Falsos amigos ‒ 1

José Horta Manzano (*)

Para aqueles que acham que Espanhol é fácil, é bom saber que lá: Boliche se diz Bolos, Bolo se diz Bizcocho, Biscoito é Galleta, Cupcake é Madalena, Waffle é Gofre e Porra é Churros.

Pra piorar, Taza é Xícara, Copa é Taça, Vaso é Copo, Lentilla é Lente de contacto, Lentilha é Lenteja, Bolso da calça é Bolsillo, Bolsa de braço é Bolso e Bolsa é saco plástico de mercado.

Também é importante saber que: Cajones é Gaveta, mas Cojones não é algo legal. Pollo é frango, mas polla não é a mulher do galo. Carrera é Corrida, mas Corrida é… bem, deixa pra lá.

E se tudo isso parece esquisito, saiba que, na Espanha, Exquisito é Gostoso, Gostoso é Rico e gente adinheirada é Rica também.

(*) Com base nas informações de Andrea Martínez.

Fatal: emprego

Dad Squarisi (*)

Fatal quer dizer que mata. O acidente mata. É fatal. Veneno mata. É fatal. Queda pode matar. Pode ser fatal.

Muitos dizem “vítima fatal”. Bobeiam. A vítima, coitada, morre. Não mata. Se a pessoa perdeu a vida, diga que ela morreu:

O acidente provocou duas mortes.
No acidente, duas pessoas morreram.
O acidente matou duas pessoas.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Como é que é? ‒ 7

José Horta Manzano

Chamada de O Globo, 14 out° 2018

Por mais irresistíveis que sejam os pratos, é bom tomar cuidado com a correção. Certos erros podem dar dor de barriga.

Resistir não pede objeto direto, mas indireto com preposição. Quem resiste, resiste a alguma coisa. Esse a tem de reaparecer sempre que o verbo resistir for utilizado.

A manchete teria ficado bem mais digesta se estivesse escrito: “pratos infantis aos quais os adultos não resistem”.

Fake news ‒ 3

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, mentira era chamada de mentira, boato era chamado de boato, mexerico era chamado de mexerico. Mas isso foi nos tempos de antigamente. Hoje mudou. Na medida que são propagados pelas redes sociais, mentira, boato e mexerico têm nome novo, nome que engloba todas as modalidades de engodo: fake news.

Coisa curiosa, não? É proverbial nossa passividade diante de expressões importadas. Soam tããão chiques! Que fazer? Fake news vem fazer companhia a sale, off & alia.

Restaurante cinco estrelas sob direção da família Boato
À beira do Lago Maior, Brissago, Suíça

Na França, a Académie Française cuida da língua. Não chega a editar normas restritivas que engessam a fala e a escrita dos usuários, como faz nossa Academia. Limita-se a aconselhar usos preferenciais e a propor neologismos para traduzir expressões estrangeiras.

Estes dias, a Académie Française sugeriu que fake news seja substituída por expressão nacional. Propôs dois caminhos. O primeiro é falar em information fallacieuse ‒ informação falaciosa, expressão que me parece longa demais pra se tornar popular. O segundo caminho é traduzir pelo neologismo infox, uma colisão entre information e intoxication.

Achei a ideia de infox bem bolada. Na França, tem forte chance de pegar. No Brasil, não adianta nem propor. Não tenho nenhuma esperança de que o brasileiro abra mão de seu fake news, expressão com sabor de Primeiro Mundo.

Como é que é? ‒ 6

José Horta Manzano

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Convém ser prudente ao dar notícia ligada a crime. Todo cuidado é pouco. Quem usar mal as palavras periga ser processado por acusar inocente. Daí o uso sistemático de perífrases compostas com “suposto”, “hipotético”, “presumido”.

No caso relatado pelo Estadão e reproduzido acima, contudo, a expressão “suposta prática” é francamente exagerada. Se o indivíduo já passou pelo tribunal, foi julgado e condenado a 11 anos de cadeia, onde está a suposição? Seus crimes já foram reconhecidos. É certeza jurídica! O “suposta” sobra.

Dupla carreira política

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é todo dia que a gente vê homem político fazendo carreira em dois países, evento pra anotar em livro de história. É o que está pra acontecer com Monsieur Manuel Valls, o poliglota que está inscrevendo peculiar percurso político.

O pai dele, espanhol de Barcelona, emigrou para a França quando moço. Lá conheceu a moça com quem viria a se casar, uma suíça italiana. Trocadas as alianças, continuaram vivendo na França. Quando estava pra chegar o primeiro filho, o pai fez questão de que a criança, como ele, viesse ao mundo em Barcelona. Dito e feito, foram de férias à Espanha e lá nasceu o menino Manuel.

Manuel Valls, antigo primeiro-ministro da França

Logo de cara, o moço já tinha duas nacionalidades: a espanhola por parte de pai, e a suíça por parte de mãe. Cresceu na França, país do qual requereu a cidadania assim que completou 20 anos. Esse colecionador de nacionalidades teve ainda a chance de aprender quatro línguas na infância, idiomas que consegue manejar à perfeição: o espanhol, o catalão, o italiano e o francês. Bagagem e tanto!

Jovem ainda, filiou-se ao Partido Socialista Francês e ingressou na política. Foi prefeito, deputado e até primeiro-ministro do país de adoção. Chegou a ser pré-candidato à presidência da república, mas não conseguiu vencer as primárias. Com a débâcle de seu partido estes últimos anos, o homem ficou à deriva, com um mandato de deputado mas sem perspectiva de ocupar postos importantes. É muito pouco pra político ambicioso.

Que não seja por isso. Já faz uns seis meses que ele está em campanha para a prefeitura de Barcelona, sua cidade natal. Na França, poucos acreditavam que desse o passo. Mas parece que Monsieur Valls ‒ agora Señor Valls ‒ está mesmo decidido. Se conseguir, será um dos raros espécimes políticos a ter feito carreira em dois países.

Para a Catalunha em geral e para Barcelona em particular, seria muito bom se o antigo primeiro-ministro francês vencesse a corrida para a prefeitura. Numa província em que o ódio corrói as relações entre independentistas e unionistas, é bem-vinda a presença de um prefeito aberto ao mundo e desprovido de visão sectária.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse parâmetro. Possivelmente existam outras, mas só conheço as línguas latinas e o polonês.

Temos portanto por instinto tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é o substantivo center, não o adjetivo shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para encurtar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo. Pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos!

Candidatos: origem do sobrenome

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Antiguidade, não havia necessidade de sobrenome. Como vilarejos eram pequenos, o prenome bastava pra identificar cada membro da comunidade. Com o crescimento da população, na Idade Média, foi preciso acrescentar um especificador ao nome de batismo. A mudança foi gradativa e se fez sem método predeterminado. Os sobrenomes se classificam em cinco categorias principais.

1a) Patronímico
O prenome do patriarca serviu de sobrenome para a descendência. Alguns casos são bastante evidentes, como os ibéricos Péres/Perez (filhos de Pero), Álvares/Álvarez (filhos de Álvaro), Esteves/Estevez (filhos de Estêvão), Nunes (filhos de Nuno). Em território germânico, estão os Johnson/Jansen (filhos de John/Jan). Outros patronímicos saltam menos aos olhos.

2a) Toponímico
O nome de família tem relação com o lugar de origem do patriarca. Exemplos: Aguiar (lugar alto onde havia ninhos de águia), da Costa, do Monte, Napolitano, de Toledo, Ribeiro (da beira do rio), Castelo Branco (nome da cidade).

3a) Profissão ou ocupação
O ofício do patriarca acabou dando sobrenome à descendência. A profissão de ferreiro por exemplo, deu: Ferreira, Herrera, Fabbri, Lefèvre, Smith, Schmid, Kovac. Temos ainda: Pastor, Farina, Molino, Trigueiro. Poucos sobrenomes portugueses entram nesta categoria.

4a) Alcunha
Esta tendência é interessante e muito difundida. Famílias ficaram conhecidas por alguma característica física do patriarca ou pela alcunha dele. Calvo, Preto, Manso, Gago, Valente, Bravo.

5a) Nome religioso
Muitas famílias têm sobrenome relacionado com a religião. Exemplos: de Jesus, Assunção, São Marcos, dos Santos, Batista.

Analisei o sobrenome dos principais candidatos à Presidência. A origem de cada um deles está aqui abaixo.

Henrique Meirelles
Meirelles é toponímico. Deriva do município de Meira, na província de Lugo, Galiza, Espanha.

Álvaro Dias
Dias tem origem patronímica. Equivale ao Diez espanhol. Deriva do nome próprio Diago, variante de Diego, Tiago e Iago. Na Idade Média, quando foram adotados sobrenomes, o patriarca devia chamar-se Diago.

João Amoedo
Amoedo é toponímico de origem galega. É o nome de um distrito do município de Pazos de Borbén, na província de Pontevedra, Galiza, Espanha.

Jair Bolsonaro
Bolsonaro é topônimo. É transcrição errônea do original Bolzonaro. O patriarca deve ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza, Vêneto, Itália.

Guilherme Boulos
Boulos é patronímico. É a versão árabe de nosso nome próprio Paulo. A transcrição Boulos vale para a fonética francesa. Para ser pronunciado corretamente por nós, deveria ser grafado Bulos. Esse nome sugere que a família tem origem cristã.

Fernando Haddad
Haddad é nome de profissão. Em árabe, designa o ferreiro, uma das raras profissões da Idade Média, época em que o homem era faz-tudo, sem especialização. Este candidato é descendente longínquo de um artesão da forja.

Ciro Gomes
Gomes é sobrenome patronímico comum ao espanhol e ao português (Gómez/Gomes). A origem é o nome próprio Gome, difundido na Idade Média, hoje desaparecido. Gome pertence à mesma raiz do latim homo (=homem).

Marina Silva
Silva é o sobrenome mais difundido nos países de fala portuguesa. É considerado toponímico, derivado do latim silva (=selva, mato, bosque, floresta). No Brasil, sua difusão foi amplificada pelo fato de muitos ex-escravos o terem adotado como nome de família.

Geraldo Alckmin
Alckmin não tem origem clara. É forte a probabilidade que derive do árabe al-kimyia, que significa química e também alquimia. Se assim for, trata-se de nome ligado ao ofício do patriarca.

Que ventania!

José Horta Manzano

Você sabia?

Nossa língua ‒ como as demais ‒ dispõe de uma coleção de termos para designar fenômenos atmosféricos. Só pra dar nome à água que cai do céu, temos: chuva, tempestade, temporal, aguaceiro, borrasca, pé d’água, pancada, tormenta, chuvisco, garoa, chuvarada, intempérie. Há ainda outros termos menos conhecidos.

Estes dias, duas violentas tempestades estão deixando extensas regiões do globo de cabelo em pé. Uma delas atingiu a costa leste dos EUA enquanto a outra castigou as Filipinas. Talvez o distinto leitor tenha reparado que, quando se refere ao fenômeno que varreu a Carolina do Norte, a imprensa usa a palavra furacão, ao passo que chama a tormenta das Filipinas de tufão. Por que essa diferença? Os dois são fenômenos de mesma natureza, o que muda é apenas o nome.

Para vendavais que atingem o Caribe e a costa atlântica da América do Norte, dizemos furacão, palavra que nos chegou do taíno, uma língua indígena das Antilhas, através do espanhol huracán.

Para vendavais que remoinham nas costas chinesas e nos arredores, dizemos tufão, termo de origem controversa. Alguns etimologistas atribuem ao árabe e outros a uma voz chinesa. Há ainda quem aposte numa origem grega.

Além de furacão e tufão, outra palavra indica o mesmo fenômeno. Trata-se de ciclone, termo usado para descrever furacões que nascem nas Antilhas, atravessam o Oceano Atlântico e vêm morrer, já quase sem força, nas costas europeias.

Acentuação gráfica

Dad Squarisi (*)

Por que todas as proparoxítonas são acentuadas?

Quando o português usava fraldas, era pra lá de difícil acertar a sílaba tônica dos vocábulos. Rubrica ou rúbrica? Nobel ou Nóbel? Que rolo! As palavras, então, se reuniram em conselho. Discute daqui, briga dali, firmaram este acordo:

Artigo 1°
As terminadas em a, e e o, seguidas ou não de s, são paroxítonas.

Artigo 2°
As terminadas em i e u, seguidas ou não de qualquer consoante, são oxítonas.

Artigo 3°
Quem se opuser ao acordo será punido com acento gráfico.

Conclusão: só se acentuam as palavras rebeldes.

As primeiras a reclamar foram as proparoxítonas. Se aderissem, desapareceriam da língua. É que não sobrou nenhuma vogal para elas. Por isso, todas são acentuadas: rítmico, álibi, satélite.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Inadequação vocabular ‒ 8

José Horta Manzano

E a febre do defender continua. Eta modismo persistente! Já me insurgi, em artigo de três anos atrás, contra o uso abusivo desse verbo. Mas não tem jeito. Defender virou ônibus: sempre cabe mais um.

O uso insistente de um único verbo para expressar situações diferentes é, no fundo, sintoma de pobreza vocabular. O natural de uma língua é enriquecer com o passar do tempo. Novos vocábulos vão-se juntando aos existentes até formar um léxico gigantesco. Estranhamente, a língua brasileira, em lugar de se tornar mais rica, empobrece. Para cada novo vocábulo que entra no circuito, uma dúzia dos antigos sai da boca do povo pra recolher-se na poeira dos dicionários. É pena.

Chamada Estadão 27 ago 2018

Volto a sugerir ao distinto leitor que, caso esteja pra cair na tentação de usar defender no sentido de preconizar, pense em substitui-lo por outro mais sugestivo.

Na chamada do Estadão, ficaria mais elegante dizer, por exemplo, que «Dallagnol propõe não votar em envolvidos…». Essa é apenas uma possibilidade. Há dezenas. Uma lista (não exaustiva) de verbos que podem ‒ nesse caso e com vantagem ‒ substituir defender está aqui:

Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

Cada um deles carrega nuance diferente. Na hora de usar, basta escolher o que melhor convier.

Ah! É bom ter sempre em mente o que doutor Dallagnol “defende”. Votar em corrupto? Só faltava.

Bit

Ricardo Soca (*)

É palavra espanhola? Não exatamente, mas algumas de suas acepções atuais remontam ao século 15, mais precisamente ao reinado de Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

É verdade que bit é palavra inglesa que se infiltrou em quase todas as línguas ‒ espanhol incluído ‒, na esteira do avanço tecnológico das últimas décadas do século 20, quando grande parte da humanidade passou a ter acesso à informática.

Os franceses, entrincheirados com louvável bravura na defesa do próprio idioma, forjaram octet ‒ octeto para denominar cada um dos conjuntos de oito elementos, uns e zeros, utilizados na codificação binária dos computadores. Em inglês, esse conjunto de oito elementos se chama byte, e cada uma de suas partes é um bit.

No entanto, o que poucos sabem é que o uso da palavra bit para designar cada elemento de um conjunto de oito provém de antiga moeda espanhola de prata, o real, criado em 1497 pelos Reis Católicos, quando uma reforma monetária se fez necessária para a Espanha recém-unificada.

O peso se dividia em oito reais (real de oito). Os povos de língua inglesa, mesmo rechaçando essa prática, mantiveram o costume de dividir a moeda em oito partes. Sua moeda principal, primeiro a libra e hoje o dólar, frequentemente era chamada eight bits ‒ oito pedaços, ou também piece of eight ‒ moeda de oito.

Até hoje, em zonas rurais e pequenas cidades dos EUA, a moeda de 25 centavos (quarter) se chama two-bits ‒ dois pedaços de oito, relíquia do velho dólar inspirado no real de oito. A explicação de que o uso da palavra bit en informática provém de binary digit foi engendrada, portanto, vários séculos depois que bit designasse pela primeira vez cada unidade de um conjunto de oito.

(*) Ricardo Soca, uruguaio, é linguista e jornalista. Edita um blogue sobre a língua castelhana. A tradução do texto acima, descompromissada, é deste blogueiro.

A vírgula na guerra dos sexos

Dad Squarisi (*)

Desde que nasceu, a vírgula provoca discussões. Alguns dizem que empregá-la é questão de gosto. A gente põe o sinalzinho onde tem vontade. Outros afirmam que basta ler a frase. Parou pra respirar? Pronto. Taca-lhe a marca da pausa. Aí surge um problema. Como os gagos e os asmáticos se virarão?

Há, também, os exagerados. Esbanjadores, usam todas as vírgulas a que têm direito — as obrigatórias e as facultativas. Não deixam passar uma. Resultado: acabam com o estoque. Mas a controvérsia não fica por aí. Como quem fica parado é poste, a danadinha meteu a colher em temas da modernidade. Entrou na guerra dos sexos. Por causa dela, homens e mulheres se digladiam. O xis da questão: onde pôr a mocinha nesta frase?

*Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.

Elas acharam a resposta rapidinho:
*Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro à sua procura.

Eles não ficaram atrás. Espertos, mudaram o lugar do sinal. E, claro, puxaram a brasa pra própria sardinha:
*Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro à sua procura.

Resumo da ópera: a língua é um sistema de possibilidades. Quando mais as conhecemos, mais livres ficamos. E, claro, mais poderosos. Na guerra dos sexos, homens e mulheres usaram a vírgula a favor da própria causa. Eles empataram. Nós ganhamos.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Colégio bombardeado

José Horta Manzano

“Continuo convencida de que o que foi decidido não era o melhor para o Brasil“
Declaração que doutora Cármen Lúcia fez após ser voto vencido em sessão plenária do STF.

“A justiça haverá de triunfar!“
Declaração que doutor Ricardo Lewandowski dirigiu a manifestantes pró-Lula.

Pergunta:
O que há de comum entre essas duas declarações aparentemente desparelhadas?

Resposta:
A quebra da colegialidade, distinto leitor, o pecado mortal que desmoraliza nosso STF.

Para espanto e desalento do cidadão de bem, as excelências que compõem nosso tribunal maior se esmeram em destricotar o princípio básico da respeitável instituição que integram. Não conseguem compenetrar-se de que tribunal não é parlamento.

Parlamento ‒ o nome está indicando ‒ vem de parlare (=falar). É o lugar onde se fala, onde se discute, onde se debate. Discussão, argumentação, controvérsia, polêmica, querela são ‘o pão nosso de cada dia’ do parlamento. Naquela casa, cada um vota segundo a própria convicção. Os debates são franqueados ao público, e o resultado traz o nome e o voto de cada parlamentar. É assim que deve funcionar e é assim que funciona.

STF é outra coisa. É um tribunal colegiado. Colégio vem do latim collegium, de colligere (=colher junto). Nas decisões de um tribunal colegiado, não cabe especificar quem votou como. Como num júri, os debates se devem fazer a portas fechadas. Somente o resultado será publicado, sem menção do nome nem do voto de cada ministro. No meu entender, as sessões espetaculares de nosso STF, em que cada ministro dá seu voto, são uma aberração ‒ um constrangimento para o juiz e para o público.

Debates podem ser feitos às claras, mas o voto de cada ministro deveria ser pronunciado a portas fechadas. A apresentação do resultado será, de novo, um ato público. O resultado será apresentado como voto do colégio, despido de toda personalização.

Não tem cabimento impingir ao país esse reality show deprimente, em que participantes evoluem como num teatro, exprimindo-se num linguajar incompreensível e gesticulando numa forçada teatralidade visivelmente dirigida às câmeras.

Toda essa encenação é desnecessária. Os “debates” soam artificiais, mormente quando se sabe que cada juiz já traz o voto pronto. Ora, se o voto está pronto e escrito em longas laudas, pra que debater?

Apesar do funcionamento trôpego, decisão colegiada é decisão colegiada. Nenhum ministro deveria fugir ao colégio como quem dissesse: “Olha, gente, não fui eu, hein! Eu não estou de acordo, mas fui vencido.” Está aí o erro primário que assinalei no topo deste artigo.

Essa atitude é feia, deselegante e, sobretudo, inútil. Mostra apenas que o ministro que faz isso se desassocia do colégio. Trouxe hoje dois exemplos, mas todos os ministros costumam agir assim.

O bom senso preconiza que aquele que se dessolidariza do grupo ao qual pertence não merece nele permanecer. Parti, gentis damas! Parti, nobres cavalheiros!

Portunhol ‒ 1

Cuarenticuatro

Fabián Severo (*)

El Negro deu de Navidá
la sía de Judas pra mi madre.

Los visiño dinfrente fiserum um Judas
i botarum ele sentado na sía.
De noite puserum bomba i prenderum fogo.

Au otro día, bien sediño
el Negro foi i trose la sía pras casa.
Limpó toda, lijó i deu uma boa mano de pintura
dispós clavó uma almuada veia
i la sía ficó noviña.

Mi madre istava felis
agora tiña sía pra fasé as costura.
Ela nunca avía tido Navidá.

Quarenta e quatro

Fabián Severo (*)

O Negro deu de Natal
a cadeira de Judas pra minha mãe.

Os vizinhos de frente tinham feito um Judas
e o puseram sentado na cadeira.
De noite, puseram bomba e atearam fogo.

Dia seguinte, bem cedinho,
o Negro trouxe a cadeira pra casa.
Limpou toda, lixou, deu uma boa demão de pintura,
depois pregou uma almofada velha
e a cadeira ficou novinha.

Minha mãe estava feliz
agora tinha cadeira pra costurar.
Ela nunca tinha tido Natal.

(*) Fabián Severo (1981-) é escritor e poeta uruguaio, nascido em Artigas, cidade encostada no Rio Grande do Sul, às margens do Quaraí. Grande parte da obra deste autor está escrita em portunhol, o concentrado de falares ibéricos em que se exprimem os viventes da fronteira. É uma língua que, ainda que soe estrangeira, toca a sensibilidade do leitor. A tradução, descompromissada, é deste blogueiro.

Indolência & malandragem

José Horta Manzano

Doutor Mourão, candidato a vice-presidente do país na chapa de doutor Bolsonaro, fez uma declaração que anda fazendo fuá. O militar reformado afirmou, com todas as letras, que o brasileiro herdou “a indolência dos índios e a malandragem dos africanos”.

Além de ousada, a alegação é trapalhona. Ofende, sem necessidade, parcela da população no seio da qual poderia até existir algum futuro eleitor da chapa. Eleitor este que, depois de ouvir isso, vai desistir definitivamente de dar seu voto à dupla.

Pra lá de considerações de erro estratégico, quero fazer uma observação semântica. Quando expôs a indolência e a malandragem como atributos distintos, o doutour general não se deu conta ‒ talvez por desconhecer ‒ que as duas palavras têm praticamente o mesmo significado.

Dê-se de barato que o significado do termo malandro se tem expandido nos últimos 50 anos. Até os anos 1940(*), no entanto, malandro somente designava aquele que não trabalha, o vadio, o preguiçoso, aquele que se orgulha em não ter de prestar conta a patrão. Caía como luva pra descrever o personagem clichê do morro carioca da época.

Indolente, pela etimologia, indica aquele que não sente dor no corpo. Mas já faz séculos que o sentido evoluiu para preguiçoso, aquele que não tem vontade de fazer nada, aquele que não trabalha.

Como pode o distinto leitor constatar, além de destemperado nas declarações, o candidato a ‘vice’ é trapalhão no uso das palavras. De outra vez, vale a pena ensaiar em casa antes de fazer discurso. E, na dúvida, se informar.

(*) Em 1928, Francisco Alves, o rei da voz, gravou uma canção de Freire Júnior intitulada Malandrinha. Na letra, o cantor se dirige à bem-amada e lhe diz, com toda a ternura: «És malandrinha, não precisas trabalhar». Como não pega bem tratar a namorada de espertalhona, provado está que, na origem, a palavra designa simplesmente aquele que não trabalha.

Monoglotismo

José Horta Manzano

Ah, a falta que faz o aprendizado de línguas na escola! Os jovens podem até achar que é exagero, mas eu garanto que era assim: antigamente ‒ e não falo do tempo dos sumérios ‒ o currículo do ensino médio incluía Inglês, Francês, Latim e Grego. Sim, senhores. Os brasileiros perderam muito com o empobrecimento do ensino de línguas.

Doutor Bolsonaro é mais uma vítima da estranha política que empurra os brasileiros para o monoglotismo. Quando lhe apresentaram um artigo de jornal, escrito em francês, que falava dele, só conseguiu decifrar o título, porque era evidente. Dizia lá: «Machiste, homophobe et raciste, le ‘Trump brésilien’ cartonne» ‒ Machista, homofóbico e racista, o ‘Trump brasileiro’ faz grande sucesso.

Tribune de Genève – Genebra, Suíça

O homem reagiu com um tuíte enfurecido. Só que se enganou de alvo. Pouco familiarizado com a língua de Molière, trocou as bolas. Acreditando que o nome da editoria «Monde» (Mundo) fosse o nome do jornal, mandou bala. Ao se queixar ao jornal errado, escorregou na maionese. O artigo não tinha sido publicado no ‘Le Monde’, mas na Tribune de Genève, jornal suíço.

Gafe dupla. Por um lado, apresentou reclamação na paróquia errada. Por outro, tivesse lido o artigo, teria visto que, apesar do título severo, o texto é isento. O autor se atém aos fatos e dá nome aos bois, evitando considerações subjetivas. Menciona o caso Maria do Rosário, quando o doutor disse que “não a estupraria porque ela não merecia”. Lembra também que o deputado assegurou que seus filhos nunca sairiam com mulheres negras “porque foram bem educados”. Fala ainda da especial simpatia que o doutor tem por militares e por intervenções policiais musculosas. Enfim, nada que se desvie da realidade. O artigo pinta um retrato autêntico do personagem.

Se eleito, doutor Bolsonaro bem que podia mandar vitaminar o aprendizado de línguas na escola média. Para ele, é tarde demais, mas será de grande utilidade para as gerações futuras. Numa civilização globalizada como a atual, quem não conhece língua, dança.

Erros que roubam pontos

Dad Squarisi (*)

A lista não tem fim. São tropeços que atropelam redações, entrevistas e diálogos amorosos. É o caso da poetisa que ganhou importante prêmio literário. Os amigos decidiram homenageá-la com um jantar de adesão no restaurante que a artista mais apreciava. Quando ela soube, contou ao namorado. “Eu adero”, respondeu ele entusiasmado. Pra quê? Jogou água fria na paixão. O amor acabou ali.

Ele se esqueceu de pormenor pra lá de importante. Aderir joga no time de preferir. Um e outro se conjugam do mesmo jeitinho: eu prefiro (adiro), ele prefere (adere), nós preferimos (aderimos), eles preferem (aderem). Outras falhas desempenham papel similar. Eis algumas. Xô! Xô! Xô!

Ladrões de pontos

houveram – no sentido de existir ou ocorrer, o verbo é impessoal. Só se conjuga na 3ª pessoa do singular: Houve distúrbios. Houve três acidentes.

intermedia – intermediar se conjuga como odiar: odeio (intermedeio), odeia (intermedeia), odiamos (intermediamos), odeiam (intermdeiam).

interviu – intervir deriva de vir: ele veio, ele interveio.

irá dizer – a indicação do porvir pode ser feita de duas formas. Uma: o futuro simples (dirá). A outra: o futuro composto (vai dizer). Assim — com o verbo ir no presente. Nunca no futuro.

manter o mesmo – manter só pode ser o mesmo. Se não é o mesmo, escolha outro verbo. Que tal trocar? Ou mudar?

medio – mediar se conjuga como odiar: odeio (medeio), odeia (medeia), odiamos (mediamos), odeiam (medeiam).

meio-dia e meio – a concordância nota 10 é meio-dia e meia (hora).

Nóbel – Nobel é oxítona como Mabel, papel, cruel.

obrigado – ele diz obrigado; ela, obrigada; eles, obrigados; elas, obrigadas. Todos respondem por nada.

o óculos – óculos, como férias e pêsames, é substantivo plural: os óculos, óculos escuros, meus óculos.

panorama geral – todo panorama é geral. Basta panorama.

passeiamos — não presenteie formas dos verbos terminados em -ear com o i: passear, frear, cear & cia. têm um capricho. O nós e o vós dos presentes do indicativo e subjuntivo dispensam o izinho que aparece nas demais pessoas. Dê-lhes crédito: eu passeio, (freio, ceio) ele passeia (freia, ceia), nós passeamos (freamos,ceamos), vós passeais (freais, ceais) eles passeiam (freiam, ceiam).

pequeno detalhe – todo detalhe é pequeno. Basta detalhe.

plano para o futuro – todo plano é para o futuro. Basta plano.

pôrcos – nomes em que o o soa fechado no masculino e aberto no feminino o plural opta pelo salto alto e batom. Segue o feminino: porco, porca, porcos, porcas; porto, porta, portos, portas, torto, torta, tortos, tortas. Exceções? Elas confirmam a regra. É o caso de canhoto e canhota. No masculino, o som é fechado. No feminino, aberto. O masculino plural não segue o feminino. É canhotos, com o o fechado.

possue – não confunda a terminação dos verbos terminados em -uir: a 3ª pessoa do singular do presente do indicativo termina com i — ele possui, ele contribui, ele retribui, ele diminui, ele atribui (não: possue, contribue & cia. indesejada).

pobrema — não troque sons: problema (não: probrema), estupro (não: estrupo), mendigo (não: mendingo), encapuzado (não: encapuçado).

récorde – recorde se pronuncia como concorde. A sílaba tônica é cor.

rúbrica – rubrica é paroxítona como futrica. A sílaba fortona: bri.

rúim – a palavra é dissílaba – ru-im. A sílaba tônica: im.

se eu caber, se eu deter, se eu pôr, se eu trazer, se eu ver – olho no futuro do subjuntivo: se eu couber, detiver, puser, trouxer, vir.

seje – a forma é seja.

subzídio – pronuncie o s como em subsolo.

vítima fatal – fatal significa que mata. A vítima não mata. Morre. Diga morto.

vou estar mandando & similares – vou mandar.

Ufa!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Falou e disse

José Horta Manzano

No discurso oral, o verbo dizer é sistematicamente substituído pelo colega falar. Passa batido e ninguém faz caso. Já na língua escrita, a coisa muda de figura. Mais exigente, a norma culta distingue perfeitamente entre dizer e falar.

Alguém pode:

falar uma língua
falar rápido
falar com alguém
falar ao telefone
falar difícil
falar de alguém
falar de algo
falar pelos cotovelos
falar linguagem elevada
falar por sinais

Reparem que, em nenhum dos exemplos que citei, está explicitado o que foi dito. Quando se quer contar o que foi dito, o verbo falar cai fora. É hora de usar o colega dizer.

Assim, alguém pode:

dizer uma poesia
dizer a verdade
dizer adeus
dizer patacoada
dizer a razão do acontecido

Chamada Estadão, 12 jul° 2018

Uma regra de ouro: todas as vezes que o verbo for seguido de que, fuja do falar e use dizer. Falar não será nunca seguido de que.

Ele disse que viria.
Eu diria que deve medir uns dois metros.
Eles disseram que estava chovendo.
Ela disse que delação premiada funciona.
Ele disse que nunca 
mente.

E naturalmente: «Collor volta a dizer que é candidato ao Planalto».(*)

Que Deus nos livre e guarde!

(*) Este blogueiro, embora já um tanto desesperançado, continua acreditando que presidente destituído devia ser proibido de se candidatar pelo resto da vida. Se já mostrou não estar à altura da função, não faz sentido tentar de novo. Cargo eletivo não é banco de provas e eleitor não é cobaia. Visto que essa gente fina não tem vergonha na cara, que sejam banidos da vida pública pela mão pesada da lei.