Eolianas

José Horta Manzano

Em 1898, quando um certo senhor Hand Hansen, cidadão dinamarquês, adquiriu um pequeno estabelecimento familiar de fundição, sua intenção era apenas continuar a usar a forja para fabricar pregos e ferraduras. De fato, numa época em que a eletricidade era novidade, ele não tinha como imaginar que, 120 anos mais tarde, sua minúscula empresa teria evoluído tanto, e justamente nesse novo e misterioso ramo.

Passando pela construção de guindastes, já em meados do século 20, o negócio foi crescendo até assumir as gigantescas proporções atuais. A empresa, que hoje se chama Vestas, é a campeã mundial no ramo de construção de turbinas eólicas, com faturamento anual que supera os 12 bilhões de euros.

Aqui cabe uma digressão linguística. A turbina eólica é conhecida como “wind turbine” (=turbina de vento) em inglês. Em italiano, recebe o nome de “pala eolica” (=pá eólica). Windkraftanlage (=instalação [que explora] a força do vento) é o nome alemão. Os franceses escolheram um nome simples e poético: “éolienne” (=eoliana).

A palavra eolina não serve porque já está ocupada. No campo musical, dá nome a um pouco conhecido instrumento de sopro, que lembra um pequeno acordeom, mas é acionado pela força dos pulmões. É raro, mas existe.

Com tanto vento à disposição (e com o petróleo cada dia mais caro), o Brasil está despertando para a urgência de instalar parques eólicos, tanto em terra firme, quanto ao largo da costa. Espero e acredito que essas decisões não dependam da sanção do capitão, se não, estamos perdidos. Ignorante, é capaz de não entender a ameaça que pesa sobre a dependência de combustível fóssil.

Esta semana, a Enel – antiga estatal italiana de eletricidade, hoje privatizada – anunciou a inauguração da primeira parte de um projeto eólico realizado no Rio Grande do Norte. São 50 turbinas que geram 206 megawatts, energia suficiente para suprir as necessidades de meio milhão de habitantes.

Por seu lado, a dinamarquesa Vesta, herdeira da pequena forja que Senhor Hansen comprou 120 anos atrás, anunciou estar projetando a maior turbina eólica jamais construída. O protótipo leva o pouco poético nome de V236-15MW.

Suas dimensões são impressionantes: culmina a 300 metros de altura, com 3 pás de 100m de comprimento cada uma (mais que um gramado de futebol padrão Fifa). A capacidade da instalação será de 15 megawatts/hora, quase cinco vezes superior ao de uma turbina comum.

Uma única dessas gigantescas “eolianas” será capaz de suprir o consumo de 20 mil lares (60 a 100 mil habitantes) e deixar de lançar na atmosfera 38 mil toneladas de carbono por ano, que resultariam da queima de combustível fóssil. A primeira já foi encomendada para funcionar ao largo da costa dinamarquesa.

O perigo
O distinto leitor certamente já ouviu falar em Madame Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen. A família domina a paisagem da extrema-direita  francesa há 40 anos. O pai já foi, mais de uma vez, candidato à Presidência. Numa das vezes, chegou ao segundo turno. A filha idem: nas últimas eleições, disputou o segundo turno e acabou perdendo para Emmanuel Macron.

Como todo extremista, tanto de esquerda como de direita, Madame tem certas deficiências de raciocínio. É curioso, mas é assim: nenhum extremista consegue alcançar um patamar razoável de bom senso. Ficam todos na vociferação improdutiva.

Desde os anos 1960, a França decidiu apostar na energia nuclear para a produção de energia. É um sistema eficiente, porém arriscado. Mais e mais vozes se levantam para pedir reorientação da filosofia nacional, a fim de que o nuclear seja pouco a pouco abandonado e o país dê preferência a energias renováveis.

Pois acredite quem quiser: Madame Le Pen já propôs que todas as turbinas eólicas francesas sejam desativadas e desmontadas. Só não explicou como fazer para substituir a energia que deixará de ser gerada. O vento vai acabar varrendo suas ilusões – é o que esperam os franceses de bom senso.

O Brasil está sendo governado por um capitão extremista, dono de tantos defeitos que seria cansativo repeti-los aqui. Já pensou se, amanhã, um desses gurus que o cercam inventa de convencer o bobão de que turbina eólica não serve, e que bom mesmo é usina térmica movida a lenha?

Bye bye, Amazônia!

Alitalia defuncta est – 2

José Horta Manzano

No artigo anterior, a palavra defuncta aparece no título. É frase latina que faz pensar em defunto, não? Pois tem tudo a ver. Estamos habituados a empregar o termo defunto unicamente em referência a alguém que morreu. Na língua dos césares, a palavra era mais abrangente.

Em latim, há o verbo fungor (infinitivo = fungere), que significa atuar, operar, exercer, funcionar. Curiosamente, o radical fung se conservou em muitas línguas, até não-latinas, mas perdeu-se em português. Aqui estão alguns exemplos: italiano (fungere), espanhol (fungir), alemão (fungieren), dinamarquês (fungere), sueco (fungera), tcheco (fungovat) e outras mais. Em todas elas, o verbo tem o sentido de “cumprir determinada função”. Até o inglês tem o adjetivo fungible (=capaz de substituir algo ou alguém).

No entanto, em nossa língua, as formas adjetivadas que derivam do particípio perfeito (functus) é que foram produtivas. Daí vêm nossos termos funcionar, função, funcionário, funcional. Em derivação direta da raiz, temos somente o adjetivo fungível, cujo uso se limita aos círculos jurídicos.

Opondo-se a fungor (=operar, funcionar), o latim tinha a forma defungor (=deixar de operar, parar de funcionar). Também neste caso, os filhotes que aparecem em português provêm das formas adjetivadas latinas: defunto, defunção. Diferentemente do latim, em que essas formas podiam ser utilizadas para alguém ou algo que deixava de funcionar, em nossa língua os termos se especializaram em qualificar um ser humano que morreu. Um defunto é sinônimo de um morto.

No título do artigo anterior, a expressão latina Alitalia defuncta est pode ser interpretada de duas maneiras. Por um lado, pode significar que a companhia deixou de funcionar, ficando subentendido que, amanhã, seus motores podem até voltar a roncar. Por outro lado, pode-se entender que, como alguém que bateu as botas, a empresa ‘faleceu’, fato definitivo e irreversível. Acredito mais nesta última possibilidade.

Observação
Pensando bem, um defunto é alguém que deixou de funcionar. Definitivamente.

Ingressar no trem

Ingressar no trem

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que, no Brasil, ainda se viajava de trem. Que não se assuste o distinto leitor! Não estamos falando do tempo de Matusalém. Já havia sido inventado o motor a explosão, que diacho! Chevrolets, Buicks e Studebakers congestionavam as ruas. Constellations, Caravelles e DC-8s cruzavam os céus. Ônibus interestaduais se aventuravam pelas poucas (e perigosas) estradas de rodagem, nem sempre asfaltadas.

Assim mesmo, talvez pela inércia do costume, ainda se viajava de trem. Não valia a pena apanhar trem para certos percursos, que de ônibus chegava-se muito mais rápido. Mas havia lugares aonde, simplesmente, ônibus não chegava.

Pra ter direito a viajar, o passageiro tinha de comprar um bilhete. Na verdade, o nome completo era “bilhete de passagem”, que o povo acabou encurtando pra passagem. Sem bilhete, ninguém podia viajar – com exceção do maquinista e do pessoal de bordo, incluindo aquele senhor que vinha picotar as passagens.

Faz muito tempo que, em nome do progresso e por força dos lobbies petroleiro e automotivo, o trem foi perdendo status e acabou morrendo de inanição, o coitado.

Bom, pra quem não sabe, há terras em que ele continua sendo o meio de transporte preferencial, quando não único. Na Europa, por exemplo, é assim. Implantam-se novas linhas, de alta velocidade ou não. Acrescenta-se uma terceira via a trechos muito frequentados, que só contavam com duas. Viajar de trem continua na moda.

A reportagem do Estadão diz que novo trem leva turistas pra um passeio em região frutivinícola. Dá também o preço do ingresso. Quando li essa palavra, aplicada a viagem ferroviária, engasguei. Como é que é? Ingresso no trem? Não é assim que se diz. Compra-se ingresso para entrar em cinema, museu, ‘concerto’ de pop star. Para comprar o direito de viajar de trem, não é o termo mais adequado.

Quando vejo algo fora de lugar, gosto de dar uma espiada na fonte. Fui ao site que propõe as excursões. Lá me dei conta de que “ingresso” é liberdade tomada pelo jornal. No original, a palavra utilizada é “ticket”. Ai, meu São Benedito!

Não sei se será por chiquê ou por falta de conhecimento mesmo. Não se vende mais bilhete ferroviário. O chefe do trem não entra mais no vagão gritando “Mostrar as passagens, faz favoooor!” Os dois termos estavam com cheiro de naftalina. A sociedade organizadora preferiu desempoeirar. “Ticket”, que soa estrangeiro, é tããão mais atual, não é mesmo?

Pandeiro e bandolim

José Horta Manzano

Você sabia?

O que é que pandeiro e bandolim têm em comum? São instrumentos que tocam juntos em certos conjuntos regionais. É verdade, mas não é só. A intimidade entre os dois é mais antiga e mais profunda. Vamos ver.

Você já ouviu falar em Assurbanípal ou em Semíramis? Se não ouviu, não tem a menor importância. O nome deles só aparece aqui pra impressionar. São personagens históricos que viveram no Império Assírio, civilização que começou a se desenvolver 5 mil anos atrás, no tempo em que os bichos falavam. No auge de sua expansão, a nação assíria cobria partes do território do Iraque, da Turquia, da Síria e do Irã atuais. O povo falava uma língua do grupo semítico, família representada hoje pelo hebreu e pelo árabe.

Num trabalho de paciência, os linguistas conseguem identificar aqui e ali, nas línguas que falamos atualmente, palavras de origem assíria. Dado que não subsistiram documentos escritos, nem sempre é possível afirmar com certeza.

Estudiosos acreditam que a palavra latina pandura, tomada emprestada do grego, vem da língua assíria. Na antiguidade, designava um instrumento de corda, espécie de alaúde, antepassado do violino e do violão atuais. Tanto o instrumento como a palavra evoluíram.

De pandura, o nome passou por pandore e mandore pra desembocar em mandola (ó). Na Itália, uma mandola de pequenas dimensões chamava-se mandolino. A mandola, instrumento pouco sonoro, desapareceu faz tempo. Mas o mandolino ficou e seu nome deu origem – vocês já adivinharam – ao nosso bandolim.

Como curiosidade, note-se que nossos dicionários ainda hoje trazem a palavra bandurra, a significar antigo instrumento de cordas espanhol. Na origem desse nome, não é difícil identificar a pandura grega.

E o que tem o pandeiro a ver com isso? Joan Corominas, o mais conceituado etimologista das línguas ibéricas (castelhano, português e catalão), dá nosso pandeiro como descendente do pandero castelhano, que, por sua vez, vem do latim pandura. E o círculo se fecha.

O distinto leitor há de se perguntar como é possível que a mesma palavra (pandura) tenha se bifurcado para designar ao mesmo tempo dois instrumentos tão diferentes como o pandeiro e o bandolim. Eu também fico surpreso, mas assim é.

Como confirmação dessas voltas que a língua dá, o Houaiss ensina que a origem de nosso tambor é o étimo árabe at-tanbúr. Acontece que, no original, a expressão at-tanbúr significa guitarra.

Para nós, do século 21, é impossível confundir tambor com guitarra ou pandeiro com bandolim. Para os antigos, parece que a individualidade dos instrumentos não era assim tão importante. Todos eram válidos desde que tocassem.

Cuspido e escarrado

José Horta Manzano

A Folha de SP publicou um excelente artigo assinado pelo jornalista Mario Sergio Conti. “Bolsonaro é um personagem cuspido e escarrado de Shakespeare” é o título. Se o leitor não é assinante da Folha e gostaria de ler o texto, faça-me saber. Mando por email.

Espirituoso, o título faz menção a uma expressão que se ouve de tempos em tempos. “Cuspido e escarrado”; dito assim, parece meio nojento, não? Usa-se para comentar que uma pessoa se parece muito com outra. A maior parte das vezes, se diz que o filho é o “retrato cuspido e escarrado” do pai. Mais raramente, usa-se também pra comparar pessoas que não são parentes. De onde será que vem essa esquisitice?

Há diversas versões da origem da expressão. A mais comum explica que seria uma corruptela de “esculpido em [mármore de] Carrara”, sabendo-se que a região de Carrara (Itália) é mundialmente conhecida por abrigar afloramentos de mármore de boa qualidade. Embora muitos acreditem nessa explicação, não me parece verdadeira.

Já veremos por quê. Outra versão, mais sofisticada e até apoiada por gente que entende do assunto, ensina que a expressão é corruptela, sim, mas de “esculpido e encarnado”, como a significar que as duas pessoas se parecem tanto que é como se a segunda fosse uma estátua representando a primeira, uma estátua que ganhou alma. Muita gente, como eu disse, só jura por esta segunda hipótese. Sob risco de decepcioná-los, não acredito que seja verdadeira.

Curioso que sou nesse assunto, cogitei durante um bom tempo. Um dia, bobamente, me dei conta de que, em francês, quando alguém – geralmente um filho – é parecidíssimo com o pai, diz-se que ele é le portrait craché de son père – o retrato cuspido do pai”. Vai daí, constatei que o inglês e o italiano têm expressões na mesma linha. O inglês tem spitting image – imagem cuspida” e o italiano, ritratto sputato – retrato cuspido”.

Foi quando a suposta coincidência me pareceu grande demais. Acabei descobrindo que há uma teoria que assimila o ato de cuspir à ejaculação. Uma cuspida seria símbolo da procriação – portanto, da geração de um filho. Pode até ser, mas fico um pouco desconfiado. Não tenho muita tendência a acreditar nisso. Se assim fosse, a expressão só valeria para comparação de um rebento com seu pai, nunca com sua mãe. No entanto, “é o retrato cuspido e escarrado da mãe” se usa também. Ou do irmão, do tio, do primo. Como é que fica, então?

Bem, pouco importam essas minúcias. Acho que é importante saber que a expressão não tem a ver com mármore de Carrara, nem com escultura, nem com encarnação. É de origem muito antiga e está presente em pelo menos 4 línguas europeias: português, francês, italiano e inglês. De outras, não sei.

Expressões costumam ser saborosas. São elas que dão sal e pimenta ao falar de todos nós.

Neologismo

José Horta Manzano

“Trumptruppen”

Neologismo surgido na imprensa italiana em janeiro passado, logo em seguida ao assalto que os apoiadores incondicionais do presidente em fim de mandato deram ao Capitólio de Washington.

A formação da palavra é deliciosamente híbrida. O primeiro elemento (Trump), evidentemente, é o sobrenome do presidente americano. Já a segunda parte (truppen) não vem da língua inglesa, tampouco da italiana. Vem do alemão. Truppen é o plural de Truppe, que significa tropa.

Portanto, “Trumptruppen” dá nome àquela horda de gente fina que tomou de assalto o Congresso dos EUA em 6 de janeiro passado. São as tropas de Trump. Essa repetição de “tr” torna o som da expressão cortante como rajada de metralhadora. Combina com Trump, um personagem pesadão.

Além de provocar uma onomatopeia estimulante, o alemão Truppen soa mais belicoso que o inglês troops.

O sonho de nosso capitão tupiniquim é incentivar a criação de um similar nacional que possa repetir, em Brasília, a façanha da tropa original americana. Não será fácil.

Forjados pelo clima rude e pelo vento cortante das grandes pradarias, os integrantes das “Trumptruppen” são aguerridos. Já nossos devotos, moldados pelo mormaço tropical, são menos convictos que os originais.

Não precisa ter bola de cristal. Pode-se apostar que não veremos nunca as “Bolsonarotruppen” em ação.

Rio Tinto

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a gente acha que já viu de tudo, é aí que aparece coisa assombrosa. Olhe, pode parecer, mas hoje não estou falando do Bolsonaro e do espantoso desfile de desajustados que lhe fazem companhia. O capitão é sobressalto diário garantido, mas há coisas que, embora menos nocivas, também surpreendem.

Você já viu um rio de água vermelha? Não estou me referindo a um curso d’água que um dia tenha ficado vermelho por algumas horas em consequência de um acidente de caminhão-tanque(1). Não. Falo de um rio de águas permenentemente vermelhas. Que não mudam de cor há séculos.

Não existe? Não acredita? Pois sim, esse rio existe. Tem 100km de comprimento e fica no sul da Espanha, na província de Huelva. Nasce nas encostas da Sierra Morena e desemboca no Golfo de Cádiz. Não por acaso se chama Rio Tinto. Tinto, em espanhol, quer dizer vermelho. Essa, por sinal, é a razão de chamarmos o vinho vermelho de vinho tinto.

A cor de suas águas provém de uma mina polivalente, conhecida e explorada faz milênios. É rica em cobre e prata. Tem até um pouco de ouro. Essa profusão de metais confere à água um teor muito ácido (pH 2). A cor avermelhada se deve principalmente ao ferro dissolvido.

Não se tem certeza se o tom vermelho escuro foi sempre o mesmo, ou se foi agravado nos últimos séculos, pela exploração mineira. Seja como for, é uma curiosidade imperdível. Se um dia, passada a epidemia, o distinto leitor fizer uma viagem pela região, não deixe de tirar uma selfie(2).

(1) Em Portugal, usa-se mais “caminhão-pipa” ou “caminhão-cisterna”.

(2) O Volp tanto admite “um selfie” quanto “uma selfie”. Escolha. É acertar ou acertar.

Aurora boreal

José Horta Manzano

Outro dia, já estava encerrando o expediente quando dei de cara com essa belíssima foto de uma aurora boreal. Como sabem meus cultos leitores, a chamada aurora boreal é um fenômeno elétrico somente visível nas cercanias dos polos.

Eu disse doS poloS, isto é, elas tanto ocorrem perto do Polo Norte quanto do Polo Sul. Por ser a Antártida um continente habitado somente por cientistas, onde nenhum passa mais que uma temporada limitada, é raro ver fotos desse fenômeno tiradas por lá. Cientistas não costumam viajar àquelas lonjuras a turismo.

Já que o fenômeno ocorre tanto no hemisfério norte (boreal) quanto no hemisfério sul (austral), por que é que sempre nos referimos a ‘aurora boreal’? Acredito que o melhor nome seria ‘aurora polar’. Serviria para os dois casos.

Mas o problema hoje é outro. Releia o título da matéria. Algo não lhe parece fora de lugar? É claro! O verbo está mal conjugado.

Dispor é filhote de pôr. Segue o modelo do pai da família em todos os tempos. Assim:

Ele põe   – ele dispõe
Ele pôs   – ele dispôs
Ele punha – ele dispunha
Ele puser – ele dispuser

Portanto, ganha estadia grátis na Islândia quem se dispuser a fotografar uma aurora boreal. Ou polar, tanto faz. A notícia contém mais uma impropriedade. Em princípio, a palavra estadia é reservada para navio no porto e carro no estacionamento. Para pernoite num hotel, estada fica bem melhor. Vamos corrigir de vez?

Ganha estada grátis na Islândia quem se dispuser a fotografar uma aurora boreal.

Destruição de vacinas

José Horta Manzano

Na noite de segunda para terça desta semana, um vacinódromo situado perto de Toulouse (França) foi vandalizado. Foi ataque de tipo clássico, feito por desconhecidos no escurinho da noite. Resultou em vidros partidos, móveis destroçados, prateleiras reviradas, computadores quebrados e, o pior de tudo, 500 doses de vacina anticovid destruídas. Não foram roubadas: foram inutilizadas e deixadas no lugar.

Não é o primeiro ataque a centros de vacinação no país. No começo do mês, um escritório regional da Ordem dos Enfermeiros já havia sido vítima de vandalismo. Em julho, dois vacinódromos instalados em tendas de lona já haviam sido atacados, tendo um deles sido parcialmente incendiado.

Esses ataques são o braço violento dos protestos de rua que estão se tornando habituais no país: todos os sábados, há passeatas animadas e ruidosas nas principais cidades. Participam os “antivax”, aqueles que, por alguma razão, se recusam a receber a vacina.

O problema deles é que, não sendo vacinados, ficam excluídos de boa parte das interações sociais. Não têm direito ao pass sanitaire – a carteira vacinal”. Não tendo o “pass”, não podem entrar em bar, nem restaurante, nem cinema, nem museu, nem piscina pública. Em determinados empregos, como na área de saúde, não têm mais o direito de trabalhar. Daí o mau humor.

Vamos refletir. Caso o distinto leitor – que Deus o livre – tivesse de ser hospitalizado. Gostaria de ser cuidado por uma equipe de gente não vacinada? Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e pessoal de limpeza? Todos expirando dentro do seu quarto os micróbios trazidos de fora?

Até certo ponto, aceito que alguns façam a escolha pessoal de não se vacinar contra a covid. Não entendo por que fazem isso, mas aceito que o façam por convicção pessoal. Levantar faixas de protesto e marchar nas avenidas aos sábados é uma coisa – pode até causar incompreensão, mas não agride nem machuca ninguém. Já vandalizar vacinódromo é coisa bem diferente e inadmissível. É a potencialização do egoísmo, da intolerância e da truculência. Faz lembrar a destruição de livros por parte daqueles que não apreciam determinada literatura. Dá frio na espinha.

A liberdade que o antivax reclama (de não se vacinar) é exatamente igual à do cidadão que deseja receber a vacina. Portanto, assim como o adepto da vacinação não obriga o antivax a estender o braço, o antivax não tem o direito de impedir a vacinação dos outros.

Além do quê, seja por que motivo for, destruir propriedade alheia é crime.

Observação
Acho divertido que os franceses tenham dado ao certificado vacinal o nome de “pass sanitaire”. É assim mesmo que escrevem: “pass”, com dois ss e sem o e final.

A forma “passe” existe em francês, como elemento de composição de inúmeras palavras: passe-partout (=chave mestra), passe-purée (=espremedor de batata), passe-temps (=passatempo), passe-passe (=passe de mágica). Mas “passe” sempre tem um e no final.

Sem e, é novidade. Devem ter feito isso pra parecer mais moderno, pra ficar mais próximo de um hipotético sanitary pass.

Talibã

José Horta Manzano

Nestes dias em que o mundo se surpreendeu com a queda ultrarrápida do governo afegão diante dos talibãs, todos procuram culpados. Como é possível que o país tenha caído com tanta facilidade?

Análise é o que não falta. Há quem aponte a falta de preparação do exército afegão. Há quem diga que as tropas legalistas não eram em número suficiente diante dos revoltosos. Há ainda quem acredite que o exército nacional, além de mal preparado pelos americanos, estava mal equipado.

É possível que todas essas críticas sejam apropriadas – é difícil fazer afirmação definitiva. No entanto, elas ignoram um problema de raiz, que, a meu ver, está na origem dos males atuais: o Afeganistão não é um país. Pelo menos, não é o que costumamos entender como um estado-nação.

Aquela região é um mosaico de etnias, que falam línguas contrastadas e que, muitas vezes, professam religiões antagônicas. As línguas do grupo iraniano são majoritárias (baluche, aimaque, hazara, tadjique, pachtu), mas extensas regiões do país falam línguas do grupo túrcico (turcomeno, uzbeque, quirguiz, todas aparentadas ao turco). Há ainda línguas minoritárias, classificadas fora desses troncos principais. Dê uma olhada no mapa etnolinguístico que reproduzi logo na entrada do post.

Essa diversidade de falares impede a intercompreensão. Em outros termos: ninguém o que diz um habitante de outra região. Para se entenderem, teriam de eleger uma língua comum – uma lingua franca –, objetivo impossível para um povo de poucas letras. Só essa particularidade, de não se entenderem, já é barreira intransponível para a formação de um país.

Imagine o distinto leitor o drama que seria não poder dialogar com os nativos de um Estado vizinho ao seu. Como é que se há de governar uma tal colcha de retalhos? Só se consegue pela força, com mão de ferro. Foi o que fizeram as forças de ocupação durante 20 anos e é exatamente o que os novos donos da região – os talibãs – se preparam a fazer.

Assim mesmo, é bom ter em mente que esse tipo de mosaico transformado em Estado é fonte permanente de tensões. Até países altamente civilizados, como a Bélgica, por exemplo, assistem a confrontos periódicos entre as comunidades que o compõem. No Afeganistão, é certeza: os talibãs nunca poderão se mostrar “bonzinhos” nem afrouxar o regime, sob pena de o país se desagregar.

Taliban? Talibã? Taleban? Talebã?
Tenho visto na imprensa todas essas grafias e ainda mais algumas. Como escrever certo? Vamos começar pelo começo.

Talibã é palavra afegã inspirada no termo árabe taleb, que quer dizer estudante. No começo, a palavra designava os estudantes de teologia que, nos anos 1990, tomaram conta do país. Radicais, impetuosos e despreparados para governar, fizeram um desastre. Foram contidos pelas forças de ocupação de uma coalizão encabeçada pelos EUA e coadjuvada por países europeus. Só que a presença estrangeira não resolveu os conflitos seculares. Mal os ocupantes começaram a se retirar, tudo está voltando ao que sempre foi.

Agora, que sabemos de onde vem a palavra talibã, como aportuguesar a grafia? Dado que quem faz a língua é o falante, as coisas vão se acomodar com o tempo. Por enquanto, é muito cedo. Cada jornalista escreve como imagina ser correto. Eu escreveria assim, como pronunciamos nós: talibã. Com inicial minúscula e ã no final, que é nossa maneira de aportuguesar (Irã, Omã, Amsterdã).

Em nenhum caso eu poria inicial maiúscula. Assim como democracia, monarquia, fascismo, getulismo e janismo levam inicial minúscula, talibã também deve levar. Eu evitaria o coletivo “o Talibã”. Melhor falar no “regime talibã” ou, no limite, “regime dos talibãs”.

Mas isso é o que este escriba acha. É possível que o uso imponha outras normas. Se assim for, seguiremos o cortejo.

15 de agosto

José Horta Manzano

Em alguns países de tradição católica, 15 de agosto é dia feriado. Festeja-se a Assunção(*) – a subida ao céu de Maria. Segundo a tradição, a mãe de Jesus não teria realmente morrido, como um mortal qualquer. Chegada ao final de seu percurso terreno, apenas fechou os olhos por um momento para, em seguida, reabri-los e ser levada, de corpo e alma, ao reencontro familiar: Pai, Mãe e Filho.

Em Portugal, descreve-se esse momento como “Dormição de Maria”. Sempre achei curioso os alemães utilizarem a palavra viagem para descrever a Assunção: Mariä Himmelfahrt – A viagem ao céu de Maria”. Enquanto costumamos dizer, mais poeticamente, “subida aos céus”, o alemão é mais realista. Talvez seja implicância minha, mas a palavra viagem traz lembranças bastante físicas que quebram o encanto e o mistério do fenômeno.

Ao sentir que, em pleno século 20, estava ficando complicado fazer o povo acreditar candidamente nessa narrativa, o papa Pio XII resolveu utilizar a mão pesada. Numa bula de 1950, impôs a Assunção de Maria como dogma de fé, ou seja, verdade indiscutível, daquelas que o fiel tem de aceitar sem protestar.

Pelo ensinamento da Igreja, o destino de todos os fiéis, no final, será o mesmo de Maria. Ela simboliza esse futuro comum a todos. A diferença é que ela foi pela via expressa; quanto aos outros, cada qual vai seguir o próprio caminho, que pode ser mais (ou menos) pedregoso. Bom, tem aqueles que vão parar no inferno, mas essa já é uma outra história, que fica para uma outra vez.

Em Portugal, o 15 de agosto é feriado nacional. Quanto aos vizinhos espanhóis, têm tantas festas municipais e regionais, que o dia praticamente pode ser visto como feriado nacional. No Brasil, talvez já tenha sido dia de festa nos tempos de antigamente, mas não encontrei menção. Atualmente, apenas alguns municípios, como Belo Horizonte e Fortaleza, festejam esse dia.

Na Itália, a data é uma das mais marcantes do calendário. Tem até nome especial: chama-se Ferragosto, uma corruptela da locução latina “Feriae Augusti – o Repouso de Augusto”. Oficializada pelo imperador Augusto na base de antiquíssimas festividades, a data marcava o início do período de descanso que se seguia ao fim da parte mais pesada do trabalho nos campos. Os arados (e os animais de carga que os puxavam) podiam repousar.

Hoje em dia, o arado não é mais puxado por animais, mas a tradição festiva continua, reforçada pelo fato de o 15 de agosto cair no meio das férias de verão, no período mais quente do ano, em que multidões aproveitam o feriado para tirar alguns dias de descanso.

Em toda a península, aeroportos e estações de estrada de ferro ficam apinhados – em modo covid, naturalmente. Na era pré-internet, muita gente mandava cartão de Bom Ferragosto, assim como quem deseja Feliz Natal. Há quem continue firme na tradição, só que hoje vai por uótisápi. O simbolismo religioso do feriado passou para segundo plano.

Essa tradição de deslocamento populacional foi inaugurada e intensificada durante o período fascista, nos anos 1920 e 1930, com a criação das “excursões populares” incentivadas pelo governo central. Como ainda ninguém tinha tido a ideia de dar prêmios ao povão do tipo bolsa família, foi a maneira bolada pelos dirigentes da ditadura de proporcionar panem et circenses – pão e [jogos] circenses” ao povão.

Ignaros e distantes dessas chatices históricas, nossos atuais dirigentes, que parecem todos ter fugido da escola, descuidaram essa prática milenar de adubar o povo. Em vez de pão, entregam inflação. Em vez de jogos circenses, distribuem bofetadas e insultos diários. Desventurado Brasil!

(*) Apesar da vaga semelhança fonética com “ascensor”, o termo assunção não tem a ver com elevador. Pertence a outra família. Deriva do verbo latino assumere, cujo sentido primeiro é tomar para si, presumir, escolher. Assim, a assunção de Maria é a declaração de que a eleita é ela.

Consumir, assumir, presumir e assunto são membros da família. Presunto também é, só que, em nossa língua, o danadinho tomou outro caminho. Em vez de “presunto assassino”, temos de dizer “presumido assassino”. Presunto, como todos sabem, é outra coisa.

Essas palavras que tropeçam e saem da linha são o sal e a pimenta das línguas.

Paraskevidecatriafobia

José Horta Manzano

Em dezembro de 1993, o British Medical Journal, órgão respeitado nos meios científicos, publicou um estudo feito por um colegiado de autores que levava título sugestivo: Is Friday the 13th bad for your health? – Sexta-feira 13 é dia ruim para a saúde?”.

Para evitar ao distinto leitor o trabalho de ler o artigo inteiro, dou logo a conclusão: parece que sim. No levantamento feito pelos autores, parece que acidentes rodoviários, por exemplo, ocorrem com maior frequência numa sexta-feira 13 do que em outras sextas-feiras. É verdade que não é tão complicado fazer com que estatísticas confirmem a tese que o autor queria demonstrar. Seja como for, mais vale ficar com um pé atrás.

E hoje é justamente sexta-feira 13. E 13 de agosto, ainda por cima! Para nós, brasileiros, o fato de o 13 de agosto cair numa sexta-feira reforça a maldição. Logo mais adiante, explico.

O palavrão que dá título a este post foi composto a partir de raízes gregas. Decompõe-se assim: Παρασκευή (Paraskeví=sexta-feira) + δεκατρία (decatría=treze) + φοβία (fobía=fobia). Juntando as pontas, fica: Pavor de sexta-feira treze. Muita gente fina faz parte do clube dos que detestam esse dia, acredite. Há gente que evita até pôr os pés fora de casa.

A origem da superstição é religiosa. A tradição cristã ensina que Jesus foi crucificado numa sexta-feira, no dia seguinte à última ceia, refeição compartilhada por 13 comensais. O número 13 foi, portanto, um mau presságio que anunciou um desenlace trágico.

Já a implicância com o mês de agosto não vem da tradição cristã. É coisa nossa. Alguns acontecimentos dramáticos atingiram a política brasileira em agosto.

Getúlio Vargas suicidou-se num 24 de agosto, enquanto Jânio Quadros renunciou num 25 de agosto. O ex-presidente Juscelino Kubitschek e o canditato à presidência Eduardo Campos morreram em agosto, ambos em acidente trágico. Dilma Rousseff foi destituída da Presidência num 31 de agosto. A maldição de agosto também atingiu o general presidente Costa e Silva, que teve um ataque cerebral e foi afastado do cargo em 31 de agosto de 1969. Até Carmen Miranda, que não estava na política mas era a estrela maior da música brasileira, faleceu num 5 de agosto.

Antes de toda essa mortandade, não sei por que razão, agosto já era conhecido como “mês do desgosto”. Minha avó dizia ainda que “agosto é mês de cachorro louco”. Não sei se haveria base científica, mas assim falavam os antigos.

Portanto, quando o 13 de agosto cai numa sexta-feira, todo cuidado é pouco! Ainda mais com covid na praça e, pior que tudo, com Bolsonaro de timoneiro. Valei-nos, São Benedito!

Variante Lota

José Horta Manzano

Faz uma semana, postei um artigo sobre as novas (e perigosas) variantes de covid-19 que têm aparecido com assustadora frequência. Expliquei que, no começo, cada uma tinha sido batizada com o nome do lugar ou do país onde tinha sido identificada pela primeira vez. Assim, tivemos a variante britânica, a brasileira ou de Manaus, a indiana, a sul-africana.

Só que a OMS – Organização Mundial da Saúde achou que não era boa ideia deixar que novas cepas recebessem nome de lugar ou de país. Esse costume podia acabar estigmatizando regiões inteiras do planeta e, como consequência extrema, podia até levar à não-notificação de novas variantes, de medo de que o nome do país ficasse malvisto.

Ficou então decidido atribuir uma letra grega a cada nova cepa. A antiga britânica virou Alfa; a sul-africana passou a chamar-se Beta; a de Manaus tornou-se Gama; a indiana, a mais perigosa até o momento, é hoje conhecida como variante Delta.

Contei também que outras variantes menos virulentas, das quais pouco se ouve falar, já estavam catalogadas, todas com letras gregas. Já se conhecem a Épsilon, a Zeta, a Eta, a Teta, a Iota, a Kappa e até a Lambda.

Certas matrizes de artes gráficas (popularmente conhecidas como fontes) têm a incômoda característica de usar exatamente o mesmo símbolo para o I maiúsculo e para o L minúsculo. As fontes da família Arial, amplamente utilizadas, têm essa peculiaridade. Veja só: ao deparar o símbolo l, não se pode afirmar de cara, sem examinar o contexto, se se trata de i maiúsculo ou de ele minúsculo.

É o que deve ter acontecido como o funcionário que redigiu um artigo provavelmente traduzido do inglês e publicado n’O Globo. Tanto a manchete quanto o corpo do artigo falam de uma certa variante “Lota”. Se vê que não leram meu post. Ou, se leram, não prestaram atenção. Lota não é letra grega, portanto, não pode ser nome de variante de covid-19. O nome da nova cepa é Iota, com I inicial.

Iota, variante surgida nos EUA, recebeu por nome a nona letra do alfabeto grego, ancestral de nosso jota. Por enquanto, as letras gregas ainda estão dando pro gasto. O problema vai se complicar quando for identificada a variante Ômega, última letra do alfabeto. Depois dela, como é que fica?

Observação
No caso da manchete do jornal, deve ter havido um primeiro escriba a grafar Lota, com L inicial. Na sequência, dúzias de veículos simplesmente copiaram a informação, ipsis litteris, sem tirar nem pôr, com erro e tudo, sem que ninguém se preocupasse em conferir.

É sinal dos tempos. É exatamente assim que se propagam as notícias falsas: com multidões repetindo o que ouviram, sem que nenhum cristão pare um instante pra refletir se a ave-maria é legítima.

Alfa, Beta, Gama, Delta

José Horta Manzano

Antes de começar, um preâmbulo. Palavras como mutação, mutante, mutatório, mutabilidade estão no dicionário. Até mutacionista, mutacismo, mutável e mutança estão lá. São substantivos e adjetivos. Mas o principal, que é o verbo, não aparece. Qual é a qualidade do que é mutatório? E do que é mutável? E daquilo que sofre mutação? Falta o verbo.

Não vejo por que razão não se usaria o verbo mutar. Ainda mais nestes tempos de pandemia, em que o vírus evolui constantemente, o verbo anda fazendo muita falta. Dizem que é o falante que faz a língua, pois não? Então vamos nos apropriar do verbo mutar antes que algum aventureiro lance mão.

Uma das características de todo vírus é mutar constantemente. Desde que surgiu a primeira cepa do Sars-Cov-2 (o nome oficial do vírus da covid), já foram registrados milhares de mutações. Felizmente a quase totalidade delas não provoca alterações fundamentais na composição do vírus, nem diminui a eficácia das vacinas.

Vez por outra, porém, uma mutação gera uma cepa mais perigosa. Logo que surgiram, as primeiras ficaram conhecidas pelo nome do país ou da região onde tinham sido detectadas. Tivemos a variante britânica, a brasileira, a indiana, a sul-africana.

Para evitar a estigmatização do local de descoberta, a OMS decidiu atribuir a essas variantes uma letra do alfabeto grego. De fato, apontar sistematicamente o nome do lugar ou do país poderia até inibir a notificação de novas cepas. Ninguém quer ver o nome de seu país associado a um inimigo mortal da humanidade.

A OMS classifica as mutações pelo critério de periculosidade. Atualmente, quatro variantes estão na lista das mais preocupantes: Alfa, Beta, Gama e Delta. Alfa é a antiga variante britânica. Beta foi detectada na África do Sul; Gama costumava ser conhecida como variante de Manaus ou do Brasil; Delta é a variante indiana – atualmente a mais inquietante.

A maior preocupação das autoridades sanitárias mundiais é que o vírus mute mais uma vez e dê origem a uma variedade resistente à vacinação. Já pensou? Teria de começar tudo de novo: desenvolvimento de nova vacina, testes, aprovação pelas Anvisas do mundo todo, plano de vacinação, máscaras, distanciação social, confinamento. Tudo de novo. Cruz-credo!

Daí a insistência para que cada indivíduo mantenha comportamento prudente e responsável, com vistas a limitar o risco de alastramento da doença. Quanto menos o vírus circular, tanto menor será o risco de aparecer alguma cepa perigosa. Será melhor para todos nós.

Já foram detectadas outras variantes, felizmente menos virulentas. Todas têm nomes do alfabeto grego: Épsilon (EUA), Zeta (Brasil), Eta (diversos lugares), Teta (Filipinas), Iota (EUA), Kappa (Índia), Lambda (Peru). Espera-se que os vírus resultantes dessas variantes não mutem de novo para criar cepas ainda mais perigosas. Todo cuidado é pouco, que nada é garantido.

Uma preocupação colateral se refere ao alfabeto grego. Só faltam 13 letras para o Ômega, a última letra. Se chegarmos lá (o que ninguém espera), como é que fica? Por favor, cartas para a OMS, Avenue Appia 20, Genebra.

Esguicho

José Horta Manzano

O brasileiro é um povo criativo. A toda hora, dá pra sentir a força da inventividade de uma gente que nem sempre conta com instrução formal, nem com meios adequados. Quando a gente não sabe, sacumé, tem de ser esperto. Esperteza é o que não falta em nossa terra.

No entanto, na hora de dar nome às coisas e fatos novos, parece que há um engasgo. Não costumava ser assim. Até meio século atrás, talvez pelo isolamento de um mundo sem tevê e sem viagens, o engenho de nossa gente era mais ativo.

As brincadeiras que conheci nos anos 1960, por exemplo, embora viessem dos EUA, tinham o nome imediatamente adaptado a nossa fonética. O hula hoop, aquele anel que a criançada balançava em torno da cintura, guardou seu nome original na maioria das línguas. Na nossa, não: chamou-se bambolê. Foi febre naquela época e, dizem, responsável por traumatismo renal nos aficionados mais ferrenhos.

Há baciadas de exemplos de nomes adaptados para uso nacional. Hoje, parece que o empenho desapareceu. Toma-se a expressão inglesa no original, nua e crua. Por exemplo, ninguém diz escola em casa, mas “homeschooling”. O mesmo vale para o importado “homeoffice”, usado em vez de um simples e eficaz teletrabalho. Parece que a criatividade entrou em letargia. Quem sabe, um dia acorda.

Nestes dias de Jogos Olímpicos, temos muita notícia do Japão. Li outro dia esta frase: “Em diversas instalações, como no centro principal de mídia, há esguichos de água, que parecem jogar uma garoa.

Pela volta que o repórter deu pra descrever os “esguichos de água”, fico imaginando que ele nunca tenha visto nada parecido. Logo logo essas engenhocas chegam ao Brasil, se é que já não estão no porto, à espera de desembaraço alfandegário.

Taí uma excelente oportunidade de dar nome a esse dispositivo novo. Esguichos assim existem na Europa há alguns anos. Quando o calor era raro, não havia necessidade. Estes últimos tempos, porém, com as temperaturas saarianas que temos tido, tornaram-se imprescindíveis. São ligados no verão, naturalmente. E servem para amenizar o sufoco dos dias tórridos.

Os franceses, que gostam de dar nome a tudo, já decidiram: entre eles, esse esguicho é conhecidos como brumisateur. É simples, a palavra deriva de bruma (névoa, nevoeiro) e designa o aparelho que produz bruma. Fica a dica.

Quem sabe a criatividade brasileira acorda, esquece “esguicho” ou “chuveirinho” e opta por brumizador. Ou talvez nebulizador. Ou até um sofisticado garoizador. Seja qual for, sempre vai ficar melhor que “esguicho de água que parece jogar uma garoa”.

Quando aperta o peito

José Horta Manzano

Todo estudante de inglês, vez ou outra, já deparou com a palavra “nightmare”. É como os ingleses chamam nosso conhecido pesadelo. Quando eu ainda não conhecia a origem do ‘pesadelo inglês’, a palavra me parecia pra lá de estranha. De onde viria um termo tão diferente?

A história vem do tempo em que os bichos falavam e as florestas europeias eram povoadas de elfos, fadas, sílfides, druidas e bruxas. Entre essas entidades mitológicas, (umas boazinhas, outras menos), havia uma figura maléfica – feminina em certas culturas, masculina em outras – que passava o tempo a perturbar a vida dos mortais.

A figurinha entrava nas casas pelo buraco da fechadura e seu prazer era sentar-se no peito de quem estivesse dormindo. Isso causava ao infeliz uma tremenda opressão acompanhada de horrível sensação de não poder gritar, nem se defender, nem escapar.

Essa entidade não aparece nas lendas dos países latinos, mas está presente na mitologia das regiões germânicas, escandinavas e eslavas. Em alemão moderno, seu nome é Mahr. As demais línguas utilizam o mesmo étimo: mara (sueco), mura (tcheco), mora (servo-croata), kikímora (russo). E assim chegamos ao nightmare dos ingleses. Literalmente, é o “mare” que vem à noite, o diabinho noturno.

A língua francesa, embora não seja germânica, adotou o mesmo étimo. Na forma atual cauchemar, o primeiro elemento é o verbo cochier, do francês medieval, que significa apertar. E o segundo é o mesmo monstrinho descrito nas línguas germânicas.

Em italiano, o “mare” não é mencionado. Utiliza-se a palavra de origem latina íncubo. A raiz é diferente das que são usadas na Europa do norte, no entanto a imagem de opressão é a mesma. Incubar (que existe em português, e é a forma culta de dizer “chocar”) significa sentar em cima ou deitar por cima, como a ave que choca os ovos. É sempre a imagem do diabinho sentado em cima do peito, a atormentar os que estão dormindo.

Em espanhol (pesadilla) e em português (pesadelo), não temos a imagem do espírito malévolo. Mas o efeito continua presente: o peso da criatura aparece em pesadelo e pesadilla.

Todo pesadelo é experiência desagradável – um sufoco, na verdadeira acepção da palavra. No entanto, assim que a gente abre o olho e vê que está vivo e em boa saúde, o perigo se desmancha no ar.

Como chamar, então, o momento de angústia que vivemos neste Brasil que parece ter sido abandonado pelas entidades boas? Como descrever estes tempos em que todas as notícias que vêm da Corte parecem obra de seres do mal? Como qualificar o sufoco que Jair Bolsonaro nos impõe? Terá ele aberto as porteiras do inferno?

A cada manhã, ao abrir o olho, a gente tenta imaginar que o pior já passou… mas não! O capitão continua lá, atormentando a existência de todos, como um imenso demo sentado em cima do bom povo.

Todo pesadelo costuma acabar de manhã, mas – ai de nós! – este túnel que estamos atravessando parece não ter fim. É pesadelo interminável, mais pesado que qualquer pesadelo. Que nome se deve dar?

O tamanho é documento

Lola Pons Rodríguez

Lola Pons Rodríguez(*)

El tamaño en la lengua importa. En general lo vemos muy bien en la lengua de la clase política, que piensa que la problemática es mayor que el problema, que la temática es superior al tema y que implementar es mejor que hacer. Un aburrimiento…

Na língua, o tamanho importa. Em geral, vemos isso muito bem no linguajar da classe política, que acha que a problemática é maior que o problema, que a temática é superior ao tema e que implementar é melhor que fazer. Uma canseira…

(*) Lola Pons Rodríguez é escritora especializada em história da língua espanhola.

CPI e seus mistérios

José Horta Manzano

Nessa CPI, verdadeiro circo de absurdos montado em Brasília, saltaram ao picadeiro, na semana passada, dois misteriosos personagens. Há quem jure que formam uma dupla caipira. Mas é só impressão. Levam por sobrenome Miranda e Dominguetti.

O primeiro deles, Luís Miranda, tem um irmão que, de forma enigmática, também se chama Luís. São coisas da vida. O segundo personagem, Dominguetti, veja que coincidência, também se chama Luís. Um festival.

Miranda
É sobrenome de respeito. Tem origem no latim mirandus, que significa “que vale a pena ser admirado”. Começou a ser atribuído na Idade Média, na região das Astúrias (Espanha). De lá se espalhou pela Espanha e pelos territórios que, em algum momento, estiveram sob o domínio da coroa espanhola: Portugal, Nápoles e sul da Itália, América Latina (Brasil incluído), Filipinas.

Uma representante da grande família – Carmen Miranda – foi, durante décadas, a personagem brasileira mais popular no planeta.

Esperemos que os Luíses (Miranda) da CPI façam jus ao sobrenome e tenham comportamento admirável.

Dominguetti
Segundo a imprensa, a grafia flutua entre Dominguetti e Dominghetti. Às vezes, as duas formas se encontram dentro de um mesmo artigo.

Trata-se de sobrenome de consonância italiana. É bem possível que, depois de deixar a Itália natal, chegar ao Brasil e atravessar transcrições e adaptações conformes a nosso usos, a grafia (e o som) desse nome tenham sido alterados. O mesmo infortúnio acometeu centenas de outros nomes de imigrantes.

Não há registro da forma Dominghetti na extensa lista de sobrenomes italianos. Isso faz supor que o original possa ter sido Domenighetti, Domeneghetti, ou algum outro aparentado. São sobrenomes que derivam de formas dialetais do nome medieval Domínicus, como por exemplo Doménicus, Doménego, Domeneghini, Meneghetti. Todos se referem ao domingo, dia do Senhor. É permitido supor que o original italiano tenha sido “traduzido” para se aproximar de nosso domingo.

Resta esperar que as declarações de nosso Dominghetti sejam menos misteriosas que as origens de seu sobrenome. Essa CPI parece cada dia mais obscura, como se tivesse vindo, não pra esclarecer, mas pra confundir.

Corto cabelo e pinto

José Horta Manzano

Frases mal formuladas podem causar efeitos estranhos. O exemplo lapidar está contido nessa curiosa placa de barbearia. A foto circula na internet há anos, mas o efeito hilário continua garantido.

No caso do “Corto cabelo e pinto”, nem mesmo acrescentando uma vírgula se resolve o problema. Uma solução será: “Corto e pinto cabelo”.  Ou talvez: “Cabelo: corto e pinto”. Vi outro dia na Folha esta chamada.

Dado que eu estava, naquele momento, chegando do planeta Marte, fiquei na dúvida se o vendedor de vacinas e o líder do governo Bolsonaro eram uma só pessoa. Quê? É impossível? ¡Que va!

Nestes tempos estranhos, com o governo desregulado que é o nosso, nada mais espanta. Se um ministro do Meio Ambiente está sendo processado por ter se envolvido com contrabandistas de madeira, o líder do governo pode perfeitamente estar vendendo vacina. E faturando alto com isso. Ora, ora.

Buscando a clareza (e evitando que o freguês tenha de ler o artigo inteiro pra saber quem é quem), seria bom reformular a chamada.

Se o líder do governo e o vendedor de vacinas forem uma só pessoa, uma solução seria esta:
“CPI convoca líder do governo Bolsonaro, que vende vacinas e que denunciou propina”

Se forem duas pessoas, é melhor reformular a chamada:
“O líder do governo Bolsonaro e o vendedor de vacinas que denunciou propina são convocados por CPI”.

Assim, nenhum líder poderá botar defeito. Nenhum vendedor de vacinas também.

Para encurtar caminho

José Horta Manzano

A tendência que os falantes têm de encurtar caminho e descobrir atalhos na língua assume diferentes roupagens. Por exemplo, numerosos verbos que costumavam ser pronominais estão deixando de sê-lo.

Mais e mais frequentemente, se ouvem frases como:

“Ele não acostuma com essa vida de casado” (em vez de ele não se acostuma)

ou

“Eu não importo de ficar esperando aqui” (em vez de eu não me importo).

A atual pandemia ergueu ao palco um verbo antes menos comum: vacinar. Temos de constatar que ele também está entrando na categoria dos que vão deixando de ser pronominais.

O recorte reproduzido no início do post está aí pra provar. Diz ele que “vacinar é motivo de vergonha”. Em outros tempos, a manchete seria “tomar vacina é motivo de vergonha” ou também “vacinar-se é motivo de vergonha”. O mundo evolui, e a língua vai junto.

Mas atenção, juventude! Quem estiver mandando bilhete para a namorada pode escrever do jeito que quiser. Já quem estiver em situação mais formal é bom tomar cuidado.

Namorada dá desconto; erro em prova tira ponto!

Vacinar = dar vacina, aplicar vacina.

Vacinar-se = receber vacina, ser vacinado.

Na dúvida, diga: “tomar vacina”. É mais simples, resolve o problema, não tira pontos e, ainda por cima, protege contra a doença.