Antepassados analfabetos

José Horta Manzano

Primeiro, uma afirmação peremptória: todos nós temos antepassados que nunca aprenderam a ler nem a escrever. Basta lembrar que, como ninguém foi trazido no bico da cegonha, descendemos todos de seres selvagens. Que tenham vindo das savanas africanas, das cavernas europeias, das grutas extremo-orientais ou das florestas tropicais, todos temos antepassados analfabetos. Podem ser mais distantes ou mais próximos, mas, lá na origem, a realidade é sempre a mesma.

Cento e cinquenta anos atrás, só ínfima porção da população do país era letrada. Também dos estrangeiros que aportavam, boa parte era constituída de analfabetos. Não há que se envergonhar disso, que era assim no mundo todo. Do encontro desses dois contingentes de semiletrados, algumas consequências nos afetam ainda hoje. Uma delas é a deturpação na grafia do nome de família de imigrados.

Vários fatores se conjugaram para generalizar erros na transcrição:

  • A dificuldade de compreensão mútua entre o que chegava e o encarregado de registrar a entrada
  • A imprecisão de documentos de viagem
  • O iletrismo que grassava à época
  • A necessidade de transcrição de nomes que, na origem, não eram grafados em alfabeto latino
  • O stress do momento

Ainda está para ser feito estudo para quantificar a frequência de erros de grafia de sobrenomes importados. Eu arriscaria dizer que um em cada quatro ou, quem sabe, até um em cada três nomes está mal escrito e não bate com o original.

Estes dias, duas figuras de primeiro plano estão em todas as bocas. São os doutores Bolsonaro e Bebianno, respectivamente presidente da República e (quase ex-) ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Além do título imponente, têm ambos um ponto em comum: a grafia estropiada do sobrenome.

Bolsonaro
Tudo indica que Bolsonaro é transcrição errônea do original Bolzonaro. Etimologistas e genealogistas não estão totalmente de acordo, mas deveria tratar-se de topônimo, isto é, nome de lugar geográfico. O patriarca da família ‒ aquele que, lá pelo século 13, legou sobrenome à descendência ‒ há de ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza (Vêneto), Itália. Outra corrente propõe o vocábulo dialetal vêneto ‘bolzon’ como origem. É palavra-ônibus de múltiplos significados. Na Itália, Bolzon sobrevive como nome de família.

Bebianno
O original italiano se escreve Bibbiano, com dois bb e um só n. Esse sobrenome é um patronímico, ou seja, deriva do prenome do patriarca que deu nome à estirpe. Esse antepassado longínquo há de ter recebido o prenome de Bibiano, que lhe terá sido dado em devoção a São Bibiano (São Viviano). Na Itália, restam pouquíssimas famílias com esse sobrenome, concentradas no sul do país.

Pessoalmente, não gostaria de carregar um nome mal grafado. Parece que emperra a vida. Faria o possível e o impossível pra consertá-lo. Seja como for, com nome certo ou errado, é importante ser sempre claro em gestos e palavras. Os dois protagonistas citados neste post caíram na cilada da comunicação truncada e obscura. As intrigas palacianas, que saltam sobre qualquer ocasião, deram conta da cordialidade que terá um dia existido entre os dois. Nesse episódio, só houve perdedores. Por falta de clareza, saíram ambos chamuscados e diminuídos.

O cidadão de Floresta

José Horta Manzano

Faz séculos que a Sicília, aquela ilha de aspecto triangular que aparece ao pé da bota italiana, vem sofrendo com a truculência da máfia local, uma das mais violentas do planeta. Depois da queda do Partido Democrata Cristão, o índice de selvajaria diminuiu, é verdade, mas não desapareceu de todo.

Aos 75 anos de idade, signor Antonino Cappadona, prefeito do vilarejo siciliano de Floresta, conheceu a Itália dos anos de chumbo. Naquela década de 1970, dia sim, outro também, o país era sacudido por atentados mafiosos e assassinatos terroristas. Daquela época, o (hoje velho) homem político há de ter guardado lembrança pavorosa.

Floresta, província de Messina, Sicília, Itália

É por isso que, como todos os italianos, acompanhou angustiado a acolhida dada pelo Lula ao terrorista Cesare Battisti. Como todos os conterrâneos, sofreu esperançoso durante os vaivéns da novela da extradição do condenado. Como os demais compatriotas, exultou quando o evadido foi recapturado, repatriado e despachado a prisão de segurança máxima.

Apesar de ter prometido extraditá-lo, o Brasil não chegou a honrar o compromisso, dado que a Bolívia, sem frescura, entregou homem aos policiais italianos que o tinham vindo buscar. Pouco importa ‒ o que ficou marcado foi a promessa eleitoral de doutor Bolsonaro. A entrega de Battisti contou como se a extradição tivesse sido obra do Brasil.

Floresta, o vilarejo de montanha siciliano, tem população pra lá de modesta: não chega a 500 almas. Descomplexado mas feliz ao ver mais um assassino atrás das grades, signor Cappadona hasteou a bandeira brasileira, ao lado da italiana, na sacada da bela fachada de pedra da prefeitura. E não ficou por aí. Sob proposição sua, a câmara aprovou a concessão de cidadania honorária a doutor Jair Bolsonaro.

Nosso presidente, agora o mais novo cidadão honorário de Floresta, foi convidado a visitar o povoado pra receber pessoalmente a homenagem. O prefeito Cappadona contou que ficaria feliz se, pela mesma ocasião, pudessem estar presentes os familiares das quatro vítimas por cuja morte Battisti foi condenado.

Ainda que doutor Bolsonaro desejasse dar uma passadinha por Floresta, as exigências da segurança presidencial tornam a visita problemática. Dificilmente ele subirá as encostas das montanhas sicilianas. Tem nada, não. Valeu a intenção.

O anjo negro e o pitbull

José Horta Manzano

Como todo homem de mão forte, Getúlio Vargas contava com um círculo fechado de devotos abnegados e dispostos a tudo a fim de proteger o capo. Seus irmãos Lutero e Benjamim encaixaram-se no papel de fiéis escudeiros mas o fiel entre os fiéis, o devoto entre os devotos, o leal entre os leais, era Gregório Fortunato.

Chamado de Anjo Negro, Fortunato era de origem humilde. Seus pais tinham sido escravos. Desde muito jovem serviu à família Vargas, ainda no Rio Grande. À medida que Getúlio assumiu posições importantes na vida política, a presença discreta do ‘anjo da guarda’ se afirmou. Misto de guarda-costas e faz-tudo, Fortunato chefiava a guarda pessoal de Getúlio.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, o Anjo Negro

Em 1954, quando Vargas já estava no quarto ano de mandato presidencial, os ventos sopravam de quadrante adverso. Intensa campanha política, capitaneada pelo tribuno Carlos Lacerda, não dava trégua. Dono do jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda não passava um dia sem lançar mais um ataque feroz ao presidente ‒ um ‘tirano corrupto’, em sua opinião.

Na noite de 5 de agosto daquele ano, Lacerda caminhava em companhia de um amigo pela rua Tonelero, em Copacabana, quando foi vítima de um atentado. Ambos foram alvo de tiroteio. O tribuno se safou com um ferimento no pé, mas o major Vaz, o amigo que o acompanhava, foi atingido mortalmente. Dado que o major não tinha inimigos, ficou claro que o destinatário das balas era Lacerda.

A emboscada provocou terremoto no país. Foi a gota d’água pra acelerar o desenlace da tensa situação. Menos de três semanas depois, pressionado pelos próprios ministros a renunciar ao mandato, Getúlio resmungou que ‘só deixaria o Catete morto’(*). Naquela mesma madrugada de 24 de agosto, suicidou-se.

Acusado de ser o mandante do crime, o Anjo Negro foi julgado e condenado a 25 anos de cadeia. Sucessivamente, os presidentes Juscelino e Jango lhe concederiam graça parcial, reduzindo a pena a 15 anos. Não deu tempo. Quando já levava seis anos encarcerado, Fortunato foi assassinado na prisão. Pareceu queima de arquivo, mas as investigações deram em nada. Ninguém estava interessado em revolver a poeira. Acabou ficando por isso mesmo.

Tribuna da Imprensa, 5 ago 1954
Relato da emboscada de que Lacerda foi vítima

Doutor Bolsonaro, subido recentemente a posto de relevo, ainda não formou círculo íntimo consistente. Em volta dele, agitam-se pretendentes. Desde já, tudo indica que o filho Carlos se esteja impondo como anjo da guarda maior. Apesar de ter recebido do povo carioca um mandato para representá-lo na Câmara Municipal, o moço não sai do pé do pai. Dizem que assiste, com o beneplácito paterno, às conversas reservadas do presidente com todos os visitantes. Há de ser constrangedor pra quem chega desprevenido.

Num século 21 menos aveludado que o anterior, desprezam-se as formalidades. Em vez de ‘anjo’ (negro ou branco), doutor Bolsonaro prefere descrever o filhote como ‘meu pitbull’. Está longe de ser engraçado. Essa atmosfera de família real, em que o chefe precisa da presença constante de um cão de guarda feroz, é inquietante. Aparentemente, ainda estamos longe de desembocar numa tragédia como a de agosto de 1954, mas doutor Bolsonaro deveria dar uns retoques no desenho da guarda presidencial. Nunca é bom facilitar.

(*) O Catete funcionava como palácio presidencial antes da transferência da capital para Brasília. Hoje está instalado ali o Museu da República.

O gato e o biscoito

José Horta Manzano

Não somos os únicos a achar que gato, só porque nasceu no forno, é biscoito. Outros também incorrem nesse erro primário.

A lei argentina de nacionalidade diz o seguinte:

“Son argentinos todos los individuos nacidos en el territorio de la República, sea cual fuere la nacionalidad de sus padres, con excepción de los hijos de ministros extranjeros y miembros de la legación residentes en la República.”

Portanto, a nacionalidade do pais hermano é garantida a todos os nascidos no território salvo a filhos de funcionários estrangeiros que estiverem no país a serviço. Nesse ponto, a lei argentina e a brasileira são idênticas.

A propósito da morte do jornalista Ricardo Boéchat, o jornal Clarín, de Buenos Aires, estampou a manchete abaixo.

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Na tentativa de se apoderar do ilustre falecido, escorregaram no biscoito do gato do forno. O jornalista realmente nasceu em Buenos Aires. No entanto, seu pai, diplomata, estava a serviço do governo brasileiro. Sua situação é claramente definida, tanto na lei de nacionalidade de lá quanto na de cá: não nasceu argentino, mas brasileiro. Se tivesse desejado adquirir a nacionalidade do país hermano, teria tido de enfrentar processo ordinário de naturalização, como qualquer estrangeiro.

Boéchat nasceu e morreu brasileiro. Portava um sobrenome suíço, da região das montanhas do Jura. Não estou a par dos segredos da família dele mas, se tiver sido realmente descendente de suíços, teria tido direito a reclamar o passaporte helvético. Não sei se chegou a fazê-lo.

Guerra nas Estrelas ‒ versão século 21

José Horta Manzano

No início dos anos 1980, a tensão entre as duas superpotências andava pelas alturas, com a atmosfera carregada de eletricidade. Em 1983, Ronald Reagan, presidente dos EUA, lançou sua Guerra nas Estrelas, programa de armamento militar. O nome oficial era Iniciativa Estratégica de Defesa ‒ SDI, na sigla inglesa.

No oficial, o objetivo era dotar o espaço de um cinturão de armas sofisticadas, aptas a defender os Estados Unidos de um ataque nuclear proveniente da Rússia. No paralelo, supõe-se que o aspecto militar fosse apenas fachada. O programa era bem mais astucioso. A intenção era passar uma rasteira na já combalida economia da União Soviética.

A esperteza deu certo. Ao se dar conta de que Washington tinha a intenção de militarizar o espaço, Moscou não quis ficar pra trás. Subtraiu bilhões de rublos ao orçamento do país para torrá-los em projetos militares. Poucos anos bastaram para mandar ao chão a economia soviética. Veio a época das longas filas de gente decepcionada à porta de supermercados vazios. Esse desalento popular preparou o terreno para o fim do regime comunista e da própria União Soviética.

Faz duas semanas, Donald Trump, em pronunciamento impactante, anunciou que seu país estava se retirando de um tratado militar concluído com a Rússia trinta anos atrás. Com a retirada dos EUA, o tratado deixa de existir, pois eram apenas dois os países signatários. O acordo era um marco no desarmamento. Tratava da redução de mísseis de curto e médio alcance. Com o desaparecimento do tratado, os EUA se veem livres de aumentar sua produção de mísseis e de instalá-los onde bem entenderem ‒ inclusive nas cercanias da Rússia, caso os aliados europeus consintam.

Vladimir Putin, dando sinais de que compra a briga, exprimiu publicamente seu temor de que esse gesto americano conduza a nova corrida armamentista. As mesmas causas costumam produzir os mesmos efeitos. Nos anos 80, a Guerra nas Estrelas de Reagan levou a URSS a despender grande esforço financeiro para acompanhar a corrida. Quarenta anos depois, a atitude belicosa de Trump periga levar a Rússia a gastar o que tem e o que não tem para tentar manter o status de segunda potência militar do planeta ‒ diante de uma China que ameaça surrupiar-lhe a classificação.

Para a Rússia, a guerra está perdida antes de começar. Diante do americano, o PIB russo (1,7 trilhões de dólares) é raquítico. O PIB dos EUA é dez vezes maior. Se Putin topar realmente o desafio, vai abrir caminho para a desintegração da economia de seu país.

Não sei que razões terão levado Mr. Trump a abandonar o tratado de quarenta anos atrás. Atabalhoado (e mal aconselhado), é bem capaz de ter simplesmente dado uma cabeçada a mais, sem medir consequências. Como diz o outro, atirou no que viu e acertou no que não viu.

Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Da Vice-Presidência

José Horta Manzano

Uma de minhas birras recorrentes liga-se à figura bizarra do vice-presidente da República. O Artigo 79 da Constituição, o único que explica para que serve o vice, diz o seguinte: «Substituirá o Presidente, no caso de impedimento, e suceder-lhe-á, no de vaga, o Vice-Presidente». É só, mais nada. Outras atribuições do vice ficaram pra ser especificadas em lei complementar, lei esta que nunca foi votada.

Assim sendo, além de aparecer nas fotos e consumir dinheiro público com salário, mordomias, transporte, segurança e manutenção do Palácio do Jaburu e da respectiva criadagem, o vice só serve pra substituir o titular em caso de impedimento deste. A palavra impedimento, para o pessoal do andar de cima, parece ter significado diferente do que lhe atribuímos nós outros, do andar térreo. É curioso.

Quando o presidente viaja para o exterior, servem-nos o requentado prato da despedida ao pé do avião, aformoseada com a cerimônia da transmissão de poder do titular ao vice. A transferência de poder é perfeitamente dispensável na era da comunicação planetária instantânea. Onde quer que esteja o presidente, as informações de Brasília lhe chegarão na hora, permitindo tomada de decisão imediata. Um vice imbuído de poderes presidenciais só traz confusão: durante esse período, o país conta com dois presidentes, ambos válidos e legítimos.

Quando Sua Excelência é internado para operação severa que o deixará fora do ar por semanas, aí sim, seria hora de o vice assumir as rédeas. No entanto, que vemos? Um presidente acamado, entubado, febril, doente, mas oficialmente em função. E um vice-presidente serelepe, pimpante, falante, sorridente, livre, desimpedido, mas… sem função de mando nem autoridade para tanto.

Se esta não é a hora de passar por cima de resistências do clã presidencial e transmitir logo os poderes ao vice, quando será?

Países que mudam de nome

José Horta Manzano

Um país que muda de nome? Não é coisa que se veja todo dia, mas acontece. As razões são várias. Entre elas, o apagamento da lembrança do antigo colonizador ou a adaptação do nome a nova realidade política.

No século 20, a descolonização da África levou à criação de dezenas de países. Alguns deles nem nome tinham. Outros guardaram o que já levavam desde os tempos coloniais. Uns poucos, por razões que lhes são próprias, decidiram mandar a denominação antiga pra lata do lixo e adotar nova.

Com a explosão da União Soviética e da Iugoslávia, surgiram países novos, que não existiam antes como entidades independentes. Não se pode dizer que tenham trocado de nome ‒ simplesmente a denominação subjacente deixou de ser tabu e veio à luz.

Aqui vai um elenco de países que realmente trocaram de nome.

Alto Volta
O nome vinha do tempo dos descobridores portugueses. Não se sabe bem por que razão, os lusos deram à embocadura de um grande curso d’água o nome de Rio da Volta. Pode ser que pensassem na volta pra casa. Pode ser também que se referissem simplesmente a uma das voltas do rio. Navegando rio acima, chegaram a uma região à qual deram o nome de Alto Volta ‒ em oposição ao estuário, o Baixo Volta. O país que ali se constituiu com a descolonização ficou com esse nome. Em 1984, mudaram para Burkina Faso. Para nós, que temos o Alto Amazonas e o Baixo Guandu, o nome antigo soava mais familiar.

Daomé
O Reino do Daomé aparece até em letra de samba. A República do Daomé virou República do Benin faz pouco mais de 40 anos.

Rodésia
Na parte sul do continente africano, ao tempo da colonização britânica, havia duas regiões bem delimitadas cujo nome homenageava o homem político milionário Cecil Rhodes: a Rodésia do Norte e a do Sul. Independentes, os novos países descartaram o nome antigo. A Rodésia do Norte passou a chamar-se Zâmbia. E a Rodésia do Sul é o atual Zimbábue.

Bechuanaland
Situado ao norte da atual África do Sul, estava um protetorado britânico chamado Bechuanaland ‒ a terra dos Tsuanas, um grupo étnico local. Com a independência, desfizeram a anglicização do nome para aproximá-lo da pronúncia local. A forma britânica bechuana deu lugar ao atual Botsuana.

Congo Belga
O Congo Belga, imenso território equatorial africano quase tão grande quanto a Argentina, não era colônia do Estado Belga, mas propriedade pessoal do rei da Bélgica. Essa condição, no século 21, parece alucinante. Na época, ninguém se escandalizava. Com a descolonização, o país adotou o nome de Zaíre, que é o aportuguesamento de uma palavra local que significa rio. Guardou essa denominação até que o longevo ditador Mobutu se foi, em 1997. Após a morte do mandachuva, o nome tradicional ‒ Congo ‒ foi restabelecido. Esse país teve três nomes diferentes em menos de 50 anos.

Guiana Inglesa e Guiana Holandesa
Até os anos 1950, na fronteira norte no Brasil, havia três Guianas: a inglesa, a holandesa e a francesa. Na onda de descolonizações dos anos 1960, a inglesa e a holandesa viraram países independentes. A antiga Guiana Holandesa é o Suriname. A Guiana Inglesa adotou o originalíssimo nome de… Guiana. A francesa é colônia até hoje. Faz fronteira com o Amapá.

Paquistão Oriental
Em 1947, quando a Índia se libertou do domínio inglês, o imenso território foi dividido, por razões de religião, em dois países: a Índia e o Paquistão. Na Índia, ficavam os fiéis do hinduísmo. No Paquistão, os muçulmanos. O problema é que a religião islâmica era predominante em duas regiões, uma a oeste e outra a leste, com a enorme Índia hinduísta no meio. Os britânicos imaginaram que daria certo inventar, para os maometanos, um país dividido em dois. Foi assim que criaram um Paquistão independente mas dividido em dois pedaços. A complicada situação não durou muito. Depois de muita luta, o Paquistão Oriental se separou do irmão ocidental e adotou o nome de Bangladesh.

Ceilão
A Ilha de Ceilão já foi conhecida como Taprobana, aquele lugar fantástico citado n’Os Lusíadas. Em 1972, o nome, de perfume tão exótico, foi mudado para um sem graça e impronunciável Sri Lanka. Desapareceu o antigo nome, aquele que tinha sabor de especiarias orientais.

Birmânia
Burma era a adaptação para a fonética inglesa do nome do país. Em 1989, numa onda de nacionalismo, o governo militar impôs nova transcrição. Onde se lia Burma, passou-se a ler Mianmar. Nem todos seguiram a ordem. A mídia de língua inglesa acompanhou, mas a francesa não. Afinal, o nome antigo não é ofensivo. Birmanie soa melhor.

Estados Unidos do Brasil
Essa é birra minha. Costumo dizer que meu país mudou de nome sem me consultar. Não nasci na República Federativa do Brasil, mas nos Estados Unidos do Brasil. Tenho certidão de nascimento que não me deixa mentir. Não entendo por que razão o regime de governo tem de aparecer colado ao nome do país. Brasil basta, sem mais nada.

Assombro na porta da Colombo

Álvaro Costa e Silva (*)

Youtubers, influencers e humoristas de direita, com milhões de seguidores nas redes sociais, sequer imaginam a popularidade de que desfrutou Olavo Bilac. Em plena belle époque carioca, uma multidinha se formava em frente à Confeitaria Colombo só para ver o Príncipe dos Poetas que, no auge dos 30 anos, era uma espécie de monumento da nação. Seus poemas eram devorados e decorados pelos leitores.

Como todo príncipe e todo monumento, caprichava na pose. Seu nome completo era um alexandrino: Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac. De elegante perfil parnasiano, postava-se de monóculo para disfarçar o estrabismo. Também era prognata (o popular chove-dentro) e torcedor do Botafogo, mas moçoilas, madames e marmanjos não ligavam. Afinal, ele era capaz de ouvir e entender as estrelas.

Confeitaria Colombo, Rio de Janeiro

Com o tempo e o estigma (atribuído pelos modernistas) de poeta jocoso, tornou-se sinônimo de formalismo e alienação. Uma injustiça que se reflete hoje: nada se fez para lembrar o centenário de sua morte ocorrida em dezembro de 1918. O Bilac maduro se envolveu em campanhas patrióticas, entre as quais a luta pelo serviço militar obrigatório (mas isso, nos tempos atuais, seria caso para homenagem, não?).

Acusaram-no de indiferença ao cotidiano dos brasileiros. Besteira. Substituindo Machado de Assis, foi cronista semanal da Gazeta de Notícias de 1897 a 1908. Escreveu sobre Canudos e detalhou o processo de modernização do Rio. Não se pode entender aquele período sem ler Bilac que, como jornalista, envelheceu melhor do que como poeta.

Numa crônica de 1901, em que tratou do uso das imagens na imprensa, antecipou a televisão e ‒ incrível ‒ as redes sociais: “Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices que desejariam ver apagadas ou extintas? Mas, ai! De todos nós! Não há morte para as nossas tolices!”. De pince-nez, Bilac iria arrasar como youtuber.

(*) Álvaro Costa e Silva (1962-) é jornalista e escritor.

Birras

José Horta Manzano

by Tiff, desenhista francês

Prisão sem bloqueador
Nem todos os estabelecimentos penitenciários brasileiros são equipados com bloqueador de celular. Numa época como a nossa, em que o barateamento de dispositivos de vigilância envolveu o mundo numa teia de controles, fica difícil justificar essa ausência de monitoramento justamente onde ele é mais necessário. Se alguém souber o motivo dessa lacuna, por favor mande carta para a redação.

Sem seguro
Em agosto de 2017, um balão caiu no velódromo do Parque Olímpico do Rio de Janeiro e provocou incêndio. Era de noite, ninguém se feriu, mas o prejuízo ficou em 10 milhões de reais. Por mais incrível que possa parecer, a instalação esportiva não tinha seguro contra estragos causados pelo fogo. Como o assunto saiu de foco, nunca mais se falou nisso. A conta foi paga, naturalmente, com dinheiro do contribuinte.

De um prédio público, nem se fala: é inadmissível que não tenha seguro. Mas também de um prédio particular, é estranho que proprietários não se preocupem em proteger o que lhes pertence. Em terras mais civilizadas, seguro residencial contra incêndio é obrigatório. Em geral, a seguradora oferece planos que cobrem também queda de raio, chuva de granizo, inundação, vidraça estilhaçada, roubo por arrombamento. Pagar seguro e nunca ter de utilizá-lo é sempre melhor que perder a casa e descobrir que não tinha seguro.

Nome feio
Crodowaldo, Ketymarani, Frankstein, Izuperiu, Leidi Dai são alguns dos prenomes estranhos carregados por milhões de infelizes conterrâneos nossos. A meu ver, a liberdade de imaginação dos pais termina onde esbarra no direito que o filho tem de portar nome digno. O pobrezinho vai ter de arrastar o nome pelo resto da vida. Não se pode admitir que pais ignorantes ou irresponsáveis deem ao filho prenome estigmatizante.

Por que é que nomes que saem do ordinário não são obrigatoriamente submetidos, antes de serem sacramentados, à apreciação do dono do cartório ‒ que se supõe ser pessoa letrada? Em caso de dúvida, que um juiz seja consultado.

Não prejudicar a vida alheia, por meio de atribuição de nome ridículo, é item importante na lista dos direitos humanos. Nessa matéria, um dique de contenção tem de ser erguido pra proteger inocentes. Portar nome digno é mais importante do que vestir azul ou rosa. Alô, dona Damares!

Árabes e judeus

José Horta Manzano

Apesar da energia despendida pelos governos petistas para promover e alargar linhas de fratura no seio da sociedade brasileira, o estrago não ultrapassou os clichês ligados à aparência física. As famigeradas quotas raciais foram estabelecidas grosseiramente. Na base, guiaram-se apenas pela cor da pele e restringiram-se a distinguir duas categorias: de um lado, pretos e mulatos; de outro, brancos e orientais. A medida tosca se limitou à aparência externa de cada indivíduo. Não tendo descido a minúcias, a estigmatização poupou a diversidade de nossa herança étnica e cultural. Melhor assim.

Nosso país faz parte do clube seleto dos que não ressentem o eco das rusgas entre judeus e árabes. Passando ao largo das desavenças no Oriente Médio, o brasileiro não demonstra preconceito contra nenhum dos dois povos beligerantes. Seria falso dizer que isso ocorre porque não os conhecemos. A sociedade brasileira integra milhões de descendentes de imigrantes árabes e judeus, que são considerados cidadãos exatamente como os outros, nem melhores, nem piores.

O fato de representantes das duas colônias sobressaírem em altos cargos da política nacional não abala ninguém. A mídia nem costuma sublinhar a origem desses personagens. Os árabes Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab, Rosinha Garotinho e Fernando Haddad são conhecidos e apreciados (ou detestados) por motivos que nada têm a ver com a origem de seus antepassados. O mesmo se aplica aos judeus Jaime Lerner, Jacques Wagner, Alberto Goldman e Ilan Goldfajn.

Rainha Silvia da Suécia

No estrangeiro, as paixões são mais vivas. Quando doutor Temer subiu à Presidência, a notícia chegou correndo ao Líbano, terra de seus antepassados. A mídia se empolgou e homenagens foram prestadas ao político brasileiro. No vilarejo de onde vem a família, doutor Temer é nome de rua.

Agora, que doutor Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, foi a vez de a mídia israelense se entusiasmar. Todos salientaram o fato de ser a primeira vez que um judeu chega à Presidência de nossa Câmara Alta.

Note-se que o Brasil é menos efusivo quando algum de seus filhos chega a posição importante no exterior. Temos uma brasileira sentada no trono da Suécia e, no entanto, raramente se tem notícias da rainha Sílvia que, filha de Herr Walther Sommerlath e de dona Alice Soares de Toledo, cresceu no Brasil e fala nossa língua como qualquer conterrâneo. Além da coroa, ela dispõe hoje de tripla nacionalidade: brasileira, alemã e sueca.

Confirmando a convivência pacífica entre comunidades, temos agora o judeu Davi Alcolumbre e a árabe Simone Tebet no Senado, ambos em posição de destaque. A mídia estrangeira pode continuar se entusiasmando. Quanto a nós, vamos torcer pra que as linhas de fratura criadas à força acabem por cicatrizar sem deixar marcas.

Alinhamento automático

José Horta Manzano

Em novembro passado, quando o pai ainda nem havia ainda vestido a faixa, doutor Bolsonaro júnior, em visita a Washington, enfiou na cabeça um boné marcado «Trump 2022». Pela mesma ocasião, encontrou-se com o genro do presidente americano e atirou-lhe flores ao descrevê-lo como ‘um dos mais importantes conselheiros da Casa Branca e grande empresário’.

De lá pra cá, vivemos um não oficial alinhamento automático com a maior potência do planeta. Embora a expressão pareça fácil de entender, não sei exatamente o que significa um país alinhar-se automaticamente com outro. Acho que ninguém sabe direito. Que haja convergência em diversos temas, posso entender. Daí a colar feito sanguessuga me parece complicado. Colônias, protetorados e satélites podem agir assim. País soberano, não.

Não convém que o Brasil grude em outro país, como se sombra fosse. Pouco importa que os EUA sejam a potência dominante. O problema é o mesmo. Com a mudança de dirigentes, a orientação do país que serve de modelo pode se alterar. Quando isso ocorre, como é que fica? Caso apareça novo presidente com ideias semelhantes às de Mr. Obama, um pouco menos America first e um pouco mais globalizantes, que fazemos? Desgrudamos? E se, em seguida, vier outro Trump? Grudamos de novo?

Banquete medieval

Ajustar a política externa é exercício pra lá de delicado. A própria União Europeia ‒ fechado clube de menos de 30 sócios relativamente bem de vida, com níveis de desenvolvimento não muito díspares ‒ tem de fazer exercícios de contorcionismo nesse campo. É virtualmente impossível encontrar solução unificada que contemple o interesse individual de cada membro. Haverá sempre os descontentes, que se recusarão a sentar-se à mesa do banquete.

Tomemos o caso do repúdio ao ditador venezuelano. O apoio explícito a señor Guaidó, presidente autodeclarado, só foi subscrito, até o momento presente, por 19 dos 28 países membros da UE. Os demais, cada um por um motivo que lhe diz respeito, preferem manter distância do conflito e não declarar apoio nem a um nem ao outro. A Grécia nem tenta disfarçar: dá apoio integral ao regime de señor Maduro. E ressalte-se que são todos sócios do mesmo clube.

Enquanto um Brasil entusiasmado apoiou Guaidó desde o primeiro dia, a Itália, apesar de contar com um Salvini tão chegado aos Bolsonaros, difere da maioria dos europeus. Recusa-se a manifestar apoio ao autoproclamado presidente venezuelano. Isso tende a demonstrar que o caminho do alinhamento automático ‒ com quem quer que seja ‒ não nos convém. É insustentável. Atritos e divergências aparecem rapidinho.

Samba de um homem só

José Horta Manzano

Somos duzentos e tantos milhões. Pra enquadrar a marcha da nação e marcar o compasso dos cidadãos, há dezenas de ministros, centenas de parlamentares federais e estaduais, milhares de magistrados, prefeitos, vereadores, altos funcionários. Esse povo todo está lá, numeroso, justamente pra dar equilíbrio ao andamento da máquina. A multiplicidade de atores é garante dessa harmonia. Quando exercido por milhares de autoridades ao mesmo tempo, o poder se dilui, assegurando a despersonalização das diretivas. É importante para o bom funcionamento da democracia representativa.

Entre estarrecido e deprimido, o Brasil assistiu a espetáculo desagradável no fim de semana que passou. O drama representado no palco do Senado Federal foi grotesco, indigno de um país que se quer ‘emergente’. (Bem longe de emergir, ficou claro que ainda falta muito pra botar a cabeça fora d’água.) Só faltaram sopapos, porque o resto se viu: gente falando errado, discursos trôpegos, traições, gritos, atropelos, tentativa primária de fraude, casuísmos, decisões conforme a cabeça do cliente, indisciplina generalizada. Uma barafunda.

E tudo isso por quê? Que é que há de tão importante no cargo de presidente do Senado pra provocar tamanho apetite entre 81 marmanjos? Aí é que reside a negação do poder difuso e equilibrado. O presidente da Câmara Alta detém nas mãos imenso poderio. Cabe a ele ‒ e a ele só ‒ determinar a pauta das deliberações. Um projeto de lei que não lhe agrade? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment de ministro do Supremo, que não lhe pareça oportuno? Vai pra gaveta. Um pedido de impeachment do presidente da República, que não lhe convenha? Vai pra gaveta. Um pedido de suspensão da imunidade de um colega simpático? Vai pra gaveta e lá fica.

by R. Paschoal, ilustrador

Esse poder desmedido dado a um só homem abre as portas pra obscuras transações. Não é à toa que um despeitado Renan, ao jogar a toalha, lamentou ter sido traído por um dos Bolsonaros juniores ‒ aquele que é senador e que anda enrolado com a Justiça. Ficou subentendido que o enrolado dava seu voto em troca do apoio de Renan em caso de pedido de suspensão de imunidade parlamentar. É o toma lá dá cá florido e vigoroso.

O presidente da República tem o direito de governar por decretos, se assim o desejar. Isso lhe confere poder discricionário. Um solitário ministro do STF tem o direito de expedir decisões que balançam as estruturas da República. Isso lhe confere poder discricionário. Agora sabemos que também o presidente do Senado detém o controle do que será ou não votado. Isso lhe confere poder discricionário.

Conclui-se que, no frigir dos ovos, passando por cima dos milhares de pequenas autoridades que exercem um nacozinho do poder global, o grosso mesmo está concentrado nas mãos de um punhado de indivíduos, que se podem contar nos dedos das mãos. Cada um deles, quando age solitário, nos faz dançar o samba de um homem só.

Observação
Davi Samuel Alcolumbre (1977-) é o novo presidente do Senado. O intrigante e raro sobrenome é judeu sefardi(*). Os antepassados de doutor Alcolumbre hão de ter deixado um dia a Espanha, muito provavelmente quando da expulsão de 1492, para se estabelecerem nalgum país do leste do Mediterrâneo, de onde, séculos depois, emigraram para o Brasil. A grafia do nome flutua conforme a transcrição: Alcolumbre, Alculumbre, Alkulumbre são algumas das variantes.

O «Al» inicial denota arabização. De fato, ‘al’ é o artigo em árabe. Essa característica do nome Alcolumbre reforça a tese de a família estar estabelecida na Espanha à época do domínio mouro, que durou sete séculos.

(*) Diz-se sefardi (plural: sefardim) dos judeus originários da Península Ibérica. Em hebreu moderno, Sefarad é o nome dado à Espanha.

Com ou sem crase? ‒ respostas

Dad Squarisi (*)

Aqui está a solução do teste de ontem sobre o emprego do sinal indicativo de crase.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer às mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes às duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu à sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava à toa na vida.

10. Aquela pasta é igual à que comprei.

11. Fez prova semelhante à de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou à conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h às 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a (à) tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê à vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h às 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido à percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido à falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar à frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol à brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se à Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei à Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a (à) Teresinha.

36. Retornou à casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde às expectativas do grupo.

40. Colocou o painel à direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a (à) instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá às pessoas.

43. Fez referência a (à) minha tia e à sua.

44. Dirigiu-se àqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se às que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria à qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou à casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente à distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife à milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. À medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores à beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas à senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui à Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Com ou sem crase?

Dad Squarisi (*)

Muitas vezes, o uso da crase dá dor de cabeça. Vai aqui abaixo um teste com 65 questões sobre o emprego do sinalzinho indicativo de crase. O distinto leitor está convidado a examinar cada frase e anotar se o a (as) deve ou não receber acento grave. As respostas serão publicadas amanhã.

1. O governador vai a Santa Cruz domingo de manhã.

2. Tinha de agradecer muita coisa a muita gente.

3. Empregados domésticos têm direito a férias.

4. Convém esclarecer as mães solteiras de seus direitos.

5. Eis as notas promissórias correspondentes as duas últimas prestações.

6. O presidente compareceu a sessão solene de instalação dos trabalhos legislativos.

7. O sistema está parado desde as 15h30.

8. Não é essa a blusa a que me referia.

9. Estava a toa na vida.

10. Aquela pasta é igual a que comprei.

11. Fez prova semelhante a de Maria.

12. Ele pertence a uma academia com projeção nacional.

13. Não foi possível chegar a conclusão alguma.

14. Chegou a conclusão de que não valia a pena.

15. Conseguiu o emprego devido a suas qualidades.

16. A secretaria funcionará de segunda a quinta das 14h as 18h30.

17. Na faixa leste do estado, o tempo está sujeito a instabilidade passageira.

18. Ante as arremetidas dos opositores, o parlamentar se recolheu sem reação.

19. A declaração pode ser preenchida a lápis ou a tinta.

20. Considerando os difíceis processos apresentados, sente-se o comitê a vontade para expressar…

21. Dirigiu a S. Exª os agradecimentos da noite.

22. O expediente será das 8h as 10h.

23. Todo infrator está sujeito a punição.

24. A situação atual, dada a ignorância dos presentes, tende a piorar.

25. Fica prejudicado o contribuinte de rendas médias devido a percentagem de apenas 55%.

26. Não pude sair devido a falta de tempo.

27. A regra também se pode aplicar a frase de Irene.

28. A regra também se pode aplicar a esta frase.

29. Espera-se um futebol a brasileira.

30. Nas minhas férias fui a Manaus.

31. Reportou-se a Roma dos Césares.

32. Faço minhas orações a Nossa Senhora.

33. Rezei a Mãe de Deus.

34. É recomendável não dar confiança a mulher alheia.

35. Emprestei o livro a Teresinha.

36. Retornou a casa de Petrópolis.

37. No festival não se assistiu a nenhuma grande peça.

38. Disse gentilezas a você.

39. A fusão corresponde as expectativas do grupo.

40. Colocou o painel a direita do semáforo.

41. Para ter os direitos reconhecidos, recorreu a instância superior.

42. Quando quiser saber o sentido e a forma exata de uma palavra viva, vá as pessoas.

43. Fez referência a minha tia e a sua.

44. Dirigiu-se aqueles que até ontem eram seus pares.

45. Dirigiu-se as que pareciam suas amigas até ontem.

46. Eis a matéria a qual você se referia ontem.

47. Vou a casa buscar o agasalho.

48. Vou a casa de amigos buscar agasalhos.

49. Observe-a a distância, discretamente.

50. Observe-a discretamente a distância de uns 100 metros.

51. Curso de português a distância.

52. Não gosto de bife a milanesa.

53. Estava a ponto de bala.

54. Ufa! Reclama a toda hora.

55. É honesto a toda prova.

56. A medida que se acostuma no novo ambiente de trabalho, fica mais produtiva.

57. Paulo é a pessoa a quem você deve favores a beça.

58. Este é o homem a cuja filha você se referiu ontem.

59. A água inundou até a cozinha.

60. O marinheiro não está a bordo.

61. Não me refiro a Vossa Senhoria, mas a senhora que o acompanha.

62. Viram-se cara a cara.

63. Daqui a Esplanada são cinco minutos de carro.

64. Daqui a uma hora chegaremos a Brasília.

65. Tomou o remédio gota a gota.

Amanhã vêm as respostas!

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em Linguística e mestrado em Teoria da Literatura. Edita o Blog da Dad.

Anemia global

José Horta Manzano

Este é um momento em que as altas esferas de países importantes (mas não só) estão atravessando um período de dúvidas, de retraimento. A vida é feita de altos e baixos: quando uns estão na subida, é comum e normal que outros estejam descendo. O que é menos comum é que tantos dirigentes estejam em fase de retraimento. Uma verdadeira anemia.

Donald Trump, o cacique-mor, fecha o segundo ano de mandato com uma espinha atravessada na garganta. Prometeu que ergueria, de qualquer modo, uma muralha pra afastar miserentos. De repente, dá-se conta de estar órfão de pai e mãe: o Congresso fechou a torneira e não lhe dá o crédito necessário. E agora?

Theresa May, primeira-ministra britânica, é outra que anda mais cabisbaixa que de costume. Por um lado, está compromissada por ter garantido ao povo tirar seu país da União Europeia. Por outro, a própria Europa lhe impõe um cardápio de pesadas condições, caso insista em deixar o bloco. Um dilema.

A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, está mal das pernas. Desgastada pelos longos anos de poder e enfraquecida por recentes derrotas em eleições parciais, já declarou que está encerrando a carreira e que não vai se recandidatar para a próxima legislatura.

Na França, depois de três meses de manifestações de protesto dos «gilets jaunes ‒ coletes amarelos», o presidente Macron anda sumido, encolhidinho. Com medo de povo, só dá entrevista para plateias amestradas. Se as eleições fossem hoje, aquele que venceu com o voto de dois em cada três franceses sairia derrotado.

Pedro Sánchez, primeiro-ministro socialista da Espanha, além de ter curta maioria no Congresso, está enfrentando outros inimigos. A revolta surda dos catalães que clamam por independência é pedregulho no sapato. Pra coroar, na importante região da Andaluzia, que governavam havia mais de 40 anos, os socialistas perderam para a direita.

Maurício Macri, da Argentina, está diante de galopante inflação acompanhada de degradação da economia do país. É a receita do Deus me livre, caminho certo pra acabar com qualquer dirigente.

Na Venezuela, não precisa nem dizer. O país, exaurido, titubeia. Como limão espremido, não dá mais caldo. E o ditador está de costas pro precipício, à espera de quem lhe diga: «Um passinho atrás, Excelência».

E no Brasil? Nem bem começou, o governo de doutor Bolsonaro já parece vacilante. O presidente tem problemas com os filhos, com o vice. Relações com o Congresso se anunciam agitadas. Ainda é cedo pra chegar a uma conclusão, mas, do jeito que vai, o que se vê é um governo menos forte do que se imaginava. Nesse particular, o dirigente maior de nosso país está emparelhado com os que mencionei: todos anêmicos. Deve ser isso a globalização.