jaime, Diago, Diego, Iago, Santiago
(Santiago é contração do nome do santo. Sant’Iago = Santiago)

Catalão:
Jaume

Sueco, dinamarquês e norueguês:
Jakob, Jacob

Italiano:
Giacobbe, Giacobbo, Giacomo

Húngaro:
Jakab, Jákób, Jákó, Jakus

Occitano:
Jacme, Jaume

Polonês:
Jakub, Kuba, Kubuś

Armênio:
Hagop

Russo:
Яков (= Yakov)

Grego:
Ιάκοβος (= Iákovos)

Estoniano:
Jaagup, Jaak

Tcheco:
Jakub, Jakoubek, Kuba, Kubík, Kubas, Kubis

Letão:
Jekabs

Finlandês:
Jaakob

Árabe:
Yakub

Galego:
Xacobe, Xaime, Iago

Lituano:
Jokubas

Georgiano:
Iakobi

Turco:
Yakup

Ucraniano:
Яків (= Yakiv)

Albanês:
Japku, Jakup, Jakub

Napolitano:
Giacumino, Jacuviello, Jacuvo, Cuviello

Milanês:
Giàcum, Giàcumin

Piemontês:
Giàcom, Giàco, Giacolino

Curdo:
Ya’qub, Aqo

Bretão:
Jagu, Jagut, Jak, Jakez, Jakou, Iagu, Jalm

E NÓS?
Se o distinto leitor acredita que, em nossa terra, há pouca gente com esse nome, está enganado. Temos Jacó e Iago, que, é verdade, são pouco usados. Em compensação, estes últimos anos, apareceram muitos Diogos, Diegos e Tiagos. Aqui vai a explicação.

Aportuguesado, o Jacobus romano transformou-se em Jacó ou Iago, nomes muito comuns na Idade Média. O Jacomus romano deu Jaime.

Entre santos e beatos, a Igreja conta com mais de 30 Jacós. O mais importante deles é contemporâneo de Jesus. Em sua honra, uma catedral foi erigida na Espanha, numa cidade que leva o nome de Santiago (de Compostela). Hoje, como na Idade Média, muita gente vem de longe em peregrinação à catedral de lá. Santiago é a contração de Santo + Iago (= São Jacó).

Pra resumir, nossa língua guarda lembrança variada do Iakov bíblico. Temos: Jacó, Jaime, Diogo, Diego, Iago, Santiago e Tiago.

Conheço dois irmãos, um chamado Tiago e o outro, Diego. Ambos fazem parte da grande família dos tataranetos de Jacó. Carregam variantes do mesmo nome.

Publicado originalmente em 16 mar 2013.

Tripudiar

José Horta Manzano

Não há consenso sobre a origem do termo tripúdio. A corrente mais forte acredita que a palavra se componha de dois elementos: tri (do latim tres = três) + pud (do latim pes,pedis = pé). Teria origem em antiga dança festiva, organizada em regozijo por vitória conquistada. Era marcada com batidas de pé em compasso ternário, o que explica a presença do ‘tri’. Além disso, já foi proposta a hipótese de o verbo alemão atual trippeln (=trotar) ser descendente do tripúdio. O verbo trepar, presente nos falares ibéricos, é visto por alguns como membro da mesma família. Mas não há consenso.

Em português atual, a palavra tripúdio e o correspondente verbo tripudiar são muito raramente usados no sentido próprio de dançar saltitando ou sapateando. O uso mais frequente é no sentido figurado, com o significado bastante sádico de alegrar-se com a derrota do adversário ou com a desgraça de alguém, aproveitando a ocasião para debochar do infeliz. É verdadeiro sapateado em cima do caixão, imagem evocada por Noel Rosa, num momento de masoquismo, ao implorar pra ser tripudiado(*). O sentido de tripúdio é próximo do da palavra alemã Schadenfreude, que exprime a alegria que alguém sente com a desgraça alheia.

By R. Paschoal, ilustrador

Em entrevista a uma jornalista, doutor Bolsonaro tripudiou. Querendo fazer graça, veio com a conversa de que o embaixador do Brasil em Washington «tem que ser filho de alguém, então por que não pode ser meu?». O presidente debochou dos demais candidatos que, embora infinitamente mais bem qualificados para o cargo, não são filhos do presidente. Debochou da frustração dos que foram abandonados pelo caminho.

Pra piorar, disse, com todas as letras, que o embaixador é «um cartão de visitas» do Brasil. Não é. Embaixador é trabalhador da sombra. Há pouca gente capaz de se lembrar do nome dos três últimos ocupantes da chefia de nossa embaixada em Washington, a mais importante de todas. Embaixador, antes de ser ‘cartão de visitas’, é alto-funcionário, tarimbado, flexível quando é preciso, firme quando tem de sê-lo, profundo conhecedor do movimento contínuo entre as potências do planeta, a par das idas e vindas do mercado mundial. Tem de dispor de sólida formação em línguas, relações internacionais, macroeconomia, problemas brasileiros, cenário de trocas econômicas internacionais (exportação e importação de cada país). É muita coisa pra um inexperiente ‘filho de presidente’.

Enquanto doutor Bolsonaro tripudia, quem perde mesmo é o Brasil. Mas ele não está nem aí. Beneficiou o filho, que era o que interessava.

(*)Fita amarela
Noel Rosa
(…)
Se existe alma, se há outra encarnação
eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Aqui na gravação original de 1933 por Francisco Alves e Mário Reis

Terrivelmente cristão

José Horta Manzano

Outro dia, doutor Bolsonaro usou o advérbio terrivelmente ao sugerir que poderia nomear um ministro de confissão neopentecostal para o STF. Declarou, sem pestanejar, que queria alguém ‘terrivelmente evangélico’. O grande público recebeu a notícia boquiaberto, mormente porque ele não pontuou a frase com o característico ‘talquei’.

O presidente reincidiu no último fim de semana. Falando ao público presente a um culto neopentecostal, confirmou que o advogado-geral da União é pastor e ‘terrivelmente evangélico’. Pra coroar o discurso, declarou-se ‘terrivelmente cristão’, sob uma chuva de aplausos do auditório cativo. E lá veio o ‘terrivelmente’ de novo. Gostaria de sugerir ao presidente modificar, da próxima vez, o palavreado, que me parece impróprio.

Terrível é palavra irmã de terror, ambas derivadas do verbo latino terreō, que significa fazer tremer, meter medo, causar terror. Propriamente, a boa definição do terror é o medo grande, assinalado pela cor pálida, que provoca tremedeira nos membros e faz dobrar os joelhos.

by Frédéric ‘Hephez’ Simon, desenhista francês

Quando doutor Bolsonaro se diz ‘terrivelmente cristão’, é de bom-tom acreditar que não tenha intenção de botar medo em ninguém, nem de causar tremedeira e obrigar o bom povo brasileiro a dobrar os joelhos. (Cá entre nós, ainda que ele tivesse esse desejo oculto, não ousaria externá-lo assim, sem mais nem menos, aos ouvidos de todos.)

Portanto, nem que seja pra salvar as aparências, sugiro ao presidente que, de uma próxima vez, abandone o ‘terrivelmente’. Pra ficar em família, pode usar outra derivação do mesmo verbo terreō: o particípio perfeito térritum, que deu em português as palavras intérrito e impertérrito. Concordo que são pouco usadas, mas valem o que valem. Ambas têm o mesmo significado: que não tem medo, que não sente terror, ousado, bravo, valoroso, intrépido, impávido, valente.

Se doutor Bolsonaro, ousado como é, se declarar ‘cristão impertérrito’ vai causar frisson. Jornalistas hão de correr para o dicionário pra ver o que é. Assim tudo termina em paz: ele acaba usando derivação do mesmíssimo verbo ao qual está acostumado e, de quebra, em vez de dizer que provoca terror, estará dizendo que não sente medo. É autovalorizante, não? Ele vai abafar, como se dizia antigamente. Declarar-se valente combina com o espírito do capitão. Convém não terminar a frase com o irritante ‘talquei’, senão estraga tudo.

Agrément

José Horta Manzano

Mandando às favas toda a tradição diplomática, doutor Bolsonaro anunciou urbi et orbi – à cidade e ao mundo – que nomearia um dos bolsonarinhos para a chefia da embaixada do Brasil em Washington, o posto mais cobiçado da carreira, de costume reservado a profissional calejado e ultraexperimentado. O anúncio causou frisson. A memória do Itamaraty não registra caso de nome divulgado antes da obtenção do agrément. É que, caso ele não seja concedido, a estrepolia resultará num tapa na cara do Estado brasileiro, uma senhora afronta. Não convém facilitar. Mas o que é mesmo esse tal de agrément?

Como costuma ocorrer em matéria diplomática, a palavra é francesa. Foi importada tal e qual, com a grafia original. O acento que aparece sobre o é não é nosso acento tônico. Segue a ortografia francesa. É que a letra e, em francês, pode ter três sons diferentes. O acento tônico indica que, neste caso, o e tem som fechado, como nosso ê. A palavra inteira, para nossos ouvidos, soará oxítona, com acento tônico na última sílaba – algo próximo a «agremã».

O agrément é o reconhecimento emanado de uma autoridade oficial. Na França, onde seu uso é mais amplo, atesta que o indivíduo tem a formação e as qualidades necessárias para exercer a função que pleiteia. Em português, o campo semântico se estreitou. O agrément é usado exclusivamente em linguagem diplomática. Emitido por um Estado, significa que ele concorda com receber determinado indivíduo como representante de outro Estado.

Rei Luís XIV recebe o embaixador da Pérsia – Versailles, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

A palavra deriva do verbo agréer (= acolher favoravelmente, aceitar). Por sua vez, esse verbo descende de gré, que é a forma francesa do adjetivo latino gratus (=grato). E aí chegamos ao ancestral comum. Se não temos, em nossa língua, palavra correspondente ao agrément francês, temos uma coleção de primos próximos e afastados. Grato, gratidão, malgrado, agradecer, grado, gratificar, congratular, grátis, graça, gratuito. Todas essas palavras carregam, de perto ou de longe, um sentido de gratidão.

Ao receber o agrément do Estado que o acolherá, o novo embaixador passará a ser persona grata, ou seja, pessoa acolhida de bom grado, de boa vontade, sem objeção. Se o agrément lhe devesse ser negado, o infeliz se tornaria persona non grata, vexame pelo qual ninguém quer passar.

Doutor Bolsonaro assumiu pesado risco ao tornar pública a nomeação do bolsonarinho antes de receber o agrément de Washington. Traquinagem de gente inexperiente. Mas observadores atentos garantem que o “de acordo” virá. Por seu lado, muitos acham que o desterro de um dos problemáticos filhos do presidente só pode ser benéfico para o Brasil, na medida que doutor Bolsonaro perderá um dos tripés que o sustentam. Pessoalmente, não sou dessa opinião.

Acredito que a embaixada em Washington é muito mais do que um festival de mundanidades, com um coquetel aqui, uma visita ali, uma recepção acolá. A chefia da embaixada tem de ser entregue a um profissional ultraexperiente, o que não é o caso do bolsonarinho. Que os filhos em torno do presidente sejam dois ou três, pouca diferença faz: o desvario do pai será o mesmo. Um dos rebentos enxertado na embaixada de Washington pode causar estrago maior.

La famiglia
O distinto e culto leitor certamente conhece o verbo inglês to agree (=concordar) assim como o substantivo agreement (=acordo). Agora já se deve ter dado conta de que são empréstimos tomados diretamente do francês. To agree vem do verbo agréer. E o agreement inglês é o exato correspondente do agrément francês.

A small step for man

José Horta Manzano

Você sabia?

Literalmente, a máxima italiana “traduttore, traditore” quer dizer “tradutor, traidor”. Na prática, deve ser entendida como “traduzir é trair”. Muitas vezes, corresponde à realidade. Uma tradução, ainda que esmerada, pode não transmitir exatamente a intenção do autor. Isso ocorre principalmente quando o contexto é intraduzível. Por exemplo, nossa palavra saudade costuma dar dor de cabeça a tradutores, porque é difícil achar correspondente exato em outras línguas. O tradutor, nessa hora, será necessariamente um ‘traidor’, faça o que fizer.

Há casos, no entanto, em que a ‘traição’ melhora o original. Nestes dias em que se comemora o 50° aniversário do primeiro pouso de um homem na Lua, as imagens do evento vêm sendo repetidas, com insistência, por toda a mídia. No meio de um chuvisqueiro cinzento, aparece a vaga silhueta de um astronauta descendo uma escadinha e firmando o pé no solo lunar. Nessa hora, no meio de um chiado de fazer inveja a tacho de fritura de manjuba, vem a voz anasalada: «A small step for man, a giant leap for mankind».

Mr. Armstrong, o astronauta que pronunciou a frase, estava visivelmente emocionado. Apesar de ter ensaiado com afinco, atrapalhou-se na hora e pulou uma palavra. Era uma palavrinha curtinha, à toa, mas faz toda a diferença. Devia ter dito: «A small step for a man, a giant leap for mankind», que se traduz por «Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade». Do jeito que ele pronunciou, sem o a, a sentença ficou aleijada, capenga. Sem o artigo, a palavra “man” deixou de significar “um homem” para designar a humanidade. Assim, a frase pronunciada foi: «Um pequeno passo para a humanidade, um salto gigantesco para a humanidade» – o que, convenhamos, fica pra lá de esquisito.

Foi aí que entraram em ação os tradutores. Desta vez, traíram. Consertaram o soluço de Mr. Armstrong. Até hoje, em toda transcrição brasileira, a frase aparece correta, bonita e com sentido. Curiosamente, os americanos preferiram manter fidelidade ao original. Pode conferir no Google. Continuam a transcrever a frase sem o pequenino a.

A aventura de julho de 1969 foi bem sucedida, mas a frase gravada no mármore da história está torta. Para todo o sempre.

Segunda língua

José Horta Manzano

Fiquei sabendo estes dias que senhor Abraham Weintraub, nosso peculiar ministro encarregado da Instrução Pública, lançou crítica pesada contra um certo programa Idiomas sem Fronteiras, lançado em 2014 e destinado a permitir a universitários a aquisição de uma língua estrangeira.

Confesso que, até ontem, desconhecia a existência desse programa. A mídia informa que o ministro determinou a descontinuação do projeto por estar ele sendo usado principalmente para «pagar o Teste de Inglês como Língua Estrangeira». Não entendi bem. Certas noções me superam. Devo estar ficando velho. Será que esse teste é tão caro que precisa de um programa governamental pra financiá-lo? Certamente entendi mal.

Pouco importa. Uma coisa entendi: no Brasil, a expressão língua estrangeira é sinônimo de inglês. Não parece haver ninguém se inscrevendo no programa pra «pagar o teste» de alemão, de francês ou de russo, pois não? Nesse ponto, o Brasil me lembra a China. Lá também o inglês é A língua estrangeira. Todos os chineses acreditam que, dominando a língua inglesa, estarão aptos a comunicar-se com o mundo todo. Ficam visivelmente desnorteados quando encontram um estrangeiro que não entende inglês.

Entendi outra coisa também. E esta é mais grave. Entendi que centenas de milhares de jovens – universitários! – precisam de um programa para aprender a primeira língua estrangeira. Isso significa que, no Brasil, a juventude chega à maioridade mergulhada na pobreza do monolinguismo. Será que isso quer dizer que, nestes tempos de internet, viagens internacionais superfacilitadas, intercâmbios accessíveis, companhias aéreas de baixo custo, telefone internacional gratuito (e com imagens!), os brasileirinhos estão condenados a viver dentro dos limites da língua pátria?

É destino cruel e excludente. Reforça a desigualdade social ao permitir que somente os bem-nascidos tenham direito a desabrochar num horizonte multilíngue, aberto para o mundo. Só quem tem dinheiro pode suprir o que a escola não dá. O populacho está irremediavelmente condenado a passar a vinda assistindo a filme dublado ou legendado, a viajar em grupo com direito a intérprete, a não entender nem jornal, nem gibi, nem mesmo letreiro de loja escrito em «estrangeiro». Que horizonte afunilado!

Aprendizado de língua estrangeira deveria ser intensivo e começar nos primeiros anos de escola. Nos tempos de antigamente, quando este blogueiro frequentava as carteiras escolares, aprendíamos latim, francês e inglês. Em escola pública, frise-se. O ensino do latim e do francês começava no primeiro ano de ginásio, que corresponde ao quinto ano de estudos. O inglês era dado a partir do ano seguinte. Dependendo do ano, eram duas, três ou quatro aulas semanais de cada uma dessas línguas. A gente chegava à maioridade, se não dominando o inglês e o francês, pelo menos com muito bons conhecimentos. Por que será que não é mais assim?

Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro são produtos do monolinguismo. Vivem imersos num mundinho fechado, sem abertura para o resto do planeta. Dependem de intérprete pra todas a situações. Sozinhos no estrangeiro, não encontram nem o caminho do banheiro. Se tivessem tido a chance de aprender na escola uma segunda língua, o Brasil seria um país diferente. Pena que não foi assim. Quem sabe, um dia, a coisa muda?

Por que se deve escrever certo

Dad Squarisi (*)

Sabia? A ortografia é dispensável para a comunicação eficiente. Se alguém escreve casa com z, cachorro com x e coração sem til, o leitor entende o recado. Prova é a língua usada nos chats da internet. Lá, porque vira pq; você, vc; beijo, bj; obrigado, obg. Muitos não gostam do que leem, mas entendem o recado. A razão?

De aorcdo com peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Por que, então, preocupar-se com acentos, esses e zês? Porque é o combinado. Para viver em sociedade, firmamos pactos. Combinamos andar vestidos em público. Combinamos não arrotar à mesa. Commbinamos não cuspir no chão. Combinamos, também, escrever como manda o dicionário.

Ele, baseado em critérios etimológicos ou fonéticos, diz que hospital se grafa com h; pesquisa, com s; exceção, com ç. A razão: como todas as línguas de cultura, o português tem a grafia oficial. A ortografia é convenção. Escrever certo pega bem.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Fundos falidos

José Horta Manzano

A origem da raiz é antiga e se perde na bruma dos milênios. O verbo latino fallere era já precedido pelo grego sphàllein e por antepassados mais velhos ainda. Faz parte de grande família presente não só nas latinas, mas também em outras línguas europeias. Muitos dos descendentes ainda carregam o sentido original de enganar, enganar-se, errar, induzir em erro, escorregar.

Em inglês, temos : to fail (falhar), failure (falha, fracasso, insucesso, estrago). Em alemão, há: fehlen (faltar), Fehl (erro, engano). Em nossa língua, herdamos boa coleção de palavras. Entre elas, estão: falha, falta, falecimento, falível, falso, falsificar, faltar. Como se pode constatar, toda a família deixa uma impressão meio amarga de acontecimento desagradável que poderia bem não ter acontecido.

Assim é a falência, no sentido próprio, o ato ou efeito de falir. É quando uma pessoa jurídica, por falta de meios, é obrigada a suspender pagamento aos credores. É situação dramática e geralmente definitiva. Nesse caso, a falência guarda o sentido tradicional: a falta absoluta de recursos.

Chamada Estadão, 11 jul° 2019

Vamos agora à manchete do Estadão. Diz lá: «Festa nacional (…) faliu fundos de Washington». Vamos passar por cima do sentido um tanto libidinoso que a frase poderia suscitar. Afinal, quem teria tido a coragem de falir os fundilhos desse pobre Washington? Mas vamos em frente. A lição do dia é que o verbo falir, quando usado no sentido de levar à falência ou ir à falência, é intransitivo – isto é, não admite objeto.

Ex: A firma faliu. Ponto final. Ex: A empresa fez falência. Ponto final. Mesmo quando o verbo é usado em sentido figurado, a regência permanece. Ex: A festa quase levou a família à falência.

A chamada, portanto, não pode dizer que a festa «faliu fundos de Washington». Como seria exagerado dizer que a tal festa mandou a rica capital americana à falência, melhor será escolher outro verbo que indique que as finanças da cidade ficaram abaladas. A escolha é vasta: esgotar, exaurir, dilapidar, sangrar, haurir, desbaratar, secar. Há muitos mais.

Corrigindo:

Festa nacional do 4 de julho enxugou fundos de Washington.

Fica melhor, não? Bom, alguém sempre pode se chocar ao ler que, desta vez, os fundos do pobre Washington é que foram enxugados. Mas essa já é outra conversa.

Greve

José Horta Manzano

Você sabia?

A palavra que utilizamos para indicar uma parada de trabalho ― organizada voluntária e coletivamente na esperança de alcançar melhora salarial ou vantagem laboral ― vem do francês. Tem longa história.

Na época em que rei detinha poder absoluto, decisões dependiam, naturalmente, de sua excelsa vontade. Na Paris do século XII, a burguesia pleiteava um espaço público adequado para cerimônias e festas. Em resumo: queriam um salão de festas ao ar livre. O rei Luís VII aquiesceu, mas impôs uma condição: exigia que, em troca, os burgueses lhe pagassem a soma de 70 libras, montante considerável para a época. Concluído o trato, um terreno às margens do Rio Sena ficou reservado para cerimônias e festejos. Era o salão de festas da alta burguesia. O rei garantiu que nunca se construiria ali.

Place de Grève em 1746 Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

Place de Grève em 1746
by Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet (1715-1793)

A proximidade do rio era bem prática. Tirando ocasiões em que era ocupado para festejos, o espaço era regularmente utilizado como atracadouro para barcaças que traziam carvão e outras mercadorias para abastecer a cidade. Grève é o nome dado pelos franceses a um terreno de pedrisco que se inclina em direção à água. Uma praia de cascalho, em suma. Daí o nome de Place de Grève ― a Praça do Cascalho.

A promessa do rei foi mantida e o enorme espaço retangular está lá até hoje. Séculos depois, a majestosa sede da prefeitura foi construída no alto da praça. O palácio acabou provocando a mudança do nome da praça. Ela passou a ser conhecida como Place de l’Hôtel de Ville ― Praça da Prefeitura. É o nome atual.

Nem só de festas viveu a Place de Grève. Execuções públicas foram praticadas lá, desde fogueiras medievais reservadas para bruxas e hereges até as primeiras cabeças guilhotinadas pelos revolucionários de 1792.

A Revolução Industrial deu nascimento às primeiras manufaturas e, em consequência, aos primeiros operários. O grande espaço que a praça oferecia era raridade na Paris de princípios do século XIX ― uma teia irregular de ruelas estreitas e malcheirosas. Assim, em pouco tempo, tornou-se ponto de encontro de homens à procura de trabalho. Donos de manufatura à cata de mão de obra passavam por lá para engajar pessoal.

Place de l'Hôtel de Ville nos dias atuais

Place de l’Hôtel de Ville
nos dias atuais

Com o passar dos anos, os operários foram-se dando conta de que, unidos, tinham mais força pra reivindicar melhores salários ou melhores condições de trabalho. A maneira mais simples e mais visível de mostrar descontentamento era deixar de comparecer ao emprego. Coletivamente, de preferência. A Place de Grève encontrou vocação nova: tornou-se ponto de agrupamento dos que se recusavam a trabalhar em razão de alguma reivindicação.

A praça acabou emprestando seu nome à novidade. A língua francesa adotou o termo grève para designar paralisação de trabalhadores. Faire la grève (=fazer a greve) é como dizem. Cada língua encontrou solução própria pra descrever o fenômeno novo. Das 30 línguas mais faladas, somente duas adotaram o termo francês: o turco e o português.

Eis por que, enquanto outros dizem huelga, sciopero, Streik, stávka, nós permanecemos fiéis ao original e não arredamos pé. Greve é greve.

Texto originalmente publicado em 21 set° 2014.

Sans moi

Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo ‘trumpista’ é sinal de perda de contacto com a realidade.

José Horta Manzano

O que o brasileiro diz, em falar caseiro, «me inclua fora» tem tradução perfeita em francês. Em Paris, diz-se «ce sera sans moi» (=será sem mim).

Monsieur Macron, presidente da França, usou esse recurso de linguagem hoje em previsão da conversa com doutor Bolsonaro. Logo ao chegar a Osaka, antes do encontro agendado (depois desagendado, em seguida reagendado, afinal realizado), avisou: «Se não pudermos discutir sobre o Acordo de Paris, ce sera sans la France (=sera sem a França)».

Depois da ameaça de «levar um pito» de Frau Merkel, doutor Bolsonaro sofreu ameaça de «levar um fora» de Monsieur Macron. Note-se que não estamos falando de dirigentes da Mongólia ou do Zimbábue. Alemanha e França são os dois países mais importantes da Europa e formam juntos o motor do continente.

França: temperaturas previstas para 28 junho 2019

Meu pai dizia: ‘Se não for por bem, vai por mal’. Em matéria de defesa da ambição climática do planeta, doutor Bolsonaro escolheu ‘ir por mal’. A adesão cega e total aos propósitos ignorantes que Mister Trump emite nesse particular é nociva a nosso país e nos está fazendo mal. A reviravolta climática já não é ameaça, é realidade.(*) Pra evitar catástrofe maior, cada cidadão pode (e deve) fazer sua parte, mas governos podem muito mais.

Liberar, no Brasil, agrotóxicos já proibidos na Europa é atitude insensata. Agasalhar desmatamento desenfreado também é. Nosso presidente é responsável por esses dois atos. Além de prejudicar a saúde, essas atitudes típicas de mentes desinformadas botam obstáculos na negociação de acordos comerciais.

Doutor Bolsonaro devia pôr na cachola que Mr. Trump não é eterno e que será substituído um dia. Grudar no personagem e obrigar o Brasil a cavalgar no ritmo trumpista é sinal de perda de contacto com a realidade. É como tomar carona num veículo que não se sabe pra onde vai. A gente acaba se perdendo. Doutor Bolsonaro precisa recalibrar seu GPS e começar tudo de novo.

(*) A onda de calor temporã que oprime a Europa neste fim de junho já está aí faz quatro dias. Não se sabe exatamente quando terminará – talvez no meio da semana próxima. No país de Monsieur Macron, preveem-se temperaturas entre 40° e 45° para este fim de tarde. Na amena Suíça onde vive este blogueiro, o termômetro marcava 29° à uma da manhã na noite que passou. Durma-se com um bafo desses.

Da cabeça para a mão

José Horta Manzano

Você sabia?

Meus distintos e cultos leitores hão de conhecer a estranha palavra inglesa handkerchief, que corresponde a nosso lenço. Assim, de cara, o termo nem parece inglês. Leva mais jeito de ser alemão ou holandês. A palavra tem origem divertida. Vem por caminho surpreendente.

Idade Media 1Na Alta Idade Média europeia, todos andavam de cabeça coberta. Fosse de dia ou de noite, dentro ou fora de casa, cobrir a cabeça fazia parte do ritual. Mal comparando, corresponde ao telefone que (quase) todos levam hoje no bolso. Indispensável.

A raiz latina caput, que reaparece no italiano capo e no português cabeça, deu chef em francês. Para designar aquilo que cobre a cabeça, os franceses da Idade Média diziam couvre-chef – literalmente cobre-cabeça. Servia pra designar chapéu, touca, boné, pano, o que fosse.

Quando o francês Guilherme, o Conquistador, venceu as tropas inglesas na Batalha de Hastings (1066), invadiu o país com seu exército. O domínio francês abriu as portas para a francização da Grã-Bretanha. Considerados mais refinados, os costumes dos invasores passaram a ser imitados pelos autóctones. Foi assim que uma enxurrada de palavras latinas entraram no léxico inglês: por intermédio do dialeto francês falado na região da Normandia (norte da França). Entre as palavras adotadas, aparecia couvre-chef, aquele pano de cobrir cabeça.

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

by Louis Le Nain (1593-1648), pintor francês

Os camponeses britânicos não conheciam o acessório que hoje conhecemos como lenço. Quando necessário, faziam como faz todo jogador de futebol: assoavam o nariz nos dedos, chacoalhavam a mão com elegância e enxugavam algum eventual perdigoto na roupa. Uma finura.

Os invasores normandos, que tinham se tornado casta dominante, tinham o costume de levar sempre um pedaço de pano, que fazia as vezes de lenço. Era um notável avanço no asseio pessoal. Admirativos, os ingleses mais endinheirados logo aderiram à moda. Naturalmente, a objeto novo, dá-se nome novo. Como chamá-lo?

Tomaram a referência que lhes era mais familiar. O trapo lembrava um pano de cobrir cabeça. A diferença é que não ia em cima da cachola, mas na mão. Sem problema. Passou a ser designado como cobre-cabeça de mão, ou seja, hand couvre-chef.

O povão, incapaz de pronunciar couvre-chef, popularizou a forma handkerchief, que usamos ainda hoje. Atchim!

Publicado originalmente em fev° 2015.

Saudação militar

José Horta Manzano

Doutor Moro foi flagrado outro dia, ao lado do presidente da República, batendo continência durante uma cerimônia militar. Prestar continência é gesto inabitual para um civil. Ficou esquisito. Aliás, muita coisa esquisita anda acontecendo estes últimos tempos.

Voltando ao gesto de saudação, é curioso que nenhuma língua além da nossa use a palavra continência pra designá-lo. Todos usam alguma expressão girando em torno do tema da saudação militar: salut militaire (francês), salute (inglês), militärischer Gruß (alemão), saluto militare (italiano) & cia.

Entendo o motivo de haverem escolhido o termo continência. Ao fazer o sinal de saudação diante de oficial superior, o militar menos graduado dá mostra de submissão, comedimento, sobriedade, resguardo, temperança – qualidades sugeridas pelo termo continência.

Falando em sinal de saudação, ocorreu-me que a palavra sinal faz parte de extensa família. Assinar, assinatura, sinalizar, sinaleira, pelo-sinal, sino, sinete são todos parentes.

Um outro membro da família merece atenção especial. É senha, termo que, embora não guarde parecença, é da mesma tribo sim, senhor. Está aí outra peculiaridade nossa.

Enquanto a palavrinha senha, sozinha, nos basta, outras línguas não conseguem designar o mesmo fato com um termo simples. Vai daí, são obrigados a valer-se de expressões compostas de duas ideias que transmitem a ideia de «palavra a pronunciar pra poder passar». Password, mot de passe, wachtwoord, Passwort são alguns exemplos. E pensar que, apesar de nossa senha estar presente na língua há 400 anos, há muita gente por esse Brasilzão usando password. Pra dizer a mesma coisa.

Bem, gente, vejam como são as coisas. Começamos este escrito falando em doutor Moro e terminamos falando em senha. É que senha lembra privacidade. Privacidade lembra hackeamento. Hackeamento lembra doutor Moro. E o círculo se fecha.

Garde à vue

José Horta Manzano

Michel Platini, glória do futebol francês nos anos 80, subiu na vida depois que abandonou o gramado. Chegou à presidência da Uefa, a União das Associações Europeias de Futebol, equivalente a nossa Conmebol.

Acusado de envolvimento em obscuras negociatas, voltou à luz dos holofotes. Só que, desta vez, não são os holofotes do estádio, mas os da mídia internacional, que se delicia quando um figurão tem contas a acertar com a justiça.

Chamada do Estadão, 18 jun 2019

O Estadão errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada da Folha de SP, 18 jun 2019

A Folha de São Paulo errou. Não, Platini não foi preso.

Chamada d’O Globo, 18 jun 2019

O Globo acertou! Platini foi detido.

Na França – e também no Brasil – ser preso e ser detido são coisas diferentes. Platini foi hoje «placé en garde à vue».

Segundo os procedimentos policiais e judiciais da França, no decurso de uma investigação policial, o suspeito pode ser detido e instalado numa cela especial, dentro da delegacia de polícia. A todo momento, pode ser chamado para interrogatório. Dorme ali. Come ali. Esse regime, chamado de «garde à vue – retenção à vista», dura geralmente 48 horas. Ao final, o suspeito será apresentado a um juiz, que decidirá se o deixa livre ou se o despacha direto para a prisão.

Atualmente, Michel Platini está nessa situação. Nos filmes policiais, a cela costuma ser um engradado, num canto da delegacia, sem privacidade, à vista de quem por ali passar. Na vida real, pode ser situada em local mais discreto.

Amanhã ou depois, conheceremos a decisão do juiz. Saberemos se será aberto processo judicial e, se for o caso, se Platini poderá responder em liberdade. Ou não.

The bac is back!

José Horta Manzano

Como todos os anos, a estudantada francesa está em efervescência. É época do «bac», que equivale a nosso Enem. «Bac» é redução de baccalauréat, o nome completo. Encolhido a uma sílaba só, o exame parece menos assustador, torna-se quase amigo íntimo. Isso deve servir pra esconjurar o pânico.

Nesta época, a mídia dá conselhos aos candidatos. Evitar comida pesada, não tomar calmante, não varar a noite estudando de última hora, tomar café da manhã antes de sair de casa (ou, se o nervoso tiver causado enjoo, tomar pelo menos um chá com açúcar e levar um lanchinho pra mais tarde). Chegar ao local da prova com boa antecedência. São recomendações de bom senso.

A estranha palavra baccalauréat formou-se no latim medieval. Naquela época, era o nome da primeira distinção concedida pelas universidades de Teologia, de Medicina e de Direito. Na composição do termo, é evidente a influência de laureare (=oferecer ao homenageado uma coroa de folhas de louro). Acredita-se que a primeira parte da palavra venha de bacca (=designação comum a certas frutinhas silvestres). Portanto, baccalaureatus é aquele que recebeu a coroa de louros. Note-se que a forma latina bacca deu, em português, bago e baga.

No país de Voltaire, Sartre, Montesquieu e Raymond Aron, a Filosofia ocupa lugar de destaque. As provas do ‘bac’ sempre começam por essa disciplina. Todos os candidatos têm de passar por ela, embora o peso atribuído varie conforme a carreira. Tem peso maior para os que escolheram Letras. Mas até os que se propõem a fazer estudos científicos têm de enfrentar a ‘filô’.

E a prova de ‘filô’ foi hoje. Não sei como anda o nível do Enem, mas é de constatar que o “bac” francês mantém padrão elevado. Aqui estão os temas de Filosofia correspondentes a cada carreira. O candidato pode escolher entre duas proposições e tem quatro horas pra bolar uma dissertação.

Carreira científica
Tema 1
A pluralidade de culturas é nociva à unidade da humanidade?

Tema 2
Reconhecer seus deveres significa renunciar à própria liberdade?

Carreira econômico-social
Tema 1
A moral é a melhor das políticas?

Tema 2
O trabalho divide os homens?

Carreira literária
Tema 1
É possível fugir ao tempo?

Tema 2
Vale a pena explicar uma obra de arte?

Pronto. Celular desligado, o distinto leitor dispõe de quatro horas pra produzir sua obra-prima. Em francês, s’il vous plaît.

ET
A palavra “baccalauréat” pertence à família que deu o inglês bachelor e nosso familiar bacharel – todos eles bambambãs em Filosofia, naturalmente.

Libra

José Horta Manzano

Não é clara a origem da palavra libra. Parte dos etimologistas acredita que descenda de um hipotético proto-itálico *leithra, já então nome de uma unidade de peso. O que se sabe é que o nome passou para as línguas neolatinas.

Em italiano moderno, aparecem as formas libra/libbra (= unidade de peso) e lira, que é o nome da defunta moeda nacional.

Em francês, a forma evoluiu para livre, com dois significados: por um lado, é nome da unidade de peso utilizada nos países anglo-saxônicos; por outro, é a moeda em vigor em diversos países (Reino Unido, Turquia, Líbano, Egito).

Em espanhol, a forma libra é usada com vários significados. Pode ser a unidade monetária em vigor em diversos países; pode também ser o nome de moeda usada antigamente em algumas regiões do país; pode ainda dar nome a uma medida de capacidade equivalente a aproximadamente meio litro. Pode ainda se referir à constelação da Balança.

Em português, a forma é idêntica ao castelhano: libra. Encerra diversos significados: unidade de peso, nome da moeda em vigor no Reino Unido e em mais meia dúzia de países, constelação zodiacal, signo do zodíaco.

Saiu hoje a notícia de que, no rastro de outras criptomoedas que circulam por aí, Facebook está preparando o lançamento de moeda virtual própria. A novidade deve começar a circular daqui a alguns meses, mas o bebê já tem nome: vai-se chamar libra.

Libra: a criptomoeda de Facebook

Fico meio pensativo. A central de inteligência dessa empresa deve concentrar elevado número de gênios. É gente (muito bem) paga, que está lá justamente pra espremer as meninges e gerar ideias fabulosas, daquelas que fazem a empresa dar saltos à frente da concorrência. Cáspite! Como é que podem dar à nova moeda o nome de libra?

O nome já existe e é amplamente utilizado. Se a palavra soa exótica aos ouvidos formatados dos gênios californianos, deveriam, pelo menos, ter consultado gente de ouvidos mais arejados. Não precisa ir muito longe: nos USA, calcula-se que 40 milhões de pessoas sejam de língua castelhana. Além deles, os latino-americanos são centenas de milhões a falar espanhol ou português. Todos (ou quase) são usuários de Facebook. E todos dão o nome de libra à moeda inglesa.

Não acredito que o fato de haver duas moedas importantes com o mesmo nome venha a criar confusão. Também não acredito que alguém deixe de investir na nova ‘moeda-fumaça’ por causa do nome. Mas, francamente, com tanto nome por aí, deram prova de tremenda falta de imaginação.

Hacker

José Horta Manzano

No original, o verbo inglês to hack significa cortar grosseiramente. O nome hacker, portanto, designa o sujeito que passa o dia com a faca na mão a cortar, decepar, romper ou rachar. Dado que cortadores profissionais não são multidão, deduz-se que esse substantivo não há de ter sido muito usado nos séculos de antigamente.

A segunda metade do século 20 assistiu a lento movimento de popularização do computador. Alguém teve a ideia de pescar no vocabulário inglês o termo hacker pra designar o perito em segurança informática. No início, o termo indicava o profissional ‘do bem’, que exercia suas funções sem causar dano a ninguém.

Com o passar dos anos e a crescente democratização dos computadores, o número de especialistas mal-intencionados aumentou. Muito agressivo, este novo tipo de hacker age por curiosidade, por pura má-fé, por consciência política ou por interesse financeiro. Diante de um leque tão amplo de motivações, todos nós estamos ameaçados de hackeamento.

O cidadão comum, que não faz parte dos círculos do poder, não precisa temer que sua privacidade seja invadida por razões políticas. Assim mesmo, é aconselhável proteger-se contra ataques movidos por hackers de má-fé, que nunca se sabe – tem muita gente perturbada por aí.

Já os que navegam nas esferas mais elevadas – políticos, magistrados, milionários, grandes empresários – têm de ser espertos. Por óbvio, estão em permanência no olho do furacão, na mira de muitos interesses. Não há problema em usarem o telefone pra dar bom-dia ou pra marcar encontro. O embaraço começa quando têm de manter conversa confidencial, seja verbal ou escrita.

Pra garantir privacidade total, só há um meio: utilizar telefone criptografado(*), daqueles cuja inviolabilidade é garantida. Assim mesmo, o utilizador, seja ele magistrado, político ou empresário, deveria procurar assistência de um perito que o iniciasse nas artes de bloquear tentativas de invasão.

Pode parecer complicado, mas é indispensável. Mentir, mentimos todos. Bobagens, proferimos todos. Atalhos pouco republicanos, tomamos todos. Pra resumir: ninguém é santo. Portanto, mais vale prevenir antes que nossos podres sejam expostos em praça pública.

Antes de fechar, uma reflexão: todas essas revelações não fazem Lula da Silva inocente. Nem Eduardo Cunha. Nem Sergio Cabral Filho. Nem o resto da turma.

(*) Criptografado não me parece palavra adequada a esse caso. O segundo elemento (grafado) desorienta. Melhor seria dizer “telefone criptado”. Acontece que o verbo criptar ainda não está dicionarizado. Um dia, quem sabe.

Birra
Sei que não tem jeito – hacker, hackear e hackeamento vieram pra ficar. Ainda assim, continuo preferindo pirata, palavra muito mais flexível. Dá pra usar: piratagem, pirateamento, piratear, piratinha (já imaginaram “hackinho”?). E mais: piratesco, piratada, piratíssimo. O resto fica por conta da criatividade de cada um.

La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Foi mal

José Horta Manzano

Baita escorregão! É d’O Globo de hoje. Já ouvi muita acusação contra o presidente dos EUA. Prepotente, autoritário, trapalhão, inconsequente, mentiroso, presunçoso – são algumas delas. É a primeira vez que o vejo acusado de botar quebranto. Parece que a rainha Elizabeth, bem assessorada, já sabia do perigo. Nada como receber informações de primeira mão.

Chamada d’O Globo, 5 junho 2019

Pode até ser verdade; não posso garantir porque não sou amigo de infância de Mr. Trump. Mas, cá entre nós, o autor da chamada quis dizer uma coisa e acabou escrevendo outra. Aquele feitiço que, dizem, certas pessoas têm o condão de lançar com os olhos chama-se mau-olhado. Escreve-se com tracinho. E, naturalmente, é mau, não mal.

Ministro evangélico

José Horta Manzano

O comportamento de doutor Bolsonaro e dos bolsonarinhos tem marcas peculiares. Uma delas é a intempestividade – qualidade daquilo que ocorre fora do momento ideal. Timing errado é como se deve dizer em portinglês(1). Outra característica dos atuais gestores do país é o costume de dirigir a fala ao auditório presente, esquecendo-se de que tudo o que dizem em público é gravado, filmado e reproduzido para plateia nacional. O Lula costumava fazer isso, só que, naquela época, internet e redes sociais estavam engatinhando. Hoje mudou. O que se diz a um público alegre e receptivo acaba extravasando e chegando aos ouvidos de uma multidão mal-humorada que rechaça aquela ideia. Aí, danou.

Na sexta-feira 31 de maio, o presidente esteve de visita a um templo da associação religiosa Assembleia de Deus, um dos numerosos grupos neopentecostais surgidos nos últimos vinte anos. Sentindo boa receptividade na fervorosa audiência, fincou pé e soltou o verbo. Disse estar convencido de que «está na hora de termos um ministro evangélico no Supremo Tribunal Federal». Abafou. Foi standing ovacionadover (1) durante quase um minuto, duração que o aplausômetro do envelhecido plantel atual de artistas brasileiros já não costuma registrar.

É, mas uma coisa é falar para plateia homogênea e outra é falar para o conjunto do eleitorado. Tudo o que o presidente diz em público, ainda que falando para círculo restrito, acaba ecoando no país inteiro. E a fala se alastra em questão de minutos. Levando em conta esse parâmetro, deduz-se que doutor Bolsonaro não foi muito esperto.

De fato, apesar do crescimento exponencial que vêm conhecendo estes últimos anos, as denominações neopentecostais (ditas ‘evangélicas’) englobam, grosso modo, um terço dos brasileiros. Por exclusão, conclui-se que dois em cada três conterrâneos não são adeptos de nenhum desses movimentos. É um contingente enorme.

Ao preconizar que o próximo ministro a ser nomeado para o STF seja ‘evangélico’, doutor Bolsonaro agrada um terço dos eleitores enquanto irrita os outros dois terços. Não me parece um bom cálculo. O marketing presidencial dá prova de continuar enguiçado.

E tem mais. A Constituição dá ao presidente total liberdade na hora de escolher ministro para o STF. Trocado em miúdos: quem decide é ele mesmo, sem precisar dar satisfações a ninguém. Portanto, além de imprudente, a fala presidencial é intempestiva – ocorre na hora errada. Irrita quem não devia, na hora em que não devia, sem necessidade real. É ruído desnecessário.

(1) Portinglês (ou portuglês, ou portenglish, ou portunglês) é uma língua mista – um crioulo, como dizem os linguistas – formado do encontro de uma língua estrangeira (inglês) com a língua nativa (português). A sintaxe segue o modelo da língua nativa, enquanto o léxico é fortemente alterado pela língua importada. O crioulo fica impregnado de termos ingleses tratados conforme a sintaxe portuguesa.

A parte importada é frequentemente truncada e sistematicamente pronunciada com sonoridade distante do original. Por exemplo, a palavra importada “doping” é pronunciada “dópinh”, quando o original é “dôuping”. Para o falante do crioulo, bem pronunciada ou não, a importada soa mais chique que a reles dopagem nacional – palavra, aliás, dicionarizada.