Pontaria ruim

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gente, como é que pode?!? Quando é que tudo isso vai ter fim? Será que ninguém mais percebeu o que está acontecendo com a mira do nosso Judiciário?

Promotores estaduais e federais, policiais federais, procuradores regionais e gerais, juízes de primeira e segunda instâncias ‒ além do Supremo, é claro ‒ dão seguidas provas de sua incompetência, seu despreparo técnico, seu viés ideológico, seu descompromisso com a letra fria da lei, além de, arrogantemente, colocarem-se acima das paixões humanas. Por que digo isso? Ora, só os cegos não veem que, por maiores que sejam seus esforços de comprovar suas teses, até agora não atingiram um único alvo legítimo sequer, não encaçaparam nenhuma bola.

A estatística comprova. Do lado dos corruptores, em especial entre os empresários, apenas um minguado percentual, que não deve chegar nem a 10%, confessa-se culpado. Do lado dos pretensamente corrompidos, o que temos? Só inocentes! Repito, 100% de INOCENTES!

By Ray Clid, desenhista francês

Insones há anos, temos assistido ao desfile macabro de políticos acusados injustamente e perseguidos sem dó nem piedade simplesmente por estarem fazendo seu trabalho costumeiro de arrebanhar votos, conquistar adesão, articular apoios, tudo com o único intuito de favorecer suas comunidades de base. Não é para isso que se elegeram representantes do povo?

Dá pena ver o olhar compungido de presidentes e ex-presidentes, ministros e ex-ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados estaduais, deputados federais e vereadores diante das câmeras na tentativa de proclamar inocência. Ouvindo suas vozes esganiçadas pela indignação, como não acreditar que estão, sim, sendo vítimas das artimanhas de seus opositores, dolorosamente traídos por assessores de confiança, matreiramente envolvidos em armadilhas preparadas por bandidos confessos que nada mais almejam do que diminuir seu tempo de pena?

Nenhum – repito, NENHUM – assumiu até agora ter sequer um dia cogitado burlar a confiança que o povo neles depositou. São todos servidores dedicados, verdadeiros livros abertos, gente de passado transparente e meritório, almas puras e bem-intencionadas, verdadeiros guerreiros e mártires da causa pública, tementes a Deus, cônscios de seu papel histórico de promover a igualdade, a justiça e o desenvolvimento do país.

Como, senão por ingenuidade extrema e um certo grau de perversidade, acreditar que sabiam dos malfeitos de seus apaniguados, que se deram ao desplante de exigir vantagens pessoais, amealhar fortunas desviadas dos cofres públicos, usar seu poder de forma espúria para influenciar a tomada de decisões estratégicas para o país?

Onde, afinal, estão as provas de seus supostos delitos? Podem seus perseguidores gastar o tempo de vida que lhes resta procurando por elas que nada encontrarão! Pela simples razão de que não há prova alguma, material, palpável, incontestável. Só delações, delações e mais delações de gente comprometida até o pescoço com o hábito de comprar consciências.

By Sniper, desenhista francês

E, não posso deixar de indagar, quem está por trás de tanto delator interessado em apontar impunemente o dedo para terceiros? Muita gente, distraída com as novelas e ocupada em votar no participante que deve ganhar o BBB, ainda não ligou os pontinhos para visualizar a figura oculta desses procuradores, moleques impertinentes mal saídos das fraldas que, só por terem aprendido a brincar de Powerpoint, acham que podem dar lição de moral a gerações de políticos experimentados e profundos conhecedores da realidade cultural brasileira.

Não sou adepta de teorias conspiratórias, mas não dá mais para tapar o sol com peneira. É uma questão de lógica concluir que o dedo da CIA está metido fundo em todo esse imbróglio. Não dá para esquecer que esse juizeco da Lava a Jato foi treinado nos Estados Unidos e deve ter aprendido essas táticas de destruição de reputações para conquistar espaço. Foi ele que começou com esse negócio cansativo de exigir moralidade pública, essa mania de divulgar conversas particulares gravadas ilegalmente e ver sempre duplo sentido nelas, não foi?

Pois é, acreditem senhores, é corroendo a base de credibilidade de tantas figuras públicas, antes tão respeitadas entre nós, que eles vão conseguir diminuir a importância do Brasil no cenário internacional e nos alijar do mercado de exportação de bens de consumo. Será que ninguém se lembra do que eles fizeram com as carnes brasileiras e estão tentando fazer agora com o aço e o alumínio?

Acordem, brasileiros! O tempo é o senhor da razão e o tempo vai mostrar de que lado está a verdade. Óculos de grau já para nosso Judiciário!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Venezuela, a barata tonta

José Horta Manzano

«Embaixador brasileiro em Caracas considerado ‘persona non grata’ pelo governo venezuelano.»

«Itamaraty não tem previsão de enviar outro embaixador à Venezuela.»

Entre ontem e hoje, a mídia estampou essas duas manchetes. Uma sequência radicalmente fora de esquadro. Espero que a segunda manchete não passe de cochilo do estagiário de plantão nesta véspera de Natal. Mostra total desconhecimento dos sutis códigos que se utilizam na comunicação internacional.

A linguagem diplomática, de aparência aveludada, pode revelar-se contundente, violenta até. Declarar um embaixador persona non grata, é dar um tapa na cara do país que ele representa. Não é a pessoa física do diplomata que está sendo ofendida, mas o Brasil inteiro. É sinal claro de repulsa, de ‘chega pra lá’, de ‘põe-te daqui pra fora’, de ‘não queremos conversa com vocês’.

Previsão de enviar outro embaixador? O estagiário devia estar no primeiro dia de trabalho. Repito, para que fique claro: não é doutor Pereira, o embaixador, quem está sendo rejeitado. Caracas não quer conversa é com o Brasil. Portanto, enviar novo embaixador está fora de questão.

Unha e carne com señor Maduro, Delcy Rodríguez é presidente da Assembleia Constituinte. Coube a ela expulsar nosso embaixador.

Daqui pra frente, a questão subiu de patamar. Cogita-se sobre o rompimento de relações diplomáticas com o infeliz vizinho do norte. A ruptura é ato político que exige avaliação dos prós e dos contras. Embora, de supetão, a reação epidérmica seja cortar imediatamente todo contacto com aquele regime selvagem, o Itamaraty terá a sabedoria de tomar a decisão adequada. Pelo menos, assim espero.

A iniciativa de Caracas não se sustenta. Expulsaram o embaixador do Canadá sob a alegação de que aquele país se imiscui em assuntos internos da Venezuela. Ao mesmo tempo, expulsaram nosso embaixador argumentando que nosso governo é fruto de golpe de Estado, portanto, ilegítimo.

Não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Se, por um lado, repreendem o Canadá pela intromissão em assuntos internos venezuelanos, não faz sentido se intrometerem, por outro lado, em assuntos internos brasileiros. Se foi «gópi» ou não, o problema é nosso. A Venezuela não tem de meter o bedelho.

Feito barata tonta, os dirigentes de Caracas andam atirando em todas as direções e serrando o galho onde se assentam. Com o país em estado de indigência, melhor fariam se baixassem a crista e procurassem aproximação com quem ainda lhes pode dar uma mão. Por incompetência, estão construindo uma cintura de vácuo em torno de si próprios. Quando se derem conta de que já não conseguem sobreviver sozinhos, talvez seja tarde demais.

Blindagem de um companheiro

José Horta Manzano

A destituição de Dilma Rousseff resultou da conjugação de dois fatores deletérios. Por um lado, do desnudamento de uma enxurrada de corrupção que, embora suspeitada, nunca antes neste país havia sido exposta com tanta nitidez. Por outro, da desastrosa incompetência que empurrou a nação para o buraco em que se encontra hoje.

Isolado, um só desses fatores talvez não tivesse levado ao impeachment. Corrupção sempre houve, todos sempre souberam e sentiram. Como prova, as condenações do mensalão que, embora tendo exposto situação semelhante, não tinham levado à destituição do então presidente. A incompetência tampouco é novidade. Como prova, o governo Sarney que, apesar de desastroso, seguiu firme até o último dia.

dar-a-mao-2Destronada a presidente, sobrou a esperança de que, em face do estado calamitoso do país, o sucessor imprimisse novo rumo ao governo com visível guinada no bom sentido. Esperava-se um esforço para amenizar o assalto ao erário e um empenho na boa governança. Ansiava-se por um governo limpo, pelo menos na aparência.

Saiu estes dias a notícia de que o presidente promoveu um de seus assessores ao cargo de ministro de Estado. Até aí, nada de extraordinário. Acontece que o novel ministro é citado numa das delações da Operação Lava a Jato. Aí a coisa engrossou. Com razão, a grita tem-se alevantado.

Não é o momento de prejulgar. Nenhum de nós, nesta altura dos acontecimentos, tem condições de afirmar que o referido senhor seja culpado de algum crime. O problema é ético e ‒ esse, sim ‒ nos concerne e pode ser entendido por todos.

dar-a-mao-3Em países civilizados, quando um indivíduo ligado ao governo é enredado num escândalo, a primeira providência é afastá-lo das funções. Fica de molho até que se demonstre sua inocência. Ou sua culpa. Nosso presidente não tomou esse caminho. Três dias depois da divulgação da delação, o chefe do Executivo deu ao suspeito o cargo de ministro. Com isso, deu-lhe de quebra a blindagem do famigerado ‘foro privilegiado’, excrescência que, aliás, destoa do conceito republicano instaurado em 1889.

A constatação é frustrante e desanimadora: o ato de senhor Temer, embora legal, passa longe da ética. O favor feito ao companheiro consolida a ideia de que, no andar de cima, são todos iguais. O gesto confirma que os que nos dirigem não passam de um bando de confrades irmanados na proteção dos próprios interesses, longe dos anseios prementes do povo que paga seus salários e mordomias. Ainda não será desta vez que sairemos do buraco. É pena.

Na fila dos passaportes

José Horta Manzano

Até em Cuba os ventos estão mudando de quadrante. A cerca de arame farpado virtual que constringia os cidadãos e os impedia de deixar a ilha está-se afrouxando. Nos tempos em que as farpas da cerca eram ainda mais afiadas, aquela blogueira que afrontava o regime teve de ter muita paciência e insistir durante anos pra conseguir um visto de saída.

Passaporte brasileiro 2O Brasil nunca foi de segurar cidadãos. Desde que os primeiros aventureiros e piratas aqui aportaram, entrou e saiu quem quis. Desde que o cidadão tivesse meios de financiar a viagem, tinha liberdade pra ir e pra vir. Mas as coisas mudam ‒ e nem sempre na boa direção.

Saiu estes dias uma informação que nos aproxima da Cuba dos anos mais espinhudos. Passaporte solicitado à PF na cidade de São Paulo leva quatro meses para ser emitido. Trocado em miúdos, se o distinto cidadão se candidatar agora, tem chances de receber o documento em novembro. Enquanto isso, pode esperar sentado.

A razão da demora? Falta papel. Falta papel… Falta competência, cáspite! Não consta que tenha havido aumento brusco na demanda de passaportes. Portanto, o problema não vem de lá. O que se deduz é tremenda falta de planejamento. Alega-se que, na Casa da Moeda, uma máquina deixou de funcionar. Toda máquina é susceptível de enguiçar hoje ou amanhã. Prevendo isso, toda organização séria tem, guardado na gaveta, um plano B. Na Casa da Moeda, ainda acreditam em Papai Noël.

Fila do passaporte, São Paulo

Fila do passaporte, São Paulo

Foi a PF quem teve de improvisar seu plano B. Mediante cobrança de uma «taxa de emergência», expede o documento em prazo mais curto. Atenção: não se trata de passaporte de emergência, aquele que sai em 24 horas. É modalidade intermediária, uma novidade. Mostra que toda lei é feita pra ser burlada.

Não sei o que ressente o distinto leitor. Quanto a mim, tenho às vezes a sensação de estarmos andando pra trás.

Interligne 18cNota difícil de acreditar
Atualmente, há 191 mil pessoas na fila, todas esperando pelo precioso documento. Um número pra cubano nenhum botar defeito.

Nota birrenta
O assunto saiu da atualidade. Assim mesmo, fico me perguntando se a família Lula da Silva devolveu os passaportes diplomáticos que nosso guia concedeu ‒ indevidamente ‒ a todos os membros da famiglia, no seu último dia de mandato. Abuso de autoridade não é crime? Taí mais um pra adicionar ao prontuário do chefe-mor.

Vergonhas

José Horta Manzano

Na Europa, meia dúzia de companhias aéreas oferecem bilhetes a preço extraordinariamente baixo. Todas elas juram que, para reduzir drasticamente o custo, não descuidam da manutenção dos aparelhos nem da segurança. Se o fizessem, seria suicídio certo. No instante em que se acidentasse um avião por falha na manutenção, a companhia iria pro beleléu.

Elas se valem da optimização de numerosos parâmetros. Conservando a segurança, podam o que pode ser podado. Não servem lanchinho. A duração das escalas é reduzida. A logística é estudada milimetricamente para resultar em rendimento máximo. O próprio pessoal de bordo encarrega-se da limpeza da cabine entre voos. As rotas servidas são as mais frequentadas.

Avião 14Três dessas companhias são baseadas na Irlanda e nas Ilhas Britânicas. A irlandesa RyanAir é uma delas. Só na Europa, serve 31 países e começa a considerar seriamente dar continuidade a sua expansão planetária. Como as outras, oferece passagem a preços muito atraentes. Em certos casos, sai tão barato que a gente se pergunta onde está a mágica.

Infelizmente, nosso país não está no visor de nenhuma dessas empresas. A RyanAir, talvez a mais ousada delas, já pôs um pé no México, outro na Colômbia e vai começar a operar na Argentina em 2017. Mais que isso, está estudando entrar em todos os mercados da América do Sul. Corrigindo: em quase todos. O Brasil, infelizmente, não faz parte dos mercados visados. Por quê?

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Mr. Declan Ryan, cofundador e presidente da companhia, declarou com todas as letras o seguinte: «Iniciamos negociaciones en todos los países de la región menos en Brasil ya que hay mucha corrupción.» A frase dispensa tradução. Gostaríamos muito de ter ido dormir sem essa.

América do Sul sem Brasil

América do Sul sem Brasil

Não precisa ser muito perspicaz pra entender a mensagem. O estrago impingido ao país pelo lulopetismo não só saqueou empresas mas também empacou o país. Como efeito colateral, refreia investimentos externos que trariam benefícios a todos.

Depois que, no começo do século, a Argentina foi atingida por uma débâcle econômica gerada pela má gestão,  o país passou 15 anos comendo o pão que o diabo amassou. Pela mesma lógica, é razoável prever que o Brasil só volte a recuperar a atratividade perdida lá pelo ano 2030.

Pra você ver, amigo, aonde podem levar a ignorância, a incompetência e a irresponsabilidade no trato da coisa pública.

Mosteiro Brasil

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Câmera abre, revelando aos poucos o rico interior da capela de um monastério.
Fumaça de velas e incenso ressaltam o clima místico.
Ao fundo, coral de monges beneditinos entoando suave canto gregoriano matinal.

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Monge auxiliar: Prior, está aí um jornalista querendo lhe falar.

Prior: Faça-o entrar, irmão, e encaminhe-o para meu gabinete.

Jornalista: Bom dia, prior. Vim entrevistá-lo sobre o projeto de abertura do novo mosteiro no Brasil.

Prior: Ah, meu filho, estamos entusiasmados com esse projeto. O prédio está praticamente concluído e já contamos com muitas adesões tanto de patrocinadores quanto de diáconos. Vai ficar uma beleza.

Jornalista: Há detalhes que me intrigam. Ouvi dizer que o mosteiro apenas abrigará leigos recém-convertidos à ordem religiosa. Queria entender o porquê da opção pelo Brasil, justo num período tão crítico de instabilidade política e social, além de aguda crise moral.

Prior: Pois foi exatamente por isso que o escolhemos. Talvez o senhor não saiba, mas os valores cristãos estão renascendo por lá. A providência divina tem operado verdadeiros milagres, principalmente na cúpula política do país. Depois de secular descaso, as virtudes cristãs vicejam novamente, como lírios no pântano.

Monastere 2Jornalista: Como assim? Pode explicar melhor?

Prior: Claro, meu filho. Antes, explico que dar hospedagem a peregrinos e viajantes é princípio basilar de nossa congregação. Serão sempre bem-vindos todos os que demonstrarem continência, obediência, capacidade de servir a Deus pela oração e pelo trabalho em prol da comunidade. “Ora et labora” é nosso lema.

Jornalista: Mas, prior, não há também certos requisitos morais para que leigos atuem como diáconos e possam ser acolhidos no mosteiro?

Prior: Sem dúvida. Nossa tradição exige que sejam homens respeitáveis e de palavra, não inclinados ao vinho nem à ganância sórdida e que guardem o mistério da fé com a consciência limpa.

Jornalista: E o senhor conseguiu encontrar candidatos com esse perfil?

Prior: Surpreendentemente, sim. A primeira pessoa que nos procurou rogando esquecimento de seus desvios do caminho do Senhor e proclamando o desejo de voltar a servir à comunidade foi justamente um dos governantes máximos daquele país. Tivemos uma longa conversa. Ele estava deveras machucado, a alma sangrando por causa da dura perseguição que sofreu. Disse-me que, apesar de tantas e tamanhas injustiças, sentia-se de alma limpa para recomeçar. Alegou mesmo que se considerava a alma mais pura do planeta. Fiquei profundamente comovido com tal capacidade de superação.

Jornalista: E o senhor acreditou nele? Não lhe pareceu exagero retórico?

Moine 1Prior: Acreditei, meu filho. Examinei friamente cada uma das graves acusações que lhe fazem e pedi provas de sua inocência. A minhas perguntas, respondeu sempre com humildade e contrição. Convenci-me de que foi vítima da própria ingenuidade. Veja bem, ele estava comprometido com a missão de tirar milhões da miséria e se descuidou da honorabilidade de seus auxiliares diretos. Ninguém fez mais pelos pobres do país do que ele. Botou comida na mesa dos humildes, ajudou a dar casa e até passagem de avião para visitarem a família. Além disso, colocou-se à nossa disposição para atrair novos investidores para o mosteiro, já que tem grande experiência administrativa e realiza frequentes palestras internacionais.

Jornalista: Mas… E quanto às acusações de que teria recebido privilégios de empresários que tinham contrato com o governo?

Prior: Mais uma acusação que não se sustenta. Sua atuação benemérita junto à classe operária gerou muita gratidão. Tudo o que recebeu de volta dos muitos amigos que fez foram pequenos mimos, como hospedagem gratuita na cidade, no campo ou na praia.

Jornalista: Além dele, o senhor acolheu também como futuros diáconos do Mosteiro Brasil a sucessora desse governante, um senador que foi líder do governo e um ministro de Estado, não é mesmo?

Prior: Perfeitamente. Todos eles imbuídos da mesma boa-fé e da vontade de servir ao próximo, sem reservas. Todos vítimas de incompreensão por terem mexido com os privilégios seculares das elites. A primeira, mesmo tendo multiplicado programas sociais, foi vilipendiada com acusações de incompetência, dificuldade de se expressar, acobertamento de corrupção e interferência nos demais poderes da República. O segundo, só porque, por questões humanitárias, ofereceu ajuda a um empresário encarcerado, foi afastado do cargo e caluniado. O último, vítima de um embaraçoso mal-entendido apenas porque estendeu a mão ao segundo. Meu coração se enche de alegria com esses exemplos. Eles se mostraram capazes de passar por cima dos erros de seus irmãos, numa demonstração de genuína generosidade cristã.

Monastere 1Jornalista: Uma última pergunta. Parece que já há casos de ministros do Judiciário solicitando acolhimento no novo mosteiro. É verdade?

Prior: É verdade, meu filho. Foram acusados de se deixar influenciar por agentes políticos e tomar decisões para favorecê-los. Não nos cabe julgar os insondáveis motivos que levam um ser humano a optar por este ou por aquele caminho, que dirá um juiz. De qualquer forma, ainda aguardamos a decisão final de nossos superiores. Nosso quadro de diáconos deverá estar completo em breve com a chegada de muitos parlamentares brasileiros…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Aeroporto sem trem

José Horta Manzano

Avião 7A cada vez que penso nos bilhões rapinados da Petrobrás e do erário, imagino o que poderia ter sido feito com esse patrimônio caso não tivesse ido parar no bolso dos cangaceiros que nos governam.

Intuitivamente, a gente se lembra dos mais precisados ‒ hospitais e escolas em primeiro lugar. Mas falta dinheiro por toda parte. Uma sociedade tem muitas facetas e todas elas demandam atenção e cuidado. Não é aceitável que governantes não cuidem de cada uma.

AviaoO maior aeroporto do país fica em Guarulhos (SP). Tem nome de gente, mas praticamente ninguém usa: foi sempre chamado de Guarulhos e assim continuará. Além de turistas, por ali transitam homens de negócios, investidores, visitantes ilustres, todos aqueles a quem gostaríamos de dar boa impressão de nosso castigado país. Como se sabe, não há segunda chance de dar uma primeira impressão.

Pra quem chega, a realidade, logo de cara, é um choque: o aeroporto não está conectado com a metrópole por estrada de ferro. Nem metrô nem trem expresso nem bonde. Nada. A única solução para transpor os 30km até o centro é a estrada de rodagem. De carro, de ônibus, de caminhão ou de moto, tráfego pesado e eventuais enchentes terão de ser enfrentadas.

Aeroporto esteiraFosse o aeroporto recém-inaugurado, já seria surpreendente que não se tivesse pensado em construir ligação férrea ao mesmo tempo em que se instalava o terminal aéreo. Visto que foi inaugurado 30 atrás, a ausência de transporte rápido e confiável foge à compreensão de todo forasteiro.

Avião 6Em 2014, o Aeroporto de Guarulhos ficou em 30° lugar em número de passageiros. Não é pouca coisa. Nos 29 primeiros lugares, estão 12 aeroportos americanos, 4 chineses e os inevitáveis Frankfurt, Paris, Londres, Amsterdam, Tóquio.

Por Guarulhos transitam mais passageiros do que por campos de aviação importantes como Munique, Sydney, Roma, Barcelona, Toronto, Zurique, Milão, Lisboa, Copenhague. A estação aérea paulista é de longe a mais importante da América Latina. O segundo classificado, o da Cidade do México, fica em longínqua 48ª posição.

Faz 30 anos que, episodicamente, se fala vagamente em interligar o terminal com o centro da cidade. Embora, vez por outra, o assunto volte à tona, não passou, por enquanto, de conversa fiada. Os maiores aeroportos do mundo são conectados por meio confiável à metrópole mais próxima. Por que fazemos questão de continuar sendo a exceção?

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PS: O governo paulista acaba de anunciar que, pela enésima vez, fica paralisada a construção da interligação da rede de metrô ao Aeroporto de Congonhas, campo de pouso urbano.

Aeroporto Congonhas 1O aeroporto foi inaugurado em 1936, em sítio então desabitado e afastado do centro. A cidade cresceu e envolveu o campo de aviação. Contruiu-se o metrô. A primeira linha do metropolitano ‒ que passa a 1,5km do Aeroporto de Congonhas ‒ opera desde 1974. Nesses quarenta anos, as autoridades que nos governam foram incapazes de completar esse quilômetro e meio que falta. Contando, assim, parece brincadeira, coisa de filme cômico, não?

É verdade que o atual governo federal é mastodonticamente incompetente. Mas ‒ há que dizê-lo ‒ a incapacidade administrativa e o descaso com a coisa pública vêm de longe e estão incrustados na alma nacional.

Frase do dia — 255

«Incompetence, arrogance and corruption have shattered Brazil’s magic spell.»

«Incompetência, arrogância e corrupção estilhaçaram o encanto do Brasil.»

Lúcido diagnóstico da respeitada publicação britânica Financial Times, em editorial de 22 jul° 2015.

O falso problema

José Horta Manzano

Para cada fracasso, tem de se encontrar um culpado. Essa busca de um judas faz parte do mais profundo da natureza humana. Já nos recuados tempos bíblicos, a cada desgraça, um bode expiatório tinha de ser apontado. Se não houvesse ninguém disponível, ia o próprio bode para a degola.

Entrou na moda, estes últimos anos, atribuir ao instituto da reeleição males dos quais ele não tem culpa. Se a atual presidente da República abandonou suas funções para jogar-se, corpo e alma, na campanha de sua própria sucessão, não se há de lançar maldição sobre a reeleição. A responsável é uma só: a própria presidente.

Se algo errado há – e há! – a peça defeituosa é outra. Os freios da decência, os limites entre o público e o privado, os confins da moral pública vêm sendo corroídos, deletados, suprimidos desde que um certo presidente atípico descobriu o Brasil, doze anos atrás.

Crédito: meninachic.fashionblog.com.br/

Crédito: meninachic.fashionblog.com.br

Reeleição é habitual em país civilizado. Quando os eleitores estão satisfeitos com o governo, não é justo que não possam reconduzir a mesma equipe. Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Espanha, todos permitem que a equipe governamental seja reconfirmada. E isso não é fonte de nenhum mal.

No Brasil, estamos enxergando problema onde não deveria existir. A degradação acelerada do trato com a coisa pública é a verdadeira responsável. Ainda que, por hipótese, a reeleição seja abolida, o titular é bem capaz de largar suas obrigações e pôr em marcha a máquina do Estado para trabalhar pela eleição de um poste. Abandono da reeleição não é necessariamente sinônimo de saneamento da mecânica governamental.

Outro falso problema é o grande número de ministérios, frequentemente denunciado como verdadeiro festival. De novo, o mal não está na quantidade de ministros e de assessores. O que enguiça a máquina é a maneira de escolher esse pessoal, a incompetência flagrante de alguns titulares, o descompromisso da maioria deles com a função que exercem.

O governo francês atual, que não é considerado particularmente corrupto, conta com 33 ministros e secretários de Estado com estatuto de ministro. E isso não atrapalha ninguém.

Quanto à reeleição, Mitterrand, Chirac, Obama e tantos outros foram reeleitos sem que ninguém os tenha acusado de se terem apoiado no aparelho estatal. Por outro lado, embora detivessem as rédeas do poder, Sarkozy, Giscard d’Estaing e Jimmy Carter foram dispensados ao final do primeiro mandato.

No Brasil, reeleição pode não ser a solução. Mas também não deveria ser um problemão.

Basta, por favor!

José Horta Manzano

Notícia boa não vende jornal, daí ser relegada a rodapé de página. Notícia ruim faz a alegria de todo editor. Quanto pior, maior será a manchete. É da vida.

Esta semana, saiu o assustador resultado de uma pesquisa sobre a percepção que têm os brasileiros de mulher vestida com panos mais exíguos. Segundo o Ipea, 2 em cada 3 brasileiros, na impossibilidade de despachar as pecadoras para a fogueira, acham justo e correto que seu castigo seja o assédio sexual.

Para quem vive no exterior, é dose cavalar. É daquele tipo de notícia que você torce para o vizinho do lado não ter ficado sabendo. Dá vergonha de cumprimentá-lo no elevador no dia seguinte. É muito desagradável você ver seu país de origem nivelado a um Afeganistão qualquer.

Passados 2 ou 3 dias ― catapum! ― lá vem o desmentido. Não era bem isso, o resultado foi lido pelo avesso. Como é que é? Duas versões para a mesma pesquisa? Será que se pode acreditar nalguma delas?

Sondagens de intenção de voto se chocam às vezes com a realidade. Abertas as urnas, vem o desmentido. Embora irritante, é, até certo ponto, compreensível. Por alguma razão, os eleitores não terão sido sinceros em suas respostas ou, quem sabe, terão mudado de ideia na hora agá.

Crédito: Caio Leal, AFP

Crédito: Caio Leal, AFP

Já o presente caso é de outra safra. Os entrevistados não mudaram de ideia. Foram os pesquisadores que, incompetentes, se embananaram.

É inacreditável a leviandade, a displicência, a irresponsabilidade com que informações desse calibre são dadas a público. Dizer que «nove entre dez estrelas do cinema preferem tal sabonete» não traz consequências, é informação inócua. Agora, proclamar que 2/3 dos brasileiros ainda pensam como na Idade Média é muitíssimo mais grave, é constatação acachapante.

Uma informação dessa importância deveria ter passado por várias peneiras finas antes de vir a público. Com todas as notícias ruins ― mas verdadeiras ― que têm circulado fora do Brasil estas semanas que antecedem a «Copa das copas», não precisávamos de falsas informações. O que temos de ruim já basta, é favor não acrescentar mais uma camada.

É tarde demais para desmentir. O mal está feito. A notícia de que o povo brasileiro ainda vive nas trevas já deu a volta ao mundo.

Desgraçadamente, se todos publicaram a incrível informação, nem todos publicarão o desmentido. Melhor subir pela escada, que o risco de cruzar o vizinho é menor.

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Quem tiver tempo a perder vai encontrar aqui um flagrante do alastramento da espantosa notícia pela mídia internacional.

Interligne vertical 12Itália
França
Espanha
Suíça
EUA
Reino Unido
Alemanha
Suécia
Emirados Árabes

Como se escolhem os ministros

Era uma vez um rei que queria ir à pesca. Chamou seu ministro de Meteorologia e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes. O ministro assegurou-lhe que não ia chover.

No caminho, o rei encontrou um camponês montado num burro. Ao ver o monarca e seus apetrechos de pesca, o campônio achou melhor prevenir:
«É melhor Vossa Majestade regressar ao palácio porque vai chover muito.»

O rei cogitou com seus botões:
«Ora, eu tenho um ministro meteorologista ― por sinal muito bem pago ― que me disse o contrário. Vou mais é seguir em frente». E assim fez.

Burro de carga

Burro de carga

Não deu outra: a chuva torrencial logo veio e arruinou a pescaria. O rei ficou encharcado e apanhou um resfriado. Furioso, voltou ao palácio e, entre dois espirros, demitiu o ministro.

Ato contínuo, mandou chamar o camponês e ofereceu-lhe o cargo. Em sua simplicidade, o homem foi sincero:
«Majestade, não sou político nem entendo nada disso. Só sei é que, quando as orelhas do meu burro estão caídas, é sinal de chuva. Não falha nunca.»

O rei então usou a lógica: nomeou o burro.

Foi assim que teve início o costume de nomear burros que, desde então, têm as posições mais bem pagas no governo.

Insistir pra quê?

José Horta Manzano

Susana Werner, mulher do goleiro da seleção brasileira de futebol, foi vítima de assalto à mão armada, em Fortaleza. Ficou feliz por ter saído com vida.Interligne 07

Manifestantes tentaram invadir o Hotel Bahia, em Salvador, onde está hospedada a comitiva da Fifa. A Polícia Militar conseguiu segurar a turba que, enfurecida, depredou dois ônibus dedicados ao transporte dos cartolas.Interligne 07

A delegação espanhola teve dinheiro e objetos furtados de seus aposentos no hotel em que se hospedavam, no Recife. Que fique bem claro: não era a pensão de dona Mariazinha. Que fique mais claro ainda: os espanhóis são os atuais detentores do título de campeões do mundo ― portanto, o time mais visado e o que deveria, em teoria, ter sido mais bem protegido.Interligne 07

Um jogador uruguaio declarou, em entrevista coletiva, que o Brasil tem muito a melhorar para a Copa-14. Lúcido, disse que, caso os aborrecimentos de que sua delegação foi vítima, tivessem ocorrido com uma seleção europeia, o reclamo teria tido repercussão bem maior.Interligne 07

Os enviados especiais da Folha de São Paulo confirmam que, embora a Fifa não esperasse uma organização perfeita ― só faltava! ― a magnitude dos problemas está além do pior cenário imaginado. Os cartolas estão apavorados.

Antes da Copa das Confederações, os dirigentes da Fifa já se tinham conformado com muitos dos males brasileiros endêmicos. Corrupção, desorganização, promessas e prazos não cumpridos. Tudo isso já estava mais ou menos previsto e, bem ou mal, assimilado. No entanto, não contavam com o desencadeamento de um clamor popular impossível de reprimir. Sejamos sinceros, ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Essa mistura explosiva de desorganização e violência está causando problemas pesados. A Fifa está-se vendo obrigada a negociar com as delegações estrangeiras a fim de convencê-las a não abandonar o País antes do final desta copinha.Interligne 07

Quando se faz uma besteira, o melhor caminho é ser honesto, reconhecer o erro e, parodiando mestre Vanzolini, dar a volta por cima. Na era em que o Lula mandou no País, asneiras grossas foram cometidas. Algumas são já irreparáveis, outras ainda não estão consumadas.

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A questão da manutenção da Copa-14 no Brasil está sobre a mesa. Chegamos a um ponto em que as autoridades competentes deveriam parar para refletir. À vista do ensaio geral a que estamos assistindo estes dias, fica a pergunta: ainda vale a pena insistir em hospedar a próxima Copa? Não valeria mais a pena parar por aqui e deixar o abacaxi para quem se dispuser a descascá-lo?

Há países prontos para receber o evento: Alemanha, Reino Unido, Itália são alguns deles. Dispõem todos de infraestrutura adequada, vasta e bem azeitada rede hoteleira, transportes organizados.

Faz dez dias que o planeta inteiro descobre, boquiaberto, que o povo brasileiro não está tão feliz como o marketing político vinha martelando estes últimos anos. Todos conhecem agora a incompetência das autoridades brasileiras para organizar dignamente um evento de importância média, como essa copinha. A Copa de verdade é um desastre anunciado.

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Que se desista agora, antes que seja tarde demais! Não há por que envergonhar-se: a indisciplina, a corrupção e a incompetência já caíram no domínio público planetário, não dá mais para esconder.

Resta estancar a sangria. E, quanto mais rápido, melhor.