O doutor Jorge Messias, advogado-geral da União, não foi aprovado pelo Senado para vestir a toga e ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. A imprensa, que andava desconfiada de que isso pudesse acontecer, já tinha pesquisado e até elaborado uma listinha com o nome daqueles poucos que precederam Messias na desconfortável situação de ter levado bomba.
Desconfortável é o mínimo que se possa dizer, dado que a lista é curta e que o atual AGU é apenas o sexto pretendente rejeitado desde que a primeira Constituição republicana entrou em vigor. E olhe que as cinco ocorrências anteriores datam do século 19, no longínquo 1894, governo de Floriano Peixoto.
A soberba de Lula da Silva não tem emenda. Nosso presidente ainda vive nos eflúvios de seus dois primeiros mandatos, quando sua estrela brilhava forte e ele ganhava todas. Só que os tempos seguiram adiante, inexoráveis, mesmo Luiz Inácio fazendo força pra não aceitar. Na vida, quem fica pra trás dança – e Luiz Inácio tem levado um baile atrás do outro. Contradanças em grande parte evitáveis.
Embora a Constituição não obrigue, as escolhas das últimas décadas tinham sido feitas pelo presidente, sim, mas baseado numa lista tríplice elaborada por quem entende do recado (STJ, OAB). Assim, o presidente exercia sua prerrogativa de indicar um nome, mas evitava a suspeita de estar se baseando em proximidade ideológica ou amizade pessoal.
Traído pela soberba, Lula bobeou. Esnobou Rodrigo Pacheco, candidato de consenso que provavelmente teria sido aprovado sem tropeço. Dispensou lista tríplice e anunciou que seu candidato era o AGU. Esse tipo de decisão arrogante só funciona quando o chefe do Executivo está em posição de força, seja por ter excelentes níveis de aprovação, seja por estar longe de período eleitoral. Ora, Lula está amargando aprovação péssima, e estamos a cinco meses das eleições. Em momentos assim, é imprudente confiar apenas em ecos da popularidade passada. Ministro do STF é cargo cobiçadíssimo. Os não escolhidos se sentem frustrados, tem muita gente botando olho gordo e espetando bonecos de pano à moda vodu.
Além disso, depois que as pesquisas começaram a indicar a viabilidade da candidatura do filho de Bolsonaro, os braços ameboides do Congresso passaram a se estender para o dito “01”. A partir desse momento, o espírito do Parlamento se tornou hostil ao presidente. A tendência é negar todo pedido vindo de sua parte e escamotear todo favor que se lhe pudesse ser feito.
O presidente Lula está, pois, em posição delicada com relação aos parlamentares. Estes últimos têm a força da avidez que nunca sacia. Nesses termos, um Lula fragilizado perde toda atratividade. Suas Excelências preferem acariciar quem está na crista da onda.
O candidato Jorge Messias poderia talvez ter sido aprovado pelos senadores seis meses atrás. Em vez de titubear, Lula deveria tê-lo logo mandado à forja, enquanto o filho de Bolsonaro não passava de candidato folclórico em que ninguém botava fé. Aquele era o momento, mas Luiz Inácio deixou passar.
Do modo que as coisas estão, vai ser difícil uma nova indicação de Lula ser aprovada antes das eleições. Caso o presidente não seja reeleito e, em seu lugar vier um presidente bolsonarista, seja o filho de Jair ou um outro, em breve tempo o equilíbrio de forças terá vergado para outra vertente. Os ministros estarão, em maioria, sintonizados com ideias reacionárias ou, pior, de extrema direita.
Não se sabe se era o que Suas Excelências desejavam, mas é o caminho que hoje parece mais bem atapetado. Com pedrinhas de brilhante.
