Do you speak English?

José Horta Manzano

Depois de quinze anos de afligente monoglotismo nas altas esferas brasileiras, surpreende agradavelmente constatar que o vice-presidente eleito, general Mourão, se exprime em inglês decente.

Entrevistado pela BBC três dias atrás, doutor Mourão entendeu as perguntas e não hesitou em alinhavar as respostas, mostrando familiaridade com o idioma. Em se tratando de autoridade política brasileira, a coisa é tão extraordinária que a conversa de dois minutos foi parar até no youtube.

by Mix & Remix, desenhista suíço

De fato, os que nos governaram desde que o lulopetismo se aboletou no Planalto ignoravam línguas estrangeiras. Para piorar, tinham grande dificuldade em se exprimir na própria língua nacional. Nesse particular, doutora Rousseff atingiu o paroxismo: suas falas foram, com frequência, incompreensíveis.

Num país onde boas notícias têm de ser garimpadas com persistência, é um alívio saber que o vice-presidente ‒ que foi adido militar nos EUA por dois anos ‒ consegue ler e se exprimir em inglês com destreza. Comparando com o que tivemos em passado recente, já é enorme avanço!

Armas e homicídios

José Horta Manzano

Semana passada, a Folha de São Paulo reproduziu artigo da BBC sobre mortes por arma de fogo no Japão. A argumentação é realmente interessante. Fica-se sabendo que o japonês que desejar possuir arma de fogo tem de ser paciente porque terá uma via crucis pela frente.

Terá de tomar aulas teóricas, enfrentar exame escrito, provar que é exímio atirador, encarar testes psicológicos e de detecção de dopagem. Vasculha-se passado e presente do candidato: antecedentes criminais e eventual proximidade com grupos extremistas. Parentela, vizinhança e colegas de trabalho também passam por pente fino.

Arma 1Tem mais: é proibido portar armas pequenas, dessas que se podem ocultar numa bolsa ou numa sacola. Somente rifles e espingardas ‒ bem visíveis ‒ podem circular. As raras lojas de armas são pra lá de controladas. Só vendem cartuchos novos mediante devolução dos já utilizados. Todo possuidor terá de apresentar a arma à polícia para inspeção anual. Para coroar, a cada três anos a licença vence e tudo recomeça. Provas, exames, testes e todo o resto.

O articulista atribui o baixo índice de homicídios no país ao severo controle da circulação de armas. De fato, a contagem da Undoc (Agência de Drogas e Crime da ONU) mostra o Japão em lugar de honra. Em 2014, o país registrou apenas 0,3 homicídios por 100 mil habitantes. Para efeito de comparação, assinale-se que no Brasil, no mesmo ano, foram cometidos 24,6 homicídios por 100 mil habitantes. A proporção foi de um japonês assassinado para 82 brasileiros. Os números falam por si.

Não resta dúvida: quanto maior for o contrôle do armamento, tanto menor será a taxa de criminalidade. Assim mesmo, a limitação de posse e circulação de armas não é o único fator. Dou-lhes um exemplo extremo: a Suíça.

Como sabem meus cultos e distintos leitores, todo cidadão suíço do sexo masculino integra o exército nacional. Até alguns anos atrás, a obrigação de servir ia dos 18 aos 50 anos de idade, com cursos anuais de atualização. Hoje as obrigações são menos rigorosas, assim mesmo a ideia de base permanece: todos são reservistas convocáveis a qualquer momento. Para tanto, os homens em idade de servir guardam em casa todo o material militar ‒ uniforme, accessórios e, naturalmente, a arma.

Suíça: porão típico

Suíça: porão típico

Além disso, ou talvez por causa disso, o tiro ao alvo é paixão nacional. Por toda parte encontram-se locais apropriados para treino, como nos filmes policiais. Grosso modo, de cada dois habitantes do país, um possui uma arma de fogo em casa. Se um elevado número de homicídios estivesse na razão direta da abundância de armas em circulação, a Suíça seria um dos países mais perigosos do mundo. De fato, somente nos EUA e no Iêmen há, proporcionalmente, mais armas de fogo.

No entanto, não é o que acontece. As estatísticas mostram que, nessa matéria, a Suíça está no mesmo nível do Japão. Em 2014, o índice de homicídios foi de 0,5 por 100 mil habitantes. Está feita a prova de que a quantidade de armas em circulação não é a única responsável pela criminalidade. Múltiplos fatores entram em jogo.

Falam de nós – 15

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Violência em foco
Assalto 1Ao dar a notícia do enésimo tiroteio ocorrido no Rio de Janeiro este ano, a RTBFRadio Televisão Belga de expressão francesa – dá ênfase ao fato de estarmos a menos de um ano da abertura dos Jogos Olímpicos de verão. Que terão lugar, como todos sabem, na cidade de São Sebastião.

O artigo ressalta que nosso país, com média de 29 assassinatos anuais por 100 mil habitantes, é um dos mais violentos do mundo. Pela definição da ONU, taxa superior a 10 homicídios por 100 mil habitantes indica violência endêmica.

O Rio que se prepare. Durante estes meses que nos separam da abertura dos JOs, suas tripas estarão expostas à análise planetária.

Santana é nosso!
Rumores corriam na Argentina de que o ‘mago’ João Santana, marqueteiro titular do Partido dos Trabalhadores, estaria fazendo um bico na campanha de señor Scioli, candidato kirchnerista à presidência da república hermana.

O diário portenho La Nación traz a resposta firme e peremptória vinda do Brasil: «Nem João Santana nem ninguém de sua equipe estão participando da campanha de Daniel Scioli.»

O esclarecimento vem em boa hora. Señor Macri, candidado de oposição, tem boas chances de vencer o pleito. Marqueteiro nenhum deseja carregar no currículo uma eleição perdida.

2015-1103-01 La NacionNunca é tarde pra consertar
A veneranda BBC dá destaque ao pedido de destituição da presidente da República, apresentado por Hélio Bicudo. Como sabem todos, o doutor Bicudo é petista pentito. Pentito é termo italiano usado para designar todo aquele que, tendo feito parte de organização criminosa, se regenerou.

Desigualdade social
O diário Tages Anzeiger, um dos maiores jornais suíços, faz um balanço das perspectivas turísticas do país. Tendo em vista que o câmbio atual sobrevaloriza o franco suíço, uma temporada nas montanhas francesas ou austríacas sai bem mais em conta.

Nada se pode fazer contra a cotação da moeda, é verdade. Mais vale ir buscar categorias de turistas com poder aquisitivo suficiente para enfrentar um passeio pelas neves helvéticas.

Promotores turísticos espicham o olho para essa clientela afortunada. E onde é que vão buscar essas pérolas raras? Especialmente em dois improváveis países: na China e… no Brasil. Quem diria, hein!

Expo 1Brasil leiloado
Fim de semana passado, depois de seis meses, a Exposição Universal de Milão (Itália) fechou as portas. Pouco comentada no Brasil, a feira italiana atingiu o incrível patamar de 20 milhões de visitantes, uma cifra enorme. Cada país montou pavilhão, como é costume. O do Brasil foi um dos mais visitados, tendo recebido 5,3 milhões de pessoas.

O que mais chamava atenção no pavilhão brasileiro era uma rede suspensa sobre a qual o público podia caminhar. Não sei se a intenção dos organizadores terá sido transmitir a sensação de areia movediça e de insegurança que caracteriza nosso país. Será apenas coincidência.

Fato é que, terminada a exposição, os pavilhões foram a leilão. Orgulhoso, o jornal La Provincia di Lecco, da cidade homônima situada a 65km de Milão, informa que o pavilhão brasileiro foi arrebatado por uma empresa local especializada em montagem de eventos. O lance final foi de um milhão e oitocentos mil euros, bem abaixo do custo de construção.

Manif 10Cada qual como lhe convém
A emissora estatal venezuelana de tevê Telesur, também conhecida como «tevê do Chávez», dá em manchete, com visível alívio, a notícia de que o Exército Brasileiro descarta toda possibilidade de golpe de Estado contra dona Dilma.

A tevê destaca que os militares não têm intenção de se alevantar, em que pesem os continuados escândalos de corrupção.

Fiel a sua missão de guardiã do bolivarianismo – mas um tanto esquizofrênica –, a emissora inclui fotos e vídeos de manifestações em que alguns gatos pingados, vestidos de vermelho, protestam contra o ajuste fiscal decidido pelo próprio governo de dona Dilma. Vá entender…

Imbecilidade

José Horta Manzano

Señor Cabello, um dos bambambãs da hierarquia política venezuelana, esteve de visita ao Brasil dez dias atrás. Foi acolhido pelo Lula – chegaram a posar juntos, sorridentes, em fotos que saíram em todos os jornais. Embora a visita não tivesse caráter oficial, o estrangeiro foi assim mesmo recebido pela presidente da República. Dona Dilma abriu um espaço na agenda para honrar o ilustre braço direito do bondoso companheiro Maduro.

Agência Xinhua, China

Agência Xinhua, China

Oito senadores de nossa República embarcaram em avião da Força Aérea Brasileira para visitar presos políticos na Venezuela. Foram recebidos a pedradas por milicianos, convenientemente vestidos de vermelho, a soldo do governo do país hermano. A visita teve de ser interrompida.

Quando incapazes assumem funções de governo, tudo pode acontecer. É o que se tem verificado no Brasil e, em grau mais elevado, na sofrida Venezuela. Temendo que a visita de parlamentares estrangeiros pudesse servir de amplificador para o drama dos presos políticos, os brutamontes aboletados no Palacio Miraflores, de Caracas, raciocinaram de modo primitivo: sabotaram a visita.

Venezuela 2O tiro saiu pela culatra. Deu tudo errado. Tivessem os senadores visitado os presos, a notícia sairia na segunda página de jornais brasileiros. E mais nada. A ação de brucutu das autoridades venezuelanas fez o efeito exatamente oposto.

Jornais, rádios, tevês, portais, blogues do mundo inteiro repercutiram a notícia. Se alguém não sabia que houvesse presos políticos naquele país, agora sabe. Mais ainda: meteram dona Dilma numa saia justa ainda mais apertada do que a que ela anda vestindo. Um desastre.

É nisso que dá confiar responsabilidade a imbecis. Aqui está um florilégio do eco planetário suscitado pelas mazelas de um país atrasado.

The San Diego Union Tribune (EUA)
«Brazilian senators fail to meet with Venezuela opposition»

Latina Press (internacional)
«Venezuela: Chavistas greifen Senatsausschuss aus Brasilien an»

BBC (Reino Unido)
«Brazil senators flee Venezuela attack»

Agência Reuters (internacional)
«Venezuela gives landing permission for Brazil senators»

Deutsche Welle (Alemanha)
«Brazil senators blocked in Venezuela en route for visit to jailed opposition leader»

Venezuela al Día (Venezuela)
«Congreso de Brasil aprueba moción de repudio contra gobierno venezolano por agresión a senadores»

Entorno Inteligente (internacional)
«Después de las agresiones chavistas, los senadores brasileños se ven obligados a irse de Caracas»

Martí Noticias (EUA)
«Llegan a Caracas senadores brasileños en apoyo a presos políticos»

Abruzzo 24 ore (Itália)
«Venezuela: Accolgono a sassate delegazione di parlamentari brasiliani»

Venezuela al Día
«¡Que lo sepa el mundo! Senador Neves: “No nos queda duda de que en Venezuela no hay democracia”»

La Jornada (México)
«Condena Brasil ‘actos hostiles’ contra sus senadores en Venezuela»

Clarín (Argentina)
«Senadores brasileños van a Caracas y piden por los presos políticos»

Agência Xinhua (China)
«Líder de oposición brasileña critica que Venezuela no dio garantías de seguridad a comisión de senadores»

ABC Color (Paraguai)
«Senadores brasileños denuncian ataque y bloqueo en Venezuela»

Últimas Noticias (Venezuela)
«Gobierno de Brasil calificó de “inaceptable” lo ocurrido con senadores»

Uff!

José Horta Manzano

Estadio 4Por intermédio de um vídeo assustador, a audiência internacional da inglesa BBC fica a par da precariedade das estruturas provisórias erigidas às pressas para permitir acesso às arquibancadas do Maracanã.

O comentador se felicita pelo fato de os estádios brasileiros terem atendido à demanda «até agora».

Esperemos que aguentem pelo menos até o fim da Copa das copas. Depois, seja o que Deus quiser.

Interligne 23

Para assistir ao filmezinho de minuto e meio, clique aqui. Atenção: almas sensíveis e cardíacos devem-se abster de clicar.

Repercussão no exterior

José Horta Manzano

Numerosos leitores me têm feito perguntas sobre a repercussão que estão tendo no exterior as demonstrações de descontentamento do povo brasileiro. Gostariam de saber se a mídia estrangeira está dando sinais de interesse pelo problema tupiniquim. A resposta é sim.

Em todas as décadas que já passei na Europa, não me lembro de ter visto notícias provenientes do Brasil permanecerem por tanto tempo na primeira página de jornais e na abertura de noticiosos de rádio e televisão.

Catástrofes naturais como enchentes e desmoronamento de encostas sempre rendem manchetes. Tragédias humanas como o incêndio de Santa Maria também. Mas depois de um ou dois dias vira-se a página. O que está acontecendo agora é diferente.

O Lula e seus cortesãos sempre foram encarados com um certo ar de comiseração. Eu diria que, fora das fronteiras nacionais e longe do Brasil de todos os dias, ele foi observado como o que realmente era: uma espécie de dom-quixote folclórico, sem poder, errático, nem sempre bem orientado. Mais ou menos como Chávez era visto pelo mundo ― inclusive pelos brasileiros. Chávez, pelo menos, aparecia sorridente nas fotos. O Lula, nem sempre.

Desta vez, como eu dizia, é diferente. O mundo todo entendeu que os protestos brasileiros não têm muito a ver com passagem de ônibus. Esse foi apenas o estopim. O mal é mais profundo. Os brasileiros não se sentem representados pelos que foram eleitos justamente para essa função. Daí a frustração e o insuportável sentimento de estarem sendo traídos.

Pode parecer incongruente, mas os estrangeiros entenderam a mensagem bem mais rapidamente que o governo brasileiro. O Planalto e outras vozes oficiais continuam se referindo aos «protestos contra o aumento do preço das passagens». É constrangedora cegueira. Ou, bem pior, é má-fé mesmo.

O jornal sueco Aftonbladet deu título bastante sugestivo a sua matéria: «Bakom den läckra ytan finns ett annat Brasilien», ou seja, «por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil». Achei muito sugestivo.

Dou-lhes abaixo uma resenha do que está sendo publicado em alguns jornais estrangeiros estes dias.

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Manifestantes saem de novo na maior cidade do Brasil The Times of India, Índia

Manifestantes saem de novo na maior cidade do Brasil
The Times of India, Índia

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200 mil brasileiros concentram-se para evacuar cólera South China Morning Post, Hong Kong

200 mil brasileiros concentram-se para evacuar cólera em mais de meia dúzia de cidades
South China Morning Post, Hong Kong

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A presidente do Brasil tenta acalmar os ânimos Radio Canada, Montréal

A presidente do Brasil tenta acalmar os ânimos
Radio Canada, Montréal

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Dezenas de milhares de novo nas ruas do Brasil NRC, Holanda

Dezenas de milhares de novo nas ruas do Brasil
NRC, Holanda

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Os brasileiros saem às ruas NRC, Holanda

Os brasileiros saem às ruas
NRC, Holanda

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Aqui jaz uma nação conformista. O Brasil despertou! Le Monde, França

Aqui jaz uma nação conformista. O Brasil despertou!
Le Monde, França

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Brasil: os jovens abandonam o futebol e saem às ruas Le Matin, Suíça

Brasil: os jovens abandonam o futebol e saem às ruas
Le Matin, Suíça

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Do boom à cólera social. Agora o Brasil não sonha mais. Il Giornale, Itália

Do boom à cólera social. O Brasil já não sonha mais.
Il Giornale, Itália

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Dilma Rousseff estende a mão aos manifestantes El País, Espanha

Dilma Rousseff estende a mão aos manifestantes
El País, Espanha

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Blatter critica os manifestantes de Brasília Der Spiegel, Alemanha

Blatter critica os manifestantes brasileiros
Der Spiegel, Alemanha

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Brasil manda força policial nacional para reprimir protestos BBC, Reino Unido

Brasil manda força policial nacional para reprimir protestos
BBC, Reino Unido

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Por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil Aftonbladet, Suécia

Por debaixo da superfície saborosa, aparece um outro Brasil
Aftonbladet, Suécia

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