Europa equatorial

José Horta Manzano

Vosmecê, que vive num clima equatorial ou tropical, não há de se espantar, mas tem muito europeu estonteado, sem saber o que fazer para mitigar o calor infernal que assola o continente. Dantesco é um bom adjetivo, que lembra o inferno descrito pelo grande poeta toscano.

Já no mês de maio, o mês das noivas, que costuma (costumava?) trazer o canto dos passarinhos e as primeiras flores, recebemos uma frente quente diretamente do Saara, a nos lembrar que, em linha reta, não estamos assim tão longe das areias ferventes. Uma semana com temperaturas acima de 30° em pleno maio? Coisa nunca vista.

Entrou junho, voltou um friozinho benfazejo. Todos imaginaram que os calorões estavam conjurados até julho – no mínimo. Que nada! A alegria durou pouco. Já no dia 13, as fogueiras de Santo Antônio esquentaram os termômetros, e as temperaturas subiram de elevador. Vinte e oito, vinte e nove. O que eu sei é que, a partir do dia 16, o mercúrio diurno não desceu mais abaixo de 30°.

E a partir de 22, foi a loucura total: 35° ou mais todos os dias. Sábado, dia 27, tivemos 37,1°C aqui neste canto ameno da amena Suíça, minha gente. Eu mesmo, que já passei 52 verões neste país, juro que nunca tinha enfrentado um problema desses. A amena cidade de Basileia (Basel) bateu nos 39°. Como fazem os que vivem no deserto africano?

Certos lugares da França passaram dos 41°C. O mesmo vale para localidades da (fria) Alemanha. Até a (gélida) Dinamarca teve seus dias piauienses, com 36°C. Portugal, Espanha e Itália estão no mesmo balaio.

Nesta Suíça em que a instalação de ar condicionado em casa é rigorosamente regulamentada por lei, as lojas de eletrodomésticos estão de prateleiras vazias. Assim que vem nova chegada de aparelhos, desaparecem em horas. Os (habitualmente) comportados cidadãos estão passando por cima de leis e regras. O medo de derreter é maior que o medo de levar multa pesada. Vão instalando sem pedir licença a ninguém.

Para este começo de semana, a previsão do tempo nos promete uma volta gradual a padrões habituais de calor. Mas já bisbilhotei a previsão para 10 dias e descobri, com aflição, que o alívio é de curta duração. Depois de poucos dias, vai começar a subir de novo.

Vem nova frente tórrida por aí e alçaremos os picos dos 35° de novo. Quando eu decidi fincar pé nestas terras, ainda nos anos 1960, uma das principais atrações era, para mim, o clima fresco. Para quem vinha de um caloroso Brasil – como eram quentes os anos 60! – era um refrigério. Hoje, nas minhas elucubrações, digo que, se eu tivesse sabido que ia terminar assim, teria escolhido logo uma Finlândia.

Continha de fração

José Horta Manzano

Como acontece a cada quatro anos, a Copa do Mundo de Futebol traz alegrias, traz decepções, mas traz também um punhado de espantos, de situações embaraçosas ou cômicas.

Estava ouvindo um analista esportivo explicar que o Brasil entrava agora na segunda fase, colocado entre as 32 melhores seleções. Antes era fácil. Depois da fase de grupos, passava-se à fase do mata-mata, de eliminação direta, composta por 16 times. Dizíamos que eram as oitavas de final. Mas agora, com 32 seleções, como se chama?

O analista enrolou a língua na boca, torceu um pouco o nariz como quem não acredita no que vai dizer, e lançou: fase de 16 avos de final, é isso?

Pois sim, prezado analista, é isso mesmo. Vale dar uma repassada na lição de Dona Yolanda, lá no curso primário.

Até o 10, é fácil: usa-se o número ordinal.

  • 1/8 = um oitavo,
  • 3/9 = três nonos,
  • 4/10 = quatro décimos.

A partir do 11, é mais fácil ainda: usa-se o número cardinal com a partícula avos. Assim:

  • 1/11 = um onze avos,
  • 6/16 = seis dezeseis avos,
  • 3/25 = três vinte e cinco avos,
  • 4/50 = quatro cinquenta avos

e assim por diante. Passando por 1/100 = cem avos (que, na moeda, abreviamos em “centavos”).

Nesta Copa de 48 participantes, vamos ter a fase dos 16 avos de final. Para a próxima, se Dona Fifa decidir que é mais lucrativo (para ela) aumentar para 72 ou 96 nações, teremos a fase dos 32 avos de final.

De qualquer modo, o Brasil ganha todas, não é mesmo? Onde está o problema?

Quem manda aqui sou eu!

by Arend van Dam (1945-)
desenhista holandês

José Horta Manzano

Um belo dia de fevereiro, o mundo acordou com o eco de bombas lançadas sobre o território iraniano. Tratava-se de um ataque maciço que os EUA e Israel, aliados, desferiam no Irã. Era Trump que tinha mandado suas tropas com a mensagem: “Quem manda aqui sou eu!”.

Nos dias que se seguiram, num golpe que parecia haver sido preparado por meses, um enorme palácio do centro de Teerã foi tão fortemente bombardeado que virou pó. Dentro, desenrolava-se uma reunião de altos dignitários. De uma tacada só, foram eliminados os principais cabeças do regime, incluindo o aiatolá Khamenei, o líder máximo.

A essas alturas, ninguém dava um tostão pelo futuro da teocracia. Esperava-se que o regime desmoronasse a qualquer momento e que novos dirigentes, favoráveis aos EUA, despontassem.

Com as semanas que passam, a gente vai-se esquecendo da sequência dos acontecimentos, mas a impressão era de que o Irã dos aiatolás era página virada, sobrando um país agora de joelhos e de braços abertos para as empresas americanas.

Não foi o que aconteceu.

No Irã, o regime não caiu. Outro guia espiritual foi imediatamente escolhido. Para cada guarda revolucionário caído, outro surgia não se sabe de onde. O país descobriu que era hora de pôr em prática seus planos de fechamento do Estreito de Hormuz, sua melhor arma.

Contando com uma imensa quantidade de drones, o Irã se valeu deles para sua defesa. Incapaz de disparar mísseis que atingissem o território americano, atacou interesses dos USA na região: dezenas de bases militares instaladas nos países vizinhos foram visadas.

Com seu estoque de armas baixando a olhos vistos e com bilhões de dólares sendo consumidos na guerra, os EUA insistiram na abertura de conversações visando a instaurar a paz. As tratativas ainda estão a meio, mas já se pode perceber claramente quem ganhou e quem perdeu com a guerra.

O Irã provou que a potência militar americana não é lá essas coisas. Dispõem, é verdade, de um arsenal que ninguém iguala, mas mostraram que, para ganhar uma guerra, ter armamento mais poderoso nem sempre é suficiente. Com o fechamento de Hormuz, o Irã conseguiu vergar o poderio americano.

Os EUA, que eram os protetores naturais de todos os países árabes da região, foram incapazes de proteger seus aliados, e decepcionaram. Qatar, Bahrein, Iraq e os demais têm agora maior tendência a voltar-se em direção a outros protetores, como a China, por exemplo.

O Irã, que era o país amaldiçoado da região, sai dessa guerra fortalecido e respeitado. Vai se passar um bom tempo antes que alguém ouse chuchar Teerã com vara curta. Cabe ao Irã agora proclamar:

“Quem manda aqui sou eu!”.

Água lava tudo

José Horta Manzano

Era um tempo em que a música brasileira era diferente de hoje. O carnaval, que ainda não era festa tão comercial como hoje, dava ocasião ao lançamento de marchinhas especialmente compostas para a ocasião, destinadas a “pegar” durante a festa e a sair de cena logo em seguida. Algumas, no entanto, caíram tanto no gosto do povo que sobrevivem até hoje. Mamãe eu quero é uma delas.

Para o carnaval de 1955, Paquito, Romeu e Jorge Gonçalves juntaram seus talentos e criaram a marchinha “A água lava tudo”, que Emilinha Borba gravou. Atrás da letra de ar cândido, insinua-se que o personagem de quem se fala andou por aí “num lugar tão diferente”. Após reflexão, compreende-se que o lugar diferente é um bordel. Mesmo tão escrachada, a marchinha não há de escandalizar se cantada diante de senhôras.

Em 1955, não havia redes sociais. Assim mesmo, piadinhas e memes se espalhavam rápido. (Memes não se chamavam assim, mas viajavam a 120, como se dizia.) A letra original da primeira parte da marchinha era esta:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua dessa gente

Não demorou muito pra circular uma versão alternativa que zombava de Carlos Lacerda, então deputado federal pelo DF. Lacerda era orador inflamado, dotado de língua ferina. O povo não perdoou:

Você notou como estou tão diferente (bis)
A água lava lava lava tudo
A água só não lava a língua do Lacerda

Pra eu lembrar 70 anos depois, é que a versão bis deve ter sido bastante repetida. A história não conta se o político apreciou.

Vamos pular todas essas décadas e trazer a história para o presente. Agora vêm alguns “se”:

  • Se o carnaval ainda fosse espontâneo como o antigo e menos fabricado;
  • Se os memes ainda tivessem a leveza de espírito das brincadeiras de ontem;
  • Se ainda fossem compostos sambas e marchas especiais para o carnaval;
  • Se a marchinha da Emilinha Borba ressuscitasse e o povo se pusesse a cantá-la.

Qual seria um final engraçado, coerente e atual para a estrofe “A água só não lava a língua …………….” ?

  • Da sogra?
  • Do Lula?
  • Do Eduardo Bolsonaro?
  • Do Trump?

Alguma boa ideia ocorre a vosmecê? Mande cartinha para a Redação!

As festas de junho

Igreja de Sto Antonio
São Paulo, século 18
by J. Washt Rodrigues

José Horta Manzano


“A noite de São João é a mais fria do ano.”

“Santo Antônio encontra tudo, é só pedir.”

“São Pedro é humilde e corajoso, é por isso que foi o primeiro papa. Santo forte.”


São coisas em que todo o mundo acreditava antigamente. A moça solteira costumava pôr a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, avisando ao santo que só voltaria à posição natural quando lhe encontrasse um bom marido. Dizem que Antônio não apreciava nada esse castigo, vai daí que não encontrava marido nenhum.

Não sei se a tradição perdura, mas até os anos 1950 e 1960, o 13 de junho era um dia especial. Os padeiros do centro de São Paulo, que eram quase todos de origem portuguesa, mandavam braçadas de pães para a igreja de Santo Antônio, praça do Patriarca. O povo então fazia fila. Cada um recebia, então, um pedaço de pão que havia sido previamente benzido. Devia-se guardar esse pão em casa, pra garantir fartura o ano inteiro. Se foi isso, não sei, mas em casa nunca faltou comida.

Assim como o metrônomo marca o tempo musical, os dias de cada santo do mês – Antônio, João e Pedro – marcavam o ritmo dos festejos juninos. Rifas e quermesses engalanavam aqueles dias sem internet e, muitas vezes, sem televisão.

Vejo hoje muito anúncio de “arraiá”(sic). Mas os personagens que deram origem a esses agapes não são mais mencionados. É como o Natal, que perdeu suas origens para tornar-se a época em que se come peru e panetone. E em que se dá presente a toda a família. Os “arraiás” sobrevivem soltos no organograma, sem ligação a nenhuma tradição nacional.

  • Aqui entre nós: o arraial, tradição interiorana, deveria ser pronunciado “arraiaR”, com um erre retroflexo no final, bem enrolado, bem acaipirado.

O jogo inaugural do Brasil na Copa 26 caiu bem no dia de Santo Antônio. Não me lembro de ter visto nenhuma referência à data em todas as reportagens e análises que li.

Nossos bem pagos jogadores, por mais milionários que estejam, não deveriam julgar-se acima do bem e do mal. Um pouco de respeito às tradições  e de confiança nelas não lhes faria mal nenhum. Se o Brasil ainda terminar em primeiro lugar em seu grupo, o que não é impossível, vai jogar no 29 de junho, dia de São Pedro.

Pra ganhar, não vale botar o santo de ponta-cabeça, que ele não gosta. Dê-lhe um sorrisinho, ele há de apreciar.

Enrolação de Vorcaro

by Claudio de Oliveira (1963-),
cartunista potiguar, via Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Ao ser encarcerado, três meses atrás, Daniel Vorcaro logo se deu conta dos longos anos que ia ter de passar batendo ponto entre a cela e o refeitório da Papuda ou de outro estabelecimento similar. Pra quem costumava frequentar o jet set, a percorrer o circuito Nova York, Londres, Paris, badalado por altos dignitários da nação, a perspectiva de vestir uniforme e fazer fila pra ir ao rango e comer de bandejão deve ser assustadora. Foi aí que seus bem-pagos advogados lhe sugeriram requerer o benefício de uma delação premiada, como a lei lhe faculta.

Como bom mineiro, o banqueiro que virou escroque sabe que mingau quente se come pelas bordas. Não sei se de iniciativa própria ou por sugestão de seus causídicos, imaginou que o melhor meio de dar conta desse mingau não era enfiar o colherão no meio, mas atacá-lo pelas beiradas, aos pouquinhos. Depois de poucas semanas de preparação, apresentou sua proposta de delação. A PF leu, releu, e devolveu. Disse que aquilo não servia, visto ser um bla-bla-blá estéril que não revelava nada que já não fosse sabido.

Não sei o que mais a Polícia Federal disse ao estelionatário, mas acredito que não foram suficientemente claros. O que tinha de ser informado naquele momento era que delação não é um relato seletivo de fatos colhidos aqui e ali, acusando fulano mas poupando sicrano, apontando beltrano mas passando ao largo de mengano. Delação tem de ser confissão total, que conta tudo, à qual nada mais vai precisar ser acrescentado. Os da PF devem ter omitido de pôr o encarcerado a par dessa regra básica.

Passado um mês, lá veio ele com mais uma tentativa de delação (que alguns chamaram ‘engabelação’). Depois de examinar, era inevitável que a PF lhe devolvesse a patacoada. De novo, o esperto comedor de mingau tinha tentado dar uma de joão sem braço. Em sua “confissão”, listou informações de que a polícia já dispunha. Todos entenderam que não é distração, é enrolação.


No momento em que escrevo, quinta-feira 11, a expectativa é que, até o fim desta semana, a PF e a PGR rejeitem oficialmente a segunda proposta de delação apresentada pelos advogados de Vorcaro.


Espera-se que, desta vez, a PF diga ao suspeito exatamente o que está esperando. Que sejam palavras claras, daquelas que não deixam margem a dúvidas e evitam confusões futuras. Que sejam claros:

“Queremos que o senhor esclareça, com detalhes e exatidão, suas relações com todos os personagens que orbitaram em volta do senhor e dos que receberam propinas e outros presentinhos, incluindo tal juiz, tal parlamentar, tal prefeito.”

Se daqui a algum tempo, quando ele voltar com sua terceira “tentativa” e ficar claro que continua escondendo nomes e fatos, que se lhe informe: “Suas chances acabaram. Não adianta continuar tentando. Volte a sua cela e aguarde o processo.”.

Entre o enlouquecimento, o câncer de fígado e a alienação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ano passado eu não morri, mas este ano eu morro.

Só de saber que vou ter de enfrentar o pesadelo de eleições presidenciais nas quais corremos mais uma vez o risco de voltar para a Idade Média em termos de costumes e aos anos de chumbo das décadas de 60/70/80, meu cérebro endoidece e capota na tentativa de entender por que gente pretensamente bem-informada ainda pensa em votar no atraso. Do Brasil do futuro passamos a sonhar em voltarmos a ser orgulhosamente o Brasil do passado imperial, escravocrata e misógino.

Outra coisa que me apoquenta enormemente é a próxima Copa do Mundo de Futebol. Todos os programas de televisão, todos os jornais e telejornais, todas as propagandas estarão dando prioridade novamente a informações circunstanciais sobre os jogadores, estádios, torcedores, preço dos ingressos, etc. As reviravoltas diplomáticas e o número acachapante de mortos nas guerras EUA-Irã, Israel-Líbano, Rússia-Ucrânia deixarão de ter relevância nos noticiários. Da mesma forma, o risco de a epidemia de ebola no Congo se espalhar por outros países perderá importância na mente das pessoas. As providências para neutralizar os efeitos de mais um El Niño abrasador que se aproxima a galope vão poder esperar. Além da tortura de ouvir os debates acalorados repetidos ad nauseam sobre o desempenho de nossa seleção, vou ter de aturar o sofrimento de passar o mês inteirinho trancada no meu quarto, ao lado da minha cachorra, ambas com tampões nos ouvidos, para não enlouquecer com as comemorações e distúrbios generalizados pós-jogos. Afinal, quem ainda associa a camisa verde-amarela ao patriotismo?

Além desses dois assuntos tortuosos, quem não quiser brigar comigo pelo resto da vida vai ter forçosamente de evitar tecer comentários ou pedir minha opinião sobre:

  • Daniel Vorcaro e Banco Master
  • Clima de insegurança pública e as soluções apresentadas para a violência urbana pelos candidatos na próxima eleição
  • Fim da escala 6 x 1
  • Trump e o “terrorismo” do PCC/CV ameaçando a soberania nacional
  • Trump e Irã/Venezuela/Cuba
  • Netanyahu e Gaza/Líbano
  • Putin e a Ucrânia
  • Juliano Cazarré e seu curso para a machosfera
  • Luciano Huck e o Bolsa Família.

Pelo amor de Deus, gente! Vamos mudar de assunto? Nunca vi tanta obsessão em opinar a respeito de temas sobre os quais tudo já foi dito. Parece até que acrescentar mais um post indignado, seja para discordar da maioria ou para colocar ainda mais gasolina no fogo, vai fazer diferença, trazer novas luzes ou solucionar o problema. Acreditem ou não, nossa impotência não diminui nem um pouquinho com tanta falação. Que tal pararmos de olhar para as circunstâncias externas e começarmos a matutar sobre qual é nossa parcela de responsabilidade em fazer com que as coisas permaneçam do jeito que estão?

Gerar indignação virou mantra e meta de vida. Embora a indignação possa gerar catarse coletiva, disponibilizando alvos para culpar por nossa sensação de desamparo, ela quase sempre fica restrita a uma descarga emocional momentânea, que não evolui para ações que provoquem uma transformação duradoura da realidade. E, pior, a repetição obsessiva desse cenário de fim de mundo acaba gerando acomodação e reforçando a sensação de impotência. Num ano eleitoral, tudo isso fica ainda mais problemático. Pouca gente se dá conta da mensagem que está por trás da exposição de tantos infortúnios. A quem serve o medo e a angústia da população? A ode ao apocalipse nunca termina bem numa democracia.

Meu fígado já perdeu praticamente toda a sua capacidade de digerir esse acúmulo de toxinas e o resultado óbvio é uma sensação permanente de asco e náusea que torna insustentável boa parte dos meus dias. Tenho tido sonhos perturbadores e visões apocalípticas. Não consigo ler nem escrever. Minha censura interna impede que eu ultrapasse os primeiros parágrafos. Comecei a sentir uma espécie de cansaço com todo tipo de digressão intelectual. Para que continuar pensando e levantando novas possibilidades de solução se o esforço de compreender a realidade não implica abrir mão da minha imobilidade?

Dormir tem sido minha única estratégia de sobrevivência. Quando minha ansiedade bate no teto, desligo a tevê, ignoro os irritantes apitos das notificações que chegam pelo celular, deito e tento submergir no sono. Mas, em poucos minutos, começo a me perguntar: qual o preço a pagar pela alienação? Minha paz interior pode valer mais do que o desejo de mudança? Acordo resoluta: entre a cruz e a espada, ainda prefiro ficar com a espada.

Pra frente, Brasil!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A cúpula e os vândalos

José Horta Manzano

O ano era 2003. No Brasil, Lula era presidente de primeiro mandato, embriagado pelos eflúvios do sucesso, nadando de braçada num ambiente propício. FHC havia deixado a casa em ordem, contas em dia, máquina bem lubrificada. Já Bolsonaro era deputado e se aninhava no ‘baixo clero’, mais preocupado com seus assuntos particulares que com a boa marcha da nação.

No mundo, os dirigentes de turno eram o inefável italiano Berlusconi, o francês Chirac, o inglês Tony Blair, o americano George Bush filho e o principiante Vladimir Putin, da Rússia. Esses personagens, junto com alguns outros líderes, formavam o G8 – grupo dos 8 países mais industrializados, que mais tarde se tornaria G7, com a exclusão da Rússia na esteira da anexação da Crimeia, em 2014.

A cúpula daquele ano estava para realizar-se na França. Para sediar a reunião, Paris havia escolhido uma pequena mas aprazível estação de águas chamada Evian, situada ao pé dos Alpes franceses, à beira do Lago Leman. A cidadezinha fica numa região perdida, longe de qualquer centro urbano francês. A referência mais próxima é a cidade suíça de Genebra, plantada à beira do mesmo lago. Ali está, por exemplo, o aeroporto mais próximo que deve servir a receber os dignitários estrangeiros. Além dos líderes do G8, há convidados, entre os quais estão Lula da Silva mais uma meia dúzia de outros chefes de Estado.

Em 2003, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos – sem mandato da ONU – provocou uma onda mundial de indignação. Na sequência, levantou-se um forte movimento anti-G8. Para prevenir que manifestações viessem perturbar o sossego dos líderes reunidos, o governo francês bloqueou as estradas que levam a Evian. Diante disso, que fizeram os manifestantes? Pois decidiram manifestar em Genebra, a cidade grande mais próxima do evento.

Ao ficar sabendo das manifestações previstas pelos jovens bem-intencionados, afluíram, de todos os países vizinhos, vândalos profissionais que têm prazer em quebrar vitrines e pilhar lojas. Pode parecer inacreditável, mas há gente que vem de longe, toma trem, gasta o dinheiro da viagem, só pelo prazer de estourar vitrines, atirar coquetel Molotov e, se der, carregar alguma mercadoria, nem que seja uma lembrancinha.

O período de 31 maio a 3 junho de 2003 trouxe o caos a Genebra. Felizmente não morreu ninguém, mas houve feridos, incômodos, bloqueio de vias, perturbação do funcionamento da cidade e, principalmente, muita destruição. A polícia, pouco habituada à violência daqueles dias, ficou sobrecarregada, desnorteada, e perdeu as condições de operar. Foi assustador, e todos ficaram felizes quando a cúpula acabou e o pessoal graúdo foi-se embora.

O tempo passou, poucos ainda se lembravam desse episódio. Hoje, 23 anos passados, cabe de novo à França organizar a reunião anual do (agora) G7. E que lugar eles escolhem para o convescote? Adivinhou: de novo, Evian, a estaçãozinha termal ao pé dos Alpes. E pertinho de Genebra.

Como anfitriã, Paris tem o direito de escolher receber os confrades onde quiser, mas bem que podiam ter escolhido uma outra localidade. Fico desconfiado que escolhem Evian justamente porque sabem que os convivas ficarão encantados, e que os espinhos vão para os suíços. Se tivessem preferido outra cidade francesa, colheriam os espinhos.

É verdade que, em quase um quarto de século, o mundo mudou. Talvez os idealistas ingênuos daqueles tempos já não existam. Talvez o sentimento anti-G7 tenha se arrefecido. Mas um fato é certeza: vândalos sempre existiram e sempre existirão.

A manifestação deste ano está marcada para 14 de junho.

Nota:
Para instalar um tapume de proteção diante de uma pequena loja de uma vitrine, os (espertos) profissionais estão cobrando nada menos que 16 mil francos (103 mil reais). Pensava que espertinhos só havia no Brasil, é?

O mundo segundo os aiatolás

 

Piadinha publicada no site da embaixada do Irã na Tunísia

José Horta Manzano

É comum ouvir dizer que o Brasil não deu certo. Não há como discordar. De fato, ainda falta muito para nosso país tornar-se normal, justo e harmônico. É curioso que assim seja, visto que, diferentemente de muitos outros países, não temos linhas de fratura que oponham contingentes de população uns aos outros. O que temos atualmente, e que chamamos “polarização”, é fenômeno passageiro. Antes da coexistência de Lula e Bolsonaro, não havia; e depois que esses personagens tiverem descido do palco, deve desvanecer.

Por sorte, temos duas características de suma importância que deveriam nos unir – e, de fato, nos unem: a língua e a religião. O fato de falarmos a mesma língua, o que faz que qualquer cidadão possa entender e ser entendido em todo o território nacional, é uma qualidade rara para um país gigantesco e populoso como o nosso. Por seu lado, a imensa maioria da população é cristã – entre católicos, protestantes e neo-pentecostais. Portanto, os principais fatores de crispação simplesmente não estão presentes.

Nosso atraso e nossa inarmonia devem, assim, ter outra origem.

Ninguém aprecia que brinquem com sua religião ou com seus símbolos religiosos. Esse tipo de acontecimento, além de incomodar, é de extremo mau gosto. No Brasil, não estamos acostumados a vilipêndios ou ultrajes religiosos.

Os fiéis de certas religiões são mais susceptíveis a brincadeiras com seus símbolos, ainda que a intenção não tenha sido de ofender. Maometanos têm prevenção especial contra quem se atreva a usar seus símbolos em vão.

O atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, cometido em janeiro de 2015, foi exemplo dessa intolerância. Doze profissionais foram assassinados e onze outras pessoas foram feridas pelos dois atiradores armados de fuzis. A chacina ocorreu como castigo aos profissionais que tinham ousado publicar desenhos cômicos com personagens ligados ao Islã.

A incentivar (e às vezes financiar) esse tipo de ataque, em geral estão os aiatolás do Irã. Pois são justamente esses aiatolás que estão por trás de uma brincadeira – um meme talvez? – publicado no site da embaixada do Irã na Tunísia. Apareceu na sequência dos desaforos que o Brasil vem sofrendo do presidente Trump e seus acólitos. Representa o Cristo Redentor que destrói a Estátua da Liberdade.

Como sabemos, a estátua do Corcovado é um símbolo duplo: de nosso país e de nossa religiosidade. Já a Estátua da Liberdade simboliza os Estados Unidos. O regime iraniano pôs em cena os dois símbolos, que se comportam da única maneira que o regime iraniano conhece: a força bruta que leva à destruição do adversário.

Entendo que a intenção era mostrar solidariedade para com o Brasil, um abraço entre vítimas do mesmo verdugo. O problema é que, para ilustrar o teatrinho infantiloide que bolaram, usaram um símbolo religioso respeitado por todos os brasileiros, católicos ou não. E isso não se faz. Queria ver o que aconteceria se o governo brasileiro tivesse a ideia debiloide de usar a figura do profeta deles se engalfinhando com a turma do Trump. Acho que não haviam de deixar por isso mesmo.

Pra não complicar, é melhor deixar como está, e não levar a coisa adiante. Mas bem que valia a pena fazer chegar a Teerã uma mensagem discreta para que eles, da próxima vez, evitem usar um símbolo religioso. Que ponham o Pelé, por exemplo, dando um chute magistral na estátua americana, ninguém há de se ofender.

6 x 1

José Horta Manzano

Nestes tempos de pré-Copa, o título poderia indicar algum resultado esperado. Não é. Por enquanto, fica na esperança mesmo. A realidade começa a pingar daqui a alguns dias.

Falando em realidade, li em algum lugar que um “guru”, alemão se não me engano, vem acertando resultado das últimas três Copas. Acertou o campeão antes de cada campeonato começar. Para esta edição, diz que é a Holanda que vai ganhar. Quanto ao Brasil, diz vai sair em primeiro lugar no grupo, mas em seguida naufraga diante do Japão, é eliminado e volta pra casa.

Se fosse possível saber dos resultados antes de jogar, até que era interessante. Saia mais barato, evitava concentração, gastos com avião, hotel, transportes. Mas também perdia a graça. Melhor que fique como está.

É curioso como a expressão “taça do mundo”, que se usou nos primeiros campeonatos mundiais, cedeu lugar a “copa do mundo”. Imagino que a razão seja a seguinte. Taça, todos nós entendemos como um recipiente em que se bebe, como em “taça de vinho”. Já Copa não faz necessariamente pensar em vasilhame para bebida.

Pois bem, o troféu dos primeiros campeonatos de futebol tinha realmente o formato de uma taça, com asinhas dos dois lados, escavada no interior, apta a receber líquido. Já o troféu atual não tem nada de taça. Provavelmente vem daí a mudança de nome de “taça” para “copa”.

Ao dar título a este escrito, me referi ao horário de trabalho (hoje chamado “escala”). Faz meses que se debate a proibição do sistema 6 x 1 (um dia de descanso a cada seis de trabalho). Em primeiro lugar, acho esquisito que seja o Parlamento a proibir ou liberar escalas de trabalho. Achava que essa discussão se restringisse ao nível de contrato de categoria, negociado por sindicatos.

Na juventude, muitas décadas atrás, trabalhei na hotelaria aqui na Suíça. Naqueles anos, trabalhava-se duro. A escala era essa que acabam de proscrever no Brasil: 6 dias de trabalho x 1 dia de repouso. E olhe que o dia de descanso nunca era num sábado ou num domingo, que isso era privilégio do chefe. O repouso caía sempre num dia útil e podia variar de uma semana a outra. O mais das vezes, eu trabalhava 54 horas por semana. Num emprego, cheguei a trabalhar 78 horas por semana, um despropósito.

Hoje, na Suíça, nenhum empregado de hotel e restaurante trabalha mais nessa escala 6 x 1. No entanto, a lei estipula um total semanal máximo de 45 horas para funcionários de escritório (técnicos, vendas, etc), e um total máximo de 50 horas para os demais (construção, artesanato, agricultura, micro e pequenas empresas).

No Brasil, entendi que o total máximo está limitado a 40 horas por semana. Vê-se que os brasileiros já vivem num país rico e adiantado, que não exige mais nenhum sacrifício de seus filhos.