Meu pé de laranja-lima

José Horta Manzano

Nossa língua tem maneira bem prática de dar nome a árvores frutíferas. Partindo do nome do fruto, acrescenta-se a desinência -eiro ou -eira à raiz da palavra. Não funciona em todos os casos, mas dá pro gasto.

Pra compensar, o sistema serve até para alguns arbustos e até para árvores que não dão frutos comestíveis. Assim, temos: manga/mangueira, abacate/abacateiro, goiaba/goiabeira, laranja/laranjeira, tomate/tomateiro. Mas também: paineira, caneleira, magnoleira, palmeira.

clique para ampliar

Sabe-se lá por que razão, uma correlação tão simples é cada vez mais ignorada. Em vez de cafeeiro, muitos usam «pé de café». No lugar de abacateiro, «pé de abacate». E ainda «pé de laranja», «pé de pitanga» e por aí vai. Será a lei do mínimo esforço em ação? É uma pena. Acho um empobrecimento.

Ontem, na legenda de uma bela foto, o Estadão explicou que se tratava de uma «fábrica de tijolos». Este blogueiro é do tempo em que esse tipo rudimentar de indústria se chamava olaria. A palavra deve ter-se tornado arcaica. E eu junto.

Uma curiosidade
No caso de fruta, o nome da árvore será sempre do mesmo gênero que o nome da fruta. Assim: pêssego/pessegueiro, ameixa/ameixeira, mamão/mamoeiro, pera/pereira. Há uma única exceção: figo/figueira.

Fiquei devastado

José Horta Manzano

Traduzir não é tarefa simples. Frases de aparência inofensiva escondem armadilhas. Uma delas é a contaminação. Basta um instante de desatenção e… catapum! O escriba dá uma escorregadela e troca os pés pelas mãos.

A contaminação se dá quando o termo a traduzir encontra na língua de destino um par que, embora muito semelhante, não dá exatamente o mesmo recado. A tentação é grande de optar pela simplicidade, utilizar a palavra parecida e seguir caminho. Mas nem sempre é a melhor opção. Parecido não é igual.

Quando se sente extremamente chocado com um acontecido, o inglês costuma dizer «I am devastated». Dia sim, outro também, encontramos na mídia nacional a tradução literal: «Fiquei devastado». Errado, propriamente, não está, mas soa esquisito e artificial como filme mal dublado.

Devastar(*) é formado pelo verbo vastar precedido pela partícula de reforço «de». Na origem, significa esvaziar um lugar e transformá-lo em deserto inabitado. Quem preferir traduzir «devastated» por «devastado» que o faça. Proibido não é, mas, convenhamos, um pouco de aplicação não faz mal a ninguém.

Segue aqui abaixo uma lista (não exaustiva) de substitutos. Cada um carrega uma nuance específica, mas giram todos em torno do mesmo tema. Da próxima vez, em lugar do bizarro «Fiquei devastado», experimente:

●  Fiquei arrasado
●  Fiquei abalado
●  Fiquei afetado
●  Fiquei impressionado
●  Fiquei assustado
●  Fiquei perturbado
●  Fiquei abatido
●  Fiquei estremecido
●  Fiquei horrorizado
●  Fiquei aflito
●  Fiquei sensibilizado
●  Fiquei atristado
●  Fiquei entristecido
●  Fiquei compungido
●  Fiquei chocado
●  Fiquei alarmado
●  Fiquei comovido
●  Fiquei aniquilado
●  Fiquei desolado
●  Fiquei aterrado
●  Fiquei destroçado

Não será por falta de opção, não é? Ninguém mais precisa se sentir “devastado”.

(*) Vasto é termo de origem germânica. É parente do inglês waste, do francês gâter, do alemão wüst (deserto), do português gasto.

Gerúndio criminalizado

Criminalizar gerúndio por causa do gerundismo é uma bobagem atroz

Sérgio Rodrigues (*)

Outro dia recebi de um conhecido uma mensagem que primeiro me fez sorrir, mas logo me deixou triste. O sujeito dizia que, refletindo sobre um conjunto de dados, tinha chegado a determinada conclusão.

Dados e conclusão não vêm ao caso. O que merece atenção aqui é a cunha que o meu conhecido achou importante meter no texto, entre parênteses: “Analisando (desculpe o gerundismo!) as informações disponíveis, concluo que…”.

Pensando por alguns segundos, concluí que precisava pensar por mais alguns segundos. Foi aí que a graça inicial daquilo (como assim, chamar um gerúndio perfeitamente funcional de “gerundismo”, com exclamação e tudo?) deu lugar a uma certa tristeza.

O cara não está entendendo bem o que se passa, e tem numerosa companhia. Muita gente no Brasil ouviu cantar o galo gerundista do telemarketing e concluiu que toda forma verbal terminada em “-ndo” é um ruído, um arroto, uma gafe.

Trata-se de uma bobagem atroz. O gerúndio é bacana. Versátil, vem sendo usado desde o nascimento da língua portuguesa para expressar ideias de continuidade ou frequência e criar outras modulações de tempo, modo e causa.

Embora também possam ser encontradas assumindo outras formas no vasto mundo da língua, essas ideias muitas vezes têm no gerúndio sua expressão mais elegante e concisa.

“Senhor, esteja aguardando na linha que vamos estar informando quando o senhor vai estar recebendo o produto” é uma frase ridícula, óbvio. No entanto, partir daí para condenar todos os gerúndios equivale a responsabilizar a bola pelo 7 a 1.

O que se chama de gerundismo é o vício canhestro de tratar como frequentativas –isto é, habituais, que se repetem– todas as ações do mundo. Mesmo a construção que esse modismo terminou avacalhando tem o seu lugar: “Nos próximos meses não vou viajar, estarei estudando para o Enem”.

Sendo o Brasil um país pouco letrado, com índices de leitura capazes de precipitar monges taoístas em abismos de angústia e revolta, não surpreende que tantas vezes o pessoal acabe se confundindo com a fronteira entre o abuso e o uso razoável de determinado recurso.

Quando sabemos que sabemos pouco, é natural que nossa insegurança transforme a liberdade de escolha, valor fundamental da ética e da estética, em campo minado. Daí o velho apego brasileiro à hipercorreção e a regras autoritárias em letras garrafais: isso está CERTO, aquilo está ERRADO, fim de papo.

Juntando-se a esse quadro um dos mais clássicos mal-entendidos da lusofonia, a trama se adensa. “Ah, os portugueses não usam o gerúndio” é uma ideia falsa. Essa forma nominal do verbo tem emprego firme em certas regiões de Portugal.

Ainda que fosse verdadeira, supor que a “brasilidade” rebaixaria de alguma forma o gerúndio é pura vira-latice. “A dizer” não tem nada de intrinsecamente superior a “dizendo”. Na verdade, poderia até ser visto como um uso bárbaro por um conservador radical que tomasse o português camoniano como padrão-ouro do idioma.

Com seus “reis que foram dilatando a fé, o Império, e as terras viciosas de África e de Ásia andaram devastando”, tirem o gerúndio de Camões e verão Os Lusíadas se desfazendo em milhares de caquinhos.

(*) Sérgio Rodrigues é escritor e jornalista. O artigo reproduzido foi publicado originalmente na Folha de São Paulo.

Codinome

José Horta Manzano

Estante e prateleira são sinônimos? Sim e não. A linguagem popular não faz muita diferença, usa um pelo outro. Mas o fundo das coisas é o seguinte: estante é um móvel composto de certo número de prateleiras. Portanto, stricto sensu, não são sinônimos exatos.

Estada e estadia são sinônimos? À primeira vista, sim. Acontece que cada um desses dois termos se especializou. Quando recebemos uma visita, dizemos que ela veio para uma estada de três dias. Se deixamos o automóvel num estacionamento, pagaremos um montante correspondente à duração da estadia do veículo. Navios também fazem estadia no porto. Convém, portanto, usar estada para gente e estadia para veículos.

Às vezes se ouve que um personagem qualquer do mundo das artes se apresenta sob o codinome tal. Nome, codinome, apelido, alcunha, cognome, denominação, epíteto são termos semelhantes, mas estão longe de ser sinônimos perfeitos. Cada um deles tem valor e peso próprios. Para não trocar os pés pelas mãos, convém respeitar essas particularidades.

Nome, apelido, denominação e epíteto são neutras, não trazem embutida nenhuma ofensa. O apelido de Roberto é Beto. Chamar Antônio Carlos Jobim de Tom não incomoda ninguém. Já o mesmo não se dá com os outros aparentes sinônimos.

Alcunha(*) e cognome são termos com forte carga depreciativa, que caem bem na linguagem policial. Tirofijo era a alcunha de um dirigente terrorista colombiano, desaparecido alguns anos atrás. Beira-mar é o cognome de conhecido traficante.

Por último, sobrou o estranho codinome. Não se pode cobrar de jovens jornalistas o conhecimento profundo de uma realidade que não viveram. Mas vale a pena aprender. Nos anos 1970, pequenos grupos, às vezes armados, se insurgiam contra o poder central. Na tentativa de burlar a repressão, seus membros ocultavam o nome de batismo e adotavam nome(s) de fachada, nome(s) de código. Foi nessa época que o vocábulo codinome se popularizou.

Aos remanescentes daqueles indivíduos — alguns dos quais chegaram, mais tarde, a ocupar postos de mando na República — não agrada que se tragam à tona símbolos que marcaram fortemente aqueles tempos duros. Um desses símbolos é justamente a palavra codinome.

É bom tomar cuidado com esse termo. Falando de bandido (ou de ex-bandido), use o termo que mais lhe agradar. Quando se referir a gente honesta, evite palavras depreciativas. Pega mal pra caramba.

(*) Nota
O presente artigo baseia-se nos costumes brasileiros. Em terras lusas, o peso e até o significado de determinadas palavras podem ser diferentes. Os portugueses chamam apelido o que chamamos sobrenome. Já quando dizem alcunha, referem-se simplesmente ao apelido de alguém. Sem carga pejorativa naturalmente.

Família rapidinha: abreviaturas

Dad Squarisi (*)

Se o falante tem ânsia de brevidade, a língua não o deixa na mão. Colabora. Por isso, inventou a abreviatura. Reduz um palavrão a poucas letras. Doutor vira dr.; Apartamento, ap.; Quilômetro, km. Mas a ajuda tem preço. São as regras para usar as pequeninas. A mais importante: ter pena do leitor. A redução precisa ser familiar, facilmente entendida.

Não só. As abreviaturas formadas pela diminuição de palavras têm três manhas.

●   Uma: exigem o ponto final.

●   A outra: não abrem mão do s do plural.

●   A última, igualmente importante: mantêm o acento original.

Exemplos:
capítulo (caps.),
companhias (cias.),
páginas (págs.),
século (séc.),
código (cód.).

Tal como na vida, na língua há os privilegiados perante a abreviatura. É o caso do símbolo de hora, minuto, segundo, metro, quilo, litro e respectivos derivados (quilômetro, mililitro). Eles são sem-sem – sem o ponto abreviativo e sem o s indicador de plural: 5h30; 3h30min14; 4,5m; 20kg; 10ml.

Pragas aparecem de vez em quando. A mais recente atingiu a nobre figura do professor. Os manuais dizem que a abreviatura do mestre é prof. Mas, por alguma razão alheia à vontade de Deus e dos homens, começaram a brindá-lo com um ozinho (profº). O intruso aparece até em cartazes de faculdade. É a receita do cruz-credo.

A língua detesta redundância. O masculino não precisa do o. O feminino, sim, pede a. O plural, s. Compare: professor (prof.), professores (profs.), doutor (dr.), doutores (drs.), professora (profª), doutora (dra.), professoras ( profªs), doutoras (dras.).

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Festa da cumeeira

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Idade Média, só havia dois profissionais especializados: o ferreiro e o moleiro (ou moendeiro, ou moageiro). Todo vilarejo maiorzinho tinha sua forja e seu moinho. O ferreiro era aquele que, sabendo trabalhar o ferro, fornecia ferraduras, enxadas, caldeirões, pregos e todos os apetrechos metálicos. O moleiro era o dono do moinho que, tocado pela força do vento ou da água corrente, permitia moer trigo e fabricar farinha.

by Jos Goemaer (séc. XVI), pintor flamengo
Faz parte do acervo do Museu da Gulodice, na Bélgica

Tirando esses profissionais, os demais aldeães eram autossuficientes e praticavam agricultura de subsistência. No entanto, havia certos trabalhos que um homem não era capaz de executar sozinho. Construir uma casa, por exemplo. Nessas horas, precisava da ajuda de vizinhos, parentes e conhecidos. Todos punham a mão na massa. Quando a casa ficava pronta, era tradição que o dono oferecesse uma festa aos que haviam ajudado. Era forma de agradecer.

Junto a uma das paredes da casa, estava instalada a lareira encimada pela respectiva chaminé para evacuação da fumaça. O calor da lenha queimada tanto servia para aquecer a morada como para cozinhar a sopa. O caldeirão pendia da viga mestra por uma corrente de ferro. Para aumentar a fervura, baixava-se o caldeirão, aproximando-o do fogo. E vice-versa, quando era necessário fogo brando.

Telha de cumeeira

Quando a casa ficava pronta, o último apetrecho a ser instalado era justamente a corrente que sustentava o caldeirão. Era sinal de que a morada estava habitável. E era hora de oferecer uma refeição de festa aos que haviam dado uma mão. Em terras francesas, esse costume gerou uma expressão: «Pendre la crémaillère» ‒ pendurar a corrente.

Hoje, já não se cozinha em caldeirão de ferro pendurado na viga mestra, mas a expressão permaneceu. Quando alguém se muda de casa, organiza uma festinha para os amigos e manda convites para comparecerem à «pendaison de la crémaillère» ‒ a pendura da corrente.

Alemanha: instalação da viga mestra

Com pequenas diferenças, a inauguração de casa nova mantém a simbologia e continua sendo ocasião de festinha (ou festança) até hoje em muitos lugares do mundo. Os americanos dão às festividades o nome de «house-warming party» ‒ festa de aquecimento da casa. Vem do antigo costume de cada convidado trazer um feixe de lenha para a lareira. O aquecimento tanto servia no sentido próprio de trazer calor ao ambiente quanto no sentido simbólico de afugentar maus espíritos.

Alemães (Richtfest) e escandinavos (Inflyttningsfest) também organizam festa nessa ocasião. No Brasil, o equivalente é a Festa da Cumeeira(*). Costuma traduzir-se por churrasco dedicado aos artesãos que construíram a casa. É oferecido logo após a colocação da fieira de telhas que coroa a viga mestra.

(*) Cumeeira é o ponto mais elevado do telhado, a linha que marca a repartição das duas águas.

Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
clique para ampliar

Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

A doutora na Finlândia

José Horta Manzano

A Finlândia me é simpática. Não fosse por outro motivo, foi ali que passei meu exame de motorista e recebi minha primeira carteira. Já faz muito tempo, mas guardo o documento de lembrança até hoje ‒ uma cadernetinha, como se usava na época, com páginas hoje amarelecidas. Os dados eram todos inscritos à mão numa língua que poucos conseguem ler. Bons tempos.

Doutora Dilma está estes dias na Finlândia. Ninguém sabe direito o que madame estará fazendo por lá além de desancar com nossas instituições e denegrir ainda mais a imagem do país. Por falar nisso, ninguém sabe ao certo o que a doutora tem feito estes últimos vinte anos. Além da saudação à mandioca e ao ET de Varginha, a memória coletiva nacional não guardou lembranças imperecíveis de sua passagem pelas altas esferas.

Em vista da viagem, ela solicitou ao Planalto que lhe fossem concedidos três assessores ‒ pagos com nosso dinheiro, naturalmente. O pedido foi acolhido. Assim, estamos nós todos financiando o alegre giro turístico da antiga presidente e de seus esforçados companheiros. Segundo a revista Época, ela pretende espichar a vilegiatura por 12 dias, entre Finlândia e Rússia. Rancorosa, continuará insistindo, em palestras diversas, na demolição das instituições do país.

Ao final do passeio, madame terá perdido mais uma vez. Não conseguirá ser reintegrada na presidência nem terá convencido finlandeses ou russos, quem têm outras fontes de informação além da fala confusa da palestrante. Aliás, nós outros, na qualidade de financiadores do giro, também teremos perdido. Pagaremos para dar à doutora a ocasião de admirar as cores deste começo de outono naquela região de floresta boreal.

Já na primeira palestra, proferida na Universidade de Helsinque, madame asseverou que o Lula estará na eleição de 2018 «vivo ou morto». Taí afirmação que, em matéria de surrealismo, rivaliza com a saudação à mandioca. Disse mais a ilustre palestrante. Assegurou que o Lula «sempre estará presente porque ele não é mais uma pessoa: já é um projeto».

Quem não há de ter apreciado é o próprio Lula. Ao dizer que o demiurgo, mesmo morto, pode participar de uma eleição por já se ter transformado em projeto, a doutora não faz um favor a seu criador. Admite, nas entrelinhas, que, ainda que esteja detrás das grades acolhedoras de Curitiba, nosso guia participará ‒ em espírito ‒ da eleição. Com amigos assim, o ex-presidente não precisa de inimigos.

Resumo da ópera: segundo a doutora, o projeto lulista continuará assombrando a próxima eleição. A candidatura do torneiro mecânico, na ótica de madame, não é indispensável. Qualquer um que encarne o suposto projeto serve. Te esconjuro!

Só fico com pena dos encarregados de traduzir o dialeto em que a doutora exprime seu pensamento confuso. Pra traduzir, é obrigatório ter entendido. Nós não entendemos, e intérpretes estão no mesmo barco. Que mensagem estarão passando a atônitos finlandeses e russos?

Pós-verdade

José Horta Manzano

Palavras são criadas a toda hora. Ao redor do planeta, torrentes de termos novos jorram continuamente. Como é natural, nem todos os idiomas têm a mesma importância. Cada época tem suas línguas de maior prestígio. As novidades baseadas na língua dominante têm mais chance de dar a volta ao globo.

Na Idade Média, os europeus iam buscar no latim, língua de cultura, os ingredientes para compor palavras. Do século XV até uns cem anos atrás, o francês passou a ocupar o lugar do latim declinante. Todas as novidades vinham de Paris inclusive palavras e expressões. Tudo «très chic».

by Kike Ibáñez (1980-), desenhista espanhol

Em nossos dias, quem esmaga a concorrência é o inglês. No Brasil, onde somos particularmente permeáveis a neologismos, palavras inglesas chegam a aposentar termos e expressões que, ainda ontem, costumávamos utilizar sem constrangimento. Algum comerciante ousaria botar mercadoria em liquidação? Ou dar desconto? Alguma pizzaria ofereceria serviço de entrega? Algum restaurante fino poria simples manobristas à disposição da clientela? Alguém pensaria em tecer considerações sobre comércio eletrônico? Qual nada! Sale, off, delivery, valet, e-commerce estão na crista da onda.

Os exemplos que acabo de dar são modismos. Hoje estão em todas as bocas, mas ninguém garante que resistam à passagem do tempo. Existe, no entanto, uma outra casta de palavras importadas. Trata-se daquelas que exprimem conceitos novos, objetos e fatos para os quais não tínhamos nome. Esses aportes, sim, são bem-vindos. Vêm para ficar. Hão de permanecer enquanto o objeto existir.

Nos últimos anos, as redes sociais se espalharam com rapidez impressionante. Como toda moeda, têm duas faces. O lado bom é permitir que notícias se alastrem com a rapidez de rastilho aceso. O lado escuro é que as notícias alastradas nem sempre correspondem à verdade. Mas há gente ‒ muita gente ‒ que engole, sem filtro, tudo o que ouve ou lê. O fenômeno é antigo. A gente costumava chamar de boataria, diz-que-diz, fofoca. O incremento exponencial que se verifica atualmente estava a exigir nome específico.

Atribuem a um blogueiro a criação da expressão «post-truth». A menção mais antiga aparece sete anos atrás. Em inglês, o termo se generalizou rapidamente. Talvez por dificuldade de pronúncia, cada língua tratou de adaptar o termo à sua fonética. Ou mesmo de traduzi-lo. Assim, temos «post-vérité» em francês, «post-verità» em italiano, «posverdad» em espanhol. Aliás, o diretor da RAE ‒ Real Academia Española, que corresponde a nossa Academia Brasileira de Letras, já anunciou que a palavra estará incluída na próxima edição do dicionário RAE, a bíblia da língua de Cervantes.

by Sébastien Thibault (1980-), desenhista canadense

Já nossa bíblia, o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), cuidado pela ABL, ainda não registra o termo em sua versão online. Que não seja por isso. O Dicionário Priberam já ousou. Incluiu o verbete pós-verdade, que vem assim descrito: «Informação que se divulga ou aceita como fato verdadeiro devido à forma como é apresentada e repetida, mas que não tem fundamento real.»

Mr. Trump tem feito amplo uso do estratagema. Em nossas plagas, tivemos um presidente da República que pautava seu discurso por um conceito aparentado: o da quase-lógica. De tão vago e ambíguo, alguns até hoje acreditam sinceramente nas palavras do demiurgo. A expressão não entrou nos dicionários. Dificilmente entrará.

Profissões desaparecidas ‒ 3

José Horta Manzano

Ao levantar a pontinha do tapete da República, a Lava a Jato tem descoberto muita sujeira, um horror renovado a cada dia. Mas toda moeda tem duas faces. Por um lado, está a podridão que nos entristece. Por outro, a operação tem sido fonte inesgotável de inspiração para caricaturistas, cômicos, analistas, comentaristas, taxistas, cabeleireiros e outros ases da comunicação. Até alguns poucos políticos honestos ‒ acredite: existem! ‒ estão se regozijando e vibrando. Como cada um de nós.

A coisa está confusa. Nem com muito esforço, a gente consegue entender tudo tim-tim por tim-tim. Mas continuamos a fazer como gato: prestamos muita atenção. Dada a dificuldade em distinguir quem é quem nessa marmelada fervente, a gente se diverte com detalhes curiosos.

Contei aos distintos leitores que o nome de um certo senhor «Benne» está sendo mal pronunciado. No original, é Bêndine. Como Mântega, aliás. Encantei-me com aqueles irmãos de nome simplório e sobrenome pio, que imaginavam ser o suprassumo da esperteza e estão hoje atrás das grades. (Falo daqueles ex-açougueiros goianos.)

Estes dias, outro nome vem ocupando as manchetes. É um certo doutor Funaro. Não tenho certeza quanto ao título mas, sacumé, o seguro morreu de velho. Melhor evitar chamar de «querido», que é pra não levar um pito de doutor Moro.

Funaro, patrônimo originário da Itália meridional, é nome de uma profissão desaparecida. Tratava-se de ofício comum na era pré-industrial, quando tudo era feito artesanalmente. O nome informa que, lá pelos anos 1300-1400, quando o aumento da população fez que prenomes não fossem mais suficientes para designar cada habitante do vilarejo, o chefe de família da qual descende esse senhor exercesse a profissão de cordoeiro.

Cordoeiro ‒ fabricante de corda

É possível que o distinto leitor nunca tenha visto um cordoeiro. Nem eu. É o profisional que fabricava corda a partir de fibras de juta ou de cânhamo. Usava um aparelho rudimentar, movido à mão, em que sobressaía uma roda de um metro de diâmetro. Seguia o mesmo princípio da roca de fiar.

Depois que cordas começaram a ser feitas em fábrica, acabou a necessidade de as fabricar em casa. A profissão morreu mas o nome ficou. Os italianos do norte dizem funaio e os do sul, funaro. A palavra, originária de um radical sânscrito, chegou ao latim como funem, com o sentido de ligar, amarrar. O inglês bind, de mesmo significado, é parente de sangue. Corda serve para amarrar, daí ter recebido o nome de fune em italiano moderno.

Em nossa língua, temos resquícios dessa família. Diz-se funâmbulo (fune + âmbulo) daquele que caminha sobre uma corda bamba. Costumava ser espetáculo circense. No Brasil de hoje, é atributo de homem político: andam todos na corda bamba. Daí a concluir que a política brasileira se tornou espetáculo circense é um exagero. Ou talvez não.

Extorsão por chantagem

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 11 set° 2017

Nem que o pedinte chegasse com uma sacola de escorpiões conseguiria extorquir motoristas. É impossível.

A linguagem popular acredita que os verbos roubar e extorquir sejam sinônimos perfeitos. Não são. Veja por quê.

Roubar é verbo elástico. Aceita múltiplas regências. No uso mais comum, o objeto tanto pode ser a pessoa de quem algo foi roubado quanto a coisa roubada.

Exemplos:

●  Ladrões roubaram a sacristia. (= assaltaram o local e levaram objetos)

●  Ladrões roubaram o cálice de ouro da sacristia.

Extorquir é bem menos flexível. Extorque-se algo de alguém. E só.

Exemplos:

●  Chantagista extorquiu mil reais da vítima.

●  Por métodos pouco ortodoxos, a polícia extorquiu a confissão do acusado.

●  Homem usa escorpiões vivos para extorquir dinheiro de motoristas.

Nota
Extorquir, torcer, torturar, entortar são primos-irmãos. Descendem todos da raiz latina torqueo, torquere. Extorquir carrega a ideia de extrair algo de alguém por uso de força ‒ torcendo-lhe o braço, por exemplo.

A língua falada por cada um – 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se é verdade que os esquimós dispõem de mais de uma dezena de palavras diferentes para se referir à neve por simples questão de sobrevivência, que expressões frequentam mais regularmente o linguajar cotidiano dos brasileiros?

Seria, sem dúvida, muito interessante e iluminador fazer uma pesquisa de âmbito nacional para descobrir isso. Tiradas as expressões mais regionais, deve haver alguma mais emblemática que desvele o cerne da alma tupiniquim.

Por coincidência, um sociólogo holandês, que foi meu chefe, decidiu fazer um levantamento por conta própria, ainda que desprovido de rigor científico, encantado que estava com as diferenças de atitude entre o cidadão holandês médio e o homem brasileiro do povo. Para meu supremo espanto, encontrou mais de vinte expressões usadas em todo o país, com uma surpreendente característica comum: todas começando com a palavra “tudo” e comunicando sensação de domínio e bem-estar.

Tudo bom, tudo bem, tudo sob controle, tudo azul, tudo em paz (ou tudo na santa paz), tudo em ordem, tudo nos conformes, tudo indo, tudo como dantes no quartel de Abrantes, tudo como manda o figurino, tudo de vento em popa, tudo junto e misturado, e por aí vai. Garanto que, se você pensar um pouquinho, vai conseguir contribuir e muito para o enriquecimento dessa lista.

O que isso revela sobre nós? Pessoalmente, acredito que duas coisas chamam mais a atenção: a primeira, a referência à nossa capacidade de generalização, expressa na abrangência do “tudo” (no sentido positivo) ou talvez, mais tristemente, à nossa incapacidade de discriminação, de separar o joio do trigo, o desejo de tapar o sol com peneira e não entrar em contato com o lado ruim da realidade nacional.

A segunda, nosso caráter hedônico, a crença ‒ ou ilusão ‒ de que somos um povo afeito à inventividade, à improvisação e de que o resultado sempre será satisfatório se o trabalho for feito com alma e com paixão. Aí estão o futebol, o carnaval e as novelas para provar que podemos ser imbatíveis se não forem impostas restrições externas a nossos talentos e prazeres naturais.

O jeitinho brasileiro, cantado em verso e prosa dentro de nossas fronteiras e olhado com desconfiança por estrangeiros, parece ser mesmo nosso farol máximo. Só elogiamos nossa própria capacidade de superação depois de fazermos referência implícita ou explícita à habilidade de contornar toda forma de obstáculos, venham de onde vierem. Inflação, desemprego, corrupção, violência, falta de assistência médica, falta de educação de qualidade, nada é grave o suficiente para detonar uma revolta popular radical. Ao mesmo tempo, todos os entraves são sentidos como motivação para exibirmos nosso jogo de cintura e criarmos soluções caseiras alternativas.

Não temos pressa também de encontrar respostas para os desafios nacionais. O país é grande, temos terras, gente e recursos naturais suficientes para recomeçar uma vez e outra, se necessário for. Por isso, podemos até mesmo nos dar ao luxo da procrastinação, de empurrar com a barriga o encontro de uma solução definitiva. Uma hora qualquer, tudo acaba entrando nos eixos, é só questão de paciência. No país das revoluções sem sangue, em que as leis pegam ou não pegam, em que as regras são alteradas da noite para o dia, depois de começado o jogo, tudo nos induz a lidar com as emergências como se elas tivessem apenas caráter provisório. Os conflitos podem ser resolvidos, dispersando populações inteiras de uma região para outra, afastando as favelas dos centros urbanos ou desenvolvendo atrações em bairros periféricos. Somos campeões na criação de cenários conotativos de paraíso tropical, ainda que saibamos que, em última instância, eles sejam só “para inglês ver”.

Até na religião se manifesta nossa secular sede de inclusão de “tudo” e de “todos”. O sincretismo é nosso jeito especial de multiplicar possíveis bases espirituais de apoio, de conciliar os interesses da elite e do povo, de dizer que a verdadeira felicidade não está neste plano. Para quê, então, esfalfar-se na lida diária, sob um sol inclemente, se o homem põe e Deus dispõe?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Furacão

José Horta Manzano

Você sabia?

Contam que os esquimós têm 16 palavras para descrever a neve, o que pode parecer surpreendente. Pensando bem, é natural numa paisagem constantemente branca, um universo feito de neve e gelo. Os que lá vivem fazem diferença entre neve úmida, seca, fininha, pesada, com vento, de flocos grandes, endurecida, esvoaçante e outras variedades.

Para a maioria de nós, que só conhecemos neve de cartão de Natal, uma palavra basta. Já vi até fotos de paisagens cobertas pela geada descritas como campos cobertos de neve. Para quem não está acostumado, tanto faz.

Já para falar de vento e de chuva, a coisa muda de figura. Aí é nossa vez de dispor de dezenas de termos. Chuva, chuvisco, garoa, pé d’água, ventania, temporal, pancada, salseiro, aguaceiro, tromba d’água não são exatamente a mesma coisa. Descrevem realidades bem diversas. Em linguagem mais rebuscada, podemos até nos referir a procela, termo poético que lembra tempestade enfrentada em alto-mar.

Trabuzana e bátega andam um tanto em desuso. Vórtice é mais do gosto de meteorologistas enquanto tormenta, de delicioso sabor vetusto, lembra Vasco da Gama contornando a extremidade sul da África, no ponto hoje conhecido como Cabo da Boa Esperança.

Adotamos a palavra espanhola tornado para nomear aqueles turbilhões de ventos ascendentes que surgem no interior das terras e arrasam o que estiver pelo caminho, chegando a levantar casas e veículos, deixando um rastro de destruição.

Quando esses vórtices se formam sobre o mar, dizemos ciclones. No Hemisfério Sul, de poucas terras e escassa população, são praticamente desconhecidos. Na metade norte do globo, no entanto, são velhos conhecidos. O fim do verão, época em que as águas marítimas estão mais quentes, é propício ao recrudescimento desse fenômeno.

O nome técnico ‒ e genérico ‒ é ciclone, termo derivado da raiz grega que significa roda, círculo (cf. bicicleta, reciclagem). Aparecem em várias regiões do planeta, mas duas delas são particularmente expostas. Nas Américas, o Golfo do México e o Mar das Caraíbas (ou Caribe, para quem prefere o nome espanhol) assistem a vários episódios a cada ano. Do outro lado do globo, o sudeste asiático também está sujeito a esses acontecimentos.

É curioso que o mesmo fenômeno atmosférico mude de nome conforme a região onde surgem. Os ciclones americanos são chamados furacões enquanto os asiáticos são tufões. Furacão vem do espanhol huracán, tomado emprestado das línguas pré-colombianas faladas nas Antilhas. O termo foi adaptado para a fonética de cada idioma: hurricane, ouragan, uragano, Orkan, Ураган (uragan), uraganas, hurikán.

Os ciclones asiáticos são chamados tufões. A origem da palavra tufão é incerta, mas pode bem ter-se originado no cantonês tai fong (= grande vento). Chegou à nossa língua depois de longa viagem, passando pelo persa e pelo árabe. Como é normal, cada língua adaptou a palavra à própria fonética. Temos typhon, tifón, tifone, Taifun, тайфун (taifun).

Ciclones têm nome. O Centro Nacional de Observação de Furacões (Miami, EUA) encarrega-se de nomear os do Atlântico Norte. Há seis listas de prenomes que se repetem a cada seis anos. Cada uma delas é constituída de prenomes masculinos e femininos, alternados e em ordem alfabética.

Este ano, furacões têm sido excepcionalmente violentos. Como vimos, Harvey devastou a região de Houston, no Texas. Irma veio logo atrás e destruiu São Martinho e São Bartolomeu, nas Antilhas francesas. Enquanto Irma prossegue seu caminho em direção à Florida, José vem logo atrás, ameaçador. O próximo, que ainda não está em vista, vai chamar-se Katia. Resta esperar que seja menos devastador.

Estado, nação e pátria

José Horta Manzano

Certos conceitos são difíceis de exprimir em poucas palavras. Para um ouvido desatento, dá no mesmo que se diga o Estado brasileiro, a nação brasileira ou a pátria brasileira. Essa coleção de termos semelhantes é muito útil num texto, para evitar repetir quinhentas vezes a mesma palavra. No entanto, uma reflexão mais aprofundada vai revelar que o significado de cada uma delas não é exatamente o mesmo.

Nação é comunidade homogênea, cujos membros, em quase totalidade, falam a mesma língua, têm a mesma origem étnica e tradições em comum. Uma nação não constitui necessariamente um Estado. Aliás, raríssimos são os Estados que reúnem todas essas características. Assim, de chofre, me ocorrem dois exemplos em que Estado e nação coincidem: Dinamarca e Portugal. São países com uniformidade linguística, religiosa e, até certo ponto, étnica. Os membros que escapam à homogeneidade são minoria estatisticamente diminuta.

Curdistão ‒ nação que se espalha pelo território de quatro Estados

Estado é conceito político, um território autônomo e independente, com fronteiras definidas e reconhecidas internacionalmente. As fronteiras, em geral, não correspondem às de uma só nação. Ao redor do planeta, a imensa maioria dos Estados se enquadra nessa categoria. Os exemplos são numerosos. Espanha, Reino Unido, Itália, Canadá, China, Índia, praticamente todos os países africanos englobam diferentes etnias, línguas, religiões e tradições. O que caracteriza um Estado é a centralização da administração dos habitantes. Leis, regulamentos, política externa, instituições valem (em princípio) para todos.

Pátria é conceito mais poético do que político, linguístico, religioso ou étnico. Procede, antes, de livre escolha individual. Assim como Fernando Pessoa dizia que sua pátria era a língua portuguesa, é permitido a cada um orientar o próprio lirismo para onde bem entender. A pátria de um indivíduo pode coincidir com o país onde nasceu. Pode também ser o lugar onde cresceu. Pode ainda ser a região em que se sente em casa. Assim como é impossível fazer beber um burro que não tem sede, não se pode impor sentimento patriótico a ninguém.

Copenhague, Dinamarca

Pra ser muito sincero, minha intenção, ao iniciar este artigo, era falar sobre dupla cidadania. Vai ficar pra uma outra vez. Não gosto de cansar o distinto leitor com muito blá-blá-blá de uma tacada só. Assim como não aprecio ler textos muito longos, reluto em escrever artigos muito compridos. Menos é mais ‒ valioso adágio!(*)

Nota etimológica
Adagio ‒ que vale ditado, sentença, máxima ‒ é expressão latina que se mantém tal e qual no italiano atual. É interessante notar que filhotes da raiz agium estão presentes em numerosas línguas com significado ligeiramente diferente.

Em francês, aise traz noção de conforto, de descontração. Em italiano, agio pode carregar também a ideia de lentidão, vagareza. Ease, o correspondente em língua inglesa, permitiu a formação do adjetivo easy, com sentido de facilidade.

Poucos sabem que temos, em nossa língua, um descendente da família. É azo, termo pouco utilizado. Significa oportunidade, ensejo, motivo.
Ex: O atraso do voo deu azo a que ele desistisse de viajar.

Aspas merecidas

José Horta Manzano

Como sabem meus cultos leitores, as aspas são usadas principalmente em citações e para denotar ironia. Há outros casos, menos comuns, em que alguns usam os dois pares de urubus enquanto outros preferem a escrita em itálico, aqueles caracteres inclinados. Fazemos isso quando utilizamos neologismos, gírias, estrangeirismos, termos ou expressões regionais.

A mídia impressa costuma abusar das aspas. Por um sim, por um não, tascam o sinal gráfico aqui e ali sem que nada justifique a escolha. No entanto, vez por outra, acertam em cheio.

Foi o caso desta chamada da Folha de São Paulo de hoje. Esse «talvez» cercado de urubus escancara a ironia da frase.

Chamada da Folha de São Paulo, 21 ago 2017

O verbo complacente

Dad Squarisi (*)

É ou são? Cuidado. Trata-se do verbo ser. Com ele, ligue as antenas. O verbinho é complacente. Ora aceita uma forma, ora outra. Ora as duas. Especial, recebe tratamento diferenciado. Na concordância, a gramática reserva-lhe capítulo à parte. Hoje é 20 de agosto? Ou são 20 de agosto? Cem reais é muito? Ou são muito? É quase duas horas? Ou são quase duas horas? Dúvidas. Muitas dúvidas.

JOGO DUPLO
O verbo ser tem a cintura mais flexível do português. Nunca toma posição firme. Ora acha o sujeito simpático. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Eterno infiel, passa para o lado de lá.

• Tudo é flores ou tudo são flores?

O verbo olha para as flores. Acha-as simpáticas, coloridas e cheirosas. Decide: Tudo são flores.

Em outras horas, lembra-se do que aprendeu na escola (o verbo concorda com o sujeito). Muda de lado: Tudo é flores. Qual a forma correta? Ambas. Com o ser, quase sempre as duas construções estão certas. Há apenas três casos em que ele é durão, inflexível.

UM
É uma hora. São três horas. Na indicação de horas, o verbo só tem olhos para o predicativo. Concorda com o número que diz as horas:

•  É meio-dia e meia. Seria uma hora da tarde. Eram umas 11 horas da noite.

Cuidado. Às vezes o número é antecedido por expressões que indicam aproximações. Não se confunda. O verbo continua o mesmo: Seriam quase duas horas quando ele chegou. São cerca de seis horas de voo. Eram mais ou menos três horas quando o presidente fez o anúncio.

DOIS
Um é pouco, dois é bom, três é demais.

Deu-se conta? As expressões de quantidade, medida, peso, valor, tempo — como é muito, é pouco, é suficiente, é caro, é barato — são invariáveis. Pretensiosas, não ligam para o sujeito. Com elas, só o singular. Veja exemplos:

•  Dois mil reais é muito. Vinte quilos é suficiente. Dois minutos é muito tempo para quem está com dor de dente. Vinte reais é menos do que o produto vale.

TRÊS
Eu é que digo. Nós é que sabemos. A expressão é que recebe o nome de expletiva. Significa que pode cair fora. Mantém-se invariável:

•  As rosas (é que) são belas. Nós (é que) somos patriotas.

É isso.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Profissão e função

José Horta Manzano

Já falei sobre o assunto, mas hoje volto a ele. Trata-se da confusão que costumamos fazer entre profissão e função. Não são a mesma coisa. Profissão, em especial quando é reconhecida e obtida através de formação, tem caráter permanente. O indivíduo que tem acesso a um título profissional ao cabo de um período de instrução, de avaliação final e, eventualmente, de obtenção de diploma, ganha o que se costuma dizer “direito adquirido”. É para sempre, independentemente de exercer o ofício.

Chamada do Estadão

Para usar palavreado caseiro, é como a diferença entre ser e estar. O engenheiro que trabalha de pipoqueiro é engenheiro, mas «está» pipoqueiro. O sociólogo desempregado continua sendo sociólogo, embora esteja sem trabalho. O torneiro mecânico que se elege presidente da República será torneiro mecânico até o fim de seus dias ainda que possa ocupar temporariamente o cargo de presidente.

Músicos, psicólogos, eletricistas formados, contadores, farmacêuticos, enfermeiros são profissionais. Seguiram formação, cada um em seu ramo, e adquiriram o direito inalienável de ostentar o título. Ainda que se lhes retire ‒ por um tempo ou para sempre ‒ a licença de exercer, ninguém lhes pode cassar a formação.

Chamada da Folha de São Paulo

Função é outra coisa. O contador ganha a vida fazendo contabilidade ou vendendo pastéis. O químico exerce num laboratório ou entrega pizza. Profissão e função nem sempre empatam. (Político não é profissão, ainda que certas figurinhas carimbadas estejam há décadas fazendo política.) Diretor, porteiro de boate, gerente, office-boy tampouco são profissões. São funções transitórias.

Artigo do Correio Braziliense

Um médico formado e diplomado será médico até seu último suspiro, ainda que a licença de exercer lhe seja cassada. É impossível cassar-lhe a formação. No entanto, a mídia não é dessa opinião. Um certo senhor Abd El-Massih, ginecólogo condenado por múltiplos estupros a quase 200 anos de cadeia, era, continua sendo e será sempre médico. Como é compreensível, a Ordem dos Médicos retirou-lhe a autorização de exercer. Legalmente, não poderá mais cuidar de pacientes, mas nem por isso deixou de ser médico.

Artigo de O Globo

A totalidade da imprensa nacional o descreve como «ex-médico», perfil que me parece inadequado. Pode-se falar de um ex-pipoqueiro, de um ex-diretor, de um ex-presidente. Jamais de um ex-engenheiro ou de um ex-médico.

Anexo? Em anexo?

Dad Squarisi (*)

Eis o drama de quem escreve ofícios, memorandos e requerimentos. Volta e meia, precisa empregar em anexo ou anexo. Cheias de manhas, essas palavrinhas têm mistérios. Ora aparecem flexionadas, ora não. Ora vêm no início da oração, ora perdidas no meio ou no fim. Ora com vírgula, ora sem vírgula. Como lidar com elas?

EM ANEXO
Em anexo é locução adverbial. Equivale a anexamente. Invariável, não tem feminino, masculino, singular ou plural. Apresenta-se sempre com a mesma cara:

•  Em anexo, encaminho os documentos.
•  Em anexo, encaminho a correspondência.

Sempre com vírgula? Não. A vírgula depende da colocação do termo na frase. Em anexo tem o lugar dele. É no fim da oração. Se estiver lá, nada de vírgula:

•  Encaminho os documentos em anexo.

Como criança arteira, em anexo vive mudando de lugar. Ora aparece no começo da oração, ora no meio. Deslocado, vírgula nele:

•  Em anexo, encaminho os documentos solicitados.
•  Encaminho, em anexo, os documentos solicitados.

ANEXO
Anexo é outra história. Adjetivo, flexiona-se. Concorda com o substantivo a que se refere:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Anexas, encaminho as cartas.
•  Anexo, encaminho o ofício.
•  Anexos, encaminho os ofícios.

E a pontuação? Se anexo vem antes do objeto, não duvide. É vez da vírgula:

•  Anexa, encaminho a carta.
•  Encaminho, anexa, a carta.

Na ordem direta, a história muda de enredo. Fica assim:

•  Encaminho a carta anexa.

Reparou? Essa última frase é ambígua. Parece que anexa é qualidade permanente da carta. Na verdade, o recado é este: encaminho a carta que está anexa. A carta não é anexa. Está anexa.

A clareza é a maior qualidade do estilo. Anexa, na ordem direta, compromete-a. Dá duplo sentido à frase. Xô!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Triscaidecafobia

José Horta Manzano

Triscaidecafobia é o nome culto do pavor que muita gente tem do número 13, ao qual se atribui o poder de trazer desgraça. O Volp registra a grafia triscaidecofobia, que me parece anômala. O Houaiss ignora, mas o Priberam corrige. A raiz grega deka (=dez) deu decaedro, decassílabo, decâmetro, decacampeão, decalitro. Triscaidecafobia respeita o original.

Desde a alta Antiguidade, o número 12 carrega simbologia forte. Representa o fim de um ciclo. Doze signos tem o horóscopo, doze meses tem o ano, doze horas tem o dia, doze foram os trabalhos de Hércules, doze tribos tinha o Israel bíblico.

Com exceção do salário extra que se recebe no fim do ano, o décimo terceiro faz papel de intruso. É sempre aquele penetra que interrompe o ciclo e quebra a harmonia formada pelos doze primeiros. Opõe-se ao divino, à perfeição primeira. No tarô de Marselha, por sinal, a décima terceira carta significa a morte.

Décima terceira carta do tarô de Marselha

O cristianismo medieval reforçou as antigas superstições. A Última Ceia, tal como foi representada pelos artistas da Idade Média, mostrava Jesus ladeado pelos doze apóstolos, um dos quais havia de traí-lo. Como o Mestre foi crucificado numa sexta-feira, a coincidência dos dois é por muitos considerada nefasta. Numa sexta-feira 13, todo cuidado é pouco. Há gente que nem sai de casa nesse dia.

Tendo em mente o drama que se seguiu à Última Ceia, em muitos países do mundo ocidental nunca se juntam 13 pessoas ao redor de uma mesa. Nem para jantar nem para conversar. Se a conta der treze, há duas soluções: dispensa-se alguém ou convida-se um extra pra desmanchar o quebranto. Qualquer figurante serve.

Inúmeros edifícios dos EUA não têm décimo terceiro andar. Evita-se também a 13a rua, a 13a avenida. Hospitais não dão número que termine em 13 a nenhum quarto. Cinemas compostos de múltiplas salas fogem de dar o número 13 a uma delas. Há quem prefira dar o nome de 12bis, há quem passe direto do 12° ao 14°.

Gabinete presidencial
clique para ampliar

O gabinete da presidência da República do Brasil, salão frio e despojado mas espaçoso e iluminado, tem uma vistosa mesa de reuniões. A mesa é redonda, como convém para diluir embaraços protocolares. O detalhe picante é que ela conta com exatamente 13 cadeiras em roda. O distinto leitor pode conferir pela foto aqui acima.

Talvez isso explique certas decisões desastradas que têm sido tomadas ao redor do imponente e lustroso móvel. No creo en brujas, pero que las hay, las hay ‒ dizia o outro. Não sou especialmente supersticioso. Assim mesmo, fosse eu doutor Temer, mandava imediatamente tirar ou acrescentar uma cadeira. «O seguro morreu de velho», dizia minha avó.

Os problema é

José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que sujeito no plural mandava o verbo para o plural. A gente tinha até um nome para esse fenômeno: concordância de número. Na língua árabe, a coisa vai mais longe. O verbo concorda com o sujeito não somente em número, mas também em gênero. Assim, ele escreve (yaktubu) e ela escreve (taktubu) têm formas diferentes. Para os povos árabes, cujos costumes fazem diferença rigorosa entre sexos, deve parecer natural. Para nós, é difícil assimilar.

No entanto, ainda distinguimos singular e plural. Mais cedo ou mais tarde, vai desaparecer, tenho certeza. Ainda virá o dia em que escreveremos «Os menino pega os peixe». E tudo bem. Mas ainda não chegamos lá. Por enquanto, diferentemente do que foi estampado na chamada de jornal abaixo, cargos na Esplanada são problema do presidente. Fato que, além de ser gramaticalmente adequado, me parece uma evidência: cabe ao dono da casa escolher seus ministros, assessores e empregados, pois não?

Chamada Estadão 4 ago 2017
clique para ampliar

Ao ver a imagem do impoluto senador ‒ que, por um triz, não se tornou presidente desta maltratada república ‒ imortalizado à frente de uma bandeira brasileira artisticamente desfraldada, veio-me uma interrogação. Vamos começar do começo.

Nossa Constituição, como a de todo país civilizado, estipula que figurões políticos ‒ parlamentares e chefe do executivo entre outros ‒ gozam de imunidade durante a vigência do respectivo mandato. Parece-me acertado. Mas atenção: imunidade não é sinônimo de impunidade. Significa apenas que não podem ser presos durante o mandato, a não ser quando apanhados em flagrante ao cometer crime inafiançável. Não obstante, suas excelências podem, sim, ser entregues à justiça para inquérito e julgamento. Para tanto, é preciso antes que o plenário da Câmara (ou do Senado) aprove a suspensão da imunidade.

Paralisado, o país assistiu dois dias atrás ‒ ao vivo e em cores ‒ à sessão em que a Câmara deliberava sobre a suspensão da imunidade do presidente do país. O resultado, todos conhecem: os parlamentares não concordaram com a entrega imediata do chefe do Executivo à justiça. Assim, ele ainda goza de ano e pouco de adiamento. Só poderá ser julgado depois de deixar o cargo.

Se a imunidade do presidente foi discutida e votada, por que razão não se fez o mesmo com doutor Neves, senador da República acusado de ter cometido crimes similares? É verdade que, como tenho de cuidar da vida e não passo o dia à escuta do que acontece no teatro e nos bastidores de Brasília, posso ter perdido um capítulo. Se algum leitor mais arguto puder me esclarecer, agradeço desde já.

Só queria saber por que doutor Temer teve de enfrentar o corredor polonês, suou frio, bambeou, quase caiu e acabou se segurando enquanto doutor Neves passou entre as gotas e saiu da chuva sem se molhar.