Trump de la pampa?

by Luis Grañena, caricaturista espanhol

José Horta Manzano

No caso da rápida passagem de Milei, presidente da Argentina, pela convenção que lançou a candidatura de Flávio B. à Presidência da República, tem sido dada mais atenção à forma que ao fundo do pronunciamento do argentino. A virulência dos insultos foi notada (e reprovada) por todos, mas o objetivo central do visitante ainda está por esclarecer.

Olhando de repente, Javier Milei parece um sujeito sem noção por natureza e palhaço por vocação. Um bobalhão, em resumo. Acontece que a realidade não é bem essa. Dono de uma licenciatura em Economia, duas pós-graduações em Economia e Teoria Econômica e autor de uma dezena de livros de Economia, seu lado histriônico não passa de encenação.

A pretensão de Donald Trump de reavivar a Doutrina Monroe – a América para os americanos – fez brotarem caraminholas na cabeça de Javier Milei. Ao se dar conta de que os três maiores países americanos (Brasil, México e Canadá) estavam governados por opositores políticos de Washington (Lula, Sheinbaum e Carney), o argentino teve a peculiar ideia de se autopromover a xerife regional de Trump, uma espécie de interventor do poder americano nesta parte da América.

É dentro dessa óptica que deve ser analisada a ingerência de Milei no processo eleitoral brasileiro. Tratou-se muito mais de autopromoção que de apoio ao filho de B. Mas por que os insultos? O argentino trata de arremedar seu ídolo, que reina na Casa Branca. Falta-lhe o talento teatral, não mente com a mesma convicção que o mestre, sua estridência mais ofende que mete medo. Mas… e daí? O objetivo não era escandalizar? Pois foi amplamente atingido.

Milei sabe que Flávio B. tem certa chance de ser eleito. Não fosse assim, não teria se abalado até aqui colar sua imagem num cavalo fora do páreo. Se de fato o filho de B. ganhar a eleição, Milei saberá cobrar gratidão do novo presidente. Nesse sistema neofeudal, Flávio deve vassalagem a Milei, que, por seu lado, deve vassalagem a Trump. Se funcionava assim no século 13, não há razão para que não funcione hoje, não é mesmo?

Se porventura Lula vencer a corrida, Milei não terá perdido a viagem. Continuará macaqueando no seu canto na esperança de, também ele, ser reeleito em Buenos Aires. Para espichar esta tragicomédia que, se não contribui para o progresso de nossa região, pelo menos entretém a plateia. E rende artigos como este.

Petição

by Igor Kopelnitsky (1946-2019), desenhista ucraniano-americano

José Horta Manzano

Petições estão circulando pela internet estes dias, pedindo à Fifa que a final da Copa do Mundo de futebol seja jogada de novo, veja você. Alegam que o árbitro era corrupto e que fez o que pôde para tirar a vitória da Argentina. Contam até que o homem já foi preso, algum tempo atrás, na Bósnia, numa operação contra o crime organizado. Na Bósnia… Crime organizado…

Veja como são as coisas. Até outro dia, antes da final, o que se ouvia era que a Argentina estava sendo favorecida pelos árbitros, como se estivessem todos instruídos para “aliviar” para os hermanos porque a Copa tinha que ir para eles. Certos lances de arbitragem realmente transmitiram essa impressão. É surpreendente ver, agora, reclamações no outro sentido.

Uma das petições que correm atualmente já recolheu quase cem mil assinaturas. Quero acreditar que os signatários estão todos (ou quase) na Argentina.

É comovente ver tanta gente ingênua a ponto de acreditar que uma tal petição tem alguma chance. Imagine só, se a Fifa se desse ao trabalho de atender a petições de torcedores, ainda estaríamos discutindo e jogando de novo a final da Copa de 1958, após pedido da Suécia, réplica do Brasil, tréplica da Suécia, e assim por diante.

Nem que, num rasgo de sincericídio, um árbitro viesse a reconhecer em público – e com firma reconhecida – que trapaceou, ainda assim nenhum jogo poderia ser redisputado. Jogo jogado, apito final dado e resultado homologado é fim de papo. Assunto encerrado.

Não é impossível que nosso amigo Trump tenha, sem querer, incentivado petições dessa natureza. Pois não foi ele que pediu anulação do cartão vermelho recebido por um jogador americado? E não foi a obsequiosa Fifa que, rapidinho, parcelou a suspensão do atleta em suaves prestações? Essa contradança deve ter tocado o coração de torcedores mais ingênuos: se Trump conseguiu sozinho, nós, que somos muitos, podemos também tentar.

Sugiro iniciarmos uma petição para repetir o jogo Brasil x Noruega. Desta vez, vai.

Internet, a regulação necessária

José Horta Manzano

O primeiro automóvel que chegou à cidade de São Paulo foi um Peugeot trazido de Paris por navio em 1891. Era propriedade da família de Alberto Santos-Dumont, o aviador. Há registro de o carro ter sido visto em 1893 dando uma volta pela Rua Direita, hoje via pedestre, mas então logradouro muito concorrido da capital.

Outros “vehiculos automoveis” (hoje diríamos veículos automotores) foram importados nos anos seguintes e engrossaram a circulação da cidade. Nos primeiros anos, um carro que se movia sozinho era novidade absoluta, daí a total ausência de infraestrutura pronta a receber a raridade. Os carros não eram emplacados, não havia sinais de tráfego, o pavimento das ruas não estava preparado para o molejos delicados, não havia CNH.

Com o tempo, foi aparecendo a regulação: placas de identificação do veículo, autorização de conduzir a geringonça, indicação da mão de direção em ruas apertadas, placas que davam prioridade. Não veio tudo duma vez. Foram necessários anos até que a circulação automotora entrasse na paisagem urbana.

A cada vez que uma novidade entra em nossas vidas, o caminho é o mesmo. Primeiro, a surpresa, quando a novidade se agita feito potro assustado que nâo sabe aonde vai. Em seguida, as coisas vão se assentando e a regulação, aos poucos vem chegando.

A internet e suas aplicações, como as redes sociais, não fogem a essa regra. Essas redes, surgidas há anos, foram sendo deixadas soltas e à vontade, sem regras claras que não fossem reclamações e clamores sem amanhã. Alastraram-se e criaram tanta raíz, que muitos Estados têm hesitado em intervir no sentido de impedir que crianças e adolescentes sejam arrebanhados por grupos mal intencionados ou por suas ideias.

Com a lei que obriga plataformas a verificar a idade e a ligar obrigatoriamente os contas dos menores de 16 anos à de seus pais, o Brasil entrou para o seleto grupo de países que já legislaram na matéria. Faz companhia à Austrália, à Malásia, à Indonésia e à China. Outros países têm projetos, uns mais adiantados, outros menos, que visam ao mesmo objetivo.

Esta semana foi a vez da França, o primeiro europeu a legislar sobre a matéria. Esta semana, o parlamento aprovou a lei que visa “a proteger os menores dos riscos representados pelas redes sociais”. O artigo principal proíbe acesso às redes sociais aos menores de 15 anos. Era um projeto para cuja aprovação o presidente Macron tinha se empenhado pessoalmente. A França espera e acredita que foi dado um empurrão à aprovação, por outros países da UE, de legislação semelhante.

O banimento não inclui o acesso a enciclopédias online do tipo Wikipédia ou outras plataformas educativas. O texto de lei não impõe nenhum método de verificação da idade, deixando às plataformas como Facebook ou TikTok a tarefa de definir o método. A lei deve entrar em vigor a partir de setembro próximo, que é o mês da volta às aulas na França.

Na minha opinião a lei francesa era necessária. Efebos ainda não têm a maturidade necessária para mergulhar na insociabilidade das redes “sociais”.

O espetáculo argentino

José Horta Manzano

Quando eu era pequeno, o Brasil era muito diferente de hoje. Era caipira, meio atrasado, e todo o mundo sabia disso. O brasileiro tentava olhar para fora do país e imaginar como seria a vida no estrangeiro.

As influências que recebíamos vinham pelo cinema, com filmes em grande maioria norte americanos. Imaginávamos que os EUA fossem um país fabuloso, em que todos tinham automóvel, viviam em casas rodeadas de jardim, eram ricos e comiam omelete com toucinho de porco logo de manhã. Mas os Estados Unidos estavam muito longe, naquele mundo em que viagens intercontinentais custavam um patrimônio.

Mais próximo de nós estava a Argentina, país que julgávamos adiantado, moderno, nosso vizinho de parede. Vizinho é modo de dizer, porque, apesar da distância relativamente pequena, quase ninguém viajava até lá. Estradas havia, mas era impensável rodar tantos quilômetros. De trem, era impossível. O melhor meio de chegar a Buenos Aires era de navio. Vosmecê não acredita? Pois era assim.

Os poucos que viajavam até lá traziam objetos que não existiam aqui. Mantas de pura lã, frutas secas de produção local, vinhos. Em nossas feiras, vendiam-se maçãs e peras argentinas, porque não havia produção brasileira. Cerejas, quando apareciam, vinham de lá e custavam uma fortuna.

Tive uma tia-avó que, toda semana, comprava uma revista feminina argentina, porque ainda não havia nada parecido no Brasil. Era o Para Ti, que trazia romances em capítulos, receitas, artigos sérios, ilustrações coloridas – um deslumbre. Foi essa revista, aliás, que me deu as primeiras lições de língua espanhola. Sempre tive grande admiração pela Argentina.

Passado tanto tempo, simpatias vindas da infância às vezes se chocam com a realidade. Assisti ao jogo de domingo, final da Copa, com o duelo Espanha x Argentina. Tendo já assistido à partida das semifinais entre a Argentina e a Inglaterra, eu já estava ressabiado. Aquilo foi uma desgraceira, uma pancadaria sem fim. Era assim, então, que a campeã da última Copa pretendia defender seu título? Que horror. Passaram 90 minutos daquela semifinal massacrando fisicamente os ingleses, como se estivessem num campo de batalha.

Um jogador argentino faz um espanhol fazer um voo acrobático e aterrissar no gramado.

Um analista creditou esse comportamento a um “rancor persistente” (pela derrota sofrida 44 anos atrás, na Guerra das Malvinas). Rancor? – pergunto eu. Por algo que ocorreu antes que todos os jogadores tivessem nascido? Não acredito. Aquilo foi mostra de agressividade própria de um grupo desclassificado, surgido não se sabe de que caverna.

No jogo final da Copa, os ferozes jogadores argentinos repetiram a dose. Deram pancada e cotovelada a granel. Abusaram das faltas e do comportamento antiesportivo. Foi constrangedor. Alcançaram um recorde nada invejável: pela primeira vez, uma seleção atravessa os 90 minutos da partida final sem chutar a gol. Não digo nem fazer um gol, mas apenas chutar em direção à meta. Não é impressionante? Acho que estavam tão vidrados na agressividade contra os adversários, que não deu tempo de pensar em fazer gol.

A imprensa mundial pouco falou desse aspecto deplorável do jogo. Artigos e análises preferiram passar batidos por esse capítulo desagradável. O New York Times não deixou passar em branco. O articulista intitulou “A Argentina desonrou a si mesma — e a final da Copa do Mundo — com sua petulância sem charme”. Leandro Paredes, talvez o mais feroz dos argentinos, teve direito ao epíteto de “vilão sorrateiro” por parte do NYT.

Barraco armado por um furibundo jogador argentino depois da derrota.

E o barraco não acabou com o apito final. Terminado o encontro, o mesmo Paredes arrumou confusão com o banco espanhol. Atracou-se furiosamente com um jovem reserva, e atirou-o ao chão com um golpe semelhante ao ippon do judô. Foi apartado, se não o assustado reserva teria ido direto para o Pronto Socorro.

Espetáculo deprimente oferecido por uma turma sem eira nem beira. Alguém sugeriu excluir a Argentina da próxima Copa. Imagine só se a gananciosa Fifa havia de perder a fonte de renda representada por um país de mais de 40 milhões de habitantes.

A Argentina vai estar presente em 2030, pode ter certeza. Resta esperar que a próxima leva seja de jogadores mais civilizados. É permitido duvidar.

Copa vista de longe

José Horta Manzano

Grande parte dos jogos da Copa 2026 foram disputados em horário pouco conveniente para habitantes da Europa. Com início às 23h, à 1h da madrugada ou até mais tarde, só assistiram os muito fanáticos, coisa que não sou.

Assim sendo, até as semifinais, não vi nenhum jogo, nem mesmo os do Brasil. Aliás, eu diria, em especial os do Brasil. É que, quando joga a Seleção nacional, a tensão do torcedor é de infarto, e convém preservar corações já bem gastos como este aqui.

Sou admirador bissexto do futebol. Só volto a me interessar a cada quatro anos, em tempos de Copa do Mundo. Ou também quando passam o Euro (Campeonato Europeu da UEFA), que é como uma Copa sem Brasil e Argentina.

Assisti ao jogo Espanha 2 x França 0, um belo espetáculo. Muita gente imaginava que os franceses fossem ligar o rolo compressor e esmagar os espanhóis. Não foi o que aconteceu. Não se sabe bem por quê, foram os espanhóis que dominaram, especialmente no primeiro tempo. Muito impressionante.

O árbitro era um homem baixo, de tez morena, da terra do ditador Bukele. Depois do jogo, em desabafo de perdedor, o treinador francês perguntou publicamente se “o árbitro estava à altura de apitar uma quarta de final da Copa do Mundo”. Indignada, a FIFA se empertigou para declarar que todos os seus árbitros são de nível mundial.

Eu me pergunto se, digamos, o árbitro tivesse sido um alemão de pele clara, olhos azuis e dois metros de altura, será que o treinador teria ousado atirar nele a culpa pelo calamitoso fracasso de sua seleção? Duvido. É nessas horas que a gente se dá conta de que a culpa de toda a miséria do mundo é sistematicamente atirada nas costas do cidadão pobre e com cara de frágil.

Ontem assisti à batalha entre Argentina e Inglaterra. O que os torcedores presentes no estádio fizeram foi feio. Vaiaram o hino britânico. A um volume tal, que não deu pra ouvir nenhuma palavra. Acho que o momento dos hinos é importante. Não se deve emporcalhar o símbolo do país adversário. O que eles fizeram é pura falta de civilidade. É de se perguntar de onde saiu aquela gente, que pagou milhares de dólares por um banco duro e que se sentiu no direito de ofender todo um povo.

Os ingleses foram muito bem no primeiro tempo. O gol deles não foi roubado. Não entendi uma coisa: a certa altura (as câmeras mostraram), o técnico teles, que é alemão, pôs-se a esbravejar, aos berros, andando para um lado e para o outro, puxando o braço do 4° árbitro. Esse descontrole é muito negativo para seu próprio time. Transmite insegurança e nervosismo. Nota zero.

Já o técnico argentino é indecifrável como uma múmia. Faz ele muito bem. Ainda que esteja em ponto de bala, não transmite insegurança a seus comandados. No segundo tempo, ficou a impressão de que a Inglaterra parou de jogar. Trancaram-se em frente à própria área imaginando poder segurar a Argentina.

Isso é estratégia para cinco ou dez minutos. Mas não dá pra segurar um magro 1 x 0 por 45 minutos. Deu no que deu. De tanto tentar, a Argentina conseguiu enfiar dois gols. E garantir um lugar no pódio de domingo.

Vamos esperar que a grande final seja menos agressiva que esta última semifinal. Todos agradecerão.

De volta ao futuro

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aos 12 anos, tive uma briga muito séria com meu pai, não me lembro mais por qual motivo. Em meio às acusações mútuas de desrespeito, olhei desafiadoramente para ele e gritei: não suporto mais viver nesta casa, vou pegar minhas coisas e vou embora pra nunca mais voltar.

Friamente, ele respondeu: “A porta da rua é serventia da casa. Pode ir, mas preste atenção: só leve com você aquilo que for seu. Não leve nada que tenha sido comprado com meu dinheiro”.

Humilhada, fui para meu quarto, pensando em arrumar a mala e fugir ainda naquela madrugada. Quando a retirei do armário, não foi preciso muito esforço mental para me dar conta de que a mala não me pertencia. Tentando me acalmar, disse para mim mesma, com desdém: não tem problema, jogo minhas coisas num lençol, amarro tudo numa trouxa e carrego no ombro. Poucos segundos se passaram para de novo constatar o óbvio: o lençol também não era meu, muito menos minhas roupas e sapatos, ou quaisquer outros pertences. Aos poucos, uma verdade aterradora emergiu na minha consciência: nem eu mesma me pertencia.

Ainda tentando espantar o pânico, respirei fundo e me imaginei saindo à rua totalmente nua, com as mãos abanando. Mas o medo e a vergonha falavam mais alto: para onde eu iria, onde dormiria, onde tomaria banho, como comeria, se não carregava comigo nem um mísero centavo? Minha determinação de ir embora de qualquer jeito começou a esmorecer.

Uma vez esgotadas todas as possibilidades, tomei uma decisão. Voltei ao quarto dos meus pais e, reunindo toda a empáfia que me era possível então, declarei solenemente (não com essas palavras, é claro): de hoje em diante, meu único propósito na vida vai ser me tornar independente financeiramente. Quando esse dia chegar, vou-me embora para sempre, sem olhar para trás.

O que mudou dentro de mim a partir daquele dia foi o próprio conceito de autoridade. Naquele momento entendi que, quando se troca o diálogo e a persuasão amigável pela força ou impossibilidade de negociação, não se está mais lidando com autoridade, mas sim com autoritarismo. Autoritarismo passou a ser, para mim, evidência de autoridade incompetente e impotente – por não saber como se fazer respeitar, ela precisa se valer das armas da opressão, do silenciamento do outro, da invalidação de toda forma de divergência.

Jurei a mim mesma que nunca mais me subordinaria aos desmandos de outra pessoa, fosse ela quem fosse. Foram precisos outros 12 anos para que minha promessa se concretizasse: aos 24 anos, já formada e empregada numa grande empresa, consegui enfim honrar minha palavra. Embora minha libertação do jugo paterno tenha representado um imenso alívio, muitas e muitas vezes eu me senti acossada por sentimentos de culpa e desamparo.

Obedecer sem contestação às regras determinadas por outrem nunca foi um princípio aceitável na minha cabeça. Resignar-me a um destino não escolhido por mim menos ainda. As normas de gênero daquela época – casar, ter filhos e cuidar de uma casa – também me pareciam draconianas e insensatas. Construir um futuro com minhas próprias mãos era meu único sonho substituto.

Como tudo o mais na vida, o tempo se encarregou de cicatrizar as feridas. A sensação boa de ser dona do meu próprio nariz me transformou numa espécie de feminista avant la lettre, ainda que jamais tenha sido panfletária. Me preparei arduamente, através de muita terapia, para nunca mais depender emocional ou financeiramente de ninguém. Com altos e baixos, sobrevivi às duras investidas do patriarcado e da misoginia.

No entanto, o que mais me doeu foi constatar que a autonomia não é geográfica. O patriarcado dispõe de meios muito mais insidiosos de impor suas vontades. Alugar um imóvel, pedir financiamento bancário, negociar diagnóstico e preço com um mecânico de automóveis ou com profissionais para reparos domésticos são apenas alguns exemplos das dificuldades praticamente insuperáveis que uma mulher tem de enfrentar sem a ajuda de um homem. Isso sem falar que sua imagem torna-se automaticamente a de uma libertina perigosa, eternamente pronta a seduzir os homens, expor ao ridículo as mulheres submissas e destruir a paz familiar. A forma como você passa a ser tratada por chefes e subordinados, síndicos e vizinhos e até por familiares só reforça a imagem de inconfiabilidade.

Tristemente, as conquistas femininas de emancipação que me pareciam irreversíveis lá atrás no tempo hoje deixaram de o ser. Nestes tempos bicudos, assistindo apalermada à retomada da discriminação explícita de gênero, às tentativas de proibição do aborto para crianças e adolescentes estupradas e ao aumento exponencial dos casos de feminicídio, além de projetos legislativos para abolir o direito ao voto feminino individual, só posso abençoar minha briga precoce com um pater familias.

O trabalho psicológico de conscientização das mulheres oprimidas está longe de ser completado ainda neste século. Muitas não conseguem se independentizar de seus companheiros sem colocar a própria existência e a de seus filhos em risco e outras não conseguem se livrar da dependência afetiva por terem internalizado uma imagem de insuficiência. A lição que isso nos ensina é a de que, antes de começar a lutar por autonomia, as mulheres precisam ser universalmente educadas desde crianças a aprenderem a se pertencer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Na feira

Feira de Gand (hoje na Bélgica) na Idade Média
by Félix De Vigne (1806-1862)

José Horta Manzano

O Estadão manchetou ontem:


“Na era do delivery, feiras livres resistem e cidade chega a 953 unidades”.


Pra ser sincero, nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido. Encomendar um pé de alface e um quilo de tomates por celular pode ser cômodo, mas nunca se sabe o que vão trazer. Será que vão escolher bem a encomenda? Vão mandar tomates maduros ou “verdulengos”? E a alface, estará viçosa?

Imagine então fazer a compra inteira por telefone. É certeza que metade da encomenda vai chegar fora do esperado. É uma comodidade que pode decepcionar. Acho que as feiras livres hão de resistir por muito tempo.

Minha mãe dizia que, quando ela era criança, não havia feiras em São Paulo. Frutas e legumes se compravam na quitanda ou, melhor ainda, no mercado central. Só que o mercado ficava na “cidade”, como se dizia e, para ir, tinha de tomar o bonde. “Cidade” hoje se diz centro da cidade.

A primeira regulamentação de feiras livres no Brasil foi assinada em 1914 por Washington Luís, então prefeito da capital paulista e futuro presidente da República. Foi a partir daí que a moda se espalhou pelo Brasil.

Feiras, sempre houve. Desde a Antiguidade, os homens estabeleceram pontos de venda e compra de mercadorias diversas. Produtos da terra, tecidos e animais sempre povoaram essas feiras. Na Europa, em burgos, vilas e cidadezinhas, é comum haver feira um só dia por semana, muitas vezes (mas não sempre) aos sábados.

Ao ler a manchete do Estadão, mencionada na entrada deste artigo, fiquei surpreso com o fato de contarem feiras livres por “unidade”. Este blogueiro é do tempo em que não era assim. Contados por unidades eram os ovos, os caminhões no pátio do concessionário, os pastéis no cestinho do pasteleiro. A manchete merecia ser reescrita.

“Na era do delivery, feiras livres resistem e são 953 na cidade”.

Jogadores “estrangeiros”

Crédito imagem: dramafever.com

José Horta Manzano

Se vosmecê observar os jogadores da Inglaterra, da França, da Alemanha, e até da Espanha e de Portugal, vai notar a presença de numerosos pretos, mulatos, turcos e árabes, que não têm a aparência típica dos originários de uma Europa de brancos. Há quem imagine que se trata de esportistas “importados”, trazidos do exterior para serem treinados e naturalizados a fim de engordarem a seleção nacional. Não é bem assim.

Desde os anos 1960-70, com a independência das colônias africanas, a Europa tornou-se terra de imigração. Em vez de exportar contingentes de camponeses pobres, passou a importar ex-colonizados em busca de melhor sorte.

Com isso, a presença, no seio da população, de tipos antes exóticos foi-se tornando cada dia mais comum. Com o passar do tempo, a imensa maioria desses novos imigrantes foi se naturalizando; acabaram tornando-se franceses, espanhóis, alemães. O processo de aquisição da nacionalidade ocorre geralmente a partir do momento em que o interessado chega à maioridade, dependendo do país. Esse movimento de população deu origem a grande número de europeus com dupla nacionalidade: a adquirida por naturalização e a herdada dos pais pela “jus sanguinis”.

Os futebolistas que hoje atuam na seleção inglesa, assim como na francesa, na alemã e nas outras, entram praticamente todos nessa categoria de descendentes de imigrantes. É curioso que essa imigração abriu excelentes possibilidades para os selecionadores dos países de origem dos imigrantes.

Já faz alguns anos que Argélia, Marrocos e países da África Negra enviam “olheiros” à Europa à cata de bons jogadores jovens e com dupla nacionalidade. Após um trabalho de convencimento, evitam que os pupilos joguem partidas internacionais com o uniforne de um país europeu, levam os jovens para o país de origem e os retêm com a perspectiva de virem a entrar para a seleção.

Um exemplo inacreditável vem agora. Vosmecê sabia que, dos 26 selecionados do Marrocos, apenas sete nasceram lá? Pois é, nada menos que dezenove nasceram no estrangeiro. Não tiveram de se naturalizar marroquinos, pois já o eram. Dos 19 jogadores, 6 nasceram na França, 6 na Espanha, 3 na Bélgica, 3 na Holanda e até um no Canadá, o goleiro(*). Assim, de cada 4 jogadores da seleção marroquina, três nasceram fora do país.

(*) Uma curiosidade quanto a Yassine Bounou, o goleiro do Marrocos. Considerando todas as Copas organizadas até hoje, ele é o único jogador a ter atuado duas vezes, em diferentes edições da Copa, contra seu país de nascença. De fato, em 2022 e em 2026, ele esteve no gol marroquino num jogo contra o Canadá. O Marrocos venceu ambos.

O prepotente e o capacho

José Horta Manzano

Interferência do poder público no esporte, sempre houve. Desde o prefeito que “compra” o árbitro com o dinheiro da prefeitura, até o presidente do país que, discretamente, avisa que não aceitará nenhum outro vencedor do campeonato nacional que não seja o time para o qual ele torce.

Às vezes dá certo, às vezes não. O problema é a extrema dificuldade de se denunciarem fatos assim com base em provas irrefutáveis. Essas interferências costumam tomar dois caminhos: ameaça ou “compra” (corrupção).

Já quando se trata de Copa do Mundo, fica mais complicado. Dada a visibilidade desse evento, qualquer interferência fica escancarada, Embora tenha acontecido no passado, a última vez foi há quase meio século.

Não se tem notícias de que Hitler tenha tentado meter o bedelho nas copas de 1934 e 1938, mas sabe-se que Mussolini interferiu. Principalmente na Copa de 1934, sediada pela Itália, há forte suspeita de intervenção do “Duce”, embora a história não tenha guardado prova. Coincidência ou não, a Itália venceu aquela edição.

Foi em 1978, na Copa da Argentina, que a mão pesada da ditadura ficou mais evidente. Se não serve de prova, pelo menos é forte indício. O pecado, desta feita, foi a corrupção, com dinheiro grosso rolando por baixo da mesa. A uma certa altura, a Argentina precisava vencer o Peru por uma diferença de pelo menos quatro gols a fim de deixar o Brasil para trás e chegar à final.

No torneio, até então, a defesa peruana havia se mostrado forte. Pois justamente no jogo contra a Argentina abriram o bico e concederam vitória aos albicelestes pelo inacreditável placar de 6 a 0. Com isso, a Argentina foi à final e, derrotando os holandeses, sagrou-se campeã do mundo.

Prova, não há. Mas há forte suspeita de corrupção. Depois desse episódio, nâo se registraram, em Copas do Mundo, outros eventos dignos de nota. Isso foi até ontem.

Durante o jogo contra a Bósnia, um atacante dos EUA deu um pisão pra valer no pé de um adversário. Depois de consultar o VAR, o árbitro deu cartão vermelho ao agressor, o que significa suspensão para o próximo jogo. Uns gostaram da expulsão, outros não, mas ficou por isso mesmo.

Alertado para o fato de o melhor atacante americano estar suspenso para o próximo jogo, Donald Trump não hesitou: ligou para seu amigo Gianni Infantino, presidente da FIFA, e exigiu anulação do cartão vermelho. Em ato de submissão desbragada, Infantino acedeu ao pedido de Trump: o cartão foi anulado, e o atacante americano poderá jogar a próxima partida.

Inconformados, jornais do mundo inteiro denunciaram o escândalo. Se, no passado, havia suspeita de interferência do poder na Copa, desta vez há denúncias até no ultrassério The New York Times. E Trump ainda se manifestou louvando a FIFA por ter corrigido uma “enorme injustiça”.

É lamentável essa intervenção descarada. Demonstra que, do encontro de um homem prepotente (Trump) com um homem com vocação para capacho (Infantino), não se pode esperar nada de sério. O esporte mundial não ganhou nada com o ocorrido. A credibilidade da FIFA sai do episódio ainda mais arranhada do que de costume.

Infantino, que é candidato à sua própria sucessão na presidência da FIFA, certamente está contando com o apoio de delegações asiáticas e africanas que, contra um punhado de dólares, costumam dar seus votos a ele.

A meu ver, está brincando com fogo. As delegações mais fortes e que mais contribuem para a saúde financeira da FIFA são as europeias, que não hão de apreciar ser participantes de jogo tão abertamente sujo.

Para antes do jogo

Bandeira da Noruega e as bandeiras ocultas

José Horta Manzano

Texto para ser lido imediatamente, antes do jogo deste domingo 5 jul° 2026. Depois, dependendo do resultado, este escrito pode perder o interesse.

Vamos dar uma rápida espiada na elegante bandeira da Noruega. Como a de seus vizinhos escandinavos, ela ostenta a cruz viking inscrita numa feliz combinação de cores: vermelho, branco e azul-marinho.

Muitas bandeiras trazem essas cores, como França, EUA, Reino Unido, Rússia. Mas a da Noruega tem uma particularidade que as outras não têm: ela esconde, como num jogo de paciência, as bandeirinhas de 10 outros Estados.

Apesar da aparência relativamente simples, uma observação mais atenta revelará dez bandeiras nacionais mimetizadas, como naqueles quebra-cabeças que desafiam a «encontrar o coelho».

Há mais casos de bandeiras ocultas dentro de outras. Há que prestar atenção: quem procura, acha. Todavia, uma coisa é certa: nosso lindo pendão da esperança não se aninha dentro de nenhum outro.

Crédito
A descoberta das bandeiras ocultas dentro do pendão norueguês se deve à perspicácia do blogueiro espanhol Diego González.

Umas e outras

José Horta Manzano

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Considerar PCC e CV terroristas pode ajudar a combater lavagem de dinheiro, diz diretor de banco

Não discordo desse senhor. No combate da lavagem de dinheiro, toda ajuda é sempre bem-vinda. Mas continuo achando que o problema não é colar ou deixar de colar, nas organizações criminosas brasileiras, a etiqueta de “terroristas”. Na vida real, a nova etiqueta não muda grande coisa. As organizações criminosas continuam sendo o que sempre foram: um bando de criminosos que se dedicam a lucrar bilhões, por meio de ilegalidades e ilícitos, sempre à custa do honesto cidadão.

Quanto aos castigos e punições que possam vir de Washington, elas têm vindo de qualquer maneira. Nosso país foi punido com taxas de importação exorbitantes. Um magistrado do STF, mesmo sem ter sido acusado de “terrorismo”, foi castigado com os rigores da Lei Magnitsky. Portanto, entende-se que a arbitrariedade e a brutalidade da administração americana cai como raio da morte (ou da vingança) sobre a cabeça que quem lhes aprouver, sem necessidade de a vítima ser terrorista.

Cuidar dos próprios bandidos é função de cada país civilizado. Não vamos nos enganar: um Brasil civilizado ainda é esperança, não realidade. Assim mesmo, cabe ao Estado brasileiro combater suas próprias mazelas. Em caso de necessidade, autoridades estrangeiras podem sem solicitadas por Brasília para dar uma mão. O que não está correto é que estrangeiros tomem a iniciativa de combater nossos criminosos, deixando autoridades brasileiras em curto-circuito. Mal comparando, seria como se a polícia italiana tivesse vindo ao Brasil raptar Cesare Battisti, fugitivo do sistema judiciário peninsular. Não tem cabimento.

Nosso grande problema é que há forte intimidade entre os que detêm o poder e os que detêm as Kalashnikov. Os dois campos se esfregam na calada, o que dificulta ou impede ações policiais.

 

O Globo, 2 jul°
Messi cai na gargalhada ao passar por revista de segurança em aeroporto

A toda a hora surge um exemplo de que não somos todos iguais, mas que uns são bem mais iguais que outros.

Agora experimente vosmecê fazer como Messi da próxima vez que passar pela alfândega americana. Solte uma gargalhada na cara do guarda. Vai passar algumas semanas nas masmorras americanas. Dependendo do caso e do humor dos que mandam, ainda será julgado e condenado.

 

O Globo, 2 jul°
Como escolher a escola do seu filho sem cair em armadilhas

Como é que é? Cair em armadilhas? No meu tempo, não se imaginava que escola pudesse ter “armadilhas”. Isso era pra apanhar rato.

 

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Único ex-presidente da Assembleia do RJ que não foi preso neste século costura retorno em 2027

Este último cabeçalho serve para alimentar aquela lenda de “Brasil civilizado”.