Na imprensa europeia, não é comum chamar políticos unicamente pelo prenome. Fica esquisito. Para contornar o problema, há veículos que se referem a Flávio B. como “Bolsonaro junior”. Me pareceu um modo simpático, por nada agressivo, que descreve bem a imagem do filho que carece de existência própria e não viceja sem a luz do pai.
Bolsonaro junior está às portas do poder presidencial. Acho que nem o Lula guarda muita esperança de reverter o quadro. A hora é boa para refletir sobre o acontecido. Como foi possível?
Desde 2018, os países sul-americanos tiveram 20 eleições presidenciais. Em 17 delas, o dirigente (ou seu partido) foram derrotados. O povo preferiu abandonar a situação e votar na oposição. Só três exceções a essa regra ocorreram, duas no Paraguai e uma no Equador. Se Bolsonaro junior ganhar no segundo turno, a oposição terá vencido 18 das 22 últimas presidenciais na América do Sul.
É verdade que o povo brasileiro não aprecia ser comparado aos habitantes dos países vizinhos. Talvez isso se explique pelo fato de não falarmos a mesma língua. Mas há que admitir que somos vizinhos de parede e estamos num estágio de evolução comparável. Se algum dos luminares que frequentam o Planalto tivesse feito uma listinha das últimas presidenciais da vizinhança, talvez a campanha de reeleição de Luiz Inácio tivesse sido menos altiva.
Qual é a razão pela qual, de 2018 a esta parte, a oposição ter vencido praticamente todas – em todos esses países, Brasil incluído? Não acredito que, nestes anos 2020, os eleitores se puseram a apreciar a alternância, votando ora neste partido, ora naquele ali. Será?
A alternância no poder é prova de democracia bem implantada, que funciona. É assim que deve ser. Hegemonia de um grupo partidário que se prolonga por décadas é mau sinal. A constatação, feita por muitos, de que há um “cansaço de Lula” é compreensível. Apesar de todo o poder que a Presidência confere a seu ocupante, as coisas não melhoraram nos últimos quatro anos.
A sensação de insegurança é generalizada. Notícias de crimes violentos e feminicídios aumentaram em vez de diminuir. O ensino básico continua sua descida aos infernos. O descontrole de gastos do governo ameaça trazer de volta a inflação e torturar o bolso da população. Discurso de soberania é bonito, soa bem, traz aplauso, mas não põe comida na mesa.
Sob o prisma da oscilação da política de nossos vizinhos, a vitória provável de Bolsonaro junior não vai destoar. Assusta, é verdade, mas Nossa Senhora Aparecida vai ajudar.
Que o canibalismo se restrinja à classe política e à elite gananciosa. E que a população consiga viver em paz.

Sonhar não custa nada, mas seu voto de que o canibalismo se restrinja à classe política e à elite se aproxima perigosamente de um “wishful thinking”. Infelizmente…
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