Confissão tardia

José Horta Manzano

O interrogatório, levado a cabo pelo Ministério Público de Milão, levou dois dias. O resumo acaba de ser trazido ao conhecimento da imprensa: Signor Cesare Battisti, sentenciado à prisão perpétua anos atrás, confessa a totalidade dos crimes pelos quais tinha sido condenado à revelia.

Respondeu a todas as perguntas formuladas por dottore Alberto Nobili, coordenador da força-tarefa italiana antiterrorista. Depois de 40 anos de negativa obstinada, confessou todos os assassinatos pelos quais tinha sido condenado. Assumiu ainda os disparos nas pernas de outras vítimas ‒ método típico dos terroristas dos anos de chumbo na Itália. Admitiu ainda ter participado de uma baciada de assaltos.

Signor Battisti sabe que a confissão tardia não lhe dará direito a nenhum favor, queimado que está por ter levado no bico a Justiça italiana assim como a dos países que o acolheram na vida de fugitivo, o Brasil entre eles. O fato de a confissão não lhe trazer nenhum benefício dá maior peso a ela. Fica a certeza de que o criminoso, agora confesso, não está admitindo os ‘malfeitos’ por algum obscuro interesse em amenizar a pena. Será, sem dúvida, pra aliviar a consciência.

O terrorista, agora em fim de carreira, pediu desculpas à família das vítimas. Mas não foi além. Em nenhum momento se mostrou arrependido do que fez. Preferiu declarar que os crimes «pareciam justos» para o jovem de 22 anos que era à época em que os cometeu. E paramos por aí.

Ainda não li nenhuma manifestação de parte de doutor Tarso Genro, ministro da Justiça que concedeu asilo ao criminoso, sob o argumento de que o italiano era «perseguido político». Habitualmente tão loquaz, nosso ex-presidente ‒ aquele que ora vive encarcerado em Curitiba ‒ não soltou nenhuma nota por enquanto. Gostaria de saber o que tem a dizer para se justificar do desvario que o acometeu quando, no último dia de mandato, garantiu refúgio definitivo ao assassino. Não vale dizer «Eu não sabia!», nem «Fui traído!». Essas desculpas já foram usadas na época do Mensalão. Estão manjadas.

A Cesare o que é de Cesare

José Horta Manzano

Notícias importantes atropelam e mandam pra escanteio as de menor peso. Grandes manchetes abafam fatos considerados de menor importância. No entanto, a régua que mede a importância de cada acontecimento varia de um lugar a outro.

Estes dias, enquanto o Brasil continua mergulhado em sua crise político-policial crônica, a França mostra grande preocupação com o problema catalão. De fato, as manobras secessionistas do vizinho podem abrir uma brecha na estabilidade do continente e acabar se alastrando, tal fogo morro acima.

Os alemães acompanham com interesse as tratativas, empreendidas pela mais que provável futura chanceler, para formar coalizão capaz de garantir o contrôle das câmaras e a governabilidade. Em tempo: governabilidade, por aquelas bandas, não é sinônimo de cooptação nem de corrupção. Costuma ser negociação lícita, em que acertos políticos não rimam com assalto aos cofres da nação.

Cesare Battisti
Crédito: Cláudio Lahos

Já a Itália anda alvoroçada com a possibilidade de revisão do asilo político concedido pelo Lula, em seu último dia de governo, a signor Cesare Battisti. Os italianos não esqueceram que esse senhor, julgado à revelia pela Justiça de seu país, foi considerado culpado por participar de quatro assassinatos e condenado à prisão perpétua. Passaram-se quarenta anos, mas as famílias das vítimas ainda guardam os estigmas dos homicídios. As autoridades italianas receberam a bizarra decisão do Lula como uma afronta. E não se conformaram até hoje.

Semana passada, o jornal O Globo deu notícia de pedido apresentado pela República Italiana ao Planalto no sentido de rever a incompreensível decisão de conceder ao fugitivo o estatuto de asilado político. Diz o jornal que, após uma primeira análise técnica, o governo brasileiro não vê empecilhos jurídicos na reabertura do dossiê.

Signor Battisti, que hoje se apresenta como escritor, está casado com uma brasileira, com quem tem uma filha. Aos 62 anos, vive em São José do Rio Preto (SP). Mesmo sem o respaldo dos antigos «companheiros», hoje fora do poder e dizimados pela prisão de alguns e pela ameaça de encarceramento de outros, o asilado se diz tranquilo. Acredite quem quiser.

Bem farão nossas autoridades competentes se, finalmente, se decidirem a fazer o óbvio: devolver o estrangeiro aos italianos. Repararão, assim, a afronta cometida contra a Itália na desvairada era lulopetista. Mostrarão que o Brasil deixou de ser valhacouto de criminosos. De quebra, retribuirão o gesto da Justiça italiana, que nos devolveu o criminoso Pizzolato ‒ que, não nos esqueçamos, era cidadão daquele país.

Temos quantidade suficiente de criminosos nacionais de sangue nas mãos ou de colarinho branco. Não nos fazem falta estrangeiros. Xô!

Da boca pra fora

José Horta Manzano

Dois séculos atrás, Napoleão Bonaparte já tinha aprendido a lição dos antigos. Excluída a opção militar, só resta uma medida para amolecer o governo de um país e obrigá-lo a entrar na linha: o bloqueio econômico. Sem recursos financeiros, ninguém aguenta.

O Brasil e mais onze países hermanos publicaram nota conjunta exortando a Venezuela a voltar aos trilhos. Pelos códigos diplomáticos, é de bom tom, mas… sabe qual será a consequência? Nenhuma. Ou alguém imagina que señor Maduro tem medo de papel assinado? Declarações «da boca pra fora» não botam medo em ninguém.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pensando bem, na sua agressiva ingenuidade, Mr. Trump estava mais próximo do bom caminho. Uma ameaça de intervenção militar no país vizinho ‒ se tivesse sido feita na surdina e com jeito ‒ teria sido mais eficaz. Pena que o presidente americano seja tão desastrado. Com seu gesto desengonçado, queimou o trunfo maior e pôs tudo a perder.

Grosso modo, a Venezuela só exporta petróleo enquanto importa todo o resto. Na medida que o mundo continuar comprando petróleo venezuelano e vendendo mercadorias a nosso vizinho de parede, a agonia vai-se prolongar. Se os doze signatários do dito Grupo de Lima ‒ entre os quais, naturalmente, o Brasil ‒ deixassem de comprar da Venezuela e se abstivessem de vender-lhe o que fosse, a ditadura estaria com os dias contados.

Francamente, nesta altura dos acontecimentos, a coisa por lá anda tão feia que vale a pena adotar atitude firme. Perseguida pelas milícias armadas, a procuradora-geral do país teve de se refugiar na Colômbia ontem. O distinto leitor se dá conta da gravidade do acontecimento? É como se doutor Janot, acossado por esbirros palacianos e com a vida em perigo, tivesse de pedir asilo ao Paraguai. O perfeito retrato do deus nos acuda.

As coisas estão de pernas pro ar. Quem devia estar pedindo refúgio é o caudilho e seu entourage truculento e ignorante. Que escapem todos rapidinho para Cuba (ou para a Coreia do Norte) e deixem o maltratado povo venezuelano respirar.

Não tinha outro jeito

José Horta Manzano

James Bond

Custou, mas não tinha outro jeito. Sabe quando a gente faz alguma coisa, não por vontade, mas porque não há como escapar? Pois foi o que fez nosso requintado governo no caso de señor Roger Pinto Molina, aquele senador boliviano que, tempos atrás, se tinha refugiado na embaixada do Brasil em La Paz.

O caso, que se arrasta há mais de três anos, anda meio esquecido. Também, pudera: no lamaçal que escorre atualmente, assunto abaixo de um bilhão não interessa a ninguém.

Sentindo-se perseguido pelo governo de seu país, o senador boliviano pediu asilo em nossa embaixada em maio de 2012. Fortemente contrariado em sua tacanha ideologia, nosso governo resolveu passar por cima dos usos e costumes internacionais em matéria de asilo político.

Em vez de pressionar para que Evo Morales concedesse salvo-conduto permitindo ao refugiado viajar até o aeroporto e embarcar para o Brasil, o Planalto fez corpo mole. Para não ferir susceptibilidades bolivarianas em La Paz, engavetaram o assunto e esqueceram o perseguido.

Roger Pinto 2Meses mais tarde, um funcionário da embaixada, condoído da sorte do infeliz, lançou-se numa aventura rocambolesca, digna de filme de James Bond. Acabou trazendo o senador, por vales e montes, até território brasileiro. Foi aí que a coisa pegou feio. A atitude do funcionário indignou o Planalto que, enfurecido, espalhou censuras e punições. Cabeças rolaram. Até nosso ministro de Relações Exteriores foi defenestrado, tamanha era a ira de nossos estranhos governantes.

Uma vez no Brasil, o interessado continuou num limbo. Diferentemente de signor Battisti, aquele terrorista acolhido com tapete vermelho e banda de música, señor Pinto Molina continuou abandonado à própria sorte. Viveu ao deus-dará por anos, em Brasília, hospedado no quarto de empregada de um conhecido de bom coração.

Faz alguns dias, finalmente, o homem conseguiu o asilo político solicitado em 2012. Como eu disse mais acima, a concessão do asilo veio tardia, espremida, de nariz torcido, a contragosto.

Dilma e Evo

Tout ça pour ça? Tanta história pra tão pouco resultado?, perguntariam os franceses. Fizeram um auê danado – que pegou mal – e, no final, acabaram acolhendo o político. Pergunto: terá valido a pena demitir um ministro da República, como se criminoso fosse?

Francamente, nosso governo não deixa escapar nenhuma ocasião de reafirmar sua pequenez.

Cria fama

José Horta Manzano

Você sabia?

«Cria fama e deita-te na cama» – costumava dizer minha avó. Taí uma verdade grande e fácil de constatar. Lá fora, a notoriedade do Brasil nem sempre é aquela que gostaríamos que fosse. O portal regional sueco Helagotland traz uma história edificante.

Lars Wallin, cidadão sueco, atualmente com 51 anos, foi condenado em 2011 a quatro anos de cadeia. Seu crime? Estelionato qualificado e fraude contra empresa de seguros. O indivíduo comprou uma cadeira de rodas e, durante seis anos, fingiu ser cadeirante totalmente inválido. Devia ser excelente ator, pois enganou médicos e especialistas.

O "paralítico" de férias no Egito

O “paralítico” de férias no Egito

Conseguiu, com isso, receber 13,5 mi de coroas (4,7 milhões de reais) em dinheiro e em assistência pessoal 24h por dia. Por seis anos, o homem não precisou se levantar da cadeira para nada. Tinha ajuda para cuidar das compras, da cozinha, da casa, tudo. E ainda recebia boa indenização mensal. Com isso, mandou reformar inteiramente a casa e chegou até a passar férias no Egito.

Como costuma acontecer aos que se abandonam a uma vida de fabulação, o sujeito acreditou que a trapaça jamais seria descoberta. Relaxou. Deixou-se fotografar em situações onde ficava claro que estava longe de ser paralítico.

O que tinha de acontecer aconteceu. Acabou sendo descoberto, denunciado, julgado e condenado. Expedida a sentença, o espertinho chegou até a apresentar-se à cadeia de Borås. A Suécia é país civilizado, onde ainda se costuma confiar na palavra do cidadão. Ficou acertado que o condenado voltaria alguns dias depois para começar a cumprir a pena. Ele foi-se e, desde então, ninguém mais o encontrou.

Incluído na lista da Interpol, foi encontrado… adivinhem onde? Um doce pra quem for esperto. No Brasil, é claro. Apanhado em terras de Pindorama, recebeu o conselho de ser esperto até o fim: entrou com pedido de asilo. Imaginem a situação: um refugiado sueco pedindo asilo ao Brasil! É o mundo de ponta-cabeça.

O "cadeirante" trabalhando em casa

O “cadeirante” trabalhando em casa

As chances de que lhe seja concedida permanência estão longe de ser nulas. Seja como for, que o extraditem ou não, a simples análise do pedido de asilo deve demorar pelo menos um ano.

Pois é, distintos leitores, não é de hoje que nosso pais é visto como refúgio dourado de malfeitores de toda espécie. Tirando algum amalucado – tipo Snowden – ninguém imaginaria buscar abrigo na China ou na Rússia. No imaginário europeu, faz meio milênio que o Brasil é idealizado como paraíso terrestre.

O asilo concedido a bandidos (Ron Biggs, da Inglaterra), ditadores (Alfredo Stroessner, do Paraguai) e assassinos (Cesare Battisti, da Itália) não faz senão reforçar a percepção de que o nosso é um País onde o crime compensa. Talvez seja isso mesmo.

A fama está criada. O Brasil pode continuar dormindo tranquilo em berço esplêndido.

Frase do dia — 235

«Em qualquer lugar do mundo, salvar uma vida é ato humanitário e reconhecido por toda a sociedade. Aqui, ele foi vilipendiado.»

Roger Pinto Molina, aquele senador boliviano que, perseguido por Evo Morales, procurou proteção na embaixada do Brasil em La Paz. Depois de mofar naquela repartição por um ano e meio, foi conduzido ao Brasil clandestinamente por um diplomata brasileiro condoído da sorte do refugiado.

Passado um ano e meio da chegada do senador a Brasília, o Itamaraty tomou a decisão de sancionar o diplomata salvador. Nenhuma decisão foi tomada com relação ao boliviano, que continua num limbo à espera de que lhe seja concedido asilo no Brasil.

O desabafo do senador boliviano faz referência ao ato do destemido diplomata brasileiro Saboia, cujas orelhas acabam de ser puxadas pelo Itamaraty.

Ninguém me ama

José Horta Manzano

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

by Carlos Alberto da Costa Amorim, desenhista carioca

Fala-se hoje menos no assunto, mas é fato que Mister Snowden continua usufruindo as delícias da fria estepe russa. Já faz um ano que está sob aquelas latitudes.

Para quem não se lembra, Edward Snowden era funcionário de baixo escalão de uma empresa terceirizada que prestava serviço à ANS – Agência Nacional de Segurança, central de espionagem americana. Havendo descoberto o óbvio, ou seja, que uma agência de espionagem espiona, decidiu botar a boca no trombone. Sentiu que cabia a ele salvar a humanidade de tal baixeza. Naturalmente, tomou primeiro o cuidado de se afastar dos EUA. Em seguida, convocou a mídia e contou o que sabia.

by Patricia Storms, desenhista canadense

by Patricia Storms, desenhista canadense

Ora, todo dirigente – político ou empresário – sabe que seus passos e atos podem estar sendo monitorados. Sabem todos que suas conversas podem estar sendo captadas por ouvidos indiscretos. A coisa vai e a coisa vem, essa sempre foi a regra do jogo. Mas uma coisa é saber, outra coisa é a mídia mundial publicar, em manchete, que fulano espionou sicrano. Aí a coisa fica feia. Tanto o acusado de espionar quanto a vítima entram em saia justa. Ambos perdem a face.

O que o desmiolado Snowden fez foi romper acordo tácito que mantém em equilíbrio as artes da espionagem: eu sei que você faz, mas não digo nada; eu faço a mesma coisa, mas não quero que você diga.

O resultado do imbróglio é que o moço acabou desterrado lá pelas bandas de Moscou. Transformou-se em fardo que ninguém quer carregar. Senhor Putin se sentiria feliz em livrar-se do moço, mas ninguém quer saber de acolhê-lo.

EspiãoNão é só no Brasil que procurados pela Interpol dão entrevista. Estes dias, Mister Snowden consentiu em ser questionado por jornalistas. Reiterou que gostaria de voltar à pátria, mas que só o fará se os EUA se comprometerem a amoldar o desenrolar do processo a determinadas exigências suas. Pode esperar sentado.

Aventou também a hipótese de obter asilo na Suíça. Cá entre nós: quem é que não gostaria? Só falta combinar com os suíços, detalhe do qual o postulante ainda não cuidou. Aliás, seu ato de candidatura começou mal. Logo de cara, descreveu Genebra, a segunda cidade do país, como “a capital da espionagem”. Que declaração infeliz! Realmente, esse rapaz tem o estranho dom de cuspir na sopa antes de engolir a primeira colherada.

Essa história nos deixa de herança alguns ensinamentos.

Interligne vertical 12Temos a confirmação do que já estávamos cansados de saber: todos espionam todos, cada um se valendo dos meios de que dispõe.

Toda publicidade dada a fatos de espionagem é nociva e indesejada. Não interessa a espiões nem a espionados, dado que os enfia a todos em saia justíssima.

Diga-se (ou faça-se) o que for, a prática da espionagem, velha como o mundo, continuará firme e forte. Nada nem ninguém será capaz de dar-lhe um basta.

Não saberemos nunca se Mister Snowden terá agido por convicção ou por destrambelhamento. Continuo a acreditar que o moço é descabeçado. Louco manso, como se diz. Incomodou um bocado de gente para chegar a um resultado final nulo.

Dar asilo aos perseguidos

José Horta Manzano

Alimentar quem tem fome, agasalhar quem tem frio, consolar os que choram, proteger os indefesos, abrigar os perseguidos. São princípios universais, base de toda sociedade organizada e termômetro de seu grau de civilização.

O Brasil está rodeado de vizinhos estranhos e imprevisíveis. Alguns até violentos. No tempo em que cada país vivia fechado em seu universozinho, sem grande contacto com o exterior, vizinhos tinham pouca importância. Mas a roda girou e a ordem mundial se alterou.

Com a melhora nos transportes e nas comunicações, a proximidade geográfica passou a ter maior significado nas relações entre os povos. Cinquenta anos atrás, uma viagem internacional ― fosse ela a Assunção ou a Bruxelas ― causava o mesmo pasmo. Era assunto para relatos que duravam meses, anos até. Hoje não é mais assim. A proximidade dos vizinhos tem assumido importância crescente.

Se é um bem ou um mal? Pois não me parece nem um nem outro. É da vida. Tendemos todos a ter mais intimidade com o vizinho de parede do que com o que vive na rua de baixo. E a recíproca é verdadeira: nossos vizinhos também nos veem, mais e mais, como gente digna de atenção e de respeito.

Foi nessa continuidade histórico-política que um senador boliviano, perseguido pelo governo de seu país e sentindo-se por ele ameaçado, buscou asilo na embaixada do Brasil em La Paz. Causou rebuliço em nosso governo popular. Por um lado, princípios universais de convivência ensinam que se deve dar asilo aos perseguidos. Por outro, dar proteção a um desafeto de governante amigo pode ser interpretado como afronta. Que fazer?

Oficialmente, nada se fez. Brasília escudou-se detrás de desculpa cômoda: o governo boliviano se negava a conceder salvo-conduto para o asilado abandonar o país em segurança. No entanto… por baixo do pano, as coisas não se desenrolavam exatamente assim.

Não tivesse a notícia sido publicada pelo Estadão, em sua edição de 14 fev°, não seria de acreditar. Se você não leu, não perca: é edificante. Clique aqui. Sabemos agora que, logo que o senador bateu à porta de nossa embaixada e lá foi acolhido, Brasília e La Paz entabularam tratativas para resolver o problema de maneira indolor para os dois governos e, se possível, infernizando e desgraçando a vida do ousado parlamentar.

O plano era remover de nossa embaixada o refugiado incômodo, instalá-lo num avião venezuelano e despachá-lo para a Venezuela de Chávez ou para a Nicarágua de Ortega ― gente notoriamente confiável e amiga. Para coroar o cenário de sórdida deslealdade, o senador não deveria ser informado do destino final de sua viagem.

Dois motivos impediram o sucesso da infame operação. Primeiro, o asilado não concordou em embarcar num voo de destino ignorado. Segundo, Chávez, apesar do desvelo do ápice do suprassumo da quinta-essência da superior medicina cubana, faleceu. E a urdidura secreta foi por água abaixo. O senador teve de ser resgatado pela compaixão de um funcionário de nossa embaixada, que arriscou seu futuro profissional na empreitada.Roger Pinto 2

O senador refugiado sobrevive hoje em Brasília no quarto de empregada ― perdão! ― no quarto de auxiliar de serviços domésticos do apartamento de um senador brasileiro. É cômodo sem janela, de uns 5 metros quadrados, onde não cabe nem criado-mudo.

É inconcebível que nossos governantes, que, em nome do Estado brasileiro, deram refúgio na embaixada ao político perseguido, não lhe proporcionem o alojamento e a proteção que lhe são devidos. Mais inexplicável é o fato de o terem acolhido em La Paz e de se recusarem agora a confirmar-lhe asilo em território nacional.

Melhor teria feito o señor Molina se tivesse procurado a embaixada de um país civilizado. Fez mau negócio, o infeliz parlamentar.

Copas e Jogos Olímpicos podem servir para anestesiar o distinto público interno. Casos como o do senador boliviano corroem a imagem de nosso país no exterior. É pena.

Infeccionou de vez

José Horta Manzano

A Folha de São Paulo deste 3 de setembro traz excelente análise de João Paulo Charleaux, jornalista e bacharel em Comunicação Social, sobre a situação legal do senador boliviano que passou quase um ano e meio na embaixada do Brasil em La Paz.

Bem a o estilo English for beginners, o artigo deixa clara a distinção entre refúgio e asilo. O asilo é um caminho curto, sem paradas intermediárias. Sua concessão é prerrogativa da presidência da República. O refúgio segue uma via bem mais tortuosa, com intervenção de várias instituições. Periga demorar muito tempo para ser concedido.

Talvez por desconhecerem essa sutil diferença, os que organizaram a fuga do senador fizeram que ele assinasse um pedido de refúgio. O que está feito, está feito. A máquina foi posta em marcha e o trem tem de ir até o fim da linha.

Segundo a análise do jornalista, uma coisa é certa: o senador não poderá ser devolvido à Bolívia. Já é uma notícia tranquilizadora.

Posso entrar?

José Horta Manzano

Em despacho de 23 de junho, o diário South China Morning Post informa que Edward Snowden escapou de Hong Kong. Embarcou num voo da companhia Aeroflot em direção a Moscou. No momento em que escrevo estas linhas, deve estar sobrevoando território russo. A previsão de pouso é por volta das 10h da manhã deste domingo, pela hora de Brasília.

Conheço muito bem as formalidades de imigração em vigor em Hong Kong. A cidade-estado está longe de ser uma peneira. Os controles de entrada e de saída aliam o antigo rigor comunista à eficiência britânica. De olhos perscrutantes, os agentes são mal-encarados, silenciosos, inflexíveis.

Se Snowden deixou o território, fez isso com a anuência das autoridades. É possível ― e mesmo bastante provável ― que Pequim tenha fechado um olho na esperança de se livrar de um problema cabeludo. O homem está sendo procurado pelo governo dos EUA sob a acusação de espionagem, crime ultrapesado pela lei de qualquer país.

Os dirigentes russos, pelo menos por enquanto, alegam estar completamente alheios ao que se passa. Acredite quem quiser.

Robin Hood

Robin Hood

O destino final do fugitivo, segundo o South China Morning Post, poderia ser a Islândia ou o Equador. Eu acrescento: poderia também ser o Brasil, por que não?

A Islândia acolheu, 4 anos atrás, um cirurgião plástico brasileiro, que, condenado a 47 anos de prisão por homicídio, havia escapulido de sua prisão. Mas o problema foi resolvido em pouco tempo. O governo brasileiro solicitou e obteve a extradição do condenado.

O Equador abriga em sua embaixada londrina, há mais de um ano, um Robin Hood dos tempos modernos. O original, a quem a lenda confere uma aura de honra e magnanimidade, roubava dos ricos para distribuir aos pobres. O clone atual roubou segredos diplomáticos e os publicou ao planeta inteiro. Segredo é para quatro paredes. Espalhar troca de correspondência confidencial, além de ser feio, não traz vantagem a ninguém. Tanto o Robin Hood original quanto o moderno agiram mal. Nenhum deles transformou o mundo.

No apagar das luzes de seu governo, como quem põe o morango em cima do bolo, no mesmo dia em que concedeu passaporte diplomático a seus filhos e netos, o Lula negou definitivamente a extradição de um fugitivo da Justiça italiana, já condenado em seu país por participação em quatro assassinatos.Interligne 38

A Islândia é país pequeno, sem árvores e sem calor. Para um jovem de 30 anos, como Snowden, a perspectiva de passar o resto da vida naquele lugar é desmoralizante.

Já o Equador é um pouco melhor. Tem árvores, tem calor, mas o território é diminuto. Para quem chega, saber que não vai nunca mais poder sair deve ser frustrante.

Robin Hood

Robin Hood

Se eu fosse Snowden, sondaria o governo brasileiro. Generosos, estamos sempre prontos para acolher assassinos, ex-ditadores e outros bandidos. Por que não traidores? O País é vasto como coração de mãe. Cabem todos.

No entanto, caso a Islândia decida abrigar o fugitivo, resta-nos a possibilidade de convidar aquele país hermano para integrar o Mercosul. Seria mais ou menos como se nós mesmos tivéssemos acolhido o fugitivo. É sempre um consolo, não é mesmo?Interligne 38

Complemento
Sabe aquela batata quente, aquela que ninguém quer segurar na mão e joga no colo de quem estiver mais distraído? Pois é. Este caso Snowden está ficando assim. Tornou-se um abacaxi que ninguém quer descascar.

No momento em que escrevo este complemento, o homem deve estar desembarcando em Moscou. A Agência Reuters informa que seu destino poderia ser Caracas, via Havana. Faz sentido.

A Islândia, finalmente, não vai precisar ser convidada a fazer parte do Mercosul. Não faz jus ao convite, além do que a Venezuela já é membro de pleno direito. Snowden vai se sentir em casa. A velha máxima do tempo de nossos tataravós continua válida: dize-me com quem andas, e dir-te-ei quem és.

Que o destino final seja Cuba, o Equador, a Venezuela, tanto faz. Pode ser até um País gigante por natureza, por que não? Quem viver verá.

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