O homem do tempo

José Horta Manzano

Nos anos 1960, um conhecido jornalista paulista, então ancorado na Rádio Panamericana, começou a dar um boletim diário de previsão do tempo. O jornalista era Narciso Vernizzi e a estação mudou de nome alguns anos mais tarde, tornando-se a Rádio Jovem Pan. Àquela altura, era conhecida como a “emissora dos esportes”, nada deixando pressupor que viesse um dia a se tornar uma rádio bolsonarista.

Vez por outra, Narciso, o jornalista agora já falecido, deixava transparecer quão precários eram os meios de previsão meteorológica 40 ou 50 anos atrás. Ele dizia: “Hoje telefonei para meu amigo Fulano, de Buenos Aires, que me informou que por lá já está chovendo, portanto a frente fria deve chegar por aqui amanhã ou depois”.

Contando isso hoje, parece mentira, mas acredite: na época, os ouvintes se maravilhavam de ver que o jornalista tinha um amigo em Buenos Aires (no estrangeiro!) que lhe dava informações tão úteis.

Esta reta final de campanha eleitoral anda difícil de decifrar. Sente-se que está até mais acirrada que a de quatro anos atrás, quando o Lula ganhou por pontos, por alguns pontinhos, fato que nenhuma empresa de sondagens tinha detectado.

Não se sabe se os institutos se tornaram demasiado prudentes; será talvez para evitar repetir o fiasco de 2022. Ou, quem sabe, o jogo está embolado mesmo. Li hoje que, das 9 pesquisas mais recentes de 2° turno, 4 dão um dos candidatos como vencedor, enquanto 5 institutos apontam a vitória do outro candidato. Durma-se com um barulho desses.

Uma hesitação tão flagrante por parte do eleitorado me parece inquietante. Temos, de um lado, um veterano que, adicionados todos os mandatos, está terminando seu 12° ano de governo. De outro lado, temos um principiante, sem histórico executivo, cujo trunfo único é ser filho de um ex-presidente da República, hoje em prisão domiciliar.

Dá vontade de fazer como o velho Narciso Vernizzi, e ligar para o amigo de Buenos Aires para ver se já está chovendo por lá.

O discurso na ONU

Lula na ONU , 22 set° 2026

José Horta Manzano

A cada vez que nosso ex-presidente, hoje preso, subia à tribuna da ONU para proferir seu discurso anual, os brasileiros ligados já sentiam subir pela garganta o incômodo de ter de ouvir enormidades. Me lembro de ele ter-se gabado, uma vez, de ter “livrado o Brasil do socialismo”. Esqueceu-se, ou simplesmente não sabia, que grande parte dos países europeus já teve governo socialista: Suécia, Alemanha, França, Espanha, Portugal, Noruega e outros mais. Nenhum deles naufragou, muito ao contrário. O autor dos discursos de Bolsonaro tinha a mente tão entupida quanto a do patrão.

Já o discurso que Lula pronunciou estes dias na mesma tribuna foi elaborado com engenho e arte. Muito bem estruturado e articulado. Não foi um discurso de campanha, como julgaram alguns. Veja só, numa disputa acirrada em que nenhum voto pode ser desperdiçado, Luiz Inácio ousou tachar Netanyahu e o governo de Israel de genocidas. Sente-se que, nesse momento, Lula não falou para plateia nenhuma. Ele disse bem alto o que muitos pensam em voz baixa.

Para aqueles que desfilam no 7 de Setembro enrolados na bandeira israelense, não há de ter sido um convite a votar pela reeleição do atual presidente. Se havia votos a desperdiçar, aqui foram alguns pelo ralo.

Aliás, essa acusação de genocídio lançada contra o Estado de Israel, embora muitos concordem, é pouco diplomática. Há outras maneiras de expressar descontentamento sem apelar para esse tipo de expediente. Mas entendo a explosão de raiva que Lula deve estar sentindo desde que foi etiquetado como persona non grata em Israel por esse mesmo governo Netanyahu. Sua fala foi uma espécie de revanche. Assim mesmo, teria sido melhor não se expressar assim.

Longe de discursar para ganhar votos, Lula falou como verdadeiro estadista, em contraste com os discursos tradicionalmente pronunciados por presidentes brasileiros – incluindo suas proprias falas dos anos anteriores.

Tratou de Gaza, falou do Tribunal Penal Internacional, mencionou a Cisjordânia ocupada. Discorreu sobre o Irã, a guerra Russo-ucraniana. Criticou o regime da Nicarágua (Aleluia!), lembrou do desprezado Haiti, disse duas palavras sobre a Venezuela. Estendeu-se um pouco mais sobre o drama atual de Cuba.

A meu julgar, os redatores do discurso não se lembraram de que as palavras do presidente estariam sendo traduzidas nas 6 línguas oficiais da ONU. Expressões difundidas no Brasil, mas desconhecidas no exterior, deveriam ter sido substituídas. Por exemplo, Escala 6×1, Tarifaço, BETs deveriam ter sido mais bem explicadas.

Na frase “Impor derrota ao negacionismo”, ficou faltando explicar que se trata de negacionismo climático, e não do negacionismo que antissemitas propagam desde 1945, negando que as câmaras de gás tenham existido.

O ponto alto do discurso – não sei se era a intenção dos autores, mas é o que ocorreu – foi quando Luiz Inácio garantiu que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. De tão genial e marcante, a frase ecoou em numerosas línguas estrangeiras, de “backyard” a “giardino di casa”, cada um traduziu a seu modo, que nem todos têm quintal.

Não sei se os brasileiros têm noção do privilêgio que nos é concedido de poder ser o primeiro a discursar a cada ano, antes mesmo do dono da casa. Além de o Brasil passar em primeiro, nossa fala precede a dos EUA. Essas duas razões fazem que a plateia esteja lotada e nos escute com atenção.

Os demais países, que não gozam do privilégio de ser os primeiros, discursam na terça, na quarta, e assim por diante, até o sábado. Sempre com plateia esvaziada, diga-se. A França, por exemplo, país fundador e membro permanente do Conselho de Segurança, falou na 3ª. feira de manhã em 14° lugar. Imagine como a plateia já estava cansada de ouvir discurso. À Itália coube discursar na quarta-feira à tarde, o 17° discursante da tarde, ou seja, o 38° do dia.

Percebem o imenso privilégio de ser o primeiro?

Se Luiz Inácio conseguir se reeleger, temos uma boa perspectiva para o discurso de abertura da ONU para os próximos anos. Se ele perder, que é que se pode fazer? Esperar que o filho seja menos primitivo que o pai.

Se bem que… é permitido duvidar.

De carona para o Rio

José Horta Manzano

Uns trinta anos atrás, quando a internet ainda estava longe de se popularizar como atualmente, alguém me disse: “Se você for a pé daqui até o mercadinho da outra rua, quando chegar lá já terá sido filmado pelo menos umas dez vezes”. Fiquei impressionado. De lá pra cá, não digo que caminho pela rua sorrindo para as câmeras, mas me tornei consciente de que, nos dias que correm, somos mais (e mais bem) espionados que na Europa Oriental na época da Guerra Fria.

Ninguém escapa, grandes e pequenos, ricos e pobres, graúdos e povão. Todos deveriam se conscientizar da realidade deste começo de século XXI. Nos velhos filmes policiais, mensagens vinham pelo correio. O destinatário, depois de tomar conhecimento da missiva, simplesmente atirava o papel ao fogo da lareira (sempre convenientemente acesa nessas horas). E pronto. Nada sobrava.

Essa moleza acabou, como todos sabem. Os Correios estão bambos das pernas, faltos de correspondência, sem saber direito como reorientar.seus negócios. Recados e palavras de ordem hoje, mesmo as mais recônditas como quando se urde um golpe de Estado, vão por aplicativo de mensagens. E todos se sentem protegidos, tanto o remetente, quanto o destinatário.

Pois não deveriam ficar tão tranquilos. Diferentemente do passado, quando cartas queimadas na lareira se calavam para todo o sempre, as mensagens de hoje são a criação humana mais próxima da eternidade. Exagero, é verdade, mas é mais fácil derrubar um avião que fazer sumir mensagem mandada por uotisápi.

Muito bandido experiente e muito aprendiz de bandido tem feito a amarga experiência: remover as mensagens do telefone e acreditar ter apagado todas as digitais. Engano torto. A PF tem métodos complexos para fazer reviver textos que o proprietário do aparelho imaginava deletados para sempre.

Se não conseguirem, resta sempre a nuvem, à qual conseguem ter acesso em casos específicos. Se esta também falhar, há a outra ponta da linha. Não se deve esquecer que uma mensagem tem um remetente e um destinatário. Basta escarafunchar o telefone de quem recebeu o recado. Até hoje, na crônica policial brasileira, não se sabe de quem tenha escapado.

Assim mesmo, tem gente graúda e inteligente que ainda não assimilou a história da caminhada até o mercadinho e das dez câmeras a registrar tudo o que ocorre. Se você ou eu formos até a esquina, tanto faz que sejam 10 ou 50 câmeras a nos seguir, visto que não somos procurados pela polícia, nem figuras públicas de projeção. Nossa passagem não há de despertar rumor.

Dia 22 de agosto de 2025, uma câmera instalada no Aeroporto Santos Dumont (RJ) acompanhou o pouso de um jatinho executivo até parada dos motores. De dentro dele, saltaram o ministro Alexandre de Moraes e esposa. Um carrão encostou ao lado do aeroplano, à espera dos chegantes. A cena não teria nada de extraordinário, não fosse um detalhe: o jatinho Legacy 650 prefixo PP-NLR pertencia a uma empresa de Daniel Vorcaro.

Quem descobriu a história apimentada foi o jornalista Lauro Jardim, que a publicou no jornal O Globo deste domingo. Com um videozinho para confirmar.

Pelas investigaçôes da PF, o escritório da mulher de Moraes finha fechado contrato de dezenas de milhões de reais com uma empresa do banqueiro exatamente 3 meses antes.

Naquela altura o Ministério Público já havia recebido do Banco Central um comunicado apontando fortes indícios de crime de gestão fraudulenta nas operações envolvendo o Banco Regional de Brasília e o Banco Master, de Vorcaro.

Em nota oficial de abril deste ano, Alexandre de Moraes foi taxativo ao afirmar que “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Como se vê, não era exatamente isso.

É aqui que entra minha surpresa. Como é possível um homem matreiro e velho de guerra como Moraes se enrolar em mentiras desse calibre? Todo o mundo sabe que há câmeras nos aeroportos, dentro dos salões e na área das pistas. Ele imaginou talvez que, se nada tinha aparecido até então, não apareceria nunca. Pisou na bola.

Fazer coisa errada dá muito trabalho. O infrator tem de considerar todas as possibilidades, evitar afirmações “taxativas”, alegar memória fraca. Alexandre agiu como réu primário, se posso me exprimir assim.

E agora, seu Alexandre?

Bom, podem encontrar mais quinhentos videozinhos, isso não vai mudar nada. Já está combinado, até com os russos, que Alexandre e todos os colegas serão poupados e inocentados. Quem sabe até recebem um bônus dobrado no fim do ano.

Os podres de todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, a água estagnante que banha os altos círculos da República deixou aflorar os primeiros relentos do “dossier” Vorcaro. Naqueles mesmos dias, talvez pouco antes, doutor Fachin, presidente pro rata temporis do STF, havia proposto a seus colegas a introdução de um código de ética que regulasse o comportamento dos magistrados.

O código foi prontamente rejeitado por alguns dos ministros. À época, ninguém ligou coisa com coisa, o que é que o caso Vorcaro tinha a ver com a rejeição de um código de conduta. Pareceu apenas orgulho de certos membros que recusavam sofrer a humilhação de ver seus atos limitados por um cabresto virtual. Hoje, estourados os escabrosos escândalos dos últimos dias, compreende-se a razão da recusa do cabresto. Não era orgulho ferido, não, senhor.

O estudo do rastro das digitais deixadas no telefone de Vorcaro demonstra o envolvimento – de “irmão”, em alguns casos – entre certos integrantes do STF e o ex-banqueiro trambiqueiro. Pessoalmente ou por intermédio de parentes, estão implicados Gonet (PGR), Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques, Luís Fux. Não se sabe se a decodificação do celular já terminou, portanto, pode haver mais surpresas no fim da linha.

Em maior ou menor grau, todos os mencionados estão envolvidos, O mais encalacrado, até agora, é Alexandre de Moraes, que também é, por coincidência, o que recebeu (por intermédio da esposa) o montante mais elevado.

Por mais que Vorcaro fosse generoso (como todos os que esbanjam dinheiro alheio), não acredito que tenha distribuído essa grana toda encantado pelo brilho da careca de Moraes ou pelo aspecto sizudo e distante de Toffoli. Alguma transação havia. Até agora não vazou qual seja. Qualquer hora vem.

Não tive fígado para assistir aos insultos que Suas Excelências trocaram nos debates desta semana. Prefiro não descambar da perplexidade direto à depressão. Nem aos cortes e videozinhos assisti. Achei que não valia a pena.

Sou de outro tempo, de quando não se ouviam palavrões. Em família, não se discutia no almoço de domingo, ainda que houvesse ademaristas e janistas em volta da mesa. Sei que hoje não é mais desse jeito. Assim mesmo, tenho dificuldade em acompanhar debate entre homens togados que se atiram impropérios.

Os senhores ministros que fizeram o que nunca deveriam ter feito e foram apanhados com a calça nas mãos não têm escolha: têm de renunciar ao mandato, pendurar a toga no gabinete de despacho, esvaziar as gavetas e chamar um táxi para casa.

Quatro ou cinco demissões de uma vez? É surpreendente, mas seria o melhor caminho. Melhor do que se segurar na cadeira manca e conservar o mandato no grito. A vergonha, se é que a sentem, veio para ficar. Olhados com desconfiança, serão até o fim da existência.

Enriqueceram, mas perderam a honra. É pena.

Eleições vêm aí – 3

Cantar de galo

José Horta Manzano

Quintal do vizinho
Lula às vezes parece discursar para fãs que aplaudem sem ouvir e para jornalistas sonolentos que ouvem sem escutar. No 11 de set°, durante um ato de campanha em Porto Alegre, explicou que estará na sessão de abertura da ONU daqui a uma semana. Como de hábito, será o primeiro a discursar, e dirá a Trump: “Eu não me meto nas eleções americanas porque é uma coisa que interessa ao povo americano”. Acrescentou que “o filho da dona Lindu (ele, Lula) gosta de respeitar e de ser respeitado”.

Estamos habituados a tanta falsidade neste Brasilzão de Deus, que ninguém se preocupou em checar as palavras de Lula. Nestes tempos em que não precisa mais consultar arquivos de jornal para verificar, levei exatamente 45 segundos para encontrar o que procurava. Dia 1° de novembro de 2024, em entrevista ao vivo a LCI, canal televisivo francês, Lula se exprimiu sobre as eleições presidenciais americanas, confirmando sua preferência pela vitória da candidata democrata, Kamala Harris, diante de Donald Trump.

A plateia que aplaudiu a fala de Lula em Porto Alegre pode ter apreciado o que ouviu. Mas Trump, que às vezes costuma ser bem informado, há de ter achado estranho ver mais um mentiroso liderando país importante. Ele deve até ter comentado: “Welcome to the club!”

“Os que me seguem”
É curiosa a capacidade que um facho de holofotes tem de fazer o enfocado subir no salto, vestir a saia justa e cantar de galo. Até outro dia, o senhor Augusto Cury, hoje candidato à Presidência da República, era autor de livros de autoajuda, conhecido apenas entre os adeptos desse gênero de literatura. A candidatura a cargos eletivos está aberta a todo cidadão brasileiro, dentro de certas regras – por exemplo, fichas sujas não podem concorrer.

Com a candidatura aprovada por seu partido político, sr. Cury decidiu concorrer. Estes dias, numa entrevista, foi questionado sobre quem apoiaria no segundo turno, caso ele mesmo não passasse pelo “vestibular” do primeiro. O candidato não se fez de rogado, deu logo sua resposta. Declarou que apoia Flavio B., mas com uma condição: de que ele prove que não houve corrupção na ajuda de milhões de dólares recebidos para financiar o filme em louvor ao pai. E tem mais: para, enfim, apoiar plenamente o filho do capitão, Flavio B. vai ter de “pegar o meu plano de governo e, num cartório, assinar que vai executá-lo”.

É aqui que entram o salto, a saia justa e o galo a cantar. Cury acrescenta: “Se ele (Flavio B.) fizer isso, as pessoas que me seguem estão liberadas para votar nele”. Disse isso com a candura dos que acreditam piamente ser donos do eleitorado, que primeiro espera que seu Mestre mande, para em seguida repensar seu voto.

Dito isso, renego o artigo que escrevi algumas semanas atrás. Deixei-me levar pelo ar sério desse senhor. Vislumbrei ali uma fresta de luz para o Brasil sair das trevas atuais. Infelizmente, não é assim. Penitencio-me.

Com alguém que recomenda voto em Flavio B., seja por que motivo for, seja com as ressalvas que forem, o facho de luz se extingue. Cury não prometeu indultar Bolsonaro pai. Mas também não prometeu deixar que o Judiciário cuide dos problemas que lhe dizem respeito. Convém guardar distância desse iluminado.

Volta à solteirice

Suíça: Câmara dos Deputados

José Horta Manzano

Uma parlamentar suíça de direita apresentou um projeto de lei que me pareceu interessante. Ela propõe que o estado civil de “divorciado(a)” seja suprimido. Dito assim, parece estranho. Mas a argumentação que sustenta a ideia soa razoável e lógica.

O projeto foi protocolado em junho passado. Seguindo o rito suíço, foi encaminhado ao Conselho Federal (o Executivo colegial, composto de sete ministros). Os “sete sábios”, como são chamados, devolveram o projeto neste 10 de setembro, com sua benção para que seja encaminhado ao Parlamento, onde será discutido e aprovado (ou não). Isso quer dizer que o Executivo, que verifica se novos projetos são compatíveis com a Constituição, não viu nenhum empecilho.

Resumo da argumentação da deputada

O direito suíço reconhece diversos estados civis, entre os quais aparece o de “divorciado(a)”. Essa qualificação subsiste às vezes por décadas depois de o casamento ter sido desfeito.

O estado civil tem por função principal descrever a situação jurídica atual de cada pessoa, e não detalhar seu percurso na vida. Assim, uma pessoa divorciada não está mais casada. O divórcio constitui um fato jurídico já ocorrido e não uma situação jurídica atual.

Manter permanentemente o estado civil de “divorciado(a)” equivale a fazer durar administrativamente a referência a um fato que pertence à esfera privada.

De toda maneira, a menção de eventuais divórcios passados permanece inscrita no histórico do registro civil, de modo que a informação não se perde e poderá ser acessada quando necessário.

E, na prática, como fica o estado civil do divorciado? Pois simplesmente volta a ser “solteiro(a)”. Ninguém precisa saber se a pessoa foi casada ou não.

Nosso país, especialmente neste momento, se debate em meio a problemas bem maiores que uma mexida no balaio de estado civil. Assim que a poeira baixar, se é que vai baixar antes do término das obras de Santa Engrácia, fica a ideia para algum deputado bem-intencionado.

Observação
No Parlamento suíço, deputados de todas as correntes políticas viram com bons olhos o novo projeto. Assim, a lei deve ser aprovada.

É daquelas ideias nas quais a gente nunca pensa, mas quando aparecem, a gente se diz: “Como é que eu nunca pensei nisso?”.

Mercator

Projeção Mercator (alto)
Projeção Equal Earth (baixo)

José Horta Manzano

Lá pelos séculos 15 e 16, portugueses e espanhóis assombraram o mundo por sua temeridade ao navegar mares afora e por possuírem técnicas tão avançadas de navegação. Sabe lá o que é deixar o estuário do Rio Tejo, que é um lago plácido, ou as águas mansas do Rio Guadalquivir, que é pouco mais que um riacho, para se aventurar em mar tempestuoso, talvez povoado por criaturas monstruosas, em embarcações que mais pareciam casquinhas de noz?

Observando a altura do Sol com relação ao horizonte e utilizando o sextante, conseguiam calcular a latitude. Mas… e a longitude? Naqueles tempos, enquanto um relógio de precisão ainda não havia sido inventado, era simplesmente impossível. Viajar nessas condições era brincar de cabra-cega à beira do abismo.

Foi nesse contexto que, em 1569, o geógrafo e cartógrafo flamengo Geert De Kremer (latinizado Gerardus Mercator) criou um sistema de projeção do globo terrestre, conhecido como “Projeção Mercator”. Nela, os ângulos são preservados, mas as superfícies vão se deformando à medida que nos afastamos da linha do Equador.

A navegação de longo curso adotou de imediato a projeção, mesmo porque não havia outra à disposição. A perfeição dos ângulos já era uma ajuda e tanto. Não só os navegantes da época adotaram a projeção Mercator, mas também os que sucederam aos temerários portugueses e espanhóis. Não era importante que as altas latitudes estivessem deformadas; de toda maneira, ninguém navegava naquelas lonjuras.

A imagem do mundo ficou tão marcada pelo Mercator que até hoje a projeção é utilizada no dia a dia. Até os mapas do Google, invenção moderna, mostram a Terra como Gerardus Mercator a desenhou.

Faz algumas décadas, geógrafos africanos começaram a se sentir desconfortáveis com essa projeção. Vitimizaram-se. Olharam para o mapa e, passando por cima do fato que Mercator viveu quase 5 séculos atrás, viram aí uma intenção de diminuir a importância dos africanos, visto que a África aparece pequenina, enquanto Groenlândia, Canadá e Rússia parecem gigantescos.

Vamos por partes. Canadá e Rússia aparecem, sim, gigantescos, mas são de fato países muito extensos, assim como a China e os EUA. Quanto à Groenlândia, é verdade que parece ter a mesma área da África, enquanto caberiam umas 14 Groenlândias dentro da África. É uma senhora deformação.

Isso nunca incomodou muita gente. A Groenlândia e seus contornos nem eram conhecidos no tempo de Mercator. Também como não o eram a Rússia, o Canadá, a China e os EUA. Quanto à intenção de diminuir intencionalmente o tamanho da África, é fruto de um bom complexo de vítima por parte dos africanos que se incomodaram com isso. A prova é que, até relativamente pouco tempo atrás (anos 1960-1970), os atuais países africanos eram colônias das potências europeias. Cada país europeu que possuísse colônias, queria, ao contrário, que suas terras d’além-mar parecessem mais extensas, o que lhes dava maior prestígio. Parece evidente, não? (Não para todo o mundo.)

Tanto insistiram os africanos junto à ONU, que conseguiram. Sexta-feira passada, foi aprovada uma recomendação de que todos os países passem a utilizar, na medida do possível, uma outra projeção em vez da Mercator: a chamada Equal Earth. Nesta última, as áreas refletem melhor as proporções entre os diferentes continentes. Ninguém está obrigado a fazer a mudança, mas imagina-se que, com o tempo, a nova projeção vai acabar se impondo. Na ONU, o único voto contrário foi dos EUA de Trump – nada novo no horizonte.

Observação
Pode não ser do agrado da ressentida direção atual do IBGE, mas o Brasil, na nova projeção, não está no centro do mundo. Voltou ao lugar que sempre ocupou.

Sobe ao palco quem é chamado, não quem se autopromove.

A redenção

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Não é de hoje que os integrantes do STF fazem suas artes e nos pregam sustos. Oito anos atrás, num belo dia quase no fim de 2018, o inefável Marco Aurélio Melo, então ministro do Supremo, tomou uma decisão monocrática de deixar os brasileiros atentos de cabelo em pé. Provocado por um partido político, deu uma senhora canetada. Mandou soltar todos os cidadãos que estivessem na prisão, com sentença confirmada em segunda instância, mas não ainda transitada em julgado.

Alguém logo calculou quantos presos deveriam ser soltos: 160 mil em todo o país, uma enormidade. Dia seguinte, antes que o primeiro preso fosse liberado, Dias Toffoli, então presidente do STF, anulou a decisão monocrática de Marco Aurélio e tudo votou à estaca zero. Um ano mais tarde, decisão da Corte, tomada em reunião plenária, estabeleceu que o condenado só poderia ser preso depois do esgotamento de todos os recursos legais. O placar foi apertado: 6 x 5. A decisão está em vigor até hoje.

O susto que Marco Aurélio nos causou foi a facilidade com que uma caneta solitária tem o poder de tomar decisões de tanta importância. À época, escrevi um artigo, que o Correio Braziliense publicou. Teci considerações sobre o que me pareceu desvirtuamento do princípio de funcionamento do STF. Por ser um tribunal colegiado, decisões tomadas por um ministro solitário deveriam se restringir a casos de interesse restrito, ao passo que assuntos de alcance nacional deveriam passar sempre pelo crivo da colegialidade.

Dei a culpa pelo deslize do magistrado à vaidade. “É irmã gêmea do orgulho e mãe de muitos defeitos. Traço inerente ao ser humano, afeta-nos a todos, em maior ou menor grau. Na vida do mortal comum, ataques de vaidade explícita não fazem mais que azedar o entorno do vaidoso. Já quando o soberbo exerce função pública de destaque, é mais grave. Imodéstia descontrolada pode extravasar a banheira do poderoso e alagar o país inteiro. Isso ocorre a cada vez que um magistrado é acometido por xilique de prima-dona ferida.”

Para resolver o problema, pareceu-me que seria interessante fazer uma reflexão sobre a abolição da vitaliciedade do cargo de ministro do Supremo. Imaginei que, ao lembrar que seu cargo tem dia e hora para terminar, o togado tenderia a comportar-se com mais responsabilidade. É medida pra ser estudada.

Já a crise que sacode o Supremo atualmente é de outra natureza. Há sempre uma pitada (ou uma mão-cheia) da vaidade, mas o sacolejo atual envolve outra, digamos assim, “fraqueza”, do ser humano: a ganância. E, a meu ver, há um bocado de ingenuidade também.

Esqueça que os ministros do Supremo recebem um ordenado elevado, para os padrões do país. Esqueça que contam com apartamento grátis, automóvel com motorista gratuito, plano de saúde a custo zero, lanchinho, café e almoço por conta da casa. Esqueça que eles têm direito a requisitar jatinho da FAB quando se lhes faz necessário. Qualquer mortal estaria encantado e satisfeito com essa mamata toda.

De repente, aparece um salafrário, daqueles que vendem terreno na Lua. Propõe sabe-se lá que negociata, de graça é que não foi. Enche as Excelências de presentes, viagens, jatinhos, soirées em Londres com charutos e whisky do melhor – tudo por conta da casa. Deus sabe o que o trapaceiro prometeu, o fato é que começou a cumprir sua parte. Quem só ficou na promessa foram as Excelências. Ou não ficaram?

Os magistrados foram de uma ingenuidade magistral quando acreditaram que ninguém jamais ficaria sabendo das tramoias. Deixaram-se cegar também pela ganância desmedida, e de novo ingênuos, ao imaginar que os “negócios” ficariam para sempre atrás da moita.

Agora, pronto. aconteceu o que ninguém queria. Como é que fica?

Minha receita de limitar o mandato dos magistrados parece chá de camomila para paciente moribundo: não vai resolver. O que é que se faz, então?

Para salvar a honra dos magistrados envolvidos e para garantir o futuro de nossa Suprema Corte, não vislumbro melhor solução do que a renúncia pura e simples, com efeito imediato, dos ministros enrolados nesse triste episódio.

Mesmo aqueles que, embora culpados, ainda não tenham sido incomodados, é bom que renunciem já. Hoje em dia, nenhum segredo fica mais escondido para sempre.