Free flow

Prepare-se: o Free Flow vem aí!

José Horta Manzano

Alguns chamam esta tendência de “complexo de vira-lata”, expressão que prefiro não utilizar por me parecer pesada e injuriosa. Seria até bom encontrar opção menos agressiva. Estou falando do fascínio que tudo o que vem do estrangeiro exerce sobre nossa população.

Deve ser fenômeno antigo, visto que, de memória, recordo que sempre foi assim. Artigo estrangeiro sempre foi valorizado. Mas a lógica nos ensina que, logo nas primeiras décadas do descobrimento, os produtos desta terra é que devem ter sido valorizados na Europa. Imagine o pasmo de um europeu dos anos 1500 diante de um abacate, de um abacaxi ou de um animal desconhecido no Velho Continente. Não sei quando é que o encanto mudou de mão.

“Nacional ou importado?” – é pergunta que se pode ouvir em comércios do Brasil, tanto de alimentos como de roupas, de azulejos, de relógios, e de inúmeros outros artigos. Pressupõe-se que o importado é necessariamente de melhor qualidade, o que justifica preço bem superior.

Mas não pense que é assim por toda parte. Me lembro de um dia, muitas décadas atrás, em que eu fazia umas comprinhas numa feira-livre aqui na Suíça. Numa banca de legumes e verduras, vi duas caixas de tomates muito parecidos, mas com preços diferentes. Apontei para os mais caros e perguntei a razão do preço. A resposta veio natural: “Ah, estes custam mais caro porque são tomates suíços! Os outros são importados.”.

Com o tempo fui aprendendo que aqui, em princípio, artigo nacional custa mais caro que o estrangeiro. No começo, deve ter me parecido uma estranha tendência, nem lembro mais. Com o tempo, me acostumei.

Por que é que contei essa história? Foi justamente para mostrar que o que ocorre no Brasil não é tendência universal. Talvez nossa admiração por artigos importados venha do período colonial, do tempo em que nosso território era isolado do mundo, longe de tudo, sem fábricas, sem jornais, sem escolas superiores. Naquela época, o importado era necessariamente melhor, visto que nacional não havia.

Hoje essa admiração sistemática pelo que vem de fora – cujo efeito perverso é a depreciação sistemática de tudo o que é nacional – não tem mais razão de ser. O mundo mudou, o Brasil já não é uma província isolada, situada quase fora do mapa. Aqui há coisas boas e más, como em toda parte. Ainda bem que é assim, se não a Embraer não seria uma das grandes construtoras mundiais de aviões.

Enquanto nossa estranha tendência não arrefece, é bom irmos nos acostumando com o mais recente barbarismo. É o recém-anunciado “free flow”, sistema que permite passar pelo pedágio rodoviário sem parar. Não sei como funciona, mas pouco importa porque não é esse o objetivo deste artigo. Acho simplesmente que importar a expressão em língua inglesa e servi-la assim – crua, sem cozinhar, sem ao menos descascar – é um despropósito.

Sem cancela”, “Passa rápido”, “Vamos em frente”, “Cuca fria”, “Sinal verde”, “Passe livre”, “Sem problema”, “Sai da frente”, “Pedágio simples”, “Via livre – seriam nomes possíveis para substituir o barbarismo. Rápida sondagem entre futuros usuários daria mais centenas de opções. Mas foi mais simples pegar a expressão estrangeira tal e qual. É uma tremenda falta de criatividade.

Fica tão mais sofisticado quando a expressão vem de fora, não é mesmo?

De Paris

José Horta Manzano

Num passado distante, o latim foi responsável pelo fornecimento da maior parte de nossos vocábulos. Já na atualidade, os empréstimos vêm principalmente da língua inglesa. Entre o latim e o inglês, houve um período, entre os séculos 17 e 19, em que o grande provedor de palavras novas era o francês.

Numa época em que a hora de glória de Espanha e Portugal já havia passado, e a ascensão da Inglaterra ainda não se havia firmado, o “centro do mundo” ocidental era Paris. De lá vinham descobertas científicas, novas teorias políticas, invenções práticas – e, com isso, muitos vocábulos novos.

Essas palavras costumavam dar nome a objetos novos, ou àqueles que ainda não tinham nome definido. Foram adotados por inúmeras línguas da Europa e do resto do mundo. Eis alguns exemplos.

Em sueco
Calçada é trottoar (=trottoir) e evento é evenemang (évènement)

Em italiano
Mamadeira é biberon (=biberon)  e sobremesa é dessert (=dessert)

Em inglês
Terça-feira de carnaval é mardi gras (=terça-feira gorda) e beco sem saída é cul-de-sac

Em turco
Cadeira de praia é şezlong (=chaise longue) e enxaqueca é migren (=migraine)

Em alemão
Escritório é Büro (=bureau) e beringela é Aubergine (=aubergine)

Em espanhol
Estreia de um artista é debut (=début) e o papel que ele representa é rol (=rôle)

Em dinamarquês
Motorista é chauffør (chauffeur) e guarda-chuva é paraply (=parapluie)

Em russo
Concreto armado é Бетон (=béton) e estribilho é Куплет (=couplet)

Em nossa língua temos uma grande coleção de importações daquela época. São palavras científicas, vocábulos técnicos e termos de todos os dias, que utilizamos sem nos dar conta.

Penhoar (peignoir)
Gravata (cravate)
Caçarola (casserole)
Virabrequim (vilebrequin)
Capô (capot)
Paletó (paletot)
Embreagem (embrayage)
Sabonete (savonnette)

E milhares de outras.

Cretinice

José Horta Manzano


Em matéria de futebol, a catástrofe está sempre à espreita. Ontem foi o dia da Suíça, que perdeu para Portugal com placar caudaloso: 6 x 1. O choque equivale ao ‘mineiraço’ brasileiro de 2014. Vou aproveitar para publicar um artigo que escrevi anos atrás. Traz curiosidades do país alpino.


Você sabia?

Todo país, por menor que seja, sempre dá uma contribuiçãozinha à humanidade. É natural que países maiores e mais populosos sejam responsáveis pela criação de maior número de palavras internacionais, produtos, conceitos, invenções. Mas os pequenos também têm vez.

A Suíça, por exemplo, apesar do território exíguo e da população diminuta, está por trás de ideias, objetos e conceitos que se espalharam pelo mundo. Vamos fazer um teste pra ver se você sabe.

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Gruyère
É queijo tipicamente suíço conhecido por ser cheio de buracos. Ingrediente indispensável em qualquer fondue. Certo?

Depende. Produzido na região de Gruyère, é tipicamente suíço, sem dúvida. É o ingrediente chave de toda boa fundue. No entanto, diferentemente do que muitos acham, o queijo Gruyère não tem furos. É lisinho, lisinho. Quem tem furos é o emental, produzido no Emmenthal (Vale do Rio Emmen).Queijo 1

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Swatch
É criação suíça. Certo?

Certo. Foi bolado pelo grupo relojoeiro que hoje leva o nome do modelo: Swatch.

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Velcro
É invenção suíça. Certo?

Certo. Foi inventado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990).

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Relogio Swatch 1

Albert Einstein
Era cidadão suíço. Certo?

Certo. Nasceu no Império Alemão, mas naturalizou-se suíço aos 22 anos. Adquiriu outras nacionalidades ao longo da vida, mas conservou a suíça até o fim.

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Cuco
O relógio de pêndulo conhecido como cuco é antiga invenção suíça. Certo?

Errado. O cuco foi criado na Alemanha ‒ mais especificamente na Floresta Negra ‒ no século 18.

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Polilinguismo
Todos os suíços são poliglotas ou, pelo menos, bilíngues. Certo?

Errado. O país é composto de cantões. Cada um deles tem sua língua oficial. Alguns têm até duas. A maioria dos suíços, no entanto, fala uma única língua. Mais curioso ainda é o fato de a língua inglesa estar-se impondo, cada vez mais nitidamente, como segunda língua. Hoje em dia, é comum ver dois suíços de língua materna diferente se comunicarem em inglês.

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Relogio cuco 1.jpg

Cretinismo
A palavra cretino é de origem suíça. Certo?

Certíssimo. O distúrbio conhecido como cretinismo, que perturba fortemente o desenvolvimento físico e mental, é causado principalmente por carência de iodo. Nos tempos de antigamente, os habitantes de aldeias de montanha salgavam os alimentos com sal gema (não marinho), pobre em iodo. A incidência de distúrbios ligados ao cretinismo era elevada.

No Valais, cantão montanhoso e então pouco desenvolvido, a patologia ocorria com frequência. O povo chamava os infelizes doentes de “pauv’ crétin”pobre cristão, no dialeto local. Descoberta a origem da doença, iodo passou a ser adicionado ao sal. O distúrbio desapareceu, mas o nome ficou. Não só ficou, como se instalou em grande número de línguas. Assim:

Português: cretino
Russo:     кретин (kretin)
Inglês:    cretin
Sueco:     kretin
Polonês:   kretyn
Lituano:   kretinas
Húngaro:   kretén
Francês:   crétin
Finlandês: kretiini

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Curiosidade final
Corrupção, corrupto & derivados não são de origem suíça. Nem brasileira, diga-se logo. Corrupção é mais velha que o rascunho da Bíblia. A raiz rup vem de longe. Encontrada já no sânscrito, passou às línguas europeias. Traduz qualidade violenta, súbita ou negativa, como romper, despedaçar, irromper, roubar.

Publicado originalmente em 23 jun° 2016.

Frasista

José Horta Manzano

A maior parte dos dicionários online de língua portuguesa anotam que a palavra “frasista” designa o indivíduo que aprecia fazer frases rebuscadas mas vazias de sentido. Dos que consultei, o Caldas Aulete é o único que amplia o significado do termo, ao conceder que são frasistas todos os que costumam fazer frases de efeito com ou sem conteúdo significativo.

Quero lembrar hoje aqui um grande frasista brasileiro, desaparecido há mais de meio século. Trata-se do carioca Sérgio Marcus Rangel Porto (Sérgio Porto), que também assinava com um heterônimo: Stanislaw Ponte Preta.

Verdadeiro homem de sete instrumentos, Sérgio Porto exercia como jornalista, compositor, escritor, cronista, teatrólogo, radialista. Tinha fértil veia humorística que ressurgia a cada esquina de sua obra. Bom exemplo são os livros de crítica sutil que escreveu sobre o fenômeno que ele nomeou Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País).

Porto foi abatido pelo terceiro infarto que sofreu. Tinha 45 anos.

Em sua curta existência, mostrou ser fino observador dos costumes de sua época. Sua avaliação está registrada em frases que nos chegam como uma fotografia dos anos 1950 e 1960.

Surpreendentemente, frases que ele criou há mais de meio século continuam atuais como se tivessem sido pronunciadas semana passada. Umas delas é:


“No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.”


Foi inspirada na ditadura, mas convenhamos que continua combinando perfeitamente com os dias atuais.

Outra frase de Sérgio Porto vem a calhar para o comportamento abestalhado de nosso presidente sainte (que sai):


“Ninguém se conforma de já ter sido.”


 

Tampar x tapar

José Horta Manzano

Já devo ter falado deste assunto mas não custa repetir. Na linguagem descontraída de todos os dias, uns tampam os ouvidos, outros tampam a panela, há ainda quem tampe a boca, como na chamada do jornal.

Na língua culta, que os jornais deveriam respeitar, precisa tomar cuidado. Tampa-se o que tem tampa. Tapa-se o que não tem.

Portanto:

Tampar a panela
Tampar a caixa de bombons
Tampar a lata de lixo
Tampar o vidro de geleia

mas

Tapar os ouvidos
Tapar um buraco
Tapar o Sol com a peneira
Tapar a boca.

Foi o que fez o time alemão na hora da foto do jogo: todos taparam a boca.

Deu zebra

Jogo do bicho

José Horta Manzano

Nesta terça-feira, surgiu a primeira zebra da Copa 22: a Argentina, forte candidata ao título, foi derrotada pela Arábia Saudita, uma das equipes mais fracas do campeonato.

Jornais argentinos online estão arrasados. São páginas e páginas de desconsolo, com entrevistas, análises, comentários, lamúrias. Dá pra entender.

Mas é bom não tripudiar em cima dos hermanos. De criança, a gente já tinha a sabedoria de dizer que quem cospe para cima recebe o cuspe de volta na cabeça. Vai que o Brasil pega a República dos Camarões ou a Sérvia em dia inspirado – como é que fica? Pode dar zebra pra nós também.

Falando em “dar zebra”, sabe de onde vem essa expressão? Pois vem do jogo do bicho. O sistema é baseado num quadro de 25 animais, que vão da avestruz à vaca. A zebra não aparece entre esses bichos.

Quando Dona Maricotinha procura a vizinha pra saber o resultado do sorteio de hoje, pode ouvir em resposta: “Deu gato na cabeça”, “Deu águia”, “Deu o burro”. Mas jamais ouvirá “Deu zebra”, porque esse simpático animal listrado não faz parte do jogo.

Portanto, utiliza-se a expressão “dar zebra” quando algo não dá certo, quando o resultado é inesperado, imprevisto, difícil de acreditar, completamente fora de eixo.

Espaguetes flutuantes

Gregório Duvivier (*)


Tenho muito orgulho dos espaguetes flutuantes que içamos como um toldo sobre algumas vogais


Tenho, ainda hoje, uma tristeza irremediável por termos perdido o trema. Não durmo tranquilo desde que linguistas sequestraram cinquenta tremas sem pensar nas consequências.

A linguiça, por preguiça, passou a soar como que enguiçada. Os pinguins hoje parecem sequelados sem seus pinguinhos. Perceba que coincide: desde 2009 temos delinquido com mais frequência. Perdoem se estou monotremático.

Torço pra que nunca tirem de nós o til – patrimônio imaterial da nossa língua. Sei que os hispânicos põem o til sobre o N, mas podem passar uma vida inteira em terra lusa sem dizer um simples não. Conseguem, no máximo, um “náo”.

Os franceses tentam e sai “non”, os americanos emitem um “nawm”. Me enche de orgulho saber que o mais poliglota dos alemães ou o mais empedernido dos britânicos jamais alcançará o fonema que qualquer criança brasileira de dois anos de idade pronuncia, de boca cheia, 30 vezes por dia em sua palavra predileta: não.

O til, não sei se já perceberam, já foi um N que passou pra outro plano, e hoje está no céu. É sério. O português matou muitos N intravocálicos do espanhol, mas o fantasma continua ali. Antes de “hermano” virar “irmão”, virou “irmano”, com o N grafado acima das outras letras, flutuando entre o A e o O. Com a pressa na grafia, o N foi virando uma minhoca, um topete, uma onda, uma assombração.

Podemos ter esquecido mas ele está lá, levitando, como uma potência na matemática, elevando vogais à potência N. Daí a dificuldade dos gringos em compreendê-lo. Nosso til evoca uma letra que ao mesmo tempo está e não está. É quântico, como o gato (ou o cão) de Schrödinger (esse trema não caiu).

Me orgulho muito desses espaguetes flutuantes que içamos como um toldo sobre algumas vogais, mudando drasticamente o significado das palavras. O estrangeiro que pedir um “páo” com queijo pode ter uma péssima surpresa – da mesma forma que não recomendo que ele peça pra pôr seu “páo” na chapa.

As palavras com til têm a magia das coisas imensas, irresistíveis ou temerárias. Avião, feijão, paixão, revolução, dragão, coração. Basta tirar o “ão” e elas ficam banais. Perdem seus poderes. Ninguém teria medo de andar de “ávio”. Não dá água na boca um caldinho de “feijo”. Não são demais os perigos desta vida pra quem tem “paixa”. Ninguém sai de casa pra fazer uma “revoluça”. Um “drago” não cospe fogo algum. Um “vulco” não cospe lava. Imagina que tristeza ter, no fundo do peito, um “coracinho”.

(*) Gregório Duvivier é ator e escritor.

Lembra do “brienfing”?

José Horta Manzano

Parece que faz um século, mas aconteceu quatro meses atrás. Foi quando um desesperado capitão convocou o corpo diplomático acreditado em Brasília para revelar-lhe que nosso elogiado sistema eleitoral era disfuncional e fraudulento.

Todos hão de ter duvidado da sanidade mental do presidente. Disfuncional mesmo é um sujeito que venceu todas as nove eleições de que participou dizer que o sistema é aberto a fraudes. Coisa de desequilibrado.

Presidentes ignorantes, corruptos, populistas, mentirosos, incapazes, já tivemos. Mas a história não assinala nenhum que tenha convocado o corpo diplomático acreditado em Brasília para falar mal do Brasil. Fico imaginando os termos que cada embaixador utilizou no relatório enviado a seu respectivo governo. É melhor nem ficar sabendo. De vergonha, basta o que o capitão disse em público.

Na ocasião da palestra oferecida por Bolsonaro aos embaixadores, o telão erguido ao lado do orador dizia que a palestra era um “brienfing”. A palavra utilizada me pareceu ofensiva e presunçosa. No original, designa uma reunião em que o discursante dá instruções aos que assistem. Para coroar, foi mal grafada. Por ignorância ou desleixo, enfiaram um “n” onde não devia estar. O correto é “briefing”.

Francamente, ignorância e desleixo parecem estar incrustadas no universo bolsonarista. A foto acima foi tirada num desses acampamentos organizados diante de quartéis. De novo, maltrataram uma palavra da língua inglesa. “Freedom” (=liberdade) aparece mal grafada.

Quem bolou o texto julgou que palavra terminada em “m” parece brasileira, não inglesa. Deve ser por isso que tascou um “n” no fim. Fica com ar mais estrangeiro. É como alguns “Willian” que há por aí.

Antigamente se dizia que “quem não tem competência, não se estabelece”. Parece que o ditado já não vale.

Língua complicada

José Horta Manzano

Você sabia?

Por razões históricas, a representação gráfica dos diferentes falares humanos não é uniforme. Há línguas que se valem de ideogramas, como o chinês. O japonês usa um sistema complexo, com silabário e ideogramas. (Silabário é um sistema de escrita com um sinal gráfico para cada sílaba.)

A maioria das línguas escritas utilizam um alfabeto. Há dezenas deles. Em alguns casos, o alfabeto reflete os sons e as nuances da língua para a qual foi especialmente criado. Não é nosso caso.

Nossa língua herdou um alfabeto concebido para outra língua. Os escribas medievais foram obrigados a inventar letras, sinais e combinações para representar sons que não existiam no latim e para os quais não havia letras específicas.

Essa é a razão pela qual nossa escrita nem sempre bate com a fala. Escrevemos de um jeito e lemos de outro. A mesma letra pode ter mais de um som. Ao contrário, um único som pode ser representado de maneiras diferentes.

No português atual, uma única letra pode indicar até cinco(!) pronúncias diferentes. A letra ‘x’ é o exemplo maior. Soará como ‘ch’ em enxurrada, como ‘z’ em exame, como ‘s’ em excluir, como ‘ks’ em fixo. E será muda em excelente.

Por outro lado, o som ‘ch’ pode ser representado de três diferentes maneiras. Em acho, é indicado por ‘ch’. Em eixo, por ‘x’. E em este (na pronúncia carioca e nordestina), é representado por ‘s’.

Embora nem sempre nos demos conta, há numerosos casos de sons múltiplos representados por uma única letra. Cada um dos dois ‘aa’ de cama indica um som diferente. O ‘e’ de chover não se pronuncia como o ‘e’ de mulher. O mesmo se dá com o ‘o’ de moça e o ‘o’ de roça.

Tem mais. O primeiro e o segundo ‘d’ de dedinho não soam da mesma maneira. O mesmo vale para os dois ‘d’ de cidade e para os dois ‘t’ de tomate. O ‘u’ de muito é nasal, enquanto o de cuido não é.

Não nos atrapalha ver a nasalização de vogais assinalada pela letra que vem a seguir ― geralmente um ‘m’ ou um ‘n’. Assim, o ‘a’ de cano, o ‘e’ de então, o ‘u’ de mundo têm som nasal.

Por razões alheias à gramática, não nos importa que a pronúncia de certas letras seja contrariada. Ao ler a palavra Mercosul, por exemplo, ninguém respeita o que está escrito (Mercozul); dizemos todos Mercossul. Fica criada mais uma função para o ‘s’ intervocálico.

Que fazer? A cavalo dado, não se olha o dente. O alfabeto que temos nos foi legado. Temos de usá-lo como é.

Escrita khmer

Escrita khmer

A língua khmer, da família das austro-asiáticas, é falada por 13 milhões de indivíduos distribuídos entre Camboja, Vietnam e Tailândia. Sua particularidade é ter o alfabeto mais sortido do planeta: são 72 letras. Entre elas, 32 vogais. Dá três vezes nosso abecedário! Em compensação, parece que a gramática é bastante simples. Uff! Melhor assim.

Só para apimentar: acaba de me ocorrer que a língua francesa tem por volta de quarenta maneiras de escrever o singelo som ‘o’. O, ot, od, hau, au, eau, ho, aux, aud são algumas delas. Há mais algumas dezenas.

Pensando bem, não podemos reclamar. Até que tivemos sorte.

Publicado originalmente em 20 jul° 2014.

Doa a quem doer

José Horta Manzano

A expressão “doa a quem doer” me traz à memória a gafe histórica perpetrada por Fernando Collor, então presidente do Brasil. Há exatos 30 anos, em entrevista à televisão argentina, Collor afirmou que estava preparado para punir os culpados por quaisquer irregularidades em seu governo. Em refinado portunhol, acrescentou: “duela a quién duela”, que lhe pareceu ser a melhor tradução para “doa a quem doer”.

Expressões idiomáticas não devem ser traduzidas ao pé da letra porque, em geral, dá linha cruzada (essa é do tempo do Onça). Por exemplo, se você pegar a expressão “ao pé da letra” e traduzir para o inglês – ao pé da letra –, fica “to the foot of the letter” – sequência de palavras incompreensível para ouvidos anglófonos.

Dando de ombros a toda prudência, Collor ousou. E se estrepou. Naquela circunstância, um ouvido hispanofônico esperaria algo do tipo “no importa a quién le duela”.

Só ouvintes muito espertos devem ter entendido o “duela a quién duela”. Mas Collor não era esperto.

Cortes de orçamento

José Horta Manzano

Foi amplamente divulgado que, para o Orçamento 2023, Bolsonaro cortou drasticamente verbas que deviam ter sido destinadas à cultura e à ciência.

Faz milênios que a humanidade aprendeu o valor das ciências e das artes para o progresso da sociedade, só que alguns ainda não entenderam.

Aqui abaixo está um punhado de máximas antigas, algumas com dois mil anos, sobre o assunto.

Latim
Ars non habet inimicum nisi ignorantem.
A arte não tem outro inimigo senão o ignorante.

Italiano
L’arte non ha maggior nemico dell’ignorante.
A arte não tem inimigo maior que o ignorante.

Francês medieval
Science n’a ennemis que les ignorants.
Ciência não tem inimigos que não sejam os ignorantes.

Alemão
Wissenschaft und Kunst
haben nie der Toren Gunst.
Ciência e arte
nunca são apreciadas pelos tolos.

Inglês antigo
Art hath an enemy called ignorance.
A arte tem um inimigo chamado ignorância.

Os trogloditas que nos governam ainda estão na Idade Média.

A canoa furou

by Géraldine Streichert, artista francesa

José Horta Manzano

É difícil embarcar em duas canoas ao mesmo tempo. Alguns encontram a solução: ficar de pé e pôr um pé em cada canoa. Às vezes dá certo, mas é raro. Bolsonaro, com poucos cartuchos na mão depois do primeiro turno, está apostando na arte de equilibrar-se entre duas canoas, um pé em cada uma.

Durante quatro anos, botou fé no apoio das comunidades neopentecostais. Com a cumplicidade de sua mulher, transformaram comícios eleitorais em verdadeiros cultos evangélicos ao ar livre. Só que, apurados os votos do primeiro turno, levou um susto. Descobriu que estava longe da meta que tinha fixado: vencer com 60% dos votos. O voto evangélico não tinha sido suficiente.

Às pressas, o capitão decidiu mostrar que não é tão neopentecostal assim. Espichou o pé para outra canoa, disposto a provar que é também católico fervoroso. Por coincidência, as festividades do Círio de Nazaré caíam bem entre os dois turnos da presidencial.

Ao anunciar sua ida a Belém, Bolsonaro crispou o ambiente. A Arquidiocese de Belém fez saber que não admitiria uso político da celebração. Garantiu não haver convidado nenhuma autoridade política, nem mesmo o presidente da República. O prefeito de Belém chegou a declarar que “a fé de todos os paraenses não pode ser sequestrada por uma candidatura à Presidência”.

Mais claro, impossível. O recado que não foi pronunciado mas ficou implícito no não-convite era: “Vosmicê não é dos nossos; vá catar coquinho na sua paróquia”. Ficou evidente que a tentativa de se equilibrar entre duas canoas afundou. As autoridades católicas não estão dispostas a dar palanque a um trânsfuga. Se ele escolheu com tanta ênfase sua vertente do cristianismo, que se contente com ela e que não venha semear discórdia na nossa grei.

Um Bolsonaro desenxabido publicou nas redes sociais uma foto que mostra sua silhueta e serve de prova discreta de sua participação nas celebrações. Só que – ai, ai, ai – pouco familiarizado com festas católicas, imaginou que em Belém estivessem louvando a memória de um sírio que andou fazendo artes em Nazaré nos tempos bíblicos. E mandou ver: Sírio de Nazaré.

A zombaria chegou rápido e forte: “Como assim, Excelência, não sabe nem escrever o nome da festa de que participou?” (Traduzi em linguagem decente, porque, no original, os comentários são inflamados e bem mais ásperos.) A canoa furou.

 

 

Que sírio é esse?
Não é sírio, mas círio, com C. Círio, da família de cera, é uma vela grossa e alta. Esse termo, quem nos veio pelo latim, tem alguns poucos parentes em português, entre os quais o verbo encerar e o substantivo cerume. A palavra querosene também é derivada de uma raiz que significa cera, mas nos veio diretamente do grego.

O nome dos bois

José Horta Manzano

Uma conjectura atormenta filósofos desde a Grécia antiga.


A coisa e seu símbolo são convergentes ou inapelavelmente antinômicos?


Em palavrório accessível, a questão é: mudando o símbolo muda-se a coisa?

Os franceses, com sua longa experiência em matéria de conflitos, afrontamentos, revoluções e guerras, ensinam a «appeler un chat un chat» – se for um gato, há que dizer que é um gato. Esse dito popular exorta o bom povo a não ter medo de dizer as coisas como elas são. Dar nome aos bois, diríamos nós outros. Diríamos? Dizíamos, distinto leitor, dizíamos.

Até alguns anos atrás, os contorcionismos verbais se restringiam a suavizar tabus geralmente de ordem sexual. Todas as palavras que pudessem, de perto ou de longe, remeter ao sexo eram evitadas. Até fenômenos fisiológicamente naturais como a trivial menstruação tinham seus nomes eludidos. Dizia-se que a moça estava «naqueles dias».

Costumes mudam com o passar do tempo. Não há que ser empacado nem caprichoso, que o mundo é assim mesmo. A sociedade evolui e, com ela, as modas, as palavras, as expressões. De uns tempos para cá, essa guinada tem-se acelerado em nosso País. É fenômeno importado, mas pegou forte, alastrou-se como fogo em palha seca.

Uma lista de nomes e expressões a banir foi criada. E esse rol tende a se avolumar a cada dia. Não se fala mais assim, não se diz mais isso, nem pensar em pronunciar aquilo. Fica a desagradável impressão de que mentores mal-intencionados se puseram de acordo para acirrar ânimos, aprofundar fossos entre extratos sociais, separar o povo em campos distintos e antagônicos.

Palavras estranhas – e nem sempre bem escolhidas – nos vêm sendo impostas. Mulato, por exemplo, palavra a execrar hoje em dia, deve ser substituída por afrodescendente. Ora, há que ter em mente que todos os mulatos são também eurodescendentes, se não, não seriam mulatos. Por que, raios, o afro- teria precedência sobre o euro-? Devemos enxergar aí uma nova discriminação?

O Brasil já foi um país muito mais livre. O que digo pode soar estapafúrdio para os mais jovens, mas é o que ressinto. Éramos pobres, sim, mas podíamos sair à rua a qualquer hora sem medo de enfrentar violência, não precisávamos viver enjaulados como bichos no zoológico, a porta de casa dispensava tranca. E era natural dar nome aos bois.

Hoje os brasileiros são mais ricos que meio século atrás (ou menos pobres, se preferirem), mas vivem na apreensão permanente do assalto, da violência, da bala perdida, do sequestro relâmpago. São obrigados a cercar-se de jaulas, câmeras de segurança, porteiros, vigias. E, para coroar tudo, como morango em cima de bolo de aniversário, já não se pode falar como antes. Temos de filtrar nossas palavras, pesar nossas expressões, policiar nosso discurso.

Será que, desde que fomos assaltados pelo “politicamente correto”, teremos sido capazes de resolver a conjectura secular dos filósofos? Será que, mudando o nome da coisa, mudamos também a essência dela? Será que o mulato transfigurado em euro-afrodescendente será mais respeitado, mais valorizado, mais favorecido, mais feliz?

Se assim for, chegou a hora de enfiar o grande Ataulfo Alves no mesmo balaio ao qual já foram condenados Monteiro Lobato e o Saci-Pererê. Seu samba Mulata Assanhada, de 1956, tem de ser banido do cancioneiro nacional por motivo de vocabulário inapropriado.

E é bom que preparem um balaio de bom tamanho. Muita gente fina vai ter de se acomodar lá dentro. Gente do quilate de Ary Barroso, Chico Buarque, Noel Rosa, isso só para começar. Pelas regras de hoje, estão todos em pecado mortal.

Publicado originalmente em 13 dez° 2012.

Imbrochável ou imbroxável?

Aldo L. Bizzocchi (*)

O coro de apoiadores de Bolsonaro que, no último Sete de Setembro, entoou o grito “imbroxável, imbroxável” suscitou, além de perplexidade em muitas pessoas, algumas dúvidas linguísticas. Primeira: essa palavra existe? Segunda: qual a sua origem? Terceira: a grafia correta é imbrochável ou imbroxável?

Primeiramente, é preciso dizer que, ao contrário do que afirmam muitos gramáticos, uma palavra existe na língua a partir do momento em que é criada e passa a ser usada socialmente. Essa nova palavra, que ainda não consta nos dicionários, é chamada de neologismo. Nesse sentido, pode-se dizer que Bolsonaro e os bolsonaristas criaram um neologismo. Se ele sobreviverá a ponto de ser dicionarizado ou se desaparecerá após algum tempo como moda passageira, só a história dirá. Muitos neologismos são assim criados como termos da moda (vide as gírias dos jovens) e, meses depois, caem em desuso. É a lei da seleção natural agindo sobre as palavras como age sobre os seres vivos. Algumas sobrevivem e até deixam descendentes (palavras derivadas, por exemplo), outras morrem e por vezes nem deixam vestígio.

Quanto à origem da palavra imbroxável, é um derivado parassintético do verbo broxar (parassíntese é um processo de derivação que consiste em prefixar e sufixar a palavra primitiva ao mesmo tempo). Trata-se de um termo um tanto chulo para designar a perda da ereção do pênis durante a relação sexual. Logo, imbroxável é o indivíduo que supostamente (apenas supostamente) nunca broxa. E broxar, de onde vem? Vem de broxa.

E broxa, todos sabem, é aquele pincel graúdo que os pintores usam para pintar paredes, especialmente com tinta à base de cal. A relação entre a broxa de pintura e a disfunção erétil é bem sugestiva: quando o pintor mergulha a broxa na tinta e depois a retira da respectiva lata, os pelos do pincel arqueiam todos para baixo sob o peso da tinta impregnada neles.

Como o leitor deve ter percebido, até o momento utilizei broxa, broxar e imbroxável com x, mas também existe em português a brocha com ch, só que com outro significado. Brocha é um tipo de prego, ao passo que o pincel se grafa broxa. Essa é mais uma das pegadinhas do nosso idioma que podem representar uma casca de banana no caminho de vestibulandos e concurseiros. Brocha e broxa são denominadas palavras homófonas, isto é, que têm a mesma pronúncia, mas grafias diferentes.

Portanto, se imbroxável deriva de broxar, e este de broxa, a grafia correta do primeiro é com x e não com ch, como tem saído na imprensa.

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

A juíza e o juízo

José Horta Manzano

Na sexta-feira 2 de setembro, o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) passou a exibir a nova regra relativa ao porte de telefone celular na cabine de votação.

O aparelhinho continua proibido, assim como todo dispositivo que permita fotografar, filmar ou registrar o voto. A novidade é que o telefone celular será retido pela mesa eleitoral enquanto o eleitor vota. O cidadão que se recusar a entregar seu aparelho perderá o direito de votar.

A resolução não prevê exceção para cidadãos STC (sem telefone celular), como este blogueiro. Fico a imaginar a cara de espanto dos jovens mesários quando eu lhes contar a exótica verdade. Estou até pensando em tomar um telefone emprestado, só pra não causar mal-estar.

O mui sério e mui oficial site do TSE estampa as novas disposições(1). O trecho mais impressionante é o seguinte:

“Havendo recusa em entregar os equipamentos descritos, a eleitora ou o eleitor não serão autorizados a votar e a presidência da mesa receptora constará em ata(2) os detalhes do ocorrido e acionará a força policial para adoção de providências necessárias, sem prejuízo de comunicação a juíza ou ao juízo eleitoral.(3)

Considero que o confisco temporário do telefone de bolso é medida de bom senso. Inibe tanto o voto comprado quanto o voto de cabresto. O que me incomoda é a redação do comunicado. Vejamos.

(2) Constará em ata
Quem redigiu a frase ignora o significado do verbo constar. Nessa acepção, significa aparecer, ser mencionado. Ora, não é a presidência da mesa que vai aparecer na ata. A obrigação da presidência da mesa será fazer constar na ata. Se preferirem um único verbo, podem dizer que a presidência lançará em ata os detalhes do ocorrido.

(3) A juíza e o juízo
Li, reli e tresli a frase tentando adivinhar a intenção de quem a redigiu. Ainda estou na dúvida. Quem será o juízo? Pensei que talvez estivessem fazendo referência ao juízo eleitoral, ou seja, a instituição judiciária eleitoral. Se assim fosse, que estaria fazendo a juíza na frase?

Reflexão feita, acabei entendendo que o “politicamente correto” passou por ali. O redator devia estar com intenção de se referir à juíza e ao juiz, mas – oh céus! – digitou mal. Saiu “à juíza e ao juízo”. Ninguém releu, e o texto virou lei.

“A juíza e o juízo” me lembra uma historinha infantil em que se perguntava qual era o marido da vaca, e a resposta vinha: “É o vaco”.

(1) Se alguém quiser conferir no site do TSE, é por aqui.

Atentado

José Horta Manzano

A língua francesa formou o substantivo attentat tomando como base o verbo attenter, que é filhote do latino attentare. Em latim, o verbo significava pôr em prática qualquer meio para que uma coisa seja bem sucedida.

Nossa língua foi buscar o substantivo francês e o aportuguesou: virou atentado. O sentido continua bem próximo ao original. Em atentado, está embutida a ideia de tentativa. Como toda tentativa, tanto pode dar certo como não.

A vice-presidente da vizinha Argentina foi ontem vítima de um atentado. Um indivíduo apontou uma arma, tentou atirar, mas a bala não saiu. A vice-presidente teve sorte. O agressor, menos. Além de não ser bem sucedido, foi dormir atrás das grades.

A Folha de SP acertou ao dar a notícia. Falou em “atentado contra Cristina”. Correto.

Folha de São Paulo

 

 

O Globo também acertou. Foi até mais longe. Falou em “tentativa de assassinato”. Correto.

O Globo

 

 

Já o Estadão escorregou. Tratou a notícia de “tentativa de atentado”. Além de soar complicado (tentativa de atentado), desvirtua a verdade. O que o agressor cometeu foi um atentado de verdade, não uma “tentativa”. Se não deu certo, é uma outra história.

Estadão

 

 

Se o redator fizer questão de qualificar o ato, pode falar em atentado falho, atentado fracassado, atentado infrutífero, atentado frustrado – ou outro adjetivo parecido.

Mas é bom não esquecer que, apesar de o agressor não ter conseguido chegar a seus fins, o ato foi um atentado de verdade, não só um ensaio ou uma tentativa.

Machismo linguístico

José Horta Manzano

Cão              animal de companhia.
Cadela           prostituta.

Vagabundo        homem que não trabalha.
Vagabunda        prostituta.

Touro            homem forte.
Vaca             prostituta.

Pistoleiro       homem que mata por encomenda.
Pistoleira       prostituta.

Aventureiro      homem que aceita o risco.
Aventureira      prostituta.

Garoto de rua    menino pobre que vive na rua.
Garota de rua    prostituta.

Homem da vida    pessoa de grande saber.
Mulher da vida   prostituta.

Galinhão         o ‘bonzão’ que traça todas.
Galinhona        prostituta.

Tiozinho         irmão do pai ou da mãe.
Tiazinha         prostituta.

Feiticeiro       praticante de magia.
Feiticeira       prostituta.

Colhido por aí.

Mundo

José Horta Manzano

Veio ao mundo numa família pra lá de modesta. Esforçado, conseguiu superar as dificuldades. Ao fim da adolescência, ganhou o mundo. Com trabalho e boa dose de sorte, chegou a poupar um pouco. Não era um mundo de dinheiro, mas dava pro gasto. Afinal, economizar um pouquinho não é nada do outro mundo.

Em momentos de folga, enquanto outros deixavam o espírito vagar no mundo da lua, ele sonhava em viajar, correr mundo. Para concretizar o sonho, havia de mover mundos e fundos sem se deixar distrair. E seguiu a boa receita: sempre correto, passou ao largo de toda tentação do baixo mundo.

Assim que a poupança atingiu o montante necessário, comprou uma passagem de avião e caiu no mundo. Pra deixar amigos e conhecidos com água na boca, contou a novidade pra meio mundo. Em suas viagens, o que mais apreciou foi o Velho Mundo. Não se sentia atraído por países do Terceiro Mundo – sempre preferiu os do Primeiro Mundo.

Mesmo assim, ladrão há por toda parte. Um dia, foi assaltado. Levaram-lhe dinheiro vivo, cartões de crédito, passaporte e toda a bagagem – perda total. Seu mundo veio abaixo.

Precisou pedir asilo na embaixada, que o acolheu gelidamente. Com muita vergonha, foi obrigado a aceitar a passagem de retorno que lhe ofereciam. Voltou com uma mão na frente, outra nas costas. O pior mesmo foi quando todo o mundo ficou sabendo. O final da aventura foi melancólico. No aeroporto, em vez de um mundaréu de gente, não havia um gato pingado pra abraçá-lo. Mundo cruel…

A norma culta do futuro

Aldo L. Bizzocchi (*)

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

(*) Aldo L. Bizzocchi é doutor em Linguística, palestrante e blogueiro.

Áurea

Áurea (RS)

José Horta Manzano

Você sabia?

Duas semanas atrás, a Câmara de uma cidadezinha gaúcha de 3.600 habitantes aprovou uma lei municipal pouco comum no Brasil. Vamos conhecer a história.

A cidadezinha é Áurea, no alto vale do Rio Uruguai, norte do Rio Grande do Sul. O povoado começou a se formar 120 anos atrás, com a chegada de imigrantes poloneses. Seus descendentes constituem hoje mais de 90% da população.

Nos anos 1930, na tentativa de consolidar o advento de um “homo brasilicus” alforriado dos laços que prendiam os imigrantes à pátria de origem, a ditadura Vargas exerceu forte pressão para transformar os recém-chegados de então em brasileirinhos de quatrocentos anos. Em Áurea, o uso da língua polonesa no espaço público foi banido. Também foi proibido o ensino dessa língua em escolas.

Assim mesmo, Áurea resistiu. Não podendo fazer parte do ensino escolar, o polonês foi transmitido de geração em geração por via oral, no seio de cada família. Chegamos ao dia de hoje com boa parte da população – principalmente os mais velhos – “se virando” em polonês. Uns falam bem, outros mais ou menos, muitos entendem mas não falam, uns poucos leem.

Agora vamos à nova lei municipal. Ela institui a língua polonesa como idioma cooficial no município, ao lado da língua portuguesa – como permite o Artigo 216 da Constituição Federal. O objetivo é valorizar o aprendizado e a transmissão dessa língua, além de dar apoio a eventos culturais, artísticos e turísticos que promovam o idioma dos antepassados.

A (quase) totalidade dos habitantes tem sobrenome de origem polonesa, muitas vezes estropiado. Para corrigir essa anomalia, um dos incisos da lei preconiza que esses sobrenomes passem a ser corretamente grafados.

Os vereadores de Áurea estão de parabéns. A iniciativa me parece simpática, justa e oportuna. Nenhum aureense vai deixar de falar português só porque melhorou seu conhecimento da língua dos avós ou bisavós. O conhecimento de uma língua estrangeira, seja ela qual for, desempoeira a mente e alarga o horizonte intelectual. Só traz benefícios.