Dá um desânimo

José Horta Manzano

Doutora Marina Silva penitenciou-se por ter recomendado a seu eleitorado votar em Aécio Neves no segundo turno das últimas eleições presidenciais. Convenhamos, é o mínimo que poderia fazer. Disse ainda que, fosse hoje, «com certeza não o apoiaria». Ainda bem.

Declarou ainda que a eleição de 2014 foi fraudada pelo uso de fundos oriundos do esquema de corrupção instalado na Petrobrás. A doutora levou quatro anos pra descobrir o que já estamos carecas de saber. É que Madame, tal qual um cometa, só reaparece em datas fixas. A cada quatro anos, ressuscita, profere platitudes e depois se eclipsa até a eleição seguinte.

Deixando de lado os truísmos da eterna candidata, é forçoso constatar que a eleição de 2014 foi realmente fraudada. Marina Silva foi massacrada pela propaganda enganosa e desleal espetada pelos marqueteiros Santana & esposa. Doutor Aécio era uma fraude personificada ‒ embora a maioria dos eleitores ignorasse. E doutora Dilma era tão ruim que não aguentou o tranco e acabou defenestrada com apoio de parlamentares da própria base.

Lula da Silva está na cadeia, condenado. Por mais que seus defensores esperneiem, por mais que o marketing tosco do Partido dos Trabalhadores organize acampamentos e queima de pneus, por mais que ministros do STF tentem livrá-lo, os crimes foram desmascarados e o ex-presidente foi por isso condenado. Ainda que escape ao cárcere, sua biografia está, para todo o sempre, marcada com o carimbo da infâmia.

Aécio, Serra, Alckmin estão enrolados com a Justiça. Um em maior grau, outro em menor, mas nenhum escapa. No PT, não sobrou um, meu irmão. Nos partidos tradicionais ‒ se é que se os pode chamar assim ‒, tampouco sobraram candidatos viáveis.

Nossa escolha será entre o câncer e a aids. Poderemos eleger um magistrado colérico, destemperado, abespinhadiço e imprevisível de quem não se conhecem as ideias. Poderemos ainda dar o voto a um deputado profissional que, apesar do permanente sorriso, traz na canastra um punhado de ideias arrevezadas, chucras, no limite da decência. E vamos parando por aí, que o resto é o resto.

Que falta faz um candidado honesto, equilibrado e bem-intencionado. Dá um desânimo, não dá?

Primeiro de abril indignado

José Horta Manzano

Na Idade Média, o nervo da confusão na Europa corria entre a França e a Inglaterra, inimigas havia séculos. Uma invasão aqui, uma batalha lá, as duas nações davam o tom das hostilidades no continente. A rivalidade entre elas, com o passar dos séculos, foi aumentando até chegar ao ápice com as campanhas napoleônicas. Depois disso, excluídas as nações americanas, a África e a Ásia foram partilhadas em zonas de influência de uma ou de outra das duas potências. Por um momento, a Europa pareceu sossegar.

Mas a calma não durou muito. A Alemanha, tradicionalmente composta de uma miríade de pequenos principados, ducados e reinos, logrou unificar-se na década de 1860. A união faz a força e… bota minhocas na cabeça. Uma Inglaterra absorvida pelo progresso industrial e pelas dezenas de colônias que possuía ao redor do globo, passou a dar menos atenção à antiga rivalidade com os vizinhos franceses. A tensão entre potências se deslocou ao eixo Paris-Berlim.

Logo de Arte-TV

A guerra franco-alemã de 1870 inaugurou mais um período bélico. Seguiu-se a carnificina de 1914-1918. E a hecatombe de 1939-1945. Depois desses desastres, a Europa pensante chegou à conclusão de que a mútua exterminação não era possível. Melhor seria tentar o caminho da convivência pacífica. A concórdia entre França e Alemanha era o alicerce da paz.

A criação do Mercado Comum ‒ antepassado da atual União Europeia ‒ é fruto dessa reflexão. Na mesma linha, desde que a televisão surgiu, pensou-se em criar um canal franco-alemão, um passo a mais em direção ao conhecimento mútuo e à integração entre os dois vizinhos. A Arte-TV, rede binacional, tornou-se realidade em 1992.

O canal transmite 24 horas por dia programas bilíngues. Dublados ou legendados, são destinados a franceses e a alemães. A programação é de nível elevado, com relevo para documentários, entrevistas, debates, emissões de caráter científico. Os filmes são bem escolhidos. Se você não encontrar nada que lhe agrade em outros canais, pode sintonizar a Arte, que dificilmente se decepcionará.

Dificilmente não é sinônimo de nunca. Vou contar o que aconteceu ontem. Como sabem meus cultos e distintos leitores, não há prova científica de cruzamento entre o Homem de Neandertal e o Homo Sapiens. Considera-se que os dois ramos de hominídeos, embora contemporâneos, não se misturaram. Os neandertais acabaram se extinguindo enquanto o Homo Sapiens sobreviveu e desembocou no homem moderno.

Ontem, Arte-TV apresentou, no horário nobre, interessantíssimo documentário revelando a incrível descoberta do esqueleto fossilizado de uma mulher neandertal morta no momento em que dava à luz uma criança da espécie Homo Sapiens. Era o elo que faltava, a descoberta científica do século!

Durante 50 minutos, foram entrevistados cientistas, paleontologistas, arqueólogos, geneticistas e exploradores. Foi mostrado o esqueleto, encontrado numa gruta da Geórgia (Ásia Menor). Depois de escaneado, estudado e revirado pelo avesso, o ADN (DNA) foi sequenciado. Ficou patente que temos todos um patrimônio genético que combina genes de neandertais e de Homo Sapiens. Coisa espantosa, de deixar qualquer um boquiaberto!

Faltando dois minutos para o fim do programa, deu pra ver o desenho de um peixinho dançando no canto superior esquerdo da tela. No dia primeiro de abril, peixinho é símbolo da mentira, da pilhéria. Explicaram, então, que se tratava de uma brincadeira. O esqueleto tinha sido fabricado e os participantes se dividiam entre figurantes e cientistas de verdade que consentiram em participar do gracejo. Nenhuma verdade científica tinha sido arranhada. Ha, ha, ha.

Ha, ha pra eles, ora bolas! De um canal popular, pode-se esperar tudo, mas de uma Arte-TV, francamente… Fiquei furioso, e acho que não fui o único. Pois é, como eu dizia no post de ontem, no dia 1° de abril, mais vale desconfiar de tudo o que aparece pela frente. A solução é ficar em casa lendo um romance. História inventada por história inventada, o romance é melhor: a gente sabe, desde a primeira página, que não passa de ficção.

Recordar é viver ― 7

As dúvidas do Lula

José Horta Manzano

23 set° 2010
Questionado sobre os ataques feitos anteriormente à imprensa, Lula disse duvidar «que exista um país na face da terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo».

20 out° 2013
Sobre denúncias de corrupção, Lula disse duvidar «que exista no mundo um país com a quantidade de fiscalizações que o Brasil tem».

Blabla 228 ago 2014
Cutucando o PSDB, Lula disse duvidar que o partido do ex-presidente FHC «tenha feito 10% do que fiz para investigar». E usou uma analogia doméstica para explicar a diferença entre os partidos. «Eles tinham um tapete desse tamanho para jogar a sujeira debaixo. Nós tiramos esse tapete da sala», afirmou. «Só tem um jeito: é ser honesto e ter decência. Se fizer sacanagem com o dinheiro público tem que pagar».

19 out° 2006
«Se houve crime eleitoral, terei que pagar», diz Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que estará sujeito à punição da Justiça Eleitoral caso seja comprovado que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal que supostamente seria usado para compra do dossiê contra tucanos saiu da sua campanha de reeleição.

24 set° 2007
Deu no NYT: Lula duvida de provas contra Dirceu
Além de exaltar a economia brasileira e evitar falar do colega venezuelano, o presidente Lula disse em entrevista ao jornal New York Times que não há provas do envolvimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão.

Blabla 725 ago 2012
«Lula duvida que Aécio concorra à presidência. Acha até que ele trabalhará para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo Campos.»

1 fev° 2012
«Lá nos EUA, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.»

20 jan° 2016
«Não tem uma “viv’alma” mais honesta do que eu neste país», diz Lula.

América del Sur

José Horta Manzano

Faz 13 anos que nosso governo popular vem se esforçando para integrar o Brasil no clube das nações sul-americanas. É verdade que, desde que os primeiros portugueses aportaram, demos as costas para nossos vizinhos. Nunca nos identificamos com os hermanos. No nosso imaginário, nosso ideal sempre foi outro, situado a milhares de quilômetros daqui.

No entanto, analisando de mais perto e comparando nosso comportamento com o dos vizinhos, não há como escapar da conclusão: não somos tão diferentes assim.

A mentira, por exemplo, é defeito comum a todos os governantes da região, vício que costuma passar batido. Cuba é o arquétipo desse comportamento ‒ faz cinquenta anos que os Castros embalam seus concidadãos com inacreditáveis lorotas.

Ultimamente, o mau costume tem-se alastrado pelo subcontinente. Chávez, Kirchner, Correa, Evo, Maduro mantêm-se à custa de cascatas de falsidade e de muita conversa fiada. Sem mencionar nosso inefável Lula, naturalmente. Nosso guia adotou o mesmo caminho indigente.

A apropriação indébita da coisa pública é outro defeito. Em outras palavras, falo do roubo, em proveito próprio, daquilo que pertence a todos. Dizem as más línguas que a fortuna dos irmãos Castro, devidamente encafuada em lugar seguro, totaliza bilhões. Quanto aos outros, pouca gente conhece o montante exato da riqueza de cada um. Mas todos desconfiam.

O mais recente exemplo de assalto aos bens do contribuinte acaba de ser dado por doña Cristina, que deixou a presidência da Argentina faz alguns dias. A mandatária e seus áulicos deram um verdadeiro rapa. Sumiram computadores, móveis, eletrodomésticos, equipamentos. Para completar a herança maldita, deixaram veículos presidenciais com multas não pagas. Nem água quente havia na Casa Rosada quando Mauricio Macri assumiu.

Interessante será notar que a mídia argentina, ressabiada com possíveis represálias de correligionários da antiga presidente, não deu eco a esses «malfeitos». Quem noticiou foram jornais chilenos e espanhóis.

Essa rapina me fez recordar a declaração surpreendente dada em 2002 por Jorge Batlle, então presidente do Uruguai, sobre a honestidade de seus vizinhos. O homem declarou textualmente: «Los argentinos son una manga de ladrones, del primero hasta el último» ‒ os argentinos são um bando de ladrões, do primeiro ao último.

Foi sentença pesada, sô! Ofendeu um povo inteiro, sem deixar brecha pra exceção nenhuma. Nem nosso amado guia, em seus mais desatinados pronunciamentos, ousou ir tão longe.

Pra abrandar, há que jogar água nessa fervura. Melhor será dizer que muitos argentinos ‒ assim como muitos brasileiros, muitos uruguaios, muitos venezuelanos ‒ são desonestos. Mas não todos. Pelo menos, espero.

O dilmês em seu apogeu

Ruy Castro (*)

Presidente 9 Getulio VargasGetulio Vargas começava seus discursos com um longo, lento e sofrido “Trabalhadooooores do Brasil…” – ele pronunciava zil, não zíu – e não precisava dizer mais nada. Jânio Quadros falava português do século 17 com sotaque de PRK-30(*). Renunciou à presidência da República e se explicou: “Fi-lo porque qui-lo.”

E Lula habituou-se a mentir, desmentir-se, dizer e desdizer-se com tal ênfase que ainda o levam a sério. Mas, à sua maneira, todos davam o recado. Já Dilma Rousseff, diante do menor improviso, acerta caneladas em palavras, períodos e significados.

No fim de semana, Dilma declarou que esperava “integral confiança” de seu vice Michel Temer. O que significava? Que Temer tinha “integral confiança” nela. Na verdade, Dilma, com seu estilo patafísico de falar e governar, queria dizer que ela, sim, é que tinha “integral confiança” nele. Michel Temer entendeu e, para não perder tempo, respondeu que, ao contrário, Dilma “nunca confiou” nele. Pronto, deu-se a crise.

Presidente 10 Janio QuadrosAposto que, nos anos 60, quando deveria estar lendo “A Moreninha”, “A Mão e a Luva” ou “O Guarani”, clássicos românticos da literatura e então modelos de como falar e escrever, a menina Dilma estava mergulhada nos manuais de Althusser, Plekhanov e Lukàcs, ásperos vade-mécuns do marxismo, traduzidos do espanhol.

Isso pode ter forjado o seu jeitão de caminhar, abrindo caminho com os ombros, e principalmente sua crespidão mental.

Muita gente pensa bem, mas se exprime mal. Dilma congrega o pior dos dois mundos. O histórico disso está no recente “Dilmês – O Idioma da Mulher Sapiens”, de Celso Arnaldo Araujo, um apanhado crítico e altamente documentado das batatadas de Dilma, de seus tempos de superministra de Lula até agora.

Hoje, este é um livro sério e preocupante. No futuro, será um clássico do humor brasileiro.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista.

(*) PRK-30 era programa humorístico transmitido pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro nos idos de 1940-1950. Lauro Borges e Castro Barbosa comandavam.
(Nota deste blogueiro)

Redução de ministérios

Ricardo Noblat (*)

O que disse Dilma no dia 15 de setembro do ano passado, em campanha pela reeleição:

by Fernando 'Nando' F. Nunes

by Fernando ‘Nando’ F. Nunes

«Tem gente querendo reduzir ministérios. Vocês podem saber os ministérios que eles querem reduzir. Um deles é o da Igualdade Racial, o outro é o que luta em defesa da mulher. O outro é de Direitos Humanos. E tem um ministério que eu criei e eles estão querendo acabar que é o da Micro e Pequena Empresa.»

Dilma acabou com o Ministério da Micro e Pequena Empresa. E reduziu os ministérios da Igualdade Racial, da Defesa da Mulher e dos Direitos Humanos a um só. Ou seja: fez tudo o que disse que os outros fariam caso vencessem. Mentiu de novo. Como mentira antes.

(*) Ricardo Noblat em seu blogue alojado no jornal O Globo, 3 out° 2015.

Dilma e a legitimidade

José Horta Manzano

Dilma 1Legítimo é filhote de lei. O adjetivo latino legĭtĭmus é formado por lex/legis (a lei) com acréscimo do mesmo sufixo que se encontra em último, marítimo, íntimo.

Em sentido próprio, designa aquilo que é fruto da lei, amparado nela, justificado por ela. Em sentido figurado, diz-se também do que for genuíno, procedente, lógico, verdadeiro.

Dona Dilma, de visita a Rondônia, aproveitou uma cerimônia de distribuição de bondades para reafirmar, num discurso, sua relutância em reconhecer a rejeição maciça de que é alvo. Afirmou, com todas as letras, que o voto popular confere legitimidade a seu mandato e que, por via de consequência, o cumprirá até o último dia.

Não sofresse de um vício de origem, o raciocínio seria irrepreensível. De fato, o voto popular outorgou a dona Dilma mandato para segurar as rédeas do Executivo por quatro anos. Mas… cuidado! A mão que afaga é a mesma que castiga. A legitimidade que a lei concede ao eleito não é incondicional nem ilimitada. A lógica tem de ser respeitada até o fim.

O consumidor que, enganado pela propaganda, adquire um produto que não corresponde ao que dele se espera tem direito a devolvê-lo e a receber seu dinheiro de volta.

O mesmo vale para governantes. Somente será legítimo o presidente que não se tiver valido de subterfúgios ilícitos que possam ter pervertido o resultado das urnas. Em português claro: irregularidades na campanha eleitoral confiscam a legitimidade da eleição.

Dilma 11Pois é exatamente o caso de dona Dilma. Todos os brasileiros se dão conta agora: a campanha presidencial foi eivada de mentiras e de meias verdades. Incautos, muitos votaram na candidata justamente por acreditarem em suas promessas. Tomaram por ouro as barras de latão que dona Dilma expunha diante de seus olhos crédulos e esperançosos.

Embora desconfie da lisura do processo apuratório, não tenho meios de comprovar trapaça. Um dia, quem sabe, vai-se acabar descobrindo que a contagem dos votos escapou aqui e ali da lhaneza. Por enquanto, não há meios de afirmar. Portanto, sou constrangido a dar de barato.

No entanto, as mentiras que mancharam a campanha são amplamente suficientes para deslegitimar o resultado da eleição. Que dona Dilma não encha a boca pra proclamar a pertinência do mandato que recebeu.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Diante da tremenda desaprovação popular de que é alvo, volto a sugerir a nossa presidente a saída que lhe recomendei meses atrás. Para escapar da enrascada sem perder a face, só resta a dona Dilma convocar um plebiscito. Que pergunte aos brasileiros se desejam que ela toque o mandato até o fim. E que respeite a decisão do povo, seja ela qual for. Em seguida, não se falará mais nisso.

Como diz o outro, «quem paga mal paga duas vezes». Portanto, quem se elege mal…

A presidente não mentiu

José Horta Manzano

Brasilia 3Grande injustiça vem sendo perpetrada contra nossa presidente. Ok, ok, a mandatária está longe de ser aquela que deixará as melhores lembranças nos futuros livros de história, mas, assim mesmo, nem tudo é tão ruim.

Todos a condenam por ter prometido e não ter cumprido. Pior: por ter jurado que seguiria um caminho e, na hora do vamos ver, ter caminhado na direção oposta. O presidente que mente ao povo se equipara àquele que bombardeia os súditos. Traidor.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

É verdade que, até a semana passada, vivíamos com a insuportável sensação de termos sido vítimas do conto do vigário. A candidata Dilma, que nos tinha prometido fontes de mel e fim do drama, nos despejava fontes de fel e mar de lama. Uma frustração.

Felizmente, um fato surpreendente ocorrido semana passada veio esclarecer tudo. Dona Dilma não havia mentido, não, senhor. Éramos nós que, ignorantes, não havíamos entendido. A mensagem era, no entanto, clara. Fomos nós que não tivemos lucidez suficiente pra captar-lhe o sentido profundo.

Vamos dar a César o que é de César. Bem antes que a campanha presidencial tivesse início, a candidata Dilma havia garantido que, reeleita, implantaria no Brasil o padrão Fifa. Ninguém acreditou. Ela repetiu. Continuamos não acreditando. Pois os acontecimentos de Zurique afastam toda dúvida: a presidente havia dito a verdade.

Dilma Blatter 2A realidade é que poucos sabiam o que vinha a ser o tal padrão Fifa. A crença generalizada era de que fosse sublime, limpo, reto, livre de impurezas, moderno – em uma palavra: civilizado. A candidata, enfronhada na política desde outros carnavais, certamente sabia. Se pecou, foi por omissão: absteve-se de explicar aos eleitores o que vinha a ser o novo padrão.

Que não seja por isso: o destino se encarregou de esclarecer. O planeta inteiro agora sabe que o padrão Fifa é composto por roubalheiras, mentiras, traições, golpes de palácio, vinganças pessoais, vaidades exacerbadas, corrupção instituída em sistema, cooptação, compra de votos, inveterada cara de pau, ausência de escrúpulos, espírito corporativo, menosprezo pela inteligência alheia.

Fifa 1Não precisa argúcia especial pra identificar escandalosa semelhança entre o padrão Fifa e o padrão brasileiro. A candidata estava certa – errados estávamos nós. Faz quatro anos e meio que ela nos conduz pela senda encantada, tal como havia prometido.

Alegria, conterrâneos! Estamos quase lá!

A tesoura

Juan Arias (*)

«De hecho, uno de los motivos de mayor irritación de la sociedad es el haber visto que la entonces candidata presidencial Dilma Rousseff no contó la verdad. Presentó a un Brasil feliz, pujante y sin crisis. Juró que no habría recortes ni sacrificios y menos para los más necesitados, y acusó a sus competidores Aécio Neves y Marina Silva de querer entregar el país a los banqueros que acabarían robando la comida del plato de los pobres.

Hoy, sin embargo, el ministro de Economía del nuevo Gobierno es el banquero Joaquim Levy, formado en una de las escuelas más ortodoxas y liberales de Estados Unidos. Y Rousseff le ha entregado, aunque a regañadientes, las tijeras que ella había condenado.»

Interligne 18c

«De fato, um dos motivos de forte irritação na sociedade é constatar que Dilma Rousseff, quando candidata à presidência, não disse a verdade. Apresentou um Brasil feliz, pujante e sem crise. Jurou que não haveria cortes nem sacrifícios, em especial para os mais necessitados. Acusou seus concorrentes Aécio Neves e Marina Silva de querer entregar o país a banqueiros que acabariam roubando a comida do prato dos pobres.

Hoje, no entanto, o ministro da Fazenda do novo governo é o banqueiro Joaquim Levy, formado numa das escolas mais ortodoxas e liberais dos EUA. Dilma Rousseff entregou-lhe, de má vontade, a tesoura que ela mesma havia condenado.»

Interligne 18c

(*) Juan Arias é escritor e jornalista espanhol. A citação foi extraída de artigo publicado no espanhol El País, 12 mar 2015.

Na lábia ou na raça?

José Horta Manzano

Quem é que manda num grupo? Aquele que conseguir provar à turma que é o mais forte. Desde os tempos do homem de Cro-Magnon, tem sido assim. Antes, se decidia no braço, no fio da espada ou na ponta da lança. Hoje mudou. Como não fica bem ensanguentar arenas para escolher chefe, costuma-se dar preferência a métodos mais aveludados.

Nos países civilizados, inventaram-se outros meios de escolher líder. O voto, por exemplo. Cada cidadão exprime sua vontade (mais ou menos) secretamente, e pronto! Aquele que a maioria tiver decidido assume a chefia.

O método é menos sanguinário, mas nem por isso menos brutal. A selvageria, antes escancarada, manifesta-se agora por outros canais. Mentira, agressão verbal, calúnia, propagação de boato, produção de dossiê, cooptação de testemunhas duvidosas, ocultação da realidade, negação de fatos evidentes, engodo, terrorismo imagético – eis a nova face da violência.

Dilma 8Mas assim é, gostemos ou não. O preocupante é que, a cada eleição, mais violentos vão-se tornando os expedientes. Sabe-se lá onde vamos parar. Para 2014, alguns já tinham prometido «fazer o diabo». Digo-vos: do diabo, não vimos ainda nem o rabo. Com o perdão de Shakespeare, há muito mais demônio do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Por um lado, a escolha menos sanguinolenta nos tranquiliza. Por outro, abre alas para falsos líderes, para gente que não tem os atributos mínimos pra assumir as rédeas. É vitória mais na lábia que na raça. O resultado é desastroso: líderes fracos, bizarros, ilegítimos, rejeitados por grande parte dos comandados.

E não pense o distinto leitor que nosso País é o único a enfrentar esse problema. O nosso é caso emblemático, tão profunda é a rejeição que nossa líder desperta em boa parte da população. Mas acontece também alhures.

Veja o caso da França. Quando assumiu seu trono, em jun° 2012, Monsieur Hollande usufruia da confiança de 55% de seu povo. De lá pra cá, o crédito foi rolando ladeira abaixo. Neste nov° 2014, está batendo no fundo do poço. Consegue suscitar a confiança de escassos 13% dos cidadãos.

Cota de confiança de François Hollande em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Índice de confiança de François Hollande
em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Mister Obama é outro caso sintomático. Reeleito dois anos atrás, acaba de sofrer severa derrota eleitoral. Por via de eleição de representantes, o povo negou-lhe maioria em ambas as câmaras. Assim como o presidente da França, o líder americano terá de amargar estes próximos dois anos num limbo de legitimidade.

Que fazer? Instituir mandato anual, com eleições todo mês de outubro? Optar por um regime parlamentar que relegue o presidente a papel decorativo? Voltar a decidir a chefia no muque ou no sangue das arenas? Ou, mais simples, censurar pesquisas que avaliem a popularidade de dirigentes?

Cá pra mim, tenho a impressão de que, malgrado os defeitos que o atual sistema possa ter, estamos condenados a conviver com ele ainda por muito tempo.

Sic est res – a coisa é assim.

Se os 2 minutos finais fossem meus…

Fernão Lara Mesquita (*)

Brasileiros!

O passo que vamos dar domingo é decisivo. Pense bem antes de apertar aquele botão.

Esse retrato cor-de-rosa do Brasil que os marqueteiros da Dilma pintaram na campanha é falso. Os números em que ele está baseado são falsos.

A festa acabou mas o PT continua batendo bumbo pra fazer você dançar. Você sabe bem disso. Você está sentindo isso no seu bolso, na compra do mês e na prestação que não cabem mais no salário.

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

Os números que a Dilma mostra valem tanto quanto os juramentos solenes de acabar com a corrupção e a impunidade do partido que, quando chega a hora de agir, só age para desmoralizar a Justiça e tirar da cadeia, um por um, todos os condenados por corrupção. Nenhum dos que foram presos continua preso. Nenhum dos que estavam no poder perdeu o poder.

No plano internacional tem sido a mesma coisa.

O PT vive falando em direitos humanos mas só age na ONU para impedir que os maiores criminosos do mundo sejam detidos. Promete democracia mas só se relaciona com ditadores. Com aquele tipo de gente que aceita convite pra entrar mas não aceita ordem pra sair.

Tudo isso não é só coincidência.

O PT pede o seu voto mas já cassou por antecipação o que você vai dar domingo para o seu futuro deputado no Congresso com o decreto que a Dilma assinou há cinco meses – aquele que põe para fazer as leis do Brasil, no lugar dos parlamentares, os “movimentos sociais” que você não elegeu.

É por cima de tudo isso que o PT pede mais 4 anos, além dos 12 que já se foram, e olhando pra outros 8 logo ali adiante.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Olhe pra Cuba, olhe pra Venezuela, olhe pra Bolívia, olhe pra Argentina; olhe pros ditadores todos que o PT não se cansa de festejar e pros países que ele aponta como modelos para o Brasil.

É isso mesmo que você quer?

Domingo vai começar a nascer o Brasil onde seus filhos vão viver.

Por isso, pense bem antes de apertar aquele botão.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Frase do dia — 160

«Dilma não atuou na Seleção nem a treinou, mas não resiste a recorrer ao esporte bretão para parecer simpática. Nascida em Minas, comemorou a conquista de Libertadores da América pelo Atlético Mineiro em 2013 em redes sociais. “Congratulo (sic) com toda a torcida do Atlético pela conquista do título. Eu sou torcedora do Atlético e, quando criança, ia com meu pai a muitos jogos do Galo no Mineirão”, postou. Não faltou quem nos mesmos veículos lembrasse que 1) como nasceu em 1947, tinha 18 anos e, portanto, não era criança quando o estádio foi inaugurado; e 2) que o pai morrera em 1962, três anos antes de sua inauguração.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, in Estadão 16 jul° 2014, mostrando que mentira tem perna curta.

Aflição, constrangimento e consternação

José Horta Manzano

Há muita gente finória no mundo. Espertalhões não são exclusividade brasileira, longe disso. Volta e meia, vem à tona alguma falcatrua nacional ou internacional. A diferença entre lá e cá é a reação da sociedade quando um malandro é apanhado com a boca na botija.

Povos mais adiantados reservam tratamento mais severo a desvios de conduta, especialmente quando são obra de personagens políticos. A demissão do cargo é a punição primeira, sem contar as sanções que lhe possam suceder.

Blá, blá, blá!

Blá, blá, blá!

No Brasil, sacumé, esses deslizes costumam ser tratados com displicência. Nossa sociedade costuma dar de ombros e isentar de sanções as safadezas, razão pela qual os espíritos se liberam. Comportamentos de valor moral discutível tendem a tornar-se cada dia mais contundentes e mais corriqueiros.

Em julho de 2009, um blogueiro alojado na revista Veja denunciou a desfaçatez de dona Dilma, então candidata à presidência da República. A presidenciável ostentava, em seu muito oficial Currículo Lattes, títulos de mestre e de doutora que não possuía.

Naquela mesma ocasião, Malu Gaspar revelou, na mui séria revista Exame, que o então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, era autor de um «malfeito» de mesmo jaez. Seu currículo oficial, no site do Itamaraty, informava que o chanceler era doutor em Ciência Política por um instituto londrino. Era mentira.

Descobertos os embusteiros, que fim os levou? Longe de ser punida pela empulhação, a presidenciável foi eleita. Está no posto máximo da República até hoje. Quanto ao chanceler, foi designado pela doutora Dilma ― quando esta chegou à presidência ― para chefiar nada menos que o Ministério da Defesa. Está lá até hoje.

Como se vê, na política brasileira, o que parece nem sempre é. Nas altas esferas, além de falsos messias, temos também falsos mestres e falsos doutores. Mas tudo bem, vamos em frente, que a Copa é nossa!

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Aos 71 anos de idade, diplomata de carreira e ministro da República há 10 anos, o doutor Celso Amorim pode ser tachado de tudo, menos de inexperiente. No entanto, nosso prezado ministro tem demonstrado uma candura patética, incompatível com os altos encargos que lhe têm sido confiados.

Durante infindáveis 8 anos, levou a cabo uma política desastrosa que baixou a diplomacia de nosso País a um nível embaraçoso. O tolo ressentimento antiamericano do chanceler, aliado a sua obsessão terceiro-mundista démodée, levou o ingênuo Lula a dar tapinhas nas costas de gente pouco recomendável. Ahmadinejad, Zelaya, os Castros, Chávez, o ditador da Guiné Equatorial, Evo Morales foram alguns deles. Todos gente fina.

Ha, ha, ha! Crédito: Philippe Berry

Ha, ha, ha!
Crédito: Philippe Berry

Para alívio geral da nação, doutora Dilma preferiu confiar ao antigo chanceler o ministério da Defesa. Pelo menos, os desastres passaram a ser menos visíveis do exterior. Infelizmente, continuam no plano interno.

Faz dois dias, o doutor Amorim concedeu entrevista ― é impressionante a apetência que caciques da política brasileira têm para se fazer entrevistar. Do responsável maior pela defesa(!) do País, espera-se, para começar, um certo recato. O ministério que controla as forças armadas tem, no mínimo, de se mostrar discreto. Se há falhas, não convém pô-las sobre a mesa nem expô-las em praça pública.

As décadas de experiência do doutor Amorim ainda não foram suficientes para ensinar-lhe essa verdade básica. A entrevista do ministro está mais para conversa de elevador que para fala de autoridade de elevado escalão. Ele chega a confessar que, tanto no exterior quanto no Brasil, em alguns momentos desconfiou que seu telefone estivesse sendo grampeado. E tudo ficou por isso mesmo, o homem continua sem saber se aconteceu ou não.

É afligente saber que o responsável pela defesa do País não consegue garantir a segurança e a inviolabilidade de seu próprio telefone. É constrangedor vê-lo declarar isso em público. É consternador perceber que continuamos sendo governados por gente presunçosa e incompetente.