Não viaje, fique em casa

José Horta Manzano

Li ontem que a Câmara Federal converteu em lei uma medida provisória que reduz de 25% para 6% a mordida que a Receita Federal dá em cada montante que brasileiros enviam ao exterior.

O distinto leitor pode até nem acreditar, mas este blogueiro não sabia que o fisco cobrasse imposto dito «de renda» sobre remessas que cidadãos comuns fazem para o estrangeiro. Não sei se é uma «jabuticaba» (especificidade brasileira) ou se existe em outras terras. O fato é que eu nunca tinha imaginado que tal aberração pudesse existir.

Guichê 1Embora a alíquota tenha sido suavizada, o pedágio continua a ser cobrado a cada envio de fundos. Que seja para viagem de turismo, de negócios, de serviço, de treinamento, tanto faz. Até fundos enviados por cidadãos viajando em missão oficial são puncionados. É uma enormidade. A cobrança é injusta, burra e extravagante.

É injusta porque soa como punição imposta aos que tiverem ousado trabalhar, economizar e alcançar condições de fazer turismo fora do país. A mensagem profunda é: «Não vale a pena se esforçar para subir na vida, cidadão. Toda ascensão social será castigada!»

É burra porque penaliza empresários em viagem de negócios ou de serviços. Passa por cima do fato que nosso país, com parque industrial em desmonte acelerado, busca desesperadamente clientes e oportunidades novas no exterior. Esse imposto burro só faz aumentar o custo Brasil. Viagens de negócios deveriam, ao contrário, ser incentivadas.

Dinheiro 5É extravagante porque pune viagens de treinamento. A tecnologia invade, cada dia com mais força, a vida do cidadão comum. Ideias novas, aparelhos novos, dispositivos novos, técnicas novas requerem operadores bem formados. Se um cidadão viaja ao estrangeiro para receber treinamento, voltará sabendo mais do que sabia ao deixar o país. Deve-se concluir que a ideologia oficial é barrar aos brasileiros o caminho do aprendizado?

É verdade que, desde sempre, o Brasil cultivou seu isolamento e seu provincianismo. Tempos houve em que, para poder viajar ao exterior, a gente precisava de um visto de saída expedido pela Polícia Federal. Isso felizmente acabou, mas sobrou esse imposto. Podia fazer sentido em outras épocas. Hoje, combina com Cuba e Venezuela. No Brasil, dá recado ambíguo.

Interligne 18hNota a jato
Espero que o fisco federal tenha pensado em cobrar o devido imposto “de renda” de todos os que, pressionados pela Lava a Jato, estão devolvendo o que roubaram. Afinal, essa bolada saiu do Brasil livre de impostos. Sem prejuízo do processo penal, que o devido tributo seja calculado pela alíquota de 25%, que estava em vigor à época. E que se aplique multa e correção.

Brasil, o triturador de empresas

Rubens Menin (*)

No último mês de dezembro, foram criados 200 mil postos de trabalho nos EUA. No mesmo período, foram extintas 150 mil vagas de emprego no Brasil.

Por que isso aconteceu? As causas são muitas e variadas, mas a grande maioria delas resulta de opções equivocadas ou ineficientes tomadas por aqui, tanto na área política como na econômica.

Fabrica 1Quem perdeu com isso? Enganam-se aqueles que acreditam que perderam apenas as empresas e seus donos ou acionistas. Perderam os brasileiros.

Perderam salários, perderam renda, perderam a possibilidade de sustentar a si e à família com emprego garantido. Perderam dignidade e perderam, principalmente, a chance de prosperar na busca de um futuro melhor.

Rubens Menin é empresário. O texto integral está no Diário do Poder.

Jó e Abraão

José Horta Manzano

Fica cada dia mais palpável que os donos do poder, aterrorizados com o embalo da diligência, andam perdendo o discernimento. Más línguas dizem que discernimento é justamente o que nunca tiveram, mas é melhor não começar a discutir isso, que é debate para dias e semanas.

Marcha a ré 1Por que será que se nota tanto nervosismo pelas bandas do Planalto? É sabido que o poder, mormente na versão longa duração, desgasta. Faz já 12 anos que nos martelam o mesmo disco, as mesmas fórmulas, as mesmas promessas, as mesmas esfarrapadas explicações. E que continuamos obrigados a engolir frustrações, fracassos e uma interminável lista de malfeitos. Escândalos espocam feito bombinha de são-joão. O sentimento de insegurança explode.

Vai chegando uma hora em que palavras, anúncios e promessas deixam de fazer efeito. A lavada que os que nos governam estão levando nestas eleições é prova de que há muita frustração acumulada.

Tenho um amigo que, ao receber convite para viajar durante o mês de outubro, retrucou, firme: «Agradeço, mas não vou de jeito nenhum. Ajudei a botar essa gente lá, agora tenho de ajudar a mandá-los embora. Vou votar.». Juro que não é invenção minha.

Dona Dilma – ou seus aspones, é difícil saber – andou escrevendo no tuíter que os adversários representam o retrocesso. Expressão estúpida, que, como bumerangue, atinge a presidente em plena testa.

Retrocesso

A esmagadora maioria dos eleitores da presidente ignora o significado dessa palavra. Portanto, para essa fatia do eleitorado, movida por outros interesses, o falar chique dos gênios da comunicação presidencial é inócuo.

Já os que conhecem essa palavra, mais esclarecidos, sabem que, ao contrário do que afirma, dona Dilma – essa sim! – é a personificação do retrocesso. Conseguiu completar a pauta da regressão que já havia sido traçada por seu antecessor. O retrocesso destes últimos anos assume características múltiplas.

Os brasileiros mais pobres voltaram aos tempos do coronelismo, que imaginávamos sepultos. O paternalismo – e sua consequência mais daninha, a compra de votos – ressuscitou e se revigorou.

A pauta de exportações do Brasil regrediu ao que costumava ser nos tempos imperiais: o País se afirma, cada dia mais, exportador de matéria-prima. A desindustrialização se acentua.

Marcha a ré 2De receptor de imigrantes, o Brasil passou a emissor. Temos hoje menos de um milhão de estrangeiros no País, enquanto três milhões de brasileiros batalham no exterior.

Até no futebol, regredimos. Concedo que a presidente não tem a culpa (integral). Mas, para azar dela, vaias e derrotas aconteceram sob sua gestão. E na sua presença.

Portanto, acusar o adversário de trazer consigo o retrocesso é falso e, no mínimo, desastrado.

Entre os apoiadores da presidente, o argumento não é compreendido. Passa batido.

Entre os que rejeitam a candidata, a alegação só faz reforçar o sentimento de que a campanha se baseia em engodo.

Finalmente, entre aqueles que, embora já não vivam nas trevas, ainda não escolheram candidato, a falácia periga precipitar a decisão de votar no adversário. Afinal, todos se dão conta de que o País regrediu, e ninguém gosta de ser feito de bobo.

Nem paciência de Jó aguenta mais tanta incoerência. Nem fé de Abraão acredita mais em tanta mentira.

Os óculos do Monsieur

José Horta Manzano

Os menos jovens certamente se lembrarão das gravatas Hermès do senhor Collor, aquele que ― é até difícil acreditar ― um dia foi presidente de nosso país. Afortunado desde o berço, o referido cavalheiro não dispensava adereços de luxo, do colarinho ao bico do sapato. A imprensa e o povo achavam graça. Afinal, se ele paga com dinheiro do seu próprio bolso, que mal há?

Por outros motivos, que não convém aqui esmiuçar, o presidente foi impedido de prosseguir no cargo em 1992. Voltou pras Alagoas. Mas o exemplo ficou guardado na gaveta. Seus sucessores imediatos, o deselegante Itamar e o pão-duro FHC, não se interessaram pelo legado do antecessor. Não sobressaíram pelo esmero no vestir. Mais tarde, no entanto, com a chegada ao Planalto do presidente-operário, os costumes ancien régime foram devidamente restabelecidos.

É notório que nosso guia não regateou na hora de escolher seus impecáveis trajes. Importados, de preferência, tinham de ter caimento perfeito. O corpo não ajudando muito, o bom corte compensava. A imprensa e o povo acharam graça, e ficou tudo por isso mesmo.

François Hollande Foto Kenzo Tribouillard, AFP

François Hollande
Foto Kenzo Tribouillard, AFP

No Brasil, a agonia das pequenas indústrias é encarada com indiferença pelo governo central. O que conta mesmo são os grandes números gerados por aquela meia dúzia de grandes exportadores de matéria-prima. São os que melhoram as estatísticas. São os que têm capacidade de despejar no partido doações generosas. O resto é o resto. Que cada um cuide de si.

Exatamente como o Brasil, a França está em processo acelerado de desindustrialização. Badulaques são sistematicamente importados da China. Artigos menos chinfrins vêm de países de mão de obra barata ― Europa Oriental, Marrocos, Tailândia.

Abandonados pelas autoridades, o pequeno e o médio empresário brasileiro têm motivos para inquietação e tristeza. Já na França, o governo central empreende ações para encorajar os cidadãos a darem preferência a produto nacional, ainda que tenham de desembolsar um pouco mais. Até um ministério foi criado especialmente para tentar “endireitar” a situação. «Dê preferência ao made in France» é a palavra de ordem.

Dia destes, o presidente da República, Monsieur Hollande, foi fotografado de óculos novos. Até aí, morreu o Neves. O problema é que um fabricante francês de armação, especialista no assunto, percebeu que os óculos presidenciais não eram franceses, mas dinamarqueses.

Sacrilégio! Em tempos de penúria industrial, um descuido presidencial dessa magnitude é imperdoável. O fabricante nacional dirigiu carta aberta ao presidente, missiva que saiu na mídia do país. Além da carta, o esperto empresário mandou de presente a Monsieur Hollande uma armação legítima, das boas, garantidamente made in France. Argumentou que, na qualidade de vetor da imagem do país no exterior, não ficava bem ao presidente estampar, bem no meio do rosto, um objeto fabricado em terra estrangeira.

As próximas fotos de François Hollande confirmarão se ele assimilou a lição. Ou não.

O fim da zelite

José Horta Manzano

Segundo o discurso oficial, a zelite foi apeada do poder doze anos atrás. Desde então, nos livramos da promiscuidade entre o probo e austero governo tupiniquim e o execrável e corrupto império norte-americano.

Demos as costas ao bicho-papão para melhor dar as mãos a compañeros mais póximos do nosso feitio. Ahmadinejad, os Castros e Chávez foram os primeiros. Depois aceitamos novos sócios no clube dos virtuosos: Correa, Evo, Ortega, Zelaya e a inefável señora de Kirchner. As inscrições continuam abertas, mas por tempo limitado.

Para coroar tudo, estabelecemos as bases de uma sólida, profícua e duradoura parceria estratégica com a Rússia, a Índia e, principalmente, com a China. Foi a melhor decisão político-econômica jamais tomada na história deste país. Afastamo-nos dos malvados e atrelamos nosso vagão à locomotiva chinesa que representa, sabemos todos, o futuro brilhante da humanidade. Um modelo de equidade, lisura e justiça.

Perdemos algumas plumas no meio do caminho, é verdade. Mas que importa se descemos alguns degraus, se nos desindustrializamos, se voltamos a ser produtores de matéria-prima? Isso é coisa pouca se comparado ao caminho radioso que preparamos para nós mesmos.

O grito lançado em 1822 pelo filho do rei tinha ficado meio entalado na garganta. Afinal, que história é essa de o símbolo maior da zelite ― o herdeiro da coroa! ― liberar o país? Coisa esquisita. Pois agora a obra está completa. Estamos independentes!

O governo popular, preocupado exclusivamente em servir ao povo, fechou o círculo. Os peçonhentos americanos ― ou estadunidenses, como usam dizer alguns ― foram definitivamente removidos de nosso horizonte.Interligne 18d

Excelente reportagem de investigação assinada por Rubens Valente e publicada na Folha de São Paulo deste 15 de julho contradiz frontalmente os parágrafos anteriores. Essa história de bater na madeira e nos isolar dos malvados do Norte não passa de cortina de fumaça, produto de elaborado marketing palaciano. A história real é bem diferente.

Se já não o fizeram, leiam a reportagem da Folha. Ela nos informa que os serviços de inteligência dos Estados Unidos continuam colaborando estreitamente com a Polícia Federal brasileira. Acordos ― alguns sigilosos, outros não ― continuam sendo firmados entre os dois países.

Ajuda financeira

Ajuda financeira

Entre 1999 e 2008, ajuda financeira por um total de 140 milhões de reais foi oferecida pelas autoridades americanas. E, naturalmente, aceita pelos altos responsáveis brasileiros.

Essa detestável zelite não tem jeito mesmo: a gente enxota pela porta, e ela entra pela janela. Acabrunhado, o governo popular não sabe mais que fazer.

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Interligne vertical 5Nota pessoal:
Não tenho notícia de que nenhum de nossos parceiros estratégicos ― China, Índia, Venezuela, Bolivia, Nicarágua, Irã & companhia ― tenha desatado os cordões da bolsa para nos enviar alguma ajuda. Nem que fosse simbólica.

Nove dias cruciais

José Horta Manzano

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Estes últimos 10 anos, os brasileiros viveram anestesiados pelas artes de um excelente marketing governamental, que fez crer a (quase) todos que a situação do País era infinitamente melhor do que parecia.

Parede rachada Crédito: Can Stock

Parede rachada
Crédito: Can Stock

O truque funcionou. Nosso povo, um dos mais tolerantes do mundo, fechou um olho para afagos feitos por nossos mandachuvas a dirigentes sanguinários e intolerantes, a ditadores ferozes e inescrupulosos, a vizinhos malcriados e agressivos.

Alguns ― principalmente os que contam com convênio particular ― chegaram a acreditar que os serviços públicos de saúde tinham atingido padrões de países civilizados. Pois não foi o próprio presidente quem declarou isso?

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Por ignorância ou por ingenuidade, nossos dirigentes de primeiro escalão acreditaram que o Bric ― mera sigla inventada por um analista, no aconchego de um escritório carpetado e climatizado ― tinha significado real e palpável na vida do planeta. Imaginaram que fosse um «bloco» de países companheiros, todos empenhados em desbancar os EUA de seu pedestal. Um por todos, todos por um! Como quem tivesse decifrado o enigma da esfinge, difundiram essa ideia ilusória, imediatamente comprada como verdade insofismável por muita gente fina no País.

Muitos se encantaram com a perspectiva de nos tornarmos meros fornecedores de matéria-prima para a China. Não se deram conta de que isso nos fazia regredir 50 anos e abandonar parte significativa de uma industrialização conquistada com paciência e tenacidade.

De uns meses para cá, o edifício dá sinais evidentes de fadiga. Foi construído sobre alicerces frouxos. Rachaduras se tornam mais visíveis a cada dia. Assim como o baile da Ilha Fiscal não foi a causa da queda da monarquia brasileira, não há que identificar no aumento de preço das passagens de ônibus a causa da revolta do povo brasileiro. Foi apenas o estopim.

Às autoridades, resta acalmar os ânimos e, rapidamente, mostrar empenho em conduzir os brasileiros a bom porto. Marketing é bom, mas tem limites. Um dia, a verdade acaba aparecendo e a coisa pode ficar preta para os lados de quem mentiu. Não se consegue enganar o País inteiro o tempo todo.

Enquanto preparam um plano de emergência para repor o Brasil nos trilhos, as autoridades maiores devem levantar os braços ao céu e pedir, com muita força, que o Brasil vença a Copa das Confederações. A vitória não transformará o País, mas aplacará os ânimos dos manifestantes e dará aos governantes algumas semanas de trégua.

Recomendo, portanto que todos os cortesãos se recolham ― por que não diretamente no Palácio do Planalto? ― para lá recitarem juntos uma novena a São Judas Tadeu, padroeiro das causas perdidas. Eventualmente, Santa Rita também costuma aceitar esse tipo de reclamo.

Como sabem todos, uma novena dura nove dias. Portanto, ainda dá tempo de terminar antes do fim da Copa. Mas tem de começar já.

Depois, não vale dizer que não avisei.

Emergentes

José Horta Manzano

A raiz merg, que aparece no verbo latino mergĕre, não foi muito produtiva. Deixou prole escassa, hoje presente em meia dúzia de palavras em cada língua românica. Imergir, emergir e submergir são os membros mais ilustres da família. Seus derivados entram também na lista: imersão, submersível, emergência.

O étimo deixou também uma descendência de ares menos eruditos. São palavras que, com um jeitão mais pobre, caíram na boca do povo. Mergulho e seus parentes mergulhar e mergulhador estão entre elas. Mergulhão é nome usado para designar uma boa dezena de famílias de aves, desde o cormorão europeu até o biguá amazônico.

Esses pássaros têm todos em comum o fato de serem predadores aquáticos.Voando em alta velocidade, quase na vertical em direção à superfície da água, conseguem mergulhar até alguns metros de profundidade e, assim, capturar o peixe ou o crustáceo que lhe servirá de almoço.

Imergir e submergir indicam movimento descendente. Quem ou aquele que sai da água emerge, volta à superfície. Em princípio, para emergir, é preciso haver estado submerso.Imersão

Até não muitas décadas atrás, o planeta se dividia em alguns poucos países desenvolvidos e uma multidão de subdesenvolvidos. Era assim que se usava dizer. Mas isso foi num tempo em que se davam às coisas e aos fatos seus nomes verdadeiros, sem ter de recorrer a eufemismos «politicamente corretos». Saber que seu país natal era subdesenvolvido não ofendia ninguém.

De uns tempos para cá, subdesenvolvimento virou tabu. Ai de quem classificar assim um país! Lá pelos anos 80, os subdesenvolvidos foram promovidos a uma categoria superior, a de «países em desenvolvimento». A denominação mudou, mas chineses, indianos, indonésios e brasileiros continuavam a viver as mesmas agruras de antes.

Desde que o século XXI despontou, os grandes «países em desenvolvimento» começaram a sentir um certo desconforto ao serem classificados na mesma categoria de territórios miseráveis. Forjou-se então uma classificação intermediária. Apareceram os «países emergentes».

Segundo os critérios geralmente aceitos, são chamados emergentes os países que apresentam um forte crescimento do PIB, um nível relativamente elevado de industrialização e de exportação de produtos industriais, uma taxa importante de abertura ao exterior e um mercado interior em expansão. Muito poucos são os que correspondem a essas quatro condições. Em rigor, somente a China e, alguns degraus abaixo, a Índia preenchem os requisitos. Ninguém mais.

Nosso País chegou a registrar excepcional e constante crescimento do PIB entre 1960 e 1980. Depois disso, hesitou. Hoje, praticamente estacionou.

A industrialização brasileira cresceu impressionantemente a partir dos anos 1940. Continuou, sem parar, até o começo dos anos 1990. Hoje tentamos segurar, mal e mal, o que sobrou. Nossa luta atual se restringe a estancar ou, pelo menos, limitar a desindustrialização.

A abertura ao exterior nunca foi nosso forte. Importações e exportações têm sido historicamente entravadas por monoculturas, chicanas burocráticas, infraestrutura cronicamente deplorável.

Sobra-nos um mercado interior em expansão. Sim, é verdade. Mas é um mercado ironicamente ávido por produtos industriais ― e até agrícolas! ― vindos do exterior.

Há solução? Certamente. Só para a morte não há remédio. Mas os problemas acumulados são tantos e a vontade de resolvê-los tão escassa que, a curto prazo, não há grande esperança.

Por enquanto, o mais cômodo seria criar uma nova categoria de países. Na base da pirâmide, teríamos os que estão «em desenvolvimento» (leia-se os miseráveis). No meio, continuariam os «emergentes», aqueles que estão já mais pra lá que pra cá, quase chegando. No topo, como de costume, os «desenvolvidos».

E o Brasil como fica? Ora, que se invente uma categoria intermediária entre pobres e remediados. Poderemos chamá-la, por exemplo, «países em via de emersão». Com isso, voltaremos a nos ufanar de nossas conquistas. Sem ficar com a consciência pesada.

Parceria estratégica

José Horta Manzano

Já faz uns dez anos que, na onda de alinhamento automático com tudo o que lhe soasse antiamericano ou antieuropeu, o governo brasileiro houve por bem incentivar as curiosas relações político-comerciais ditas «sul-sul». Stricto sensu, a expressão é gritantemente inexata. É um tremendo equívoco sustentar que China, Rússia e Índia sejam países «do sul». Mas relevemos a impropriedade geográfica e passemos ao que interessa.

Todas las monedas tienen dos caras ― dizem os espanhóis. Para nós, a cara está de um lado apenas. E a coroa, entalhada no verso, nem sempre é tão reluzente como parece.

Desdenhando as economias ricas ― hoje conhecidas como «países centrais» ― o Brasil preferiu cortejar nações periféricas. Após um rufar de tambores que prenunciava futuro radioso, a mágica está dando chabu. A realidade é cruel e começa a revelar-se pouco faceira.

Ninguém se deu conta de que as nações ditas emergentes têm necessidades semelhantes às nossas. Nossos manufaturados não são de grande valia para esses novos parceiros. A complementaridade que se buscava tinha outro nome: concorrência. Competição feroz.

Nossa obstinação tinha objetivos muito mais políticos do que comerciais. Em vez de seguir o sábio exemplo de países que alavancaram o nível de vida de seu povo fortalecendo a economia discretamente, na moita, sem se preocupar em aparecer como grandes potências, o Brasil instalou a carroça à frente dos bois. Deu-se ares de nação poderosa sem se preocupar em reforçar seu esqueleto, em sanar suas próprias deficiências. Nossa infraestrutura continua rudimentar, a calamitosa instrução pública continua a prover nossa juventude de formação tosca.

Deu no que deu. O Brasil, um gigante em aparência, continua assentado em pés de barro. Ações são tomadas apenas em caráter de emergência, no sufoco, sem planejamento de longo prazo. Remenda-se aqui, tapa-se um buraco ali, constrói-se um puxadinho acolá. Toca-se a trombeta, mas a banda não acompanha.

Mas não reclamemos, gente impertinente! Ainda nos resta… o feijão! Esse é nosso, e ninguém nos tira. Será?

A China ― sempre ela, o nosso melhor «parceiro estratégico» ― tem usufruído de nossa ingenuidade. Não acredita? Pois então continue a leitura.

O bacalhau vem de Portugal ou da Noruega. E o feijão preto, evidentemente, é produto da terra, brasileiro legítimo. Certo? É o que imaginamos todos. A realidade é um pouco diferente.

Crédito: Die grüne Speisekammer

Crédito: Die grüne Speisekammer

Artigo pra lá de instrutivo publicado pela Folha de São Paulo deste 15 de janeiro nos informa que a China se tornou nosso maior fornecedor de feijão preto. Estamos comprando feijão da China, companheiros!

E não é só. Nos últimos quatro anos, a importação de produtos agrícolas cultivados em terras chinesas quadruplicou. Passou de 0,8 a 2,3 bilhões de dólares por ano. E a gente que imaginava que o grande país oriental, superpovoado, não tinha espaço nem para enterrar seus mortos na horizontal. Vivendo e aprendendo.

Já faz anos que nosso país se desindustrializa. Disso, já sabíamos todos. Pois agora ficamos sabendo que nos tornamos dependentes da China para o feijão nosso de cada dia. E para o bacalhau também, pasmem.

Como é reconfortante saber que estamos sendo governados por gente de visão. Viva a parceria estratégica!