Aflição, constrangimento e consternação

José Horta Manzano

Há muita gente finória no mundo. Espertalhões não são exclusividade brasileira, longe disso. Volta e meia, vem à tona alguma falcatrua nacional ou internacional. A diferença entre lá e cá é a reação da sociedade quando um malandro é apanhado com a boca na botija.

Povos mais adiantados reservam tratamento mais severo a desvios de conduta, especialmente quando são obra de personagens políticos. A demissão do cargo é a punição primeira, sem contar as sanções que lhe possam suceder.

Blá, blá, blá!

Blá, blá, blá!

No Brasil, sacumé, esses deslizes costumam ser tratados com displicência. Nossa sociedade costuma dar de ombros e isentar de sanções as safadezas, razão pela qual os espíritos se liberam. Comportamentos de valor moral discutível tendem a tornar-se cada dia mais contundentes e mais corriqueiros.

Em julho de 2009, um blogueiro alojado na revista Veja denunciou a desfaçatez de dona Dilma, então candidata à presidência da República. A presidenciável ostentava, em seu muito oficial Currículo Lattes, títulos de mestre e de doutora que não possuía.

Naquela mesma ocasião, Malu Gaspar revelou, na mui séria revista Exame, que o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, era autor de um «malfeito» de mesmo jaez. Seu currículo oficial, no site do Itamaraty, informava que o chanceler era doutor em Ciência Política por um instituto londrino. Era mentira.

Descobertos os embusteiros, que fim os levou? Longe de ser punida pela empulhação, a presidenciável foi eleita. Está no posto máximo da República até hoje. Quanto ao chanceler, foi designado pela doutora Dilma ― quando esta chegou à presidência ― para chefiar nada menos que o Ministério da Defesa. Está lá até hoje.

Como se vê, na política brasileira, o que parece nem sempre é. Nas altas esferas, além de falsos messias, temos também falsos mestres e falsos doutores. Mas tudo bem, vamos em frente, que a Copa é nossa!

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Aos 71 anos de idade, diplomata de carreira e ministro da República há 10 anos, o doutor Celso Amorim pode ser tachado de tudo, menos de inexperiente. No entanto, nosso prezado ministro tem demonstrado uma candura patética, incompatível com os altos encargos que lhe têm sido confiados.

Durante infindáveis 8 anos, levou a cabo uma política desastrosa que baixou a diplomacia de nosso País a um nível embaraçoso. O tolo ressentimento antiamericano do chanceler, aliado a sua obsessão terceiro-mundista démodée, levou o ingênuo Lula a dar tapinhas nas costas de gente pouco recomendável. Ahmadinejad, Zelaya, os Castros, Chávez, o ditador da Guiné Equatorial, Evo Morales foram alguns deles. Todos gente fina.

Ha, ha, ha! Crédito: Philippe Berry

Ha, ha, ha!
Crédito: Philippe Berry

Para alívio geral da nação, doutora Dilma preferiu confiar ao antigo chanceler o ministério da Defesa. Pelo menos, os desastres passaram a ser menos visíveis do exterior. Infelizmente, continuam no plano interno.

Faz dois dias, o doutor Amorim concedeu entrevista ― é impressionante a apetência que caciques da política brasileira têm para se fazer entrevistar. Do responsável maior pela defesa(!) do País, espera-se, para começar, um certo recato. O ministério que controla as forças armadas tem, no mínimo, de se mostrar discreto. Se há falhas, não convém pô-las sobre a mesa nem expô-las em praça pública.

As décadas de experiência do doutor Amorim ainda não foram suficientes para ensinar-lhe essa verdade básica. A entrevista do ministro está mais para conversa de elevador que para fala de autoridade de elevado escalão. Ele chega a confessar que, tanto no exterior quanto no Brasil, em alguns momentos desconfiou que seu telefone estivesse sendo grampeado. E tudo ficou por isso mesmo, o homem continua sem saber se aconteceu ou não.

É afligente saber que o responsável pela defesa do País não consegue garantir a segurança e a inviolabilidade de seu próprio telefone. É constrangedor vê-lo declarar isso em público. É consternador perceber que continuamos sendo governados por gente presunçosa e incompetente.

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