Na lata

José Horta Manzano

Cesare Battisti, em declaração ao Estadão:
«Vão me entregar à morte!»

Bruno Vespa (jornalista, escritor e figura da televisão italiana):
«Purtroppo no. Siamo un paese civile che gli assassini li mette solo in galera.»
«Infelizmente não. Somos um país civilizado que se contenta em mandar os assassinos para a cadeia.»

A carta de doutor Palocci

José Horta Manzano

Na Europa, quando confrontados com a evidência inescapável, acusados costumam reconhecer os crimes e passar à confissão. O delinquente brasileiro funciona diferente. Ainda que se lhe esfregue nas fuças a prova cabal, o recibo assinado com firma reconhecida e a foto do flagrante, o criminoso costuma negar. Contra toda lógica, prefere esconder-se como avestruz que enfia a cabeça na areia ou gato que se refugia dentro do armário esquecendo o rabo de fora.

Não percebo bem a utilidade da estratégia. Negar o crime quando as evidências são frágeis é direito de todo acusado. Continuar negando depois que a prova está sobre a mesa é temeridade. Irrita justamente os que vão julgá-lo, deixando juízes menos condescendentes e mais rigorosos na fixação da pena. Afinal, ninguém aprecia insulto contra a própria inteligência.

José Dirceu ‒ que, por sinal, tem o título de advogado ‒ adotou a estratégia de negação total e absoluta. Está colhendo o que plantou. Em segunda instância, sua pena de privação de liberdade foi prolongada de 50%. Passa, agora, dos trinta anos de masmorra. Levando em conta que já é mais que setentão, seu futuro está seriamente comprometido.

by Elvis Braga Ferreira, desenhista amazonense

Ontem, por caminhos indiretos, doutor Antonio Palocci F° nos brindou com uma pérola. Na carta de desfiliação, dirigida à presidência do PT, lavou a alma. Em poucas laudas, disse mais do que havia declarado diante do juiz Moro, semana passada, em Curitiba.

O tom é de grande sinceridade. Dá pra sentir que o homem está traumatizado com a débâcle do partido que ajudou a fundar 36 anos atrás. É de sublinhar que, além de ter presidido a legenda, foi por ela eleito prefeito e deputado. Mais que isso, foi ministro dos governos Lula e Dilma. Suas palavras deixam transpirar muita tristeza. Fica a impressão de que reconhecer os crimes foi menos penoso do que abandonar o partido.

A meu ver, o texto do doutor é o retrato sem photoshop do nascimento, vida e morte do Partido dos Trabalhadores. Começa com as (louváveis) intenções dos pioneiros, menciona os (poucos) acertos e não hesita em revelar os (desastrosos) erros.

Aleluia! Finalmente, entre centenas de envolvidos na Lava a Jato, apareceu um homem que honra as calças que veste. Se o distinto leitor ainda não leu a carta do doutor, pode clicar aqui.

Adendo
Para não cansar ninguém, cito somente duas curtas passagens da carta de Palocci. São fatos conhecidos por todos nós, mas que, saídos da pluma de um dos homens mais poderosos do partido, são particularmente eloquentes.

«Minha geração talvez tenha errado mais do que acertado. Ela está esgotada. É nossa obrigação abrir espaço a novas lideranças, reconhecendo nossas graves falhas e enfrentando a verdade.»

«Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?»

Falam de nós – 24

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Schwulen-«Therapie»
Causou surpresa a decisão judicial brasileira de permitir que se pratique terapia psicológica visando à conversão de orientação sexual. A eficácia dessa Schwulen-«Therapie» ‒ “terapia” homossexual ‒ é posta em dúvida por muita gente. De fato, faz 26 anos que a Organização Mundial da Saúde retirou oficialmente a homossexualidade da lista de doenças psíquicas. Assim sendo, é paradoxal tratar como doença uma orientação pessoal que doença não é. O portal alemão NTV discorre sobre o assunto.

Asilo para bilionários
De olho em estrangeiros endinheirados, um punhado de países da União Europeia oferece visto de residência aos que se dispuserem a investir na economia local. Cada Estado estabelece condições diferentes.

Chipre, o mais generoso, outorga, logo de cara, o passaporte do país aos afortunados. Portugal não chega a tanto, mas propõe o «visto dourado», que permite ao estrangeiro tornar-se residente no país. Para tanto, basta aplicar 500 mil euros no mercado imobiliário. Com isso, o forasteiro obterá permissão de residir por cinco anos em Portugal. Vencido o prazo, poderá solicitar o passaporte.

Em Chipre, o afluxo maior é de russos e ucranianos abastados. Já em Portugal, dominam os chineses, seguidos pelos brasileiros. Segundo a imprensa portuguesa, figurões envolvidos na Lava a Jato estão entre os beneficiados. Assim que a operação foi deflagrada no Brasil, vários deles investiram em terra lusa e solicitaram o visto dourado. O quotidiano lisboeta Expresso dá informação sobre a fila de corruptos que buscam asilo nas ribeiras do Tejo.

Passaporte chipriota

Reforma da ONU
Diversos chefes de Estado discursaram ontem no púlpito oficial da ONU, quando da abertura da sessão anual. Todos eles ‒ sem exceção ‒ pronunciaram discurso dirigido ao público do próprio país. Trataram de incluir algumas frases de efeito, com perfume internacional, mas o cerne da fala foi, sim, pensado para o povo que os elegeu. Assim fizeram Mr. Trump, Monsieur Macron, doutor Temer e todos os outros.

O diário alemão Handelsblatt passou por cima das platitudes da fala de nosso presidente. Reteve unicamente o choro tradicional (e inútil), repetido a cada ano, por meio do qual o Brasil clama por reforma da estrutura do Conselho de Segurança. Pouco importa o formato que o CS adquira após a reformulação desde que inclua o Brasil como membro permanente. Que se danem os outros.

Melhor esperar sentado, que de pé cansa.

«Pequenos juízes»
A estação de rádio estatal France Culture preparou uma série de quatro emissões, de uma hora cada uma, sobre os «pequenos juízes» que se levantam contra a corrupção. Faz um confronto entre os que oficiaram vinte anos atrás na Itália, quando da operação Mani Pulite ‒ Mãos Limpas, e os que ora promovem a Lava a Jato.

A série de programas esmiuça a paisagem político-policial brasileira para tentar descobrir quem é quem e que poder tem cada um desses atores. Uma coisa é certa: sobressai a imagem de um Brasil gangrenado pela corrupção.

ViaFauna
O portal francês Fredzone traz artigo interessante sobre a ViaFauna, uma start-up brasileira. Explica que a pequena empresa criou dispositivos capazes de antecipar, por meio de raios infravermelhos, a presença de animais na pista de estrada de rodagem. Considerando que animais são vítimas quotidianas de colisões ‒ que podem ser fatais tanto para os animais quanto para humanos ‒, os dispositivos de detecção representam novidade pra lá de bem-vinda.

Pilotos do Brasil
Ryanair, a maior companhia aérea europeia de baixo custo, está enfrentando problema importante. O ritmo infernal imposto pelos horários apertados deixa pequena margem para imprevistos. Quando, por um motivo qualquer, um avião atrasa, provoca reação em cadeia. Dezenas de aparelhos perdem o ritmo.

A legislação trabalhista não permite que pilotos ultrapassem um certo número de horas seguidas de trabalho. O resultado frequente é que, mesmo com autorização para decolar, aparelhos têm de permanecer no solo por motivo de o piloto já ter atingido o limite legal de horas de serviço.

Faltam pilotos. A companhia propôs um bônus aos que renunciarem a tirar férias. Ainda que acatada por todos, a medida não tapará o buraco. A empresa está em busca de novos comandantes. O Brasil é o primeiro país na lista de prospecção ‒ quem dá a notícia é o diário italiano Il Tempo. Quando a Varig foi pro espaço, os pilotos foram acaparrados por empresas da então emergente China. Agora acontece de novo. Quem se candidata?

 

Inflação sindical

Políbio Braga (*)

O número de sindicatos no Brasil passou dos 17.200 este ano. Em setembro de 2015, antes do impeachment de Dilma, o total já era impressionante: 15.900 entidades.

Quando Lula foi reeleito, o Brasil virou campeão no número de sindicatos, com mais de 90% do total mundial.

Os Estados Unidos têm cerca de 190 sindicatos e o Reino Unido, 168. Na Dinamarca, são 164 e na Argentina, apenas 91.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Quer ser aluno de Dilma Rousseff?

Políbio Braga (*)

O curso «A esquerda no século 21» também terá Guilherme Boulos, Olívio Dutra, Emir Sader, João Pedro Stédile e outros dinossauros da esquerda entre os professores.

As aulas da pós-graduação “A esquerda no século XXI” terão lugar em Chapecó (SC). O autor da ideia é o deputado federal José Uczai (PT-SC), professor universitário. A ex-presidente e Olívio Dutra (PT), ex-governador do Rio Grande do Sul, ficarão responsáveis pela disciplina “Partidos políticos e a esquerda brasileira”, com carga de 45 horas. O time ainda inclui Emir Sader, Jean Wyllys, Guilherme Boulos, João Pedro Stédile e, a confirmar, Jandira Feghali, Chico Alencar e Leonardo Boff.

Os interessados devem desembolsar R$ 7.200, com direito a parcelamento em até 24 meses. O curso será oferecido em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul e a Fundação Perseu Abramo, controlada pelo PT e financiada com recursos do fundo partidário ‒ dinheiro público, pois. Já o diploma será expedido pelo Instituto Dom José.

Para obter o diploma de especialista em “esquerda do século 21”, será ainda necessário realizar um seminário de pesquisa (30 horas) e produzir um trabalho de conclusão (60 horas). O curso terá cerca de um ano de duração, com aulas nas sextas-feiras à noite e nos sábados na cidade do oeste catarinense.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Frase do dia — 336

«Una de las sorpresas que los historiadores estudiarán durante muchos años es la decisión de Estados Unidos de renunciar a su liderazgo mundial. Más aún, tendrán que explicar por qué lo hizo unilateralmente y sin que nadie le arrebatara el inmenso poder que acumuló durante el siglo pasado.»

«Uma das surpresas que os historiadores hão de estudar por muitos anos é a decisão dos Estados Unidos de renunciar à liderança mundial. Mais que isso, terão de explicar por que o fizeram unilateralmente, sem que ninguém lhes tenha arrebatado o enorme poder acumulado no decorrer do século passado.»

Moisés Naím (1952-), escritor e analista político de nacionalidade venezuelana. Foi ministro do Comércio e da Indústria de seu país no final dos anos 1980, antes da era ‘bolivariana’. O texto integral está aqui (em castelhano).

Mala preta aos três anos da Lava a Jato

Fernando Gabeira (*)

Interessante classificar os que pedem a queda de Temer como irresponsáveis. Já que estamos usando a palavra, é bom lembrar que não somos presidentes nem recebemos um empresário investigado à noite, sem anotação na agenda, usando senhas no portão de entrada.

Não nos parece responsável um presidente que mantém aquele tipo de diálogo, tarde da noite, com o dono da Friboi. Tampouco parece responsável designar como interlocutor do empresário Joesley Batista um assessor especial que, horas depois, é filmado carregando a mala com R$ 500 mil.

Para ficar no universo mínimo de uma só palavra, a irresponsabilidade decisiva foi de Temer. Supor que três anos depois da Lava a Jato não só tudo terminaria em pizza, como o dinheiro da propina seria pago diretamente na Pizzaria Camelo.

by Eneko de las Heras (1963-), desenhista venezuelano

Foi Temer sozinho que arruinou suas chances de conduzir as reformas e jogou para fora da pinguela uma grande parte da sociedade, já constrangida com ela, mas vendo-a como a única saída momentânea.

A maioria tem o direito de rejeitar um presidente que se envolve em práticas tão sospechosas. E tem também o direito de achar que ele deva ser investigado, mas que os dados já expostos o desqualificam para o cargo.

Por enquanto, vamos assistir à guerra de Temer contra a Lava a Jato. Apertem, pois, os cintos: o que chamam de estabilidade nós chamamos de turbulência.

(*) Fernando Gabeira é jornalista. O texto reproduzido é parte de artigo publicado em 16 jun 2017. O escrito integral está aqui.

Frase do dia — 335

«Alguns casais eram anacrônicos(1), outros de passo bem marcado. Dilma Rousseff e Michel Temer, Rosa Weber e Luiz Fux. Mestre Gilmar Mendes puxou o Arraial do TSE, mas ofuscado foi pela grande atuação do protagonista, o sanfoneiro Herman Benjamin. Foi ele quem deu o grito: “Olha a cobra!”. Ao que quatro dos sete juízes responderam: “É mentira!”. Anavantu(2)

Monica de Bolle, economista, em artigo publicado pelo Estadão.

(1) Neste caso, o termo anacrônico foi utilizado em contraposição a sincrônico. A autora quis dizer que dançavam fora do tempo, de maneira desordenada.

(2) Anavantu é ordem dada aos pares que dançam quadrilha junina. É deturpação do original francês «En avant tous!» ‒ todos para a frente!

País judiciarizado

José Horta Manzano

«Era abril de 1996 em Assunção. Um golpe estava em andamento contra Juan Carlos Wasmosy, presidente constitucional. Adiantando-se aos fatos, ele mandou para a reforma o general Lino Oviedo, chefe da insurreição ‒ que respondeu com a ameaça de bombardear a residência presidencial.

Ao cabo de três dias dignos de filme de suspense, Wasmosy recebeu telefonema de Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil. Era para expressar seu apoio. Mas não foi mero bate-papo telefônico. A chancelaria brasileira tratou de despachar um avião para recolher os demais ministros de Relações Exteriores dos países do Mercosul para levá-los a Assunção.

O motim foi neutralizado. Alguns terão certamente etiquetado os fatos como ingerência em assuntos internos do Paraguai. Esse golpe foi exatamente o motivo pelo qual o Mercosul conta hoje com a cláusula democrática, consagrada pelo Protocolo de Ushuaia, assinado em 1998. Diante das crises, mais instituições.»

A citação acima é parte do excelente artigo ‘Indispensable Brasil’, escrito estes dias pelo cientista político argentino Héctor E. Schamis e publicado no jornal espanhol El País. Vale a leitura. Quem estiver interessado clique aqui.

«Diante das crises, mais instituições [são criadas]», a última frase da citação, merece reflexão. É fato. Quando situações de alto poder explosivo se esgotam, o risco é grande de serem substituídas por ordenamento ostensivamente oposto.

Nem precisa ir muito longe pra encontrar exemplo. Em nosso país, em meados dos anos 80, após a falência de um regime duro e repressivo que tinha durado duas décadas, a tendência era reorganizar a sociedade para mantê-la o mais longe possível de derivas autoritárias. Nova Constituição foi negociada. O temor de que o regime descambasse de novo não foi bom conselheiro. A Carta saiu exageradamente liberal, com muitos ‘podes’ e pouquíssimos ‘não-podes’, recheada de ‘direitos’ e parca de ‘deveres’.

Muitas das distorções que nos atormentam hoje vêm justamente das boas intenções dos constituintes de 1988. A liberalização exagerada acabou gerando descontrole. Mensalões e petrolões são filhotes tardios daquele estado de espírito. E olhe que tivemos sorte de não terminar como a Venezuela, sufocada por um autoritarismo desesperado. Estávamos caminhando para a mesma situação. Era um paradoxo. Estávamos resvalando pela ladeira da qual os constituintes tudo fizeram para nos resguardar.

A crise está de novo aí. Desta vez, é política, insitucional, econômica e moral. Um pacote de mazelas pra ninguém botar defeito. Como vai se resolver, ninguém sabe. É possível que, aos trancos e barrancos, cheguemos às eleições previstas para 2018. Não é impossível que uma PEC qualquer nos leve pelo caminho de eleições antecipadas. Pode ainda ser que uma emenda nos traga regime parlamentarista. Nem a restauração da monarquia está excluída da lista de possibilidades ‒ aliás, no meu entender, está entre as boas opções.

O importante é evitar todo exagero. Nossa república já se tornou por demais judiciarizada. Por um sim, por um não, contrata-se advogado, pede-se habeas corpus, apela-se para cortes superiores, chega-se até STF. Há que ter cuidado para não nos tornarmos um país onde tudo e qualquer coisa se decide dentro de um tribunal diante de um juiz. A justiça deve estar ao alcance de todo cidadão, mas abusar dela pode ser nocivo ao país. É questão de bom senso.

Foro privilegiado

José Horta Manzano

«A igualdade, no direito penal, é um mito. As pessoas, nessa área, não são tratadas de forma isonômica. A desigualdade vem do tempo da sociedade aristocrática (1500-1888). Os iguais (ou considerados tais) pelas elites governantes sempre tiveram privilégios (de pena menor, de serem julgados pelos seus pares etc.), que perduraram mesmo durante a república (1889 até os dias atuais). Um dos grupos escandalosamente privilegiados é o dos parlamentares, que desfrutam (ainda hoje) de várias imunidades e prerrogativas.»

Luiz Flávio Gomes, doutor em Direito Penal. Para ler o texto integral, clique aqui.

Privilégios têm a vida longa. Quem tem direito tradicional a tratamento especial reluta em se conformar com tratamento comum. É da vida. Ninguém abre mão, com prazer, de cuidados diferenciados. A reação normal é agarrar-se às vantagens.

O Brasil atravessa um período conturbado. Sem dúvida, historiadores se debruçarão, daqui a dois séculos, sobre esta fase de contestação de costumes enraizados. Guardadas as devidas proporções, estamos passando por uma Revolução Francesa sem guilhotina.

Quem poderia imaginar, dois ou três anos atrás, a possibilidade real de um ex-presidente da República terminar atrás das grades ‒ tudo dentro da lei, sem revolução, sem levante militar, sem insurreição? Pois o mesmo destino ameaça figurões das altas esferas, que imaginávamos todo-poderosos e intocáveis. Sem contar os que já tomaram pensão no xilindró.

O Parlamento discute estes dias sobre o famigerado foro privilegiado, destinado a julgar crimes cometidos por medalhões. Tecnicamente, para suavizar a noção de privilégio, deve-se dizer «prerrogativa de foro», o que vem a ser rigorosamente a mesma coisa. É aberração que vem de longe.

Por que, diabos, acusados que ocupam funções de destaque na vida pública teriam direito a ser julgados por tribunal extraordinário? Por que o delito cometido por seu Zé da esquina será arbitrado por um juiz comum enquanto a rapina milionária de Sua Excelência será apreciada pelos mais altos magistrados da nação? A distorção tem sabor «ancien régime»(*).

É normal e necessário garantir imunidade a parlamentares, ministros, governadores e, naturalmente, ao presidente da República enquanto durar o mandato. Essa imunidade, no entanto, pode ser suspensa ‒ pela Câmara, pelo Senado ou pelo STF, conforme o caso. Quando isso ocorre, o bom senso ensina que o acusado enfrente a justiça comum, como qualquer cidadão.

Pelo sacolejar da carroça, parece que o Congresso se dirige para essa conclusão. Assim mesmo, preconiza-se manter o famigerado foro privilegiado para o chefe de cada um dos três poderes. Não atino com a razão. Seriam esses três personagens mais iguais que os demais? Se dependesse de mim, aboliria a prerrogativa de foro para todos os cidadãos. Que se distribua a todos a mesma justiça, que não vejo justificativa para a distinção de tratamento.

Em resumo: imunidade, sim; foro privilegiado, não. Para ninguém.

(*) Ancien régime (regime antigo) é o nome que se dá à escala de valores e ao regime absolutista anterior à Revolução Francesa.

O cabo e o duque

Elio Gáspari (*)

Para a crônica das condecorações do príncipe Philip e da sua mania de fazer piada com as medalhas alheias:

Não teria sido um almirante argentino quem devolveu um comentário grosseiro do duque de Edimburgo, mas um brasileiro, o almirante Heitor Lopes de Souza. Ele comandava o corpo de Fuzileiros Navais em 1968, quando a rainha e seu marido vieram ao Brasil.

Dois anos depois, ele contou o caso ao seu amigo Luís Fernando Freire. Philip disse-lhe que, com tantas condecorações no uniforme, deveria ter combatido em muitas guerras, ao que Heitor respondeu: “Não, mas estas medalhas eu não as ganhei na cama”.

Muitas serão as versões dessa piada, mas uma coisa é certa, o almirante não tinha papas na língua. Seu apelido era “Cabo Heitor”.

(*) Elio Gáspari é jornalista. Seus artigos são publicados por numerosos jornais.

Cantando de olhos fechados

Ruy Castro (*)

Ella Fitzgerald (1917-1996), que teria completado 100 anos na segunda-feira 24 de abril, deixou em aberto uma pergunta que talvez não comporte resposta: era uma cantora de jazz ou uma cantora popular?

(…)

Fisicamente, Ella lembrava um contrabaixo. Mas, ao cantar, soava como um violino. Cantava de olhos fechados, como se quisesse que a plateia enxergasse apenas a sua voz.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto aqui reproduzido é citação de artigo publicado originalmente pela Folha de São Paulo.

Dinheiro “doado”

Políbio Braga (*)

Que ninguém se engane com a sem-cerimônia com que Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo, mais os 76 outros delatores da Odebrecht, falam das “doações” que fizeram.

É que o dinheiro nunca foi deles. O dinheiro “doado” nunca foi da Odebrecht, foi sempre do povo brasileiro.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Era tudo roubado da Petrobrás e de outros contratos superfaturados, portanto era dinheiro do povo brasileiro que eles tungavam e, em parte, repassavam a Lula e a seus comparsas dentro e fora do governo e do Congresso.

(*) Políbio Braga é jornalista e blogueiro de grande popularidade especialmente no Sul do país.

Filme queimado fora do país

Ana Fonseca (*)

Credibilidade é uma coisa que se conquista ao longo de muitos anos. E, quando quebrada, pode levar muito tempo (digo décadas, mesmo) para se recuperar.

Eu tenho muita atenção em servir os melhores produtos para minha família e meus convidados. A melhor carne, os melhores ovos, vegetais orgânicos, nada de soja, nada de colorantes. Talheres brasileiros da Tramontina durante churrascos. Farinheiras feitas de madeira lustrosa brasileira, lindas, lindas, e que eu uso para molho à campanha. Até panela negra de moqueca eu tenho na Holanda.

Mas a partir de agora, carne brasileira é matéria non grata na minha mesa. Acho isso profundamente triste. Estou extremamente melancólica. Virou tabu de conversa entre eu e meu marido holandês. Ele sabe que eu me sinto mal a respeito desse escândalo. Eu sei que ele sabe das notícias e que a carne lá no nosso freezer tem que ser jogada fora, por via das dúvidas.

Não vou estranhar nada nem ficar abalada se minha filha, numa situação não tão surrealista, chegar em casa chorando dizendo que as amiguinhas disseram que “No Brasil, as pessoas comem carne podre”.

Jaula para esses fiscais corruptos!

(*) Ana Fonseca vive na Holanda há quase duas décadas. De lá, administra o blogue Brasil com Z. O texto que publico foi extraído de artigo que saiu no Brasil com Z em 21 março 2017.

Nota
Vegetariano há mais de 30 anos, este blogueiro não se sente à vontade para comentar o assunto. Assim, prefere manter distância do mais recente escândalo tupiniquim.

Os 100 anos de Jânio

Sebastião Nery (*)

Chegamos cedo, dez da manhã. José Aparecido de Oliveira, o poeta Gerardo Mello Mourão e eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na rua Santo Amaro n° 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado.

Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio Quadros. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos, Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Aparecido pediu um vinho branco. Jânio escandia as sílabas:

‒ Zé, o Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Vinho branco é uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Se vinho branco fosse vinho, a missa seria com vinho branco. Já viram missa com vinho branco? Os grandes porres da Bíblia, de Noé, de Davi foram todos com vinho tinto, sim. Quando Jesus transformou água em vinho nas Bodas de Caná, o vinho saiu tinto. E era tinto o vinho da Última Ceia.

vinho-4Fomos para o almoço ‒ a mesa farta e colorida. Já estávamos no cafezinho, antes do conhaque e do charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio encrespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelos cabelos e geme fundo:

– Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!

As lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta:

– Muriçoca! Muriçoca morreu!

Perplexos, levantamo-nos todos. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente. Dona Eloá tenta levantá-lo:

– Jânio, temos outros cães no jardim. Ela se foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth ma deu. Quando me cassaram, quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor.

Dona Eloá olhou para nós, desolada:

– Não diga isso, Jânio. Sabe que não é verdade. Aqui estão os amigos.

– Amigos, Eloá, amigos… Mas a Muriçoca era um pedaço de mim.

janio-6Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados. Revirava os olhos e arquejava. E nos braços, o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin, Muriçoca.

– Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas, no vértice do jardim. Ficará eterna na saudade, sob uma lápide de bronze.

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Catalunha. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

– Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até o último dia.

Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía. Voltei lá outros dias. No vértice do jardim, uma lápide de bronze cobria o tumulo de Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou Muriçoca.

Interligne 18c

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.