Eleição vem aí – 2

José Horta Manzano

Os habitués deste espaço sabem, e os que por aqui passeiam vão perceber, que elogios a políticos, se faço, são parcos. O que se encontra em cada esquina são críticas. Em nosso país, surpresas boas andam escassas. A política do Brasil é como um livro aberto que a gente folheia de trás pra diante. Quando anunciam fato novo, a gente já sabe como é que vai terminar. (E o final nem sempre é feliz.)

Começaram as entrevistas, os debates e as sabatinas em que candidatos são “cozinhados”. Soube de que um deles, filho de um político que está atualmente recolhido ao conforto de sua mansão, a cumprir pena de prisão, que levou uma “cola” rabiscada na palma da mão esquerda. Como se vê, o afinco com que se lançam à conquista do Planalto é tão sincero que, sem a colinha, podia até esquecer seus argumentos.

Outro dia, teve um que mostrou duas fraldas às câmeras, cada uma levando escrito o nome de um dos candidatos majoritários. Não sorriu. Concluo que, dada a sisudez do rapaz, estivesse exibindo as duas últimas fraldinhas que usou. Talvez pra provar que já não é criança, sei lá.

À vista desses debates de nível rasteiro, não me interessei pelo que foi dito ou não foi dito nos debates. Isso durou até dois ou três dias atrás, quando li uma chamadazinha no jornal comentando o desempenho de um candidato desconhecido, um certo Augusto Cury. O texto era elogioso, o que aguçou minha curiosidade e me fez procurar saber mais.

Encontrei no youtube um vídeo oferecido pela rede Band contendo a participação completa desse candidato no debate do canal, uma tertúlia empobrecida pela ausência de três fujões: Lula, Flávio B. e Zema.

A falta dos tenores foi providencial: permitiu que a voz de candidatos menores fosse ouvida. O candidato Augusto Cury me impressionou. É um médico psiquiatra, com mestrado e doutorado, que nunca se envolveu com política. Deixou bem claro que, sendo multimilionário, não procura enriquecer agora, pois já não precisa.

A experiência prática que lhe falta é preenchida por ideias claras e firmes em matéria de educação, redistribuição de renda, política fiscal. Não quero dar aqui a impressão de estar fazendo propaganda eleitoral em favor desse senhor. O que me encantou na fala dele foi o discurso em tom civilizado, sem adjetivos desnecessários, sem um pingo de agressividade, sem um palavrão sequer.

Faz muito tempo que não ouvia uma fala desse naipe saindo da boca de um candidato à Presidência. Estava quase acostumado a ataques abaixo da cintura, que podem render cliques, mas não acrescentam nada ao embate de ideias.

Pensei que, entre os seis principais candidatos, esse senhor me parece, de longe, o mais bem intencionado. Nos dias que correm, sinceridade e boas intenções são pra lá de importantes. Se nenhuma catástrofe ocorrer daqui até o dia do primeiro turno, já sei pra quem vai meu voto

Eleições vêm aí

José Horta Manzano

A cada quatro anos, na única eleição em que os brasileiros estabelecidos em países estrangeiros têm licença para votar, descubro algum problema que nossas comunidades expatriadas enfrentam.

Este ano, o estrepe que dói no pé de conterrâneos no estrangeiro se chama Donald Trump, e atormenta os que um dia procuraram os EUA na crença de lá encontrar seu eldorado e de engatilhar seu ‘sonho americano’.

Estimativas dão conta de 2,1 milhões de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, enorme contingente que representa 40% de nossos compatriotas fora do país.

Para acolher o afluxo de eleitores esperados para o 4 de outubro, os serviços consulares do Brasil abriram nada menos de 12 postos de votação, situados nas regiões com maior concentração de brasileiros.

Reportagem da Folha relata o caso do Consulado-Geral de Nova York, que vale como exemplo. Por medo de ser apanhado por uma patrulha brutal do ICE, o serviço que caça imigrantes ilegais (ou não), nossos conterrâneos passam longe de multidão, ajuntamento, fila na calçada, enfim, todo lugar em que possa ser vítima de uma batida. Isso vale tanto para documentados quanto para indocumentados – as patrulhas se deixam guiar pela aparência ou pelo faro, que nem sempre é perfeito.

Ciente desse impedimento, nosso consulado procurou um lugar mais discreto, longe de bairros “manjados”. Encontrou um lugar onde os votantes possam entrar rápido, sem se aglomerar na calçada, pondo-se todos a salvo do ICE.

É louvável a preocupação do consulado, mas receio que não vai encorajar muita gente a sair de casa. O medo de ser preso e, sabe-se lá, expulso, é grande demais.

Contra a brutalidade de Trump e de seus serviços, não há nada que possamos fazer. Por seu lado, as competentes autoridades brasileiras podem, sim, aplainar a vida dos brasileiros que, enfrentando Trump ou não, ganham a vida e sustentam a família no exterior.

Para começar, há um ponto importante a ser mencionado. Os 5,3 milhões de brasileiros do estrangeiro remetem anualmente ao Brasil o montante de US$ 4 bilhões. São mais de R$ 20,7 bilhões, soma considerável. É dinheiro que entra em nossa economia limpinho, caído do céu. Corresponde a US$ 750 por pessoa (crianças incluídas), ou seja, quase R$ 3.900 por cabeça. Não é qualquer cidadão nacional que paga tudo isso de imposto direto.

Nos EUA, o problema é esgueirar-se nas esquinas para escapar à versão trumpiana do famigerado ICE. Em países onde não se perseguem estrangeiros, o problema muitas vezes é a distância entre o domicílio do eleitor e o posto de votação. Na França, por exemplo, há um só lugar para votar: Paris. Isso significa que o brasileiro residente em Marselha, segunda cidade do país, tem de percorrer os 777 km que separam as duas metrópoles (7h45 de automóvel). Esse é o caso de muitos outros países.

Está na hora de o Brasil implantar, nem que seja só para os eleitores do exterior, o voto por correspondência. Não estou falando de voto por internet, mas de voto por carta levada pelo correio. Dos grandes países da Europa, conheço bem três onde esse tipo de voto está em vigor há décadas: a França, a Suíça e a Itália.

Se o Brasil adotasse esse método, os eleitores registrados no consulado receberiam em casa o material de voto. Exprimiriam seu voto confortavelmente, em seguida bastaria seguir as instruções: botar no correio (não precisa nem selar) e despachar. Os votos seriam apurados no próprio consulado, em seguida enviados a Brasília.

Esse procedimento anula patrulhas do Trump, e apaga também a distância do domicílio até o posto consular.

Há ainda outros pontos a inserir em nossa legislação a fim de facilitar a vida dos que pagam, por meio de suas remessas mensais à pátria, o pedágio de terem ousado trilhar um caminho diferente. Ficam para uma próxima vez.

Exame oral

José Horta Manzano

Fui escolarizado nos tempos em que professor ensinava e aluno aprendia. Assim mesmo, na hora das provas de fim de ano, meu terror maior – e de muitos colegas – eram os exames orais.

Nas provas escritas, a gente ficava um pouco estressado (essa palavra é nova, na época se dizia nervoso). Mas sempre dava pra parar e passar uns minutinhos tentando lembrar um ponto esquecido. Dava pra dar uma espiadinha na prova do colega ao lado, desde que ele permitisse. Dava até pra tirar um papelzinho enrolado no fundo da caneta tinteiro ou previamente grudado debaixo do tampo da carteira, expediente que a gente chamava de cola.

Na hora das orais, aí é que eram elas. Lá íamos nós, juventude atemorizada, assim que nosso nome era chamado, pernas cambaleando, garganta seca, olhar implorando por misericórdia, a enfrentar a temida hora da verdade. O peso atribuído aos exames orais era alto, portanto todo cuidado era pouco. Face a face com o examinador – que não necessariamente era nosso professor habitual – não havia como colar, dar uma espiada na prova do colega, pedir um tempo para recordar um ponto importante. Era um pingue-pongue de perguntas e respostas. Ouvido o pingue, tinha-se de responder com um imediato pongue.

Era um sufoco (a gente dizia uma agonia). Tinha gente mais cool (a gente dizia folgada) que não se abalava com exame oral. Entrava na sala como quem entrasse no Cine República pra ver uma chanchada.

Em resumo, complicado ou não, era passagem obrigatória, exercício do qual não havia como escapar. E todos entendiam isso. Nunca vi ninguém faltar a exame oral de fim de ano. O castigo era ficar de segunda época e ter de estudar durante as férias e voltar em fevereiro para enfrentar… a mesma prova oral. Impensável.

Os bem-informados leitores e as argutas leitoras sabem que em outubro teremos eleições gerais, e que estamos em plena campanha eleitoral oficial. Estações de televisão, sites de notícias e outras plataformas de informação estão convidando os principais candidatos à Presidência para apresentarem seus respectivos programas de governo e para debaterem num rodízio de perguntas e respostas.

Não sei se por causa de traumas paralisantes ligados ao velho exame oral, alguns candidatos, justamente os mais bem colocados nas pesquisas, estão mostrando aversão pelo joguinho de “Candidato, seu tempo se esgotou” ou “Candidato, é sua vez de responder”. Pretextos, há vários. Diz um que não quer ser alvo de apedrejamento. Diz outro que “Se ele não for, eu também não vou”.

Um pouco de coragem, senhores, vamos! Só se esconde quem não está em condições de dar respostas civilizadas e convincentes. Não pega nada bem só fazer campanha cercado de seguranças e correligionários, sem adversários para exercerem o contraditório. Se, para o atual presidente, que quer ser reeleito, já fica feio pra caramba, para o desafiante fica pior ainda. Como é possível que um senador, que nunca exerceu a presidência, tenha medo de responder a perguntas sobre seus atos controversos?

O eleitor tem o direito de saber quem são os dois personagens que pedem seu voto, mas que fogem a toda pergunta embaraçante. Querem ser eleitos pelos belos olhos? Ou pela fama, Luiz Inácio? Ou pelo sobrenome, Flavio B.?

Nenhum dos dois é campeão de oratória (nem de enrolatória). Um não deve temer o outro. Ainda que o adversário fosse um Carlos Lacerda ressuscitado, o Brasil dispensa belas palavras e espera ouvir a verdade do passado e a promessa de futuro honesto. Futuro honesto?

É, talvez more aí o problema.

Lé com lé

Ilustração by Alcy Linares, desenhista paulista

José Horta Manzano

Na vida, é importante que lé rime sempre com lé e que cré rime sempre com cré. Na marcha da política, isso é ainda mais importante, sob pena de confundir a cabeça do eleitor. Quando o nome do jogo é eleição presidencial, então, dissonâncias podem custar votos preciosos, em especial numa disputa acirrada.

Os lés do Lula, assim como seus crés, são de conhecimento geral. Afinal, Nosso Guia já fez seis tentativas de chegar ao Planalto (três em que passou a rampa e três em que foi reprovado). Esta é a sétima e, diz ele, a última. A ver. Com passado político tão denso, Luiz Inácio parece que nem engatou a primeira para a partida. Foi direto para a quarta, tranquilo, como se candidato único fosse. Afinal, é ele o incumbente.

Quanto a seu desafiante, um certo Flavio B., marinheiro de poucas águas, a afinação dos lés é crucial. Menos conhecido que o incumbente, é proprietário de caçarolas e esqueletos que guarda discretamente no armário mas que podem, caso dê uma “fraquejada”, criar vida e sair por aí estalando ossos e batendo panela – um perigo!

Pois bem, este candidato desafiante sofreu um golpe seco logo no evento de apresentação de sua campanha ao distinto público. Marcou o comício para a praia de Copacabana, expressão máxima de nossa pretensa tropicalidade. Afinal, o Rio de Janeiro é o berço de onde irradiou o clã ao qual Flávio B. pertence. O ato tranformou-se num tremendo fiasco. No mesmo lugar em que o hoje preso Jair B. tinha atraído 64,6 mil pessoas na festa de 7 de setembro de 2022, em plena campanha eleitoral, seu filho não recebeu mais do que 8,9 mil apoiadores. Em outros termos, menos de 1 em cada 7 adeptos compareceram para louvar o candidato.

Com certeza, a conclusão que se impõe é que o bloco de apoiadores do passado está esfarelado, virou as costas a Flávio B. Ou não?

Pois parece que não. Nenhuma das pesquisas publicadas após o ato inicial da campanha de Flávio B mostra o mais leve tremelico na porcentagem de votos que lhe é atribuída. Nem na porcentagem do Lula, diga-se.

Passado um momento de estranheza, uma conclusão surge como obrigatória: os apoiadores cariocas de Flávio B já não estão dispostos a enfrentar sol de Copacabana para aplaudir seu herói. Até votam nele, mas preferem fazer isso na sombra amiga da cabine de votação. É o único jeito de fazer lé rimar com lé, e cré com cré. Fora isso, desafina e ninguém entende mais nada.

Com medo de virarem vidraça e serem acossados de perguntas e acusações constrangedoras, tanto o incumbente quanto o candidato desafiante já anunciaram não terem intenção de comparecer a debates televisionados. De novo, repito. O atual presidente, velho de guerra e sobejamente conhecido nos rincões e nos grotões, até que pode se permitir esse luxo. Já o desafiante está apostando alto.

A massa de eleitores que pretendem votar nele não está apenas constituída de devotos incondicionais. Há também um contingente de insatisfeitos com o governo Lula, grande número de indecisos (sim, isso existe), e outras parcelas menores. É justamente essa parcela que interpretará o fiasco de Copacabana como sinal de perda de força da candidatura de Flávio B, e a ausência nos debates, como confirmação da derrocada.

Quem busca a façanha de se eleger contra um Lula velho de guerra – e loga na primeira tentativa – não pode se permitir emitir esses sinais dúbios, que podem ser interpretados como os de um homem que está baixando os braços.

Tome cuidado, Flávio B.!

O eldorado de alguém

José Horta Manzano

Os primeiros aventureiros europeus levavam grande vantagem em relação aos viajantes atuais: na falta de imagens gravadas e de testemunhas, podiam contar o que quisessem. Na volta da viagem, El-Rei e toda a corte estavam ávidos por conhecer as novidades das novas terras. E os viajantes contavam exatamente o que lhes interessava e o que lhes aumentasse o prestígio.

Houve relatos fantásticos de mulheres amazonas cavaleiras que decepavam o próprio seio para facilitar o porte de um escudo de ferro que as protegia durante a batalha. Essa história é uma mentira particularmente mal costurada. Sabe-se que, na América, não havia cavalos. Sabe-se também que os indígenas amazônicos não conheciam o trabalho do ferro. Por fim, essa coisa de decepar o próprio seio é o cúmulo da história mal ajambrada. Mas os cortesãos acreditavam, aplaudiam e pediam mais.

Um mito persistente, de autoria desconhecida, foi o do El Dorado. A historinha original era do rei de uma região da atual Colômbia, que se cobria inteirinho de ouro em pó e se limpava mergulhando na Laguna Guatavita, uma caldeira vulcânica (boca de vulcão extinto) que o tempo preencheu d’agua, formando um lago. De “homem coberto de ouro em pó”, o mito aos poucos se transformou e virou uma cidade de ouro. Era esse o El Dorado que diversos exploradores procuraram.

A cidade de ouro nunca foi encontrada, mas a expressão ficou. É hoje usada em sentido metafórico, indicando um lugar onde se pode enriquecer depressa ou que oferece boas oportunidades a todos.

As autoridades migratórias brasileiras informam que, nos últimos dez anos, mais de meio milhão de estrangeiros vindos em busca de um país que os acolhesse, que lhes permitisse se instalar e recomeçar a vida com a família. Boa parte desses imigrantes chegou sem grandes posses além da roupa do corpo. Ainda que mal preparadas para chegada tão maciça, nossas autoridades têm lidado bem com o problema. Os novos chegantes vêm recebendo acolhida humana e amável. Os brasileiros, em parte descendentes de imigrantes pobres, não se esqueceram de como a família aqui aportou.

Por seu lado, 4.000 brasileiros que viviam indocumentados nos EUA já foram deportados desde que Donald Trump assumiu a Presidência. A esse contingente, é preciso acrescentar outro maior ainda: 17.000 permanecem agrupados e detidos em centros especializados, à espera de serem deportados.

O objetivo de nossos compatriotas que buscaram fincar pé nos EUA não era delinquir, mas recomeçar a vida do nada, dando duro, a fim de dar melhor futuro à famíla. Se um ou outro descambou, o xerifado americano já deve ter cuidado de tirá-lo do convívio com a sociedade.

O objetivo dos novos imigrantes que chegam no Brasil é exatamente o mesmo. Não vieram de terras distantes para descambar aqui. Muitos deles, em especial os que já viveram uma guerra, querem sossego e paz.

O governo Trump, além de causar pasmo e temor ao redor do planeta, causou pânico em estrangeiros indocumentados que vivem nos EUA. Eram gente que trabalhava tranquila e honestamente, e que hoje se esgueira pelas esquinas e não ousa mais participar da vida em sociedade. O povo americano, que em grande maioria descende de imigrantes pobres, se esqueceu desse detalhe do passado. Caçam e expulsam hoje os estrangeiros pobres cujo único crime era estar dando seu quinhão à contínua construção daquele gigantesco país.

Felizmente, nosso povo é de outra índole. Talvez porque continua a viver cercado de pobreza, o brasileiro não se esquece de que um dia também foi pobre.


Pode até ser que esta minha conclusão seja otimista demais, mas prefiro acreditar que seja assim.


Nossos recém-chegados refugiados podem até, um dia, descobrir que o eldorado que imaginavam não está bem aqui. Sairão, se quiserem. Mas não serão expulsos.

Coisa de profissional

José Horta Manzano

Carlos Ghosn é pisciano de 1954. Filho de cristãos maronitas de origem libanesa, nasceu no então Território do Guaporé (hoje Rondônia). Anos antes, seu avô já estava ancorado naquelas brenhas, à frente de prósperos negócios que iam da extração da borracha à compra e venda de diamantes.

Aos seis anos de idade, foi levado para Beirute, no Líbano, terra dos avós. E lá continuou a escolaridade em liceus franceses. Chegando à maioridade, mudou-se para Paris, para obter seu diploma de engenheiro na École Polytechnique. Esse vai e vem lhe garantiu o aprendizado de três línguas (português, francês e árabe) e lhe valeu três nacionalidades (brasileira, francesa e libanesa).

Carlos Ghosn deve ser inteligente. Basta observar a carreira sólida que construiu dentro da indústria automotiva. Começou pelo fabricante de pneus Michelin, onde trabalhou 18 anos. Durante esse período, seu conhecimento da língua portuguesa foi importante para que fosse mandado ao Brasil, na chefia da divisão sul-americana. Ghosn conseguiu dar uma boa melhorada nas vendas da região.

Anos mais tarde, a Renault o contratou. Era a época do casamento entre Renault e a japonesa Nissan, que andava mal das pernas. O plano de recuperação da empresa, lançado por Carlos Ghosn foi um sucesso. Foi necessário passar por uma hecatombe de demissões: mais de 20 mil japoneses perderam o emprego. Três anos mais tarde, a Nissan já se tinha tornado a montadora mais lucrativa do Japão.

Os anos passaram, e algum urubu deve ter pousado no ombro do franco-líbano-brasileiro. Tanto na França, quanto no Japão, passou a ser acusado de malversações com o dinheiro da empresa. A história é meio nebulosa, e o fato de ele nunca ter sido julgado impede qualquer conclusão definitiva. O fato é que a polícia japonesa prendeu o antigo patrão miraculoso. Mas não o trancafiou numa cela. À espera de julgamento, ele foi deixado em residência vigiada, numa casa monitorada por câmeras, situada numa rua que também era monitorada por câmeras.

A partir daí, a história envereda pelo ramo de ficção policial. De fato, os acontecimentos que se seguem parecem ter escapado da imaginaçâo fértil de um autor inspirado.

Em dezembro 2019, sem avisar seus vigias, Ghosn deixou a residência sob um disfarce que o tornava irreconhecível. De transporte coletivo, foi a um hotel e subiu até o apartamento onde já era esperado. Ali ele foi instalado dentro de uma enorme mala, dessas usadas para carregar aparelhagem de som, mas com fundo falso. Levado até um aeroporto secundário, perto de Osaka, passou sem problema os controles aduaneiros e foi embarcado num jato privado. O voo fez escala em Istambul (Turquia), e se dirigiu em seguida a Beirute (Líbano).

Foi só no dia seguinte que, furiosos, os japoneses se deram conta do logro em que tinham caído. Um alerta vermelho foi lançado via Interpol. A imprensa mundial foi avisada. Mas já era tarde. Carlos Ghosn tem nacionalidade libanesa. O Líbano, de qualquer modo, não tem tratado de extradição com o Japão.

Portanto, o ex-patrão miraculoso está a salvo, enquanto não puser os pés fora do Líbano. O país é pequenino, é verdade, mas é sempre mais espaçoso que uma cela de 3m x 2m.

Os jornais deram, estes dias, a notícia de como Donald Trump enganou o mundo inteiro ao deixar a Turquia fingindo que viajaria no avião que tinha recebido de presente dos potentados do Golfo Pérsico. Na frente das câmeras, entrou no avião presidencial. Em seguida, foi instalado dentro de um caminhão contêiner de serviço de bordo e levado, de mansinho, para outro avião, no qual realmente viajou.

Talvez para não ficar refém de algum funcionário que poderia amanhã, quem sabe, chantageá-lo ou dar com a língua nos dentes, Trump mandou que o estratagema fosse revelado. Ficou cômico imaginar aquele grandalhão espremido dentro de um armário.

O ponto comum entre a espetacular fuga de Carlos Ghosn num baú de alto-falante e a escapada de Donald Trump num guarda-comida é o planejamento detalhado e a execução perfeita do plano.

Convenhamos, não é método de ladrãozinho pé de chinelo, mas coisa de bandido de alto coturno. É por isso que ambos os personagens puderam protagonizar história quase igual. E nenhum destoou.

Zé da Pinga e a linhagem familiar

Como eram as apurações antes da urna eletrônica

José Horta Manzano

O Brasil está entre os raros países em que o nome próprio e a transmissão do sobrenome não são codificados, isto é, não seguem uma norma. Não é costume herdado dos lusos, visto que, em Portugal, a transmissão do sobrenome é codificada. Em terra lusitana, o recém-nascido recebe o sobrenome dos pais – primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Esse é o costume nacional e ninguém imagina fazer diferente.

Já no Brasil, veem-se irmãos que, mesmo sendo de mesmo pai e mesma mãe, não levam sobrenomes idênticos. Há quem leve só o sobrenome do pai. Há quem carregue sobrenome completamente diferente do dos pais, em “homenagem” a um avô, um tio ou um amigo da família. Há profusão de bebês que recebem nome completo do pai (ou do tio, ou do avô) seguido do epíteto “Júnior”, “Filho”, “Neto”, “Sobrinho”. Há ainda os que vergam sob o peso de três ou quatro sobrenomes, um desafio ao espaço que documentos atuais reservam para o nome do titular.

É curioso notar que, entre nossas centenas de parlamentares de direita e de extrema direita, nenhum se tenha debruçado sobre uma normatização da transmissão do(s) sobrenome(s) no Brasil. Digo que é curioso que não se preocupem com isso apesar de se proclamarem “defensores da família”. A continuidade do sobrenome familiar, geração após geração, é característica forte e evidente da família ao longo do tempo.

Agora que se aproximam as eleições, vai aparecendo um festival de nomes bizarros, como: Zé da Pinga, Val do Açaí, Capitão Almofadinha, Miguel Coronel, Iolanda da Quitanda, e por aí vai. Dizem os candidatos que o chamado “nome de urna” tem a função de bem individuá-los. Entendo o argumento, mas a Justiça Eleitoral já pensou nisso ao atribuir um número a cada um deles. O eleitor vota no número, que é mais fácil de memorizar.

Levantamento feito estes dias, antes do término do período de inscrições, já encontrou, em todo o Brasil, dois candidatos que, sem seram parentes do presidente da República, acrescentaram “Lula” ao próprio “nome de urna”. Com o ex-presidente Jair, é ainda pior. Nada menos de quinze candidatos que, sem serem parentes do ex-presidente, acrescentaram “Bolsonaro” a seu “nome de urna”.

A meu ver, são casos flagrantes de falsidade ideológica que, em outros contextos, pode dar até cadeia. Não entendo como o Tribunal Eleitoral deixa passar essas brincadeiras num momento tão solene como o das eleições.

É trágico perceber que nenhum dos quinze (até agora) que portam o nome “Bolsonaro” há de ter sido advertido ou bloqueado pelo partido em que se inscreveu.

Onde está, nessas horas, o clã Bolsonaro, que se jacta de ser o grande “defensor da família brasileira”? Ao permitir que outros usem seu santo sobrenome em vão, mostram ser defensores da família só da boca pra fora.

Embaixada

Embaixador da Pérsia apresenta suas credenciais ao rei Luís XIV, da França, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

José Horta Manzano

Na Antiguidade, já havia embaixadas, embora não fossem permanentes. Um rei nomeava e enviava um embaixador com a missão de negociar os detalhes de uma paz, por exemplo. Em princípio, terminada a tarefa, o embaixador voltava a seu país de origem.

Ao fim da Idade Média, entre os anos 1400 e 1700, surgiram os primeiros embaixadores permanentes, cada um representando seu rei junto a um governo estrangeiro. No início, somente os países importantes enviavam e recebiam embaixadores. A primeira embaixada da Espanha foi estabelecida no ano 1480 junto ao Vaticano – importante sede de poder à época.

Foi preciso esperar até 1961, quando a Convenção de Viena especificou e oficializou as funções diplomáticas, a inviolabilidade da correspondência e das representações, assim como a imunidade dos diplomatas. Desde então, os estatutos de embaixadas, consulados, missões permanentes e legações estão fixados e vêm sendo respeitados, salvo em situações excepcionais, como aconteceu em 1979, durante a revolução dos aiatolás do Irã, quando a embaixada americana em Teerã foi invadida e ocupada por meses.

Entre os chacoalhões que Donald Trump tem dado no funcionamento do planeta, a diplomacia parecia ter escapado. Só que isso foi até alguns dias atrás. Hoje, não mais. Faz uns dias, seu governo suspendeu o visto permanente da embaixadora do Brasil em Washington. Foi assim, sem mais nem menos, com efeito imediato. É sabido que Washington e Brasília não atravessam atualmente um período de lua de mel. Assim mesmo, um ataque aos sacrossantos usos e costumes da diplomacia ultrapassa o que se permite a uma explosão de cólera.

O Itamaraty, que é velho de guerra e já se safou de outras saias justas, vai encontrar meio de contornar o obstáculo.

O coice de Trump, no entanto, dá ensejo a um debate interessante. Será que ainda faz sentido, nos tempos atuais, manter uma rede de embaixadores espalhados pelo mundo? Numa era anterior ao avião, ao telégrafo e ao telefone, era importante – o representante acreditado de um Estado levava consigo a palavra oficial de seu governo e ganhava tempo sobre troca de correspondência. Já hoje, num tempo em que as comunicações são instantâneas, a informação periga chegar ao destinatário antes da visita do embaixador.

Os custos de manutenção de uma embaixada são elevados. Por seu lado, nas capitais mais importantes, o embaixador passa boa parte de seu tempo frequentando festas e recepções. De fato, cada um dos 150 países do mundo tem sua festa nacional, o que já representa um coquetel a cada dois ou três dias.

Se Brasília despachar um representante especial cada vez que tiver algo importante a comunicar a determinado governo estrangeiro, a conta final sairá muito mais baixa do que o custo de uma representação diplomática. Mesmo que o enviado vá de classe business.

Se o douto leitor e a arguta leitora tiver uma observação, não se acanhe. Mande um comentário. Trump só cutucou minha curiosidade, não tive tempo de estudar o tema a fundo.

A invasão de Ceuta

Bandeira de Ceuta
Credit: Ulaidh, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3951546

José Horta Manzano

Ceuta é um exclave da Espanha, um pequeno território situado no norte do continente africano, espremido entre o Marrocos e o mar. É parte integrante da nação espanhola, embora não se possa chegar lá por terra a partir do território espanhol. A única ligação entre Ceuta e o território nacional é feita por barco, a partir do porto de Algeciras, numa travessia de aproximadamente uma hora.

Ceuta é também o nome da cidade que ocupa o exclave. Tem cerca de 85.000 habitantes. O território já era ocupado desde a Antiguidade. Depois da invasão da Espanha pelos conquistadores árabes, foi passando de mão em mão, ao sabor da ascensão e queda de pequenos emirados e califados. Expulsos os mouros, portugueses se apossaram de Ceuta em nome da coroa.

O Tratado de Tordesilhas – aquele que dividia o globo entre Espanha e Portugal – reconhecia Ceuta como território português. Como aprendemos na escola, devido a um problema de sucessão, o reino de Portugal foi absorvido pelo reino de Castela, numa união que durou de 1580 a 1640. Ao final desse jejum forçado, quando Portugal se livrou da Espanha e recobrou a independência, Ceuta ficou no meio do caminho e não acompanhou o movimento.

Portugal, naquela altura entretido com suas colônias americanas, não fez questão de lutar por Ceuta. Assim, desde 1640, o exclave pertence à coroa espanhola. Como lembrança do tempo dos portugueses, a bandeira de Ceuta traz até hoje, encravado no centro, o brasão de Portugal, com seus característicos 5 escudos azuis.

A impressionante “invasão” de Ceuta, sexta-feira passada, por dezenas de milhares de jovens marroquinos é resultado dramático de um mal-entendido. Em princípios de julho, o Tribunal Supremo espanhol emitiu o que chamaríamos de “súmula vinculante”. Sacramentou o entendimento de que não se pode rechaçar imediatamente o migrante que chegar ao território espanhol a nado ou de barco.

Numa leitura equivocada, jovens marroquinos imaginaram que isso significava “porteira livre”, ou seja, quem chegar será recebido. Pelas redes sociais, convocaram uma espécie de Festa da Selma ao molho do Marrocos, com o propósito de chegarem todos juntos a Ceuta, a porta de entrada do “eldorado” europeu.

Faltou combinar com o exército espanhol, a polícia e a população da cidade. Alguns dos adolescentes levaram duas horas na travessia, outros nadaram quatro horas. Dado que muitos nem sabiam nadar direito, a taxa de mortalidade foi cruel: deixou uma centena de cadáveres pelo caminho.

Ainda que, por hipótese, quisessem acolher todos os recém-chegados, os ceutenses não teriam condições de fazê-lo. Contagem por alto informa que os chegantes daquele dia equivaliam à totalidade da população da cidade. Como é fácil imaginar, uma cidade pequena não tem condições de ver dobrar seu número de habitantes da noite para o dia.

Desenxabidos e com fome, os jovens marroquinos deram marcha à ré a partir da manhã seguinte. Entenderam que não ia dar pra permanecer. Fica para uma próxima tentativa. Foram-se todos.

Ao assistirem às imagens da chegada dos migrantes, dirigentes europeus se assanharam, principalmente os de direita e extrema-direita. Com estardalhaço, a italiana Giorgia Meloni anunciou o fechamento da fronteira italiana para os viajantes provenientes da Espanha, com exceção dos europeus. Como se fosse possível verificar um por um.

É que as dramáticas imagens provenientes de Ceuta correspondem exatamente ao medo que a extrema-direita europeia instila em seus adeptos: o medo de uma invasão de morenos não cristãos, que viria eliminar a civilização cristã e implantar uma versão bárbara e primitiva do islamismo.

Toda corrente de extrema-direita, seja ela liderada por Trump, Bolsonaro, Meloni ou qualquer outro, se alimenta do medo de um inimigo comum, de preferência externo. Hitler havia dado aos judeus e ciganos o título de inimigos da nação. Trump elegeu os latino-americanos. Os Bolsonaros, na falta de estrangeiros para incriminar, veem inimigo em qualquer um que não pense como eles.

No fundo, quem devia se envergonhar da invasão de migrantes marroquinos é o próprio rei do Marrocos, Maomé VI (Mohammed VI). Cabe a ele fazer o necessário para dar instrução profissionalizante aos jovens do país e ensinar-lhes pelo menos a língua inglesa. Preparar sua juventude para um futuro melhor é tarefa dele, não de dirigentes estrangeiros.