Prisão perpétua

by Nando Motta, ator e chargista
via BR 247

José Horta Manzano

O plano de captura violenta do Estado brasileiro, preparado para estourar no 8 de janeiro de 22, foi abatido em pleno voo. Como um caça atingido por míssil, esbagaçou-se no ar e derramou fragmentos ao redor. O incentivador-mor da pretensiosa aventura cuidou de pôr-se a salvo no estrangeiro. Imaginando que a distância física lhe garantiria álibi perfeito, deixou o país antes do estalo da insurreição. A providência de nada lhe serviu nem impediu que fosse, mais tarde, colhido pela polícia, julgado pelos tribunais e condenado a quase 30 anos de prisão.

Bolsonaro não foi o único a enfrentar julgamento. Dezenas de cidadãos, que tinham tido, de perto ou de longe, participação no plano, tiveram de acertar contas com a lei. Antes e depois da passagem diante dos juízes, alguns decidiram escapulir. Deixar crescer barba e cabelo e passar o resto da existência vivendo com índios na Amazônia saiu de moda. Assim, ninguém adotou a opção nacional. Todos os que fugiram foram para o exterior.

Houve quem tenha ido para os EUA, destino sonhado por todos mas somente accessível a privilegiados. Um grupo de menos abastados dirigiu-se à Argentina por via terrestre, longa viagem pra quem parte do Brasil Central ou mesmo do Sudeste. De lá, alguns seguiram em sua jornada ao Eldorado americano, com ideia de cruzar o Rio Grande com ajuda de coiotes. Esforço jogado fora. Brigadas móveis da polícia americana de fronteiras os apanharam, encarceraram por algum tempo e os devolveram ao país de origem.

Há quem tenha ido para a Espanha, país que não extradita assim tão facilmente. Houve uma deputada, midiática e conhecida, apoiadora do capitão mas por ele renegada, que, tendo decidido fugir do país, cometeu a imprudência de se vangloriar nas redes sociais. Essa soberba custou-lhe bem caro.

Falo de dona Carla Zambelli Salgado de Oliveira. Ela tem passaporte italiano, ao qual a ascendência peninsular por via materna lhe deu direito. Com uma condenação a 10 anos de prisão, decidiu escapar para a Itália. Antes de chegar ao destino, deu uma passada pelos EUA – escala irresistível para brasileiros que fogem da lei. Foi de lá que postou em suas redes um videozinho em que mostrava o passaporte italiano e debochava de seus seguidores: “Na Itália, sou intocável”, dizia, apontando para o documento.

Tivesse engolido a altivez e mantido a boca fechada, é possível que a estivessem procurando até hoje, dentro das fronteiras do Brasil. Sua tagarelice lhe foi desfavorável. Rapidamente, foi posta na lista vermelha da Interpol. Refugiou-se em casa de amigos, mas acabou sendo colhida e levada presa. À espera do julgamento de seu processo de extradição, foi colocada em Rebibbia, imenso complexo carcerário nos arredores de Roma.

Compartilhou cela com mais 5 presas. Apresentou um rol de doenças que supostamente a tornariam inapta a suportar a prisão. Esse tipo de coisa costuma funcionar no Brasil, mas na Itália não pegou. Reclamou, bateu pé, requereu soltura – tudo em vão. As condições de encarceramento italianas são mais rigorosas que as nossas. Madame permaneceu em sua cela durante 10 meses. Mais dois, e teria ficado um ano inteiro. Sem saidinha e sem regalias.

Faz uns dias, a Corte Constitucional italiana, invalidando a decisão das cortes inferiores, negou a extradição. A ex-deputada foi solta imediatamente. Ainda meio atônita com a inesperada notícia, ela declarou-se muito contente.

Na euforia da liberdade reencontrada após quase um ano de cárcere, nem ela, nem seu advogado mencionou um detalhe pra lá de importante. É que a decisão da Corte italiana, de negar-lhe a extradição, não anula o julgamento do STF, que a condenou a 10 anos de prisão. A sentença continua em aberto, e, no Brasil, a ex-deputada continua sendo considerada foragida da justiça.

Assim, em princípio, ela não poderá mais pisar o solo nacional, sob risco de ser presa imediatamente para descontar sua pena. Está, pois, numa situação de “prisão perpétua”. Se, em vez de ter fugido, a senhora Zambelli tivesse se entregado, teria tido certas regalias:

  • Dificilmente teria sido posta em cela comum, com mais 5 detentas;
  • Com um bom advogado, já estaria em prisão domiciliar por razões de saúde;
  • Depois de cumprir quase um ano, como fez na Itália, estaria chegando a hora de requerer progressão de regime;
  • Depois disso, estaria livre de cadeia, vivendo no conforto de seu apartamento; de tornozeleira, é verdade, mas em companhia do marido, da família e dos amigos.

A menos que venha a ser indultada por medida do próximo presidente (se este for bolsonarista), não lhe será possível retornar ao país. Imagino que Madame esteja maldizendo a hora em que tomou a decisão de fugir.

Os neoimigrantes

José Horta Manzano

Dizem que as redes sociais (que às vezes dá vontade de chamar de “associais”) estão coalhadas de gente falando besteira. Não conheço essas redes, mas acredito no que dizem: devem estar cheias de falsos profetas. Para o bem e para o mal, se bem que, quando se propagam ideias falsas, é geralmente para o mal.

Acho que essa algaravia, em que muitos gritam e ninguém tem razão, não se restringe às redes. Desde que internet deu um megafone a cada utilizador, todos se acham no direito de usá-lo, ainda que não tenham nada a dizer. Consulto frequentemente youtube e constato que lá também está lotado de gente falando de assuntos que não domina. Quem faz isso incorre no delito de fazer propaganda enganosa e merecia levar multa. Mas como coibir? Quem teria capacidade de controlar a veracidade dos bilhões de vídeos postados da plataforma?

Quando me aparece algum vídeo sobre a Suíça, país que conheço bem, tenho curiosidade de ver o que dizem. Não dá pra visionar todos, porque o dia só tem 24 horas e não tenho tenho só isso pra fazer. Ontem dei uma espiada numa postagem de um casal brasileiro que está morando na Suíça, numa pequena localidade da montanha. Dado que o vilarejo não tem atividades além do turismo, estou até agora me perguntando o que fazem por lá. Não procurei saber.

Passaram uns 20 minutos a descrever os cinco pontos que não lhes agradam no dia a dia no país. De saída, acho no mínimo indelicado apontar assim, publicamente, os pontos negativos do país que nos acolhe. Em seguida, fiquei surpreso com os “defeitos” que o casal encontrou. Reclamaram do sistema de saúde suíço, sistema que este blogueiro acha excelente, superior ao que se vê pelo mundo em geral. Se não apreciam o sistema daqui, há de ser porque não lhe entenderam o funcionamento. De outro modo, não é possível.

Reclamaram também da inflexibilidade dos funcionários, especialmente os que tratam as demandas de imigrantes, como eles. Não estou de acordo. Acho a Suíça um país liberal, verdadeira “mãezona”, onde funcionários estão sempre prontos a dialogar, explicar, tolerar, deixar passar. Bom, para se entender, é bom falar a língua do lugar. Não sei há quanto tempo se encontram no vilarejo em que vivem, o que sei é que não falam nem a língua do lugar (alemão), nem o dialeto (alemão suíço). Assim, também, fica difícil.

Desembarquei na Suíça, pela primeira vez, está fazendo 60 anos mês que vem. De lá pra cá, vivi 47 aninhos aqui. Posso dizer que conheço um bocado os usos e costumes da terra. Pra receber, tem de saber dar. Se eu estivesse arranhando línguas e catando palavras até hoje, estaria mostrando que não soube dar, ou seja, que não soube me esforçar para me aproximar deles. Isso pega mal. O que esse casal precisa fazer urgentemente é aprender a língua local, pelo menos, o alemão. Na hora em que conseguirem se comunicar com a sociedade em que vivem, vão ver que o clima se desanuvia e a “rigidez” vai lhes parecer bem mais elástica.

Nota
Emigrar aos quarenta ou cinquenta anos de idade é complicado. Quem estiver acostumado ao sistema do INSS vai estranhar o sistema de qualquer outro país. Quem estiver acostumado a frequentar o Poupatempo idem. Emigração é aventura para os muito jovens, que estão em começo de vida.

Ainda não…

by Gilmar de Oliveira Fraga (1968-)
desenhista gaúcho, via GZH

José Horta Manzano

Dei uma vista d’olhos nos jornais e nos principais, como diria…, antigamente se chamavam “jornais falados”, hoje não sei. São aqueles noticiários que passam de manhã ao vivo no youtube, em que se leem e comentam as notícias do dia. Entre os analistas, nove em cada dez gastaram tinta e saliva esquadrinhando o caso da dinheirama que o filho mais velho do Bolsonaro pediu a Vorcaro, o estelionatário-mor da nação.

Uma fala que surge a todo instante é a de que o presidenciável ainda – sublinhe-se o ainda – não deu explicação convincente para a obscura transação. É verdade que, no princípio, o Bolsonarinho negou conhecer o ex-banqueiro e jurou não ter recebido nenhum dinheiro dele. Em seguida, pouco a pouco, como se acordasse de um sono profundo, esfregou os olhos e foi lembrando dos detalhes do negócio. Bem aos pouquinhos, em doses homeopáticas, foi distilando sua narrativa, até ser aventada a possibilidade de ter havido financiamento de um filme como justificativa para a generosa “doação”.

As alegações do pré-candidato foram evoluindo com a passagem dos dias. Parece que os ajustes finais não foram dados. Me parece curioso ouvir analistas dizerem que as explicações de “Flávio” (como é íntima e carinhosamente chamado) ainda não são convincentes. Ao deixar a porta assim escancarada, estão convidando o suspeito a ir afinando sua narrativa, a ir modelando e aparando as beiradas até chegar a um relato convincente. A meu ver, estão dando moleza demais a quem não merece tanta confiança.

A verdade tem de aparecer de golpe, logo de cara, no primeiro jato. E tem de ser inteira e irretocável. Se assim não for (e, no caso, não foi), o que ele possa vir a dizer não terá valor. Terá sempre o gosto requentado de uma história ajambrada em conselho de família com a participação de advogados mais espertos que o indigitado.

De toda maneira, pouco interessa o relato desse Bolsonarinho – nem o balbucio inicial, nem a versão retocada. Vejamos por quê:

  • Os evangélicos tendem a seguir o conselho do pastor na hora do voto.
  • Os menos letrados, que representam a maioria do eleitorado, não leem jornal nem acompanham análises sócio-políticas.
  • Lulistas roxos estão de qualquer modo com Lula e nâo desgrudam
  • Bolsonaristas roxos estão de qualquer modo com o Bolsonarinho
  • “Farialimers” e assemelhados abraçam qualquer candidato que não seja de esquerda, de medo de ver escassearem as oportunidades de enriquecer.

Portanto, maior importância mesmo terão os debates xingatórios na televisão. O que acabo de dizer pode parecer cínico e desabusado, mas é a realidade. Não?

Três espantos

José Horta Manzano

Racismo
Um cavalheiro de nacionalidade chilena causou um bate-boca num voo da Latam de São Paulo a Frankfurt. Talvez imaginando que sobrevoava terra de ninguém, ofendeu um comissário chamando-o de “mono” (macaco) e emitindo ruídos que ele julga ser simiescos. Declarou ainda que se sente incomodado com o “odor de negros” ou “odor de brasileños”. Uma alma caridosa filmou a discussão surreal entre o cavalheiro e membros da tripulação – que não aparecem na imagem.

Acontece que o avião não é terra sem dono. Acontece também que o comissário, apesar da pele mais bronzeada, não é “mono” e encontra-se protegido por nossa legislação. Convenções aéreas estabelecem que o aparelho em voo é considerado extensão do país de origem da companhia, no caso, o Brasil. Assim, dentro do avião, vigoram as leis brasileiras. Sem se dar conta, o passageiro arrogante infringiu leis nossas que reprimem ofensas baseadas em cor da pele, raça, religião, orientação sexual.

Uma semana depois, o cavalheiro ofensor fez a viagem de volta de Frankfurt para Santiago, com escala em São Paulo. Devidamente informada, a polícia já estava no aguardo dele. Foi colhido em Guarulhos e enviado à detenção provisória. Vamos ver se aprende que conosco não tem podosco.

Nota 1
A discussão, mostrada em vídeo postado no Tweeter (hoje X), é prova incontestável da atitude do cavalheiro. Mostra também um despreparo do pessoal de bordo da Latam. Embora não apareçam na imagem, ouve-se gritarem todos ao mesmo tempo cortando a palavra ao passageiro, num comportamento de quebra-pau de boteco. A companhia aérea deveria treinar aeromoços e aeromoças a enfrentar casos como esse, com sangue-frio e disciplina.

Nota 2
A mídia deu a notícia dizendo que o chileno foi preso por racismo. Não está correto. Racismo é um “defeito”, se assim podemos nos exprimir, que algumas pessoas têm. É um sentimento de soberba de quem se considera pertencente a uma raça superior. Acontece que ninguém será preso por experimentar esse tipo de sentimento. Melhor dizer que o cavalheiro foi preso por agressão racista ou por ofensa racial.

Capanga
O mundo anda ficando cada dia menor. Já vão longe os dias em que, para desaparecer do mapa, bastava se mudar para o interior e, com uma gorjetinha, tirar nova carteira de identidade. Hoje vão te buscar onde você estiver, ainda que seja pra lá de onde o Judas perdeu as botas.

Um dos capangas do clã Vorcaro, sabendo que a PF estava em seu encalço, embarcou num voo para Dubai, que fica pertinho do País das 1001 noites. A história não diz se viajou de primeira classe. Acontece que a PF tomou conhecimento da fuga e entrou em contacto com a polícia de Dubai. Resultado: o capanga foi colhido no aeroporto de lá, nem precisou passar pela alfândega. Expulso sumariamente do país, foi devolvido à origem.

Espanto boquiaberto
Diálogo pra lá de comprometedor ocorreu entre o filho de Bolsonaro, aquele que gostaria de presidir o Brasil, e o estelionatário Vorcaro, ora preso. Na conversa, o Bolsonarinho faz juras de fraternidade eterna ao espertalhão, ao mesmo tempo que pede uma soma extravagante e multimilionária. Trata o trapaceiro por “irmão”, demonstrando proximidade realmente íntima e intrigante, que denota serem velhos parceiros de ‘negócios’. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, ou seja, seis meses atrás.

Considerando que, quando o Bolsonarinho fez essas juras ao telefone, alguns grandes da República já haviam sido pegos – e encarcerados ou processados – justamente por causa do vazamento de conversas telefônicas, é absolutamente espantosa a maneira displicente com que ele deixou seu juramento gravado no éter, numa nuvem talvez, mas certamente na memória de dois aparelhos: o seu e o do interlocutor. É impossível imaginar que o filho do Bolsonaro ignorasse a perícia da PF em reaver dados escondidos ou apagados de telefone celular.

Dito e feito. O pretendente à Presidência caiu como um patinho. Agora todos esperam explicações. Na verdade, não precisa nem explicar, que todo o mundo já entendeu o que era pra entender.

A trapacinha chinesa

Xi Jinping cumprimenta Marco Rubio
Pequim, 14 maio 2026

José Horta Manzano

Preâmbulo
Xi Jinping é o presidente da China. Na língua original, seu nome se escreve com três ideogramas: 习 近 平. Como nem todo o mundo sabe chinês, o nome aparece sempre transliterado, isto é, usando nosso alfabeto para reproduzir os sons chineses. Oficialmente, deve-se escrever Xi Jinping, mas poderíamos também grafar Chi Ginping. Ao menos nós outros pronunciaríamos do mesmo jeito.

Pois esse expediente funciona nos dois sentidos. Para escrever nomes ocidentais, os chineses escolhem ideogramas que, mais ou menos, reproduzam o som original. Diversão comum entre turistas que visitam a China é pedir que o nome de cada um seja escrito em escrita chinesa. Pagando o preço, pode-se mandar escrever e levar de volta para casa o nome gravado em algum suporte mais interessante: porcelana, folha de papel de fabrico artesanal, etc.

Origem da confusão
Marco Rubio, hoje Secretário de Estado do governo americano, já foi senador. Durante seus anos como parlamentar, foi crítico veemente da falta de respeito que o governo chinês dava a suas minorias. Fomentou a imposição de sanções à China por causa do trabalho forçado infligido à minoria uigur. Tanto fez o senador, que Pequim se enervou com a insistência e resolveu aplicar-lhe sanções. Usaram a tática dos próprios EUA, que frequentemente a utilizam contra adversários. A sanção mais pesada foi a de declará-lo persona non grata e proibir-lhe a entrada no território chinês.

Tempo passou e…
Nada com um dia após o outro. Na época, Rubio não deu importância ao fato, visto que não tinha intenção de visitar a China. Mas as coisas mudam. Hoje, num posto que equivale a nosso ministro de Relações Exteriores, visitar países estrangeiros e lidar com eles passou a ser sua atividade principal. Seu chefe, Trump, preparou uma viagem histórica a Pequim. Ficaria esquisito que o ministro mais interessado no assunto não o acompanhasse. Mas como fazer se ele não podia entrar na China?

O jeitinho chinês
Muy discretamente, as autoridades pequinesas já tinham detectado o problema e já tinham posto de pé a solução. Logo que Marco Rubio foi anunciado como Secretário de Estado, em janeiro 2025, a mídia oficial chinesa passou a transliterar o nome do americano com ideogramas diferentes do que costumava fazer. Assim, quem olhasse distraido nem percebia que se tratava do personagem indesejado. Era uma forma de fazer desaparecer o antigo desafeto e abrir as portas para o novo ‘amigo’.

Sem corar
Sem se envergonhar, o porta-voz do governo chinês informou que Rubio não seria bloqueado em virtude de suas ações passadas. Ao tornar-se secretário de Estado, ele deixou de ser senador, e o mal ficou pra trás. Além do que, não é raro que personalidades estrangeiras tenham o nome transliterado de duas formas diferentes. Por exemplo, o próprio nome de Trump é apresentado pela mídia estatal com ideogramas que se leem: Te + lang + pu, ou seja, Telangpu. Mas é também comum ser chamado de Tchuam + pu, ou seja, Tchuampu.

Conclusão
Como se vê, inimigos de ontem podem virar bons amigos. É o esplendor da política brasileira ao molho chinês.

Cuidado com este!

José Horta Manzano

Estamos em plena pré-campanha eleitoral.

  • Não surpreende ninguém que Lula se comprometa a amparar os pobres e a taxar fortemente os ricos.
  • Não surpreende ninguém que o filho do Bolsonaro se deixe (re)batizar nas águas do Rio Jordão, seguindo o ensinamento paterno.
  • Não surpreende ninguém que Caiado compareça a rodeios e outros eventos ligados à agropecuária.

Agora, quando um candidato como Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, marca território afirmando que pertence à linha dura e quase caricata da extrema direita, a atitude surpreende, sim.

Banana com casca
Num vídeo recente, o ex-governador agiu como se fosse um influenciador do ramo de frutas e legumes. Reclamou da carestia e aconselhou os mais pobres a comerem banana com a casca. O objetivo era de forrar bem o estômago com gasto menor. Para não ser acusado de somente dizer “Faça o que eu digo”, comeu ele próprio uma banana com casca (coisa que nem macaco faz). Pela cara de nojo que fez, o gosto não deve ser magnífico. Ele mesmo confessou, mais tarde, que prefere o fruto “puro”, sem a casca. Ao doutor Zema, não ocorreu que as bananeiras possam ter passado por um tratamento químico para livrá-las de fungos e outras pragas. E que essa película química depositada sobre a casca possa ser nociva à saúde humana.

Trabalho infantil
Em outra aparição pública, doutor Zema propôs que o trabalho infantil volte a ser autorizado, como era nos tempos de antigamente. Segundo ele, se os jovens americanos podem correr o bairro montados numa bicicleta a distribuir jornais, como a gente vê nos filmes, os brasileirinhos também podem. “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, foi o que ele não disse, mas pensou. A criança que trabalha ajuda no orçamento familiar, segundo o doutor, encantado com essa perspectiva.

Castração química
Numa entrevista também recente, o pré-candidato se pronunciou a favor do endurecimento da pena para condenados pelo homicídio da esposa, namorada, companheira ou ex, o conhecido feminicídio. Preconiza 30 anos de prisão sem direito a nenhuma medida de alívio. E acrescenta um castigo físico: a castração química. Em sua sanha punitiva, o pré-candidato mistura alhos com bugalhos. A castração química é preconizada – e, em certos países, aplicada – para pedófilos, maníacos sexuais, tarados irrefreáveis. Faz sentido: castram-se os criminosos que cometem crimes sexuais. Feminicídio é de outra natureza.

Comentários
O vídeo com a dentada que ele dá na banana com casca está mais pra desafio de tique-toque do que para coisa séria de um homem que se sente à altura de ocupar o maior cargo da República. É cômica a cara que ele faz, de criança que comeu e não gostou. Esse candidato dificilmente seria aprovado no teste de aptidão que este blogueiro propõe para pretendentes à Presidência.

Quanto ao trabalho infantil, percebe-se a tentativa de volta ao século 19, obsessão de adeptos da extrema direita. Senhor Zema, homem de posses cuja família se dedica há quatro gerações a diversos ramos da indústria e do comércio, parece sonhar com a possibilidade de empregar crianças em suas fábricas, economizando assim na folha de pagamento.

Já no que se refere aos 30 anos de cadeia para feminicídio, proponho pena igual para crimes de corrupção sob todas as suas formas (passiva, ativa, suborno, peculato, prevaricação e muitos etcéteras). O problema é que aqui já estamos pisando no calo do pessoal do andar de cima. Vai ser difícil que a ideia siga adiante.

Hipóteses
Duas hipóteses me parecem plausíveis para explicar o curioso comportamento do pré-candidato.

  • 1) Está agindo assim em consequência de acordo fechado com os Bolsonaros. Assumiu o comportamento de linha auxiliar do clã. Faz o papel de durão, intransigente, cruel, linha dura – tudo isso para fazer o filho “01” parecer moderado e palatável. O pagamento virá sob forma de um ministério ou outra benesse equivalente. Se assim for, recomenda-se não votar nesse candidato, belo exemplo de personalidade vil, sorrateira, com vocação para capacho. Um sujeito assim não merece o voto de ninguém.
  • 2) Seu comportamento escancara seu caráter tal como ele é. O personagem é de fato durão, intransigente, cruel e linha dura. Se assim for, recomenda-se não votar nele, belo exemplo de personalidade insensível, incapaz de empatia, indigno de governar um país tão desigual como o nosso. O Brasil não merece um presidente assim.

Cruzeiro do inferno

Hondius
Navio de cruzeiro de bandeira holandesa

José Horta Manzano

Para a maioria, um cruzeiro marítimo costuma rimar com excepcional, sensacional, fenomenal. Já o cruzeiro que aparece no noticiário estes dias está rimando com infernal. Vamos aos fatos.

Um grupo de 149 viajantes de 23 diferentes nacionalidades reuniu-se no último 1° de abril em Ushuaia, capital da Terra do Fogo argentina, no extremo sul da América do Sul. O programa era embarcar num navio de cruzeiro da companhia holandesa Oceanwide Expeditions para acompanhar as aves marinhas que deixam a Antártida neste começo de estação fria e migram para o norte em busca de clima mais favorável para passar o inverno.

Além de pouco numerosos (menos de 150 para um navio inteiro), os turistas eram especiais, por serem apreciadores da natureza selvagem, por disporem de tempo à vontade e por terem capacidade financeira folgada, capaz de bancar os milhares de dólares da viagem.

Depois de alguns dias, apareceram alguns casos de passageiros doentes. Os sintomas eram de febre, dor de cabeça, leve diarreia, lembrando uma gripe comum. Em pouco tempo, porém, os sintomas evoluíam para crise respiratória ou renal aguda. Passada uma semana desde o primeiro caso, três passageiros morreram e outros quatro adoeceram. Entre os doentes estava o médico de bordo, um britânico, em estado grave.

Aos 24 de abril, o barco atracou em Santa Helena, a remota ilha que serviu de exílio para Napoleão, situada bem no meio do Oceano Atlântico, a 3.000 km de Angola e 3.700 km de Santos. Consta que 23 passageiros tenham desembarcado ali, para voltar para casa por conta própria. Entre eles, está um suíço, atualmente internado no Hospital Universitário de Zurique. Todos estão sendo monitorados pela OMS.

A esposa da primeira vítima mortal voou de Santa Helena para a África do Sul, onde morreu dois dias depois. Em 27 de abril, um outro passageiro britânico foi internado na África do Sul e, no dia seguinte, um alemão morreu a bordo.

Na virada de abril para maio, o pânico se instalou a bordo do MV Hondius. Enquanto o armador continua a negociar com a Espanha uma autorização humanitária para atracar nas Ilhas Canárias, os passageiros do navio permanecem em quarentena, confinados (e aterrorizados) em suas cabines de luxo.

Em 2 de maio, exames feitos no paciente hospitalizado na Suíça confirmaram que se trata de uma infecção por Hantavírus, de uma cepa disseminada nos Andes argentinos e chilenos, sendo a única, entre as 38 variantes conhecidas desse agente patogênico, capaz de se transmitir entre humanos.

A pandemia de covid-19 paira no ar como lembrança recente e terrível. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e autoridades sanitárias ao redor do planeta estão preocupadas. Para um planeta já mergulhado em guerras, ameaças e incertezas, é grande o risco de que nova pandemia possa vir bagunçar o coreto de vez.

Enquanto isso, ninguém inveja a sorte daqueles cruzeiristas condenados ao confinamento na imensidão do oceano. É uma situação digna de um filme de terror hollywoodiano. Aliás, qualquer dia destes, o filme sai nas telonas e nas telinhas.

Luiz Inácio: a grande bobeada

José Horta Manzano

O doutor Jorge Messias, advogado-geral da União, não foi aprovado pelo Senado para vestir a toga e ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. A imprensa, que andava desconfiada de que isso pudesse acontecer, já tinha pesquisado e até elaborado uma listinha com o nome daqueles poucos que precederam Messias na desconfortável situação de ter levado bomba.

Desconfortável é o mínimo que se possa dizer, dado que a lista é curta e que o atual AGU é apenas o sexto pretendente rejeitado desde que a primeira Constituição republicana entrou em vigor. E olhe que as cinco ocorrências anteriores datam do século 19, no longínquo 1894, governo de Floriano Peixoto.

A soberba de Lula da Silva não tem emenda. Nosso presidente ainda vive nos eflúvios de seus dois primeiros mandatos, quando sua estrela brilhava forte e ele ganhava todas. Só que os tempos seguiram adiante, inexoráveis, mesmo Luiz Inácio fazendo força pra não aceitar. Na vida, quem fica pra trás dança – e Luiz Inácio tem levado um baile atrás do outro. Contradanças em grande parte evitáveis.

Embora a Constituição não obrigue, as escolhas das últimas décadas tinham sido feitas pelo presidente, sim, mas baseado numa lista tríplice elaborada por quem entende do recado (STJ, OAB). Assim, o presidente exercia sua prerrogativa de indicar um nome, mas evitava a suspeita de estar se baseando em proximidade ideológica ou amizade pessoal.

Traído pela soberba, Lula bobeou. Esnobou Rodrigo Pacheco, candidato de consenso que provavelmente teria sido aprovado sem tropeço. Dispensou lista tríplice e anunciou que seu candidato era o AGU. Esse tipo de decisão arrogante só funciona quando o chefe do Executivo está em posição de força, seja por ter excelentes níveis de aprovação, seja por estar longe de período eleitoral. Ora, Lula está amargando aprovação péssima, e estamos a cinco meses das eleições. Em momentos assim, é imprudente confiar apenas em ecos da popularidade passada. Ministro do STF é cargo cobiçadíssimo. Os não escolhidos se sentem frustrados, tem muita gente botando olho gordo e espetando bonecos de pano à moda vodu.

Além disso, depois que as pesquisas começaram a indicar a viabilidade da candidatura do filho de Bolsonaro, os braços ameboides do Congresso passaram a se estender para o dito “01”. A partir desse momento, o espírito do Parlamento se tornou hostil ao presidente. A tendência é negar todo pedido vindo de sua parte e escamotear todo favor que se lhe pudesse ser feito.

O presidente Lula está, pois, em posição delicada com relação aos parlamentares. Estes últimos têm a força da avidez que nunca sacia. Nesses termos, um Lula fragilizado perde toda atratividade. Suas Excelências preferem acariciar quem está na crista da onda.

O candidato Jorge Messias poderia talvez ter sido aprovado pelos senadores seis meses atrás. Em vez de titubear, Lula deveria tê-lo logo mandado à forja, enquanto o filho de Bolsonaro não passava de candidato folclórico em que ninguém botava fé. Aquele era o momento, mas Luiz Inácio deixou passar.

Do modo que as coisas estão, vai ser difícil uma nova indicação de Lula ser aprovada antes das eleições. Caso o presidente não seja reeleito e, em seu lugar vier um presidente bolsonarista, seja o filho de Jair ou um outro, em breve tempo o equilíbrio de forças terá vergado para outra vertente. Os ministros estarão, em maioria, sintonizados com ideias reacionárias ou, pior, de extrema direita.

Não se sabe se era o que Suas Excelências desejavam, mas é o caminho que hoje parece mais bem atapetado. Com pedrinhas de brilhante.