Bônus racial

José Horta Manzano

Interligne vertical 3Privilégio ― do latim privo (=solitário, singular) + legem (=lei).
Lei especial feita para um ou para poucos. Vantagem concedida a um só ou somente a alguns, e da qual estão excluídos todos os outros, que permanecem submetidos ao direito comum.

No Brasil, a Instrução Pública é calamitosa. Entre os que chegam ao fim da escolarização obrigatória, boa parte não tem a necessária competência para seguir estudos superiores. Há aí um problema grave, que se vem deteriorando há décadas, e que está a exigir reparo.

Há um caminho ― e um só ― para resolver o problema: reformular o ensino elementar e médio. A disfunção tem de ser corrigida na origem. «É de menino que se torce o pepino» ― o ditado anda meio fora de moda, concedo, mas continua válido. É praticamente impossível remediar um aprendizado malfeito.

Investir em educação básica é demorado, trabalhoso e caro. Além disso, os resultados não aparecem da noite para o dia. Portanto, não é política que renda lucros eleitorais a curto prazo. Apesar de todas as teorias de conspiração que se murmuram aqui e ali, segundo as quais este ou aquele grupo político se esforçaria para manter as massas na ignorância, a verdade é bem mais singela: investimento em educação simplesmente não dá voto.

No afã de conquistar o eleitorado, governos de ontem e de hoje têm dado preferência a ações mais vistosas e mais impactantes. Desde sempre, governantes consultaram gurus e estrategistas para sondar quais eram as ações susceptíveis de lhes granjear os melhores resultados eleitorais. O profissional hoje se chama marqueteiro, mas a função é a mesma, e idênticos são os objetivos.

O título dos artigos publicados em 27 de junho pelo Estadão (USP aprova bônus para negros) e pela Folha de São Paulo (USP aprova bônus racial) são, para mim, atemorizantes. A reboque da Bolívia, cujo estatuto oficial hoje é o de Estado Plurinacional, estaríamo-nos encaminhando para nos tornar a República Federativa Racial do Brasil?

Se nossos políticos estivessem sinceramente interessados no futuro do País, não seguiriam esse caminho. Reparar uma injustiça histórica ― a justificativa oficial ― sai bem na foto. Todos parecem bonzinhos. Para não ser tachados de vilães, todos fazem que concordam com a medida. Poucos se dão conta de que estamos escolhendo uma rota que não leva a bom porto.

Nenhum de nossos antepassados veio ao Brasil a turismo. Todos chegaram empurrados pela necessidade, pela fome, pela miséria, pelas perseguições. Nenhum deles, ao chegar, hospedou-se no Copacabana Palace. Amargaram anos difíceis, sofreram tratamento injusto, às vezes brutal. Enfrentaram hostilidade, passaram privações. Sacrificaram-se para dar aos filhos uma vida mais digna. Quem tem um termômetro para medir sofrimento?

Estudo superior não é prêmio que se conceda a uns e não a outros. O ingresso num estabelecimento de ensino superior não deveria ser facilitado a este ou àquele grupo. E muito menos por razões raciais. Baixar o nível de exigência é um paliativo, não uma solução. Em vez de aplicar um curativo, melhor será evitar a ferida.

Vista de fora do Brasil, essa inacreditável tendência a acentuar especificidades étnicas parece um contrassenso. Nosso País sempre se orgulhou de seu povo miscigenado, uma terra onde preto casa com branco, judeu é amigo de árabe, japonês gosta de pizza. Será que tudo isso está chegando ao fim? É uma tristeza constatar que, de caso pensado, governos estão-se empenhando em criar fossos artificiais entre hipotéticas «comunidades étnicas».

Na maior parte dos países, branco é branco, preto é preto, judeu é judeu, cigano é cigano, oriental é oriental. Ninguém se mistura. Em certos lugares, até a religião pode ser barreira: católico é católico, protestante é protestante, muçulmano sunita é muçulmano sunita, xiita é xiita. Não só não se misturam, como, às vezes, batalham entre si. No Brasil, o destino nos brindou com uma chance rara: uma baixa resistência aos que vêm de fora do grupo. Estamos demolindo um dos pilares que sustentam nossa nação. É realmente o que queremos?

A política racial no ensino nada mais é que a reedição da ajudinha que antigamente se conhecia como pistolão. É um cartucho racial versão Beta. Resolve um problema de imagem e de fachada. Sob uma aparência de (falsa) magnanimidade, varre-se para debaixo do tapete o problema maior: a falência da Instrução.

Em vez de mascarar o sintoma, melhor será erradicar o mal.

O vice

José Horta Manzano

Quando Dom João VI voltou para casa, após o desaparecimento de Napoleão, deixou no Rio de Janeiro seu filho Pedro. Naqueles tempos recuados, quem subia num barco para atravessar o Atlântico não sabia sequer se chegaria a bom porto. Portanto, as regras mais elementares de prudência recomendavam já deixar engatilhada a sucessão.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

As viagens que Dom Pedro II ― neto de João VI ― empreendeu pelos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, na segunda metade do séc XIX, eram demoradas e, até certo ponto, arriscadas. Convinha deixar sempre um substituto sentado na beiradinha do trono. No caso de nosso barbudo e simpático imperador, a prontidão era assegurada por sua filha Isabel.

Até uns 20 ou 30 anos atrás, ainda convinha ter alguém preparado para a eventualidade do impedimento temporário ou definitivo de presidentes, governadores, prefeitos. Comunicações eram complicadas, estradas eram ainda piores do que são hoje(!), ninguém levava um telefone no bolso. E organizar uma nova eleição era verdadeira maratona.

A Constituição de 1988, embora já pudesse ter mudado o cenário, optou pela comodidade e preferiu não fazê-lo. A figura do vice foi conservada sem retoques.

Cá entre nós: convenhamos que, nos dias atuais, o substituto eventual tornou-se uma excrescência. Se essa prática fazia sentido quando foi instituída pela Constituição dos EUA quase 250 anos atrás ― de onde foi copiada por outras repúblicas americanas ― hoje perdeu a razão de ser.

Chega a ser ridículo o ritual de transmissão temporária de poder que o presidente encena ao pé da escada do avião. A partir daquele momento, teoricamente, o presidente deixa de exercer suas funções. Portanto, quem parte para uma visita oficial é um impostor, dado que o verdadeiro presidente ficou em Brasília. Eta situação enrolada! Não se pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

Muitos países sobrevivem sem a figura do vice. E vão muito bem, obrigado. A França, por exemplo. Por lá não há vice-presidente, nem vice-prefeito, nem suplente de quem quer que seja. O presidente do país, quando em viagem ao exterior, continua assumindo seu cargo. Não há necessidade de transmitir poderes a um substituto. Caso venha a falecer ― o que de fato aconteceu quando Georges Pompidou morreu em abril de 1974 ― o presidente do Congresso assume os poderes presidenciais durante algumas semanas, enquanto se realizam novas eleições.

Imaginem se a figura do vice desaparecesse da paisagem política do Brasil. Seriam 5500 vice-prefeitos a menos, quase 30 vice-governadores, um vice-presidente. Sem contar os suplentes de senador, outra aberração. A economia gerada por essa amputação ― salários, palácios, mordomias, motoristas, assessores ― poderia ser investida, com grande vantagem, na Instrução Pública.

Taí um item interessante a ser incluído na reforma política. Sairíamos todos ganhando.

Interligne 11Nota etimológica: Vice deriva da mesma raiz que deu vez. A locução em vez de é da mesma família

Época de mudanças

José Horta Manzano

Reforma política
Toda caminhada, seja ela de alguns metros ou de quilômetros, tem de começar pelo primeiro passo. Temos pela frente uma oportunidade rara, daquelas que não aparecem mais que uma ou duas vezes na vida: endireitar as estruturas de nosso País. Ou, pelo menos, tentar fazê-lo.

A frustração de constatar que aquilo que se fez não deu certo é sempre menor do que o arrependimento de não haver tentado.

Estados Unidos do Brazil Constituição da 1a. República, 1891

Estados Unidos do Brazil
Constituição da 1a. República, 1891

O Brasil é um país de muita desigualdade e de muitas distorções. Tem-se falado muito, estes últimos dias, em reforma política. Que seria isso? É um conceito amplo, vago. É como um ônibus em que, apertando um pouco, sempre cabe mais um.

Reforma política pode tratar da duração do mandato de cada eleito. Mas pode também substituir o regime republicano por uma monarquia. Num sentido lato, a política é a arte de administrar o Estado. Isso vai da fixação do horário de trabalho dos contínuos até a definição dos poderes da República e sua hipotética hierarquização.

Seria altamente recomendável que se fixassem os objetivos antes de dar o primeiro passo da caminhada. Que seja tudo muito claro. Que se determine aonde se quer chegar, sob pena de atolar no meio da estrada.

Interligne 17

Representatividade
Partindo do pressuposto que a reforma política mantenha a representação bicameral (Câmara + Senado), o momento vem a calhar para botar remédio numa distorção flagrante.

No nosso regime federativo bicameral, o Senado representa os estados, enquanto a Câmara reflete os habitantes. Para evitar que estados mais populosos exerçam uma influência esmagadora no Congresso, cada um, seja qual for sua população, envia 3 representantes ao Senado. Isso faz que, na câmara alta, os estados estejam todos em pé de igualdade.

Na Câmara Federal ― também chamada câmara baixa ― cada deputado deveria representar um determinado número de habitantes. Se somos, grosso modo, 200 milhões de cidadãos, cada um dos 513 deputados deveria representar cerca de 400 mil brasileiros, pouco mais, pouco menos. Não é o que acontece atualmente.

Brasília - Congresso Nacional

Brasília – Congresso Nacional

Por alguma razão que me foge, a Constituição de 1988 passou por cima do que parece uma evidência. Desprezando a representatividade proporcional, estabeleceu que cada estado enviasse um mínimo de 8 e um máximo de 70 representantes.

O resultado é que, no caso mais aberrante, o voto de um roraimense vale o de dez paulistas. Em outros termos, se um habitante do simpático estado do Norte decidir-se pelo candidato do partido A, será necessário que 10 paulistas votem no candidato do partido B para equilibrar. Haja desequilíbrio!

A Câmara Federal está longe de representar proporcionalmente os habitantes. O voto de um acriano vale o de 4 alagoanos. O partido A vai precisar conquistar o voto de 4 ou 5 mineiros para compensar o sufrágio de um único amapaense.

O voto distrital puro, em dois turnos, parece-me a melhor solução. Seja qual for o caminho escolhido, a atual distorção na representatividade tem de ser corrigida.

A frase do dia – 10

“Portugal construiu dez estádios “padrão Fifa” para a Eurocopa de 2004. Sete anos depois o país estava falido. A Grécia cometeu iguais loucuras para as Olimpíadas do mesmo ano. Teve a honra de falir primeiro. Lição? Grandes acontecimentos desportivos nem sempre dão o retorno esperado.”

João Pereira Coutinho, escritor e colunista português in Folha de São Paulo online.

Interligne 37d

A frase do dia – 09

Tiroteio
“Vamos ter de criar a bolsa-idioma, para o paciente do SUS aprender a se comunicar com os médicos em espanhol, inglês…”

Fernando Capez, deputado estadual, sobre proposta do governo de trazer médicos estrangeiros para áreas sem oferta de profissionais.

Recolhido por Vera Magalhães, in Folha online, 23 junho 2013

Interligne 34e

Que reformas?

José Horta Manzano

O País está convulsionado. O governo, acuado. Correr feito barata tonta é expressão desgastada pelo uso constante, mas ainda é a que melhor espelha a situação atual.

Correm os manifestantes sem saber exatamente o que querem. Estão contra tudo isso que está aí. Mas isso que está aí é o quê?

Reivindicação

Reivindicação

Correm os governantes sem saber exatamente para onde ir. Querem estancar a agitação popular. Mas qual é o caminho?

Messias e marqueteiros são consultados. A doutora Dilma apresenta, com ar compenetrado, propostas que, tudo indica, emanam de cabeças alheias. Quem acompanhou o percurso da mandachuva maior sabe que seu forte não é exatamente a negociação, muito menos a conciliação. Mas a política é a arte de engolir sapos, e ela está passando por um aprendizado rápido, intensivo e doloroso.

Dez anos depois de se terem instalado no poder, a senhora Rousseff e seus cortesãos se dão conta, repentinamente, de que uma parcela importante da população anda muito descontente. Pior ainda: os indignados descobriram o meio de se fazerem ouvir.

Ainda atordoados, messias e marqueteiros propuseram à presidente que anunciasse uma ampla reforma política. Ninguém explica o que vem a ser, mas espera-se que a gostosa palavra reforma soe bem e acalme o populacho. Afinal, pior do que está, dificilmente pode ficar.

Algumas perguntas ficam no ar. Por que não foi feita nenhuma reforma enquanto o povo estava anestesiado, e os índices de aprovação presidencial eram estratosféricos? Por que esperaram que a tempestade balançasse o coreto para, só então, se darem conta de que foram eleitos para servir ao povo e não para se servir dele?

Interligne 37k

A palavra mais ouvida nesta semana espremida entre São João e São Pedro é plebiscito. Que bicho é esse? É bicho antigo, vem de longe. É parente de plebe e de plebeu, mas não tem carga ofensiva. Dois milênios atrás, os romanos já se valiam desse termo para definir consultas feitas diretamente à plebe. Os plebeus se contrapunham aos patrícios, situados em patamar superior na escala social.

Passeata

Passeata

Por sua própria natureza, os plebiscitos não costumam buscar respostas nuançadas. O povo consultado terá simplesmente de responder sim ou não a uma pergunta. Ou aprova, ou reprova. Pode-se sempre inovar, evidentemente, fazendo duas, três, quatro perguntas. Mas isso não é comum.

Um projeto de reforma política contará dezenas de artigos. Esses ítens dificilmente poderão ser submetidos, um por um, ao voto popular. Seria de uma monstruosa complexidade.

Como fazer, então? Na medida que o povo brasileiro não tem grande confiança em seus representantes, estamos metidos num beco sem saída. Os artigos, parágrafos e alíneas serão costurados por Suas Excelências. A população terá, em seguida, duas únicas opções: aceitar o pacote inteiro ou rejeitá-lo.

É por isso que não me parece boa essa ideia de plebiscito. Traz uma desconfortável sensação de conversa mole para boi dormir. Caso a plebe encampe a ideia, daqui a alguns meses, serenados os ânimos, virá um projetozinho mexendo em alguns pontos de detalhe, sem mexer nas estruturas. Para inglês ver.Interligne 37i

A atualidade política nos traz uma interessante observação referente à adequação vocabular. A imprensa brasileira, acertadamente, utilizou o termo plebiscito. É o que acontece quando se submete um projeto à aprovação do povo.

Manifestação

Manifestação

Já a imprensa portuguesa preferiu o termo referendo. Talvez, no além-mar, as duas palavras sejam sinônimas, não posso garantir. Entre nós, não são. Convoca-se a população a referendar um texto de lei já aprovado pelo parlamento.

Parece igual, mas não é. Recapitulemos. Se uma lei ainda não aprovada pelos representantes for submetida aos eleitores, deve-se falar em plebiscito. Se o povo for apenas chamado a confirmar um texto já votado, estaremos diante de um referendo.Interligne 37a

Há maneiras mais simples, rápidas e diretas de corrigir erros políticos. Não há necessidade de canhão para matar pardais. Não são leis que andam fazendo falta: o que falta é vergonha na cara.

No llores por mi

José Horta Manzano

Não é de hoje que a história dos dois vizinhos ibéricos, Portugal e Espanha, se entrelaça. Condenados a uma proximidade física incontornável, os dois países já viveram momentos de tensão, de briga, de reconciliação. Houve até um longo período de unificação, que os espanhóis conhecem como «união fraterna» ou «união dinástica», enquanto os portugueses o chamam «domínio espanhol» quando não «abominável dominação castelhana».

Críquete

Críquete

Na época das grandes navegações, a partir de 1450, a concorrência entre os dois reinos se acirrou. No entanto, o sentimento de nacionalidade, tal como o conhecemos hoje, ainda não estava ancorado nos espíritos. Decisões pessoais e procedimentos individuais que atualmente poderiam se assemelhar a uma traição à pátria eram encarados com naturalidade.

Sem o menor sentimento de culpa, navegadores espanhóis punham-se ao serviço do rei de Portugal, assim como portugueses serviam à Casa Real espanhola. O ultraconhecido Fernão de Magalhães, o primeiro a comandar uma expedição que deu ― reconhecidamente ― uma volta completa ao planeta, era português. Mas navegou a serviço da coroa espanhola.

Quase um século depois de Magalhães, um outro português, nascido em Évora em 1565, também se pôs a explorar novas terras a serviço do rei da Espanha. Chamava-se Pedro Fernandes de Queirós, nome que às vezes aparece castelhanizado em Fernández de Quirós.

Naquela época já se intuía que devesse existir um grande continente austral. As nações mais bem equipadas para fazê-lo lançavam periodicamente expedições em busca de novas descobertas.

Alguns historiógrafos já tentaram demonstrar que Fernandes de Queirós foi o primeiro europeu a avistar as costas australianas, décadas antes de Tasman e de Cook. Os documentos que nos chegaram, no entanto, não trazem a prova incontestável de tal primazia.

Muitos acreditam também que o navegante português tenha sido o primeiro europeu a chegar à ilha de Tahiti, em 1606. Se a grande ilha onde desembarcou a expedição era realmente Tahiti, é difícil afirmar. Nenhuma prova sobreviveu. A descoberta oficial da ilha é atribuída a uma expedição britânica que lá acostou 150 anos mais tarde.

Tahiti

Tahiti

Depois de seu achamento, a ilha foi objeto de disputa entre ingleses e franceses, uma história longa e acidentada. Em 1877, o último rei autóctone abdicou do trono em favor da França. Desde então, Tahiti perdeu sua soberania e tornou-se colônia francesa.

O termo colônia, em desuso há mais de 50 anos, é hoje politicamente inaceitável, quase ofensivo. As antigas dependências francesas hoje são conhecidas como departamentos ou territórios ultramarinos.

Tahiti faz parte da Polinésia Francesa, coletividade subordinada a Paris. A língua oficial da ilha é o francês, mas o falar originário guardou sua vivacidade. A maioria da população é bilíngue. Na política, persiste uma forte corrente a favor da independência do território.

Les Nouvelles de Tahiti 24 junho 2013

Les Nouvelles de Tahiti
24 junho 2013

Tahiti não é terra de futebol. Fica até difícil entender por que a fraca seleção local foi chamada a participar de um torneio como a Copa das Confederações. Por mais que os jogadores sejam simpáticos, há uma discrepância gritante ― em matéria de excelência futebolística ― entre o nível tahitiano e o das demais equipes.

De qualquer maneira, a leitura dos jornais locais desta segunda-feira deixa claro que os resultados da Copa não fazem parte das preocupações principais do povo de lá. Nenhum dos dois principais quotidianos faz, na primeira página, menção alguma ao evento que nós outros julgamos planetário. Para você ver…

La Dépêche de Tahiti 24 junho 2013

La Dépêche de Tahiti
24 junho 2013

As derrotas acachapantes sofridas pela sorridente seleção polinésia abalaram mais os brasileiros que os tahitianos. É mais ou menos como se a seleção brasileira de críquete ou de beisebol fosse esmagada por adversários mais fortes. Poucas lágrimas correriam.

Posso entrar?

José Horta Manzano

Em despacho de 23 de junho, o diário South China Morning Post informa que Edward Snowden escapou de Hong Kong. Embarcou num voo da companhia Aeroflot em direção a Moscou. No momento em que escrevo estas linhas, deve estar sobrevoando território russo. A previsão de pouso é por volta das 10h da manhã deste domingo, pela hora de Brasília.

Conheço muito bem as formalidades de imigração em vigor em Hong Kong. A cidade-estado está longe de ser uma peneira. Os controles de entrada e de saída aliam o antigo rigor comunista à eficiência britânica. De olhos perscrutantes, os agentes são mal-encarados, silenciosos, inflexíveis.

Se Snowden deixou o território, fez isso com a anuência das autoridades. É possível ― e mesmo bastante provável ― que Pequim tenha fechado um olho na esperança de se livrar de um problema cabeludo. O homem está sendo procurado pelo governo dos EUA sob a acusação de espionagem, crime ultrapesado pela lei de qualquer país.

Os dirigentes russos, pelo menos por enquanto, alegam estar completamente alheios ao que se passa. Acredite quem quiser.

Robin Hood

Robin Hood

O destino final do fugitivo, segundo o South China Morning Post, poderia ser a Islândia ou o Equador. Eu acrescento: poderia também ser o Brasil, por que não?

A Islândia acolheu, 4 anos atrás, um cirurgião plástico brasileiro, que, condenado a 47 anos de prisão por homicídio, havia escapulido de sua prisão. Mas o problema foi resolvido em pouco tempo. O governo brasileiro solicitou e obteve a extradição do condenado.

O Equador abriga em sua embaixada londrina, há mais de um ano, um Robin Hood dos tempos modernos. O original, a quem a lenda confere uma aura de honra e magnanimidade, roubava dos ricos para distribuir aos pobres. O clone atual roubou segredos diplomáticos e os publicou ao planeta inteiro. Segredo é para quatro paredes. Espalhar troca de correspondência confidencial, além de ser feio, não traz vantagem a ninguém. Tanto o Robin Hood original quanto o moderno agiram mal. Nenhum deles transformou o mundo.

No apagar das luzes de seu governo, como quem põe o morango em cima do bolo, no mesmo dia em que concedeu passaporte diplomático a seus filhos e netos, o Lula negou definitivamente a extradição de um fugitivo da Justiça italiana, já condenado em seu país por participação em quatro assassinatos.Interligne 38

A Islândia é país pequeno, sem árvores e sem calor. Para um jovem de 30 anos, como Snowden, a perspectiva de passar o resto da vida naquele lugar é desmoralizante.

Já o Equador é um pouco melhor. Tem árvores, tem calor, mas o território é diminuto. Para quem chega, saber que não vai nunca mais poder sair deve ser frustrante.

Robin Hood

Robin Hood

Se eu fosse Snowden, sondaria o governo brasileiro. Generosos, estamos sempre prontos para acolher assassinos, ex-ditadores e outros bandidos. Por que não traidores? O País é vasto como coração de mãe. Cabem todos.

No entanto, caso a Islândia decida abrigar o fugitivo, resta-nos a possibilidade de convidar aquele país hermano para integrar o Mercosul. Seria mais ou menos como se nós mesmos tivéssemos acolhido o fugitivo. É sempre um consolo, não é mesmo?Interligne 38

Complemento
Sabe aquela batata quente, aquela que ninguém quer segurar na mão e joga no colo de quem estiver mais distraído? Pois é. Este caso Snowden está ficando assim. Tornou-se um abacaxi que ninguém quer descascar.

No momento em que escrevo este complemento, o homem deve estar desembarcando em Moscou. A Agência Reuters informa que seu destino poderia ser Caracas, via Havana. Faz sentido.

A Islândia, finalmente, não vai precisar ser convidada a fazer parte do Mercosul. Não faz jus ao convite, além do que a Venezuela já é membro de pleno direito. Snowden vai se sentir em casa. A velha máxima do tempo de nossos tataravós continua válida: dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.

Que o destino final seja Cuba, o Equador, a Venezuela, tanto faz. Pode ser até um País gigante por natureza, por que não? Quem viver verá.

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A frase do dia – 08

“Queixa
O comissário Gilberto Carvalho, que desde 2003 gere as relações do governo (e do PT) com os movimentos sociais, queixou-se de que o ronco das ruas não tinha comando único.
Se tivesse, muita coisa seria possível. Inclusive a criação de uma discreta Bolsa Comando.”

Elio Gáspari
in Folha online, 23 junho 2013Interligne 34a

A frase do dia – 07

“Sonho de Vanda
Em 1970, quando a Vanda da Vanguarda Popular Revolucionária estava no presídio Tiradentes, em São Paulo, talvez sonhasse com um dia em que 1 milhão de brasileiros fossem para as ruas, cercando o Palácio do Planalto.
Na quinta-feira havia gente querendo fazer isso, mas a doutora só saiu do palácio, protegido pela tropa do Exército, às 20h.”

Elio Gáspari
in Folha online, 23 junho 2013

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Aflição, constrangimento e consternação

José Horta Manzano

Há muita gente finória no mundo. Espertalhões não são exclusividade brasileira, longe disso. Volta e meia, vem à tona alguma falcatrua nacional ou internacional. A diferença entre lá e cá é a reação da sociedade quando um malandro é apanhado com a boca na botija.

Povos mais adiantados reservam tratamento mais severo a desvios de conduta, especialmente quando são obra de personagens políticos. A demissão do cargo é a punição primeira, sem contar as sanções que lhe possam suceder.

Blá, blá, blá!

Blá, blá, blá!

No Brasil, sacumé, esses deslizes costumam ser tratados com displicência. Nossa sociedade costuma dar de ombros e isentar de sanções as safadezas, razão pela qual os espíritos se liberam. Comportamentos de valor moral discutível tendem a tornar-se cada dia mais contundentes e mais corriqueiros.

Em julho de 2009, um blogueiro alojado na revista Veja denunciou a desfaçatez de dona Dilma, então candidata à presidência da República. A presidenciável ostentava, em seu muito oficial Currículo Lattes, títulos de mestre e de doutora que não possuía.

Naquela mesma ocasião, Malu Gaspar revelou, na mui séria revista Exame, que o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, era autor de um «malfeito» de mesmo jaez. Seu currículo oficial, no site do Itamaraty, informava que o chanceler era doutor em Ciência Política por um instituto londrino. Era mentira.

Descobertos os embusteiros, que fim os levou? Longe de ser punida pela empulhação, a presidenciável foi eleita. Está no posto máximo da República até hoje. Quanto ao chanceler, foi designado pela doutora Dilma ― quando esta chegou à presidência ― para chefiar nada menos que o Ministério da Defesa. Está lá até hoje.

Como se vê, na política brasileira, o que parece nem sempre é. Nas altas esferas, além de falsos messias, temos também falsos mestres e falsos doutores. Mas tudo bem, vamos em frente, que a Copa é nossa!

Interligne 34b

Aos 71 anos de idade, diplomata de carreira e ministro da República há 10 anos, o doutor Celso Amorim pode ser tachado de tudo, menos de inexperiente. No entanto, nosso prezado ministro tem demonstrado uma candura patética, incompatível com os altos encargos que lhe têm sido confiados.

Durante infindáveis 8 anos, levou a cabo uma política desastrosa que baixou a diplomacia de nosso País a um nível embaraçoso. O tolo ressentimento antiamericano do chanceler, aliado a sua obsessão terceiro-mundista démodée, levou o ingênuo Lula a dar tapinhas nas costas de gente pouco recomendável. Ahmadinejad, Zelaya, os Castros, Chávez, o ditador da Guiné Equatorial, Evo Morales foram alguns deles. Todos gente fina.

Ha, ha, ha! Crédito: Philippe Berry

Ha, ha, ha!
Crédito: Philippe Berry

Para alívio geral da nação, doutora Dilma preferiu confiar ao antigo chanceler o ministério da Defesa. Pelo menos, os desastres passaram a ser menos visíveis do exterior. Infelizmente, continuam no plano interno.

Faz dois dias, o doutor Amorim concedeu entrevista ― é impressionante a apetência que caciques da política brasileira têm para se fazer entrevistar. Do responsável maior pela defesa(!) do País, espera-se, para começar, um certo recato. O ministério que controla as forças armadas tem, no mínimo, de se mostrar discreto. Se há falhas, não convém pô-las sobre a mesa nem expô-las em praça pública.

As décadas de experiência do doutor Amorim ainda não foram suficientes para ensinar-lhe essa verdade básica. A entrevista do ministro está mais para conversa de elevador que para fala de autoridade de elevado escalão. Ele chega a confessar que, tanto no exterior quanto no Brasil, em alguns momentos desconfiou que seu telefone estivesse sendo grampeado. E tudo ficou por isso mesmo, o homem continua sem saber se aconteceu ou não.

É afligente saber que o responsável pela defesa do País não consegue garantir a segurança e a inviolabilidade de seu próprio telefone. É constrangedor vê-lo declarar isso em público. É consternador perceber que continuamos sendo governados por gente presunçosa e incompetente.

Insistir pra quê?

José Horta Manzano

Susana Werner, mulher do goleiro da seleção brasileira de futebol, foi vítima de assalto à mão armada, em Fortaleza. Ficou feliz por ter saído com vida.Interligne 07

Manifestantes tentaram invadir o Hotel Bahia, em Salvador, onde está hospedada a comitiva da Fifa. A Polícia Militar conseguiu segurar a turba que, enfurecida, depredou dois ônibus dedicados ao transporte dos cartolas.Interligne 07

A delegação espanhola teve dinheiro e objetos furtados de seus aposentos no hotel em que se hospedavam, no Recife. Que fique bem claro: não era a pensão de dona Mariazinha. Que fique mais claro ainda: os espanhóis são os atuais detentores do título de campeões do mundo ― portanto, o time mais visado e o que deveria, em teoria, ter sido mais bem protegido.Interligne 07

Um jogador uruguaio declarou, em entrevista coletiva, que o Brasil tem muito a melhorar para a Copa-14. Lúcido, disse que, caso os aborrecimentos de que sua delegação foi vítima, tivessem ocorrido com uma seleção europeia, o reclamo teria tido repercussão bem maior.Interligne 07

Os enviados especiais da Folha de São Paulo confirmam que, embora a Fifa não esperasse uma organização perfeita ― só faltava! ― a magnitude dos problemas está além do pior cenário imaginado. Os cartolas estão apavorados.

Antes da Copa das Confederações, os dirigentes da Fifa já se tinham conformado com muitos dos males brasileiros endêmicos. Corrupção, desorganização, promessas e prazos não cumpridos. Tudo isso já estava mais ou menos previsto e, bem ou mal, assimilado. No entanto, não contavam com o desencadeamento de um clamor popular impossível de reprimir. Sejamos sinceros, ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Essa mistura explosiva de desorganização e violência está causando problemas pesados. A Fifa está-se vendo obrigada a negociar com as delegações estrangeiras a fim de convencê-las a não abandonar o País antes do final desta copinha.Interligne 07

Quando se faz uma besteira, o melhor caminho é ser honesto, reconhecer o erro e, parodiando mestre Vanzolini, dar a volta por cima. Na era em que o Lula mandou no País, asneiras grossas foram cometidas. Algumas são já irreparáveis, outras ainda não estão consumadas.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

A questão da manutenção da Copa-14 no Brasil está sobre a mesa. Chegamos a um ponto em que as autoridades competentes deveriam parar para refletir. À vista do ensaio geral a que estamos assistindo estes dias, fica a pergunta: ainda vale a pena insistir em hospedar a próxima Copa? Não valeria mais a pena parar por aqui e deixar o abacaxi para quem se dispuser a descascá-lo?

Há países prontos para receber o evento: Alemanha, Reino Unido, Itália são alguns deles. Dispõem todos de infraestrutura adequada, vasta e bem azeitada rede hoteleira, transportes organizados.

Faz dez dias que o planeta inteiro descobre, boquiaberto, que o povo brasileiro não está tão feliz como o marketing político vinha martelando estes últimos anos. Todos conhecem agora a incompetência das autoridades brasileiras para organizar dignamente um evento de importância média, como essa copinha. A Copa de verdade é um desastre anunciado.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

Que se desista agora, antes que seja tarde demais! Não há por que envergonhar-se: a indisciplina, a corrupção e a incompetência já caíram no domínio público planetário, não dá mais para esconder.

Resta estancar a sangria. E, quanto mais rápido, melhor.

A raposa e a galinha

José Horta Manzano

Com toda a atenção da população e dos meios de comunicação focalizada nos surpreendentes protestos que pululam pelas ruas do Brasil, uma notícia está passando despercebida.

Matéria publicada em 20 de junho nos informa que Renan Calheiros, o famigerado presidente do Senado ― aquele que foi expulso pela porta dos fundos e voltou pela janela ― fez publicar no Diário Oficial uma resolução bizarra.

A raposa e a galinha

A raposa e a galinha

Trata-se da autorização concedida à União para contratar empréstimo de 18 milhões de dólares junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento. Até aí, nada de espantoso. O grotesco vem a seguir. O dinheiro vai servir para «combater a corrupção na gestão pública brasileira» (sic).

Confesso que, num primeiro momento, não me fiei no despacho do jornal. Fiz questão de conferir. Imagino que você também possa ter alguma dificuldade em acreditar em tamanho disparate. Pois é verdade. Eis a confirmação:

Estadão online

Jornal Jurid

Senado Federal

Acho que até para incongruência deveria haver limite. Suas Excelências estão gargalhando na cara do povo que os elegeu. Tomar dinheiro emprestado para combater a corrupção nas altas esferas federais? É como se a raposa contratasse uma galinha como secretária executiva.

Mas, pensando bem, são apenas 18 milhões, coisa pouca. No final, quem vai levar o calote é o BID. De toda maneira, Deus é brasileiro, e a Copa é nossa! Ou não?

Exaustão

Artigo de Eliane Cantanhêde, jornalista
publicado na edição online da Folha de São Paulo de 20 junho 2013

Condenados pelo Supremo têm mandato de deputado e, não bastasse, viram membros da Comissão de Constituição e Justiça.

Um pastor de viés racista e homofóbico assume nada mais, nada menos que a presidência da Comissão de Direitos Humanos na Câmara.

Um político que saíra da presidência do Senado pela porta dos fundos volta pela da frente e se instala solenemente na mesma cadeira da qual havia sido destronado.

O arauto da moralidade no Senado nada mais era do que abridor de portas de um bicheiro famoso. E o Ministério Público, terror dos corruptos, é ameaçado pelo Congresso de perder o papel de investigação.

A chefe de gabinete da Presidência em SP usa o cargo e as ligações a seu bel-prazer, enquanto a ex-braço direito da Casa Civil, afastada por suspeita de tráfico de influência, monta uma casa bacana para fazer, possivelmente… tráfico de influência.

Um popular ex-presidente da República viaja em jatos de grandes empreiteiras, intermediando negócios com ditaduras sangrentas e corruptas.

Um ex-ministro demitido não apenas em um, mas em dois governos, tem voz em reuniões estratégicas do ex e da atual presidente, que “aceitaram seu pedido de demissão”.

Ministros que foram “faxinados” agora nomeiam novos ministros e até o vice de um governador tucano vira ministro da presidente petista.

Na principal capital do país, incendeiam-se dentistas, mata-se à toa. Na cidade maravilhosa, os estupros são uma rotina macabra.

Enquanto isso, os juros voltam a subir, impostos, tarifas e preços de alimentos estão de amargar. E os serviços continuam péssimos.

É por essas e outras que a irritação popular explode sem líderes, partidos, organicidade. Graças à internet e à exaustão pelo que está aí.

A primeira batalha foi ganha com o recuo dos governos do PT, do PSDB e do PMDB no preço das passagens. Mas, claro, a guerra continua.

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A frase do dia – 06

“Pois quem tem os instrumentos para corromper? Quem recebeu delegação para usar dinheiro público? A quem cabe dar uma solução para a inflação? Quem gastou a rodo com os estádios da Copa? Certamente não foram os marcianos nem a oposição.”

 

Dora Kramer
in Estadão de 20 junho 2013

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Nove dias cruciais

José Horta Manzano

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Estes últimos 10 anos, os brasileiros viveram anestesiados pelas artes de um excelente marketing governamental, que fez crer a (quase) todos que a situação do País era infinitamente melhor do que parecia.

Parede rachada Crédito: Can Stock

Parede rachada
Crédito: Can Stock

O truque funcionou. Nosso povo, um dos mais tolerantes do mundo, fechou um olho para afagos feitos por nossos mandachuvas a dirigentes sanguinários e intolerantes, a ditadores ferozes e inescrupulosos, a vizinhos malcriados e agressivos.

Alguns ― principalmente os que contam com convênio particular ― chegaram a acreditar que os serviços públicos de saúde tinham atingido padrões de países civilizados. Pois não foi o próprio presidente quem declarou isso?

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Por ignorância ou por ingenuidade, nossos dirigentes de primeiro escalão acreditaram que o Bric ― mera sigla inventada por um analista, no aconchego de um escritório carpetado e climatizado ― tinha significado real e palpável na vida do planeta. Imaginaram que fosse um «bloco» de países companheiros, todos empenhados em desbancar os EUA de seu pedestal. Um por todos, todos por um! Como quem tivesse decifrado o enigma da esfinge, difundiram essa ideia ilusória, imediatamente comprada como verdade insofismável por muita gente fina no País.

Muitos se encantaram com a perspectiva de nos tornarmos meros fornecedores de matéria-prima para a China. Não se deram conta de que isso nos fazia regredir 50 anos e abandonar parte significativa de uma industrialização conquistada com paciência e tenacidade.

De uns meses para cá, o edifício dá sinais evidentes de fadiga. Foi construído sobre alicerces frouxos. Rachaduras se tornam mais visíveis a cada dia. Assim como o baile da Ilha Fiscal não foi a causa da queda da monarquia brasileira, não há que identificar no aumento de preço das passagens de ônibus a causa da revolta do povo brasileiro. Foi apenas o estopim.

Às autoridades, resta acalmar os ânimos e, rapidamente, mostrar empenho em conduzir os brasileiros a bom porto. Marketing é bom, mas tem limites. Um dia, a verdade acaba aparecendo e a coisa pode ficar preta para os lados de quem mentiu. Não se consegue enganar o País inteiro o tempo todo.

Enquanto preparam um plano de emergência para repor o Brasil nos trilhos, as autoridades maiores devem levantar os braços ao céu e pedir, com muita força, que o Brasil vença a Copa das Confederações. A vitória não transformará o País, mas aplacará os ânimos dos manifestantes e dará aos governantes algumas semanas de trégua.

Recomendo, portanto que todos os cortesãos se recolham ― por que não diretamente no Palácio do Planalto? ― para lá recitarem juntos uma novena a São Judas Tadeu, padroeiro das causas perdidas. Eventualmente, Santa Rita também costuma aceitar esse tipo de reclamo.

Como sabem todos, uma novena dura nove dias. Portanto, ainda dá tempo de terminar antes do fim da Copa. Mas tem de começar já.

Depois, não vale dizer que não avisei.

A frase do dia – 05

“Está morto o projeto lulopetista – essa minha afirmação não nega sua enorme importância histórica. Mas ele se esgotou na repetição esclerosada, na incapacidade de se ajustar às novas situações que ele mesmo, às vezes, propiciou.”

 
José Arthur Gianotti
Professor emérito de Filosofia da USP
in Estadão de 19 junho 2013

 

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Repercussão no exterior

José Horta Manzano

Numerosos leitores me têm feito perguntas sobre a repercussão que estão tendo no exterior as demonstrações de descontentamento do povo brasileiro. Gostariam de saber se a mídia estrangeira está dando sinais de interesse pelo problema tupiniquim. A resposta é sim.

Em todas as décadas que já passei na Europa, não me lembro de ter visto notícias provenientes do Brasil permanecerem por tanto tempo na primeira página de jornais e na abertura de noticiosos de rádio e televisão.

Catástrofes naturais como enchentes e desmoronamento de encostas sempre rendem manchetes. Tragédias humanas como o incêndio de Santa Maria também. Mas depois de um ou dois dias vira-se a página. O que está acontecendo agora é diferente.

O Lula e seus cortesãos sempre foram encarados com um certo ar de comiseração. Eu diria que, fora das fronteiras nacionais e longe do Brasil de todos os dias, ele foi observado como o que realmente era: uma espécie de dom-quixote folclórico, sem poder, errático, nem sempre bem orientado. Mais ou menos como Chávez era visto pelo mundo ― inclusive pelos brasileiros. Chávez, pelo menos, aparecia sorridente nas fotos. O Lula, nem sempre.

Desta vez, como eu dizia, é diferente. O mundo todo entendeu que os protestos brasileiros não têm muito a ver com passagem de ônibus. Esse foi apenas o estopim. O mal é mais profundo. Os brasileiros não se sentem representados pelos que foram eleitos justamente para essa função. Daí a frustração e o insuportável sentimento de estarem sendo traídos.

Pode parecer incongruente, mas os estrangeiros entenderam a mensagem bem mais rapidamente que o governo brasileiro. O Planalto e outras vozes oficiais continuam se referindo aos «protestos contra o aumento do preço das passagens». É constrangedora cegueira. Ou, bem pior, é má-fé mesmo.

O jornal sueco Aftonbladet deu título bastante sugestivo a sua matéria: «Bakom den läckra ytan finns ett annat Brasilien», ou seja, «por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil». Achei muito sugestivo.

Dou-lhes abaixo uma resenha do que está sendo publicado em alguns jornais estrangeiros estes dias.

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Manifestantes saem de novo na maior cidade do Brasil The Times of India, Índia

Manifestantes saem de novo na maior cidade do Brasil
The Times of India, Índia

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200 mil brasileiros concentram-se para evacuar cólera South China Morning Post, Hong Kong

200 mil brasileiros concentram-se para evacuar cólera em mais de meia dúzia de cidades
South China Morning Post, Hong Kong

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A presidente do Brasil tenta acalmar os ânimos Radio Canada, Montréal

A presidente do Brasil tenta acalmar os ânimos
Radio Canada, Montréal

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Dezenas de milhares de novo nas ruas do Brasil NRC, Holanda

Dezenas de milhares de novo nas ruas do Brasil
NRC, Holanda

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Os brasileiros saem às ruas NRC, Holanda

Os brasileiros saem às ruas
NRC, Holanda

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Aqui jaz uma nação conformista. O Brasil despertou! Le Monde, França

Aqui jaz uma nação conformista. O Brasil despertou!
Le Monde, França

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Brasil: os jovens abandonam o futebol e saem às ruas Le Matin, Suíça

Brasil: os jovens abandonam o futebol e saem às ruas
Le Matin, Suíça

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Do boom à cólera social. Agora o Brasil não sonha mais. Il Giornale, Itália

Do boom à cólera social. O Brasil já não sonha mais.
Il Giornale, Itália

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Dilma Rousseff estende a mão aos manifestantes El País, Espanha

Dilma Rousseff estende a mão aos manifestantes
El País, Espanha

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Blatter critica os manifestantes de Brasília Der Spiegel, Alemanha

Blatter critica os manifestantes brasileiros
Der Spiegel, Alemanha

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Brasil manda força policial nacional para reprimir protestos BBC, Reino Unido

Brasil manda força policial nacional para reprimir protestos
BBC, Reino Unido

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Por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil Aftonbladet, Suécia

Por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil
Aftonbladet, Suécia

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Catarse coletiva

José Horta Manzano

Mensalão, corrupção, falcatruas, corrupção, crianças arremessadas por janelas, corrupção, parricídios, corrupção, medalhas concedidas a quem não fazia jus, corrupção, tapinhas nas costas de Chávez e de Ahmadinejad, corrupção, capitulação diante de Evo, corrupção, apoio explícito a ditadores sanguinários, corrupção, balcão de negócios, corrupção, nada disso comoveu o povo brasileiro a ponto de suscitar reação visível.

Mas o mundo deve estar mudando mais rápido do que se imagina. Pela primeira vez depois de muitos anos, veem-se cenas de protesto popular no Brasil. La colère gronde, como diriam os franceses ― a fúria deixa ouvir seu bramido. A razão oficial é um aumento de 20 centavos na passagem de ônibus.

Transporte coletivo de primeira

Transporte coletivo de primeira

Os protestos, no entanto, estão sendo explicitamente apoiados por comunidades de brasileiros do exterior, com passeatas em vias públicas de terra estrangeira. Os manifestantes são pessoas que, por razões evidentes, não costumam utilizar transporte público no Brasil. Está aí a prova maior de que a briga é bem mais ampla do que 20 centavos.

Visto de longe, dá até para acreditar que o gigante está despertando. Será? Algo me diz que esse desencadeamento de protestos, violentos ou não, é um fenômeno catártico, uma válvula de segurança a deixar escapar um pouco da pressão gerada pelo descontentamento acumulado há muitos anos. O aumento das tarifas não é mais que a gota d’água.

Tomo emprestada uma oportuna lembrança que tiveram Samy Dana e Leonardo Siqueira de Lima em artigo publicado na Folha de 17 de junho. É uma declaração de Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, em entrevista concedida à Agência de notícias EFE em dezembro de 2010.

Interligne vertical 3“Una ciudad avanzada no es en la que los pobres pueden moverse en carro, sino una en la que incluso los ricos utilizan el transporte público”

Por enquanto, é uma revolta. Esperemos que não se transforme em revolução.

De municípios

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, é comum os termos município e cidade aparecerem como sinônimos. Em outras partes do mundo, essa equiparação soa estranha. Dependendo do país, o conceito de cidade varia.

Municípios suíços

Municípios suíços

Na Suíça, a lei é clara: um povoado passa a ser chamado de cidade (=ville) a partir do momento em que sua população atinge 10 mil pessoas. Abaixo disso, o nome é vilarejo (=village).

Na Bélgica, no Canadá e no Reino Unido, a denominação de cidade é uma honraria concedida pelo poder central. O número de habitantes pouco importa. Por aquelas bandas, ainda vigora o mesmo sistema do Brasil colonial. Todos nós já aprendemos algum dia, na aula de História, que tal localidade foi elevada a vila ou elevada à categoria de vila por real decreto chegado direto de Lisboa.

Na Algéria, o critério é o número de habitantes, como na Suíça. Naquele país, aglomerados de mais de 20 mil pessoas têm direito à denominação de cidade.

Vilarejo Crédito: Jamyshots.com

Vilarejo
Crédito: Jamyshots.com

No Reino Unido, ainda vale a antiga tradição ibérica, a mesma do Brasil de antigamente. Não é cidade quem quer. Para ostentar o título de city, o município tem de ter obtido do monarca uma letter patent. É honraria concedida com parcimônia. As mais antigas datam da Idade Média. As mais recentes foram outorgadas por Elisabeth II por ocasião de seu jubileu de diamante, no ano passado. Assim mesmo, somente 51 municípios ingleses têm direito ao título de cidade.

Nos Estados Unidos, não há esse rigor na atribuição de estatuto a vilas, vilarejos e cidades. De um povoado de 500 habitantes, não se dirá que é uma city. Mas ninguém cairá da cadeira se você chamar town ou city um aglomerado de meio milhão de viventes. Fica, assim, ao gosto do freguês.

Na França ― ah! o país das regulamentações rigorosas ― a lei não deixa margem a dúvida. O INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos), o IBGE gaulês, ditou norma clara e precisa: um município deixa de ser chamado vilarejo (=village) e passa à categoria de cidade (=ville) quando sua população ultrapassa 2000 habitantes. Mas há uma segunda condição: a zona habitada tem de ser contínua. As casas não podem estar distantes umas das outras mais de 200 metros. Se houver quebra na continuidade, cai por terra o direito ao título de cidade. A sede do município será chamada de vilarejo (=village) e cada pequeno povoado isolado, embora dentro do mesmo município, será conhecido como hameau (=lugarejo, aldeia, arraial)(*).Interligne 13

No Brasil, desde que foi votada a Constituição de 1988, políticos enxergaram vantagens e oportunidades de negócios na criação de municípios. Vantagens para eles, naturalmente.

Cidade imaginária

Cidade imaginária

Estive lendo hoje sobre a onda atual de desmembrar municípios existentes para criar novos. É iniciativa pra lá de discutível. No entanto, a proximidade das eleições incentiva esse tipo de «bondade». Mais que possível, é altamente provável que um exército de novos municípios apareça nos próximos meses.

Na Europa, temos assistido a um movimento inverso. Mais instruídos, os cidadãos resistem a acatar bovinamente caprichos e casuísmos vindos do andar de cima.

Na França há hoje 1500 municípios a menos do que em 1920. E isso não é resultado de eventuais territórios perdidos em guerras. É produto da junção voluntária de pequenas comunidades. Os cidadãos fizeram as contas e chegaram à conclusão de que o aumento da arrecadação e as economias de gestão compensavam amplamente a perda de autonomia.

Hameau Crédito: kako.artblog.fr

Hameau
Crédito: kako.artblog.fr

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para se dar conta de que dois prefeitos custam mais que um. Duas câmaras, dois conjuntos de vereadores, duas estruturas de arrecadação de impostos municipais ― essa duplicidade vai ter de ser sustentada. E o dinheiro tem de sair do bolso de alguém. No final, quem acaba pagando é o próprio povo. A população do País é chamada a contribuir para o favorecimento de grupos políticos amigos do rei.

A atitude dos atuais mandachuvas brasileiros confirma que pouco mudou desde o Brasil colônia. Lugarejos continuam a ser elevados a vila, exatamente como na Idade Média. Nossos políticos têm dificuldade para se dar conta de que o povo já não é tão alienado como naquele tempo de trevas.

É bom que acordem a tempo.Interligne 18

(*) O francês hameau é termo de origem germânica. Descende da mesma raíz que deu ham em inglês, hem em neerlandês e heim em alemão e norueguês. Birmingham, Arnhem, Mannheim, Trondheim são todos primos. Em inglês, o diminutivo de ham é… hamlet. Lembra alguém, não?

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