Pacto oligárquico

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José Horta Manzano

O distinto leitor que costuma passear por este modesto blogue por certo entende a frase do ministro. Mas não é o caso de meio Brasil. Metade de nossos conterrâneos, ainda que fizessem o esforço de consultar dicionário pra descobrir o significado de cada palavra, dificilmente conseguiriam captar a concatenação.

Recorde-se que o «exame da Ordem», que todo bacharel em Direito tem de enfrentar se quiser obter o brevê de advogado, expõe a catástrofe da Instrução Pública no país: em média, nove entre dez candidatos são reprovados. Triste Brasil.

Após treze anos de domínio absoluto do lulopetismo ‒ capitaneado por aquele partido que prometia a redenção nacional ‒, o que é que temos? Um terço da população dependendo da bolsa família para sobreviver ‒ e sem perspectiva de sair da miséria. Diplomados da faculdade sendo reprovados no exame de entrada na profissão que escolheram. Sessenta mil homicídios por ano, taxa superior a qualquer país em guerra. A mais profunda recessão que o país já conheceu.

Chega. Não vou repetir aqui a procissão de misérias que nos assolam. Vale apenas constatar que os que nos governaram desde 2002 não entregaram o que haviam prometido. No mínimo, são tratantes. Mas fizeram pior. Além de nos terem vendido gato por lebre, deram forte contribuição para engrossar o tal «pacto oligárquico».

Do grego olígos (pouco) e archía (autoridade, supremacia), a oligarquia designa o domínio exercido por um pequeno grupo. É termo perfeito para exprimir o Estado brasileiro. Pensar que nascimento, vida e morte de duzentos milhões de almas são regulados por um reduzido número de integrantes de nossa nomenklatura! É de dar arrepio!

O ministro mencionou «agentes públicos e privados». Com isso, quis sublinhar que o grupinho oligarca inclui não só políticos, mas grandes empresários. Todos se beneficiam do sistema. A Lava a Jato desmascarou os mais importantes, mas ainda há muita poeira debaixo do tapete.

O sistema é relativamente simples. A oligarquia tem o domínio sobre os cofres públicos. O grosso da população não se dá conta de que aquele tesouro pertence a todos nós. Os poucos que percebem a realidade gritam no deserto ‒ ninguém lhes dá ouvidos. Em consequência, o grupelho lá de cima se sente à vontade pra se servir do tesouro que é de nós todos.

O grão-mestre, que dirigiu a orquestra dos oligarcas durante 13 anos, não foi (nem será) julgado pelo estrago que infligiu aos brasileiros. Como o sanguinário Al Capone, que só pôde ser sentenciado por evasão fiscal, nosso demiurgo foi condenado por uma sombria história de propina materializada por um apartamento. Uma ninharia perto das artes que o homem fez.

Agora, com medo da cadeia, esperneia. Vendo-o condenado por dois tribunais, o brasileiro de bem achou que era o fim da viagem. Só que… agora entra em cena a nomenklatura, a oligarquia. Lá no andar de cima, estão todos incomodados. O acusado é um deles, faz parte do grupo. Se ele cair, os demais estarão em perigo. Uma providência precisa ser tomada.

A decisão que o STF tomará amanhã se anuncia apertada. Nenhuma sondagem de boca de urna é capaz de predizer, neste momento, o resultado. Conseguirá a oligarquia preservar seu domínio? Ou vai abrir-se a brecha que anuncia o esvaziamento da nomenklatura atual?

Seja como for, visto o nível de instrução do brasileiro médio, a oligarquia ainda tem muita lenha pra queimar. Ainda que alguns integrantes caiam em desgraça, logo serão substituídos. E a vida vai seguir.

Consciência Negra

José Horta Manzano

Era uma vez uma cidadezinha que vivia em pé de guerra. Sua população se dividia em três diferentes etnias: havia os vermelhos, os amarelos e os azuis. Cada grupo detestava os outros dois. A repulsa criava um clima de tensão permanente que impossibilitava todo entendimento. Algo tinha de ser feito pra trazer harmonia ao lugar, mas.. o quê?

Um dia, os chefes de cada comunidade se reuniram para debater. Conversa vai, conversa vem, decidiram reunir a população inteira numa praça e, todos juntos, fazer uma oração ao Altíssimo pedindo iluminação. No dia marcado, todos estavam lá. Rezaram juntos.

Ao cabo de alguns minutos, o milagre se fez. Ouviu-se um estrondo, seguido de um nevoeiro espesso que, por um instante, ocultou a luz do sol. Dissipada a neblina, os habitantes se entreolharam espantados: tinham-se tornado todos verdes.

Passado o primeiro momento de estupor, ouviu-se a voz enérgica de um respeitado cidadão: «Vamos, gente! Os verdes-claros deste lado, os verdes-escuros do outro!».

Sob aparência ingênua, essa fábula encerra uma realidade universal: o sentimento de pertencimento a determinada categoria. Toda sociedade tem seu saco de pancada. A discriminação pode se exprimir por razão de raça, de religião, de nacionalidade, de convicção política, de orientação sexual.

Nenhum agrupamento humano, em nenhuma época, escapa a esse vezo. Poloneses não gostam de judeus. Chineses desconfiam de japoneses. Norte-irlandeses católicos e protestantes se estranham. Italianos do norte olham torto para italianos do sul. Homossexuais são reprimidos no Irã. Muçulmanos são perseguidos na Birmânia. Cristãos são atacados no Egito. Catalães independentistas e unionistas não se falam mais. E assim vai a vida.

Neste 20 de novembro, muitos municípios brasileiros param de trabalhar para celebrar o Dia da Consciência Negra, feriado instituído em data relativamente recente. O (louvável) propósito do legislador foi de sacudir os espíritos e esfregar-lhes na cara a realidade brasileira: pretos, mulatos, pardos, cafuzos e outros não-brancos tendem a ser discriminados. A intenção foi boa, mas duvido que dê o resultado esperado.

Para começar, acredito que a discriminação no Brasil seja muito mais sócio-econômica que racial. A prova é que um negro abastado e culto tende a ser mais bem aceito que um branco maltrapilho e ignorante. Está aí doutor Joaquim Barbosa para não me deixar mentir.

Para concluir, parece-me que, em vez de propor um dia de folga ‒ que pouco contribui para elevar o nível de consciência da população ‒, melhor seria calcular o PIB gerado nesse dia e investi-lo inteiramente no aprimoramento da Instrução Pública. O melhor antídoto contra a intolerância entre grupos sociais é a cultura.

Reforma da Previdência

José Horta Manzano

O grau de avanço de uma sociedade se mede pela proteção que ela oferece a seus membros mais frágeis. É tarefa de Estados organizados patrocinar serviços básicos. Cabe ao Estado proporcionar instrução pública, formação profissional, saúde pública, defesa do território, segurança pública. A lista não é exaustiva. Todas essas atribuições são, naturalmente, financiadas pela contribuição de todos através dos impostos.

Oferecer proteção aos que já não têm condições de ganhar o pão quotidiano pelos próprios meios é conceito relativamente recente. De fato, quando a grande maioria da população vivia da agricultura, o problema praticamente não existia. Na sociedade rural, famílias eram grandes, com duas ou três gerações debaixo do mesmo teto. A solidariedade familiar supria a incapacidade de sustento dos membros inválidos. Toda família tinha «agregados», «filhos de criação» e outras figuras hoje raras. Eram parentes ou conhecidos sem meios de sobrevivência.

A industrialização do país e a urbanização da população redistribuíram as cartas. Famílias diminuíram de tamanho. A solidariedade para com chegados e agregados se esgarçou. O Estado viu-se na obrigação de garantir amparo aos que, em virtude de idade avançada ou de saúde debilitada, já não podem prover ao próprio sustento.

Nas décadas de 1930 e 1940, grande parte dos países puseram de pé um sistema de arrimo para cidadãos que chegassem à velhice. O Brasil não foi exceção. Refletindo a sociedade da época, nossas regras levaram em conta que a expectativa de vida do cidadão girava por volta de 50 anos. Nos últimos 75 anos, muita coisa mudou. Avanços na medicina e nos cuidados alongaram a expectativa de vida. Projeções indicam que a humanidade tende a ter vida cada vez mais longa. Apesar das transformações, nenhum governo teve a ousadia de meter a mão nesse vespeiro. Nossas regras de aposentadoria não foram alteradas. Cada um empurrou a batata quente para o seguinte. Estacionamos num mundo simpático, mas distante da realidade.

Pirâmide etária do Brasil ‒ 1980, 2020, 2050
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A diminuição do número de jovens e o aumento de cidadãos idosos contribuem para a defasagem do sistema. Os problemas de financiamento foram se avolumando e chegaram a um ponto crítico. A continuar do jeito que está, o país perderá toda capacidade de investimento: a totalidade do dinheiro disponível será destinada a cobrir o rombo da Previdência.

O governo atual, com um presidente sem intenção de se recandidatar, decidiu peitar profunda reforma na Previdência. A atitude é louvável e necessária. Dado que o problema não foi enfrentado durante décadas, o salto é muito grande e tem assustado o povo e seus representantes.

A resistência da sociedade é forte, no entanto, queira-se ou não, o sistema terá de ser atualizado. Se não for agora, será no mês que vem ou no ano próximo. Não se pode mais esperar, que a situação é grave. Mais razoável seria fixar a meta que se quer atingir e, em seguida, escalonar as etapas, paulatinamente, sobre, digamos, um decênio. De chofre, como se está propondo, é paralelepípedo duro de engolir. Com ou sem apoio de base aliada, com ou sem apoio de oposição, alguma reforma, ainda que mínima, tem de ser feita. Melhor começar logo.

Aviso aos senhores deputados e senadores
Só entram para a história os que têm a coragem de enfrentar desafios. Os acomodados acabam tragados pelo esquecimento.

Os limites do sistema

José Horta Manzano

Quando foi instituído, o sistema dito «de cotas» para admissão em escola de ensino «superior» veio com roupagem de justiça social. Mesmo travestida de obra de reparação de iniquidades seculares, a introdução do sistema ratificou o fracasso da Instrução Pública elementar e média.

Alfabeto 3No meu entender, forçar o acesso de estudantes à faculdade não é a melhor solução. A ênfase tem de ser dada ao ensino básico. Lacunas de aprendizado escolar não serão colmatadas no ciclo universitário. Quem chega ao curso superior sem base suficiente enfrentará dificuldades praticamente insuperáveis.

Escolas básicas, há. Algumas são públicas (sustentadas com o dinheiro de todos os contribuintes) e outras, particulares (sustentadas diretamente pelos frequentadores). O divisor de águas, a diferença mais notável entre as duas é a qualidade do ensino. Esse é o desnível que tem de ser corrigido.

Financiada pelo erário, a escola pública tem, em teoria, recursos financeiros mais amplos que as particulares. A Pátria Educadora trazia ares de ser um bom começo. Pena que não tenha passado de slogan ‒ bombástico mas vazio, como tantos outros.

AnalfabetoSe o nível de ensino nos estabelecimentos públicos é sofrível a ponto de não habilitar os que a frequentam a enfrentar ensino mais avançado, a culpa não se há de atribuir à «raça» dos aluninhos, mas ao desleixo com que autoridades tratam da Educação Nacional.

O sistema começa a dar mostras de esgotamento. Por absurdo que possa parecer, o futuro aponta para o dia, que está para chegar, em que se terá de fixar teto para alunos cotistas. De fato, os «cotistas» já são a maioria dos matriculados nas 63 universidades federais. De cada dois estudantes, um é cotista. E a porcentagem tende a crescer. Todos concordam que não faz sentido manter cotas para a maioria dos estudantes.

A continuar assim, a prática logo terá de ser invertida. Cotas mínimas terão de ser reservadas para loiros de olhos azuis & assemelhados, atualmente excluídos de contingentes raciais e de ações afirmativas. Artigo do Estadão mostra os limites do sistema atual.

Frase do dia — 313

«A política educacional só tomará o rumo necessário se o populismo for abandonado e a qualidade, revalorizada. Perdeu-se tempo alargando as portas de ingresso em faculdades, enquanto se desprezava a boa formação fundamental e média.

A exigência de boa formação em linguagem, matemática e ciências foi rotulada como preconceito elitista, como se nos países mais capazes de competir e de gerar bons empregos a educação fosse tratada com populismo e descuido. A recriação de um país próspero vai dar muito mais trabalho que a mera reativação da economia.»

Rolf Kuntz, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 14 ago 2016.

Curso superior

José Horta Manzano

Um jovem deputado federal pelo Estado de Tocantins apresentou uma PEC ‒ Proposta de Emenda à Constituição. O moço, cuja mãe foi ministra de dona Dilma, propõe que cidadãos sem diploma universitário sejam proibidos de se candidatar a cargo político eletivo. Dito assim, o anseio soa exótico e dá que pensar. Como sói acontecer, a proposta tem um lado positivo e outro menos. Vamos analisar.

Em teoria, o novo dispositivo eliminaria candidaturas extravagantes de gente que, embora popular, pode não dispor da instrução mínima que cargo público requer. Palhaços, estilistas, bispos e outros perfis incomuns seriam eliminados da vida política. O próprio Lula nunca teria abandonado o ofício de orador profissional de porta de fábrica. Nesse particular, talvez até tivesse sido bom para o país. Infelizmente, não se refaz a História.

Estudante 3Por seu lado, a exigência de diploma de curso superior traria de volta relentos de um passado que temos procurado modificar. Nos tempos do império, só podiam votar e ser eleitos cidadãos que atingissem determinado nível de renda. Era o que se chamava voto censitário. Barreira entre universitários e os demais se aparenta perigosamente com o ultrapassado antagonismo entre endinheirados e remediados. Não passa de atualização da oposição «nós & eles», negação gritante do espírito republicano.

A meu ver, a PEC do deputado enfrenta o estigma da ignorância com armas inadequadas. Investir em Instrução Pública de qualidade é o caminho mais apropriado. O cidadão instruído e bem formado terá melhores condições de discernir entre os bons e os maus candidatos. Diploma não é garantia de probidade, de inteligência, de cultura nem de boas intenções.

Proibir candidaturas por critério de escolaridade é aplicar emplastro em perna de pau. Quem vota são os cidadãos, portanto, mais vale trabalhar para elevar o nível de discernimento dos que elegem.

Interligne 18c

Estudante 1Observação
Como é costume, o deputado junta à proposta de emenda um arrazoado com as justificativas do projeto. Engana-se quem imagina que o nível universitário do parlamentar seja garantia de boa escrita. Veja este trecho:

«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo possuem(1), inclusive(2), dificuldade de leitura, o que impede que os membros(3) atuem de modo efetivo nas(4) suas funções constitucionais, na medida em que(5) o exercício de tais funções(6) torna-se cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

(1) O verbo possuir não é intercambiável com o verbo ter em todos os casos. Pode-se possuir um bem ou um objeto, mas não se pode «possuir dificuldade». Tem-se dificuldade.

(2) O inclusive sobra. Sem essa palavra, a frase fica mais leve e dá a mesma mensagem.

(3) Recomenda-se evitar a repetição de termos na mesma frase. Essa segunda menção a os membros é inútil e supérflua.

(4) Atuar de modo efetivo é volteio longo e desnecessário. O verbo cumprir substitui com vantagem.

(5) A locução é na medida que, sem o em.

(6) De novo, uma repetição desnecessária. De tais funções sobra.

Beca 1Reescrevendo, fica assim:
«Hoje, verificamos que muitos membros do Poder Legislativo têm dificuldade de leitura, o que impede que cumpram suas funções constitucionais, visto que o exercício se torna cada vez mais complexo e dependente de conhecimentos específicos.»

Como dizem os franceses, «il faut d’abord balayer devant sa porte» ‒ precisa primeiro varrer a própria calçada. Temos um ditado equivalente: quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho

Os avaliadores

José Horta Manzano

O Estadão noticiou que a correção das provas de redação da última edição do Enem ― Exame Nacional do Ensino Médio ― pôs em evidência a incompetência de alguns avaliadores. Eram gente que já tinha sido aprovada em primeira instância.

«Alguns avaliadores» é eufemismo meu. Foram 845(!) indivíduos de um total de 7121. Parece pouco? Pois são 12% dos contratados. Ainda parece pouco? Pois vale dizer que um em cada oito corretores é incompetente.

Estudante 2Segundo a reportagem, os contratados são submetidos a reavaliação permanente, razão pela qual tem sido possível separar o joio do trigo e, assim, apontar e eliminar os incapazes.

Como diz o outro, o buraco é bem mais profundo. A detecção de revisores ineptos não deveria ser confiada a processo permanente de reavaliação. A correta avaliação é incumbência dos selecionadores ― é lá que se situa a falha. Não é aceitável que, em oito corretores admitidos, um seja incapaz. Isso prova que a peneira está furada.

Para o concursando mal avaliado, as consequências podem ser graves. Maus corretores tanto podem reprovar bons candidatos, quanto podem deixar passar ― como já aconteceu ― gente que insere na redação receita de macarrão instantâneo ou hino de clube de futebol.

A retribuição de 3,61 reais por redação não permite ao corretor dedicar mais que uns poucos minutos a cada texto. Barbaridades tendem a passar despercebidas ― é inevitável.

ExameUma amiga minha, professora de uma faculdade cujo nome prefiro não citar, contava-me outro dia que já foi convidada a ser avaliadora da prova de redação do exame vestibular. Dona de grande honestidade intelectual, a moça preferiu declinar da oferta por não ser especialista no ramo. Ficou sabendo depois que a paga proposta aos corretores era de 1 real (unzinho só!) por prova.

Muitos aceitaram. Entre eles, houve que ficasse sem comer e ser dormir a fim de sapecar seu jamegão no maior número possível de textos. O distinto leitor fará, por si mesmo, ideia da qualidade do trabalho de avaliação. Assim como o demagógico «Mais Médicos» não resolveu o problema da Saúde Pública, nem um hipotético «Mais Escolas» ou, sabe-se lá, um «Mais Avaliadores» resolveriam, sozinhos, o problema da Instrução Nacional.

Só uma ação conjunta, planejada, bem arquitetada, bem executada, abrangente, lenta, gradual, segura e definitiva poderá tirar o Brasil do atraso cultural em que se encontra há 500 anos. Depende de cada um de nós e… dos que vierem depois.

#Tevecopa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul° 2014

Teve Copa, sim, senhores. Contradizendo pessimistas, o megaevento fez sucesso estrondoso. Como escrevo antes das quartas de final, não sei se a Seleção terá avançado ou tropeçado. De todo modo, o que interessa mesmo são os efeitos colaterais e o legado. Nossas autoridades, quando aceitaram organizar o campeonato, tinham objetivo ambicioso e múltiplo.

No plano interno, o torneio congregaria duzentos milhões em ação num só brado: «pra frente, Brasil, salve a Seleção». Seria a prova maior da concórdia e do contentamento do povo brasileiro ― a consagração lógica e brilhante destes anos de obstinado marketing. A magnificência do espetáculo havia de satisfazer aos apetites mais exigentes. O crédito de simpatia do mandarinato só poderia crescer.

No plano externo, a fabulosa exposição midiática seria o vetor da afirmação do Brasil-potência. Alto e bom som, ecoaria no planeta a prova da inserção definitiva de nosso país no restrito clube do Primeiro Mundo. Membro de carimbo e carteirinha, faz favor!

Teve Copa, sim, senhores. E foi um sucesso! Por irrisórios 25 bilhões, temos agora uma dúzia de soberbos estádios de futebol, dois deles estrategicamente plantados na Amazônia Legal. É inacreditável relembrar que o País tinha chegado ao século 21 sem essas imprescindíveis «arenas». O espírito visionário de nossos dirigentes preencheu a lacuna.

Bandeira Brasil 1É verdade que a Copa poderia ter servido de incentivo ao aprendizado de línguas. Afinal, centenas de milhares de turistas forasteiros foram recebidos por um povo monoglota. É pena ninguém ter pensado em planejar esse detalhe. Tem nada, não. Fica pra próxima. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo.

É verdade que nosso padrão de Instrução Pública continua baixo. Nos grotões, o ensino é ministrado em condições africanas. Mas isso é ninharia. Não se pode cuidar de tudo ao mesmo tempo. Dispositivo impressionante foi preparado para cuidar da saúde de atletas. Equipes médicas paramentadas, macas padrão Fifa, helicópteros para emergências. Os esportistas socorridos encontraram atendimento de primeira linha, rápido, eficaz.

É verdade que nossos hospitais públicos ainda não atingiram tal grau de excelência. Mas isso é mixaria, problema antigo que pode esperar. Não dá pra resolver tudo ao mesmo tempo.

Até linhas aéreas se esforçaram. Não houve greve. Atrasos estiveram abaixo do habitual. Atletas boquiabertos cruzaram os céus sem um pio de reclamação.

Crédito: Guilherme Bandeira www.olhaquemaneiro.com.br

Crédito: Guilherme Bandeira
http://www.olhaquemaneiro.com.br

É verdade que o transporte urbano dos brasileiros comuns continua caótico, caro, raro, desconfortável, lento, inseguro. Diante da grandiosidade da organização da Copa, porém, isso é bagatela. Metrô? Pura babaquice.

Last but not least, a projeção do País no exterior. Nas muitas décadas que tenho vivido expatriado, posso garantir que jamais o Brasil tinha sido alvo de exposição midiática de tal magnitude.

Até nos rincões da Mongólia e da Birmânia, sabe-se hoje que nosso país tem estádios magníficos. Sabe-se também que nossa terra tem sol e calor. Muitos se arrependem de não ter planejado uma viagem ao Brasil durante a Copa. Agora é tarde.

Visitar o País depois? Visitar o quê? A novidade mostrada foram só os estádios. Fora isso, a exposição midiática serviu para reforçar conhecidos clichês. Repórteres repisaram os horrores de sempre: prisões superlotadas, violência urbana, desigualdade social, gente hospitalizada em corredores, prostituição, carestia. Coisa de frear os ímpetos do turista ajuizado.

Uma detalhe pouco divulgado: teve Copa, sim, mas não para todos os brasileiros. Cerca de um milhão de conterrâneos ainda não dispõem de energia elétrica. Como no século 19, vivem nas trevas ― no próprio e no figurado.

No exterior, muitos me perguntam por que a presidente do Brasil não assiste aos jogos nem mesmo quando chefes de Estado estrangeiros estão presentes. Nessas horas, desconverso.

Copa 14 logo 2Na conta de perdas e danos, o resultado da «Copa das Copas» terá sido neutro. O brasileiro agora tem estádios esplêndidos, mas as mazelas do dia a dia continuam como dantes. O resto do mundo encharcou-se de ouvir e ler sobre o Brasil, mas nossa imagem não mudou: Carnaval, malemolência, criminalidade, anarquia perduram no imaginário forasteiro. Nossa ineficiência ficou patente.

Perdemos excepcional ocasião de melhorar a vida dos habitantes e de soerguer a imagem do Brasil. Fica para quando der. E vamos torcer para que, na próxima Copa, a Fifa nos conceda os segundos que faltam para a execução decente do Hino Nacional. O povo brasileiro, desde já, agradece.

A causa e a consequência

José Horta Manzano

Inaugurar uma plataforma de petróleo inacabada é mais vistoso que implantar uma dúzia de escolas elementares. Se a plataforma vai funcionar amanhã, pouco importa ― ninguém vai conferir. O que fica são as imagens, os discursos, a impressão de grandiosidade. É o que conta.

Por uma dessas ironias armadas pelo acaso, a Folha de São Paulo online de 16 fev° 2014 estampou na primeira página, empilhadas, duas chamadas conflitantes. Eu disse conflitantes? Talvez seja melhor dizer que uma explica a outra.

Folha de SP - 16 fev° 2014

O primeiro artigo explica, com riqueza de números e porcentagens, que o governo tem gastado mais do que pode. Como dinheiro não é extensível, o que se gasta aqui vai fatalmente faltar ali. Mas disso já estávamos todos sabendo, não carecia escrever mais uma reportagem.

A novidade é a decisão que está pintando no horizonte: para cortar despesas, o orçamento da Instrução Pública será podado. A desvalida Educação nacional verá minguar suas alocações. Investir no ensino não dá frutos nem votos imediatos. Portanto, não resolve o problema de quem quer se perpetuar no poder. Quando o interesse pessoal de cada eleito passa à frente da responsabilidade que lhe foi confiada, não sobra alternativa: o resultado tem de ser aqui e agora. Toda a verba disponível será usada em empreendimentos de resultado rápido e ofuscante.

O segundo artigo é triste consequência do primeiro. Deixa claro o fracasso do programa Ciência sem Fronteiras, aliás, uma das raras boas iniciativas do atual governo no âmbito da Educação. A aplicação do programa, infelizmente, está-se revelando problemática pela notória falta de conhecimentos de língua inglesa que caracteriza nossos estudantes. E olhe que não estamos falando de crianças de escola primária, mas de universitários.

É desanimador constatar a que ponto nossos dirigentes são vesgos. Os bilhões enterrados na “Copa das copas” surtiriam efeitos muito mais úteis se tivessem sido investidos no aprimoramento da Instrução Pública. Não dariam votos, mas dariam futuro.

Como se sabe, o fruto não costuma cair muito longe da árvore. Dirigentes incultos não conseguem senão tomar decisões ignorantes. Quando a ganância, a má-fé e o imediatismo se somam à incompetência, aí então o resultado é desastroso.

Tão cedo, não tem jeito.

Coincidência

José Horta Manzano

No mesmo dia em que nosso inoxidável ex-presidente recebia, pela enésima vez, um «diploma» honoris causa, saiu a classificação das universidades dos chamados países emergentes.

O discurso pronunciado pelo antigo presidente na ocasião da outorga da honraria põe, como de costume, a ênfase na quantidade de estabelecimentos de ensino. São relatos estatísticos do tipo «meu governo fez mais que o seu» ou «nunca antes nessepaiz alguém tinha inaugurado tantas escolas como eu». Sobre a qualidade desses estabelecimentos ― tanto dos existentes, quanto dos recentemente criados ― nem um pio.

O "doutor" Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

O “doutor”
Crédito: Jorge Araújo, Folhapress

Pois o grupo THE (Times Higher Education) cuidou de ir mais longe. Comparou a excelência dos melhores estabelecimentos de ensino superior dos maiores países do Terceiro Mundo. São 21 países no total, entre os quais, naturalmente, o nosso. O resultado demonstra que a quantidade não substitui a qualidade.

A USP, de longe a melhor universidade brasileira, aparece em 11° lugar, atrás de estabelecimentos chineses, turcos, sul-africanos e russos. Diga-se, en passant, que a Universidade de São Paulo foi criada nos anos 30, quase cinquenta anos antes da fundação do partido ao qual pertence nosso ex-presidente taumaturgo. Falsa será, portanto, toda veleidade de algum vivente de declarar-se pai da criança.

Para resumir, entre as 100 melhores universidades dos 21 países mais adiantados do Terceiro Mundo, somente 4 (quatro!) são brasileiras. A China sozinha (continental + Taiwan) abriga 44 das 100 melhores. Até a Tailândia e a Turquia têm mais estabelecimentos que o Brasil na lista dos 100 melhores.

by Diego Novaes, desenhista carioca

by Diego Novaes, desenhista carioca

Assim como a enxurrada de «diplomas» honoris causa não engorda a erudição de nosso guia, as escolas ditas superiores criadas recentemente exibem qualidade inferior à média dos países comparáveis. Quanto às melhores do mundo, nenhuma comparação é possível. Melhor esquecer.

Escolas medíocres não contribuem para a erudição do estudante brasileiro. Ele quer e merece mais que isso.

Brasil, educação zero

A rua é a maior escola... Manifestações de 7 out° 2013, RJ Foto Estadão

A rua é a maior escola…
Manifestações de 7 out° 2013, RJ
Foto Estadão

Cora Rónai

Um país que trata os seus professores a cacetadas, balas de borracha e spray de pimenta é um país que despreza o seu futuro.

Há algumas semanas, voltou a circular pela internet um ranking de aprendizado mundial divulgado no final do ano passado pela Pearson, empresa inglesa dedicada à educação. Ele reflete dados colhidos entre 2006 e 2010 em 39 países e uma região administrativa (Hong Kong), e não chega a surpreender quem se interessa pelo assunto. O primeiro lugar é ocupado pela Finlândia, seguida por Coreia do Sul, Hong Kong, Japão e Cingapura. O Brasil só não ficou em último lugar porque, espantosamente, a Indonésia conseguiu se sair ainda pior. (…)

Para continuar a leitura, clique aqui.

Por que faz todo sentido destruir a USP

Fernão Lara Mesquita (*)

O analfabetismo voltou a crescer no Brasil pela primeira vez em 15 anos, segundo medição do PNAD. Como o agente da medição é incontestável, um “cientista” simpatizante do PT diz que o número subiu porque agora os analfabetos estão vivendo mais tempo, graças ao PT!

Já a USP e a Unicamp, ambas com reitorias ocupadas no momento, a primeira caiu do 158º lugar no ranking mundial da Times Higher Education para alguma colocação entre a 226º e a 250º (abaixo de 200 eles não dão mais a classificação exata) e a segunda, que antes rondava o número 200, agora está abaixo do 300.

A tropa de choque do PT na web ainda está confusa. Antes que se dê a ordem unida e o discurso se alinhe espontânea e milimetricamente em milhares de sites de “representantes da sociedade civil” pelo país afora, metade trata de explicar que a medição é que está errada ou mudou de critério, distorcendo a realidade, enquanto a outra metade se rejubila dizendo que a USP caiu mesmo e, como é estadual, a culpa é do PSDB.

Enquanto o boi não dorme com essas conversas, as ações dos legítimos representantes dos estudantes do Brasil nas UNEs da vida, entre uma mesada e outra do governo e a medição do faturamento diário pela exclusividade na venda de carteirinhas que valem meia entrada em qualquer espetáculo artístico ou esportivo no país, seguem com o roteiro de sempre, ocupando reitorias para “reivindicar” que os alunos é que passem a avaliar e reprovar os professores e não o contrário. Ou que a polícia fique longe dos campus que devem permanecer território isento do cumprimento das leis brasileiras, especialmente as que dizem respeito ao tráfico e consumo de drogas.

Todos têm o direito se exprimirem de maneira adequada

Cada um tem direito a se exprimir de maneira adequada

Já a frente parlamentar colhe os louros da missão cumprida depois que impingiu ao país a nova lei segundo a qual basta o sujeito se declarar negro ― ainda que tenha a pele alva como a neve e olhos azuis como o céu da manhã ― que ele revoga os 10 anos de esforço do seu contendor que perdeu tempo em estudar ao longo de toda a educação primária e secundária. E o faz passar à frente.

Trata-se de fórmula especialmente letal visto que, ao mesmo tempo em que insufla o ódio racial, como querem os “multiculturalistas” do PT que juraram dobrar a impertinente resistência da realidade brasileira a confirmar essa sua tese, dá incentivo fulminante a esse “minta na cara-de-pau que o governo garante” que já provou sua eficácia destruindo o Congresso Nacional e o Poder Judiciário.

Honra ao mérito, portanto! É indiscutível a competência do PT. Do ponto de vista dele, faz todo sentido destruir a USP e o resto do sistema educacional do país. Afinal, a obra de Júlio de Mesquita Filho e Armando de Salles Oliveira foi desenhada com o objetivo explícito de matar à míngua os PTs da vida pela paulatina supressão do seu habitat, que é a selva da ignorância e da miséria.

E ainda por cima foi lá que se formou e era lá que lecionava o FHC, aquele sacana que nunca escondeu a sua conspiração elitista para acabar com o analfabetismo.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do site www.vespeiro.com

Escola pública, gratuita e obrigatória

José Horta Manzano

Dez anos atrás, quando conseguiu ser eleito ao cargo mais prestigioso da República, o Lula devia estar muito feliz. Seu deslumbramento cegou-o. Deve ter imaginado que havia chegado lá exclusivamente por mérito pessoal. O sucesso baralha as ideias.

Caçador de letras by André Abreu, desenhista paraense

Caçador de letras
by André Abreu, desenhista paraense

Em sua simploriedade, o novo inquilino do Planalto não foi capaz de se dar conta de que, enquanto ele entrava com a cara e o carisma, uma complexa máquina operada por milhares de indivíduos atapetava-lhe o caminho do triunfo. Às vezes eu me pergunto se, hoje, a ficha já caiu ― se ele já entendeu que, sem o amparo de foi beneficiário, jamais teria sido eleito.

Já foi dada a prova de que, dispondo de máquina eleitoral eficiente e bem lubrificada, qualquer um pode ser eleito. Dois postes ― para usar a linguagem do próprio ex-presidente ― já tiraram a sorte grande por esse método: o prefeito de São Paulo e a atual presidente da República. Eram ilustres desconhecidos desprovidos de capital eleitoral. Se foram guindados ao posto que hoje ocupam, devem-no exclusivamente ao complexo e formidável aparelho político-partidário que os catapultou.

Voltemos a nosso antigo presidente. Partindo de seu caso particular, o Lula generalizou. Sua ascensão à chefia do Executivo há de tê-lo convencido de que a falta de instrução formal não constituía, em absoluto, empecilho para o sucesso. Se um semiletrado havia podido alçar-se ao posto maior, qualquer um poderia conquistar qualquer posto. Ora, pois!

Convencido de que o mundo funciona assim, foi coerente consigo mesmo. Despendeu esforço e dinheiro (público) para costurar acordos, cooptar apoio, alardear seus feitos. Para a educação, nada. Migalhas. Por que gastar dinheiro com supérfluos? ― deve ter pensado nosso líder.

Quem planta, colhe. As crianças que, em 2003, estavam na escola primária, estão hoje cursando ensino superior ou às portas de fazê-lo. Como o governo central não se preocupou em dar-lhes formação sólida, continuam chegando crus aos estudos superiores. Nossas escolas superiores chegam a abrigar gente cuja ausência de pensamento lógico as impede até de se exprimir. São estabelecimentos que, de superiores, só têm o nome.

Vamos ser justos: o presidente taumaturgo não é o único responsável pela pobreza intelectual do jovem brasileiro. Com esporádicas exceções, os que lhe antecederam pouco tinham feito pela instrução pública. No entanto… nosso milagreiro carregava capital de esperança superior a qualquer um de seus predecessores, desde Getúlio Vargas. Mais que isso, tendo sentido desde a infância o peso da ignorância e a falta que o saber faz, era de esperar que se mostrasse sensível à elevação do nível de formação escolar.

Não foi o que aconteceu. Temos hoje, em teoria, um número maior de escolas de ensino dito superior. Mas os alunos que a ela chegam nem sempre estão capacitados a encarar aprendizado complexo. Não foram formados para isso. Os docentes são obrigados a descer ao nível dos alunos. Forma-se um círculo vicioso. Os diplomados de amanhã terão recebido formação de segunda classe. Tendo recebido formação fraca, transmitirão os parcos conhecimentos de que dispõem. E o círculo se fecha.Alfabeto

Saiu ontem a notícia: a respeitada instituição Times Higher Education avalia que a Universidade de São Paulo ― o melhor estabelecimento de ensino superior do Brasil ― não figura mais nem entre os 200 melhores do mundo. Está mais perto do 250° lugar.

Tendo em mente que o Brasil é o 5° país em superfície e também o 5° em população, a classificação de nosso ensino é lamentável, vergonhosa, inquietante. E nada indica que a descida aos infernos esteja perto de se estancar. Detalhe acachapante: a instituição avaliadora chega até a considerar que duas universidades turcas são melhores que nossa USP.

Acredito que a mente do jovem brasileiro não seja mais embotada que a de qualquer outro. Portanto, estamos desperdiçando material humano e comprometendo o futuro do País. Uma pena. Já dizia Pero Vaz de Caminha, 500 anos atrás, que a terra achada era boa e que, em se plantando, dar-se-ia nela tudo. Falta plantar.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano

Religião e raça são assuntos potencialmente explosivos, a manipular com extrema precaução. São temas que compõem a individualidade de cada um. Carece abordar com muita delicadeza e sensibilidade, que, em matéria íntima, todo cuidado é pouco.

Apartheid

Apartheid

Nos dias atuais, a informação circula mais rapidamente, o que tem o condão de limitar escaramuças e prevenir enfrentamentos. Mas nem sempre foi assim. Muita guerra já se travou e muito massacre já se perpetrou em nome da religião ou da raça.

Mesmo no mundo atual, volta e meia ainda se tem notícia de alguma conflagração aqui e ali. A pior ocorrência dos últimos 20 anos se deu em Ruanda, onde milhões de seres foram massacrados no âmbito de um conflito étnico. A fragmentação da antiga Iugoslávia, nos anos 90, também detonou uma terrível guerra etnorreligiosa que matou muita gente e arrasou cidades e vilarejos. Mais recentemente, tivemos a tempestade de poeira levantada pelas caricaturas de Maomé publicadas pelo periódico dinamarquês Jyllands-Posten(*).

Se a infeliz aventura do apartheid sul-africano não terminou num banho de sangue ― como todos imaginavam que fosse acabar ―, isso deveu-se ao carisma de Nelson Mandela, a quem a humanidade deve muito.

Apartheid

Apartheid

Estes últimos anos, com o objetivo de cooptar setores inteiros da sociedade, nosso governo tem instituído políticas estranhas. Algumas, inócuas, visam a congelar o statu quo. É o caso da chamada bolsa família, versão moderna do mesmo paternalismo que vem segurando a evolução de nossa sociedade faz 500 anos. Essa transferência de ganhos da classe média para os mais pobres não tem sido arrematada com investimento na instrução pública. Como resultado, criou dependentes crônicos. Distribuíram-se peixes, mas não se formaram pescadores.

Outra política estranha ― e bem mais perigosa ― é a tentativa de cooptação dos cidadãos de sangue misturado, aqueles que contam, entre seus ascendentes, europeus e africanos. Foram arbitrariamente classificados como «afrodescendentes», denominação falaciosa, dado que praticamente todos os seus integrantes são igualmente eurodescendentes. Por que fechar o olho para um ramo da origem desses cidadãos e considerar somente o lado que, neste momento, interessa?

A expressão mais visível dessa peculiar obra governamental é a política de quotas para admissão em escolas de ensino superior. Com base em critérios raciais, certos cidadãos são privilegiados em detrimento de outros. Oficializou-se que a origem e a cor da pele sobrepujam o mérito. Isso é um precedente gravíssimo. Com intenções mesquinhas de perpetuação no poder, o atual governo está reabrindo uma questão que se imaginava encerrada e enterrada desde o dia 13 de maio de 1888.

Abramović ― Sistema de quotas

Abramović ― Sistema de quotas

Em princípio, ninguém é discriminado por não ser louro de olhos azuis. Quando um profissional é realmente competente, pouco importa a cor de sua pele ― será bem sucedido. Ao contrario, um incapaz não terá sucesso, ainda que seja empurrado pelo mais generoso sistema de quotas. Não são os privilégios outorgados pelas quotas que erguerão o nível de nossos futuros profissionais.

Outro dia, o jornal O Globo informou que um moço claro de pele e de olhos tinha se apresentado como candidato ao curso de diplomacia do Instituto Rio Branco. O detalhe picante é que Abramović, o postulante, se declarou «afrodescendente». Pleiteou ― e obteve ― uma vaga pelo sistema de quotas. Mais dia, menos dia, tinha de acontecer.

Estamos começando a resvalar. A irresponsabilidade dos luminares que abriram essa caixa de pandora está-nos dirigindo direto contra o muro. Se a moda pega, muito cidadão vai acabar se autodeclarando «afrodescendente» unicamente para ter direito a usufruir o sistema de quotas. E aí, que fazemos?

Soluções existem, basta recuar 80 anos. Na Alemanha dos anos 30 e nos países ocupados pelos nazistas durante a Segunda Guerra, os cidadãos de determinadas raças carregavam no peito, bem visível, um sinal distintivo. Seus papéis de identidade também traziam, bem clara, a menção da raça.

Se a moda da autodeclaração errônea pegar, repito, vão sobrar duas soluções:

1) A primeira é voltar às trevas do nazifascismo e delegar ao Estado a função de determinar a raça de cada indivíduo. Para maior garantia, todo cidadão receberá seu certificado de pureza racial, uma tatuagem ou um chip implantado sob a pele.

Estrela amarela sinal distintivo

Estrela amarela
sinal distintivo

2) A segunda é reconhecer o erro e voltar atrás. Quem nunca errou? Que se abandone o mais rápido possível essa estúpida e temerária divisão racial da sociedade. E que seja feito investimento maciço visando a elevar o nível de instrução de todos os brasileiros. Brancos, pretos, azuis, verdes. Ou furta-cor.

Ainda dá tempo.

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(*) Não tem nada que ver com o assunto. Por curiosidade, fui dar uma espiada na edição online do dinamarquês Jyllands-Posten. Entre as manchetes de capa, traz um artigo sobre o combate que os venezuelanos travam contra a falta de papel higiênico. Quem quiser conferir, clique aqui.

Passo tímido, pacote flácido

José Horta Manzano

Dia 13 de agosto — que não era sexta-feira —, a OAB passou às mãos da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal seu projeto de reforma política. É um projeto tímido, que está mais para gambiarra que para reforma. Assim mesmo, poucos acreditam que venha a ser debatido e sacramentado por suas excelências a tempo de valer para as eleições de 2014.

Palhaço

Palhaço

A reforma aventada tem, pelo menos, o mérito de existir. É mais uma prova de que a sociedade pensante brasileira não está acomodada, muito menos satisfeita, com o funcionamento da política no País.

A OAB garante que, uma vez introduzida essa modificação, desaparecerá o chamado «efeito Tiririca». Essa incongruência, que faz que meia dúzia de candidatos totalmente desconhecidos sejam eleitos a reboque dos votos excedentários recebidos por um candidato estrela, não é novidade no País. Antes do nobre palhaço, Clodovil, Enéas e outros personagens em voga já exerceram o mesmíssimo papel. Essas figurinhas carimbadas são, aliás, ultracobiçadas. E não só por partidos nanicos.

É uma distorção flagrante do sistema de representação popular, mas não é a única nem a pior. Como já tive ocasião de comentar neste espaço algumas semanas atrás (post Época de mudanças), algumas disposições da Constituição outorgada em 1988 traem o princípio basilar de que todos os brasileiros são iguais perante a lei. A limitação do número máximo (70) e do número minimo (8) de deputados que cada Estado tem direito de mandar a Brasília desvirtua a isonomia entre os eleitores. Na hora de escolher seus representantes, os brasileiros não são todos iguais. O voto de um roraimense vale pelo de dez paulistas. É disfunção tão flagrante, que fica difícil captar por que a Assembleia Constituinte de 1988 terá introduzido esse dispositivo.

Palhaço

Palhaço

Uma outra mudança que, mais dia, menos dia, terá de ser feita é a introdução do voto distrital. O Brasil tem Estados enormes e pouco populosos. Tem também Estados menores, mas densamente povoados. No sistema atual, cada Estado representa um distrito. Não é a melhor maneira de proceder. No final, não sendo ligado a nenhum distrito, a nenhuma região particular de seu Estado, o deputado não se sente na obrigação de representar ninguém em especial. Como corolário, o eleitor não se sente representado por nenhum deputado em particular. Aliás, poucos são os eleitores que se lembram em quem votaram. No voto distrital, o País é dividido em distritos, cada um com população equivalente. E cada distrito elege o seu deputado, em votação majoritária de dois turnos.

Para corrigir de verdade, uma nova Constituição teria de ser escrita. Mas isso, além de ser demorado e trabalhoso, incomoda muita gente. Não vai ser fácil chegar lá. Vamos ter de nos contentar com puxadinhos, como esse que a OAB está propondo. Que remédio?

Cá entre nós: no duro mesmo, o «efeito Tiririca» é produto da ignorância de imensos contingentes de nossa maltratada população. É pela instrução pública que as reformas deviam começar.

Guilhotina?

José Horta Manzano

O repórter Fábio Fabrini andou esmiuçando dados da Controladoria-geral da União, o organismo encarregado de vigiar o uso das verbas federais e certificar-se de que estão sendo bem utilizadas.

Em pesquisa por amostragem, a CGU constatou que 73% das prefeituras haviam fraudado verbas destinadas à Instrução Pública. Utilizando subterfúgios diversos, autoridades de 3 em cada 4 municípios(!) desviaram uma parte do dinheiro que era destinado a promover a educação básica de seus jovens.

Há até casos de dinheiro sacado em espécie «na boca do caixa»! E a gente que imaginava que esses casos de roubo despudorado se restringissem ao nível federal…

Veja você: há 75% de risco de o município em que reside o caro leitor estar incluído no rol dos fraudadores. Se roubar já é crime feio, roubar dinheiro destinado à instrução das crianças é asqueroso, repugnante.

Guilhotina

Guilhotina

Guilhotina anda meio fora de moda. Mas prisão perpétua ainda é pena considerada politicamente correta na grande maioria dos países. São muito poucos os que, como o Brasil, aboliram tanto a pena capital quanto a prisão perpétua.

Que se aproveite esta temporada de reformas para reinstaurar a perpétua. Se falta savoir-faire, basta dar uma olhada por cima do muro. Nossos vizinhos e hermanos argentinos, chilenos e peruanos ― cujo arsenal penal inclui a prisão perpétua ― podem nos ensinar como fazer.

Aquele que comete crimes contra a saúde publica ou contra a instrução pública merece passar o resto da vida vendo o sol nascer quadrado.

Bônus racial

José Horta Manzano

Interligne vertical 3Privilégio ― do latim privo (=solitário, singular) + legem (=lei).
Lei especial feita para um ou para poucos. Vantagem concedida a um só ou somente a alguns, e da qual estão excluídos todos os outros, que permanecem submetidos ao direito comum.

No Brasil, a Instrução Pública é calamitosa. Entre os que chegam ao fim da escolarização obrigatória, boa parte não tem a necessária competência para seguir estudos superiores. Há aí um problema grave, que se vem deteriorando há décadas, e que está a exigir reparo.

Há um caminho ― e um só ― para resolver o problema: reformular o ensino elementar e médio. A disfunção tem de ser corrigida na origem. «É de menino que se torce o pepino» ― o ditado anda meio fora de moda, concedo, mas continua válido. É praticamente impossível remediar um aprendizado malfeito.

Investir em educação básica é demorado, trabalhoso e caro. Além disso, os resultados não aparecem da noite para o dia. Portanto, não é política que renda lucros eleitorais a curto prazo. Apesar de todas as teorias de conspiração que se murmuram aqui e ali, segundo as quais este ou aquele grupo político se esforçaria para manter as massas na ignorância, a verdade é bem mais singela: investimento em educação simplesmente não dá voto.

No afã de conquistar o eleitorado, governos de ontem e de hoje têm dado preferência a ações mais vistosas e mais impactantes. Desde sempre, governantes consultaram gurus e estrategistas para sondar quais eram as ações susceptíveis de lhes granjear os melhores resultados eleitorais. O profissional hoje se chama marqueteiro, mas a função é a mesma, e idênticos são os objetivos.

O título dos artigos publicados em 27 de junho pelo Estadão (USP aprova bônus para negros) e pela Folha de São Paulo (USP aprova bônus racial) são, para mim, atemorizantes. A reboque da Bolívia, cujo estatuto oficial hoje é o de Estado Plurinacional, estaríamo-nos encaminhando para nos tornar a República Federativa Racial do Brasil?

Se nossos políticos estivessem sinceramente interessados no futuro do País, não seguiriam esse caminho. Reparar uma injustiça histórica ― a justificativa oficial ― sai bem na foto. Todos parecem bonzinhos. Para não ser tachados de vilães, todos fazem que concordam com a medida. Poucos se dão conta de que estamos escolhendo uma rota que não leva a bom porto.

Nenhum de nossos antepassados veio ao Brasil a turismo. Todos chegaram empurrados pela necessidade, pela fome, pela miséria, pelas perseguições. Nenhum deles, ao chegar, hospedou-se no Copacabana Palace. Amargaram anos difíceis, sofreram tratamento injusto, às vezes brutal. Enfrentaram hostilidade, passaram privações. Sacrificaram-se para dar aos filhos uma vida mais digna. Quem tem um termômetro para medir sofrimento?

Estudo superior não é prêmio que se conceda a uns e não a outros. O ingresso num estabelecimento de ensino superior não deveria ser facilitado a este ou àquele grupo. E muito menos por razões raciais. Baixar o nível de exigência é um paliativo, não uma solução. Em vez de aplicar um curativo, melhor será evitar a ferida.

Vista de fora do Brasil, essa inacreditável tendência a acentuar especificidades étnicas parece um contrassenso. Nosso País sempre se orgulhou de seu povo miscigenado, uma terra onde preto casa com branco, judeu é amigo de árabe, japonês gosta de pizza. Será que tudo isso está chegando ao fim? É uma tristeza constatar que, de caso pensado, governos estão-se empenhando em criar fossos artificiais entre hipotéticas «comunidades étnicas».

Na maior parte dos países, branco é branco, preto é preto, judeu é judeu, cigano é cigano, oriental é oriental. Ninguém se mistura. Em certos lugares, até a religião pode ser barreira: católico é católico, protestante é protestante, muçulmano sunita é muçulmano sunita, xiita é xiita. Não só não se misturam, como, às vezes, batalham entre si. No Brasil, o destino nos brindou com uma chance rara: uma baixa resistência aos que vêm de fora do grupo. Estamos demolindo um dos pilares que sustentam nossa nação. É realmente o que queremos?

A política racial no ensino nada mais é que a reedição da ajudinha que antigamente se conhecia como pistolão. É um cartucho racial versão Beta. Resolve um problema de imagem e de fachada. Sob uma aparência de (falsa) magnanimidade, varre-se para debaixo do tapete o problema maior: a falência da Instrução.

Em vez de mascarar o sintoma, melhor será erradicar o mal.

O vice

José Horta Manzano

Quando Dom João VI voltou para casa, após o desaparecimento de Napoleão, deixou no Rio de Janeiro seu filho Pedro. Naqueles tempos recuados, quem subia num barco para atravessar o Atlântico não sabia sequer se chegaria a bom porto. Portanto, as regras mais elementares de prudência recomendavam já deixar engatilhada a sucessão.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

As viagens que Dom Pedro II ― neto de João VI ― empreendeu pelos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, na segunda metade do séc XIX, eram demoradas e, até certo ponto, arriscadas. Convinha deixar sempre um substituto sentado na beiradinha do trono. No caso de nosso barbudo e simpático imperador, a prontidão era assegurada por sua filha Isabel.

Até uns 20 ou 30 anos atrás, ainda convinha ter alguém preparado para a eventualidade do impedimento temporário ou definitivo de presidentes, governadores, prefeitos. Comunicações eram complicadas, estradas eram ainda piores do que são hoje(!), ninguém levava um telefone no bolso. E organizar uma nova eleição era verdadeira maratona.

A Constituição de 1988, embora já pudesse ter mudado o cenário, optou pela comodidade e preferiu não fazê-lo. A figura do vice foi conservada sem retoques.

Cá entre nós: convenhamos que, nos dias atuais, o substituto eventual tornou-se uma excrescência. Se essa prática fazia sentido quando foi instituída pela Constituição dos EUA quase 250 anos atrás ― de onde foi copiada por outras repúblicas americanas ― hoje perdeu a razão de ser.

Chega a ser ridículo o ritual de transmissão temporária de poder que o presidente encena ao pé da escada do avião. A partir daquele momento, teoricamente, o presidente deixa de exercer suas funções. Portanto, quem parte para uma visita oficial é um impostor, dado que o verdadeiro presidente ficou em Brasília. Eta situação enrolada! Não se pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

Muitos países sobrevivem sem a figura do vice. E vão muito bem, obrigado. A França, por exemplo. Por lá não há vice-presidente, nem vice-prefeito, nem suplente de quem quer que seja. O presidente do país, quando em viagem ao exterior, continua assumindo seu cargo. Não há necessidade de transmitir poderes a um substituto. Caso venha a falecer ― o que de fato aconteceu quando Georges Pompidou morreu em abril de 1974 ― o presidente do Congresso assume os poderes presidenciais durante algumas semanas, enquanto se realizam novas eleições.

Imaginem se a figura do vice desaparecesse da paisagem política do Brasil. Seriam 5500 vice-prefeitos a menos, quase 30 vice-governadores, um vice-presidente. Sem contar os suplentes de senador, outra aberração. A economia gerada por essa amputação ― salários, palácios, mordomias, motoristas, assessores ― poderia ser investida, com grande vantagem, na Instrução Pública.

Taí um item interessante a ser incluído na reforma política. Sairíamos todos ganhando.

Interligne 11Nota etimológica: Vice deriva da mesma raiz que deu vez. A locução em vez de é da mesma família

De mão beijada

José Horta Manzano

No dia 7 de setembro de 2009, o presidente do Brasil recebeu, com pompa e cerimônia, um convidado mui especial. Era Nicolas Sarkozy, à época presidente da França.

De mão beijada

De mão beijada

O hóspede trazia um largo sorriso nos lábios e um contrato na maleta. No fundo, o estrangeiro vinha em viagem de negócios. Agia como caixeiro-viajante de luxo. Afinal, preparava-se para fechar uma venda de 4 bilhões de euros, montante considerável.

O Lula tem, como qualquer um, suas qualidades e seus defeitos. Entre eles ― não sei se botar na conta das qualidades ou dos defeitos ― está uma inacreditável e absoluta insensibilidade a assuntos de ideologia. Não é um homem de esquerda nem tampouco de direita. Não é do seu feitio tomar partido entre partes conflitantes. Suas prioridades são de outra ordem, mais pessoais.

De mão beijada

De mão beijada

Essa indiferença pode bem ser explicada pelo fato de que nosso guia, quando jovem, passou necessidade. Ideologia é pra quem teve mais sorte na infância e na juventude ― confira-se o caso de nossa atual presidente. Quem tem fome quer mesmo é encontrar um prato de comida, que ninguém se alimenta de filosofia.

O pouco interesse que o Lula demonstrou por relações internacionais abriu uma avenida para seus numerosos assessores, grande parte dos quais, não tendo enfrentado os começos difíceis do chefe, podiam dar-se ao luxo de enxergar o mundo através de óculos ideológicos.

Rafale sem transferência de tecnologia

Rafale sem transferência
de tecnologia

Os franceses sabiam que o Rafale era o avião mais caro de sua categoria. Sabiam também que nenhum exército estrangeiro havia ainda encomendado nem um exemplar sequer. Astutos, devem ter-se dado conta do viés ideológico da corte palaciana de Brasília, que queria a todo custo livrar-se de toda dependência do execrado «império norte-americano».

Valeram-se então da atonia de nosso messias em assuntos de política estrangeira e, matreiros, tentaram vender o que não pretendiam entregar. Prometeram transferir ao Brasil a tecnologia do fabrico dos Rafales.

Ora, sejamos lúcidos. Passaria pela cabeça de alguém acreditar que uma tecnologia de ponta, alcançada depois de dezenas de anos de pesquisa e investimento, pudesse ser dada, assim, de mão beijada, a um país estrangeiro somente porque ele fez uma boa compra? Precisa ser muito crédulo para se deixar engabelar por essa lorota. Quem acreditou nisso nunca deve ter ouvido a historia do pulo do gato.

Felizmente, a cúpula decisória brasileira parece não ser composta unicamente por gente que vive nas trevas. Algum espírito mais esclarecido há-de ter-se dado conta de que estariam empatando o dinheiro suado dos brasileiros numa espécie de conto do vigário. Iam comprar mercadoria que não seria entregue nunca. Pelo sim, pelo não, o assunto foi engavetado já faz quase 4 anos.

Interligne 09

A imprensa francesa repercute estes dias uma notícia divulgada pela Reuters. Segundo a agência, o Brasil de Dilma estaria prestes a finalizar a compra de 36 unidades do avião F18 americano. O fato de a notícia ser divulgada na sequência da recente visita do vice-presidente americano ao Planalto pode não ser mera coincidência.

De mão beijada

De mão beijada

É altamente provável que Brasília se tenha finalmente convencido de que não existe almoço grátis. Nem a França, nem os EUA, nem nenhuma outra potência jamais entregaria a receita junto com o bolo. Os critérios de escolha têm de ser outros: o desempenho e o custo.

Não adianta acreditar em Papai Noel. Tecnologia avançada não é artigo de supermercado. Se nossos estrategistas(?) quiserem, realmente, chegar lá, terão de seguir o mesmo caminho que seguiram os outros: investimento em escola, instrução pública, pesquisa, formação científica. Vai demorar. Mas não há atalho.

Caneta vermelha neles

Escola elementar

Escola elementar

Um levantamento do jornal Correio Braziliense com súmulas do Brasileirão do ano passado e dos principais estaduais do país em 2013 mostra como alguns juízes expulsam a língua portuguesa de campo sem cerimônia.

Artigo de Amanda Martimon
Publicado na edição online do Correio Braziliense de 3 jun 2013

Errar marcação de “penalt” não tem perdão para o time desfavorecido. Tampouco “carrinhar por detrás” o adversário pode passar despercebido pela “árbitragem”. Depois de 90 minutos ouvindo pitacos, reclamações e xingamentos às mães, os árbitros têm ainda uma última missão antes de ir para casa: preencher a súmula da partida. E é nessa hora, no vestiário, sem olhares à espreita, que os papéis se invertem e eles cometem de infrações leves a penalidades máximas.

“Subistituições, paralizações, acrécimos, discursões, condições das estalações, chingamentos”(sic), tudo isso é relatado — assim, por escrito — ao fim do jogo. Se “ouve” problemas durante a partida ou se ocorreu tudo dentro “das normalidades”, está lá, anotado. A falta “acentosa” cometida “intensionalmente” ou “intencionaumente” é sempre registrada. E nem adianta o jogador “contextar” ou reclamar de maneira “assintosa”.

Às vezes, os árbitros até acertam na ortografia, mas são traídos pela falta de espaço. Quando não cabe a palavra na mesma linha, a falta à regra de separação silábica é clara. “Diretame-nte, expu-lsões, invadi-ssem” são algumas paradas bruscas nas súmulas do Candangão deste ano.

Clássico entre os erros de português, a conjugação errada do verbo haver não foi “excessão”, como diria, ou melhor, escreveria um árbitro no Campeonato Mineiro. Em súmulas do Carioca ou do Paulista, lá está, em destaque na primeira linha e, às vezes, na única frase do relatório: não “houveram”. Pior quando a infração é dupla, como “paralizações havida”. Vermelho para ele, naturalmente.

Para completar a seleção de equívocos com o mesmo verbo, alguns batem na trave. Acertam no tempo verbal, mas pecam na finalização. Sem o “h”, tem jogo em que “ouve” expulsão e jogador que já “avia” levado cartão.

Presidente da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol, Marco Martins reconhece que os erros de português em súmulas preocupam e não deveriam ocorrer em grandes campeonatos, como o Brasileiro. “Subentende-se que, quanto maior o nível do árbitro, maior a qualificação. No Campeonato Brasileiro é anormal, não deveríamos ter muitos.” Nos cursos de formação, os aspirantes a árbitros têm aulas de redação e orientações para preenchimento das súmulas. “A gente se preocupa em aprimorar a língua portuguesa, pede para que haja cuidado, mas isso não é um problema específico da arbitragem, é da qualidade no ensino no Brasil”, justifica o presidente, em entrevista ao Correio.

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

Árbitro
Crédito: Kopelnitsky, EUA

Fora do ar
Novidade no Campeonato Brasileiro do ano passado, a súmula eletrônica colocou o árbitro goiano Elmo Cunha, do quadro da CBF, em uma saia justa. Apitando Palmeiras x Botafogo nas rodadas finais do torneio, o juiz não conseguiu usar a internet para preencher a súmula no computador. Do jeito tradicional, ele escreveu apenas à mão e registrou o incidente: “Informo que não foi possível fazer os procedimentos da súmula digital devido a não conecção (sic) com a internet”. Desconectado com a língua portuguesa no momento desse deslize, Elmo ameniza a falha. “Isso é coisa normal, a gente comete gafes mesmo. Pode ter sido uma falta de atenção, muita correria. Todo mundo erra”, disse, à reportagem.

Nesse dia, o árbitro estava mesmo distraído ou com o tempo apertado. Ao relatar um confronto da polícia militar com a torcida do Palmeiras, ele informou que alguns policiais sofreram “escariações”. Sem perder o bom humor, Elmo reconhece que precisa ficar mais atento. “Nenhum dos dois erros justifica, mas, com certeza, é pior errar no jogo.”