Não conte comigo

José Horta Manzano

Pepe Mujica ‒ por extenso, José Alberto Mujica Cordano ‒ nasceu em 1935 no Uruguai. Nos anos 60 e 70, quando o Brasil e alguns países hispano-americanos eram castigados por regime ditatorial repressivo, tomou a decisão de juntar-se a um movimento de liberação. Aderiu aos Tupamaros, grupo rebelde violento, o mais importante de seu país.

A trajetória do personagem lembra, até certo ponto, a da doutora que presidiu nossa República até pouco tempo atrás. Como ela, imaginou que guerrilha, sequestros e ações armadas pudessem derrubar o regime. Arroubos juvenis empolgam, mas raramente são bem sucedidos. Tanto no Uruguai quanto no Brasil, a luta armada fracassou. A redemocratização chegou por outros caminhos.

Passou o tempo, a poeira baixou, señor Mujica entrou para a política e chegou à presidência de seu país. Manteve-se discreto e, um tanto cabeçudo, recusou a ostentação que o cargo lhe oferecia. Num comportamento que pareceu forçado, conservou seu fusquinha. Continuou residindo num rancho modesto e afastado dos ouros da corte. No entanto, bem lá no fundo, guardou reflexos da juventude turbulenta.

lula-e-mujicaAinda dois dias atrás, o diário El Observador, de Montevidéu, informava que Pepe Mujica participaria, ao lado do Lula, de manifestação programada para domingo próximo em São Paulo. Viria participar de passeata com o objetivo de protestar contra a proposta de emenda constitucional (PEC 241) que limita gastos públicos.

Faz quatro séculos, Miguel de Cervantes ‒ o pai da literatura castelhana ‒ já insinuava que não faz sentido lutar contra moinhos de vento. Rios seguirão sempre seu curso, independentemente de toda tentativa de barrar-lhes o fluxo.

Não se sabe se señor Mujica releu Dom Quixote ou se terá ouvido conselho de algum político ajuizado. Fato é que, às vésperas de viajar ao Brasil para engrossar o protesto do Lula, lembrou-se de repente que ‒ oh, céus! ‒ tinha um outro compromisso imperdível e inadiável em Montevidéu. Anulou a viagem.

Resta a impressão de que o ex-presidente uruguaio ficou sabendo que ser visto ao lado do Lula pode ser interpretado como conivência com os «malfeitos» de que nosso demiurgo é acusado. Não cai bem aparecer ao lado de réu de processo criminal.

Até ex-guerrilheiro cabeçudo acaba aprendendo.

Fora, Temer!

José Horta Manzano

recusa-1«Mãe, não quero comer espinafre. Quero batata frita!»

«Menino, chega de brincar! Agora é hora de fazer a lição de casa.»

«Não vamos entrar neste restaurante, que é careiro e faz comida ruim. Vamos àquele aí, do outro lado da rua. É bem melhor.»

«Recuse imitações! Prefira a marca tal!»

Interligne 18c

Quando se rejeita algo, é natural dar a alternativa. Não quero isto, prefiro aquilo. Recuso a situação assim assim, gostaria que fosse assim assado. É o que manda a coerência.

Meus distintos e perspicazes leitores já hão de ter reparado que o bordão «Fora, Temer» vem sendo repetido à exaustão estes últimos tempos. É da democracia. Cada um é livre de apreciar ou não este ou aquele homem político.

espinafre-1Por minha parte, cansado de ter assistido impotente, durante mais de 13 anos, ao Brasil escorrendo pelo ralo, sinto alívio ao ver que a malta de incapazes mal-intencionados sai de cena. Que o novo mandatário se chame João, Pedro ou Paulo, tanto faz. Que fique. Que se lhe dê tempo de mostrar a que veio.

Os que exigem a saída de senhor Temer teriam de propor a alternativa. Se não o fizerem, a palavra de ordem não fará sentido e não passará de slogan vazio. Quem não quer ver Temer no trono presidencial deveria declarar sua preferência. Sem Temer, quem fica?

batata-frita-1Falando nisso, não se vê nenhum dos manifestantes propondo alternativa a senhor Temer, como mandaria a lógica mais elementar. Afinal, se o atual presidente é indesejado, que não se limitem os manifestantes a dizer o que não querem, mas que declarem o que querem.

Do jeito que está, fica a impressão de que, se os descontentes não apreciam o atual presidente, tampouco desejam o retorno da anterior. No fundo, aprovam a troca, só discordam do substituto. Ou será que alguém ouviu manifestante gritar «Volta, Dilma»? Curioso, não?

Todos na rua

José Horta Manzano

Há quem tenha espírito jogador. É gente que acredita firme que vai tirar a sorte grande. Os meios de chegar à fortuna variam conforme o gosto de cada um: jogo do bicho, corrida de cavalos, carteado, loteria, roleta. A característica comum a todo jogador é a certeza obstinada de que vai ganhar um dia destes. Se não for hoje, será amanhã. Garantido.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

Respeito esse traço de personalidade, mas não comungo com ele. Não me parece aconselhável entregar as rédeas do destino, sem mais nem menos, a mãos alheias. Convém segurá-las com firmeza enquanto for possível.

Para este 13 de março, estão marcadas manifestações de protesto em todo o país. As reivindicações, embora cubram amplo espectro, concordam em um ponto: basta de corrupção e de incompetência. A expectativa de ver multidões pelas ruas vem sendo acirrada por redes sociais e pela mídia. Como prova, o principal editorial do Estadão de hoje leva o título Chegou a hora de dizer: basta! ‒ exatamente assim, com ponto de exclamação. Lembra chamamento revolucionário.

Acho uma temeridade pôr tanta ênfase num acontecimento sujeito a tantos tropeços e a tantos imprevistos. Pode chover. Pode fazer friozinho. Pode não vir tanta gente quanto se espera. O medo de confronto com baderneiros pode fazer que muitos hesitem. Podem certos «institutos» desonestos contabilizar o número de participantes com erro a menor. Em resumo: o resultado das passeatas está à mercê de fatos aleatórios.

Bandeira olho 2Fazer demonstração em praça pública ‒ pacifica e civilizadamente ‒ para exprimir anseios é atitude positiva. Exibe a maturidade do povo e dá prova das liberdades que a democracia lhe concede. Já o fato de atribuir tamanha importância a uma determinada passeata é arriscado. Pode falhar, e aí, como é que fica?

De qualquer modo, alea jacta est ‒ a sorte está lançada. Vou parando por aqui, que é pra não carregar na consciência o peso de ter atrasado algum distinto leitor já paramentado de verde-amarelo. Tomara que não chova.

Interligne 18h

Coincidência
Manif 2Observe-se que o Comício da Central do Brasil, protagonizado pelo presidente Jango Goulart, soou o dobre fúnebre do regime. O presidente cairia 18 dias mais tarde. O comício teve lugar num 13 de março, faz hoje exatamente 52 anos.

Passeatas e manifestações

José Horta Manzano

Tive, faz muitos anos, um chefe inglês. Espirituoso, cultivava aquele humor britânico fino e levemente irônico. Quando via um grupinho de funcionários conversando no corredor, costumava dizer: “More than two together is mutiny”(*) ‒ mais de dois juntos é motim. Era seu jeito de dizer “chega de blá-blá-blá, vamos trabalhar”. A referência a um termo militar devia ser resquício da Segunda Guerra, quando tinha combatido na Birmânia.

Motim 1Durante os anos de chumbo que o Brasil atravessou, principalmente na década de 70, reuniões eram proibidas. Como todo regime ilegítimo, a ditadura brasileira sabia que não podia mais contar com o apoio da maioria da população. Em virtude disso, temia a agregação de forças adversárias. Ao exagerar na repressão a concentrações populares, tentava reprimir toda insurreição.

Escrita quando o cadáver da ditadura ainda não havia esfriado, a atual Constituição fez questão de exagerar no sentido oposto. No que tange a reuniões, foi magnânima: liberou geral. O Inciso XVI do Artigo 5° reza assim:

Cabeçalho 5Embora a intenção fosse tranquilizar o bom povo e transmitir sensação de segurança e liberdade, o texto é problemático. Ao determinar que cidadãos podem se reunir independentemente de autorização, deixa implícito que a autoridade não tem poder de proibir reuniões. É desprendimento exagerado. De que serve avisar previamente se a manifestação não pode ser proibida?

Todo país civilizado permite reuniões, passeatas, manifestações, comícios ‒ demonstração do vigor da democracia. No entanto, toda atividade que se desenvolva temporária ou permanentemente no espaço público tem de ser sujeita a autorização. O fato de ter ‘intenção’ pacífica não é garantia de que a manifestação se desenrolará tranquilamente. O fato de os participantes não portarem arma não impede que depredem o bem comum ou que transformem bancos de jardim em armas.

Manif 2O texto legal diz que uma reunião não se pode realizar no mesmo local onde outro agrupamento já tiver sido convocado. Pois bem, suponhamos que aconteça: o grupo A anuncia às autoridades que vai-se manifestar no mesmo lugar onde o grupo B prevê reunir-se. Tendo em vista que reuniões não podem ser proibidas, a autoridade estará em palpos de aranha. Poderá apenas sugerir ao grupo que escolha outro local. E torcer pra que o pedido seja atendido.

Manif 4Admitamos outra possibilidade. Um coletivo de cidadãos informa as autoridades que vai trancar a Avenida Paulista (ou a Avenida Rio Branco no RJ, ou qualquer outra avenida brasileira de tráfego intenso) às 18h de um dia de semana. Será manifestação pacífica e sem armas. Que pode fazer a autoridade? Pelo texto constitucional, nada. Pode observar o congestionamento de longe, impotente, enquanto dezenas de milhares de cidadãos que nada têm a ver com o peixe são cerceados em seu direito de ir e vir.

A meu ver, o inciso que regulamenta reuniões em local público deveria ser revisitado. Todo ajuntamento, ainda que pacífico e sem armas, deve ser sujeito à aprovação da autoridade competente. Não nos esqueçamos que o ente nebuloso a que chamamos ‘autoridade’ nada mais é que uma das faces da representação popular.

Interligne 18c

Etimologia
(*) Mutiny (=motim, amotinamento) vem do verbo francês mutiner, hoje raramente utilizado. A origem mais provável é o verbo latino movere (=mover) por uma presumida forma intermediária movita.

It’s time of panelaço

Guilherme Fiuza (*)

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

«Dilma Rousseff é a representante máxima de um projeto político podre, que engendrou os dois mais obscenos escândalos de corrupção da história da República, e não pode ser investigada porque… Por que mesmo? Porque o Brasil acredita em qualquer bobagem que lhe seja dita de forma categórica em juridiquês castiço.

Assim é o Brasil de hoje. Dilma não pode ser investigada, e a casta intelectual que a apoia espalha que a multidão de verde-amarelo contra a corrupção usava camisas da CBF… Só faltou denunciar os que foram protestar contra o petrolão pegando ônibus com diesel da Petrobrás…

Como se vê, a covardia não tem limite. Vejamos se a paciência tem.»

(*) Guilherme Fiuza é jornalista e escritor. Excerto de artigo publicado na revista Época. Para ler na íntegra, clique aqui.

Pesquisa de opinião – 2

José Horta Manzano

Dilma 9Este post faz eco a meu artigo de ontem. O grupo Folha de São Paulo há de ter-se dado conta de que sua “contagem científica” dos participantes da passeata de domingo 15 de março pegou mal pra caramba. O pouco que pudesse restar de credível à imagem do Instituto Datafolha sofreu sério arranhão. A partir de agora, duvido que alguém, com intenção honesta de conhecer a verdade verdadeira, arrisque confiar a sondagem a esse instituto.

Além de deixar no ar a suspeita de que suas pesquisas podem ser ‘negociadas’, a instituição deixa patente sua miopia estratégica. De fato, sondagens têm mais vocação para serem lidas pelos estratos esclarecidos da população. Logo, a trapalhada consiste em serrar precisamente o galho onde se está apoiado.

by Chico Caruso, desenhista paulista

by Chico Caruso, desenhista paulista

A duvidosa estimativa do número de participantes da manifestação de domingo passado assestou pancada pesada à credibilidade do instituto. Eles sentiram o golpe, sim. E a prova está em destaque no sítio do jornal.

Numa tentativa de amenizar suspeitas de parcialidade, a Folha traz, neste 18 março, o resultado de sondagem mostrando a baixa catastrófica na apreciação de nossa mal-amada presidente.

Sei não. Muitas pesquisas sérias terão de ser publicadas para alçar a confiabilidade do instituto ao patamar anterior.

Chamada de 18 mar 2015 - in Folha de São Paulo

Chamada de 18 mar 2015 – in Folha de São Paulo

Pesquisa de opinião

José Horta Manzano

A Europa é especialista em passeatas e manifestações de rua. Nesse quesito, a França sobressai: é campeã em todas as categorias. Por um sim, por um não, saem todos de casa, percorrem avenidas, reagrupam-se em praças simbólicas. Algum discurso pode até pintar. Em seguida, dispersam-se.

Folha tendencia 3Pode acontecer – mas é raro – que alguma passeata degenere. Vândalos desocupados podem surgir de alguma ruela, rosto dissimulado atrás de cachecol e capuz. Pouco se lhes dá o motivo da manifestação – vêm praticar seu esporte preferido: arrebentar vitrines. Aparecem, o mais das vezes, em passeatas gigantescas. É compreensível: quanto mais gente houver, mais fácil será confundir-se com a multidão e escapar a toda sanção.

No dia seguinte, sai a estimativa do número de participantes. Cada lado faz suas continhas. Manifestantes, compreende-se, costumam inflacionar números. Todos esperam pela estimativa da autoridade policial, a mais confiável, que tende a se aproximar da verdade.

No Brasil, manifestações de rua são menos frequentes. Em compensação, quando acontecem, chamam a atenção pelo elevado número de participantes. Observadores consideram a de domingo passado, 15 março, a maior exteriorização de protesto já registrada em nossa história.

Como no resto do mundo, a estimativa de participação tem duas versões. Na verdade, dado que a manifestação não foi convocada por nenhum grupo organizado – sindicato, central operária, corporação profissional, partido poítico – um só número deveria ser publicado: o das autoridades policiais. Em princípio, nenhum outro se lhe poderia contrapor.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

No entanto… o Brasil não é país como os demais. Enquanto, na Europa, a estimativa da polícia é contestada pelos organizadores da passeata, no Brasil ocorreu fato assaz curioso. Um instituto de pesquisa de opinião, contratado sabe-se lá por quem, houve por bem dividir por cinco a estimativa policial.

Em números claros, a PM de São Paulo calculou que um milhão de manifestantes lotaram a Avenida Paulista e ruas adjacentes. O Instituto Datafolha, por seu lado, tem outra versão. Assegura que não mais que 200 mil pessoas lá estiveram. A brutal diferença é de deixar cismado.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Palavras com que o instituto de opinião Datafolha se apresenta.

Dei uma espiada no site do instituto. Ele se apresenta como “instituto de pesquisa de opinião”. Na Europa, não me lembro de jamais ter visto instituto de pesquisa de opinião contar participantes de passeata. Colher opiniões, sim, que é seu ganha-pão. Calcular quantidade de gente, não – não faz parte do ADN (DNA) desse tipo de instituição.

A bizarria do acontecido, principalmente o fosso entre os números da polícia e os do instituto, deixa no ar incômoda suspeita de pau-mandado.

Interligne 28aPS 1:
De uns tempos a esta parte, tenho notado que o site da Folha de São Paulo suaviza notícias susceptíveis de ferir sensibilidades no andar de cima. Ao mesmo tempo, enfatiza as que possam afagar o Planalto. No capítulo “nós x eles“, veja a chamada publicada na manhã deste 17 mar 2015. Em matéria de tendenciosidade, é um primor:

Folha tendencia 1PS 2:
Ao dar-se conta da repercussão fortemente negativa de sua “estimativa científica”, o jornal Folha de SP publica hoje longa matéria abarrotada de números. Porcentagens pra cá, quocientes pra lá. Cheira a cortina de fumaça para amenizar o estrago que a imagem do instituto sofreu.

Rapidinha 26

José Horta Manzano

Manif 8Doze mil manifestantes (cinco mil segundo estimativa da polícia) desfilaram na cidade de São Paulo dia 13 de maio. São professores da rede municipal de ensino, em greve já há três semanas. Reclamam remuneração à altura do cargo que exercem.

Entre os cartazes, um me pareceu especialmente chamativo e adequado ao momento atual. Dizia:

ME CHAMA DE COPA E INVESTE EM MIM!
(a) EDUCAÇÃO

Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

O papa e o protesto

José Horta Manzano

Os franceses têm resposta pra tudo. A cada aumento de imposto ― fato que acontece com bastante frequência na terra deles ― sempre aparece alguém no rádio ou na televisão para repetir que trop d’impôt tue l’impôt, imposto demais mata o imposto.

Com isso querem dizer que todo exagero é pernicioso. Impostos elevados demais são um convite à evasão e até à fraude. Têm razão. Nunca convém abusar, sob pena de ver o resultado irremediavelmente comprometido.

Faz um mês, o Brasil fervia. Centenas de milhares de manifestantes pacíficos saíam espontaneamente às ruas. Sem bandeiras, sem comando unificado, sem orientação partidária, sem carros de som, sem uniformes e sem estímulo oficial. Alguns portavam cartazes artesanais onde exprimiam seu anseio, sua reclamação, seu fastio.

Se algum dos 200 milhões de brasileiros lhe disser que, duas semanas antes, já havia previsto os protestos, não acredite: estará mentindo. Nenhum de nós imaginou que esse tipo de fenômeno fosse de novo possível num Brasil sedado havia mais de 10 anos. Mas aconteceu e foi útil.

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Numa certa altura da vida, tive um chefe que eu admirava e respeitava. Era o dono da empresa. Vez por outra, no meio do dia, ele saía. Nunca dizia aonde ia, mas costumava lançar, já na soleira da porta, a frase ritual: «Pode ser que eu volte no fim da tarde». Às vezes, voltava mesmo. O mais das vezes, não. Mas, entre nós, ficava a dúvida. Voltará ou não? Será que posso ir-me embora um pouco mais cedo? Será que ouso ausentar-me uma meia horinha para tomar sorvete na esquina?

O fato é que a técnica do chefe funcionava. Ninguém arriscava fazer o que não devia. O homem ia, mas o chicotinho ficava dependurado na parede.

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As passeatas de junho foram uma advertência gritante. Todos os figurões entenderam, mas cada um reagiu a seu modo. O mais visado, o pai de todos, escondeu-se e, pusilânime, fez-se de morto e sumiu de circulação. Outros, que não tinham como escapar, tomaram decisões vistosas, mas atabalhoadas e desconexas. Houve ainda quem desafiasse a voz das ruas e continuasse, como antes, requisitando aviõezinhos da FAB como se estes fizessem parte de seu patrimônio privado. Levaram uma advertência em regra.

Agora, que estão todos avisados, precisa dar uma pausa para meditação. Os mandarins brasileiros não vão tomar juízo da noite para o dia, que os vícios são muito antigos e já criaram raízes. O importante é que todos agora sabem que o mundo mudou e que as coisas não são mais como antes. Todo gesto, toda conversa, todo movimento é susceptível de ser vigiado, descoberto e divulgado.

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Papa Francisco

Papa Francisco

Papa Francisco deve desembarcar no Rio nesta segunda-feira, logo mais à tarde, em sua primeira viagem fora da Itália. Algumas mentes pouco iluminadas estão convocando incautos para protestar contra isto e aquilo durante a visita papal. É besteira grossa.

Primeiro, porque uma manifestação desse tipo pode ser interpretada como hostilidade ao visitante. Não cai bem. Além de mostrar sua falta de educação, os manifestantes perigam emitir sinais incoerentes. Desfilar diante do indivíduo A para manifestar seu descontentamento com o indivíduo B? Não faz sentido.

Segundo, porque os microfones e as câmeras do mundo inteiro que estarão postadas estes dias em volta do visitante transmitirão ao mundo a imagem de um povo baderneiro, pouco sério e dificilmente governável. A longo prazo, uma imagem desse naipe só pode ser prejudicial. Vai assustar futuros turistas e afugentar investidores. Contribuirá para que o planeta enxergue o Brasil com antipatia.

Terceiro ― e talvez mais importante: o exagero é prejudicial. As duas semanas de manifestações juninas foram uma advertência séria. Governo, ministros, senadores, deputados, prefeitos, governadores entenderam que o chicotinho está dependurado na parede. Não precisa açoitar ninguém, pelo menos não por enquanto.

Tenhamos paciência. Vamos dar tempo ao tempo. Não nos precipitemos. Vamos deixar que nossos mandachuvas tomem as providências urgentes. Depois, veremos. Trop d’impôt tue l’impôt.

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Interligne vertical 4Observação indignada e envergonhada

O senhor Eduardo Paes, prefeito da mui nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro permitiu-se ofender um país inteiro. Chamou os franceses de vagabundos. E não fez isso numa conversa de botequim, mas durante uma entrevista coletiva, ao responder a um questionamento de uma equipe da televisão francesa.

Não conheço o prefeito do Rio. No entanto, ao ler essa notícia, entendi que não deve ser o homem mais inteligente da política brasileira. E olhe que os políticos brasileiros não primam pela inteligência nem pela cultura! A ofensa pública e gratuita que ele cometeu é acachapante. Mesmo sem ser carioca, sinto-me envergonhado.

Protestos

José Horta Manzano

Leio nos jornais que centrais sindicais marcaram protestos, passeatas, paralisações para esta quinta-feira. Tudo no mais puro estilo anos 70. É um direito deles, não há dúvida.

Alguns detalhes, contudo, me intrigam:

1) Por que razão marcar essas manifestações bem no meio do mês de julho? Será para ter certeza de que boa parte da classe média estará ausente, por motivo de viagem de férias? Será porque receiam que sua manifestação ― organizada, orquestrada e bem ensaiada ― pudesse ser submergida pela grita espontânea de milhões de cidadãos não engajados politicamente?

Passeata de protesto

Passeata de protesto

2) Por que razão despertam subitamente de uma longa letargia de doze anos passados praticamente sem protestar? O que é que mudou na visão das centrais sindicais de um mês para cá? Estarão se dando conta de que a sociedade, quando quer, não precisa de sindicatos?

Tenho cá pra mim que a reivindicação maior das centrais sindicais não é exatamente o bem geral da população. Estão batalhando para manter-se à tona, para fazer crer que servem para alguma coisa e para conservar uma boquinha beleza. Numa boa.

Estarei enganado?

Catarse coletiva

José Horta Manzano

Mensalão, corrupção, falcatruas, corrupção, crianças arremessadas por janelas, corrupção, parricídios, corrupção, medalhas concedidas a quem não fazia jus, corrupção, tapinhas nas costas de Chávez e de Ahmadinejad, corrupção, capitulação diante de Evo, corrupção, apoio explícito a ditadores sanguinários, corrupção, balcão de negócios, corrupção, nada disso comoveu o povo brasileiro a ponto de suscitar reação visível.

Mas o mundo deve estar mudando mais rápido do que se imagina. Pela primeira vez depois de muitos anos, veem-se cenas de protesto popular no Brasil. La colère gronde, como diriam os franceses ― a fúria deixa ouvir seu bramido. A razão oficial é um aumento de 20 centavos na passagem de ônibus.

Transporte coletivo de primeira

Transporte coletivo de primeira

Os protestos, no entanto, estão sendo explicitamente apoiados por comunidades de brasileiros do exterior, com passeatas em vias públicas de terra estrangeira. Os manifestantes são pessoas que, por razões evidentes, não costumam utilizar transporte público no Brasil. Está aí a prova maior de que a briga é bem mais ampla do que 20 centavos.

Visto de longe, dá até para acreditar que o gigante está despertando. Será? Algo me diz que esse desencadeamento de protestos, violentos ou não, é um fenômeno catártico, uma válvula de segurança a deixar escapar um pouco da pressão gerada pelo descontentamento acumulado há muitos anos. O aumento das tarifas não é mais que a gota d’água.

Tomo emprestada uma oportuna lembrança que tiveram Samy Dana e Leonardo Siqueira de Lima em artigo publicado na Folha de 17 de junho. É uma declaração de Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, em entrevista concedida à Agência de notícias EFE em dezembro de 2010.

Interligne vertical 3“Una ciudad avanzada no es en la que los pobres pueden moverse en carro, sino una en la que incluso los ricos utilizan el transporte público”

Por enquanto, é uma revolta. Esperemos que não se transforme em revolução.

Manifestação e razão

José Horta Manzano

Pelo que tenho lido estes últimos dias, os brasileiros começam a pôr em prática o conselho que os franceses dão ao mundo há séculos: quando não estiver satisfeito com alguma coisa, proteste! Faça ouvir sua voz!

Na França, por um sim, por um não, saem todos às ruas brandindo cartazes e escandindo palavras de ordem. O povo está ultratreinado para esse tipo de exercício. Mas há um contraponto: manifestações com número polpudo de participantes são porta aberta para vândalos e baderneiros.

Parece inacreditável, mas, em dia de passeata importante, há gente que sai de casa munido de todo o aparato do perfeito bagunceiro. Junta-se aos manifestantes sem saber exatamente contra o que estão reclamando. Pouco importa. Seu prazer é participar do (quase) inevitável quebra-quebra final e destruir o que lhe apareça pela frente. Uma apoteose, um verdadeiro orgasmo! Cada um tem seu esporte favorito.

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No Brasil, o motivo alegado para a balbúrdia atual é reclamar contra o aumento do preço das passagens de transportes coletivos urbanos.

É verdade que ninguém aprecia aumento de preço. O ponto mais sensível do ser humano é o bolso, disso sabemos todos. Se quiser enervar alguém, renuncie a pisar-lhe o calo ― prefira enfiar-lhe a mão no bolso: o efeito será visceral, e a reação, fulminante.

Baderneiros

Baderneiros

Por outro lado, não acredito em movimento popular «espontâneo». Há sempre um Duque de Caxias, um Napoleão, um Garibaldi organizando a agitação. Esses comandantes deveriam parar um instante para refletir. O que é que está errado?

O problema não está propriamente no fato de o preço do transporte público aumentar. Todos os preços, mais dia, menos dia, acabam aumentando. O nó da questão é o peso brutal que a subida do custo da condução exerce no bolso dos usuários. No fundo, o problema não está no aumento do preço, mas na incapacidade do usuário de fazer frente a ele.

Baderneiros Crédito: Jeff Moore

Baderneiros
Crédito: Jeff Moore

O preço das passagens está ― bem ou mal ― alinhado com o que se pratica no resto do mundo. Em grande parte dos países, quando o transporte encarece, não se veem manifestações. Por que, então, no Brasil, bandeiras se alevantam? A resposta é simples: porque o salário do cidadão médio anda tão apertado que não lhe deixa folga para suportar esse acréscimo. Repito: o aperto não está no aumento em si, mas na incapacidade dos viajantes de absorvê-lo.

Goteira

Goteira

As manifestações estão, portanto, desfocadas. Não é contra o aumento das tarifas que se tem de reclamar, mas em favor de uma revisão dos salários. Dá muito mais certo. Se não, cidadãos terão de manifestar diariamente pelo resto da vida: quando aumenta o pão, quando aumenta a luz, quando aumenta o gás, quando aumenta o leite. Até quando sobe o preço do xuxu.

Quando a casa tem dezenas de goteiras, não adianta tapar com esparadrapo nem trocar uma telha aqui, outra ali. Está na hora de reformar o telhado.