A festa continua

José Horta Manzano

Já lhes falei aqui, faz pouco mais de um mês, de nosso exótico ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Pois o homem é incorrigível. Continua aprontando.

Outra travessura do burlesco personagem aconteceu no Carnaval passado, mas só agora veio a público. E olhe que, não fosse o pipocar de traquinagens semelhantes cometidas por outros políticos mais célebres que ele, suponho que suas artes continuassem dormindo no esquecimento.

Artigo da Folha de São Paulo deste 24 de julho nos informa que Aldo Rebelo se valeu de um avião das Forças Aéreas Brasileiras para viajar a Cuba. Até aí, nada de estranho. Parece absolutamente normal que um afiliado histórico do Partido Comunista vá passear na ilha onde ele é amigo do rei.

Para não ficar feio, a viagem foi registrada como «missão oficial» ― quem poderá contestar? Aconteceu durante o Carnaval. E daí? Na maior ilha caribenha, como sabemos, vivem todos felizes o ano inteiro. Não têm necessidade de comemorar carnavais para descomprimir. Por lá, trabalha-se duro o tempo todo, donde o elevado padrão de vida da população.

O ministro levou consigo a esposa. E daí? Se até os encarcerados têm direito a visita íntima, por que seria negada a um figurão da República a regalia de levar consigo a esposa em viagem oficial? A esposa não aparece na lista oficial de viajantes. Bem, aí já começamos a ter um problema. Por que não aparece? Um esquecimento, certamente.

Avião da alegria

Avião da alegria

Além da esposa, o ministro levou consigo o filho. Que tampouco aparece na lista de passageiros ― mas vejam que coincidência!

Vamos recapitular. Nosso aplicado ministro do Esporte decide fazer uma viagem de trabalho a Cuba em pleno Carnaval. Leva esposa e filho. O nome dos acompanhantes não aparece na lista oficial de passageiros da viagem. O senhor Rebelo nos explica que sua esposa e seu filho viajaram a convite dos Castros. E daí? Na ilha maravilhosa mandam os Castros e sua clique, no Brasil mandamos nós. Que se saiba, o custeio da aviação militar brasileira não vem da ilha da fantasia. Sai do dinheirinho suado que é extorquido de todos os brasileiros por meio de impostos diretos e indiretos.

Vejam como são as coisas. O homem que tanto se esforçou em matéria de proteção da língua portuguesa e do saci-pererê é bem menos rigoroso quando se trata de proteger o dinheiro de seus compatriotas contribuintes.

A quem estamos querendo enganar? Contorcionismos verbais já não surtem o mesmo efeito que antes. Ou esses medalhões tomam jeito, ou isso ainda vai acabar mal. Ninguém gosta de ser vítima de zombaria. Os políticos brasileiros estão demorando a se dar conta de que a consciência do povão já não é letárgica como costumava ser.

A continuarem as estrepolias da nomenklatura tupiniquim, essa novela ainda vai acabar mal.

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Era de esperar

José Horta Manzano

Uma das engraçadas leis de Murphy diz que, se o pior puder acontecer, acontecerá. A mídia europeia, naturalmente, deu boa cobertura à presença papal no Rio e a ela dedicou espaço importante.

No entanto, é compreensível que, num mundo encharcado de imagens ao vivo e em alta resolução, a figura de um papa beijando criancinhas já não entusiasme como antes.

Para apimentar reportagens modorrentas, não foi preciso procurar muito longe. A alguns passos da rota do visitante, jovens ― aparentemente sem grande coisa a fazer e, mais que isso, vítimas de estrelismo agudo ― decidiram se manifestar.

Visita do papa

Visita do papa

Houve reclamações contra o governador do estado, contra o preço das passagens de ônibus. Houve até os que fizeram questão de hostilizar o visitante, prova de que democracia não rima necessariamente com civilidade. Em resumo, as manifestações pareciam um mercado persa, uma loja de 1,99 onde se encontra de tudo.

O jornal francês Le Monde, assim como o resto da mídia estrangeira, não se fez rogar para registrar os acontecimentos e difundi-los por aqui. Vai-se firmando a ideia de que, longe da imagem suave e idílica que se tinha, o Brasil é um país habitado por gente violenta, baderneira, mal-educada e imprevisível. Dá muita pena.

E pensar que os que tiveram nas mãos o poder absoluto estes últimos 12 anos não se empenharam em elevar o padrão civilizatório do povo. Não era tão difícil. Até nos tempos da ditadura havia uma oposição mais incisiva que a atual. Bastava que os eleitos tivessem dedicado metade de seu tempo a cumprir com honestidade o mandato que lhes tinha sido confiado. Para desgraça de todos, a maioria preferiu dedicar a totalidade de seu tempo a seus interesses pessoais. O resultado está aí. A História há de guardar estes anos irresponsáveis, de esbórnia e de incúria, entre os mais sombrios.

O bom lado disso tudo é que, por uma dessas coincidências alinhavadas pelo destino, o herdeiro da coroa britânica tenha visto a luz no mesmo dia da chegada do papa ao Rio. O choro do neonato foi providencial.

No Brasil, compreensivelmente, o evento passou praticamente despercebido. Já na Europa, o royal baby eletrizou tanto os que ainda têm um rei, quanto os que gostariam de voltar a tê-lo. Ou seja, uma importante fatia de cidadãos. Isso ajudou a sombrear a imagem das desordens do Rio e abafar-lhes o eco . Melhor assim.

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Interligne vertical 9Curiosidade pré-histórica

Jânio Quadros foi presidente do Brasil ao tempo dos Sumérios. Era personagem carregado de defeitos. Acusavam-no de beberrão, esquizofrênico, populista, imprevisível, paranoico. Pode até ser, mas há controvérsias.

No entanto, num ponto, todos concordavam: o homem conhecia profundamente a língua portuguesa. E mais: apesar dos defeitos e do raríssimo sorriso, sabia tratar os outros com civilidade e, em troca, exigia ser tratado com respeito.

Uma vez, quando de uma entrevista coletiva, um repórter dirigiu-se ao presidente chamando-o de você. A reação veio fulminante. O presidente chamou a atenção do interlocutor. Disse-lhe que não o estava tratando com tamanha intimidade e ficaria reconhecido se o repórter lhe concedesse tratamento recíproco.

Eram outros tempos. Os homens tinham seus defeitos, mas ainda mantinham um verniz de polidez. Hoje, um solvente parece haver decapado a superfície. Foi-se o polimento, e sobraram só os defeitos.

Reparem, aqui logo acima, no cartaz do manifestante. Trata o ilustre visitante por você e isso não parece incomodar mais ninguém. Jânio talvez desaprovasse.

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O papa e o protesto

José Horta Manzano

Os franceses têm resposta pra tudo. A cada aumento de imposto ― fato que acontece com bastante frequência na terra deles ― sempre aparece alguém no rádio ou na televisão para repetir que trop d’impôt tue l’impôt, imposto demais mata o imposto.

Com isso querem dizer que todo exagero é pernicioso. Impostos elevados demais são um convite à evasão e até à fraude. Têm razão. Nunca convém abusar, sob pena de ver o resultado irremediavelmente comprometido.

Faz um mês, o Brasil fervia. Centenas de milhares de manifestantes pacíficos saíam espontaneamente às ruas. Sem bandeiras, sem comando unificado, sem orientação partidária, sem carros de som, sem uniformes e sem estímulo oficial. Alguns portavam cartazes artesanais onde exprimiam seu anseio, sua reclamação, seu fastio.

Se algum dos 200 milhões de brasileiros lhe disser que, duas semanas antes, já havia previsto os protestos, não acredite: estará mentindo. Nenhum de nós imaginou que esse tipo de fenômeno fosse de novo possível num Brasil sedado havia mais de 10 anos. Mas aconteceu e foi útil.

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Numa certa altura da vida, tive um chefe que eu admirava e respeitava. Era o dono da empresa. Vez por outra, no meio do dia, ele saía. Nunca dizia aonde ia, mas costumava lançar, já na soleira da porta, a frase ritual: «Pode ser que eu volte no fim da tarde». Às vezes, voltava mesmo. O mais das vezes, não. Mas, entre nós, ficava a dúvida. Voltará ou não? Será que posso ir-me embora um pouco mais cedo? Será que ouso ausentar-me uma meia horinha para tomar sorvete na esquina?

O fato é que a técnica do chefe funcionava. Ninguém arriscava fazer o que não devia. O homem ia, mas o chicotinho ficava dependurado na parede.

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As passeatas de junho foram uma advertência gritante. Todos os figurões entenderam, mas cada um reagiu a seu modo. O mais visado, o pai de todos, escondeu-se e, pusilânime, fez-se de morto e sumiu de circulação. Outros, que não tinham como escapar, tomaram decisões vistosas, mas atabalhoadas e desconexas. Houve ainda quem desafiasse a voz das ruas e continuasse, como antes, requisitando aviõezinhos da FAB como se estes fizessem parte de seu patrimônio privado. Levaram uma advertência em regra.

Agora, que estão todos avisados, precisa dar uma pausa para meditação. Os mandarins brasileiros não vão tomar juízo da noite para o dia, que os vícios são muito antigos e já criaram raízes. O importante é que todos agora sabem que o mundo mudou e que as coisas não são mais como antes. Todo gesto, toda conversa, todo movimento é susceptível de ser vigiado, descoberto e divulgado.

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Papa Francisco

Papa Francisco

Papa Francisco deve desembarcar no Rio nesta segunda-feira, logo mais à tarde, em sua primeira viagem fora da Itália. Algumas mentes pouco iluminadas estão convocando incautos para protestar contra isto e aquilo durante a visita papal. É besteira grossa.

Primeiro, porque uma manifestação desse tipo pode ser interpretada como hostilidade ao visitante. Não cai bem. Além de mostrar sua falta de educação, os manifestantes perigam emitir sinais incoerentes. Desfilar diante do indivíduo A para manifestar seu descontentamento com o indivíduo B? Não faz sentido.

Segundo, porque os microfones e as câmeras do mundo inteiro que estarão postadas estes dias em volta do visitante transmitirão ao mundo a imagem de um povo baderneiro, pouco sério e dificilmente governável. A longo prazo, uma imagem desse naipe só pode ser prejudicial. Vai assustar futuros turistas e afugentar investidores. Contribuirá para que o planeta enxergue o Brasil com antipatia.

Terceiro ― e talvez mais importante: o exagero é prejudicial. As duas semanas de manifestações juninas foram uma advertência séria. Governo, ministros, senadores, deputados, prefeitos, governadores entenderam que o chicotinho está dependurado na parede. Não precisa açoitar ninguém, pelo menos não por enquanto.

Tenhamos paciência. Vamos dar tempo ao tempo. Não nos precipitemos. Vamos deixar que nossos mandachuvas tomem as providências urgentes. Depois, veremos. Trop d’impôt tue l’impôt.

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Interligne vertical 4Observação indignada e envergonhada

O senhor Eduardo Paes, prefeito da mui nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro permitiu-se ofender um país inteiro. Chamou os franceses de vagabundos. E não fez isso numa conversa de botequim, mas durante uma entrevista coletiva, ao responder a um questionamento de uma equipe da televisão francesa.

Não conheço o prefeito do Rio. No entanto, ao ler essa notícia, entendi que não deve ser o homem mais inteligente da política brasileira. E olhe que os políticos brasileiros não primam pela inteligência nem pela cultura! A ofensa pública e gratuita que ele cometeu é acachapante. Mesmo sem ser carioca, sinto-me envergonhado.

Escolha errada

José Horta Manzano

Talvez seja tarde demais, é verdade, mas… antes tarde do que nunca. Antevendo catástrofe no ano que vem, o presidente da Fifa finalmente reconhece que a escolha do Brasil para sediar a próxima Copa do Mundo pode não ter sido uma boa ideia. Foi delicado, falou suave.

E tem razão, ninguém pode negar, embora receio que seja demasiado tarde para voltar atrás. Bilhões já foram enterrados nessa aventura extravagante. Governo do Brasil, patrocinadores, a própria Fifa, nenhum dos envolvidos pode mais desistir. Malfeito foi, malfeito continua sendo, e malfeito continuará.

Estava bonito no papel, na prancheta e na conta bancária. Tudo parecia perfeito. Esqueceram de combinar com o povo. Os ingênuos mandachuvas brasileiros menosprezaram a inteligência dos habitantes do País. E os gananciosos dirigentes da Fifa acreditaram nas garantias do governo brasileiro.

Estava aí uma ocasião de ouro para organizar um plebiscito. Falo de 7 anos atrás, evidentemente. O governo teria assim jogado a responsabilidade no colo do povo. Ninguém poderia reclamar. Mas, que fazer? Entre o plebiscito que não houve e o governo que não ouve, deu no que deu.

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

COPA DO MUNDO
By Kopelnitsky, EUA

Cada povo tem suas características, destiladas por um processo multissecular. Cada povo tem suas qualidades e seus defeitos. O rigor e a disciplina certamente não fazem parte da coletânea de qualidades maiores de nossa gente ― bem ao contrário.

A organização de um evento da magnitude de uma fase final de Copa do Mundo de futebol exige qualidades e prendas que ainda não possuímos. Se bastasse construir estádios monumentais e dar-lhes a bizarra apelação de «arena», o problema estaria resolvido. Infelizmente, precisa um pouco mais que sol, samba, carnaval e mulatas para organizar o espetáculo.

Temos falhas estruturais capazes de frustrar o sucesso de eventos mundiais. Há remédio para tudo, mas precisa comprar o medicamento e seguir a receita tim-tim por tim-tim. O tratamento vai levar tempo.

A visão de nossos políticos não alcança mais longe que a próxima eleição, portanto esses tratamentos a longo prazo não têm grande chance de serem adotados.

É muito chato que aconteçam coisas como esse pronunciamento de Herr Blatter, paxá da Fifa. Uma frase saída da boca de gente desse calibre é capaz de aniquilar anos de maquiagem de marqueteiros do Planalto. A imagem de país de Primeiro Mundo, moldada com tanto cuidado por «peritos em comunicação», escoa pelo ralo.

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Aqui está um florilégio da repercussão mundial da fala de Herr Blatter.

Interligne vertical 5No Brasil

No México

No Canadá

Na Alemanha I

Na Alemanha II

Nos Estados Unidos

Na Itália

Na França

No Peru

Na Inglaterra

Em Portugal

Se o mundo ainda existir ― e o Brasil e o futebol também ― talvez estejamos em condições de nos candidatar para sediar a Copa de 2126. Ou quem sabe a de 2130, ano que marcará o 200° aniversário do primeiro Campeonato Mundial de Football, como se dizia na época.

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Em boas mãos

José Horta Manzano

No dia 4 de julho de 2013, o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves, reconheceu que tinha «errado» ao requisitar um avião das Forças Aéreas Brasileiras para conduzi-lo de Natal ao Rio de Janeiro a fim de assistir a um jogo de futebol.

Ressalte-se que esse senhor é presidente da Câmara dos Deputados. Está em segundo lugar na linha sucessória da presidência da nação. Vem logo após o vice-presidente, antes até do presidente do Senado.

É interessante que o senhor Alves somente se tenha dado conta do «erro» depois que a mídia já tinha tornado público o escândalo. Menino travesso.

Ladrão

Ladrão

No dia 4 de julho de 2013 ― que coincidência, na mesma data! ― reportagem do Correio Braziliense informa que um secretário do senhor Alves tinha sido assaltado três semanas antes. O assalto, descrito como cinematográfico, deu-se à luz do dia, numa artéria movimentada de Brasília. Os personagens designados como assaltantes não primaram pela sutileza. Parece que procuravam se exibir diante de testemunhas, coisa estranha.

O veículo em que trafegava o assessor foi fechado por outro carro do qual dois homens desceram e anunciaram o assalto. Vasculharam o veículo do assessor e levaram uma maleta que, segundo se soube mais tarde, conteria 100 mil reais em dinheiro vivo. A história, um tanto nebulosa, foi deixada de molho desde então. Ninguém mais falou no caso.

Bisbilhoteira, a Folha de São Paulo deste 20 de julho retoma o fio da meada. Informa que os 100 mil reais que ― sempre segundo a declaração do portador ― a maleta continha pertenciam na verdade a nosso conhecido senhor Alves. Yes!, o mesmo que cometeu o «erro» de requisitar avião da FAB para seu lazer particular.

Repito que esse senhor é presidente da Câmara dos Deputados do Brasil. Não é pouca coisa.

Segundo a reportagem da Folha, o deputado mostra certa irritação com a invasão de privacidade de que se considera vítima no caso do roubo da maleta. Alega que o dinheiro contido ali era seu. Estava destinado a pagar uma prestação relativa à compra de um apartamento. Por sinal, o vendedor do dito apartamento é também deputado ― mera coincidência, certamente.

Ladrão

Ladrão

Excluídos os bancários cuja função consiste em preparar maços de notas para serem guardados em caixa-forte, é dificilmente concebível que um cidadão tenha 100 mil reais em suas mãos. Mais inacreditável é que use dinheiro em espécie para pagar uma prestação desse valor. Mais impressionante ainda é que confie a missão a uma terceira pessoa. E o auge da emoção é provocado pelo assalto em pleno dia.

Acredite quem quiser. Para mim, essa história está muito mal contada. Cada um é livre de formular sua própria hipótese. Pena que Agatha Christie já não esteja mais entre nós. Esse caso, posto nas mãos do detective Hercule Poirot, renderia um livro excepcional.

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Para que fique bem claro:
Ressalte-se que o senhor Henrique Eduardo Alves é presidente da Câmara dos Deputados. Está em segundo lugar na linha sucessória da presidência da nação, logo após o vice-presidente. Nosso País, como se vê, está em boas mãos.

Melhores destinos para expatriados

José Horta Manzano

O marketing governamental carece de visão de futuro. Pode ser instrumento excelente para tapar buracos pequenos e imediatos, mas, no capítulo das previsões, é um desastre. Só se dá conta dos problemas quando já aconteceram. E aí, é mais difícil dar jeito. Precisa competência, artigo raro entre nossos mandarins.

Assim como o Brasil tem o Valor Econômico, publicação que preencheu o vazio deixado pela extinção da Gazeta Mercantil, a França tem as revistas Capital e Management. A versão online das duas está alojada no sítio Capital.fr.

Mês passado ― antes dos protestos das ruas brasileiras ― o especialista publicou um interessante artigo, bastante documentado, com recomendações aos franceses que pretendem se estabelecer no estrangeiro.

Bandeiras do mundo Para onde ir?

Bandeiras do mundo
Para onde ir?

Descreve, com os comos e os porquês, os oito países mais interessantes para os futuros expatriados. Atenção: não estamos mais falando da imigração de 100 anos atrás, quando levas de agricultores pobres e iletrados saíam em busca de vida menos apertada. Falamos aqui de deslocamento voluntário de gente que tem formação técnica ou intelectual e competência para exercer funções de responsabilidade.

Para cada um dos países, o artigo indica quais são os setores onde os expatriados terão melhores chances de descolar uma boa posição. Dá também algum conselho útil para quem chega a terra desconhecida.

Os oito países são: o México, a Índia, a República Dominicana, a Turquia, a Indonésia, o Marrocos, a Suíça e a Hungria. Não necessariamente nessa ordem.

Notou falta de alguma coisa? Pois é, eu também reparei. Falta o Brasil, o novo eldorado cantado em verso e prosa pelo marketing oficial.

É assaz incômodo ficar sabendo que empresários estrangeiros nos enxergam como um país com menos oportunidades que um México ou uma Indonésia. Pior: na visão deles, até Índia e República Dominicana nos ultrapassam.

Que outras realidades o marketing do Planalto nos oculta?

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É oficial

José Horta Manzano

É oficial. Já aconteceu faz um mês, mas, distraído, eu não tinha me dado conta. É verdade que nosso governo federal nos tem acostumado a uma avalanche de decisões grandiosas, o que faz que uma ou outra decisão passe despercebida. Mas essa de que lhe falo aqui é de tal magnitude que não pode ser deixada na penumbra.

Vera Magalhães, da Folha de São Paulo, foi quem botou a boca no trombone. Como não gosto de comprar gato por lebre, fui conferir na fonte. Para quem se interessar, aqui está o Decreto n° 8001, de 10 de maio de 2013, sancionado pela presidente da República.

Decreto n° 8001 Presidência da República

Decreto n° 8001
Presidência da República

Entre outras providências, o decreto cria o cargo de diretor do Departamento de Racionalização das Exigências Estatais da Secretaria de Racionalização e Simplificação da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República. Não é brincadeira, não. Confiram.

E pensar que, durante mais de cinco séculos, função tão importante não foi exercida por ninguém! É de pasmar! Antes tarde que nunca. Estou feliz em saber que uma parte do salário desse senhor é sustentada com os impostos que pago. Equipamentos hospitalares podem bem esperar um pouco. Tenho certeza de que estamos todos de acordo, não?

Depois fazem cara de bobos e dizem não entender por que razão o povo reclama nas ruas…

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Obs:
Dona Dilma, sabe-se lá por que absconsa razão, prefere a forma presidentA. A mim, soa demasiado informal, indigno de servir de título à chefe do Executivo. Faz pensar em «gerenta», em «dona patroa», formas irreverentes que não caem bem em tão excelsa personagem.
Parenta ainda passa ― é termo familiar, coloquial. Agora, presidenta… tsk, tsk, não me parece apropriado.

Jeca Tatu

Jeca Tatu

Jeca Tatu

 

“Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ter saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí.”

José Bento Monteiro Lobato, in Jeca Tatu

Leia a historinha completa do Jeca Tatu no Blog da Wilma. Aqui. Ou também aqui.

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Casus belli, ma non troppo

O Estadão, um dos três maiores diários brasileiros, dedicou um de seus editoriais deste 18 de julho à humilhação a que o Brasil foi submetido pela Bolívia quando da inspeção de que foram alvo três aviões da FAB em La Paz.

Este blogue já tinha analisado esse incidente no artigo Autolouvação, de 17 de julho. Nós classificamos a agressão na categoria de casus belli, aqueles capazes de provocar uma guerra. O Estadão é mais suave em suas conclusões. Melhor assim.

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Mercática

José Horta Manzano

Nenhum exagero é saudável. Nem de coisa boa se deve abusar. Arsênico e beladona, venenos poderosos, estão presentes em certas preparações homeopáticas. Quem tiver paciência e determinação, pode suicidar-se bebendo copos d’água ― a partir de um certo limite, o metabolismo se alterará a tal ponto que a morte será inevitável.

Desde que o primeiro homem pôs à venda o primeiro produto ― terá sido uma cabra, um carneiro, um cesto de lentilhas? ― estratégias empresariais estiveram presentes em toda negociação.

Meio cheio

Copo d’água

Técnicas de venda recebem diversas denominações, algumas valorizantes, outras depreciativas. Tudo depende da época e do caso específico. Esperteza, malícia, astúcia, manha, lábia são nomes mais pejorativos. Entre as designações prestigiosas, estão argúcia, técnica, perícia, engenhosidade e a onipresente e universal marketing(*).

Cada um tenta vender seu peixe. Mas o apregoamento do produto, por mais que lhe destaque as qualidades, não tem o condão de aprimorá-las. Nenhum alquimista conseguiu até hoje transformar bronze em ouro. Um mau produto, ainda que tenha sido vendido com maestria, será sempre um mau produto.

Marketing, merchandising e técnicas afins estão cada vez mais presentes em nosso dia a dia. Até o governo vai buscar inspiração em estratégias que antes eram apanágio de vendedores de aspirador.

De uns tempos para cá, o debate de ideias vem sendo substituído por técnicas de marketing. Não vence necessariamente o candidato que tiver o melhor projeto, mas o que puder pagar o marqueteiro mais convincente.

Já faz anos que os atores da arena política brasileira vêm sendo aconselhados por marqueteiros. Em casos extremos, agem como marionetes, como bonecos de ventríloquo. O que dizem não é necessariamente o que pensam ― é o que foram orientados a dizer.

Bebida

Copo d’água

Assim como água pode matar, esse viés de nossos dirigentes tem-se tornado pernicioso ultimamente. Está exageradamente visível e artificial. Não me espantaria que estivesse entre os motores dos confrontos de junho.

A população começa a se dar conta de que está sendo governada não por políticos, mas por marqueteiros. É incômodo saber que os que conduzem o País não são exatamente aqueles que escolhemos. São homens da sombra, cuja identidade nem sempre nos é revelada.

Vamos torcer para que o excesso de copos d’água não bloqueie o metabolismo da nação. E para que tampouco exagerem na dose de arsênico.

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(*) É pena que não tenha ocorrido a ninguém fabricar um equivalente tupiniquim para o termo “marketing”. A palavra mercática, por exemplo, simpática, fácil de grafar, simples de pronunciar, teria sido um excelente substituto.

Autolouvação

José Horta Manzano

Muita gente acredita que certos lugares têm poderes mágicos. Há centenas de relatos de curas milagrosas na gruta de Lourdes. Nos anos 70, alguns visitaram Katmandu e lá encontraram a iluminação. No Brasil, temos pelo menos um desses sítios onde acontecimentos extraordinários têm lugar. Fica bem perto da cidade de São Paulo, exatamente no campus da Universidade Federal do ABC. Estes dias, de 15 a 18 de julho, está-se realizando lá um seminário sobre a política externa brasileira dos últimos 10 anos. Os palestrantes são todos gente fina: Celso Amorim, Antonio Patriota, o inefável Aurélio Garcia e ― last but not least ― o Lula, nosso messias em pessoa. Considerando os palestrantes, a reunião periga ser um mero aborrecido exercício de autolouvação.

A Folha de São Paulo já reportou o desempenho de Patriota, o atual ministro das Relações Exteriores e de Amorim, seu predecessor no cargo ― exatamente aquele que empurrou o ingênuo presidente de então nos braços de dirigentes estrangeiros de nebulosa reputação.

Patriota falou logo na noite de segunda-feira. Previsivelmente, cobriu de pétalas de rosas a política exterior de seu predecessor. Num contorcionismo verbal, disse acreditar que a aproximação do Brasil com países de duvidosa respeitabilidade foi um passo importante. Afinal, dez anos de esforço valeram a pena: o Planalto conseguiu fazer que um cidadão brasileiro fosse designado diretor da OMC ― Organização Mundial do Comércio! Tout ça pour ça?, diriam os franceses, todo esse esforço para um resultado tão magrinho?

O Ministério das Relações Exteriores tem por função precípua fazer política de Estado. Entre todos os ministérios, deveria ser o mais descolado do governo de turno, o menos vinculado a políticas públicas. Está lá, em princípio, para defender os interesses nacionais do Brasil, não as conveniências do inquilino que ocupa temporariamente o Palácio do Planalto.

Ao final do pronunciamento, jornalistas provocaram o senhor Patriota sobre esse tema. Ele saiu-se pela tangente, dizendo que estava ali representando o Estado brasileiro. Deu como prova o fato de «não ter mencionado em momento algum o nome de um partido político» . Só faltava.

O ministro deve ter voltado para casa com um gosto agridoce na boca.

Dilma Rousseff e Evo Morales

Dilma Rousseff e Evo Morales, by R. Stuckert F°

Na noite seguinte, foi a vez do senhor Amorim, fiel ministro de Relações Exteriores durante 8 anos, no tempo do Lula. Foi aí que a magia do lugar começou a agir. Num lampejo de inesperada sinceridade e de inconcebível candura, o ex-chanceler contou coisas do arco da velha, daquelas que a gente tem dificuldade em acreditar.

Contou que, dois anos atrás, visitou a Bolívia a bordo de um avião militar brasileiro. Surpreendentemente, revelou que o aparelho da FAB tinha sido vasculhado a mando das autoridades locais. Disse também que sua autorização não tinha sido solicitada. Disse ainda ― pasmem! ― que ninguém se preocupou em pô-lo a par do acontecido.

Em outros tempos, isso seria um casus belli. Uma afronta dessa magnitude à honra nacional não poderia ser lavada senão com uma declaração de guerra.

Hoje em dia, ironicamente o Brasil se junta ao coro dos hispano-americanos para protestar contra o desaforo que europeus fizeram à Bolívia ao revistarem o avião de Evo.

Ainda bem que o senhor Patriota garantiu que o Itamaraty não desviou de sua rota e continua fazendo política de Estado. Portanto, insinuar que temos engolido essas cobras e lagartos para alinhar a política externa do Brasil com a linha ideológica do partido de governo é ato de má-fé.

Seria petulante de minha parte pensar o contrário.

Obs:
Nova indiscrição nos revela que os aviões da FAB revistados pelos bolivianos foram três. Veja aqui.

Imagem esgarçada

José Horta Manzano

Um caro amigo me pergunta como o Brasil está sendo visto ultimamente do exterior. Aproveito a ocasião para compartilhar minhas impressões com todos os leitores.

Durante 500 anos, o Brasil acumulou, junto aos europeus, um forte capital de simpatia. Até o século XIX, nosso país era visto como um eldorado: belo e rico, embora longínquo e inatingível.

A partir dos anos 1850, com o aparecimento do navio a vapor, terras antes apenas sonhadas passaram a ser alcançáveis. Ainda não era propriamente o que hoje conhecemos como turismo. Os que desembarcavam no Brasil e noutros destinos norte e sul-americanos vinham para ficar. Eram imigrantes.

Um pouco por orgulho, um pouco porque era verdade, um pouco para não dar preocupação aos que tinham ficado na terra de origem, os imigrantes costumavam ocultar as agruras de seu quotidiano e dar somente as boas notícias. Douravam a realidade.

O passar dos anos firmou no imaginário europeu a ideia de uma América povoada por gente rica, próspera, feliz e sem problemas.

Fare l’America (=fazer a América), expressão hoje em franco desuso, era, para os italianos, sinônimo de enriquecer.

Oh, ce n’est pas le Pérou! (=oh, não é o Peru!) equivale até hoje, entre os franceses, ao nosso popular não é nenhuma Brastemp, para significar que algo não é lá tão precioso assim. Sinal evidente de que, na fantasia europeia, o eldorado se situava em terras sul-americanas.

La vie parisienne Jacques Offenbach, 1866

La vie parisienne
Jacques Offenbach, 1866

No primeiro ato da Vie Parisienne (1866), ópera-bufa de Jacques Offenbach (1819-1880), aparece o ultrafamoso Rondó du Brésilien. A letra, muito extensa, começa assim:

Interligne 3eJe suis brésilien, j’ai de l’or
Et j’arrive de Rio-de-Janère
Plus riche aujourd’hui que naguère
Paris, je te reviens encore!

Sou brasileiro, trago ouro
e estou chegando do Rio de Janeiro
mais rico hoje do que antes.
Paris, volto mais uma vez!

É uma caricatura, mas deixa entrever o brilho que surgia nos olhos europeus quando se mencionava o nome de nosso País.

Até não muitos anos atrás, o Brasil conservava intacta essa imagem de conto de fadas. Quem assistiu ao filme L’homme de Rio (=o homem do Rio), que Philippe de Broca fez em 1964, pôde constatar a simpatia com que nossa terra era encarada.Interligne 37g

Passaram os anos. Hoje em dia, tudo se sabe, não dá mais para esconder. Já faz uns 20 ou 30 anos que os Europeus começaram a se dar conta de que, embora habitado por gente sorridente e acolhedora, nosso País tem problemas pesados. O que assusta quem vem a passeio não é a situação econômica, a inflação, o sistema nacional de saúde, a instrução pública. O que afugenta os turistas é a criminalidade.

Para piorar o quadro, todos os estrangeiros ficaram com um pé atrás ao constatar que, de uns 10 anos para cá, o Brasil tem insistido em se meter em más companhias. Ser sócio do mesmo clube que Ahmadinejad, os Castros, Chávez e outros mandarins de mesmo jaez não enche de confiança os turistas potenciais.

L'homme de Rio Philippe de Broca, 1964

L’homme de Rio
Philippe de Broca, 1964

A inacreditável imagem de um cantor de rap assassinado em pleno palco, quando se apresentava em Campinas, deu a volta ao mundo. Aqui está um exemplo, no jornal suíço Le Matin. Os comentários dos leitores são sintomáticos.

Para completar o cenário, a convulsão social generalizada que se viu durante a copinha não ajudou. Pelo contrário. Ninguém teria a ideia de fazer turismo atualmente no Afeganistão, no Iraque ou no Egito. Por que razão viriam ao Brasil, se os riscos de violência são de mesma natureza?

Os clichês costumam durar. A aura de simpatia que emoldurava o Brasil anda se esgarçando. Mas ainda não está tudo perdido. No dia em que nossos mandachuvas decidirem ― de bom grado ou à força ― a servir ao povo que os elegeu, teremos entrado no caminho da recuperação. Vamos torcer para que esse dia chegue logo.

O fim da zelite

José Horta Manzano

Segundo o discurso oficial, a zelite foi apeada do poder doze anos atrás. Desde então, nos livramos da promiscuidade entre o probo e austero governo tupiniquim e o execrável e corrupto império norte-americano.

Demos as costas ao bicho-papão para melhor dar as mãos a compañeros mais póximos do nosso feitio. Ahmadinejad, os Castros e Chávez foram os primeiros. Depois aceitamos novos sócios no clube dos virtuosos: Correa, Evo, Ortega, Zelaya e a inefável señora de Kirchner. As inscrições continuam abertas, mas por tempo limitado.

Para coroar tudo, estabelecemos as bases de uma sólida, profícua e duradoura parceria estratégica com a Rússia, a Índia e, principalmente, com a China. Foi a melhor decisão político-econômica jamais tomada na história deste país. Afastamo-nos dos malvados e atrelamos nosso vagão à locomotiva chinesa que representa, sabemos todos, o futuro brilhante da humanidade. Um modelo de equidade, lisura e justiça.

Perdemos algumas plumas no meio do caminho, é verdade. Mas que importa se descemos alguns degraus, se nos desindustrializamos, se voltamos a ser produtores de matéria-prima? Isso é coisa pouca se comparado ao caminho radioso que preparamos para nós mesmos.

O grito lançado em 1822 pelo filho do rei tinha ficado meio entalado na garganta. Afinal, que história é essa de o símbolo maior da zelite ― o herdeiro da coroa! ― liberar o país? Coisa esquisita. Pois agora a obra está completa. Estamos independentes!

O governo popular, preocupado exclusivamente em servir ao povo, fechou o círculo. Os peçonhentos americanos ― ou estadunidenses, como usam dizer alguns ― foram definitivamente removidos de nosso horizonte.Interligne 18d

Excelente reportagem de investigação assinada por Rubens Valente e publicada na Folha de São Paulo deste 15 de julho contradiz frontalmente os parágrafos anteriores. Essa história de bater na madeira e nos isolar dos malvados do Norte não passa de cortina de fumaça, produto de elaborado marketing palaciano. A história real é bem diferente.

Se já não o fizeram, leiam a reportagem da Folha. Ela nos informa que os serviços de inteligência dos Estados Unidos continuam colaborando estreitamente com a Polícia Federal brasileira. Acordos ― alguns sigilosos, outros não ― continuam sendo firmados entre os dois países.

Ajuda financeira

Ajuda financeira

Entre 1999 e 2008, ajuda financeira por um total de 140 milhões de reais foi oferecida pelas autoridades americanas. E, naturalmente, aceita pelos altos responsáveis brasileiros.

Essa detestável zelite não tem jeito mesmo: a gente enxota pela porta, e ela entra pela janela. Acabrunhado, o governo popular não sabe mais que fazer.

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Interligne vertical 5Nota pessoal:
Não tenho notícia de que nenhum de nossos parceiros estratégicos ― China, Índia, Venezuela, Bolivia, Nicarágua, Irã & companhia ― tenha desatado os cordões da bolsa para nos enviar alguma ajuda. Nem que fosse simbólica.

O trem-bala 2

José Horta Manzano

Leio hoje na Folha de São Paulo que ― oh, surpresa! ― firmas que se candidatam a realizar obras públicas de grande envergadura costumam se organizar em cartéis.

Todo o mundo está careca de saber disso. No mundo inteiro, todas as licitações são viciadas. Sejam elas para a coleta de lixo ou para a construção de grandes obras. Faz parte do negócio.

Um amigo ― cuja firma participou, faz muitos anos, de licitações públicas ― me contou como funciona o esquema. As empresas postulantes formam um cartel: são sempre as mesmas. Trabalham numa espécie de rodízio. Quando aparece um negócio novo, os dirigentes decidem entre eles quem vai levar o contrato.

A firma da vez calcula seus custos, acrescenta o percentual que lhe parece interessante, e comunica o resultado aos parceiros. Todos, então, apresentam proposta com preço superior ao do concorrente designado para ganhar. E, naturalmente, ele ganha. Na próxima obra, será a vez de um outro membro do cartel. E assim por diante.

É assim que funciona, lá e cá. E tem mais: é um clube fechado, não entra quem quer. Algum aventureiro pode até tentar furar o bloqueio fazendo um preço baixinho. Mas será a primeira e a última vez. A partir daí, os membros tradicionais do clube se unirão para derrubá-lo. Podem chegar a praticar dumping, apresentando propostas abaixo do preço de custo. (Depois, se arranjam entre eles para ratear o prejuízo.) Farão isso até que o intruso caia fora. Engenhoso, não é?

Mas não é disso que eu queria falar. O que mais me surpreendeu na reportagem da Folha foi a confirmação de que o grotesco projeto do trem-bala, que eu imaginava enterrado para todo o sempre, continua em pauta. Parece até que o leilão terá lugar no mês que vem.

Encrenca à vista, é certeza. Depois da grita suscitada pelo desperdício de dinheiro do contribuinte com a construção de estádios, é temeridade insistir nessa miragem de trem de alta velocidade. Trem de alta inutilidade seria melhor dito.

A malha ferroviária brasileira conta com 29’700km de linhas, das quais 80% de bitola estreita (1000mm), fora dos padrões internacionais. A maior parte da rede está em estado avançado de obsolescência e já não permite transporte de passageiros. Sobrevive de transporte de carga.

A malha ferroviária francesa conta com 29’300km de linhas, quase todas de bitola larga de padrão internacional (1435mm). A extensão da rede francesa é a mesma da brasileira, mas há que levar em conta que nosso território é 16 vezes maior que o deles.

Desastre de trem Brétigny-sur-Orge, França

Desastre de trem
Brétigny-sur-Orge, França 

A França conta com 2050km de linhas de alta velocidade. Nestes últimos 10 ou 15 anos, tem-se dado mais atenção à criação de novas linhas de trem-bala do que à manutenção das linhas tradicionais. Orçamentos, evidentemente, não são extensíveis. Se se usa o dinheiro para isto, não sobrará para aquilo.

O fato é que, por falta de verba, as linhas tradicionais estão sendo menos cuidadas do que deveriam. Dá para entender: a inauguração de um novo trecho de alta velocidade é impactante e traz eleitores. Já a boa manutenção da malha existente, praticamente invisível, rende menos em matéria eleitoral. Daí a escolha.

Ainda não está confirmado pelos especialistas, mas, no momento atual, tudo parece indicar que a catástrofe ferroviária de Bretigny-sur-Orge, ocorrida dois dias atrás, é fruto de falha na manutenção. Uma peça metálica que deveria ter sido trocada há anos continuava lá. Deu no que deu: um descarrilamento que deixou 6 mortos e dezenas de feridos.

Os mandachuvas brasileiros fariam melhor se abandonassem a ideia pirotécnica de trem-bala e dedicassem esses bilhões a recuperar a malha ferroviária existente. Trem é um dos meios de transporte mais seguros e mais confiáveis. Sai na hora certa e circula com chuva, vento, granizo, tempestade, neve, frio, calor, gelo. Sai do centro de uma cidade para chegar ao coração de uma outra. Carrega uma batelada de gente e não polui. Que mais precisa dizer?

Se o governo não entendeu isso, é porque estão de má-fé.

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Pamonha de Piracicaba

Texto de Alcindo Garcia (*)Interligne 3e

A presidente Dilma ouviu mal a voz das ruas. Ninguém pediu plebiscito. Isso foi proposto pelo PT para desviar o foco. A voz das ruas pediu melhoria na educação, mais verbas para a saúde, segurança e transportes e o fim da corrupção. A senhora ouviu mal a voz das ruas. Pensou que a voz das ruas fosse a caminhonete que passa vez ou outra diante do meu prédio anunciando «Olha a pamonha, pamonha de Piracicaba». Nunca tive a curiosidade de experimentar a pamonha de Piracicaba. Se a voz das ruas fosse pelo menos para anunciar as deliciosas bananinhas de Palmital, até que valeria a pena eu descer para adquirir alguns pacotes.

Com essa crise toda, herança maldita deixada pelo Lula, que está provocando indignação nacional, confirma-se que inhambu na muda não pia. Perceberam que o Lula está calado? Até agora não disse nada, prefere enviar seus conselheiros, palpiteiros que querem que o governo Dilma se lixe. A herança maldita que ele deixou foi o mensalão, a Petrobrás quebrada, a economia lá embaixo e a volta da inflação. O Palocci era melhor, pelo menos seguia a política econômica deixada pelo Fernando Henrique e com isso evitou a volta da inflação.

Na reunião ministerial, Dilma se reuniu com seus 40, perdão, com seus 39 ministros para discutir essa crise sem precedentes na história do país. Quem compareceu lá de bicão, ou a mando do Lula, foi o Franklin Martins, seu ex-ministro de Comunicações, o autor do projeto para calar a mídia. Parece que a estratégia do Luiz Inácio, é queimar o filme da Dilma, retirá-la da reeleição e se colocar como estrategista para ser ele o candidato, atendendo ao «Volta, Lula!», campanha já orquestrada pelo PT.

Dilma parece que está começando a acordar para essa realidade, pois na semana passada se queixou de que «todos a abandonaram». Todos, com endereço certo: o Luiz Inácio ― que, tal qual inhambu na muda, preferiu se calar e dar mais um giro pelo exterior.

Presidente Dilma (presidenta, como a senhora prefere), ainda há tempo. Procure um bom otorrino. Ele vai cuidar da sua audição. A voz das ruas, presidenta, não é essa da caminhonete que passa anunciando: «Pamonha, pamonha, pamonha de Piracicaba».

(*) Alcindo Garcia é jornalista, colaborador do Diário de Assis e do Jornal da Comarca, de Palmital.

Y ahora, ¿bailamos?

José Horta Manzano

Interligne vertical 4Em sua nota n° 241, o Itamaraty nos informa sobre a reunião de cúpula de chefes de Estado do Mercosul, que se realizou em Montevidéu, dias 11 e 12 de julho de 2013.

Algumas considerações me ocorrem.

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Objetivo
A visão dos que idealizaram e fundaram a união alfandegária certamente alcançava horizontes mais distantes do que os que conseguimos atingir. Desgraçadamente, a ideologia terceiro-mundista fora de moda que impregnou o governo do Brasil estes últimos dez anos gerou uma distorção. Emperrou o bloco.

Chega a ser grotesco o Brasil acusar a Argentina de atrapalhar o funcionamento da organização. Quando se detém 70% de participação numa associação qualquer, tem-se a faca e o queijo na mão. É o caso do Brasil no Mercosul. Se temos cedido aos caprichos de nossos hermanos, é porque assim foi decidido em nossas altas esferas.

Na ânsia de aparecer como «o bonzinho» e na impossibilidade de montar um verdadeiro império à soviética ou à americana, nosso País perde-se em suas ilusões e fica no meio do caminho ― sem condições de avançar, nem coragem de recuar.

Quem pretende liderar tem de saber meter medo nos liderados. Pouco deveria importar que nossos sócios «gostem» do Brasil ou não. O importante é que respeitem o sócio maior. Para aparecer como o «paladino dos pobres», papel sonhado por nossos dirigentes, um país tem de começar por fazer-se respeitar.

Não temos um exército ameaçador. Não dispomos de arsenal nuclear. Não temos sequer nosso próprio satélite de comunicações. Nosso ministro da Defesa(!) confessou outro dia, candidamente, que desconfiava que seu telefone estivesse sendo grampeado. Tudo isso deixa claro que o Brasil é um país fraco, que não amedronta ninguém. Se, além disso, cedermos a todos os caprichos de nossos hermanos, estaremos cada dia mais longe do objetivo.

Um gigante bobão não assusta.Interligne 07

Cúpula da União Europeia Junho 2012

Cúpula da União Europeia
Junho 2012

Números reveladores
Em sua nota oficial, o Itamaraty revela que, embora represente 80% do PIB da América do Sul, o Mercosul responde unicamente por 65% do comércio exterior do subcontinente. Trocando em miúdos, isso significa que os países sul-americanos não membros do Mercosul exportam, proporcionalmente, muito mais que nós. E tudo isso sem união aduaneira e sem reuniões de cúpula. Não é curioso? Pra que mesmo tem servido nossa associação?Interligne 07

Ambiente cordial
O jornal venezuelano El Mundo publica surpreendentes declarações do presidente Mujica, do Uruguai. O dirigente vizinho se lamenta do volume de burocracia e da quantidade de instituições inúteis que regem o Mercosul.

Mujica não tem papas na língua. Diz textualmente que «quando se tem de falar tanto em livre comércio é porque não há livre comércio». Acrescenta que, na atualidade, os dirigentes passam seu tempo «cada um desconfiando do outro e olhando de soslaio para ver se consegue enganar o colega».

O ambiente, como se vê, é de franca amistad y fraternidad.Interligne 07

Clube político
O próprio de uma associação comercial é fomentar o comércio, seja entre os sócios, seja com parceiros de fora. Quando se observa o Mercosul, constata-se que estamos muito longe do objetivo.

O tema dominante da última reunião de cúpula não tem que ver com o comércio, como seria de esperar. Discutiu-se espionagem, ameaça externa, asilo a Snowden ― o delator destrambelhado.

O jornal gaúcho Zero Hora nos informa que, em comunicado conjunto, os sócios «repudiam» a espionagem americana. Os dirigentes da agência americana de segurança nacional não devem ter dormido à noite de tanto medo.

Reunião de condomínio costuma ser mais produtiva.Interligne 07

Miopia brasileira
Das trevas nasce a luz. Pelo menos, deveria nascer. Mas quem tem cabeça dura não aprende. Incapacidade é defeito difícil de suplantar.

O Planalto tem esperneado desde que tomou conhecimento de que espiões espionam, e que o Brasil, tanto quanto todos os outros países, está na mira dos que têm capacidade de bisbilhotar casa alheia. Em vez de espernear, o governo faria melhor se usasse esse episódio como fonte de inspiração.

Nosso País não dispõe da mesma parafernália tecnológica de grandes potências como EUA, Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha, Japão. Esses, sim, têm os meios necessários e podem se permitir muito mais.

Mas nós temos gente. Temos diplomacia ― ainda que estranhamente direcionada nos últimos doze anos. Deveríamos utilizar nossos canais de informação diplomática, nem que fosse para não fazer papelão.

O Estadão nos informa que, num gesto magnânimo, os membros do Mercosul declararam que permitiriam a volta do Paraguai, suspenso há uma ano por decisão sumária. Só que nossa antigamente festejada diplomacia se esqueceu de combinar com o adversário. Não se preocuparam em perguntar ao sócio se ele queria voltar do castigo.

Pois o presidente eleito do Paraguai, numa resposta corajosa e sintomática, recusou-se a reintegrar o bloquinho. Pelo menos, enquanto a Venezuela estiver no exercício da presidência rotativa.

Nossa diplomacia podia ter ido dormir sem esse tapa na cara. Mais preocupados em costurar termos indignados para «repudiar» espionagens do «hermano del Norte», esqueceram-se de que é importante arrumar a casa e pôr-se de acordo primeiro. Que papelão!Interligne 07

Cúpula do Mercosul Junho 2013

Cúpula do Mercosul
Junho 2013

Conclusão
Como ilustração deste artigo, ponho a foto de uma cúpula europeia e um instantâneo da reunião do Mercosul. O contraste é patético. Quase uniformizados, os europeus transpiram seriedade. Até demais. Já nossos sócios mais parecem estar vestidos para um baile à fantasia. O Mercosul morre um pouco a cada dia.

Mas que os pessimistas não percam a esperança: está sendo preparada a adesão da Guiana, do Suriname e da Bolívia. Agora, vai!

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Intermediários inúteis

José Horta Manzano

Os religiosos diriam «aqui se faz, aqui se paga».

Espíritos mais científicos lembrariam que toda ação engendra reação oposta e de igual intensidade.

Franceses explicariam que não se pode, ao mesmo tempo, ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.

Os antigos já sabiam que não se pode ter tudo na vida.Interligne 18b

Todos têm razão. Está aí, em versões variadas, um extrato da sabedoria que a humanidade vem destilando desde que Lucy desceu da árvore, 3 ou 4 milhões de anos atrás. Muita gente aprendeu a lição. Outros são mais recalcitrantes. As manifestações de ontem reforçam o que acabo de dizer.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Nesta sexta feira logo de manhã, aqui na Europa, os jornais falados do rádio informaram que as manifestações da quinta-feira no Brasil não tinham tido o sucesso esperado por seus organizadores. Não chegaram a dizer que tinha sido um fiasco, mas não fez falta: todos entenderam.

A leitura dos principais jornais brasileiros me confirmou o que o rádio já tinha adiantado. Muita ameaça e pouco efeito. Cão que ladra não morde.

Na época em que um antigo operário de apelido Lula fazia discursos inflamados na porta das fábricas, as passeatas organizadas por sindicatos tinham conteúdo, eram credíveis. Embora não fosse exatamente seu objetivo, também contribuíram para enterrar o então já moribundo regime ditatorial.

O tempo passou e todos sabem o que aconteceu. Faz mais de dez anos que o sindicalista que eletrizava as massas foi elevado a importantes funções políticas. Para garantir apoio, distribuiu benesses àqueles cuja conivência lhe parecia essencial.

Grandes empresários e miseráveis deserdados (pobres, mas numerosos!) foram alvo preferencial. Aos grandes, generosidade e facilidades financeiras. À gente miúda, migalhas suficientes para garantir fidelidade na hora de depositarem voto na urna. Políticos e sindicatos foram cooptados com cargos e também com favores em espécie.

Milagres, ninguém faz. Para encher um pote, tem de esvaziar outro. Muito dinheiro foi necessário para sustentar esse modo estranho de fazer política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca. E quem saiu perdendo foram os que não faziam parte das categorias acariciadas pelo governo: as classes médias e os trabalhadores, submetidos a impostos escorchantes.

Malabarismos de marketing e militantismo remunerado anestesiaram muita gente durante anos. Mas, como tudo o que é artificial, essas jogadas tinham prazo de validade. O prazo venceu e a mágica acabou. Deu no que deu: um pequeno e corriqueiro aumento no preço das passagens de ônibus foi o estopim para manifestações espontâneas às quais o País estava desabituado. E que ninguém esperava.

O susto tomou conta de muitas confrarias. Governo federal, Congresso, políticos vários e, naturalmente, centrais sindicais se sentiram incomodados.

Mas falemos dos sindicatos, que esse é o assunto do dia. Seus dirigentes, que vinham de anos e anos de inércia, sustentados no bem-bom por obesos favores oficiais, deram-se de repente conta de que haviam-se tornado inúteis.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Pânico! Descobriram, de repente, que o bom jardineiro deve cuidar de suas plantas se quiser ter flores vistosas. Não tinham sido bons jardineiros. As flores haviam murchado. Abandonada à própria sorte, a tropa havia desertado para cantar em outra freguesia.

Para juntar meia dúzia de gatos pingados, os sindicatos se viram obrigados a recorrer a «manifestantes» remunerados. Um constrangimento. Pior: repórteres descobriram a tramoia. A Folha de São Paulo e o Estadão botaram a boca no trombone. Vexame total. O movimento sindical no Brasil perdeu sua razão de existir. Não conseguem sequer reunir seus integrantes para uma boa passeata. Os antigos aderentes, que bobos não são, já se deram conta de que há caminhos mais eficientes para reclamar.

Conformemo-nos, que a vida é assim mesmo. Não estamos todos no mesmo estágio de desenvolvimento intelectual. Se, por um lado, todos os humanos já se acostumaram a andar sobre duas patas, o desenvolvimento da inteligência não tem sido uniforme em todos os indivíduos.

Alguns ainda acreditam em Papai Noel. Mas estão caindo do cavalo ― ou do trenó, que fica mais natalino.

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«Povo não precisa de carro de som.»

Mayara Vivian, do Movimento Passe Livre

Patacoada

José Horta Manzano

O Correio Braziliense nos informa que Antonio Patriota, o ministro das Relações Exteriores, não exclui interrogar Edward Snowden fora do Brasil. É surpreendente que nosso chanceler, diplomata de carreira, demonstre ingenuidade tão grande.

Como não é imaginável que nosso ministro, na posição em que está, fale da boca pra fora, sem avaliar o peso de cada uma de suas palavras, algo tem de estar por trás dessa estranha intenção de «ouvir, fora do Brasil, o consultor Snowden».

Espionagem Crédito: Storms

Espionagem
Crédito: Storms

Imagino alguns cenários:

1) O ministro realmente acredita que o delator fugitivo detenha um caminhão de informações detalhadas sobre o grau de intercepção exercido pela espionagem americana sobre cada país em particular. Parece-me difícil que um tal volume de dados tenha sido deixado à disposição do jovem. Acho que o chanceler está dando demasiada importância a um pequeno ex-funcionário de uma firma terceirizada.

2) O ministro gostaria de mostrar ao «império» que nosso País tem, sim, condições de investigar em profundidade sobre a natureza de intromissões que possam ter sido perpetradas em nossos segredos de estado. Em suma: conosco, ninguém podosco. Se a «jus esperneandi» é direito que assiste a cada um de nós, porque negar ao ministro que recorra a ela?

3) O ministro está sendo teleguiado. É a hipótese mais inquietante e, infelizmente, a mais provável. Tudo não passa de jogada de marketing para demonstrar que o governo não se acovardou diante de um ataque a nossa soberania. Visa a acalmar bolsões ultranacionalistas que sempre resistem aqui ou ali. “Da ôtra veiz, cê vai vê aqui cum nóis!”

Continuo achando que essa história está recebendo mais atenção do que merece. Com ou sem Snowden, os serviços secretos de todos os países sempre espionaram e hão de continuar espionando. É exatamente para isso que existem.

Memória histórica

José Horta Manzano

Reportagem da Folha de São Paulo nos revela que, após a demolição de um casarão dois dias atrás, restam quatro palacetes na avenida Paulista, em São Paulo.

Desses quatro, dois estão tombados pelo órgão que cuida do patrimônio histórico, o que faz que, em princípio, nenhuma alteração do exterior desses imóveis seja permitida.

Estranhamente, dos dois outros sobreviventes, um só está parcialmente resguardado e o último, livre e desimpedido, continua sob risco de desaparecer a qualquer momento para dar lugar a um estacionamento ou a um prédio.

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo Avenida Paulista, São Paulo

Casa das Rosas, projeto Ramos de Azevedo
Avenida Paulista, São Paulo

Pelo que o artigo explica, o órgão protetor do patrimônio histórico segue uma estranha lógica para chegar a suas decisões. Não considera a região, o bairro, nem mesmo a avenida como um todo. Singelamente, baseia-se na idade de cada imóvel: os que datam do começo do século XX terão de ser preservados, ao passo que os que datam dos anos 60 podem ser destruídos.

Raciocínio peculiar. Não lhes passa pela cabeça que, daqui a mais 50 anos, as construções dos anos 60 também serão centenárias? Não se dão conta de que podem vir a ser cobrados por seus bisnetos pelas tolices de agora?

Em terras mais civilizadas, quando se deseja alterar o aspecto exterior de um imóvel, nem que seja minimamente, uma autorização da prefeitura se faz necessária. Ainda que seja unicamente para mudar a cor da pintura da fachada ou para substituir uma veneziana de madeira por uma de alumínio.

Nesses casos, considera-se que o interesse coletivo prima sobre conveniências particulares. Da porta para dentro, o proprietário é livre de dispor de seu bem como lhe apraz ― ressalvadas as obras que possam afetar a estrutura do imóvel, casos em que uma autorização é necessária. Já da porta para fora, considera-se que a casa não está sozinha no mundo. Faz parte de um conjunto arquitetônico sujeto a regras comuns de urbanização.

Protestos

José Horta Manzano

Leio nos jornais que centrais sindicais marcaram protestos, passeatas, paralisações para esta quinta-feira. Tudo no mais puro estilo anos 70. É um direito deles, não há dúvida.

Alguns detalhes, contudo, me intrigam:

1) Por que razão marcar essas manifestações bem no meio do mês de julho? Será para ter certeza de que boa parte da classe média estará ausente, por motivo de viagem de férias? Será porque receiam que sua manifestação ― organizada, orquestrada e bem ensaiada ― pudesse ser submergida pela grita espontânea de milhões de cidadãos não engajados politicamente?

Passeata de protesto

Passeata de protesto

2) Por que razão despertam subitamente de uma longa letargia de doze anos passados praticamente sem protestar? O que é que mudou na visão das centrais sindicais de um mês para cá? Estarão se dando conta de que a sociedade, quando quer, não precisa de sindicatos?

Tenho cá pra mim que a reivindicação maior das centrais sindicais não é exatamente o bem geral da população. Estão batalhando para manter-se à tona, para fazer crer que servem para alguma coisa e para conservar uma boquinha beleza. Numa boa.

Estarei enganado?