Portuñol

Ruth Manus (*)

Hoy estoy volvendo para mi casa después de 15 dias en México. Estoy enamorada, que maravilla que és este país. Pero este texto no és para hablar de México (bamos a tener muchas chances de hacer-lo en otras ocasiones). Este texto sierve para hablarmos sobre la beleza de este idioma lindo, em cual escrivo, llamado portuñol.

El portuñol nasció por uma razón muy bonita que és la perserberância que nosotros brasileños tenemos cuando queremos nos comunicar com nossos hermanos de América Latina. Pienso que los portugueses también lo hacen con los españoles (pelo mienos mi esposo lisboeta habla un portuñol mucho respectable, o que és claramiente una de las raziones que me llevaram a casar-me con el).

Nosotros, que dominamos el portuñol, tenemos mucha admiración por las personas que saben hablar español de verdad. Nos gustaria mucho. Pero hacemos lo que nos és posible, una vez que, infelizmiente, no frecuentamos el Instituto Cervantes o otra maravillosa instituición de enseño del español. Mas, sobretodo, el portuñol represienta una cosa muy linda que és la resistência a hablar inglés cuando estamos entre hermanos. Por que decir “a glass of water, please” cuando podemos pedir “un copito de aguita” con uma sonrisa nel ruesto? Mucho más lindo.

El facto de hablar portuñol también és um sinctoma de buen senso porque hay mucha gente (lê-se rrrrrrrente) de Brasil que hace una cosa muy constrangedora (lê-se constranrrrrrrredora), que és hablar português cada vez más alto e más despacito, como si eso fuera capaz de hacer nuestros hermanos latinos nos compreedieren sin dificuldades.

Yo pude presenciar una brasileña en la alugadora de coches que dice devagar “vocês têm uma tabela de multas?”, el mexicano (lê-se merrricano) no comprendió. Ella habló más alto “VOCÊS TÊM UMA TABELA DE MULTAS”, sin sucesso decía mucho mucho alto e mucho mucho despacito “VOCÊÊÊS. TÊMMM. UMMMA. TABEEELA. DE. MUUULTAS?”. Mi amiga, por que haces esto? Nosotros que hablamos portuñol quedamos muy enverguenzados de situaciones como esta. Era mucho mejor decir “ustedes tienem uma tabellita de mueltas?”. Ellos puedem continuar sin compreender nada do que queriemos, pero és certamiente una actitud mucho más hermosa.

Hay momientos en que hacemos tanto esfuerzo para hablar portuñol com riqueza, que percebiemos que el verdadeiro español no és así tan difícil. Yo estaba em Ciudad de México y quería comprar una cosa que em português llamamos “acetona”. Lleguei en el supermiercado y pregunté para la mueça que trabajava (lê-se trabarrrrrava) en la sección de productos de higiene (lê-se hirrrriene) “ustedes tienen una cosita, química, líquida, con um olor un poco fuerte que vien en una garrafita pequeña y sirve para quitar el verniz de las uñas utiliçando pedacitos de algodón?” y entonces la mueça me preguntó “acetona?”. Yo me sentí bastante ridícula, pero conserbei la sonrisa y dice muy contenta “Ai que rico! La palabrita és la misma que la de Brasil, somos miesmo hermanos!”.

A los pocos bamos aprendiendo. Yo yá sé que la cosa que llamamos em portuñol de “canetita” en verdad llama-se “bolígrafo”. Aprendí que apesar de “mulher” ser “mujer”, “colher” no és “cojer”, mas sí “cuchara”. Tambien ya sé que la erba verde (lê-se bbbbberde) no se llama “salsita”, pero “perejil” y que apesar de “coentro” sonar muy bien como “cuentro”, el correcto és “cilantro”. Y lo más importante: jamás llamar aquela cosita amarilla que vien en espigas o en latas de “mijo”, mas sí de “maiz”. También me gustó mucho de descubrir que “pecho de flango” em verdad tiene um nombre muy muy muy hermoso, que me gustaria decír todos los dias de mi bida: “pechuga de pollo”.

El español és muy lindo. Pero el portuñol és un acto de amor. No dejen este idioma murrir, por fabor. Muchas gracias.

(*) Ruth Manus é advogada, escritora e colunista do Estadão.

Falsa crase

Dad Squarisi (*)

Aqui são balas perdidas. Nos EUA, rajadas de metralhadora. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a
A crase indica o casamento de dois aa: preposição a + artigo a: Dirigiu-se à piscina.

O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a + a = à.

Tira-teima
Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.

• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.

• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.

• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase
Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a + a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos
Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento:

Matou-o à bala.
Feriram-se à faca.
Está à venda.
Escrever à tinta.
Feito à mão.
Enxotar à pedrada.
Fechar à chave.
Matar o inimigo à fome.
Entrar à força.

O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Entre duas canoas

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, escrevi sobre Monsieur Valls, que já foi primeiro-ministro da França e que hoje, transformado em Señor Valls, tenta a eleição para prefeito de Barcelona (Espanha). Não são comuns esses casos de figura pública transnacional, que brilha num país para depois continuar em outro.

Hoje surge mais uma estrela nesse peculiar firmamento. Trata-se de Madame Salomé Zourabichvili. Até poucos anos atrás, era diplomata francesa, com o grau de embaixadora. Hoje acaba de tornar-se presidente da Geórgia, pequena república do Cáucaso, vizinha da Rússia. Foi eleita no segundo turno com estonteantes 60% dos votos ‒ uma consagração.

A história de muitas famílias georgianas se acelerou faz um século. A Revolução Russa de 1918 chacoalhou a vizinhança. Na Geórgia, aqueles que, implicados na política local, caíram do lado errado da nova ordem, tiveram de arrumar a trouxa e se exilar antes que mal maior adviesse. Foi o que aconteceu com os avós da recém-eleita presidente.

Sua mãe nasceu na Turquia, em plena rota de exílio. Seu pai já nasceu na França. Nascida, ela também, em território francês, cedo sentiu-se atraída pela diplomacia. Entrou para a carreira e chegou ao grau de embaixadora. Não foi senão em 1986, quando já estava perto dos 35 anos de idade, que visitou a Geórgia pela primeira vez.

Salomé Zourabichvili, presidente da Geórgia

Depois da virada do século, sua carreira entrou em fase trepidante. Em 2003, chefiava a embaixada da França em Tbilisi, capital da Georgia. No ano seguinte, já se viu projetada ao cargo de ministra das Relações Exteriores do país de seus antepassados, nomeada pelo recém-empossado presidente. A vida dá voltas.

A partir daí, Madame Zourabichvili teve de se decidir. Não era possível servir, ao mesmo tempo, ao governo de dois países. Optou pela terra dos ancestrais e continuou na política georgiana. Conservou a dupla nacionalidade durante alguns anos. Poucos meses antes da eleição presidencial, renunciou à cidadania francesa e tornou-se 100% georgiana.

Ao depositar o voto na urna, Kalbat’oni Zourabichvili(*) declarou «Minha escolha é uma Geórgia em paz, uma Geórgia unida, uma Geórgia sorridente». São nossos votos também, dona Salomé. Amém para todos nós!

(*) Kalbat’oni é a transcrição de ქალბატონი, bordado georgiano que significa senhora.

Baixo custo

José Horta Manzano

Na série traduzo-sem-me-deixar-influenciar-pelo-original, temos hoje novo capítulo. Inspirada pelo anúncio de que está chegando nova companhia aérea estrangeira, a midia já sapecou um «Surge companhia aérea de baixo custo».

Em primeiro lugar, parabéns aos que costumam ou pretendem viajar para a Europa. A oferta de bilhetes a menos de 1.500 reais por perna é atraente. Não é de duvidar que as outras empresas vão logo sentir o baque. Pra remediar, terão de oferecer algo que justifique a diferença de preço. Já devem estar pensando nisso, imagino.

Chegamos agora ao qualificativo que se dá a essas empresas. No original inglês, deve-se dizer low cost carrier – transportadora de baixo custo. Não me agrada, essa descrição. Custo é palavra reservada pra contabilizar o montante total que a empresa despende para chegar ao produto final. Ninguém quer saber se os custos da empresa são elevados ou não. Isso pouco interessa ao passageiro.

O que interessa ao cliente é o preço ‒ o valor a pagar para adquirir o bilhete. É esse que tem de ser baixo. Portanto, a qualificação dessas firmas não deveria fazer alusão ao custo, mas ao preço.

Os primeiros a dar essa denominação ‒ low cost ‒ passaram por cima. Sabe-se lá por que razão, preferiram se referir ao custo em vez de lembrar o preço. Há de ter-lhes parecido mais conveniente. Na hora de transpor a expressão para as demais línguas, faltou espírito crítico a alguns tradutores. Boa parte deles se mantiveram fiéis ao original. Estão aqui alguns exemplos:

Português: linha aérea de baixo custo
Francês: compagnie à bas coût
Espanhol: aerolinea de bajo coste
Italiano: compagnia a basso costo

Já outros foram mais espertos. Na hora de traduzir, corrigiram a imperfeição do original:

Alemão: Billigfluggesellschaft (Empresa aérea barata)
Sueco: lågprisflygbolag (Empresa aérea de baixo preço)

Teria ficado mais simpático se tivessem posto «linha aérea econômica». Mas acho que agora é tarde. Fica para a próxima.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

A crase e a crise

José Horta Manzano

Doutor Schelb, indicado pelo presidente eleito para chefiar o Ministério da Educação, já estava encomendando o terno para a posse. A bancada evangélica acolhia a nomeação com bons olhos. Faltava um nadinha pra o martelo ser batido. A equipe de doutor Bolsonaro achou que era hora de permitir um vazamento maroto para a imprensa. O nome do futuro ministro passou a circular pela mídia.

Chamada Estadão, 22 nov° 2018

Ah, pra quê… Naquele dia, o estagiário de um grande jornal estava mais sonolento que de costume. Ao costurar a manchete, tropeçou feio: tascou uma crase onde não devia. Onde é que já se viu escrever um à descomplexado bem diante de palavra masculina? E, pior ainda, diante de palavra no plural?

A bancada evangélica não gostou do que viu. Ministro da Educação anunciado com erro gramatical? Nããão! Jogaram o bebê com a água do banho. Assustados, demitiram o figurão antes mesmo de ele ter sido oficializado. Doutor Bolsonaro foi obrigado a escolher outro auxiliar. Na manhã desta sexta-feira, é fato consumado ‒ novo nome já foi dado a público.

Tráfego pesado

José Horta Manzano

A Ponte Velha (Ponte Vecchio), de Firenze, foi erguida no ano de 1345, faz quase sete séculos. E está lá até hoje, galharda e elegante, o que é normal. De fato, não é corriqueiro ver ponte cair. Ninguém imagina que a ponte medieval que liga as duas margens do Rio Arno possa desmoronar assim, de uma hora pra outra.

Faz uns dias, a pista de um viaduto paulistano afundou bem na junção de duas placas de concreto. O sinistro criou um degrau na pista. Esse desnível, além de ameaçar derrubar o viaduto sobre os trens que circulam mais abaixo, impossibilita o trânsito de veículos.

Chamada Estadão, 20 nov° 2018

Este blogueiro é do tempo em que trânsito significava tráfego, passagem, movimento de pessoas ou de veículos, o ato de atravessar ou de circular. No entanto, dado que o trânsito de veículos nas desorganizadas megalópoles brasileiras costuma ser lento e encrencado, o significado da palavra evoluiu. Hoje em dia, trânsito deixou de ser palavra neutra, sem qualificação. Passou a ser sinônimo de tráfego pesado.

O jovem estagiário do jornal responsável pelas chamadas não conheceu a época em que o trânsito, conhecido então como tráfego, era pacato. Para o jovem, trânsito é engarrafado por natureza. Daí o título esquisito que informa que vias estão abertas à circulação «para evitar trânsito», quando um incauto imaginaria o contrário, isto é, que as vias tivessem sido abertas justamente «para facilitar o trânsito» e não para evitá-lo. É conversando que a gente se entende.

S ou z: formação de palavras

Dad Squarisi (*)

Embriaguez se escreve com z. Português, com s. No caso, z e s soam do mesmo jeitinho. Por que a grafia diferente? A resposta está na origem:

  • Se a palavra primitiva for adjetivo, o z pede passagem:
    macio = maciez,
    líquido = liquidez,
    sólido = solidez,
    frígido = frigidez,
    embriagado = embriaguez.
  • Se a palavra primitiva for substantivo, é a hora e a vez do s:
    Portugal = português,
    corte = cortês,
    monte = montês,
    economia = economês,
    campo = camponês.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Projeto reprovado

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 nov° 2018

Não foram dois projetos que o nobre deputado «aprovou» ‒ foi nenhum. Nem que tivesse passado 20, 30 ou 40 anos na Câmara, doutor Lorenzoni teria conseguido «aprovar» algum projeto. E por quê?

Porque não cabe a ele aprovar projetos. Quem aprova é a Câmara, não o solitário deputado. O conjunto de deputados que compõem a Câmara se reúnem, votam e aprovam (ou reprovam) cada projeto. A frase que aparece na chamada do jornal tem de ser revista. Há várias possibilidades.

  • Onyx Lorenzoni: em 16 anos, a Câmara só aprovou dois projetos seus
  • Em 16 anos de Câmara, só dois projetos de Onyx Lorenzoni foram aprovados.

E assim por diante.

Já que estamos no assunto, é interessante lembrar também que quem reprova é o professor, não o aluno. Assim, não se deve dizer que «Pedrinho reprovou». Melhor será dizer que «Pedrinho foi reprovado». Paciência. Para a próxima, Pedrinho vai estudar mais.

Criar novo

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 nov 2018

Se não havia regime tributário para montadoras, o decreto presidencial cria um. O ‘novo’ sobra. De fato, vai um doce pra quem conseguir criar regime velho.

Se já havia um regime tributário para montadoras, não há por que criar outro. Se ele foi modificado, será melhor utilizar outro verbo que dê o recado.  Fica assim: «Temer assina decreto que modifica (altera, transforma, mexe com, remodela, muda) regime tributário.»

Pronto, o recado estará dado. Utilizar «criar novo» é uma tentação. Mas é baita redundância.

Inadequação vocabular ‒ 10

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 4 nov° 2018

As consequências nefastas das notícias falsas são tema da redação do Enem este ano. Na chamada do Estadão, o ‘sobre’ sobra.

O tema é a própria manipulação. Melhor será dizer: ‘O tema da redação do Enem é a manipulação de usuários na internet’.

Inadequação vocabular ‒ 9

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 30 out° 2018

Por mais sórdidos que tenham sido, os crimes cometidos pelo indivíduo não têm o poder de cassar-lhe o diploma. Enfermeiro era, enfermeiro é e enfermeiro será. Não há meio de anular a formação profissional recebida pelo criminoso.

Sua licença de exercer será, naturalmente, anulada ‒ se é que já não foi. É bem provável que, ainda que um dia saia da cadeia, nunca mais receba autorização para atuar como enfermeiro. Ainda assim, enfermeiro sempre será. Enfermeiro não é função nem cargo: é profissão. Portanto, o ex- da chamada sobra.

Não dá samba

José Horta Manzano

«Mulher que não dá samba, eu não quero mais». Assim vai o refrão do samba sacudido que Paulo Vanzolini criou e Carmen Costa gravou em 1974 em duo com Paulo Marquez. Nessa música, o compositor pinta os traços de uma mulher-objeto. Fosse hoje, ele seria renegado como machista malvado, plantado a milhas do politicamente correto. Na época, no entanto, a Polícia dos Costumes ainda não havia criado essas amarras. Artista podia permitir-se maior liberdade de movimento.

Hoje não se deve mais falar em mulher que dá samba, que não pega bem. Mas ainda não é proibido ver gente famosa dar substantivo e adjetivo. Não é façanha pra qualquer um. Duas condições precisam estar reunidas. Em primeiro lugar, o personagem deve ser importante e amplamente conhecido. Em segundo, seu nome tem de permitir a criação de derivados.

Vários campos da atividade humana são propícios à criação de adjetivos e substantivos derivados de nome próprio. No campo religioso, São Bento (Benedito) deu a paciência beneditina. São Francisco desembocou na humildade franciscana. Nas artes e nas ciências, há muitos exemplos: freudiano, balzaquiana, dantesco, machadiano.

A política é campo fértil para esse tipo de derivação. No passado, tivemos adhemarismo/adhemarista, janismo/janista, juscelinismo/juscelinista, getulismo/getulista e numerosos outros. É que, por capricho da história, o nome desses figurões aceitava um sufixo. Já outros nomes não aceitam derivação. FHC, nesse campo foi estéril. Como falar em FHCismo? Impossível. No mesmo caso estão Collor, Sarney, Renan, Geisel, França e tantos outros. Não se prestam a formar substantivo nem adjetivo. Collorismo? Não dá. Sarneyista? Que feio!

A cereja em cima da glória de todo homem político é a nomeação de corrente política com base em seu nome. Nesse ponto, Lula teve sorte. (Não só nesse, aliás.) Lulismo e lulista são termos amplamente aceitos e utilizados. Convenhamos: emprestar o próprio nome a uma tendência política é pra inflar o ego de qualquer um.

Quando se apresentaram treze pretendentes à Presidência da República, examinei o nome de cada um. Acabei me dando conta de que quase nenhum permitia a criação de derivados. Haddadismo? Alckminismo? Diasismo? Boulosismo? Nem em pesadelo! Era uma coleção de nomes estéreis. Só se salvava um: Bolsonaro. E o homem acabou ganhando! Que agrade ou não, bolsonarista já está na praça, aceito por número crescente de veículos. Aliás, o número de bolsonaristas da undécima hora cresce a cada dia.

Muito poucos já ousaram bolsonarismo. O substantivo virá com o tempo. Só nos resta esperar que ele nunca assuma a conotação pejorativa que hoje carregam lulismo e, sobretudo, dilmismo.

Mulher de soldado

José Horta Manzano

A onda do politicamente correto não é exclusividade brasileira, longe disso. Ela tem-se alastrado pelo mundo todo. Quando a conversa resvala para assuntos de sexo, de posição social ou de cor da pele, todo cuidado é pouco. Uma palavra mal pronunciada pode azedar o ambiente. Pode até pôr fim a uma velha amizade.

A feminização do nome das profissões é preocupação geral. É natural: ofícios que antes eram exclusivamente masculinos são hoje exercidos por homens e por mulheres. Se não havia palavra para indicar que o profissional era mulher, hoje ela tem de ser inventada.

Certas línguas, como o inglês, são menos afetadas por essa questão. De natureza «unissex», essa língua não perde tempo com essas miudezas gramaticais. Adjetivos, por exemplo, não vão nem para o plural ‒ que dirá para o feminino. Nomes de profissão geralmente não são flexionados. A exceção fica para os que terminam em man, como salesman. Nesse caso, a forma feminina vem naturalmente: saleswoman. E o problema está resolvido.

O alemão tem um modo muito jeitoso de feminizar nome de profissão. Como todas terminam por consoante, basta acrescentar o sufixo in. Cabe sempre. Jurist (jurista) faz Juristin. Verkäufer (vendedor) faz Verkäuferin. Ingenieur (engenheiro) faz Ingenieurin. E assim por diante. É muito prático e não ofende ninguém.

Em francês, o assunto dá dor de cabeça. Há alguns sufixos que dão ideia de feminino, mas precisa tomar cuidado ao manipulá-los, que cada caso é um caso. Todo médico é tratado por Docteur. A médica pode aceitar Doctoresse (doutora) ou preferir Madame le Docteur (Senhora Doutor). Melhor perguntar antes. É muito complicado. Tem de andar na ponta do pé. Isso vale para todas as profissões.

Nossa língua é mais camarada. Quando o nome da profissão termina em consoante, é suficiente acrescentar um a ao final pra obter o feminino: vendedor/vendedora, bacharel/bacharela, doutor/doutora, juiz/juíza. Quando termina em a ou e, não varia: o/a atleta, o/a estudante, o/a agente, o/a presidente, o/a obstetra.

Nos nomes de profissão que terminam em o, basta trocar o por a: engenheiro/engenheira, médico/médica, padeiro/padeira. Nesse particular, tenho notado certa reticência em feminizar a palavra soldado. Volta e meia, lê-se na manchete que «a soldado acudiu à ocorrência». Fica pra lá de esquisito. Fosse em francês, a hesitação seria compreensível, mas em português… francamente.

Se temos advogado/advogada, deputado/deputada, delegado/delegada, jurado/jurada, por que não soldado/soldada? Coragem, gente, coragem!

Falsos amigos ‒ 1

José Horta Manzano (*)

Para aqueles que acham que Espanhol é fácil, é bom saber que lá: Boliche se diz Bolos, Bolo se diz Bizcocho, Biscoito é Galleta, Cupcake é Madalena, Waffle é Gofre e Porra é Churros.

Pra piorar, Taza é Xícara, Copa é Taça, Vaso é Copo, Lentilla é Lente de contacto, Lentilha é Lenteja, Bolso da calça é Bolsillo, Bolsa de braço é Bolso e Bolsa é saco plástico de mercado.

Também é importante saber que: Cajones é Gaveta, mas Cojones não é algo legal. Pollo é frango, mas polla não é a mulher do galo. Carrera é Corrida, mas Corrida é… bem, deixa pra lá.

E se tudo isso parece esquisito, saiba que, na Espanha, Exquisito é Gostoso, Gostoso é Rico e gente adinheirada é Rica também.

(*) Com base nas informações de Andrea Martínez.

Fatal: emprego

Dad Squarisi (*)

Fatal quer dizer que mata. O acidente mata. É fatal. Veneno mata. É fatal. Queda pode matar. Pode ser fatal.

Muitos dizem “vítima fatal”. Bobeiam. A vítima, coitada, morre. Não mata. Se a pessoa perdeu a vida, diga que ela morreu:

O acidente provocou duas mortes.
No acidente, duas pessoas morreram.
O acidente matou duas pessoas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Como é que é? ‒ 7

José Horta Manzano

Chamada de O Globo, 14 out° 2018

Por mais irresistíveis que sejam os pratos, é bom tomar cuidado com a correção. Certos erros podem dar dor de barriga.

Resistir não pede objeto direto, mas indireto com preposição. Quem resiste, resiste a alguma coisa. Esse a tem de reaparecer sempre que o verbo resistir for utilizado.

A manchete teria ficado bem mais digesta se estivesse escrito: “pratos infantis aos quais os adultos não resistem”.

Fake news ‒ 3

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, mentira era chamada de mentira, boato era chamado de boato, mexerico era chamado de mexerico. Mas isso foi nos tempos de antigamente. Hoje mudou. Na medida que são propagados pelas redes sociais, mentira, boato e mexerico têm nome novo, nome que engloba todas as modalidades de engodo: fake news.

Coisa curiosa, não? É proverbial nossa passividade diante de expressões importadas. Soam tããão chiques! Que fazer? Fake news vem fazer companhia a sale, off & alia.

Restaurante cinco estrelas sob direção da família Boato
À beira do Lago Maior, Brissago, Suíça

Na França, a Académie Française cuida da língua. Não chega a editar normas restritivas que engessam a fala e a escrita dos usuários, como faz nossa Academia. Limita-se a aconselhar usos preferenciais e a propor neologismos para traduzir expressões estrangeiras.

Estes dias, a Académie Française sugeriu que fake news seja substituída por expressão nacional. Propôs dois caminhos. O primeiro é falar em information fallacieuse ‒ informação falaciosa, expressão que me parece longa demais pra se tornar popular. O segundo caminho é traduzir pelo neologismo infox, uma colisão entre information e intoxication.

Achei a ideia de infox bem bolada. Na França, tem forte chance de pegar. No Brasil, não adianta nem propor. Não tenho nenhuma esperança de que o brasileiro abra mão de seu fake news, expressão com sabor de Primeiro Mundo.

Como é que é? ‒ 6

José Horta Manzano

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Convém ser prudente ao dar notícia ligada a crime. Todo cuidado é pouco. Quem usar mal as palavras periga ser processado por acusar inocente. Daí o uso sistemático de perífrases compostas com “suposto”, “hipotético”, “presumido”.

No caso relatado pelo Estadão e reproduzido acima, contudo, a expressão “suposta prática” é francamente exagerada. Se o indivíduo já passou pelo tribunal, foi julgado e condenado a 11 anos de cadeia, onde está a suposição? Seus crimes já foram reconhecidos. É certeza jurídica! O “suposta” sobra.

Dupla carreira política

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é todo dia que a gente vê homem político fazendo carreira em dois países, evento pra anotar em livro de história. É o que está pra acontecer com Monsieur Manuel Valls, o poliglota que está inscrevendo peculiar percurso político.

O pai dele, espanhol de Barcelona, emigrou para a França quando moço. Lá conheceu a moça com quem viria a se casar, uma suíça italiana. Trocadas as alianças, continuaram vivendo na França. Quando estava pra chegar o primeiro filho, o pai fez questão de que a criança, como ele, viesse ao mundo em Barcelona. Dito e feito, foram de férias à Espanha e lá nasceu o menino Manuel.

Manuel Valls, antigo primeiro-ministro da França

Logo de cara, o moço já tinha duas nacionalidades: a espanhola por parte de pai, e a suíça por parte de mãe. Cresceu na França, país do qual requereu a cidadania assim que completou 20 anos. Esse colecionador de nacionalidades teve ainda a chance de aprender quatro línguas na infância, idiomas que consegue manejar à perfeição: o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. Bagagem e tanto!

Jovem ainda, filiou-se ao Partido Socialista Francês e ingressou na política. Foi prefeito, deputado e até primeiro-ministro do país de adoção. Chegou a ser pré-candidato à presidência da república, mas não conseguiu vencer as primárias. Com a débâcle de seu partido estes últimos anos, o homem ficou à deriva, com um mandato de deputado mas sem perspectiva de ocupar postos importantes. É muito pouco pra político ambicioso.

Que não seja por isso. Já faz uns seis meses que ele está em campanha para a prefeitura de Barcelona, sua cidade natal. Na França, poucos acreditavam que desse o passo. Mas parece que Monsieur Valls ‒ agora Señor Valls ‒ está mesmo decidido. Se conseguir, será um dos raros espécimes políticos a ter feito carreira em dois países.

Para a Catalunha em geral e para Barcelona em particular, seria muito bom se o antigo primeiro-ministro francês vencesse a corrida para a prefeitura. Numa província em que o ódio corrói as relações entre independentistas e unionistas, é bem-vinda a presença de um prefeito aberto ao mundo e desprovido de visão sectária.