Sem chance

José Horta Manzano

Sabemos todos que pesquisa de opinião pode ser torcida, retorcida e distorcida conforme o que se está querendo ouvir. Os especialistas no assunto conhecem bem as manhas. Há perguntas que induzem o entrevistado a dar a resposta que se deseja. A ordem em que se apresentam as opções conta. Misturar nomes conhecidos do grande público com ilustres desconhecidos também tem importância. Há mil e um truques que pesquisadores não hesitam em utilizar.

Já faz algum tempo que tenho visto sondagens focadas nas eleições presidenciais de 2018, previstas para realizar-se para daqui a um ano e três meses. É cedo demais para sondar. Além disso, tirando o eterno candidato Lula, nenhum outro se declarou formalmente. Portanto, sem ao menos saber quem vai concorrer, como é possível chegar a resultado razoável?

Achei interessante que o nome da doutora Dilma não apareça em nenhuma das pesquisas. Seus direitos políticos foram mantidos, pois não? A doutora governou o país durante cinco anos. Por que, diabos, os institutos a eliminam arbitrariamente da lista de possíveis candidatos? E que dizer de doutor Temer então? Ainda que fosse destituído ‒ o que está longe de acontecer ‒, pode candidatar-se em 2018. Assim mesmo, não aparece em nenhum cenário.

Em compensação, aparecem figuras como Luciana Genro, Eduardo Jorge e Ronaldo Caiado que, convenhamos, pouca gente conhece. Francamente, em matéria de parcialidade, a mais recente pesquisa eleitoral parece imbatível. Falando em imbatível, o Lula aparece com 30% dos votos no primeiro turno, independentemente do nome dos concorrentes. É possível que nem a inclusão da doutora e do atual presidente viesse a modificar o resultado.

Como contrapeso, saiu ontem pesquisa do Instituto Paraná. Foi divulgada pelo blogue de Lauro Jardim, alojado no jornal O Globo. Aos entrevistados não foi perguntado em quem votariam. Mais sutil, o instituto quis saber se o sondado achava que, pelas denúncias já apuradas, há motivos para o Lula ou doutor Temer serem presos. Aí vem a surpresa: 62% dos entrevistados acham que o Lula deve ir para o xilindró ‒ perto de 2 em cada 3 brasileiros! Só doutor Temer bate nosso guia. De cada 5 eleitores, 4 acham que o lugar dele também é na cadeia.

Agora comparemos. No primeiro turno, o Lula mantém, em qualquer cenário, seus 30% de eleitores fiéis. Vamos admitir. No entanto… 62% querem mais é vê-lo atrás das grades. A conclusão se impõe. Por mais que nosso guia caído apregoe, não teria possibilidade nenhuma de ser eleito caso a eleição fosse agora. Dado que será daqui a 15 meses, a situação só tende a piorar. Para ele.

Cartilha da Ética

José Horta Manzano

Soube-se esta semana que o advogado que defende os interesses do Lula, de Palocci e de Mantega na Lava a Jato está prestes a abandonar os clientes. Cada um abraça a cartilha ética que lhe parece mais próxima das convicções íntimas, assim é a vida. O causídico não sentiu embaraço ao aceitar assumir a defesa do trio. Agora, a coisa se complica.

Tudo indica que Palocci está disposto a abrir o bico e firmar acordo de delação premiada. Se assim for, o que é que o antigo ministro pode revelar? Ora, a turma da Lava a Jato já tomou depoimento de dezenas de subs, vices e outros personagens secundários. As únicas informações de peso que podem assegurar algum benefício de leniência a senhor Palocci se referem a… quem estava acima dele, a quem dava as ordens e coordenava o funcionamento da máquina. Em termos crus: nosso guia periga ser a figura central da delação. Se não for assim, dificilmente os procuradores de Curitiba assinarão o acordo.

Nenhum advogado pode assumir a defesa de um de seus clientes que esteja sendo atacado por outro de seus clientes. A situação é insustentável. Para defender o cliente A, o causídico teria de se valer de informações que lhe foram confiadas pelo cliente B. Nessas alturas, como fica o segredo profissional? Simplesmente não dá.

Quando fiquei sabendo do nome do advogado do trio, uma luzinha longínqua se acendeu. Não me soou estranho. Fui cavoucar e descobri: trata-se do mesmo que, doze anos atrás, assegurou a defesa de Paulo Salim Maluf. Os mais antigos devem se lembrar que o ex-prefeito de São Paulo passou 40 dias preso, junto com o filho, em 2005. Saiu da cadeia por mérito de um habeas corpus impetrado pelo advogado que hoje defende o Lula.

Na época, correu um zum-zum-zum. Houve quem desconfiasse de conluio nas altas esferas para beneficiar Maluf, medalhão cujo nome figura até hoje na lista de procurados pela Interpol. Naquela altura, o povo ainda andava meio apático. Fosse hoje, dificilmente o STF permitiria a soltura do figurão. É, a coisa anda feia pro lado da bandidagem, gente! Cruz-credo!

Quase doze anos atrás
Em artigo publicado no Globo em 21 out° 2005, o jornalista Ricardo Noblat comentava a soltura de Maluf nestes termos:

«Não, meus caros, definitivamente todos não são iguais perante a lei. Não no Brasil, onde o Estado é um anti-Estado. Existe para proteger e beneficiar os que podem mais e, aqui e ali, faz alguma coisa pelos que valem menos.

Carlos Velloso (STF) & José Roberto Batochio (advogado) em 2005
foto: Dida Sampaio

A foto acima é quase um resumo de nossa história de iniqüidades. À esquerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso, relator da ação que tirou da cadeia Paulo Maluf e o filho; à direita, José Roberto Batochio(*), ex-presidente nacional da OAB e advogado dos Maluf.»

(*) Doutor Batochio (deturpação do sobrenome veneto Battocchio) é o advogado do trio Lula, Palocci e Mantega.

Primeiro de abril adiantado

José Horta Manzano

Quando o calendário marca primeiro de abril, é preciso ter cuidado ao ler jornal. Pelo menos, aqui na Europa é assim. Jornais, rádios e até canais de televisão costumam publicar notícias falsas dia 1° de abril. É a tradição, mas sempre há quem caia na conversa. Lembro-me de uma boa “pegadinha”, velha mas engraçada.

Coleção de sapatos de Imelda Marcos, hoje recolhida num museu filipino

Faz trinta anos. Uma revolução nas Filipinas, país que tinha sido dirigido a ferro e fogo durante 20 anos por Ferdinand e Imelda Marcos, acabava de botar pra correr o casal de ditadores. Pra salvar a pele, o casal tinha abandonado, de supetão, palácios e pertences.

Quando entraram nos aposentos da primeira-dama, os revolucionários ficaram atônitos. A mulher era vidrada em sapatos. Possuía mais de mil pares. E, olhe lá, não eram chinelo de dedo! Tudo coisa fina: Charles Jourdan, Louboutin, Christian Dior, Chanel, Ferragamo, Givenchy, Bally. A notícia correu mundo.

No primeiro de abril seguinte, um jornal de Lausanne (Suíça) anunciou que os sapatos de Imelda estavam em venda especial de um único dia a preços de liquidação. O excepcional acontecimento se daria naquele mesmo dia, num dos salões do maior hotel 5 estrelas da cidade. Parece que o hotel nunca foi tão visitado como aquele dia.

No Brasil, embora o 1° de abril seja chamado de “dia da mentira”, pilhérias entre adultos são raras. Regra geral, tudo não vai além de brincadeira de criança. Mas as coisas mudam, distinto leitor, as coisas mudam.

Uma edição falsa do jornal O Globo foi distribuída em São Paulo. Decerto ansiosos por chegar ao desenlace do plano, os autores da pilhéria não aguentaram esperar até o dia da mentira. Espalharam os jornais falsos na véspera, 31 de março.

Edição falsa de O Globo, 31 mar 2017

Pode parecer incrível, mas o material pôde ser encontrado em algumas bancas de jornal. Tinha o mesmo jeitão do jornal verdadeiro, com a exceção de ter sido impresso em formato tabloide. Trazia a manchete: “Temer renuncia: eleições são convocadas”.

O acontecimento se insere perfeitamente no Zeitgeist, no espírito atual em que informações verdadeiras e falsas se embaraçam a ponto de impedir todo cristão de separar o joio do trigo.

Se foi um primeiro de abril, foi engraçado, só que, da próxima vez, será melhor fazer na data correta. Se não foi, é mais uma manobra com segundas intenções. No ponto a que chegamos, uma a mais ou uma a menos não faz grande diferença.

Justiça complicada

José Horta Manzano

«Hoje temos mais de 20 mil pessoas com prerrogativa de foro no Brasil, o que escapa a toda sombra de padrão internacional» ‒ informou, já faz dois anos, doutor Dall’Agnol, procurador do Ministério Público Federal e integrante da força-tarefa da Lava a Jato.

Nos tempos em que a velha URSS era comandada por uma elite chamada nomenklatura, o número de privilegiados nunca foi revelado. Estima-se que fosse integrada por alguns milhares de indivíduos, mas não se tem notícia de que ultrapassassem o total de brasileiros beneficiados com o direito a foro ‘especial’.

No Brasil tampouco se conhece o número exato de privilegiados. Em artigo publicado três semanas atrás, o jornal O Globo estimou que cerca de 22 mil brasileiros fazem parte do clube. Afirmou também que, numa vintena de países estudados (EUA, Alemanha, França, Itália, Espanha, Áustria, Suécia, entre outros), o Brasil sobressai. Nos EUA, por exemplo, até o presidente da República terá de passar pela primeira instância como qualquer cidadão comum. O mesmo se aplica à primeira-ministra alemã.

É visível a distorção de nossa legislação, que enxerga os eleitos como casta à parte, cidadãos detentores de direitos superiores aos do povão que eles mesmos representam. É rematado absurdo.

Estes dias, vai aos poucos sendo revelada a horripilante extensão da dita «Lista do Janot», com o elenco de figurões que estão a um passo de enfrentar processo por improbidade, corrupção, concussão, prevaricação e outros crimes de colarinho branco. São muitas dezenas de personalidades. Alguns figurões têm, por prerrogativa de cargo, direito a ser julgados pelo colegiado do STF enquanto outros deverão, em princípio, ser confiados à justiça comum.

A situação ganha molho de pimenta braba quando se leva em conta que, no emaranhado de desonestidade que vigora na alta cúpula do país, há incontáveis casos em que detentores de prerrogativa de foro delinquiram acumpliciados com não-detentores. Está armada a confusão. Que fazer? Anular o privilégio do detentor e mandar todos os cúmplices para a primeira instância? Ou, quem sabe, promover o acusado comum a membro da nomenklatura?

O legislador não havia previsto essa eventualidade. Agora temos casos aos borbotões. Qualquer que seja a decisão, ela guardará um sabor de improviso discutível. Por enquanto, não há muito que fazer. O STF terá, mais uma vez, de se substituir ao legislador.

Essa dicotomia entre cidadãos que merecem ser julgados diretamente pelo colegiado supremo e os demais, obrigados a enfrentar instâncias inferiores, está mostrando os limites de sua eficiência. É assunto a ser obrigatoriamente levado em conta quando de uma próxima revisão constitucional.

O exemplo de nossos guias

Lula caricatura 2Ricardo Noblat (*)

Nada, ontem, esteve mais impregnado de simbolismo do que a decisão dos ex-presidentes da República Lula e de Dilma Rousseff de se absterem de votar.

Lula estava em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e por lá ficou. Dilma voou de Porto Alegre a Belo Horizonte para visitar a mãe doente. Chegou ao hospital em um helicóptero.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Os dois não votaram porque seus candidatos às prefeituras de São Bernardo e de Porto Alegre foram derrotados ainda no primeiro turno da eleição.

Deram um mau exemplo. Daqueles que foram autoridades máximas da República, eleitos pelo voto popular, esperam-se sempre gestos que reforcem o compromisso coletivo com a democracia.

Se não quisessem nenhum dos candidatos, Lula e Dilma poderiam ter anulado o voto ou votado em branco. A abstenção simplesmente desvaloriza o ato de votar.

(*) Ricardo Noblat é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no jornal O Globo, 31 out° 2016.

Frase do dia — 312

«O julgamento de Dilma, de acordo com a Constituição, vai ocorrer sob a presidência do presidente do STF. É de conhecimento público que Ricardo Lewandowski não chegou à Suprema Corte pelos seus dotes jurídicos. Foi escolhido por razões paroquiais, de São Bernardo do Campo, onde começou sua carreira política.

Se Rui Barbosa foi chamado de Águia de Haia, Lewandowski pode ser considerado o ministro da rota do frango com polenta — região de restaurantes daquela cidade onde se saboreia essa iguaria. E, suprema ironia da História, será ele que vai presidir o impeachment. Mais ainda, vai presidir o sepultamento político do seu amigo Luiz Inácio Lula da Silva.»

Marco Antonio Villa, historiador, em artigo publicado no jornal O Globo, 9 ago 2016.

O gato comeu

Jorge Bastos Moreno (*)

«Ah, herança, essa maldita herança! É o que todo novo governo carrega do antecessor. Geralmente, são obras inacabadas, cofres vazios e um bando de promessas não cumpridas.

O governo Temer, com ajuda do TCU e do Itamaraty, acaba de fazer levantamento parcial do “patrimônio” deixado pelos governos Lula e Dilma.

Lula presente roubado 1O TCU identificou o desaparecimento de cinco mil itens, entre os quais seis obras de arte valiosíssimas. E o Itamaraty descobriu que pelo menos 700 presentes recebidos de governos estrangeiros deixaram de ser registrados, como manda lei, na lista de patrimônio da União.»

Interligne 18h

(*) O jornalista Jorge Bastos Moreno mantém coluna no portal O Globo. O excerto é de artigo publicado em 6 ago 2016.

Ai, que preguiça…

José Horta Manzano

Há de ser birra minha, porque errado não é. Assim mesmo, continuo pasmo com o fato de numerosos escrevinhadores ‒ falo de profissionais ‒ não se preocuparem em fugir da rotina e do ramerrão. Gente de jornal, cujo escrito atingirá milhares de leitores, parece não estar nem aí, como se usa dizer.

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Estado de São Paulo, 10 maio 2016

Compreendo que dá menos trabalho copiar ‒ ou, digamos, reproduzir ‒ o que já vem pronto. Pra que fazer se é tão mais prático comprar feito, não é?

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

Chamada Folha de São Paulo, 10 maio 2016

O Brasil viveu, neste 9 de maio, mais um dia de república bananeira. Confirmamos, a cada dia mais, a veracidade do conceito que imaginávamos definitivamente banido: «O Brasil não é um país sério». Não se sabe direito quem lançou essa desagradável expressão. Seja quem for, havemos de convir que não estava longe da verdade.

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Chamada O Tempo (Belo Horizonte), 10 maio 2016

Voltando à preguiça dos que escrevem, reparei na manchete principal da mídia na manhã desta terça-feira. Uma sensaboria. Quase tudo igual.

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

Chamada Gazeta do Povo (Curitiba), 10 maio 2016

O Estadão (SP), a Folha (SP), O Tempo (BH) usaram os verbos recuar, revogar e anular. A Gazeta do Povo (PR) e Zero Hora (RS) contentaram-se com revogar e anular. Mais econômico, O Globo (RJ) limitou-se a anular.

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

Chamada Zero Hora (Porto Alegre), 10 maio 2016

O riquíssimo Dicionário Aulete online ‒ de acesso gratuito, aberto a todos ‒ propõe mais de 800 mil verbetes. A linguagem repetitiva não se deve, portanto, a eventual pobreza vocabular da língua. Continuo acreditando que o problema maior é a preguiça. De quem escreve e de quem supervisiona.

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Chamada O Globo (Rio de Janeiro), 10 maio 2016

Vários verbos podem substituir recuar(1): voltar atrás, retratar-se, reconsiderar, abandonar, retrogredir, retroceder, fugir, ceder, desistir, recolher-se, reverter, retroagir, retrogradar, rever, retrosseguir, retrair-se. Há outros, basta procurar.

O mesmo vale para revogar. Conforme o caso, pode ser substituído por: extinguir, cancelar, abolir, eliminar, anular, suprimir, afastar, proscrever, retirar, apagar, subtrair, remover, abandonar, abortar, revocar, cassar.

Interligne 18cCulotte 3Curiosidade etimológica
A gente nem sempre se dá conta, mas algumas palavras de uso corrente derivam de raiz tabuística, daquelas que a gente não pronuncia na frente de senhoras de fino trato.

Falo de recuar, acuar, cueca, cueiro, culote. São todas derivadas de cu. Surpreendente, não?

Sistema eleitoral (mal) copiado

Urna 5José Horta Manzano

Ricardo Noblat comentava ontem, no portal que mantém n’O Globo, o afastamento do deputado Cunha determinado pelo Supremo Tribunal Federal. Constatou que o STF fez «o que a Câmara, por fraqueza e corporativismo, se arrastava para fazer, e tudo indicava que nunca faria: extirpar um mal que envergonhava o país embora não envergonhasse a maioria dos deputados».

Está aí resumida a aberração da representatividade política à brasileira. Uma arquitetura eleitoral (mal) copiada de outras culturas e (mal) adaptada a nossa realidade gerou um fosso entre representantes e representados. Tem de ser relativizada a afirmação do populismo mercenário dos últimos anos segundo a qual o Brasil é uma grande democracia.

Eleições, por si só, não caracterizam uma democracia. Votava-se durante a mais recente ditadura militar brasileira assim como na extinta URSS. Sempre se votou em Cuba. Para que reine a vontade popular, a democracia exige outros fatores.

Na democracia representativa, como indica o nome, a população é representada por pequeno grupo de eleitos. O sistema em vigor no Brasil gira em falso. Perversão inerente ao voto proporcional faz que o cidadão vote num candidato e, sem se dar conta, acabe elegendo outro.

Urna 7Pergunte a qualquer de seus conhecidos: ‒ Qual é o SEU deputado federal? Na melhor das hipóteses, ele dirá em quem votou, se ainda se lembrar. E vai parar por aí. O sistema eleitoral brasileiro impede a formação de todo vínculo entre representante e representado. Deputados e vereadores, livres e descompromissados, não sentem dever contas a quem quer que seja.

O cidadão, privado de representante claro e definido, não tem a quem se dirigir nem de quem cobrar. Nem sonhe em interpelar seu deputado para reclamar cumprimento de alguma promessa de campanha. Você será ignorado como se recém-chegado de Marte fosse.

Eleição 1A solução é uma só: aposentar o sistema atual e instaurar o voto distrital puro, sem mistura. É simples. Divide-se o país em tantos distritos quantos forem os deputados federais ‒ atualmente 513. Cada distrito elegerá, em dois turnos, SEU próprio deputado. Só assim cada brasileiro terá seu representante e saberá quem ele é. Assim se estabelecerá o vínculo entre eleitos e eleitores, que tanta falta tem feito.

Esse é o único caminho para evitar que frases como a do primeiro parágrafo continuem assolando o país. É o único modo de fazer que o que envergonha o país envergonhe também os deputados.

Querido delegado

José Horta Manzano

Um lapsus calami ‒ erro que escapa por inadvertência ‒ aparece numa chamada do jornal O Globo deste 15 de março.

Nosso guia anda tão desprestigiado que já nem mais tem direito a inicial maiúscula. Seu nome já vem escrito lula, assim mesmo. É sintomático.

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

Chamada do jornal O Globo, 15 mar 2016

Onde vão parar nossos impostos

José Horta Manzano

Todos os cidadãos têm direito de saber como é utilizado o imposto. Afinal, somos nós que ‒ através de impostos, taxas, tributos e emolumentos ‒ financiamos o país. É legítimo que nos sejam dadas contas do destino de nossa contribuição para o bem comum.

Restaurant Grand Véfour, Paris

Restaurant Grand Véfour, Paris

A Procuradoria-Geral da República acaba de contribuir para o esclarecimento do contribuinte ao tornar pública a denúncia contra senhor Cunha, presidente da Câmara. O homem é acusado de corrupção, evasão de divisas, ocultação de patrimônio e outros delitos do gênero.

Durante anos, o político manteve, principalmente na Suíça, dezenas de contas bancárias abastecidas com somas polpudas por caudaloso propinoduto. Essa cachoeira de propinas é o caminho paralelo pelo qual escoa parte dos impostos que o distinto leitor costuma pagar. É dinheiro subtraído ao erário e desviado para o bolso de ladrões.

Restaurant Guy Savoy, Paris

Restaurant Guy Savoy, Paris

Em rápida passagem de cinco dias por Paris, ano passado, Senhor Cunha torrou milhares de dólares. Numa refeição no restaurante Grand Véfour, gastou 1200 dólares. Em outro ágape gastronômico no afamado restaurante Guy Savoy, foram mais 1300 dólares. Para dormir ‒ que ninguém é de ferro ‒ a despesa chegou a 15800 dólares no ultraluxuoso Hotel Plaza Athénée, perto de sessenta mil reais.

Nas festas de fim de ano 2012-2013 passadas na Florida, esse senhor, cujo salário não chegava a 18 mil reais, desembolsou quantias ainda mais elevadas. Entre hotel, restaurantes e lojas de grife, foram 170 mil reais no cartão de crédito.

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Estamos falando do terceiro personagem da República, o segundo na linha de sucessão da presidência. Caso dona Dilma e o vice saiam de cena, o leme do barco será entregue a ele. A perspectiva é afligente, embora não destoe no cenário ao qual estamos acostumados.

Reproduzo abaixo um trecho de artigo de Guilherme Fiuza, publicado no jornal O Globo deste 12 março 2016.

«O Brasil disse ao filho do Brasil: “Meu filho, um dia tudo isso será seu”. Até os pedalinhos de Atibaia já sabem que o herdeiro tomou posse de tudo.

Solidário, pegou a maior empresa de papai e despedaçou-a para enriquecer a família e os amigos. O filho do Brasil não pensa só em si. Seus filhos — os netos do Brasil — enriqueceram também. E seu compadre, seu advogado, sua amante, seu churrasqueiro, seus amigos de fé, seus correligionários, enfim, todo mundo se deu bem, porque o patrimônio de papai era colossal. Mas, e os brasileiros? Ora, esses são filhos da outra. Todo mundo sabe que o Brasil só teve um filho.»

Valei-nos, São Benedito!

Plebiscito ou referendo?

José Horta Manzano

Desta vez, o Planalto tem razão. Quem errou foi a imprensa. Pensam que estou brincando? Pois não estou. Explico.

Quando pipocaram os protestos populares de jun° 2013, dona Dilma propôs uma consulta popular seletiva, algo que a atual Constituição não contempla. O tempo passou, os ânimos se acalmaram e chegou a hora de dar nome aos bois. Afinal, como devia ser chamada a consulta ‒ referendo ou plebiscito?

Especialistas ensinaram. Os mais atentos prestaram atenção e tomaram nota. Até o mui oficial Blog do Planalto aprendeu! A coisa ficou assim:

Plebiscito
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria que ainda não foi votada. Assim, o povo é consultado antes que o parlamento legifere.

Referendo
É quando se convocam os eleitores a se pronunciar sobre matéria já aprovada pelo Congresso. Assim, o povo é chamado a aprovar ou rejeitar lei existente.

Mr. Cameron vai submeter a seu povo uma questão sobre a qual o parlamento britânico ainda não se pronunciou. Portanto, trata-se de um plebiscito. Visto que ainda não há lei, não há como referendá-la. Logo, referendo não será.

Nenhum dos três grandes jornais brasileiros fez a lição de casa. Vejam só:

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Estadão

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

Chamada do Estadão, 20 fev° 2016

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Folha de São Paulo

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 20 fev° 2016

Interligne 28a

O Globo

Chamada d'O Globo, 20 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 20 fev° 2016

Interligne 28a

Vai atraso aí?

José Horta Manzano

Autoridades de saúde da ONU e dos EUA afirmam que o Brasil não tem compartilhado dados e amostras suficientes para se investigar a associação entre o vírus zika e o surto de microcefalia ‒ informou a agência de notícias Associated Press.

A burocracia brasileira estaria prejudicando o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e testes para diagnóstico.

Matéria publicada pelo jornal O Globo, 4 fev° 2016.

Cada um vê com os próprios olhos

José Horta Manzano

Acredite, distinto leitor, as três manchetes que se seguem dão a mesma notícia.

Interligne 28aO Estado de São Paulo:

Chamada do Estadão, 2 fev° 2016

Chamada do Estadão, 2 fev° 2016

Interligne 28aFolha de São Paulo:

Chamada da Folha de São Paulo, 2 fev° 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 2 fev° 2016

Interligne 28aO Globo:

Chamada d'O Globo, 2 fev° 2016

Chamada d’O Globo, 2 fev° 2016

Interligne 28aNenhum deles mente. Está aí um estupendo exemplo do fabuloso poder da palavra: basta ajeitá-las com habilidade, e darão o recado que nos interessa.

Por sinal, nossos dirigentes têm usado esse recurso e abusado dele. Consiste em contar o que interessa e ocultar o que não deve ser mostrado. De todo modo, poucos são os que lerão o artigo inteiro.

Contra ou a favor?

José Horta Manzano

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015

Chamada do Diário do Poder, 4 dez° 2015 às 9h30

Interligne 28a

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015

Chamada de O Globo, 4 dez° 2015 às 9h30

4 de dezembro de 2015, 9h30

O Diário do Poder afirma que dona Dilma dispõe de 124 votos a seu favor.

O jornal O Globo afirma que dona Dilma dispõe de 258 votos a seu favor.

Que significa essa diferença? Significa que ninguém sabe de nada. Quem disser que sabe estará mentindo.

A resposta só virá no dia da votação depois de o último parlamentar ter declarado o voto. Antes disso, tudo não passa de especulação.

Brasil longe do terror

José Horta Manzano

No fim de semana passado, quando participava de reunião multinacional na Turquia, dona Dilma foi questionada sobre o risco de ataque terrorista ao Brasil durante os Jogos Olímpicos de 2016. A pergunta fazia sentido, dado que Paris acabava de sofrer mortífero atentado.

Dilma 1Dilma respondeu um tanto evasivamente, sem muita convicção, como se a pergunta a tivesse irritado: «não estamos muito preocupados com a possibilidade de atos terroristas no Brasil, uma vez que estamos muito longe». Soou distante e não convenceu.

Dias mais tarde, ao dar-se conta de que a afirmação da presidente não havia tranquilizado ninguém, o Planalto incumbiu o ministro da Justiça de serenar a plateia. Com cara de sério, ele cumpriu o contrato. Não sei se todos acreditaram. Em todo caso, o mui oficial portal Cuba Debate – aquele que publica as Reflexiones de Fidel – repercutiu a fala do ministro. Segundo o figurão, o Brasil «está totalmente preparado para garantir a segurança nos Jogos Olímpicos».

Menos romântico e mais próximo da realidade, o jornal O Globo trouxe, no sábado 21 de novembro, interessante artigo sobre ataques terroristas recenseados de 1970 até nossos dias. Uma análise mais atenta indica que o Brasil não está assim tão “longe” como imagina dona Dilma.

Ataques terroristas de 2000 a 2014 Crédito: Jornal O Globo

Ataques terroristas de 2000 a 2014
Crédito: Jornal O Globo

Entre 2000 e 2014, nosso país registrou nada menos que 17 ações terroristas, mais de uma por ano. É verdade que estamos longe do impressionante total de quinze mil atentados ocorridos no Iraque ou dos dez mil do Paquistão. Assim mesmo, constatamos que o Brasil foi alvo de mais atentados do que países teoricamente mais expostos como: Marrocos (12), Croácia (11), Sérvia (11), Portugal (2), Romênia (1) e Polônia (1).

Assalto 5Se, a esses atos reconhecidamente terroristas, acrescentarmos nossos costumeiros arrastões, sequestros-relâmpago, assaltos à mão armada & companhia, ultrapassamos Afeganistão e Paquistão com um pé nas costas. Sem contar os «malfeitos» do andar de cima naturalmente.

Brasil… longe do terror?

Crise não chegou ao Planalto

Jorge Oliveira (*)

As viagens da Dilma para o exterior são infrutíferas, não trazem benefícios ao país. Servem para ela fugir da crise e gastar R$ 2 milhões por ano apenas com comida a bordo do avião presidencial, dinheiro do contribuinte que, como idiota, continua sustentando o luxo dela e bancando suas despesas em bons e sofisticados restaurantes lá fora.

Banquete 3O jornalista José Casado, do Globo, fez levantamento minucioso dos gastos da estrutura presidencial e chegou a números espantosos. Foram R$ 9,3 bilhões no ano passado para sustentar o entourage que gira em torno dela com alimentação, vestuário, viagens aéreas, servidores, jardinagem, deslocamentos internos e externos, carros, combustível, cartões corporativos, vigilância privada e órgãos à sua disposição.

(*) Jorge Oliveira é jornalista e assina coluna no Diário do Poder.

Pais e filhos

Ricardo Noblat (*)

Furioso 1Sinal dos tempos!

A Polícia Federal e a Receita Federal investigam a empresa de um dos filhos de Lula, que por causa disso está possesso.

A Lava a Jato prendeu e investiga Marcelo Odebrecht e os negócios da empreiteira dele. O pai, Emídio, ameaça derrubar a República se o filho não for solto logo.

Também é alvo da Lava a Jato o advogado filho do presidente do Tribunal de Contas da União que, se está furioso, ainda não passou recibo.

Sem falar dos filhos de Gilberto Carvalho – que foi chefe de gabinete de Lula e ministro de Dilma. Os filhos também são alvo da Operação Zelotes, da Polícia Federal. Gilberto está furioso e se diz chocado.

(*) Ricardo Noblat, jornalista, em seu blogue alojado no jornal O Globo, 29 out° 2015.