Donbas ou Donbass?

Donbas / Donbass

José Horta Manzano

Com a estúpida guerra que se instalou em território ucraniano, a palavra está no noticiário diário. A mídia brasileira hesita entre as duas formas Donbas e Donbass – com um S final e com dois. Qual é a grafia correta?

Pra começar, vamos ver qual é o significado do termo. O Rio Donets(1) é um curso d’água de certa importância. Nasce em território russo, entra na Ucrânia, irriga mais de 700km de terras desse país, em seguida volta a terras russas para desaguar no Rio Don. No total, o Donets percorre mais de 1000 quilômetros.

Desde o fim do século 19, a bacia do Rio Donets é conhecida pela abundância de minas de carvão natural. A conjunção de um curso d’água importante e da presença de carvão deu origem à siderurgia e à indústria pesada que se estabeleceram na região. É uma das razões pelas quais a Rússia faz o que pode para anexar essa província a seu território.

A palavra bacinus tinha, no latim medieval, numerosas variantes: baccinus, bassinus, bachinon e até bacca. Em espanhol, o étimo caiu em desuso, mas permanece vivo no italiano bacino, no português bacia e no francês bassin. Com o significado de “conjunto de terras ligeiramente inclinadas”, como em “bacia amazônica”, o russo e o ucraniano tomaram emprestada a forma francesa bassin, transliterada бассейн (russo) e басейн (ucraniano). Ambas são pronunciadas “basséin”.

A palavra Donbas (Donbass) nada mais é que a contração da expressão Донецкий бассейн (=Donetski bassein, em russo) ou Донецький басейн (=Donetski basein, em ucraniano). Donbas (Donbass) é a Bacia do Rio Donets.

A grafia russa requer dois ss, enquanto a ucraniana se contenta com um só. Dado que a bacia carbonífera se estende pelos dois países, eu diria que ambas as grafias são aceitáveis. Os ucranianos certamente ficarão mais felizes se transliterarmos com um S só – Donbás.(2)

(1) Tanto em russo quanto em ucraniano, o final “ets” indica o diminutivo. Portanto, Donets é “pequeno Don”, em referência ao Rio Don, o mais importante da região. No Brasil, tendo em vista que grande parte dos cursos d’água têm nome indígena, a oposição entre o maior e o menor é indicada pelos termos mirim (pequeno) e guaçu (grande), empréstimos da língua tupi. Em Santa Catarina, por exemplo, temos os Rios Saí Mirim e Saí Guaçu. Em São Paulo, estão os rios Apiaí Mirim e Apiaí Guaçu.

(2) Acentuei o á para indicar que o acento tônico cai na sílaba final. Em ambas as línguas.

Butcha

José Horta Manzano

Uma guerra de conquista travada na Europa em pleno século 21, de tão anacrônica e assustadora, não pôde passar despercebida. Repórteres, jornalistas, cinegrafistas do mundo todo estão de olho grudado no desenrolar dos acontecimentos.

Se a intenção de Putin era lançar uma Blitzkrieg (=guerra relâmpago), deu-se mal. Analisando desse ponto de vista, já perdeu. O bumerangue voltou mais rápido e com mais força. Em maior ou menor medida, o planeta inteiro vai sofrer; mas as consequências da insanidade serão ainda mais pesadas para Putin e seu povo.

Filmado por repórteres e sacramentado por imagens de satélite, um massacre foi cometido numa cidadezinha tranquila, situada na periferia de Kiev, povoada por 35 mil pessoas antes da guerra.

Agências internacionais deram a notícia. Como se sabe, despachos vêm em inglês. Sonolentos, alguns encarregados de traduzir para a mídia nacional descuidaram de adaptar para nossa fonética o nome da cidade agredida.

A grafia cirílica Буча, transliterada para o inglês, dá Bucha, sequência de letras que, lida por um inglês, corresponde à pronúncia original. Não sei como o nome está sendo pronunciado pelo rádio e pela tevê no Brasil. O que sei é que boa parte de nossa mídia escrita adotou, sem refletir, a grafia inglesa.

O problema é que, em inglês, as duas letrinhas “ch” são pronunciadas “tch” – coisa que a gente aprende na primeira aula. Portanto, para permitir que um leitor brasileiro pronuncie corretamente o nome da cidade, é preciso escrever Butcha, não Bucha.

Sempre alerta, a Folha de São Paulo entendeu.

Folha de São Paulo

Já os outros dois grandes órgãos da imprensa nacional continuam cochilando.

Estadão

O Globo

 

Palavras têm peso

José Horta Manzano

Apesar do descontrole que reina nas redes sociais, terreno em que cada um se sente autorizado a dizer qualquer besteira a qualquer momento, palavras têm peso.

Apesar do descontrole que reina na mente de Bolsonaro, e que o faz sentir-se livre de dizer tudo o que lhe passa pela cabeça a todo momento, palavras ainda têm peso.

Apesar do descontrole que reina no miolo de muitos políticos, e que lhes permite atacar, insultar e tentar “cancelar” qualquer um a todo momento, palavras continuam tendo peso.

Bolsonaro, que vem sendo eficientemente blindado por correligionários por ele mesmo instalados em postos-chave da República, tem escapado a toda sanção. E vai continuar escapando até o dia em que cair do coqueiro. Como se sabe, tudo o que sobe acaba caindo um dia; e, quanto maior o coqueiro, maior o tombo.

Estes dias, um deputado federal do campo bolsonarista me fez lembrar o Zé Grandão Bobo, personagem de HQ da minha infância. Era um urso, sempre desenhado armado de porrete. Era grandalhão e espalhafatoso mas inofensivo.

O deputado foi condenado a portar tornozeleira eletrônica. Num ato de grande coragem, convocou a mídia e passou 24 horas refugiado na Câmara para escapar ao vexame. Pois o rapaz tem as características do antigo personagem: é grandalhão, é bobo e não passa de um zé qualquer.

Se está nessa sinuca é porque não se deu conta de que as palavras têm peso. Insultou, em mais de uma ocasião, magistrados do STF, uma temeridade para quem goza de foro especial e sabe que, se for julgado um dia, seus juízes serão… os magistrados do STF.

Parece coisa de débil mental. Como resultado evidente, o deputado não contou com a indulgência dos juízes. Vai ter de usar a algema eletrônica, queira ou não queira. Mostrou fazer jus a minha observação: é zé, é grandão e é bobo.

O mundo inteiro descobriu ontem cenas de horror provenientes da Ucrânia. Em peso, a mídia mostrou as atrocidades cometidas pelo exército russo na pequena cidade de Butcha, abandonada pelos invasores coalhada de cadáveres de civis executados a sangue-frio.

Chocados com o que viram, alguns dirigentes não pesaram as próprias palavras e falaram em genocídio. Zelenski, o presidente da Ucrânia, foi o primeiro a usar esse qualificativo para o que se passou naquela cidadezinha da periferia de Kiev. Sendo ele o presidente do país agredido, dá pra relevar o deslize.

Fica mais difícil dar o mesmo desconto aos primeiros-ministros Pedro Sánchez (Espanha) e Mateusz Morawiecki (Polônia), que utilizaram o mesmo termo de genocídio. Estão enganados.


Genocídio é palavra relativamente recente, criada nos anos 40 e oficializada por convenção da ONU de 1948. A definição é oficial e rigorosa: é a exterminação sistemática de um grupo humano por motivos de raça, língua, nacionalidade ou religião. Corresponde, portanto, a limpeza étnica – um ato extremado levado a cabo por motivos étnico-religiosos ou por loucura.


Aconteceu na Bósnia-Herzegovina nos anos 90, quando batalhões sérvios cuidaram de eliminar sistematicamente populações inteiras de muçulmanos.

Fica fora de esquadro falar em genocídio de russos contra ucranianos. Os dois povos compartilham a história e a religião; falam línguas muito próximas; têm entrelaçamento familiar: grande parte dos ucranianos têm parentes russos e vice-versa. Difícil mesmo é encontrar russos ou ucranianos “de raça pura”.

Pode até ser que, lá no fundo da cabeça de Putin, esteja a ideia de “cancelar” o povo ucraniano, talvez até de partir para a eliminação física. No entanto, enquanto isso não for comprovado, não convém usar o termo genocídio. Que se diga crime de guerra, expressão que não será contestada por ninguém.

Baseada no que aconteceu em Butcha, a acusação de genocídio tem pouca chance de ser recebida pelo Tribunal Penal Internacional.

Atrocidade, brutalidade, crueldade, barbaridade, massacre, selvajaria, bestialidade, desumanidade são termos de bom tamanho. Exprimem julgamento de valor e não entram em colisão com nenhuma definição oficial.

Zelensky ou Zelenski?

José Horta Manzano

Algumas línguas, principalmente eslavas, utilizam o alfabeto cirílico. O russo, o búlgaro, o sérvio, o macedônio e também o ucraniano estão entre essas línguas.

Esse alfabeto, baseado no grego com acréscimo de letras específicas, foi criado pelo bispo Constantino Cirilo, que viveu no 9° século de nossa era, ou seja, 1.200 anos atrás. Como se vê, o nome do prelado se estendeu ao nome do sistema de escrita.

Uma das características das línguas eslavas é a grande variedade de sibilantes. Há diferenças sutis, que nosso ouvido nem chega a perceber, como o S forte e o S fraco. Há muitos ch, ts, dz, tch, chtch e outros da mesma linha.

As letras cirílicas são bastante úteis para grafar as línguas eslavas. Por exemplo, para escrever chtch, nós precisamos de 5 letras, enquanto os eslavos resolvem o problema com uma letra só: щ. É uma economia de tempo e de espaço! Para ter uma ideia de como soa essa letra, pronuncie “os tchetchenos” como os cariocas: och tchetchenos.

Quando escrevemos um nome eslavo usando nosso alfabeto, estamos fazendo uma transliteração (= escrever com um alfabeto palavras de outro). Nomes russos, ucranianos e sérvios passam por esse processo.

Tenho visto frequentemente, em jornais do Brasil, o nome do valoroso presidente ucraniano escrito Zelensky, com Y final. Não é a melhor maneira de transliterar.

Nosso Y não existe no alfabeto cirílico, que só tem uma única letra para a vogal i: и. Em determinados casos, para indicar som breve, o и pode aparecer com uma braquia (й). No entanto, com acento ou não, será sempre a mesma letra.

Portanto, é recomendável transliterar o nome do presidente Зеленський como Zelenski, com i no final. Tascar um Y, embora pareça mais “estrangeiro”, não se justifica nesse caso.

A Folha de São Paulo entendeu perfeitamente e só grafa Zelenski. O Estadão oscila entre as duas formas. Já O Globo, não sei por que razão, persiste em copiar a forma inglesa Zelensky. Ainda bem que não adotaram Zelenskyy, com dois Y, como alguns jornais ingleses costumam grafar.

Com sabedoria, os latinos diziam: “Errare humanum est, perseverare diabolicum”Errar é humano, perseverar é diabólico.

Kyiv, não Kiev

Kyiv, não Kiev
Logo da campanha de 2019

José Horta Manzano

Em 2019, o Ministério de Relações Exteriores da Ucrânia lançou uma campanha de informação sobre a grafia do nome da capital do país.

O mundo foi informado de que a forma Kiev corresponde à transliteração (transposição para o alfabeto latino) do nome que os russos dão à cidade. Em caracteres cirílicos segundo a variante russa, é КИЕВ. O governo da Ucrânia solicitou que se passasse a usar a transliteração a partir do nome original ucraniano: Kyiv, que, em caracteres cirílicos segundo a variante ucraniana, é КИЇВ.

O governo dos EUA aquiesceu ao pedido e logo adotou a forma ucraniana do nome da capital. O New York Times foi atrás e oficializou a forma Kyiv. A inglesa BBC veio a seguir. Fora do mundo anglo-saxônico, o pedido da Ucrânia tem sido ignorado. Franceses, espanhóis e brasileiros continuam escrevendo e lendo Kiev.

Nestes tempos de uma Ucrânia martirizada pela covarde invasão russa, não custa chamar-lhes a capital como eles pedem. Este blogueiro, embora não conte com a equipe de revisores do governo americano nem do New York Times, vai ficar atento. Não custa.

Palíndromo

Capicua

José Horta Manzano

Quando vi que se aproximava o dia 22/2/22 – uma combinação de números pra lá de iteressante e rara – escrevi um artigo. Publiquei dia 1° de fevereiro sob o título A escolha da data.

No post, eu dizia que, nos cartórios suíços, já estava ficando difícil marcar um casamento para essa data. Nas grandes cidades, os horários já estavam todos tomados. É que, além do véu, da grinalda e da aliança, é um charme ter uma certidão informando que o casório ocorreu num 22/2/22.

Dia destes, leio no Portal G1 que o 22 de fevereiro deste ano é um palíndromo. Como é que é? – pensei. Palíndromo? Palíndromo não é aquela palavra (ou frase) que tanto pode ser lida da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda? Certamente, o 22/2/22 responde a esse critério, mas… é muito mais que isso. É uma repetição de 5 números, todos iguaizinhos, fato que só ocorre de raro em raro.

Ao ver a ilustração do artigo do portal, entendi o porquê de chamarem a data de “palíndromo”. É que, enquanto este escriba ainda escreve datas à moda antiga, o mundo evoluiu e usa notação bem mais modernosa. Num dia 22 de fevereiro, enquanto continuo enxergando um 22/2, o mundo moderno só jura por um 22/02. Em vez do velho e seguro 14/9, hoje o certo é 14/09.

Para mim, é a prova de que a monotonia da máquina venceu a espontaneidade humana. Em vez de a máquina se adaptar ao modo humano de ser, é o homem que se adaptou à máquina. Mundo estranho, não acha?

Bom, deixando a ranzinzice de lado e voltando à magia do 22 de fevereiro deste ano, acho que, já que estamos mergulhando no universo dessas palavras que, francamente, não se usam todos os dias, vamos aprender certinho.

Diz-se palíndromo de palavra ou frase que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto de trás pra diante. Para números, a denominação muda. Um número que responde aos mesmos critérios (leitura idêntica de cá pra lá e de lá pra cá) é uma capicua. Quem ensina é o professor Bizzocchi, num interessante artigo.

Palíndromo tem ar de ter origem grega. E tem. Já a curiosa capicua (pronuncie capicúa), de onde vem? Vem do catalão através do espanhol. É formada por cap + cua, onde cap=cabeça e cua=rabo. Com o perdão da redundância, é expressão bem expressiva.

O ensinamento que fica

Palíndromo é para palavras ou frases.

Capicua é para números.

Ao inserir um zero desnecessário antes dos algarismos, podemos nos conformar com o alinhamento exigido pelas máquinas modernas, mas liquidamos o charme de certas sequências fabulosas. Que vale um 22/02/2022 perto de um 22/2/22?

O Brasil se solidariza à Rússia

José Horta Manzano

Para Celso Luft (1921-1995), grande dicionarista e profundo conhecedor da língua, o verbo solidarizar pode ser usado pronominalmente (solidarizar-se). Nesse caso, pedirá a preposição com: Solidarizar-se com algo ou com alguém.

Em conversa com Vladímir Putin, o autocrata russo, nosso capitão rosnou que “o Brasil se solidariza à Rússia”. Digo que ele rosnou porque rosnar é o verbo que melhor descreve seu modo habitual de se expressar. O capitão não fala “pra fora”, como se diz. Ele lança sons meio enrolados. O final das palavras sai engolido. Muitas vezes, faltam os verbos. Para serem entendidas, suas frases têm de ser reconstruídas, como fazem os linguistas com línguas desaparecidas.

Tirando a pisada de bola na regência do verbo e apurando a frase, fica a afirmação de que “o Brasil se solidariza com a Rússia”. Que diabo ele quis dizer com isso? Analistas de boa cepa espremem as meninges pra entender aonde o presidente quis chegar. No fundo, ninguém conhece ao certo a abrangência do pensamento presidencial. Nem ele mesmo, provavelmente.

Para Merval Pereira (d’O Globo e da ABL), “Bolsonaro não sabe usar as palavras, e é possível que nem soubesse o que estava falando quando afirmou que o Brasil é ‘solidário à Rússia’. Ele provavelmente estava se referindo à economia e ao comércio, mas se solidarizar com a Rússia numa visita oficial é um erro absurdo neste momento de crise.”

Para Bruno Boghossian (da Folha de São Paulo), “O Bolsonaro que visitou Putin exibiu sua própria falta de expressão. Ninguém se incomodou muito quando o presidente disse que os brasileiros eram ‘solidários à Rússia’ – o que poderia indicar que o país apoiava o Kremlin nas tensões com a Ucrânia. Na mesa dos adultos da diplomacia, ele praticamente desapareceu.”

Há outras análises, todas no mesmo tom. Ao final, fica a terrível impressão de termos um presidente ignaro que, de olhos vendados como num jogo de cabra-cega, é conduzido por não se sabe quem, para não se sabe onde. O homem não parece ser mestre do próprio destino. Vai para onde mandam que vá.

Nosso país parece estar sendo dirigido por uma junta misteriosa, sem rosto, sem etiqueta, sem nomes. Quem, na verdade, conduz os negócios? Entre os organizadores dessa farsa macabra, estarão certamente os filhos, os generais palacianos, os cabeças do centrão. E sabe-se lá mais quem. Fica patente que o presidente não é senhor de seus atos. Embora, pelo cargo, devesse representar a nação brasileira, seu desempenho denuncia que ele é apenas representante de si mesmo.

Insignificante fora das fronteiras e nocivo no país, qual é o lugar de Bolsonaro? Acredito e espero que os rios de (nosso) dinheiro que ele possa torrar daqui até outubro não serão suficientes para reelegê-lo. Nossa Senhora dos Aflitos não vai nos faltar.

Línguas lusófonas

Chamada da Folha de São Paulo, 9 fev° 2022

José Horta Manzano

A Europa abriga grandes famílias linguísticas. Há as línguas latinas, as germânicas, as eslavas. As latinas também podem ser chamadas neolatinas, romances ou românicas.

Com toda sinceridade, é a primeira vez que ouço falar em “línguas lusófonas”. Suponho que a língua portuguesa entre nessa curiosa categoria. Quais seriam as outras? Ou será que o jornal já dá de barato que o português e o brasileiro são línguas diferentes?

Em tempo
O adjetivo lusófono define o indivíduo que fala português. A língua propriamente dita, não se deve dizer que é “lusófona”, mas lusa.

Os nomes da Alemanha

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José Horta Manzano

Você sabia?

Na maioria dos casos, quando o nome de um país é “traduzido” em outras línguas, faz-se apenas uma adaptação gráfica e fonética para ficar em conformidade com o espírito da língua em questão.

No nosso caso, veja como fica o nome Brasil numa vintena de idiomas.

Inglês:      Brazil
Tcheco:      Brazílie
Esloveno:    Brazilija
Dinamarquês: Brasilien
Holandês:    Brazilië
Estoniano:   Brasiilia
Finlandês:   Brasilia
Francês:     Brésil
Lituano:     Brazilija
Russo:       Бразилия (Brazilia)
Alemão:      Brasilien
Grego:       Βραζιλία (Brasilía)
Eslovaco:    Brazília
Húngaro:     Brazília
Búlgaro:     Бразилия (Brazilia)
Italiano:    Brasile
Letão:       Brazīlija
Polonês:     Brazylia
Romeno:      Brazilia
Espanhol:    Brasil
Sueco:       Brasilien
Turco:       Brezilya

Como se vê, percorrem-se todas as notas, mas a base é uma só. Com quase todos os países funciona assim, adapta-se o nome original e pronto. No entanto há uma notável exceção: a Alemanha. Esse país é um caso à parte.

Diferentemente da maioria das nações europeias, a Alemanha não existia como país unificado até os anos 1870. Mas os povos que habitavam o território eram conhecidos desde a Antiguidade. Assim sendo, os vizinhos (tanto os mais próximos quanto os mais distantes) não esperaram até o século 19 para dar nome ao país que é hoje a Alemanha. Nas variadas línguas europeias, a região sempre teve um nome.

É que dois milênios atrás, tribos germânicas se espalharam pelo território europeu, num período de expansão conhecido como o das invasões bárbaras. O nome da tribo que entrou em contacto com cada região da Europa acabou por se estender ao nome do que seria a futura Alemanha unificada. Vamos explicar por alguns exemplos.

Os povos da Europa ocidental entraram em contacto com os Alamanes, uma das tribos germânicas. É por isso que deram o nome de Alemanha à região de onde provinham os invasores. Com pequenas adaptações, o nome permanece nas línguas da Europa ocidental (Alemanha, Alemania, Allemagne) e até na Turquia e na África do Norte (Almanya).

Os povos do Mar Báltico oriental conheceram os Saxões, outra tribo germânica. Até hoje, em finlandês e em estoniano (que, diga-se, são línguas irmãs), o nome da Alemanha é Saksa ou Saksamaa (=país dos Saxões).

Os povos da Escandinávia e os das regiões vizinhas à atual Alemanha acabaram adotando o nome que os alemães dão ao próprio país: Deutschland. Com adaptação fonética e gráfica, ficou Duitsland (Holanda), Tyskland (Escandinávia) e Tütschland (Suíça).

Já quem invadiu a região da atual Letônia e da Lituânia, muitos séculos atrás, foram os Valagodos (ou Vagotos), outra tribo germânica. Na língua desses dois países bálticos, a Alemanha, mesmo antes de se constituir como Estado unificado, já era chamada de Vacija (letão) e Voketija (lituaniano).

O nome da Alemanha nos países eslavos (Niemcy em polonês e Nemecko em eslovaco, por exemplo) tem origem curiosa. Provém de uma antiga raiz protoeslava que significa “mudo”. Não é que os povos bárbaros fossem mudos, mas simplesmente não falavam a língua local. Daí terem recebido esse cognome que perdura até os dias atuais.

No total, o mundo pode escolher entre 6 bases etimológicas para nomear a Alemanha – um recorde mundial. O mapa estampado acima é bastante esclarecedor. Cada cor corresponde a uma base etimológica.

Como se vê, além de ser nação rica, a Alemanha conta com rico repertório de nomes.

Acento, pra que te quero?

José Horta Manzano

Estadão
“As ações e omissões do governo Bolsonaro em apenas tres anos, particularmente nos dois ultimos, demandarão novos parametros de analise dos historiadores no futuro. Afinal, não ha mal maior ja infligido ao Pais pelo poder publico do que as mortes de milhares de pessoas em decorrencia da covid-19 que poderiam ter sido evitadas caso a desidia, o egoismo, a falta de compaixão e a incompetencia administrativa não fossem as marcas da atuação do governo federal no enfrentamento da crise sanitaria.”

Folha
“Do governo Jair Bolsonaro não se pode esperar nada senão tumulto e desinformação, como mostra a escandalosa nota tecnica produzida pelo Ministerio da Mulher, da Familia e dos Direitos Humanos. Como se o despauterio fosse pouco, o ministerio ainda incentiva que o Disque 100, canal governamental de denuncias de violações dos direitos humanos, seja usado por aqueles que não se vacinam para relatar “discriminações” sofridas —o que alem de deturpar o serviço pode vir a sobrecarrega-lo.”

Globo
“Era de esperar que, apos os obstaculos iniciais, muitos deles criados pelo proprio presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Saude, Marcelo Queiroga, a vacinação infantil no pais avançasse sem maiores sobressaltos. Mas não. Em algumas cidades, pais que levam os filhos aos postos de saude são surpreendidos com exigencias descabidas, como a obrigatoriedade de assinar um termo de consentimento, medida que contraria as normas do Ministerio da Saude e funciona como um desestimulo à vacinação.”

Os trechos acima foram extraídos de editoriais dos três principais jornais do país. O distinto leitor há de ter sentido que algo estava estranho. Pois foi de propósito. Eliminei todos os acentos, tanto os agudos (‘) quanto os circunflexos (^). O til ficou porque não é acento, é sinal gráfico que indica nasalização (e que pode coexistir com acento tônico, como na palavra ‘bênção’). O acento grave também ficou porque não indica sílaba tônica, mas a junção de dois aa, uma crase.

Agora vem a pergunta: alguém sentiu alguma dificuldade na leitura? Engasgou nalguma palavra, não entendeu um trecho, ficou na dúvida sobre algum significado? Acredito que não.

Costumo comparar nossa língua e sua multidão de acentos com outras que não têm nenhum. Como é que pode? Como é que um inglês ou um alemão se viram sem esses sinaizinhos? E os italianos que, afinal, têm uma língua latina, bastante próxima da nossa? Eles só usam o acento grave para indicar palavras oxítonas, mais nada.

Acho que, na próxima reforma ortográfica (que não deve demorar, visto que elas são tão frequentes entre nós), os sábios deveriam refletir sobre isso. Dá pra eliminar, fácil, 19 em cada 20 acentos agudos e circunflexos. Sem prejuízo da leitura ou da compreensão.

Antes da reforma de 1943, a norma brasileira da língua impunha pouquíssimos acentos. Se os antigos conseguiam se virar, por que é que nós, os modernos, somos obrigados a nos perder nessa selva de acentos – na maioria, desnecessários?

Allende e Queiroga

José Horta Manzano


A observação de Mário Quintana (1906-1994) nunca perde a atualidade: “A gente pensa uma coisa, escreve outra, o leitor entende outra, e a coisa propriamente dita desconfia que não foi dita”. Neste sábado encontrei dois bons exemplos.


Chamada Estadão, 22 jan° 2022

Primeiro exemplo
Esta chamada está bem enrolada. Fala da neta de Allende (presidente do Chile de 1970 a 1973) e diz que ela “sofreu golpe pela ditadura militar”, o que evidentemente não corresponde à realidade.

Quando o golpe ocorreu no Chile, em 11 de setembro de 1973, a netinha do presidente ainda não tinha completado dois aninhos. Na verdade, quem sofreu o golpe foi o avô, Salvador Allende, que, aliás, morreu no mesmo dia. Suicidou-se? Foi induzido ao suicídio? Foi assassinado? A esperança de saber a verdade se esvai à medida que os personagens vão desaparecendo.

Tem mais. Salvador Allende não sofreu golpe “pela ditadura militar”. A ditadura só se instalou após sua morte. Se, por hipótese, ele tivesse resistido e repelido o ataque, ele teria sofrido golpe, mas a ditadura não teria se instalado.

Consertando:

“Neta de Allende, o presidente deposto por golpe militar, será ministra da Defesa.”

Fica melhor.

Chamada Folha, 22 jan° 2022

Segundo exemplo
Para o leitor medianamente informado, que já ouviu falar de Queiroga e Damares mas que não sabe das circunstâncias das tais visitas (quem visitou quem, quando e por quê), a chamada do jornal soa misteriosa. Fica a ideia de que há relação entre a vacina aplicada na criança e a visita dos senhores ministros.

Precisei refletir pra entender o que o estagiário queria dizer. Suponho que era isto:

“Após as visitas de Queiroga e Damares, Saúde confirma que vacina não deu reação em criança”.

Assim, depois de inverter a frase, fica claro o que o autor queria dizer. Do jeito que estava escrito, parecia que os visitantes podiam até ter causado alguma reação na pobre criança vacinada.

São ministros de Bolsonaro, é verdade, mas prefiro acreditar que uma simples visita rápida deles não tenha o poder de empipocar bracinhos infantis.

Molière e Machado

Jean-Baptiste Poquelin, dito Molière
(1622-1673)

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, uma proposta, não me lembro de quem, causou escândalo. Sugeria que os livros de Machado de Assis fossem reescritos em linguagem moderna, compreensível para os brasileiros do século 21.

Os que ainda conseguem entender a obra de Machado tim-tim por tim-tim ficaram de cabelo em pé. Já os que pouco leem talvez nem tenham ficado sabendo da polêmica. Não sei se a ideia foi levada adiante.

Este 15 de janeiro marca o 400° aniversário de nascimento de Molière, ator e dramaturgo, o escritor de língua francesa mais conhecido no mundo todo. A importância dele para a cultura francesa pode ser medida pelo número de palavras que seu nome legou aos dicionários: moliérien (=molieriano), moliériste (=molierista), moliéresque (=molieresco), moliérisant (=molierizante), moliérophile (=molierófilo), moliéromane (=molierômano), moliérophobe (=molierófobo).

Nascido em 1622, Molière se exprimia no estilo de seu tempo, com todos o maneirismo e os rodopios característicos daquele início de reino de Luís 14. Suas peças de teatro, escritas em elaborados versos alexandrinos (de 12 sílabas), representam um requinte nas artes cênicas.

O problema é que, compostos quatro séculos atrás, seus versos são hoje de difícil compreensão. Se os eruditos se sentem à vontade no universo “molieresco”, o mesmo não ocorre com gente comum, especialmente os mais jovens. É uma pena o cidadão pagar a entrada e refestelar-se na poltrona do teatro pra passar duas horas ouvindo uma sequência de versos e rimas cujo significado muitas vezes lhe escapa.

Há atualmente um movimento, liderado por um temerário professor de literatura, que propõe a reescritura das peças “molieranas” traduzidas para a linguagem atual. A ideia, naturalmente, aborrece os poucos que ainda conseguem captar a verve e o humor de peças escritas há quatrocentos anos. Há também aqueles que, embora não sejam especialistas nos originais de Molière, respeitam a sacralização do grande autor e preferem que não se modifique nem uma vírgula.

Ainda que alguém se arriscasse a “traduzir” alguma peça para o francês moderno, seria difícil encontrar um editor que publicasse o resultado. Mais difícil ainda, se não impossível, seria convencer um teatro a permitir a montagem e apresentação da peça.

Uma outra ideia está no ar. É a tradução simultânea, a ser afixada logo acima (ou logo abaixo) da cena, como se faz para óperas. Talvez floresça, talvez não. Quando se tenta mexer em monstros sagrados, muita gente faz corpo duro, especialmente em países orgulhosos de seu patrimônio cultural, como a França.

No caso de Machado de Assis, a maior parte de sua obra foi escrita em prosa. É matéria para livro, não para o palco. Reescrever algum livro seu e publicá-lo no lugar do original me parece um sacrilégio, um atentado à memória do autor. Já uma edição “bilíngue”, em que o texto original seja cotejado com a “tradução” em linguagem atual não me parece uma afronta à glória do autor.

Se alguma obra de Machado já não tiver sido editada nesse formato, fica a ideia.

Rivais

Chamada do Estadão

José Horta Manzano

Desde que se sedentarizaram e se tornaram cultivadores, os humanos passaram a depender da água de maneira crucial. Sem água, como é sabido, planta não cresce.

Cinco mil anos atrás, nas civilizações da Mesopotâmia, já surgiu a questão da divisão das águas para irrigar as terras de cada um. Cada povo encontrou solução adequada à abundância (ou à raridade) do precioso líquido.

Aliás, a palavra rival é da mesma família que rio, ambos derivados do latim rivus. A parentela se espalha por diversas línguas europeias: o italiano rivo, o francês rivière, o inglês river, o espanhol río. No português arcaico, dois agricultores que compartilhavam as águas de um mesmo rio eram ditos rivais. Nessa acepção, o termo desertou a linguagem comum e só sobrevive em juridiquês.

Portanto, a ideia contida no termo rival é a de dois (ou mais) dividindo a posse de algo ou de alguém. Transposta para o plano humano, temos, por exemplo, a imagem de dois homens que condividem (ou disputam) a posse da mesma mulher. São rivais. Sucumbindo às exigências da linguagem politicamente correta, que se mencione também o caso de duas mulheres que condividem (ou disputam) o mesmo homem. Também são rivais, ora pois.

Na linguagem atual, são rivais duas pessoas que brigam para chegar ao mesmo objetivo. Dois alunos empenhados na conquista do título de melhor da classe são rivais. Dois esportistas que disputam o Balão de Ouro são rivais. E assim por diante.

Terras pertencentes a rivais

O presidente Bolsonaro lançou ao ar a insinuação de que o empenho do contra-almirante Barra Torres (presidente da Anvisa) em iniciar rapidamente a vacinação das crianças só podia ser resultado de “interesses”. Todo o mundo entendeu que os tais interesses da Anvisa só podiam ser escusos, venais, inconfessáveis.

Insinuação por insinuação, digo eu que cada um costuma julgar os outros por si. Mas não sei se aqui seria o caso.

Sentindo-se publicamente injuriado, o militar escreveu belíssima e emocionante carta aberta ao presidente, na qual defendeu a própria honradez e desafiou Bolsonaro a apontar algum indício de irregularidade na gestão da Anvisa. E mandou a injunção: “Se não encontrar nada, que se retrate!”. O texto integral se encontra fácil na rede.

Até o momento em que escrevo, três dias depois da carta, Bolsonaro não se retratou. Nem apontou nenhuma irregularidade na gestão da Anvisa. Está de bico calado e com o rabo enfiado no meio das pernas feito cachorro assustado. Tudo indica que o contra-almirante ganhou a parada: o capitão, maldoso mas leviano, se estrepou. Deu com a cara no chão, como se dizia.

A chamada do jornal diz que Barra Torres passou de aliado a rival do presidente. É tolice. Rivais seriam, em sentido metafórico, se estivessem, cada um por seu lado, disputando um mesmo objetivo – a saúde da população, por exemplo.

Não é nada disso. Quando se diz que duas pessoas são rivais, está sempre subjacente a ideia de compartilhamento. No caso que envolve Bolsonaro e o contra-almirante, não é bem assim. Os dois estão em polos opostos, um de costas para o outro, sem a menor disposição para compartilhar seja o que for.

Melhor será dizer que são oponentes, opositores, adversários, contraditores. Rivais, não são.

O mundo veio abaixo

Emmanuel Macron – alocução de fim de ano

José Horta Manzano

No final do ano, como manda a tradição em muitos países, o chefe de Estado aparece na tevê e pronuncia discurso de ano-novo. Transmitida por rede nacional, a fala costuma trazer votos dirigidos a todos os cidadãos.

Dependendo do país, a tarefa pode ser delegada ao chefe de governo, mas é mais raro. Na França, quem fala é o presidente da República, que é o chefe do Estado. Na Inglaterra também, o discurso de fim de ano é tarefa da chefe de Estado, a rainha Elisabeth. Já nos países americanos, o presidente da República acumula os dois cargos – chefe de Estado e de governo. Naturalmente, cabe a ele se exprimir.

No dia 31 de dezembro passado, Emmanuel Macron apareceu em cadeia nacional em horário nobre. Em alocução de poucos minutos, fez rápido balanço de sua gestão e lembrou que, este ano, haverá eleições para a Presidência da República e para o Parlamento. A certa altura, soltou a seguinte frase:


«Nous aurons à élire le président de la République au printemps prochain, puis à désigner nos représentants à l’Assemblée nationale»

“Na primavera deste ano, vamos eleger o presidente da República e, em seguida, nossos representantes no Parlamento”


Quem ouve distraído não percebe nada de extraordinário. No entanto, procurando bem, a gente acha até pelo em casca de ovo. Chi cerca trova – quem procura acha. Não sei dizer se o distinto público francês se chocou com a fala presidencial ou se é só birra de uns poucos. Seja como for, vamos ver o que aconteceu.

Nestes tempos em que, na hora de falar ou escrever, a gente pisa em ovos e se autopolicia a todo instante pra evitar descambar para o politicamente incorreto, Monsieur Macron se distraiu.

A dita linguagem inclusiva – tormento dos falantes de todas as línguas que têm gênero gramatical – não tolera que se dê exclusividade nem preeminência ao gênero masculino. Quando se mencionam homens, é obrigatório mencionar também mulheres.

Para se enquadrar nos padrões “linguisticamente inclusivos”, a fala do presidente teria de ter sido “vamos eleger o presidente ou a presidente da República”, assim como “nossos e nossas representantes no Parlamento”.

O imperdoável deslize fez furor nas redes sociais. Até o respeitável jornal Le Figaro, baluarte da direita política, dedicou longo artigo ao assunto.

Não sei o que pensa o distinto leitor, mas este blogueiro acha que, em certos aspectos, o mundo está ficando muito chato. Bilionários estão torrando centenas de milhões para fazer turismo no espaço enquanto bilhões de seres humanos morrem de fome e doença. E, no meio dessas incongruências, ainda tem gente se preocupando com a forma do pronome, como se fosse esse o critério de avaliação de um chefe de Estado.

Ah, quem dera o único defeito de nosso presidente fosse a escolha de pronomes!…

Substantivo, adjetivo e pronome têm gênero. Quem tem sexo é gente. Não são a mesma coisa nem têm a mesma serventia.

Falem de mim

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Outro dia, estava escutando um programa numa estação de rádio suíça. Era um diálogo em que os dois conversavam de algo banal, nem me lembro exatamente qual era o assunto.

Lá pelas tantas, um faz ao outro uma pergunta meio cabeluda, daquelas que demandam um tempo pra reflexão. Enquanto pensava na resposta, o indagado enrolou um pouco:

Ô, mais c’est compliqué ça!
Rapaz! Mas isso é complicado!

E o que tinha perguntado, na lata:

Eh, oui. C’est aussi compliqué que de chercher un peu d’humanité chez Bolsonaro.
É verdade. É tão complicado quanto procurar um pouco de humanidade no Bolsonaro.

Os dois continuaram a conversa, mas eu parei, surpreendido pela menção do nome do capitão, assim, de supetão, no meio de uma conversa amena, que não tinha nada a ver com ele.

Me lembrei de um antigo político que costumava dizer “Falem bem, falem mal, mas falem de mim”.

Parece que o autor da frase não é bem o político, mas o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde (1854-1900). No original, era: “There is only one thing in life worse than being talked about, and that is not being talked about.”“Só há uma coisa na vida pior do que ser falado; é não ser falado”.

Não tenho dúvida de que deve ser agradável ser popular; faz bem ao ego. Mas tornar-se sinônimo de desumanidade é pesado. Imagino que não faça bem ao ego de ninguém. Nem do próprio Bolsonaro.

A che punto siamo arrivati! – como dizem os italianos – A que ponto chegamos!

Pé-rapado

José Horta Manzano

Consultei em várias fontes. O curioso plural “pé-rapados” não é interpretação do repórter, mas reproduz fielmente a fala do discursante. O suave pastor realmente pronunciou assim. Os termos não são lá muito elevados, mas decerto o palavreado fazia parte do sermão.

Só que… o pastor há de ter pulado uma aula de Português. Foi no dia em que Dona Maricotinha ensinou que o adjetivo concorda com o substantivo em gênero e número. Pé-rapado é composto de um substantivo (pé) + um adjetivo (rapado). Portanto, tem de seguir a regra. O adjetivo gruda no substantivo e vão juntos para o plural: pés-rapados. Sim, senhor.

Os ofendidos devem ter festejado em coro:

Pé-rapado é o teu nariz
Mais pé-rapado é quem me diz

Onomástica
Malafaia é nome que vem do sul da Itália. Sua origem é difícil de decifrar. A primeira parte (mala) é moleza: é feminino de malo, o contrário de bom. Já o segundo elemento é mais complicado de identificar. Há duas possibilidades.

A primeira aponta para uma alcunha de origem grega – o que não espanta, visto que o sobrenome Faia é frequente na Sicília, terra que foi colônia grega na Antiguidade. O apelido significaria brilhante. Dado que mala não encaixa com brilhante (que brilha mal? brilho falso?), a dúvida fica no ar.

A segunda possibilidade é mais tentadora, embora mais difícil de provar. Faia é forma usada em alguns dialetos e línguas latinas (entre as quais o português) para dar nome a um tipo de árvore comum na orla mediterrânea: o Fagus selvatica. Se realmente fizer referência a essa árvore, Malafaia significaria “faia ruim”. Ruim por quê? Porque, de algum modo, atrapalhava a vida dos aldeões de 800 anos atrás? Ou porque os que viviam à sua sombra, longínquos antepassados do discursante, eram gente pouco recomendável? Nunca se saberá.

Sotaques que se perderam

Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintor francês

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 27 novembro 2021

Por que é que a fala brasileira é tão diferente da portuguesa? Razões, há várias. O isolamento em que viveram as colônias lusas na América é fator essencial, responsável pela permanência, em nosso falar, de formas arcaicas já caídas em desuso em Portugal. Por seu lado, mudanças fonéticas ocorridas lá nem sempre repercutiram aqui.

Também é importante lembrar a influência das línguas indígenas, transmitidas aos primeiros brasileirinhos como consequência da formação de famílias mistas, com pai português e mãe índia. É permitido imaginar que, antes de o Marquês de Pombal proibir o uso do tupi, o bilinguismo fosse frequente nas capitanias do sul.

Os imigrantes europeus da virada do século 19 para o 20 trouxeram na bagagem palavras e expressões que acabaram incorporadas à língua. Mas não há que esquecer que, ao chegarem, essas populações encontraram um falar bastante cristalizado, já próximo do que conhecemos hoje.

A influência mais profunda sofrida pelo falar brasileiro, não há que se diga, veio dos negros africanos trazidos ao Brasil como escravos. Descobrir quantos eram, em diferentes momentos de nossa história, não é fácil. O primeiro censo oficial só teve lugar em 1872. Antes dele, não havia estudos demográficos sistemáticos. O que há são trabalhos recentes, obra de pesquisadores de paciência beneditina, que garimparam inventários dos séculos passados. O escravo, equiparado a um objeto, não contava como gente. Portanto, para apurar sua existência, convém compilar listas de bens dos defuntos, onde eles aparecem ao lado de louça e peças de mobiliário.

Esses trabalhos dão uma boa ideia da população negra no Brasil dos séculos 17 e 18. Estima-se que, em meados do século 18 (1750), na época em que nosso falar começava a se fixar, a população da capitania das Minas Gerais era composta por 60% de escravos africanos, o que dá uma ideia do enorme contingente populacional vindo de fora e que falava, como segunda língua, um português tosco.

Esses “imigrantes” forçados eram cuidadosamente triados pelos senhores para evitar a formação de grandes grupos que falassem o mesmo dialeto. Prevenir motins e rebeliões era preocupação constante. Originários da costa ocidental da África, os cativos falavam línguas e dialetos da grande família banta. Apesar disso, a intercompreensão entre os diferentes falares era geralmente impossível.

Foi assim que o português acabou se impondo como lingua franca entre os próprios africanos. O português foi aprendido de ouvido, sem escola, sem gramática, sem coach de correção de pronúncia. O sotaque da massa de escravos, típico do estrangeiro que fala uma língua aprendida, há de ter influenciado o falar da minoria branca. De um lado, os africanos sorveram língua e vocabulário dos senhores; de outro, devolveram um português mastigado, triturado, amolecido, rearranjado. A maneira como falamos hoje descende dessa permuta que atingiu seu pico no século 18.

Seria valioso ouvir os escravos se exprimirem na nova língua. Será que já dava pra identificar, naquele linguajar incipiente, traços e marcas que ficariam de herança para nosso falar atual? Infelizmente, os tempos não permitiam registros sonoros. Ainda assim, temos atualmente um modo de recuperar esse passado de sotaques.

Um pequeno contingente de africanos vive hoje no Brasil – imigrantes e, principalmente, refugiados. Por coincidência, são originários das mesmas costas de onde provinham os escravos que povoaram nossa terra. Por que não aproveitar e fazer um registro sonoro da fala desses africanos legítimos, que estão em pleno aprendizado do português? A língua materna de todos será uma variedade da família banta, como ocorria com os escravos de outrora.

Os negros que vivem na França, que também provêm das costas ocidentais da África, têm um sotaque característico, facilmente identificável ao falarem francês. Mas não formam contingente numeroso ao ponto de influenciar o falar dos franceses. No Brasil de antigamente, chegaram a ser a maioria dos habitantes. É mais que provável que nossa fala guarde pontos de contacto com a deles. A presença, em nosso território, desses recém-chegados constitui excelente ocasião pra conferir. Os que entendem do riscado não deveriam desperdiçar a oportunidade.

Dedo de honra

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, para se apresentar, o cidadão estendia seu cartão de visita. Estava ali o básico: nome, sobrenome, profissão, endereço e telefone (se houvesse). Quem recebia o cartão tinha ainda a possibilidade de examinar as características: tamanho, espessura e qualidade do papel, cor da tinta, impressão em relevo ou não. De posse dessas informações, já era possível saber muita coisa sobre o titular.

Nestes tempos em que o “Oi!” substituiu o cartão, para saber a que veio cada um, é preciso observar seu tom de voz, seu sotaque, seu comportamento, seu gestual. Ah, o gestual! Esse é ponto importante. Dispensa palavras. É feito exatamente pra ser visto de longe.

Me impressionou muito aquele gesto elegante que nosso ministro da Saúde fez em Nova York, logo depois de comer pizza na calçada. O distinto leitor há de se lembrar que, apupado por manifestantes quando já se encontrava dentro do ônibus, o doutor espichou o braço e mostrou o dedo do meio à multidão.

No arsenal obsceno da minha juventude, não constava o gesto do ministro. Deve ter sido popularizado mais tarde. O gesto equivalente era “dar uma banana”, com os punhos cerrados e os braços cruzados, sendo um na vertical. O significado era o mesmo. Esse gesto de mostrar o dedo do meio, aliás, nem nome tinha. Se hoje tiver, desconheço. Agradeço a quem puder mandar uma cartinha para a Redação desvelando o mistério.

Só que tem uma coisa. O que pode ser tolerável num adolescente – irrequieto e ainda pouco familiarizado com os códigos de comportamento da sociedade – é absolutamente inaceitável de parte de um ministro da República. Um ministro? Impensável!

Outro dia já falei do candidato surpresa nas presidenciais francesas que terão lugar daqui a 4 meses. Trata-se de Monsieur Eric Zemmour, jornalista e escritor, que professa ideias da direita extrema, entre as quais um ódio feroz contra imigrantes em geral e árabes em particular.

O extremista ainda não oficializou sua candidatura. Por enquanto, percorre o país fazendo publicidade para seu novo livro e testando a receptividade da população a sua presença. Sábado esteve em Marselha. Como de costume, foi acolhido tanto por admiradores como por oponentes. A um dado momento, não se conteve e mostrou o dedo a uma mulher (veja a imagem).

Ficou-se sabendo que ele estava apenas reagindo. A distinta senhora também lhe havia feito o mesmo elegante gesto. Pouco importa. O candidato é ele, não ela. Assim como é inaceitável o que fez o ministro brasileiro, é intolerável ver o mesmo gesto vindo de um candidato à presidência da França. Um homem público não tem o direito de reagir como um homem comum em todas as ocasiões.

Dois casos isolados de figuras públicas que se permitem esse tipo de baixaria em público, como os que mencionei, são pouca coisa; não dão amostragem suficiente para um estudo científico. Mas o fato de os dois pertencerem à mesma família política (extrema direita) deixa no ar uma interrogação. Serão todos assim? O palavreado e o gestual rasteiro fazem parte da cartilha de todo aprendiz fascistoide?

Ao se dar conta da onda de indignação que rugiu nas redes por causa de seu gesto, Monsieur Zemmour tuitou uma pirueta: “Madame, naquele momento hão havia tempo para um debate como eu aprecio. É por isso que usei a única linguagem que a senhora e seus camaradas ‘antifascistas’ compreendem imediatamente: a de vocês!”.

A vulgaridade agressiva é a arma dos que não têm argumentos. Assim como Trump e Bolsonaro não tinham, tampouco esse candidato tem programa para seu país. Taí a origem do comportamento rasteiro de todos eles.

Título
Em francês, o gesto de mostrar o dedo do meio se diz “doigt d’honneur”, dedo de honra. A expressão é calcada sobre “bras d’honneur”, braço de honra, que é nossa “banana”.