Nossas eleições e a ingerência russa

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

‒ Então, Sigismeno, quanto tempo sem conversar, hein!

‒ É verdade, andei meio sumido. Coisas da vida. Como é que vai você?

‒ Vai-se levando, Sigismeno. Vosmicê?

‒ Sempre indignado, caro amigo, sempre indignado. É a maneira que encontrei de me sentir jovem. Imagine que o ano de 1968, que marcou o Brasil e o mundo, completa o 50° aniversário. E poucos se lembram, pouco se fala daquele período. É uma pena. Quem esquece o passado está condenado a revivê-lo.

‒ Tem razão, é importante reter as lições do passado. É justamente isso que anda me preocupando.

‒ Em que sentido?

‒ Tem-se falado muito na ingerência russa nas mais recentes eleições americanas e no plebiscito que o Reino Unido organizou para decidir se ficavam ou se saíam da Europa. Sem falar na consulta selvagem que o governo provincial catalão convocou em outubro. Há quem garanta que a influência de Moscou distorceu o resultado de todas essas votações. Você se interessou pelo problema, Sigismeno?

‒ Claro, eu me interessei como todo o mundo. E acredito que uma pressão insistente e bem organizada exercida por meio de redes sociais pode, sim, perverter o voto. Principalmente quando a disputa é acirrada, com o colégio eleitoral dividido praticamente ao meio. Mas por que é que você anda preocupado com isso? Esses votos já ocorreram.

‒ É que este ano é nossa vez. Em outubro, teremos eleições para vários cargos, entre eles o mais importante: o de presidente da República. Se os russos influíram lá, podem perfeitamente fazer o mesmo aqui.

‒ Concordo com você. Poder, podem. Precisa ainda querer. Precisa «combinar com os russos» ‒ com o perdão de sucumbir ao trocadilho.

‒ Ora, Sigismeno, com um Lula candidato (ou um poste dele, que é a mesma coisa) não precisa nem combinar. Assim como agiram para apoiar o Trump, um candidato que lhes parecia mais interessante, podem perfeitamente apoiar um Lula.

‒ O Lula? E por que razão, criatura de Deus? Que interesse teriam os russos em facilitar a vitória do demiurgo?

‒ Ora, Sigismeno, me parece claro. O Trump é meio bobão, pouco interessado em política internacional, isolacionista. Em suma, tem todas as qualidades para agradar ao regime de Moscou. O Lula também é meio bobão. E venal. A mim, parece óbvio que a vitória do baixinho raivoso interessa aos russos.

‒ Pois eu não estou de acordo com você.

‒ E por que não, Sigismeno?

‒ Você há de se lembrar daquele episódio grotesco em que um (então) presidente Lula, mal aconselhado pelo assessor especial para assuntos internacionais, tentou interferir no caldeirão do Oriente Médio. Não se lembra?

‒ Lembro, sim, Sigismeno. Eles procuraram a cumplicidade do semiditador da Turquia e entraram no picadeiro como elefantes em loja de porcelana. Mas foi um fiasco total. Levaram puxão de orelhas de todo o mundo, até do governo de Israel. Acabaram desagradando a todos.

‒ Especialmente à Russia! Das grandes potências, o país de Putin é ‒ de longe ‒ o que maior influência exerce sobre aquela parte do mundo. Influência, aliás, que só faz aumentar com a retirada de Washington da cena internacional. Se a guerra terminou na Síria e se os djihadistas foram derrotados, foi em decorrência da intervenção russa.

‒ E o que é que isso tem a ver com eventual ingerência russa nas eleições brasileiras, Sigismeno?

‒ Ora, é simples. A última coisa que Moscou deseja é que sua hegemonia na região seja contestada. O Lula já mostrou que é capaz de tentar «resolver» sozinho o emaranhado do Oriente Médio, por obra e graça do Espírito Santo, com dois ou três discursos de efeito. Logo ele, o especialista em dividir as gentes entre «nós & eles», veja você a ironia. O fato é que se mostrou suficientemente ingênuo para fazer cócegas nos russos. Russo não brinca em serviço. O Oriente Médio tornou-se o quintal da casa deles. Não querem saber de interferência de ninguém, nem dos EUA, nem do Brasil, nem do Zimbábue.

‒ Então você não acredita que eles possam intervir nas nossas eleições a favor do Lula?

‒ Não, seria incoerente. Se o fizessem, estariam marcando desastroso gol contra. Se ingerência da Rússia houver, caro amigo, não será em favor do messias de Garanhuns. Será, ao contrário, em apoio ao candidato que estiver em melhores condições de derrotá-lo.

‒ É, Sigismeno, o que você diz faz sentido. Ninguém vai ajudar alguém que lhe pode atrapalhar a existência amanhã.

O day after

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 13 agosto 2016

Faz mais de trezentos anos que Isaac Newton estendeu monumental tapete vermelho para o desenvolvimento da Física moderna. Por praticidade, o título quilométrico de sua obra foi encurtado. Basta mencionar os Principia e todos saberão que se fala do genial britânico. A terceira lei de Newton reza que «actioni contrariam semper & æqualem esse reactionem» ‒ a toda ação corresponde igual reação em sentido contrário. Além de valer para a Física, o princípio se aplica também à vida real.

Nações atravessam períodos de crise, aqueles em que se sente o sacolejo e se percebe que a nave está para soçobrar. Se o barco não afundar de vez, é certeza que, mais dia menos dia, a lei newtoniana se aplicará. O pós-crise será um combate às causas que, no imaginário das gentes, tiverem engendrado o sufoco. Só que tem uma coisa: paixões humanas nem sempre se encaixam no rigor científico ‒ guardam certa propensão ao exagero. Reações podem ser desproporcionadas, mais intensas que as forças que as geraram. Chegam-se a tomar canhões para exterminar pardais. A história registra bom número de crises que desembocaram em solução despropositada. Contrária, sim, porém mais vigorosa do que seria razoável. Há casos em que reação extremada traz resultados positivos. Mas não é garantido.

Sir Isaac Newton

Sir Isaac Newton

O ataque com que tropas japonesas surpreenderam uma desprevenida marinha de guerra americana em Pearl Harbor nocauteou os EUA. Naquele dezembro de 1941, momento grave de estupor, vergonha e cólera, quis o destino que administradores competentes e bem-intencionados estivessem no comando do país. A reação, forte e coordenada, os levou a derrubar o inimigo e a ganhar a guerra.

A humilhação sofrida pela Alemanha na Primeira Guerra e as indenizações que foi obrigada a pagar estrangularam-lhe a economia e ladrilharam a via para um salvador da pátria, um arrivista que prometesse desforra, glória e vida melhor para todos. No terreno fértil, brotou um ditador abilolado. Na esperança de lavar a honra ofendida, todos obedeceram a seu mando desvairado. No embalo da louvação, o mandachuva chegou a imaginar-se senhor do universo e… exagerou. Deu no desastre que conhecemos.

A revolução iraniana de 1979, que visava a coibir excessos da era do xá, abusou da lei de Newton e virou o país de ponta-cabeça. Os aiatolás foram tão incisivos e tão visceralmente opostos ao regime anterior que o mundo, alarmado, botou a velha Pérsia de molho, à margem da sociedade civilizada.

Aiatolá 1O Brasil atravessa momento histórico peculiar. Nos últimos dois anos, acontecimentos pouco ortodoxos se sucedem num crescendo infernal. Não se passam dois dias sem que novo escândalo venha nos embasbacar. Verbos empoeirados por falta de uso e adjetivos antes escassos tornaram-se triviais. O susto, o assombro, o estarrecimento, o espanto, a comoção tornaram-se feijão com arroz.

Desde o tempo das cavernas, a sabedoria popular entendeu que não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Como numa grande ópera verdiana, o deprimente espetáculo que nos é dado presenciar vai terminar por falta de personagens. Não está longe o dia em que o último acusado será devidamente apanhado e julgado. E aí, como é que fica? Que virá depois?

by Freydoon Rassouli (1943-), artista iraniano

by Freydoon Rassouli (1943-), artista iraniano

A reação virá intensa como preconiza a lei de Newton ‒ isso é certeza. Sob que forma? Ora, num país onde até o passado pode mudar, impossível será vaticinar com precisão. O nojo que os atentados à coisa pública estão instilando nos cidadãos honestos há de nos predispor a varrer tudo e todos os que se tiverem beneficiado com o descalabro. É aí que mora o perigo. O risco grande é ver surgir novo ser providencial, um caçador de marajás 2.0, uma alma pura e honesta em versão repaginada, um novo Antônio Conselheiro ao qual, em desespero, muitos perigam se abraçar. Hoje em dia, basta ter prontuário virgem para ser considerado apto a representar cidadãos e a dirigir o país.

De olho nas próximas eleições presidenciais, já aparecem as primeiras sondagens. Parece-me cedo demais pra nisso, que ainda tem muita poeira pelo caminho. Aposto que o próximo presidente da República será alguém que nunca se candidatou antes, elemento novo que encarne a esperança de que corrupção e roubalheira, ainda que não desapareçam de todo, voltem a níveis «comportados» e não tornem a precipitar o país na ribanceira. É tudo o que esperamos da lei de Newton.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

Interligne 18c

Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

Interligne 18c

(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.

O vinho da viúva

José Horta Manzano

Diga nosso antigo presidente (e eterno messias) o que quiser, a verdade é que a elite (ou zelite, como ele prefere) é composta por todos os que moram no andar de cima. O corolário é que todos os que moram no andar de cima compõem a zelite, quer admitam, quer não. Portanto, ele também, assim como seus companheiros, integram atualmente aquela confraria. Há os que entram pela porta principal, por sua erudição ou por algum outro mérito mais nobre. Há os que entram pela porta dos fundos, por meios menos sublimes.

Veuve Clicquot Ponsardin Millésime 2004

Veuve Clicquot Ponsardin
Millésime 2004

Como definir o andar de cima? É o nome genérico que se costuma dar aos que mandam, aos que detêm poder sobre os demais. Ali vivem políticos importantes, gente muito rica, grandes empresários, componentes do Congresso e do STF, mandachuvas de grandes autarquias, de estatais e de paraestatais. Até alguns prefeitos passam a morar no andar de cima, com a condição de estarem à frente de município importante. Quanto ao prefeito de São Nicodemo do Brejo, sinto decepcioná-lo, ainda vive no porão.

Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é bobo ou não tem arte. Leis, normas, regulamentos, decretos são editados pelos de cima. São eles os que tomam as decisões que afetam a vida de todos os habitantes do País. Subterfúgios e chicanas também são fabricados pelas mesmas zelites. Nunca se sabe, podem até servir.

Caviar

Caviar

Pelas informações que tenho colhido na imprensa, a Ação Penal 470, a do mensalão, é novela com muitos capítulos por vir. Faz sentido. Desde sempre, as leis ― e suas modalidades de aplicação ― foram costuradas pela zelite. Como qualquer um pode facilmente compreender, o legislador sempre cuidou de deixar, para seu uso eventual, válvulas de segurança, brechas de escape, vias de contorno. Detenção em cela especial e direito a foro especial estão entre os privilégios que a zelite reservou para si. O ladrão de galinhas não tem chance nenhuma de usufruir esses direitos.

De um determinado patamar social para cima, não é tanto a gravidade do crime que conta, mas o degrau em que se encontra o criminoso. Li outro dia que um pobre bugre havia sido «esquecido» na prisão. A anomalia só foi descoberta vários anos depois de o infeliz haver purgado sua pena. Fato inimaginável para um condenado provindo da zelite.

Veuve Clicquot La grande dame

Veuve Clicquot
La grande dame

Colunistas e comentaristas da imprensa começam a vaticinar que o mensalão vai acabar em pizza. Que as chicanas interpostas por advogados ― amiúde remunerados com dinheiro que um dia foi nosso ― vão conseguir protelar a decisão final até que alguns crimes prescrevam, o que livrará todos os condenados da prisão fechada.

Pizza? Isso é comida de pobre. Pizza e cachorro-quente, que combinam com cachaça e tubaína, podem até cair bem em banquetes do populacho. Os agapes de nossa zelite merecem mais. Essa novela vai terminar em caviar do Mar Cáspio. Regado a Veuve Clicquot Ponsardin, millésime 2004 ― uma das safras de champã mais disputadas do mercado.

Como é bom fazer festa com dinheiro alheio, não?

Conduta estabanada

José Horta Manzano

Depois de um messias rastaquera e deslumbrado, veio uma presidente grosseira e colérica. O Brasil está bem arrumado. Ô carma pesado este nosso!

Dilma e o ET by Zé Dassilva

Dilma e o ET
by Zé Dassilva

Dilma perturbada by J. Bosco

Dilma perturbada
by J. Bosco

Dona Dilma pode até ter alguma qualidade ― confesso que ainda não me dei conta. Por outro lado, sem dúvida, tem defeitos aos borbotões. Todos visíveis, uns mais, outros menos. As repetidas demonstrações de fúria que ela nos tem dado estes últimos dias estão ultrapassando os limites da conveniência. Já não é mais questão de salvar a honra nacional, mas de vingar-se de uma afronta pessoal de que a mandatária considera ter sido vítima.

Tempos atrás, um irresponsável chamado Assange andou espalhando segredos diplomáticos aos quatro ventos. Até hoje não se sabe direito qual era sua intenção. Terá tido seus 15 minutos de glória, mas o maior prejudicado foi ele mesmo. Enquanto o mundo continuou a girar, nosso dom quixote sobrevive confinado em prisão domiciliar num cubículo da embaixada do Equador em Londres. E tudo indica que lá permanecerá por anos. Inglês não costuma largar a presa tão fácil assim.

Dilma enfezada

Dilma enfezada

Pois bem, naquela época, embora o Brasil aparecesse entre os países alvejados pelo vazamento, nossa reação oficial foi inaudível. A presidente, não se sentindo envolvida pessoalmente, deu pouca importância aos acontecimentos. Aliás, nesse ponto, acompanhou a tendência global. Nenhum governo se encarniçou com o assunto.

Já agora, a coisa mudou de figura. Anunciou-se que a própria presidente teria sido monitorada por uma potência estrangeira. Para dona Dilma, acima da honra nacional, parece estar o orgulho pessoal. Tem reagido de modo estabanado e pueril. A atual inquilina do Alvorada faz lembrar aquela criança mimada que, zangada, atira o brinquedo ao chão, pouco ligando para as consequências. Se quebrar, papai compra outro.

Antes de tomar alguma atitude ríspida e capaz de desagradar alguém, é sempre bom medir as consequências e avaliar os desdobramentos. Em interessante artigo, o Estadão nos informa que, num acesso de ira, dona Dilma atirou o brinquedo ao chão: suspendeu os preparativos para a viagem aos EUA prevista para o mês que vem. Vamos torcer para que o brinquedo não esteja irremediavelmente espatifado.

Dilma e Obama by Sponholz

Dilma e Obama
by Sponholz

Outro artigo do mesmo Estadão conta que o embaixador americano em Brasília está sendo removido, após 3 anos de serviço. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Segundo a autora deste segundo artigo, em vista da peleja que já dura mais de 10 anos contra os ideólogos antiamericanos que dominam a intelligentsia do Planalto, o governo americano preferiu fazer uso mais adequado de seus bons diplomatas. Shannon, que estava no Brasil, vai para a Turquia, país mais estratégico ao olhos de Washington. Brasília deverá contentar-se com a embaixadora que atualmente representa os interesses americanos no Paraguai.

Esse, sim, é sinal bem mais inquietante para nosso País. Nosso segundo maior parceiro comercial já nos enxerga como país políticamente menos interessante que a Turquia. Se dona Dilma continuar a fazer beicinho, pode azedar de vez as relações. E quem é que vai sair perdendo? É urgente dizer a ela que o Brasil precisa mais dos EUA do que eles de nós.

Dilma de maus bofes

Dilma de maus bofes

Não faz sentido tratar Argentina, Bolívia, Venezuela a pão de ló e os EUA a pontapé. É inacreditável a relutância que esses ideólogos do Planalto têm em aceitar que a guerra fria terminou 25 anos atrás e que o mundo mudou muito. Continuam com os pés cimentados nos anos 60.

As oportunidades políticas e econômicas que essa visão obtusa nos tem feito perder não voltarão mais. O trem da História não passa duas vezes.

Autolouvação

José Horta Manzano

Muita gente acredita que certos lugares têm poderes mágicos. Há centenas de relatos de curas milagrosas na gruta de Lourdes. Nos anos 70, alguns visitaram Katmandu e lá encontraram a iluminação. No Brasil, temos pelo menos um desses sítios onde acontecimentos extraordinários têm lugar. Fica bem perto da cidade de São Paulo, exatamente no campus da Universidade Federal do ABC. Estes dias, de 15 a 18 de julho, está-se realizando lá um seminário sobre a política externa brasileira dos últimos 10 anos. Os palestrantes são todos gente fina: Celso Amorim, Antonio Patriota, o inefável Aurélio Garcia e ― last but not least ― o Lula, nosso messias em pessoa. Considerando os palestrantes, a reunião periga ser um mero aborrecido exercício de autolouvação.

A Folha de São Paulo já reportou o desempenho de Patriota, o atual ministro das Relações Exteriores e de Amorim, seu predecessor no cargo ― exatamente aquele que empurrou o ingênuo presidente de então nos braços de dirigentes estrangeiros de nebulosa reputação.

Patriota falou logo na noite de segunda-feira. Previsivelmente, cobriu de pétalas de rosas a política exterior de seu predecessor. Num contorcionismo verbal, disse acreditar que a aproximação do Brasil com países de duvidosa respeitabilidade foi um passo importante. Afinal, dez anos de esforço valeram a pena: o Planalto conseguiu fazer que um cidadão brasileiro fosse designado diretor da OMC ― Organização Mundial do Comércio! Tout ça pour ça?, diriam os franceses, todo esse esforço para um resultado tão magrinho?

O Ministério das Relações Exteriores tem por função precípua fazer política de Estado. Entre todos os ministérios, deveria ser o mais descolado do governo de turno, o menos vinculado a políticas públicas. Está lá, em princípio, para defender os interesses nacionais do Brasil, não as conveniências do inquilino que ocupa temporariamente o Palácio do Planalto.

Ao final do pronunciamento, jornalistas provocaram o senhor Patriota sobre esse tema. Ele saiu-se pela tangente, dizendo que estava ali representando o Estado brasileiro. Deu como prova o fato de «não ter mencionado em momento algum o nome de um partido político» . Só faltava.

O ministro deve ter voltado para casa com um gosto agridoce na boca.

Dilma Rousseff e Evo Morales

Dilma Rousseff e Evo Morales, by R. Stuckert F°

Na noite seguinte, foi a vez do senhor Amorim, fiel ministro de Relações Exteriores durante 8 anos, no tempo do Lula. Foi aí que a magia do lugar começou a agir. Num lampejo de inesperada sinceridade e de inconcebível candura, o ex-chanceler contou coisas do arco da velha, daquelas que a gente tem dificuldade em acreditar.

Contou que, dois anos atrás, visitou a Bolívia a bordo de um avião militar brasileiro. Surpreendentemente, revelou que o aparelho da FAB tinha sido vasculhado a mando das autoridades locais. Disse também que sua autorização não tinha sido solicitada. Disse ainda ― pasmem! ― que ninguém se preocupou em pô-lo a par do acontecido.

Em outros tempos, isso seria um casus belli. Uma afronta dessa magnitude à honra nacional não poderia ser lavada senão com uma declaração de guerra.

Hoje em dia, ironicamente o Brasil se junta ao coro dos hispano-americanos para protestar contra o desaforo que europeus fizeram à Bolívia ao revistarem o avião de Evo.

Ainda bem que o senhor Patriota garantiu que o Itamaraty não desviou de sua rota e continua fazendo política de Estado. Portanto, insinuar que temos engolido essas cobras e lagartos para alinhar a política externa do Brasil com a linha ideológica do partido de governo é ato de má-fé.

Seria petulante de minha parte pensar o contrário.

Obs:
Nova indiscrição nos revela que os aviões da FAB revistados pelos bolivianos foram três. Veja aqui.

Na corda bamba

José Horta Manzano

Saiu a notícia. Temos agora a prova de que dona Dilma realmente ouviu o clamor popular. Vem aí a reforma ministerial, o grande trunfo que ela guardava na manga!

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

É, mas vem tímida essa reforma. Do obeso corpo de 39 ministros que a cerca, a presidente anunciou que um ― um só! ― será substituído. Trata-se da titular da pasta de Relações Institucionais, dona Ideli.

Cada cabeça, uma sentença. No lugar da presidente, eu aproveitaria a atual onda de reclamos para fazer uma reforma ministerial cirúrgica e radical. Despacharia todos e recomeçaria do zero. Mostraria ao povo que não só ouvi os protestos, mas que os escutei. Mas a presidente é ela, não eu. Melhor assim.

Ao tomar decisões sempre acanhadas, dona Dilma age como se estivesse recuando o tempo todo. Não emite um bom sinal. Nem ao povo, nem a ninguém. A mandatária fortona e inflexível vai aos poucos desvelando sua fragilidade. A meu ver, a presidente incorre em quatro erros básicos.

O primeiro é que esse tipo de anúncio não se deve fazer com antecedência. Essas coisas têm de ser zás-trás, catapum, nada de aviso prévio! Demite-se o inquilino antigo, apresenta-se imediatamente o novo locatário, e vira-se a página. Do jeito que está sendo feito, o efeito de surpresa está irremediavelmente diluído.

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

O segundo erro é a presidente «dar uma de marrudinha», principalmente no difícil momento que atravessa. Fez questão de proclamar que não dispensará a ministra enquanto os aliados a estiverem pressionando. Quis dizer: «Faço o que quero, quando quero, como quero. Ninguém manda em mim». Só faltou fazer biquinho.

O terceiro é que a troca de ministros, de tão tímida, não terá o menor impacto no povo insatisfeito. Se a maioria conhece a função de um ministro da Educação ou do titular da Saúde, poucos sabem para que serve a ministra de Relações Institucionais. O nome é pomposo, mas o efeito que essa exoneração terá sobre a opinião pública será próximo de zero

O quarto erro é que dona Dilma dá mostras de continuar em cima do muro, equilibrando-se numa corda bamba. Dá uma no cravo, outra na ferradura. Hoje tenta agradar uma ala do partido A. Amanhã, uma facção do partido B. No dia seguinte, um grupo de congressistas reclamões. O risco é de desagradar a maioria dos cortesãos, cujo apetite por sinecuras é pantagruélico. E, nessa roda-viva, os eleitores e seus rogos vão sendo deixados para trás. Que se contentem com quimeras, como o bizarro plebiscito.

É pena que a presidente não consiga se liberar das amarras que a prendem às intrigas palacianas, a correligionários, a messias, a gurus e a congressistas cooptados e mal-acostumados. É de lastimar que continue dando a impressão de governar unicamente para os do andar de cima.

Equilíbrio na corda bamba

Equilíbrio na corda bamba

Os modernos meios de comunicação mudaram, a população que nasceu com internet está chegando à idade adulta. A presidente dá sinais de estar confusa, perdida, atirando para todos os lados, na ânsia de conciliar o inconciliável.

Astuto, o presidente anterior tem feito o que pode para manter-se longe dos holofotes. Ele, que bobo não é, não gostaria de ver seu nome associado ao nebuloso momento atual.

Mas deixe estar. A cada dia que passa, nossa terra está mais próxima de se tornar um país normal. Com ou sem Dilma, com ou sem o Lula, com ou sem Renan, Sarney, Collor, Maluf, Demóstenes, Dirceu & companhia.

Dilma e a girafa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 julho 2013

Faz vários anos, tive um funcionário, gente fina, pau pra toda obra. Às vezes eu tinha de confiar-lhe alguma tarefa mais ingrata, mais maçante. Com tato, eu pedia: «Então, Jorge, você não se importa de fazer isto?». E a resposta vinha, certeira: «Oh, imagine! Fazer isso ou pintar a girafa é a mesma coisa, tanto faz».

Até hoje estou sem saber que diabo era aquela história de pintar a girafa. Mas a mensagem era clara: ao velho Jorge, pago para trabalhar, pouco importava qual fosse a tarefa. Se era para fazer, arregaçava as mangas e fazia. Lembrei-me dele estes dias.

Girafa

Girafa

Dois anos e meio atrás, os brasileiros elegeram uma presidente para sua República. Iludidos ou conscientes, bem ou mal informados, ricos ou pobres, poderosos ou dominados, pouco importa a razão da escolha. Dilma foi ungida pelas urnas. Foi ela, mas, tivesse sido outra pessoa, no fundo, tanto faz. Os tempos absolutistas em que um único medalhão mandava e desmandava sozinho já sumiram na névoa do passado, junto com a guilhotina e a caixinha de rapé. A presidente que temos é essa, e com essa ficaremos. Mesmo poderoso, um presidente não é dono do País nem governa sozinho. Felizmente.

Pensando bem, mais vale ter no topo da República uma personagem menos brilhante, pouco exuberante, nada carismática. Se não é a melhor figura política que o Brasil já conheceu, a presidente atual tampouco é a pior. Tem suas carências, mas quem não as tem? Falta-lhe jogo de cintura, é verdade. Ainda assim, mais vale a rigidez de uma Dilma ― ainda que tisnada de rudeza e de rispidez ― que a exagerada plasticidade de seu antecessor, dono de uma indulgência que frisava a leniência e que abria caminho para toda sorte de desvios e «malfeitos».

Já vai para quase um mês que a sociedade brasileira está em efervescência. O que querem os manifestantes? O que dizem as ruas? Como deve o governo lidar com essa cena não prevista no roteiro original? Dizem que ninguém sabe ao certo por que os manifestantes manifestam. Não sejamos hipócritas. Sabemos bem o que querem. Querem o que queremos todos. Exatamente aquilo que está escrito bem no meio da bandeira verde-amarela: ordem e progresso.

Queremos um país em que os representantes do povo exerçam seu papel com seriedade. Queremos que a bandalheira deixe de ser a regra e volte a ser exceção. Queremos que malfeitores sejam punidos. Queremos que condenados cumpram suas penas. Queremos que enfermos sejam atendidos com dignidade. Não queremos ser república de bananas nem fazer parte do sinistro clube de países autoritários, sanguinários, populistas, irrelevantes. Queremos ordem. Uma vez instalada, o progresso fluirá naturalmente.

Não precisamos de plebiscitos para nos distrair. Nosso país reclama um gesto forte e imediato, um sinal claro que indique uma guinada real na governança. Nosso regime não permite à presidente destituir parlamentares. Mas ela pode, sim, demitir ministros. A nomeação (e a exoneração) de auxiliares diretos é prerrogativa pessoal da mandatária.

Sabem todos que Dilma Rousseff não faz parte do clube dos corruptos. Aliás, sua popularidade foi às alturas quando, de uma vassourada, mandou meia dúzia de ministros plantar batata.

Dilma Rousseff por Lezio Jr.

Dilma Rousseff
por Lezio Jr.

Para grandes males, grandes remédios. Se ela quiser resgatar sua imagem ― que se esfarela dia após dia ― só lhe resta um caminho: exigir que todos os titulares de seu inchado corpo ministerial apresentem sua demissão. Todos, sem exceção. Ninguém poderá dizer que foi demitido, as aparências serão salvas e estará feita a tábula rasa. O sinal enviado à nação será tremendo. Todos entenderão que, por fim, a presidente realmente ouviu a voz das ruas e está disposta a recomeçar com o pé direito.

Para seguir a lógica até o fim, Dilma deverá escolher os novos titulares não mais por afiliação partidária ou por apadrinhamento, mas pela competência. Pisará o pé de muita gente, mas, é certeza, mostrará sua coragem vencerá a parada.

E o Congresso? E a base aliada? Vão todos desertar? Ora, que bobagem. A grande massa de nossos representantes funciona na base da cooptação e de seu corolário, o medo. O pavor de não serem reeleitos é maior que qualquer ideologia. Todos se bandearão para o lado vencedor. Qual dos representantes ousará contestar a audácia da presidente?

Em vez de pintar a girafa ou de planejar plebiscitos, dona Dilma deveria assumir com firmeza as rédeas do governo. Pulso, intrepidez e energia não lhe faltam. Que diga adeus a gurus, marqueteiros e messias. Seguindo essa via sem tergiversar, apaziguará as ruas e garantirá sua reeleição.

.

Acabou a copinha

José Horta Manzano

Pois é, a seleção brasileira de futebol levantou a copinha! Foi um triunfo saboroso justamente porque não era esperado. Até o mês passado, nosso País estava em 22° lugar na classificação da Fifa. Até a Suíça estava (bem) à frente.

Ok, vocês me dirão que não se pode botar muita fé no que vem da Fifa. Uma instituição que lida com rios de dinheiro torna-se, paradoxalmente, vulnerável. É, por conseguinte, susceptível a sucumbir a certas distorções.

Seja como for, todos convirão que ninguém esperava que o Brasil chegasse à final. Muito menos que vencesse o jogo. Um jornalista chegou a escrever que a seleção nacional era o azarão da copinha. Daí a (grata) surpresa com o resultado final, incontestável.

Copa das Confederações

Copa das Confederações

O povo compareceu em massa, num Maracanã festivo e tingido de amarelo. Ninguém estranhou muito a ausência de dona Dilma na cerimônia de encerramento do torneio. A vaia monumental não era uma probabilidade, mas uma certeza absoluta. Acho que ela fez bem em não ir ― dos males, o menor.

Já uma coisa me intrigou: a ausência de nosso messias, homem sabidamente chegado às coisas do futebol. Logo ele, que trabalhou tanto pela conquista do direito de sediar a copinha e a copona. Logo ele, homem notoriamente venerado e aclamado pelo povo entusiasta. Logo ele, sempre preocupado em preservar a esplêndida herança que deixou ao País. Logo ele, arroz de festa de todos os momentos de glória nacional. Logo ele, que, sólido e altruísta, jamais abandonou nenhum companheiro nem pulou do barco nas horas difíceis.

Dizem que estava na África. O compromisso na Etiópia ― país que constitui, como sabemos todos, pedra angular na pauta de relações exteriores do Brasil ― era, de certeza, mais importante do que trivialidades futebolisticas.

Sejam louvados o desapego e a abnegação de nosso intrépido e visionário estadista. Muitos anos se passarão antes que apareça no Brasil um outro com as mesmas qualidades.

Interligne 37i

Hino
Hoje é dia de ouvir o Hino Nacional. E de pé, faz favor! Se você mora no Brasil ― e é madrugador ― procure sintonizar a Rádio Cultura FM de São Paulo. Para hoje, não dá mais. Mas diariamente, pouco antes das 6h da manhã, vai ao ar uma excelente versão do hino, com banda e coro. Para quem aprecia, é um deleite.

Interligne 37c

Desrespeito
Por imposição da Fifa ― sempre ela! ―, a execução dos hinos nacionais não pode exceder um minuto e meio. Para a maioria deles, não há problema. São curtos e cabem perfeitamente no tempo fixado. É o caso da Alemanha, dos EUA, da França, da Itália, do Reino Unido.

Nosso belo cântico oficial, saído direto de um teatro de ópera de Rossini, como já li em algum lugar, não se ajusta ao figurino estabelecido. Um pouco mais longo, vai além de dois minutos. A Fifa não hesitou: amputou-lhe um naco.

Em pelo menos duas ocasiões durante essa copinha, a multidão presente no estádio passou por cima da injunção dos cartolas. Continuou cantando o hino a cappella até o fim da primeira parte. Fato nunca visto antes, foi ressaltado até pelo comentarista da televisão suíça.

Que se aceitem certas exigências da federação internacional de futebol, é inevitável. Mas não se pode admitir que o hino ― um dos símbolos da nação, segundo nossa Constituição ― seja executado pela metade e em andamento mais rápido que a norma. E há mais: que isso ocorra em território nacional com a complacência das autoridades e na presença de pelo menos um ministro da República. Por ironia, justamente aquele que apresentou, faz anos, um projeto de lei ultranacionalista visando a blindar a língua falada no Brasil contra influências estrangeiras.

Como o mundo dá voltas!

 

Que reformas?

José Horta Manzano

O País está convulsionado. O governo, acuado. Correr feito barata tonta é expressão desgastada pelo uso constante, mas ainda é a que melhor espelha a situação atual.

Correm os manifestantes sem saber exatamente o que querem. Estão contra tudo isso que está aí. Mas isso que está aí é o quê?

Reivindicação

Reivindicação

Correm os governantes sem saber exatamente para onde ir. Querem estancar a agitação popular. Mas qual é o caminho?

Messias e marqueteiros são consultados. A doutora Dilma apresenta, com ar compenetrado, propostas que, tudo indica, emanam de cabeças alheias. Quem acompanhou o percurso da mandachuva maior sabe que seu forte não é exatamente a negociação, muito menos a conciliação. Mas a política é a arte de engolir sapos, e ela está passando por um aprendizado rápido, intensivo e doloroso.

Dez anos depois de se terem instalado no poder, a senhora Rousseff e seus cortesãos se dão conta, repentinamente, de que uma parcela importante da população anda muito descontente. Pior ainda: os indignados descobriram o meio de se fazerem ouvir.

Ainda atordoados, messias e marqueteiros propuseram à presidente que anunciasse uma ampla reforma política. Ninguém explica o que vem a ser, mas espera-se que a gostosa palavra reforma soe bem e acalme o populacho. Afinal, pior do que está, dificilmente pode ficar.

Algumas perguntas ficam no ar. Por que não foi feita nenhuma reforma enquanto o povo estava anestesiado, e os índices de aprovação presidencial eram estratosféricos? Por que esperaram que a tempestade balançasse o coreto para, só então, se darem conta de que foram eleitos para servir ao povo e não para se servir dele?

Interligne 37k

A palavra mais ouvida nesta semana espremida entre São João e São Pedro é plebiscito. Que bicho é esse? É bicho antigo, vem de longe. É parente de plebe e de plebeu, mas não tem carga ofensiva. Dois milênios atrás, os romanos já se valiam desse termo para definir consultas feitas diretamente à plebe. Os plebeus se contrapunham aos patrícios, situados em patamar superior na escala social.

Passeata

Passeata

Por sua própria natureza, os plebiscitos não costumam buscar respostas nuançadas. O povo consultado terá simplesmente de responder sim ou não a uma pergunta. Ou aprova, ou reprova. Pode-se sempre inovar, evidentemente, fazendo duas, três, quatro perguntas. Mas isso não é comum.

Um projeto de reforma política contará dezenas de artigos. Esses ítens dificilmente poderão ser submetidos, um por um, ao voto popular. Seria de uma monstruosa complexidade.

Como fazer, então? Na medida que o povo brasileiro não tem grande confiança em seus representantes, estamos metidos num beco sem saída. Os artigos, parágrafos e alíneas serão costurados por Suas Excelências. A população terá, em seguida, duas únicas opções: aceitar o pacote inteiro ou rejeitá-lo.

É por isso que não me parece boa essa ideia de plebiscito. Traz uma desconfortável sensação de conversa mole para boi dormir. Caso a plebe encampe a ideia, daqui a alguns meses, serenados os ânimos, virá um projetozinho mexendo em alguns pontos de detalhe, sem mexer nas estruturas. Para inglês ver.Interligne 37i

A atualidade política nos traz uma interessante observação referente à adequação vocabular. A imprensa brasileira, acertadamente, utilizou o termo plebiscito. É o que acontece quando se submete um projeto à aprovação do povo.

Manifestação

Manifestação

Já a imprensa portuguesa preferiu o termo referendo. Talvez, no além-mar, as duas palavras sejam sinônimas, não posso garantir. Entre nós, não são. Convoca-se a população a referendar um texto de lei já aprovado pelo parlamento.

Parece igual, mas não é. Recapitulemos. Se uma lei ainda não aprovada pelos representantes for submetida aos eleitores, deve-se falar em plebiscito. Se o povo for apenas chamado a confirmar um texto já votado, estaremos diante de um referendo.Interligne 37a

Há maneiras mais simples, rápidas e diretas de corrigir erros políticos. Não há necessidade de canhão para matar pardais. Não são leis que andam fazendo falta: o que falta é vergonha na cara.