O porta-aviões

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uns três meses, a Marinha do Brasil anunciou a desativação do porta-aviões nacional. Eu disse «do» de propósito: só temos um. E olhe lá, comprado de ocasião e à prestação. Pra que servia mesmo? Vamos primeiro aos considerandos pra chegar aos finalmentes.

Desde que o Brasil anunciou que vai devolver a carteirinha de sócio, o clube de países cuja frota conta com pelo menos um navio porta-aviões encolheu ainda mais: restam apenas oito membros. O total mundial de embarcações desse tipo é atualmente de apenas 18 unidades, 12 das quais pertencem aos EUA. A Itália e a Índia têm duas embarcações cada uma. E os demais se contentam com um único porta-aviões.

Porta-aviões São Paulo

Os únicos fabricantes desse tipo especialíssimo de nave estão nos Estados Unidos, na Itália, na França e na Rússia. A Espanha possui um canteiro naval capaz de produzir embarcações de uso múltiplo, ditas «navio anfíbio de ataque». Dado que carregam aviões e são capazes de servir de campo de decolagem e de pouso, costumam ser contabilizadas na categoria de porta-aviões. E é só. A marinha espanhola possui um navio dessa categoria. Nem a China, que já mandou astronauta ao espaço, produziu porta-aviões até hoje. Vai ficar para o futuro.

Tanto a Índia quanto a China utilizam embarcações de fabricação russa, compradas de segunda mão. A Tailândia possui o modelo espanhol. Nosso porta-aviões São Paulo, cuja aposentadoria acaba de ser anunciada, é de fabricação francesa. Antes de ser comprado pela Marinha do Brasil, levava o nome de Foch, em homenagem a um marechal francês herói da Primeira Guerra.

É compreensível que os Estados Unidos, em conformidade com sua qualidade de potência bélica maior, dedique especial importância a esse tipo de navio. Permite garantir a presença militar do país em numerosos pontos do globo simultaneamente. A França, dona de territórios e ilhas ao redor do planeta, é outra que precisa contar com porta-aviões. Aliás, no caso francês, é até surpreendente que se contentem com um único exemplar. Curiosamente, a Rússia, cujas ambições militares são notórias, só tem um porta-aviões ‒ mas está produzindo um segundo.

Porta-aviões São Paulo

E o do Brasil, para que serviu e para que serve? Comprado de segunda mão e desatualizado, não há de ter tido grande serventia. Sua manutenção tornou-se tão dispendiosa que a Marinha decidiu se separar dele e vendê-lo como sucata. Sua recuperação sairia tão cara quanto a compra de um novo.

Além de Fernando de Noronha e da Trindade, não temos ilhas nem territórios a defender além-mar. Tampouco temos pretensão a nos elevar à categoria de potência militar de primeira categoria. Portanto… pra que nos serve um porta-aviões?

Acredito ‒ e espero ‒ que vamos deixar de lado esse tipo de luxo caríssimo e desnecessário. A imensa verba que a compra e a manutenção de um porta-aviões consome será mais bem canalizada se servir, por exemplo, para a defesa estratégica da rede de comunicação das Forças Armadas. Nos tempos atuais, um ataque de piratas informáticos (em português: hackers) pode causar estrago maior que um tiro de canhão.

Rua com nome de mulher

José Horta Manzano

Os que me acompanham sabem que sou radicalmente contrário a todo sistema de quotas. Embora entenda as boas intenções dos que são favoráveis a esse método, acredito que ele é contraproducente. Em vez de oferecer oportunidades iguais, a implantação de quotas acaba por sacramentar desigualdade.

As «reservas de mercado» garantidas a membros deste ou daquele grupo social instituem privilégios que são, no fundo, a exata negação do objetivo perseguido. Decretar que uma porcentagem de determinado grupo social, étnico, racial ou religioso passe à frente dos demais é uma aberração, um contrassenso. Não é possível impulsionar ascensão social por intermédio de um atalho. Cotas são solução simplista para um problema bem mais profundo. É como se o médico administrasse analgésico sem se preocupar com a origem da dor. A foto sai bonita mas dissimula a origem do mal.

Contra certas fatalidades não se pode lutar. Quando a velhice, a doença ou desastres atingem o cidadão e lhe diminuem a capacidade de acertar o passo com os demais, é natural que se lhe facilite a existência. Ceder assento no ônibus a anciãos ou a gestantes, permitir que indivíduos fisicamente diminuídos sejam atendidos com prioridade, proporcionar escolaridade especial a incapacitados físicos ou mentais são práticas meritórias, que devem ser incentivadas.

Reservar quotas em virtude de raça (se é que «raça» tenha algum significado num país colorido como o nosso), de sexo ou de origem pode parecer demonstração de bondade. O quadro é enganoso. A meu ver, agir assim é tapar o sol com peneira. A origem do mal é bem anterior e é lá que deve ser atacada.

Se jovens negros, pardos, vermelhos ou azuis precisam de um jeitinho especial para ter acesso a estudo superior, por exemplo, garantir-lhes um lugar por decreto deixa a amarga impressão de serem menos inteligentes que os demais, o que é insultante e está longe de ser verdadeiro. Como fazer então? O caminho é um só: tratar o mal pela raiz. Investimento pesado em Instrução Pública é o nome do jogo.

Em países adiantados da Europa, não viria à cabeça de ninguém escolarizar os filhos fora da escola pública. Todos recebem a mesma formação. Com o passar dos anos, a seleção se faz naturalmente. Uma pequena parte se encaminhará a estudos superiores, enquanto a maioria se dispersará numa miríade de profissões, conforme o gosto de cada um.

Quando um jovem se interessa em prosseguir estudos aprofundados mas provém de família modesta e sem condições de lhe garantir o sustento, candidata-se a uma bolsa. Se for considerado capaz, o Estado investirá em sua formação.

Faz três meses, no Dia da Mulher, vereadores paulistanos se comprometeram a equilibrar, entre os dois sexos, a quantidade de homenagens da Câmara a pessoas de destaque na história do município. Uma pesquisa indica que 84% dos logradouros levam nome de homens.

E daí? ‒ pergunto eu. «Equilibrar», nesse caso, não faz o menor sentido. Dos 37 presidentes que o Brasil já teve, 36 foram homens. Como fazer pra «equilibrar»? Contando os efetivos, os temporários, os interventores e os suplentes, o município de São Paulo já teve mais de 50 prefeitos, entre os quais apenas duas mulheres. Como fazer pra «equilibrar»?

O pronunciamento dos vereadores é um disparate feito para impressionar a galeria. Melhor mesmo seria evitar dar nome de gente a logradouros, uma impressionante falta de imaginação. Que se dê nome de planta, de árvore, de bicho, de país, de poesia, de episódio histórico, de rio, de estrela, de livro, de objeto. Há um mundo a explorar.

Árvores públicas e privadas

José Horta Manzano

A confusão entre o público e o privado continua fazendo miséria no Brasil. Em 1500, era coisa natural, combinava com o espírito da época. Navegantes e corsários tomavam posse de terras incógnitas em nome d’el rei. De acordo com os princípios absolutistas vigentes, cada rei era dono de seu país com direito a governá-lo como bem entendesse, sem Constituição, sem deputados, sem senadores. (Cá entre nós, muita gente sonha com um país livre de deputados e senadores, mas essa já é uma outra história.)

Nestes cinco séculos, muita coisa mudou. El rei se foi. Depois de Rousseau, de Voltaire e dos demais iluministas do século 18, o mundo começou a distinguir entre o que é de todos e o que é de cada um. Certas regiões do planeta, especialmente a Europa e as colônias britânicas da América, aprenderam rápido a lição. Outros rincões tiveram um pouco mais de dificuldade. E há até países ‒ como o nosso ‒ onde a noção não foi inteiramente apreendida até hoje.

A dificuldade que temos em distinguir o público do privado é traço marcante da alma nacional. Volta e meia, tropeça-se em algum exemplo. Novos loteamentos clandestinos ‒ implantados em terra alheia ‒ surgem a cada semana. Vereadores, prefeitos, deputados e outros figurões se servem do bem público como se deles fosse. Ligações clandestinas de água ou de energia elétrica roubam o que é de todos para uso particular. São fatos tão corriqueiros que ninguém mais se surpreende.

Até gente bem-intencionada escorrega, às vezes, na hora de discernir entre propriedade privada e coletiva. Faz alguns dias, o prefeito da maior cidade do país pediu urgência na aprovação de lei sobre poda ou remoção de árvore. Falamos de árvores plantadas no espaço público, em calçadas, praças ou parques. A ideia é permitir que cidadãos tomem a seu encargo a poda e a manutenção de árvores que pertencem à comunidade.

Em primeira análise, a ideia até parece liberal e útil. Já que o município não tem condições de arcar com a manutenção do bem público, por que não empurrar o fardo ao próprio cidadão? No meu entender, data venia, é decisão equivocada. Pra começar, reforça a confusão entre o público e o privado, uma de nossas mazelas. Em seguida, exime a prefeitura de todo problema que possa advir de poda malfeita. Se o trabalho danificar irremediavelmente a árvore, como é que fica? Se, durante a obra, a queda de um galho ferir um passante, de quem é a culpa? E se um cabo for seccionado por descuido e o infeliz operário morrer eletrocutado? Há dúzias de situações imprevistas que dariam margem a intermináveis enfrentamentos judiciais.

Como dizem os franceses, «ne mélangeons pas les torchons et les serviettes» ‒ não misturemos panos de chão com panos de prato. Ou «cada ‘quar’ com seu cada ‘quar’», como dizemos nós outros. Cada um é obrigado a cuidar do que é seu. Particulares tomam conta das árvores que lhes pertencem. E o poder público cuida das árvores plantadas em terreno público.

Atenção: cuidar não é só podar! Como todo ser vivo, árvore nasce, cresce, envelhece e morre. E também adoece. Plantar e abandonar não basta. À administração municipal cabe contratar botanistas, fitologistas, parasitologistas, jardineiros e lenhadores para supervisionar a vegetação que orna o domínio público. É incompreensível que cada chuva derrube árvores que, doentes, já deveriam ter sido abatidas bem antes. É pra isso (também) que servem nossos impostos.

Playtime

José Horta Manzano

Jacques Tati (1907-1982), nascido Jacques Tatischeff, foi ator e diretor de cinema. Veio ao mundo nos arredores de Paris no seio de família de origem eclética, com antepassados russos, franceses, holandeses e italianos.

Sua obra não é prolífica. Dirigiu meia dúzia de filmes de longa metragem e dois pares de curtas. Não se pode dizer que tenha sido ator de renome. Em quase cinquenta anos de carreira, apareceu em pouco mais de dez filmes além de atuar nos que ele mesmo dirigiu.

Jacques Tati

Jacques Tati

Era cineasta fora dos padrões, difícil de ser encaixado numa categoria. Os diálogos em seus filmes, embora raros, existiam. Portanto, não se pode defini-los como filmes mudos. Trabalhou em preto e branco, mas também em cores. Seus filmes não têm propriamente enredo com começo, meio e fim. Mostram uma sucessão de gags, de momentos cômicos um tanto desconexos e surreais.

Sua obra é vista como crítica vigorosa aos costumes de seu tempo. É certo que Jacques Tati enxergava o mundo com lentes próprias. Em 1953, lançou «Les vacances de Monsieur Hulot» ‒ As férias do Sr. Hulot, filmado em preto e branco. Em 1958, foi a vez de «Mon oncle», que chegou ao Brasil como Meu tio, talvez seu filme mais emblemático.

Playtime - cena da rotatória Clique para ampliar

Playtime – cena da rotatória
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Tati era perfeccionista. Podia filmar e refilmar dezenas de vezes uma sequência, pouco importava. Enquanto não estivesse a seu gosto, não desistia. Foi o que aconteceu durante a filmagem de «Playtime», que, no Brasil, receberia o nome de Playtime – Tempo de Diversão. O filme levou mais de três anos para ser terminado. Frustrados, os produtores recusaram-se a continuar financiando. Tati foi obrigado a hipotecar a própria casa. A renda de seus filmes anteriores foi sequestrada pela Receita. Um desastre.

Lançado finalmente em 1967, Playtime viria a conhecer mais um duro golpe. Tati contava muito com a receita que pudesse vir da exibição do filme nos EUA. Por infelicidade, a película não foi exibida naquele país. Só chegaria às telas americanas seis anos mais tarde.

São Paulo, 2 fev° 2017

São Paulo, 2 fev° 2017

Nos anos 60, a Europa, já recuperada da Segunda Guerra, se reindustrializava. Os cidadãos se motorizavam. As cidades, pouco preparadas para acolher o tráfego crescente, se aproximavam da asfixia. Os constantes engarrafamentos são simbolizados na cena da rotatória de Playtime, que se tornou cult.

Ontem, o mau funcionamento de um semáforo paulistano causou cenas que me fizeram irresistivelmente lembrar da rotatória de Jacques Tati. O engarrafamento parisiense de 1967 era de mentirinha, coisa de cinema, mas o paulistano de 2017 mostra a que ponto chegou nossa fragilidade: um curto-circuito à toa pode arruinar o dia de milhares de cidadãos.

Se bem que, visto assim do alto, o engarrafamento brasileiro é hilário. Parece coisa de cinema.

Que cada um faça sua parte

José Horta Manzano

«Jeder kehre vor der eigenen Tür, und die Welt ist sauber» ‒ Que cada um varra diante da própria porta, e o mundo será limpo.

A conhecida citação é da lavra de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), escritor, poeta e estadista, considerado o pai da moderna língua alemã.

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

A ideia fazia literalmente sentido quando a frase foi pronunciada, naquela era pré-industrial de cidades pequenas, casas geminadas, pequenos estabelecimentos comerciais e quase nenhuma indústria. O mundo mudou. Se melhorou ou não, vamos deixar pra discutir noutra ocasião. Fato é que as cidades incharam, espaços ditos «públicos» proliferaram, diluiu-se um pouco a noção de «onde termina o meu e começa o do outro».

Assim como as cidades se estenderam, o entendimento da frase de Goethe há de ser alargado. «Que ninguém suje, e o mundo será limpo» ‒ taí uma boa adaptação, que serve para os dias de hoje sem deturpar a ideia original. No Brasil, estranhamente, insistimos em remediar ao invés de prevenir.

Chamada do Estadão, 2 jan° 2017

Chamada do Estadão, 2 jan° 2017

O prefeito Doria, que acaba de assumir a alcaidia da maior cidade do país, deu seu showzinho midiático logo no pimeiro dia de função: vestiu-se de limpador de rua, armou-se de pá e vassoura, e juntou-se aos varredores. Fez isso às 6h da manhã. O marketing é rastaquera, mas ninguém há de atirar-lhe a pedra. A intenção foi mostrar constraste com relação ao prefeito anterior, que muitos diziam pouco afeito ao trabalho.

O problema maior vem agora. Senhor Doria fala em «varrer SP pessoalmente toda semana». Alguém precisa urgentemente informar a esse senhor que vestir-se de gari e limpar ruas não é exatamente o que esperam os milhões de cidadãos que o elegeram. Que o tenha feito uma vez, passa. Agora, chega. Demagogia não combina com eficiência.

tri-dechets-1Outra frase do novo prefeito me impressionou mais ainda. Comprometeu-se a «transformar-se em catador de recicláveis». Como é estranho! Em países mais adiantados, faz já mais de vinte anos que cada cidadão tem em casa entre 6 e 10 diferentes latas de lixo justamente para fazer triagem. Lixo orgânico, papel, plástico duro, plástico mole, vidro, metal, tecido, óleo, pilha, lâmpada, garrafa pet, madeira, alumínio são materiais diferentes. A separação é feita na origem, que fica muito mais fácil para direcionar a reciclagem. A figura do “catador de recicláveis” desaparece.

Em vez de especializar-se em triagem do lixo alheio, melhor seria que o prefeito instaurasse ampla campanha de conscientização.

Que cada um trie seu próprio lixo, e a cidade será limpa. E menos poluída.

Fazendo justiça

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A Eletropaulo, a empresa paulista de energia e luz, é uma das campeãs de reclamações junto ao Procon, o órgão de defesa dos direitos do consumidor. Considero esse fenômeno incompreensível, fruto quiçá do desconhecimento – para não dizer ignorância – de boa parte da população de São Paulo quanto aos imensos e complexos desafios que cercam a administração dessa grande empresa.

computador-18Lembro, por exemplo, que só muito recentemente veio à tona a discussão sobre a necessidade de aterramento da rede elétrica paulista para evitar os constantes problemas de queda de árvores causados pelas fortes chuvas que enfrentamos todos os anos na primavera e no verão. A Eletropaulo prontamente ofereceu sua contribuição para o aprofundamento do debate público. Emitiu um comunicado alertando para os altos custos que uma providência desse porte acarretaria, manifestando inclusive preocupação com o inevitável repasse para o preço da distribuição da

(Ops, desculpem, a luz acabou)

fiacao-1Retomando. Dizia eu que, em função da atual grave crise econômico-financeira que afeta nosso país, a Eletropaulo confessa estar de mãos e pés atados para fazer frente como deveria à crescente violência das forças naturais, consequência inevitável do aquecimento global. A empresa foi além: abriu seu coração para se posicionar ao lado do infeliz consumidor que já está às voltas com o aumento do desemprego e da inflação e não teria como pagar tarifas ainda mais altas. Lamenta as perdas praticamente diárias que seus usuários são forçados a enfrentar em sua residência e em seus negócios devido à frequente interrupção do fornecimento de energia elétrica e se prontifica a dar solução rápida a todos os reclamos. Promete envidar seus melhores esforços para encontrar um ponto de equilíbrio entre as necessidades da população e sua

(Perdão novamente. A energia foi interrompida mais uma vez. Pelo que a Eletropaulo informou, está sendo feita uma grande operação de manutenção na rede do bairro, uma vez que ele foi um dos maiores atingidos pelo temporal da última quinta-feira)

computador-16Voltando. Acredito que grande parte da elite paulistana não se dá conta da angústia que assoberba a diretoria da empresa quando ela se predispõe a implementar inovações necessárias para prestar serviços de qualidade na quarta maior cidade do mundo e não conta com os recursos adequados para fazê-lo. Só as almas mais afeitas ao entendimento da psicologia humana poderão compreender a dor avassaladora que isso representa

(Mais uma interrupção breve, queiram desculpar. Parece que os ventos hoje estão numa velocidade acima da esperada para esta época do ano. Os fios balançam e, já se viu, há um desligamento automático da rede)

fiacao-2O que poucos de nossos concidadãos percebem é que o Brasil é um país ainda em desenvolvimento e que o aprimoramento da infraestrutura do setor elétrico nacional foi descuidado pelo governo federal ao longo da última década. Se, ao menos,

(Desta vez a pausa forçada foi um pouco maior. Aparentemente, a tempestade que se avizinha está retardando a ação das equipes de reparo…. Meu computador também deu sinais de desgaste e está mais lento que de costume)

Em suma, o que precisa ficar claro é que vivemos em um país de dimensões continentais e a cidade de São Paulo isoladamente representa a demanda inteira de energia elétrica de vários países europeus e latino-americanos somados. Apesar de tantas dificuldades, o Brasil demonstrou ser capaz de desenvolver quadros profissionais do mais alto quilate no setor de geração de energia elétrica, formou técnicos experimentados nas lutas para fazer chegar à região amazônica os confortos do século 21 e capacitados para responder pela construção da maior hidroelétrica do mundo. A Eletropaulo é parte importante dessa história. Graças ao talento e denodo de suas equipes técnicas

computador-17(Desculpem. Agora foi o sol que voltou forte e tornou quase impossível manter as equipes da Eletropaulo nas ruas, sem hidratação adequada e com fome depois de tantas horas de trabalho hercúleo)

Um dos grandes méritos da Eletropaulo é, sem dúvida, ressaltar o valor da cultura para uma geração imbecilizada pelo uso sistemático da tecnologia. Todos sabem que nossos cérebros são literalmente sugados pelos computadores, celulares, tablets e quejandos. Graças aos encantos do mundo virtual, passamos a viver na periferia de nós mesmos, alienados de nossas necessidades fisiológicas, psíquicas e sociais. Quando falta luz, redescobrimos o prazer de ler um bom livro, entramos novamente em contato com a magia e o romantismo de um jantar à luz de velas, ficamos disponíveis para sentar e conversar com familiares e amigos, reencontramos a utilidade da introspecção e da meditação. Que outros estímulos externos teriam a mesma força para provocar essa revolução de costumes?

(Perdão, pela última vez. A força caiu novamente, a noite chegou e eu confesso ter perdido o fio do raciocínio. Volto ao tema amanhã, se não chover, não ventar e o calor não for tão abrasador)

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Apagando a História

José Horta Manzano

Nos anos 1960-1970, enquanto a Europa optava pelo aperfeiçoamento da malha ferroviária ‒ que desembocaria na construção das atuais linhas de trem-bala ‒, uma ideia um tanto tosca da modernidade fez que, no Brasil, fosse dada prioridade ao transporte por rodovia. Poderosos lobbies petroleiros deram empurrão certeiro ao projeto tupiniquim.

Vendeu-se a ideia de que o trem era um meio de locomoção ultrapassado. Empolgada com a recente instalação de filiais de montadoras estrangeiras, a opinião pública imaginou que o progresso havia chegado. E aplaudiu a ideia. Em poucos anos, linhas de estrada de ferro foram desativadas. Até os bondes foram mandados para o esquecimento.

Minhocão, São Paulo ex-Costa e Silva, agora João Goulart

Minhocão, São Paulo
ex-Costa e Silva, agora João Goulart

Em vez de privilegiar o transporte coletivo por ferrovia, racional e econômico, prioridade foi dada à locomoção individual. O automóvel, apesar de ser ineficiente, barulhento e poluidor, passou a representar o objeto do desejo. Cada um queria ter o seu.

Placa 21Estradas tiveram de ser construídas. Nas cidades, o número de carros cresceu exponencialmente. Rios foram enterrados para dar lugar a avenidas. O tráfego foi-se tornando infernal. Para «desafogá-lo», vias elevadas tiveram de ser erguidas. Entre elas, o ultraconhecido Minhocão paulistano. Seguindo onomástica tradicional, foi-lhe atribuído o nome de um figurão da época. Por artes do destino, o nome oficial nunca foi usado pelo povo. Nasceu Minhocão e assim continua.

Em decisão tomada esta semana, a Câmara Municipal de São Paulo ‒ cujos 55 vereadores, decididamente, não devem ter muito que fazer ‒ decidiu alterar o nome da via elevada. A denominação oficial de Elevado Presidente Costa e Silva vai às favas. Em seu lugar, entra outro presidente. Em documentos oficiais, o Minhocão torna-se Elevado Presidente João Goulart.

Placa 22É sempre melhor que Elevado Presidente Dilma Rousseff, convenhamos. Ainda assim, a decisão soa como tentativa bisonha de refazer a História. O que aconteceu, aconteceu. Não tem como mudar. Muito menos cabe a uma Câmara Municipal, seja ela a da maior cidade do país, tomar a si a tarefa de apagar o passado à sua conveniência.

Senhor Costa e Silva pertence a uma casta de medalhões que mudaram, à força, o regime vigente no Brasil. Está longe de ser o único, que a casta é avolumada. Não tenho simpatia particular por esse senhor. Aliás, devo dizer que, tendo vivido no exterior durante seu inteiro mandato, pouca notícia tenho do personagem.

Certo é que, sozinho, ninguém faz revolução nem dá golpe. É preciso contar com bom número de auxiliares, acólitos, cúmplices e simpatizantes. Se o ato da Câmara paulistana reflete intuito generalizado de apagar o nome dos que participaram de todas as mudanças forçadas de regime, há muito trabalho pela frente. Milhares de logradouros terão de ser renomeados. E não só em São Paulo.

Igreja da Memória, Berlim

Igreja da Memória, Berlim

Placa 19Comecemos por D. Pedro I, aquele que deu um golpe no próprio pai. Sigamos com Deodoro da Fonseca, aquele que, traiçoeiramente, apeou do trono o imperador legítimo. Continuemos com Getúlio Vargas, o sorridente baixinho que derrubou presidente eleito e conduziu o país com mão de ferro. Aliás, Filinto Müller, chefe da política política de Vargas e torturador notório, continua a dar nome a um logradouro da mesma São Paulo.

É inútil tentar ocultar a memória de um passado doloroso. Tê-lo em mente é a melhor maneira de evitar que se repita. Tentativas isoladas de pasteurizar a História aparecem como obra de um bando de eleitos ignorantes, que não entenderam bem por que razão foram eleitos nem o que estão fazendo ali.

Se l’Italia fosse il Brasile

José Horta Manzano

Tenho um amigo italiano enamorado pelo Brasil. Originário da região de Veneza, Massimo Pietrobon é blogueiro e poliglota. Vive a maior parte do ano em Barcelona (Espanha), mas sempre que pode dá uma escapada pra rever a Terra de Santa Cruz.

Apaixonado por Geografia em geral ‒ e por mapas em particular ‒, Massimo teve uma ideia outro dia. Tomou um mapa da Itália e deu a cidades italianas importantes o nome de localidades brasileiras. Para cada caso, acrescentou uma justificativa, algum aspecto que sirva de elo entre ambas. Ficou interessante e curioso. Dou aqui abaixo um apanhado das muitas correspondências entre os dois países encontradas pelo Massimo.

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Para começar, São Paulo, cinzento e chuvoso mas principal centro econômico, só pode corresponder a Milão. Por seu lado, o Rio de Janeiro, caótico mas denso de beleza e de turismo, se encaixa bem com Roma, a outra metrópole italiana.

I love ITFlorianópolis, bela, turística e ilhoa, compara-se com Veneza, que tem as mesmas características. Recife, centro-mor do Nordeste, se conjuga maravilhosamente com Nápoles, centro-mor do Sul da Itália. Perto de Nápoles, está Amalfi, preciosidade histórica. E ao lado do Recife, o que é que está? Olinda, naturalmente, nossa joia antiga e carregada de história.

Outro ponto focal do Sul italiano é a ilha da Sicília, a confrontar com o outro representante do Nordeste brasileiro: a Bahia. Portanto, Salvador é Palermo.

A longínqua Amazônia, com Manaus, isolada capital, só pode ser a Sardenha e sua capital Cagliari. Ambas as regiões são selvagens e souberam conservar a cultura dos primitivos habitantes.

E Bolzano, a capital do Tirol do Sul, onde predomina a língua alemã? Corresponde a Blumenau, centro maior da imigração germânica no Brasil. Já as belezas históricas e naturais da Toscana se adaptam bem às preciosidades e às paisagens das Minas Gerais.

Turim, cidade organizada e funcional, combina com Curitiba, ao passo que o grande porto industrial de Gênova tem tudo a ver com o de Santos. Falando de cursos d’água, o mais importante da Itália é o Rio Pò, que se lança ao mar num delta cuja capital é Ferrara. Não é absurdo compará-la a Belém, situada exatamente onde o Amazonas desemboca no Atlântico. Outro ponto comum é que as duas cidades estão encharcadas de História.

I love BRPorto Alegre, cidade portuária que já se aproxima dos confins culturais do Brasil, é Trieste, onde já é perceptível a mestiçagem entre italianos, eslavos do sul e remanescentes do antigo Império Austro-Húngaro.

Na hora de comparar cidades saídas de uma prancheta de urbanista, não há que hesitar: a italiana Latina e nossa Brasília têm esse ponto em comum.

A grande cidade brasileira situada próxima de um dos pontos cardeais da rosa dos ventos é João Pessoa, que marca o extremo leste das Américas continentais. Na Itália, corresponde a Reggio Calabria, que assinala a ponta sul da bota.

Bandeira brasileira com as cores italianas

Bandeira brasileira com as cores italianas

Não há como não mencionar a região de Parma, de onde é exportado para todo o mundo o delicioso queijo parmesão, aquele sem o qual o macarrão perderia a graça. (Dizem que macarrão sem queijo é como amor sem beijo…) Que se compare Parma com nosso Estado de Minas que, no Brasil, é referência em matéria de queijo.

Há certamente outras semelhanças. Que o leitor curioso ponha o bestunto a funcionar. Buona fortuna a tutti!

PS: Para visitar o site original, clique aqui.

Ode ao frio

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Frio 3Aleluia, você está de volta! Que bom recebê-lo de novo por estas paragens, frio. Você não faz a mínima ideia do quanto estávamos saudosos. Que bom também que seu retorno tenha se feito acompanhar por uma chuvinha benfazeja. Até os jovens que não o conheceram quando São Paulo ainda tinha um clima civilizadamente ameno e era chamado de terra da garoa hoje o saúdam.

Espero, frio, que você tenha vindo para ficar de vez por aqui. Que, pelo menos até o fim de maio, você resista bravamente às possíveis massas de ar quente vindas da Amazônia, aos eventuais bloqueios atmosféricos causados por zonas de baixa pressão. Como você se demorou pelo caminho, envolvido quiçá pela beleza das paisagens e pela alegria no rosto das pessoas, talvez não saiba o quanto nossa terra ultimamente está precisada de um pouco de refrigério.

Sabe, não eram apenas os dias que estavam quentes. Os espíritos também estavam inflamados, nossos miolos não encontravam refrigeração, pulando de uma notícia bombástica para outra, sem intervalo para recuperar o fôlego. As cores do cenário à nossa volta eram fortes demais, o contraste de tons se exacerbava a cada minuto. Estávamos precisando desesperadamente de um pouco de sombra, de silêncio, de contrição. Sentíamos a necessidade de que o que está fora se apaziguasse um pouco para que o que está dentro se reorganizasse em torno do caminho da serenidade.

Clima frioÉ engraçado constatar isso, mas só você, frio, consegue nos encaixar com precisão na moldura da condição humana. Você nos inspira ao aconchego, ao acolhimento, à aproximação fraterna. Quando está calor, somos animais selvagens que só conhecem e reagem às próprias sensações: ao suor escorrendo pelas têmporas, pelo pescoço e descendo num arrepio pelas costas nos alertando que a ação foi exagerada; ao coração batendo apressado ansiando por mais emoções fortes; à garganta seca implorando por alívio imediato; aos reclamos do estômago, fígado e intestinos sobrecarregados pelo esforço de dar vazão à adrenalina acumulada; aos rins se queixando da missão impossível de eliminar de uma só vez tantos desvarios.

Quando você chega, frio, nossos órgãos de sentido aliam-se a nossos sentimentos e passam a comandar o espetáculo: nossos olhos que se abrem mais para contemplar com ternura os contornos da realidade emocional de outras pessoas; nosso coração que se aquieta para ouvir melhor o pulsar do coração do outro; nossas mãos que se comprazem na tarefa de identificar as diferentes texturas que compõem o substrato psíquico de cada criatura.

Frio

Frio

Paradoxalmente, começamos a nos comportar quase como ninhada de animais que só sabem sobreviver empilhando-se e dormitando uns sobre os outros para desfrutar o calor do contato de corpos. Já não nos bastamos mais. Recuperamos a memória dos tempos ancestrais da nossa vida em cavernas e reavivamos o fogo da esperança de sobreviver à solidão de tudo o que é propriamente humano.

Calor 1Já disse alguém que romântico é aquele que projeta nas mudanças climáticas as próprias emoções. Se o dia está nublado, sua mente divaga em meio a sombras. Se chove, sente-se liquefazer por dentro. Se um raio de sol desponta, seu peito enche-se de esperança. Pode ser verdade, mas acho que o inverso também é verdadeiro. Nos dias quentes, muitas vezes me sinto como quem assiste da plateia a um desfile de carnaval: aquele rebuliço todo me parece exagerado; a alegria, falsa; a confraternização, forçada. O descompasso com o desejo de contenção que invade minha alma acaba por me cansar me deprime.

Tudo a seu tempo, é claro. Os gregos já diziam que só aprendemos com os opostos. O sentido de pertencimento, de encaixe, precisa vir aos poucos, transitar suavemente em sintonia com o findar de um ciclo e a abertura para um novo. Depois do verão, o outono. Depois do inverno, a primavera. Depois da exposição, recolhimento. Depois da hibernação, o despertar da fome de contato.

Por isso, frio, demore-se pelo tempo que for possível. Se seu ciclo também demorar a se fechar, o desgaste orgânico será novamente inevitável. E nós que pertencemos organicamente ao calor dos trópicos – para meu pesar pessoal, devo admitir – podemos oferecer mais uma vez resistência ao prolongamento de sua permanência.

Frio 4Enquanto esse dia não chega, meu querido friozinho outonal, quero uma vez mais lhe dizer que abençoo a sua chegada. Por seu lado, com o corpo e a mente ainda abrasados pela vontade de colher os frutos de nosso esforço para implementar dias melhores para todos, rezo para você não se levar muito a sério nem se transformar, sem querer, no inverno da nossa desesperança.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Minuto de silêncio

José Horta Manzano

Você sabia?

Minuto de silencio 1Minuto de silêncio é o nome que se dá a um momento solene, observado em ocasiões especiais, aquele instante em que todos se calam e cada um é convidado a uma reflexão sobre a importância da celebração. Pode-se tratar de comemoração de vitória ou de derrota, pode-se estar homenageando a memória de pessoa ou de acontecimento.

Forças republicanas, Lisboa 1910

Forças republicanas, Lisboa 1910

É momento grave e profundo. Embora costume durar bem menos de um minuto, o nome está consagrado. Sua universalidade se prende ao fato de não evocar nenhuma religião, nenhuma corrente política, nenhum regime, nenhuma figura histórica. Eis por que é aceito aqui e na Cochinchina, por pretos, brancos, azuis e verdes.

De onde vem essa tradição? Como em toda velha história, as versões variam, embora o registro mais antigo seja atribuído à Assembleia Portuguesa. O relato é curiosíssimo e merece ser repetido aqui.

Hermes da Fonseca

Hermes da Fonseca

Em 1910, recém-eleito presidente da República brasileira, o marechal Hermes da Fonseca empreendeu viagem à Europa. Embarcou no encouraçado São Paulo, que ostentava pavilhão brasileiro e fazia sua viagem inaugural. Já no caminho de volta, aportou em Lisboa dia 1° de outubro de 1910 para encontrar-se com o rei e cumprir visita oficial de 8 dias.

À sua chegada, já percebeu movimento atípico, tropas à vista, cheiro de revolta no ar. O país vivia dias febris. Fato é que, quando o marechal chegou, Portugal era uma monarquia. Quando partiu, dias depois, o país havia-se transformado em República. Se tivessem combinado antes, não teria dado tão certo. Sem querer, o visitante transformou-se em testemunha ocular da História.

Semanas mais tarde, ao assumir a presidência da República, o marechal Hermes determinou que o barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comunicasse oficialmente que o Brasil reconhecia o novo regime português. Foi o primeiro país a dar legitimação ao novo governo. De fato, as nações europeias, dominadas por monarquias, não tinham visto com bons olhos a destituição de um rei. Fizeram corpo mole e tardaram a reconhecer a República Portuguesa.

Encouraçado São Paulo

Encouraçado São Paulo

Quando o barão do Rio Branco faleceu, dois anos mais tarde, a Assembleia Portuguesa fez questão de manifestar-lhe, uma derradeira vez, o agradecimento da nação. Foi proposta ‒ e cumprida! ‒ uma hora de silêncio. Há de ter sido interminável. Dias mais tarde, o Senado lusitano repetiu a dose, encurtando para dez minutos.

Não demorou muito para o costume ser adotado pelos britânicos, que o espalharam pelo mundo. Os horrores da Primeira Guerra mundial se encarregaram de dar motivos de sobra para comemorações ‒ que, aliás, se prolongam até hoje.

Barao Rio Branco 1É isso aí. Da próxima vez que lhe propuserem um minuto de silêncio, tome o distinto leitor como homenagem indireta ao barão do Rio Branco, herói de um tempo em que relações exteriores eram levadas a sério e, em vez de se amoldar aos interesses de um partido político, serviam ao interesse maior do Estado brasileiro.

Sem palavrão

José Horta Manzano

Não é só nas altas esferas da República que a ladroeira come solta. Em esferas mais baixas, o logro, a improbidade e a traição vicejam. Continua tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Nestes dias de rebuliço social e de tramas políticas apimentadas com verbo chulo, assaltos menores passam na surdina. Nem por isso, deixam de ser indecentes e revoltantes.

Teatro Municipal, São Paulo

Teatro Municipal, São Paulo

Dois fatos foram revelados esta semana, ambos ocorridos na maior cidade do país. O primeiro escândalo tem a ver com o Teatro Municipal, um dos fortes símbolos culturais da cidade. Um ex-diretor, investigado por desvio de verba pública num total de 18 milhões, negociou acordo de delação premiada com o Ministério Público. A crer na denúncia, até o maestro titular está envolvido. Como é praxe, todos negam.

Livro 7Outro episódio deprimente vem de investigação feita na Biblioteca Municipal, outro símbolo cultural forte. No final de 2015, foi concluído um inventário do acervo de obras raras ‒ o anterior datava de 1969, quase meio século de descaso. Descobriu-se que importante quantidade de obras raríssimas haviam desaparecido. Muitas eram peças únicas, de valor inestimável e, naturalmente, insubstituíveis. O que se perdeu, perdido está. O pouco que temos de memória nacional vai escorrendo pelo ralo.

Como se vê, nem bens culturais escapam à concupiscência que fervilha em nossa terra tropical. Ladrões não são só os que soltam palavrão em conversa caseira. O mal é maior.

A seringueira

Luiza Soares (*)

«Uma árvore caiu ontem, inexplicavelmente, na Praça da República. Disse um botânico que a espécie à qual ela pertencia não costuma cair daquela forma, em pé, raiz arrancada do chão, sem cupins, sem doença aparente, sem motivo nenhum.

Arvore 2Era uma seringueira de sessenta anos que viu o Brasil decair e apodrecer. Quem sabe não aguentou tanta tristeza e… fim.»

Capturado do Blog da Wilma, 20 jun 2015.

Passeio público

José Horta Manzano

Calçada 3Confesso minha ignorância no assunto. Sempre imaginei que a calçada – aquela faixa situada entre terreno privado e leito carroçável – fizesse parte do bem comum. Aliás, o nome passeio público, pelo qual é conhecido em parte do País, já diz o que tem de dizer: que o passeio é público. Mas é possível que eu esteja enganado.

Leio que a prefeitura paulistana decidiu multar todo proprietário de casa ou terreno em frente ao qual a calçada estiver deteriorada. Embutida nessa penalidade, está a ideia de que cabe a cada um consertar seu trechinho, cimentá-lo, calçá-lo, nivelá-lo.

Calçada 1É normal, compreensível e necessário que cada um mantenha sua propriedade dentro das regras municipais. Aspecto exterior da casa deve respeitar o que estiver estipulado. Também é certo que cada morador cuide de seu trecho de calçada seguindo as normas cidadãs aplicáveis a todo bem público: não sujar, não pichar, não emporcalhar, não esburacar, não deteriorar, não destruir.

O que me parece fora de esquadro é a obrigação feita ao particular de reparar bem público degradado por terceiros. Mal comparando, é como se o condômino do oitavo andar fosse obrigado a arcar com o conserto do elevador porque um defeito mecânico fez que a cabine ficasse bloqueada justamente no andar do infeliz. Não faz sentido. Se o ascensor é bem comum, conserto de rotina tem de ser arcado por todos.

Calçada 4Em rigor, seria admissível que a municipalidade cobrasse uma «taxa de manutenção de calçadas», destinada a angariar os fundos necessários. Todos contribuiriam para a conservação do que pertence a todos. Inatacável.

Calçada 2Exigir que cada um se ponha a refazer o passeio que lhe está à frente é medida descabeçada. Este fará um desnível mais acentuado, com duas pistas bem delineadas para passagem de seu automóvel. Aquele preferirá plantar uma árvore bem no meio do passeio, com o intuito de sombrear seu próprio jardim. Aquele outro pode optar por ladrilhar seu trecho com caquinhos de cerâmica – bonitos, mas escorregadios em dia de chuva. Uma casa de mãe joana.

Construir o bem público, renová-lo, reparar defeitos é atribuição do poder público e por ele deverá ser exercida. Sem isso, jamais será alcançada a uniformização que beneficia a todos – a quem anda a pé, a quem enxerga mal, a quem empurra carrinho de bebê, a quem se locomove em cadeira de rodas.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.

Coringão

José Horta Manzano

Você sabia?

Corinthians 4O nome dos times de futebol mais famosos do Brasil não é inusitado nem surpreende. Botafogo, Coritiba, Santos, Flamengo, Bahia, Internacional são de origem geográfica, a categoria mais comum. Vasco da Gama, Portuguesa, XV de Novembro homenageiam personagens, comunidades, fatos históricos. Palmeiras, Cruzeiro, Atlético, Operário, Juventude são nomes fáceis de entender, que combinam com o ambiente.

Ruínas de Corinto, Grécia

Ruínas de Corinto, Grécia

Mas… Corinthians? O nome de uma das mais tradicionais equipes do esporte nacional destoa. Qual seria a origem de denominação tão fora de contexto?

Uma rápida visita ao site do clube esclarece: a inspiração veio de uma equipe inglesa da época. Os cracks do Corinthian-Casuals Foot-ball Club excursionavam pelo Brasil naquele longínquo 1910. Fascinado pelo desempenho dos visitantes, um grupo de amigos decidiu montar uma equipe.

Futebol 5O nome se inspirava no movimento esportivo renascido com os primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, disputados em 1896. O foot-ball, esporte novo, se inscrevia na efervescência do momento. Corinto – Kórinthos no original – era cidade da Grécia antiga. Importante na antiguidade, a localidade continua de pé, embora não passe hoje de pequeno burgo pouco expressivo.

Corinthians 3O nome do time inglês dava a medida do espírito informal do grupo. Corinthian-Casuals pode-se traduzir por «Corintianos Despreocupados» ou «Corintianos Informais». Os discípulos nacionais guardaram a referência olímpica, mas preferiram dispensar o qualificativo. Não se consideravam, certo, tão despretensiosos assim.

Nos primeiros anos, guardou-se o costume de dizer que aquela era a equipe dos corinthianos, como poderia ser dos atenienses, dos espartanos, dos romanos, dos cartagineses. Ao referir-se à esquadra, a imprensa mencionava «os Corinthians», sempre no plural. Mas durou pouco. Com o crescimento, o nome do clube logo caiu na boca do povo como palavra singular.

Corinthians 2A notícia de bestial carnificina da qual foram vítimas, este fim de semana, torcedores do clube repercutiu na imprensa internacional. A brutalidade deu-me a ocasião de constatar que, no exterior, o nome do time ainda é entendido como queriam os idealizadores de um século atrás. O portal do grupo RTL, por exemplo, refere-se aos “supporters des Corinthians” – torcedores dos Corinthians.

É pena que, como lembrança de 1910, só o nome tenha permanecido. O ambiente ingênuo, despreocupado e festivo foi-se.

Falam de nós – 5

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Ano-novo chinês 1Ano-novo chinês
O portal Xinhua, braço da agência noticiosa oficial chinesa, mostra-se orgulhoso em anunciar que o ano-novo está sendo comemorado na cidade mais importante do longínquo Brasil.

Segundo a publicação, a celebração da simbólica data já se tornou festa tradicional em São Paulo, com participação esperada de 200 mil pessoas.

A publicação não informa, mas infere-se que o carnaval carioca ainda não se esteja tornando manifestação popular em Pequim.

Interligne 28aPinguim 1Novo país?
Uma repórter do jornal paraguaio Última Hora visitou as ilhas Falkland (Malvinas) – aquele arquipélago a que todo governante argentino faz alusão quando o momento exige. No país hermano, como se sabe, basta mencionar aquelas ilhas – las Malvinas son argentinas! – para garantir união nacional e aprovação unânime.

Conta a enviada especial que, dentro de meio século, as Falkland poderiam bem tornar-se país independente. Incapaz de enxergar o que os ilhéus ganhariam com isso, tenho cá minhas dúvidas. O estatuto de território britânico é a melhor garantia que têm contra toda agressão argentina. Foi exatamente isso que os salvou na guerra de 1982.

E tem mais. O Pibão do arquipélago é de 100 mil dólares por habitante(!), enquanto o da Argentina não chega a 12 mil. Quem trocaria?

Interligne 28a

Estádio

Brasil campeão
É verdade que o Brasil foi o grande perdedor de «sua» Copa do Mundo no ano passado. Mas nem por isso deixou de ser campeão. O jornal francês Le Télégramme, de Brest, avisa a seus leitores que nosso País continua primeirão no campeonato da violência em matéria de futebol.

Conta que 18 morreram em brigas de torcida em 2014. Já tinham sido 30 vítimas em 2013. O jornal ressalta uma iniciativa original tomada no Recife. Em vez de guardas armados, mães de família são convidadas a garantir serenidade nos estádios. São as «mães segurança».

Os primeiros testes parecem estar dando bons resultados. Bem ou mal, cada torcedor identifica, na senhora sorridente que passeia a seu lado, sua própria mãe. E ninguém gosta de brigar na frente da mãe.

Interligne 28aCosta Concordia 1Paraíso para foragidos
O portal italiano TGCom, braço do gigante Mediaset, conta uma história rocambolesca. Fala de Francesco Schettino, que comandava o navio Costa Concordia – aquele que soçobrou a 50 metros da costa da Ilha do Giglio, faz 3 anos.

Relembra que Schettino, recentemente condenado em primeira instância a 16 anos de cadeia, entrou com recurso. E relata que o Ministério Público de Grosseto (Toscana) pede que o condenado seja encarcerado enquanto aguarda julgamento da apelação.

Segundo alguns, o ex-comandante teria exigido dois milhões de euros para participar de um programa sensacionalista. Segundo outros, trata-se de pura invenção. Pelo sim, pelo não, o MP prefere a prudência.

O dinheiro deveria ser depositado numa conta bancária no Brasil. Aliás, o portal italiano MB ressalta que o Brasil é um país no qual «non è facile ottenere l’estradizione di cittadini italiani colpevoli di aver commesso reati nel nostro paese» – não é fácil conseguir a extradição de cidadãos italianos culpados de crimes cometidos na Itália».

Cria fama e deita-te na cama.

Interligne 28a

Quem poderá contestar a moralidade do desejo?

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Acabo de ler uma obra-prima. Refiro-me ao romance Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, escrito por Wilma Schiesari-Legris que, como eu, é caetanista(1) orgulhosa.

Wilma 1Sei que o critério usado para definir uma obra de arte é subjetivo. Pode-se gostar ou não dela, achá-la feia ou bonita, aprovar ou desaprovar a forma pela qual seus contornos foram estabelecidos. Seja como for, dela não se pode apenas dizer que é mentirosa. Ela retrata a sensibilidade do autor para apreender a realidade – talvez nem sempre a realidade do que se passa no mundo externo – mas certamente a realidade dos valores, sonhos, fantasias e desejos presentes no mundo interior de quem a concebe.

Posso afirmar sem medo de errar que o livro extrapola em muito o universo de interesses de quem estudou na Caetano. A leitura da obra pode funcionar muito bem como aula hipnótica de História, de Filosofia, de Ética, de Direito, de Sociologia e de Psicologia. Extrapola também o contexto social de uma época e de um local específico. É um retrato apaixonado da alma humana.

No centro da trama, o perpétuo embate entre moralidade e moralismo. Mesmo sem querer ser desmancha-prazeres, impedindo leitores em potencial de descobrirem por si mesmos os detalhes do roteiro e de se deliciarem com eles, preciso dizer que os protagonistas são uma jovem interiorana que vem para a capital estudar e é acolhida na residência de seu tutor e padrinho. Não é difícil imaginar os muitos percalços e desvios de rota que se abatem inexoravelmente por aqueles que ousam se aventurar por terrenos não trilhados antes – as dúvidas e hesitações diante do confronto entre a alegria da descoberta e os limites autoimpostos com antecedência.

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Crime e castigo na Escola Caetano de Campos
Noite de autógrafos – 2 dez° 2014

Saboreei cada minúscula contingência do roteiro. Me entediei com os detalhes burocráticos do caso. Senti minha temperatura subir ao entrar em contato com as minúcias dos encontros amorosos nos landaus de aluguel. Suei frio com a tensão dos desdobramentos da trama. Me angustiei na tentativa de antecipar os desfechos.

Ao terminar a leitura, alívio e gozo. Estranhamente, me senti leve, muito leve. Percebi que havia embarcado numa fascinante viagem ao passado – não só ao passado da escola, da cidade e da sociedade paulistana, mas principalmente ao meu próprio passado. Fui levada, com suavidade, a revisitar minhas aventuras e desventuras de adolescência, meus sonhos profissionais, meus imensos desafios na longa jornada para penetrar e sondar os mistérios do psiquismo humano.

Por tudo isso, convido quem quiser se deixar enredar por esse delicioso passeio pelo que há de mais delicado dentro de cada um de nós a procurar (e comprar, é claro) este livro ou, no mínimo, a buscar uma aproximação com a autora(2).

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Escola Caetano de Campos, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

Escola Caetano de Campos, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo – inaugurado em 1894

(1) “Caetanistas” é como se autointitulam ex-alunos da Escola Caetano de Campos, antigo e tradicional estabelecimento público paulistano, que ocupou durante quase 80 anos prédio imponente, na Praça da República, onde atualmente funciona a Secretaria da Educação.

(2) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Radicada em Paris há várias décadas, edita o o blogue IECCmemorias.wordpress.com. Seu livro mais recente, Crime e castigo na Escola Caetano de Campos, foi lançado esta semana pela Editora Luna, São Paulo. Para entrar em contacto com a autora, vá por este endereço: W.Legris@gmail.com.

Símbolos horizontais

José Horta Manzano

SOSDesde antes de inventar a escrita, o homem procurou deixar marca de sua passagem. Escreveu na pedra, na madeira, na argila, na areia, no papel, no bronze, na natureza.

Deixar marcas no chão, que só poderiam ser vistas do alto, fazia pouco sentido antes do advento de balões, aviões & conexos. Hoje a coisa mudou.

Estes dias, voando atrás de sequestradores, a Polícia Civil de Santa Catarina surpreendeu – e fotografou – uma piscina residencial cujo revestimento reproduz o desenho de uma inquietante suástica, de triste memória.

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Desconheço a legislação, mas acredito que, no Brasil, o fato de ostentar uma cruz gamada no exterior de sua residência não constitua crime. Na Alemanha, levaria o responsável ao calabouço. Rapidinho.

Ocorreram-me dois outros casos de mensagem desenhada no solo, casos que fizeram história.

O primeiro deles aconteceu faz meio milênio. Foi quando José de Anchieta, religioso espanhol de origem judia aportado à Capitania de São Vicente nos idos de 1553, escreveu seu Poema à Virgem. Riscou-o nas areias de Iperoig (atual Ubatuba, Estado de São Paulo). O padre poeta tinha sido tomado como refém por uma tribo autóctone e encontrava-se em cativeiro. Diríamos hoje que estava no regime semiaberto.

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem by Benedito Calixto (1853-1927)

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem
by Benedito Calixto (1853-1927)

O primeiro registro da composição teve exata duração de uma maré. As águas atlânticas se encarregaram de apagar a obra. Seus 4712 versos só chegaram até nós por façanha da extraordinária memória de Anchieta. Uma vez liberto, ele reescreveu a poesia.

O caso catarinense lembrou-me também – que remédio? – outro episódio bem mais recente e bem menos glamoroso. O distinto leitor há de se lembrar da estrela vermelha que a esposa do então presidente mandou plantar nos jardins do Palácio da Alvorada. Mostrando, já naquela época, o sinal distintivo do partido do marido – o «nós contra eles» –, não hesitou em marcar a sede do Executivo de todos os brasileiros com o símbolo do «nós».

Estrela Alvorada«Nós», que chegamos lá. «Nós», que ganhamos. «Nós», que mandamos. Pareceu natural a todos eles. Não foi senão na sequência de clamor popular – e bem a contragosto – que desmancharam o «enfeite» plantado no jardim da sede do Poder brasileiro. Poder que emana do povo, lembre-se.

Foto de 2011

Foto de 2011

Anos mais tarde, repetiu-se a dose. Só que, desta vez, nos jardins da Granja do Torto, outra residência oficial do chefe do Executivo. O nome da granja, por falar, combina com seus atuais ocupantes. Pau que nasce torto não tem jeito: morre torto.

Interligne 18bEm tempo
O poema de Anchieta ainda está aí, à disposição do leitor. Ainda que não possa ser incluído entre as obras-primas da poesia de todos os tempos, continua comovente pela pureza e pela singeleza de suas estrofes. Já o «nós contra eles», visivelmente na contramão da História, tem prazo de validade efêmero. Mais dia, menos dia, será varrido pela maré. Ou por um tsunami.

Prédio que afunda

José Horta Manzano

A Folha de São Paulo deste domingo 9 nov° informa que o Edifício Copan, cartão postal da cidade, está afundando. Parece que já mergulhou 33 centímetros desde que foi construído, 50 anos atrás.

Edifício Copan, SP by Neltair "Santiago" Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Edifício Copan, SP
by Neltair “Santiago” Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Dizem alguns que as obras e a trepidação do metrô podem ter originado o problema. Sem ser especialista, tenho cá minhas dúvidas. Fosse essa a causa, Paris, Londres e Nova York – todas servidas por densa rede de transporte subterrâneo – já teriam perdido muitos prédios.

Para ler o artigo, clique aqui.

O PT e a modernidade

«Em geral, se quer atribuir esse antipetismo [paulista] a uma posição conservadora. Eu penso que é o contrário. O PT não está conseguindo dialogar com o contrário do que eles dizem, que é a modernidade de São Paulo.

Se pegar São Paulo como metáfora do capitalismo brasileiro, é o estado com a maior presença de desenvolvimento econômico, onde a classe média é muito expressiva, gente que opera sabendo que o que ela tem se deve ao próprio esforço e não a benesses do Estado, do governo ou de quem quer que seja.

Esse eleitorado tem sido muito maltratado pelo discurso petista. De certo modo, a maioria da população de São Paulo tem esse éthos empreendedor, individualista. O paulista tem sido tratado em bloco como se fosse reacionário, de direita.

Eu acredito que isso é um grande equívoco do PT, que explica não só o crescimento de Aécio, como a vitória de Alckmin.»

Interligne 18b

Excerto de entrevista concedida por Milton Lahuerta ao jornal O Globo. O entrevistado é coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp. Para ler o texto integral, clique aqui.