Reputações

José Horta Manzano

A direção do Facebook cassou páginas e perfis criados e mantidos pelo “gabinete do ódio”, milícia digital associada a doutor Bolsonaro. Essa central de difusão de informações enganosas tem por encargo, entre outras tarefas, a “destruição” de reputações. Pus “destruição” entre aspas porque, apesar de ser a palavra usada por dez entre dez jornalistas, não me parece adequada.

Por definição, reputação é conceito neutro; ela tanto pode ser boa quanto ruim. Tanto podemos dizer que “Fulano tem excelente reputação” quanto podemos afirmar que “a reputação de Beltrano é péssima”. Portanto, não faz sentido falar em “destruir” reputações. Boa ou má, reputação sempre haverá. Será melhor utilizar outro verbo. Há muitos à disposição: sujar, manchar, enxovalhar, emporcalhar, deslustrar, enlamear, encardir.

Antigamente, dizia-se denegrir, palavra hoje considerada politicamente incorreta. É paradoxal que “denegrir reputações” seja incorreto, enquanto “embranquecer de medo” é admitido. Fica difícil entender por que um pode e o outro não. Mas esse é assunto pra outro artigo. Vamos voltar ao que nos interessa hoje.

É interessante notar que a palavra reputação vem do latim reputatio, formada a partir do verbo reputare. Este verbo é filhote de putare, cujo sentido originário é ligado à pureza (putus = purus). Putare é a forma latina de nosso podar (=limpar, eliminar galhos inúteis).

Por associação de pensamento, putare evoluiu para o sentido mais abstrato de calcular, fazer as contas, opinar, julgar, considerar. Hoje a família é extensa. Dela fazem parte, entre outros descendentes: computar (computador), contar, deputar (deputado), imputar, amputar, disputar. E, naturalmente, todas as reputações que vêm sendo solapadas pelos gentis assessores presidenciais.

Quarentena

José Horta Manzano

Temos novena para Santo Antônio. Temos dezena (de 10 unidades). Temos trezena para Santa Brígida. Temos quinzena, que corresponde a duas semanas ou, grosso modo, à metade de um mês. Temos vintena, que se usa para exprimir quantidade ao redor de 20 unidades. Temos ainda centena.

As pessoas suspeitas de estarem contaminadas pelo coronavírus devem cumprir 14 dias de confinamento. Todos, sem exceção, dizem que o indivíduo está de quarentena. O ano de 2020 marcará um pico de uso desse termo.

Bem, errado, propriamente, não está. Só que a palavra quarentena, nesse caso, está sendo utilizada por ampla extensão de sentido. Na origem, quarentena é o período de 40 dias, tempo de resguardo estabelecido desde a Antiguidade. No caso de a quarentena durar 14 dias, por que não usar quatorzena (ou catorzena)? O termo exprime exatamente o que tem de exprimir.

O Volp traz quatorzeno (ou catorzeno), um numeral que indica o décimo quarto de uma série. A partir daí, pelo menos foneticamente, a porta está aberta para que se ouse quatorzena (ou catorzena) para o período de resguardo de 14 dias.

Observação
Dizemos: quatro, quarenta, quarentena, quatrocentos, quadrado, quadragésimo, quatriênio, quatrilhão, quarto, quadra, quadrante, quadrar, quadratura, quadriculado, quadríceps, quadrifólio – e muitos outros da mesma família. Como veem, todos começam com qua.

O patinho feio, único a escapar do qua, é o 14. Na hora de dar-lhe nome, damos preferência a catorze, com ca. (Quatorze é forma menos comum.) Curioso, não?

Publicado originalmente no blogue Língua de Casa.

Criar novo

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 8 nov 2018

Se não havia regime tributário para montadoras, o decreto presidencial cria um. O ‘novo’ sobra. De fato, vai um doce pra quem conseguir criar regime velho.

Se já havia um regime tributário para montadoras, não há por que criar outro. Se ele foi modificado, será melhor utilizar outro verbo que dê o recado.  Fica assim: «Temer assina decreto que modifica (altera, transforma, mexe com, remodela, muda) regime tributário.»

Pronto, o recado estará dado. Utilizar «criar novo» é uma tentação. Mas é baita redundância.

Não vão caber

José Horta Manzano

Imagine o distinto leitor uma procissão de mil e quinhentos magistrados, uns de terno e gravata, outros de toga, todos transpondo o portal do STF na véspera do «dia D do Lula». É multidão pra nenhum sindicalista botar defeito, né não?

Chamada do Estadão

Ok, Ok, eu sei que dá pra entender. Mas não custava fazer um esforçozinho pra encontrar verbo mais adequado e, em seguida, ajustar a frase.

Para dar o recado com precisão e elegância, vários verbos estão à disposição. Entre eles:

apelar,
recorrer,
suplicar,
pedir,
solicitar,
invocar,
valer-se,
rogar,
clamar,
requerer,
implorar,
pleitear,
requestar,
reivindicar,
exortar.

A lista não é exaustiva.

Terremoto

José Horta Manzano

Um terremoto sacudiu o centro e o sul do México ontem, pouco depois das 17h30, em plena hora de pico. Ainda que estejam acostumados a sofrer frequentes tremores de terra, os mexicanos se assustaram. O sismo de setembro passado, que deixou muitas vítimas, ainda está vivo na lembrança de todos.

Este terremoto foi de magnitude 7,2 na escala Richter e durou cerca de um minuto. Foi seguido por um mínimo de 150 réplicas. A frequência desses fenômenos fez que o México já tenha implantado um sistema de alerta. Setenta e dois segundos antes de o sismo ser sentido, a população ameaçada foi avisada por SMS, rádio, tevê e alto-falantes. Um minuto parece pouco, mas é tempo que permite correr para o ar livre ou procurar abrigo seguro.

O tremor foi ressentido até a capital, mas o epicentro situou-se em Santiago Pinoteca, cidade de 30 mil habitantes, a 400 km em linha reta. No Brasil, locutores de rádio e tevê disseram que «o epicentro foi em Pinoteca a 24km de profundidade». Escorregaram.

Terremoto: epicentro e hipocentro (foco)

Epicentro, palavra erudita formada com o prefixo grego epi (= em cima, acima, sobre), indica o ponto da superfície situado exatamente na vertical do foco do acidente sísmico. O ponto exato em que o atrito das rochas provocou o terremoto leva o nome técnico de hipocentro ‒ no presente caso, situado a 24km de profundidade. As ondas de choque se propagam em todas as direções, mas o epicentro ‒ o ponto da superfície situado mais próximo do sismo ‒ é o mais afetado.

Ouvi também que não tinha havido «alerta de tchissunâmi». O problema aí não é de inadequação vocabular, mas de pronúncia. O mundo adotou o termo tsunami para designar a enorme onda marítima que certos terremotos provocam. A palavra vem direto do Japão, país cuja língua não conhece acentuação tônica. Embora seja inabitual para nós, assim é: todas as sílabas são pronunciadas com a mesma intensidade, sem destaque para nenhuma delas. Pra facilitar, basta pronunciar tsunami como oxítona, com acento no mi. Fica mais próximo do original.

Ah, só pra terminar. O tsu de tsunami forma uma sílaba só. Não é tchissu. Lembre-se de pizza, que todos pronunciamos «pítsa» e não «pítchissa».

Este artigo, como tantas coisas em nosso país, também termina em pizza. Que fazer?

Podia ser melhor ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 23 dez° 2017

Até ‒ ou principalmente ‒ quando se usa linguagem metafórica, há que ser lógico. Impasse, por definição, é uma situação em que é impossível seguir adiante. É conceito absoluto, dificilmente adjetivável.

«Ampliar impasse», em rigor, não significa nada. Um beco sem saída não é susceptível de ser «ampliado».

Se o escriba fizer questão de tascar um qualificativo, há que escolher termo coerente. Para acentuar a imagem do impasse, caberia a noção de reforço, por exemplo. Poderia ter dito «reforça impasse», ou «acentua impasse» ou ainda «intensifica impasse». Poderia também ter optado por «mantém impasse». Podia ainda ter olhado a situação pelo outro lado: «não afasta impasse».

«Ampliar impasse» soa estranho.

Escrita pedregosa ‒ 1

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 16 dez° 2017

Escritor, dramaturgo e poeta, o professor Ariano Suassuna não apreciaria nem um pouco a chamada que o estagiário ousou no Estadão online.

«Livro que Suassuna iniciou a escrita»? Definitivamente, não.

Mais adequado será dizer:

Livro com que Suassuna iniciou a escrita (…)

ou

Livro com o qual Suassuna iniciou a escrita (…)

Vale também fazer um esforço de imaginação e torcer a frase. Por exemplo:

Livro que lançou Suassuna

ou

Livro com que Suassuna deu início à obra.

Pra ir até o fim

O uso da preposição durante não cai bem na chamada. Durante exprime um tempo determinado, com começo, meio e fim. Por exemplo:

Leu durante a viagem. (= Enquanto durou a viagem, leu. Subentende-se que, terminada a viagem, parou de ler.)

Recebeu muitas visitas durante a convalescença. (= Enquanto durou a recuperação, recebeu muitas visitas. Fica implícito que, terminada a convalescença, as visitas cessaram.)

Dizer que «Suassuna iniciou a escrita durante os anos 1980» é afirmação desconcertante. Pode até levar a pensar que, finda a década, o autor abandonou a escrita.

Melhor mesmo será dizer que «Suassuna iniciou a escrita nos anos 1980». A sentença perderá ambiguidade e ganhará clareza.

Meu pé de laranja-lima

José Horta Manzano

Nossa língua tem maneira bem prática de dar nome a árvores frutíferas. Partindo do nome do fruto, acrescenta-se a desinência -eiro ou -eira à raiz da palavra. Não funciona em todos os casos, mas dá pro gasto.

Pra compensar, o sistema serve até para alguns arbustos e até para árvores que não dão frutos comestíveis. Assim, temos: manga/mangueira, abacate/abacateiro, goiaba/goiabeira, laranja/laranjeira, tomate/tomateiro. Mas também: paineira, caneleira, magnoleira, palmeira.

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Sabe-se lá por que razão, uma correlação tão simples é cada vez mais ignorada. Em vez de cafeeiro, muitos usam «pé de café». No lugar de abacateiro, «pé de abacate». E ainda «pé de laranja», «pé de pitanga» e por aí vai. Será a lei do mínimo esforço em ação? É uma pena. Acho um empobrecimento.

Ontem, na legenda de uma bela foto, o Estadão explicou que se tratava de uma «fábrica de tijolos». Este blogueiro é do tempo em que esse tipo rudimentar de indústria se chamava olaria. A palavra deve ter-se tornado arcaica. E eu junto.

Uma curiosidade
No caso de fruta, o nome da árvore será sempre do mesmo gênero que o nome da fruta. Assim: pêssego/pessegueiro, ameixa/ameixeira, mamão/mamoeiro, pera/pereira. Há uma única exceção: figo/figueira.

Palavra certa no lugar certo

José Horta Manzano

Muitas vezes, uma palavra ou expressão pode causar incômodo. Não me refiro a palavrão nem a expressão vulgar. Falo daquele termo que deixa uma sensação de estar fora de lugar, de ser palavra certa no lugar errado.

Na linguagem oral, nem sempre dá tempo de mergulhar ao fundo dos miolos para encontrar a boa expressão. Já quando se escreve, a coisa muda. Dá tempo de pensar e se expressar apropriadamente. É hora de praticar a adequação vocabular.

Termo inadequado não é necessariamente sinônimo de erro. Uso inadequado pode, no limite, até passar adiante a mensagem. Mas, convenhamos, deixa o discurso desgracioso. Se é possível fazer melhor, por que hesitar? Não há nada a perder.

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Bafômetro
O aparelhinho que leva o sugestivo nome de bafômetro mede a concentração de álcool no sangue. A lei brasileira proíbe ao motorista dirigir com mais de 0,6g de álcool por litro de sangue. Dependendo da corpulência da pessoa, a mesma quantidade de bebida alcoólica não faz efeito idêntico. A ingestão de dois copos de vinho, que não deixará um indivíduo tipo «dois por dois» alterado, pode deixar um magricela trançando as pernas.

Portanto, não é adequado falar em «ingestão de álcool acima do permitido». Previdente, a lei não mede a quantidade ingerida, mas a concentração remanescente no sangue. A expressão utilizada na chamada foi inadequada. Melhor dizer que o teste constatou presença de álcool no sangue superior ao limite legal.

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Sujeito boa-praça
Nem sei se os jovens ainda conhecem essa expressão. Boa-praça se dizia de um indivíduo simpático, sorridente, sempre bem-disposto. De uma pessoa assim, dizem hoje que é «amigável». A mim, soa estranho. Sou do tempo em que esse adjetivo era reservado para definir desquite, divórcio, negociação, trato comercial. Nunca se descrevia pessoa como «amigável». Há de ser contaminação do inglês “friendly”.

No lugar de qualificar o sujeito de «amigável», mais vale dizer que é amistoso, amical, amável, simpático, cordial, gentil. Ou, simplesmente, amigo. A expressão utilizada na chamada soa esquisita.

Chamada Estadão
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Thank you
Pelos serviços que tem prestado ao país, doutor Sergio Moro foi homenageado com um prêmio conferido pela Universidade Notre Dame. Ao receber a honraria, o juiz pronunciou palavras de agradecimento. Na chamada da notícia, o jornal qualificou a fala do magistrado de «discurso de gratidão». Como é que é? Ficou esquisito. A palavra gratidão tem forte carga emocional (e até moral), enquanto agradecimento é gesto de boa educação.

«O acidentado demonstrou gratidão para com o bombeiro que o salvou do incêndio» ‒ é situação em que a palavra cabe perfeitamente. Doutor Moro, que não deve gratidão à universidade que o homenageou, apenas proferiu «discurso de agradecimento». Mostrou que é educado. Educado e esperançoso. Segundo o doutor, «a era dos nossos barões da corrupção está chegando ao fim»

Inxalá!(*)

(*) Inxalá é livre transcrição de interjeição árabe que significa «Queira Deus!». Está na origem de nosso oxalá, de mesmo sentido.

“Dividir”

José Horta Manzano

Não faltou boa vontade ao autor da chamada. No entanto, vasculhando na memória, não deu com palavra adequada pra exprimir seu pensamento. Empurrado pela celeridade que o ofício exige, não teve tempo de procurar.

Daí ter devidamente cercado «dividir» com esse par de aspas, como biombos a disfarçar o embaraço. Os urubus informam que o verbo não é o ideal mas, na falta de outro, vai assim mesmo.

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

Chamada Estadão, 29 dez° 2016

De fato, dividir traz a ideia de decompor um todo em partes menores, mas não inclui necessariamente a noção de repartir, de oferecer pedaço(s) a outros. Fica faltando o mais importante. Dividir é informação colateral. A ideia principal é fazer que outros beneficiem da divisão.

A língua oferece verbos mais adequados. Destaco três deles.

Interligne 18c●  O mais utilizado:
«Pessoas com deficiência vão compartilhar sistema de cotas com (…)»

●  Embora menos utilizado, este é sinônimo exato do anterior:
«Pessoas com deficiência vão compartir sistema de cotas com (…)»

●  Agora vem um verbo raro, que nem o Houaiss menciona. Assim mesmo existe e, a meu ver, é o que melhor traduz a ideia:
«Pessoas com deficiência vão condividir sistema de cotas com (…)»

Interligne 18c

Todos os três trazem ambas as ideias: dividir o todo e repartir pedaços. Se o autor tivesse utilizado um deles, não teria precisado de aspas.

O calvário é nosso

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que, ao ligar o computador, você leva um susto logo de cara? Pois hoje aconteceu.

Veja a chamada estampada pelo venerando Estadão:

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016 clique para ampliar

Chamada do Estadão, 3 nov° 2016
clique para ampliar

Este blogueiro é do tempo em que, para indicar o passado, se costumava usar o verbo haver: há dois dias, há quinze minutos, há um ano.

Ao ir-se, a doutora há de ter levado consigo a “Pátria Educadora”.

A canoa virou

José Horta Manzano

Dois mil anos atrás, os romanos já haviam pensado em conjugar duas tecnologias de navegação. As embarcações, ancestrais de nossos atuais carros «flex» ou «bi flex», podiam ser propulsadas de duas maneiras. Quando havia vento, desfraldavam-se as velas. Quando reinava a calmaria ‒ ou também em caso de vento desfavorável ‒ um batalhão de escravos punha-se a remar freneticamente. Para aumentar a velocidade, as duas modalidades de propulsão podiam ser postas a funcionar conjuntamente.

navio-3O número elevado de tripulantes tinha seu custo. Alojar e alimentar toda aquela tropa demandava recursos. Por seu lado, a multidão era útil em caso de a nave, por algum problema de vedação, fazer água. Cada um com seu balde, os marinheiros impediam o barco de ir ao fundo.

O problema maior não vinha, portanto, de defeito de fabricação. O perigo grande era a embarcação de madeira chocar-se contra escolhos. Aí, não havia balde que resolvesse. Quando a madeira batia com força em pedra, não havia como escapar: o barco se quebrava, se partia em dois e afundava.

Está aí a origem da palavra latina naufragium, que corresponde a nosso naufrágio. É evolução de navifragium, de navis (barco) e fragium (da raiz frangere). Frangere, que significa justamente partir ou quebrar, deu vários filhotes em nossa língua: fratura, fragmento, frágil, sufrágio. E, naturalmente, naufrágio.

No naufrágio romano, a nave ia necessariamente ao fundo. Quebrada, não tinha como escapar a seu triste destino. Dois mil anos mais tarde, embarcações continuam naufragando, ainda que nem sempre se partam ao meio.

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Chamada do Estadão, 30 out° 2016

Um barco fretado pela Justiça Eleitoral sofreu um acidente no norte do país. A mídia publicou a impressionante imagem da embarcação sinistrada. Disseram que o barco afundou. Erraram. Como o nome indica, afundar é ir ao fundo. Não foi o que aconteceu.

Vamos ressuscitar palavras pouco usadas? Se são úteis e dão bom recado, por que não? Para descrever a cena do acidente, o jornalista teria sido mais feliz se tivesse dito que o barco virou ou que se deitou. Podia também valer-se do verbo tombar. Para ser mais explícito, o jornalista poderia até ter dito que o barco encalhou e tombou. Outra opção teria sido a palavra adernar.

Tem mais uma: soçobrar(*). Diga-se, a bem da verdade, que soçobrar significa virar de ponta-cabeça, que não foi exatamente o que aconteceu com nossa embarcação. Seja como for, não convém anunciar que afundou. Não afundou.

Interligne 18cNota etimológica
Soçobrar vem do catalão sotsobrar. Lá pelas bandas de Barcelona, para dizer que algo está de cabeça pra baixo, dizem sotsobre ‒ literalmente «sob-sobre». O italiano se vale da mesma imagem: sottosopra.

A galinha do vizinho

José Horta Manzano

Assim como possuir não é sinônimo perfeito de ter, o verbo colocar tampouco é sinônimo perfeito de pôr. Cada macaco no seu galho.

Ovo 2Colocar tem muitas acepções. Quando significa pôr em algum lugar, carrega uma nuance de arranjar, ajeitar, acomodar, dispor de uma certa maneira. Colocar flores num vaso, colocar bibelôs numa prateleira, colocar vírgulas numa frase, colocar os convidados em volta da mesa ‒ são usos que soam bem.

Muito se tem falado da rápida propagação do mosquito Aedes aegypti. O mosquito ‒ especialmente a mosquita, segundo nossa presidente ‒ garante a reprodução da espécie por meio de ovos. Como outros insetos, aliás.

É surpreendente ver e ouvir com frequência que a fêmea pode colocar ovos. Este blogueiro é do tempo em que mosquitos ‒ especialmente mosquitasbotavam ovos. Quem tiver antipatia por esse verbo, pode usar pôr, que funciona do mesmo jeito. Colocar, francamente, não é a melhor opção. Pode desagradar à mosquita.

Vivemos numa democracia. Nada impede que a mosquita, depois de botar seus ovinhos, os coloque noutro lugar, dispostos em ordem de tamanho, por exemplo. Não há, porém, notícia de que proceda assim.

Interligne 28a

de Minas 247, 26 fev° 2016

da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

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d'O Globo, 26 fev° 2016

d’O Globo, 26 fev° 2016

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da Folha de São Paulo, 26 fev° 2016

de Minas 247, 26 fev° 2016

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Inadequação vocabular – 6

José Horta Manzano

Não sei se o distinto leitor terá reparado que certas palavras entram na moda. E vêm com tal força que empurram todos os sinônimos para o bueiro.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Tenho notado o uso cada dia mais sistemático do verbo defender no sentido de aconselhar, preconizar.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Andei observando a edição online de sábado 26 set° dos três maiores jornais nacionais: Estadão, Folha de São Paulo e O Globo. Não foi preciso ir além da primeira página. Encontrei oito chamadas nas quais defender poderia – com vantagem – ser substituído por verbo mais expressivo.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Há dezenas de possibilidades. Como nem todo sinônimo é perfeito, cabe ao escrivinhador decidir-se por este ou por aqueloutro na hora de compor o texto.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Entendo que o frenesi desta era de informação instantânea não deixe o tempo de refletir sobre o melhor termo.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Assim mesmo, convenhamos, quando a escolha é tão vasta, fica no ar a desagradável impressão de que o conhecimento do vocabulário continua encolhendo. Não estamos longe da indigência total.

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Chamada Estadão, 26 set° 2015

Em alguns casos, o título chega a ser nebuloso, destinado a ser entendido apenas por iniciados. Quando se lê que “Janot defende depoimento de Lula”, o recado que chega é que o Lula já depôs, e que suas palavras – atacadas sabe-se lá por quem – estão sendo defendidas por um certo senhor Janot. Qualquer distraído periga entender assim.

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Chamada O Globo, 26 set° 2015

Caso algum distinto leitor conheça um fazedor de manchetes, solicito-lhe a fineza de fazer chegar ao profissional esta lista – não exaustiva – de verbos que dão recado igual ou até mais nítido que o cansativo defender.

Chamada Folha, 26 set° 2015

Chamada Folha, 26 set° 2015

Aqui estão eles:
Preconizar, aconselhar, orientar, recomendar, sugerir, propor, indicar, alvitrar, prescrever, estimular, insinuar, pregar, solicitar, apregoar, elogiar, lembrar, requerer, exigir, instilar, postular, exaltar, pedir, louvar, aventar, enaltecer, propagandear.

São 26. Há mais.

Reação vigorosa

José Horta Manzano

No Estadão online deste 30 maio 2015, aparece a chamada: “Joseph Blatter diz que ação dos EUA contra Fifa é revanche”.

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

Chamada do Estadão, 30 mai 2015

A bem dizer, errado não é. Mas a língua oferece outras palavras que dão o recado com maior precisão. São elas: retaliação, desforra, revide e vingança.

Convém guardar revanche para o domínio esportivo. Assim: “A seleção de futebol do Brasil, que perdeu para a Alemanha, não vê a hora de conseguir sua revanche.”

Vivo ou morto

José Horta Manzano

Mais do que regrinhas de acentuação ou de hifenização ― que mudam da noite pro dia e cuja lógica nem sempre é evidente ― dou grande valor à adequação vocabular. Encontrar o termo mais adaptado a cada contexto demanda um pouco de esforço. Na oralidade, não tem jeito: como não há tempo para pensar, cada um usa a palavra que lhe vem à cabeça. Na escrita, é outra coisa.

Em artigo deste 7 de dez°, o Estadão nos brinda com este período um tanto claudicante(*):

«A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros vivos para acompanhá-la em viagem a Johannesburgo, onde será celebrada uma missa em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, morto quinta-feira após uma infecção pulmonar.»

Tenho 4 reparos a fazer:

1) Vivos
Ex-presidentes vivos? A formulação não é das mais felizes. Não estamos na Venezuela, onde presidentes mortos continuam a se manifestar sob forma de pajaritos. O que é evidente dispensa ser explicitado. Dona Dilma só poderia convidar o vivos. Podia até ter-se limitado a levar seu padrinho a tiracolo, mas ia pegar mal. Para não fazer feio, estendeu a carona aos outros. Excluiu os mortos, naturalmente.

2) Homenagem
Dizer que uma missa será rezada «em homenagem» a um defunto soa estranho. Salva de palmas, bandeira a meio pau, minuto de silêncio são homenagens. Missa, não. Tradicionalmente, missas são ditas (ou rezadas) em intenção de um falecido ou pelo sufrágio de sua alma. Se se fizer questão de manter o termo “homenagem”, melhor será dizer que os presentes assistirão a uma missa incluída no programa de homenagens ao defunto.

3) Morto
O artigo diz : «(…) Nelson Mandela, morto quinta-feira (…)». Sem dúvida, o homem morreu. Tecnicamente, a frase está perfeita. Mas ― convenhamos ― para um ancião que morreu de velhice, a palavra é um tanto crua. Melhor substituir morto por uma expressão mais suave, como falecido, desaparecido, que se extinguiu, que nos deixou, que expirou, que se foi.

4) Após
«Morto após uma infecção pulmonar» ― diz o texto. Não tive acesso ao boletim médico, muito menos ao atestado de óbito. Mas é permitido supor que a causa mortis tenha sido exatamente a infecção pulmonar. Portanto, Mandela não morreu após a doença. Morreu de ou por causa dela.

Interligne 18b
Reescrito com mais apuro, o período fica assim:

A presidente Dilma Rousseff decidiu convidar os ex-presidentes brasileiros para acompanhá-la a Johannesburgo, onde será celebrada missa em intenção do líder sul-africano Nelson Mandela, falecido quinta-feira de infecção pulmonar.

Fica mais arejado, não acham?

(*) Claudicante é a forma politicamente correta para manquitola, coxo, manco.

Pibão & pibinho

José Horta Manzano

Anda muito na moda falar em PIB. Estes últimos dias, a cúpula do governo anda meio atarantada entre declarações e desmentidos. Nossa presidente andou proclamando à imprensa internacional que os números do ano passado não eram bem aqueles, que o resultado era outro, que era quase o dobro, que a confusão estava para ser desfeita, que a economia brasileira ia muito bem, obrigado, que qualquer um pode se enganar, que eles iam ver o que eles iam ver.

Pibão

Pibão

Os números de 2012 não eram grande coisa, logo, o crescimento espetacular anunciado pela presidente criou expectativa no mundo das finanças. De repente, catapum! No frigir dos ovos, feitas e refeitas as contas, mudança não houve. Os indicadores ficaram praticamente no mesmo lugar.

Procura-se desesperadamente um bode expiatório que nos livre a todos do vexame. Que ninguém se espante se o porteiro ou a mulher do café forem demitidos ― ou afastados, como se diz hoje em dia. Isso feito, a honra estará lavada.

Esse melodrama põe em evidência um modismo que anda confundindo muita gente. Na maior sem-cerimônia, jornalistas ― alguns até especializados na área econômica ― andam dizendo coisas do tipo «o PIB foi de 0,9%», «para o ano que vem espera-se um pibão de 2,5%», «o Brasil tem conhecido um PIB médio de 2%».

Estão atirando no que viram e acertando o que não viram. De roldão, estão desorientando o distinto público leitor. PIB é sigla que abrevia a expressão Produto Interno Bruto. Em inglês, usa-se GDP, Gross Domestic Product.

É o índice mais representativo da produção econômica de um país. Mede a riqueza produzida durante um determinado período. Para chegar a esse resultado, faz-se a soma teórica de toda a produção e de todos os serviços prestados dentro do território nacional.

Pibinho

Pibinho

O PIB, portanto, é representado por um número. Anda pela casa dos bilhões ou dos trilhões, conforme a importância da economia do país. Para facilitar comparações, costuma vir expresso em dólares.

Não faz, portanto, sentido proclamar que «o PIB foi de 0,9%» ou que «será de 2,3%». Convém usar as expressões corretamente. Não é tão difícil assim. Melhor será dizer que «o PIB teve aumento de 0,9%», ou que «o crescimento do PIB foi de 0,9%», ou que «o PIB deve encolher 0,1%». Pibões têm os EUA, a China, o Japão. Na outra ponta, o Haiti, o Tchade, o Tadjiquistão têm pibinhos. A cada ano que passa, todos se modificam. Cada um deles pode crescer ou encolher. Tanto o aumento quanto a diminuição virão, aí sim, expressos em porcentagem. Já o PIB será sempre um número.

No fundo, bom mesmo é que o PIB seja repartido equanimemente e beneficie toda a população.

Displicência

José Horta Manzano

O Decreto n° 7.166, assinado em 5 de maio de 2010 pelo então presidente da República, foi publicado no Diário Oficial da União no dia seguinte. Criava o Sistema Nacional de Registro de Identificação dos cidadãos. Seus 15 artigos descem a minúcias, como convém a todo texto legal brasileiro que se respeite.

O artigo n° 13 é categórico. Entre outros pontos, determina que o documento goza de fé pública e será válido em todo o território nacional. Simplificou, assim, a tarefa dos encarregados de dar forma gráfica ao papel oficial. Bastaria, além dos dados biográficos do cidadão, acrescentar a importante menção quanto à fé pública e à extensão territorial da validade. Pois não é que os grafistas conseguiram errar?

Não sei se o erro persiste ― que cada leitor confira seu documento. Na sequência do decreto, o governo tratou de disseminar o facsimile do novo modelo. Mas a displicência, um dos infelizes traços marcantes do espírito nacional, se interpôs entre o texto do decreto e a concretização do documento.

Registro de Identidade Civil

Registro de Identidade Civil

Reparem no modelo aqui acima. Verão que o texto comporta um erro grave. Não é só gramatical, não. O legislador quis dizer uma coisa e acabou dizendo outra muuuuito diferente. Ser válido em todo o território nacional significa ter validade no Brasil inteiro. Ser válido em todo território nacional dá outro recado. Confirma a validade do documento em todas as nações, o que não é verdadeiro.

Mas não se espante, caro leitor. A displicência geral e a liberdade atrevida que o brasileiro costuma tomar com a língua vêm de longe. Durante dezenas de anos, o documento de identidade ― cujo nome já foi Carteira de Identidade, RG, Cédula de Identidade e outras variantes ― trouxe um outro erro de adequação vocabular. A enormidade atravessou gerações até que uma alma caridosa resolvesse pôr fim ao disparate.

Carteira de Identidade ― Início do séc. XX

Carteira de Identidade ― Início do séc. XX

Na primeira metade do século XX, documentos descreviam o jamegão do retratado como assinatura do portador. Ora, vejam só! Portador é quem porta, quem leva, quem carrega algo. A palavra foi mal escolhida. Deveria estar escrito que era a a assinatura do titular. Hoje o problema desapareceu. O titular assina, e pronto. Desapareceu a legenda explicando que a assinatura é a assinatura. Melhor assim.

Carteira de Identidade ― Anos 60

Carteira de Identidade ― Anos 60

Tem mais. As cédulas de cruzeiro, unidade monetária que entrou em vigor em 1942, trouxeram um erro gramatical estampado bem na frente, visível, logo embaixo do nome do País ― que era, por sinal, Estados Unidos do Brasil. Estava anotado: «Se pagará ao portador desta a quantia de…». Isso significava que quem levasse a nota ao Tesouro Nacional poderia reclamar seu valor em ouro. Nunca vi ninguém fazer isso, mas a garantia estava lá.

Muito bem, na linguagem caseira de todos os dias, dizemos todos «Me dá aquilo ali!». A decência, no entanto, exige que se use a norma culta em documentos oficiais. Se uma nota de dinheiro não for documento oficial, o que será?

Cédula antiga ― Cruzeiro (1942 a 1967)

Cédula antiga ― Cruzeiro (1942 a 1967)

Não deu tempo de substituirem o «Se pagará» por um «Pagar-se-á» nem mesmo por um «Será paga». Uns doze anos depois da introdução do cruzeiro, a inflação já havia corroído a tal ponto o valor da moeda que a expressão desapareceu das notas. E a menção «valor recebido», que figurava logo abaixo do medalhão com um personagem histórico, passou a ser «valor legal».

Que marqueteiros afaguem o povo impondo bordões gramaticalmente errados tais como «vem pra caixa você também» ou «este, eu confio» dá pra engolir, é desculpável. Mas, francamente, topar com essas enormidades em papéis oficiais é de doer.