Tomataço

José Horta Manzano

Uma coisa que me revolta é desperdício de comida. Quando de recente visita que doutor Gilmar Mendes, ministro do STF, fez a São Paulo, um grupo de manifestantes se valeu da ocasião para demonstrar desagrado com determinadas decisões do magistrado. Para isso, não encontraram melhor maneira que lançar tomates em frente ao edifício onde se encontrava o referido doutor.

Num país onde parte significativa da população ainda depende de uns caraminguás da bolsa família para sobreviver, a iniciativa é mais que escandalosa: é indecente. Jogar comida fora quando tem gente passando necessidade? É surreal.

Na China e em outras regiões do mundo que trazem na memória coletiva o terrível espectro de séculos de fome e privações, jamais viria à mente de um cidadão desperdiçar alimento. Seria ato impensável, de uma estupidez inimaginável. Por que razão isso não deixa ninguém indignado no Brasil?

Chamada Estadão, 9 out° 2017

Mesmo se fôssemos ricos ‒ o que está muito longe de acontecer ‒ já seria irrespeitoso. Quando se sabe que, a algumas centenas de metros do local do «tomataço», famílias vegetam debaixo de viadutos, abrigadas por pranchas de papelão e cobertores ralos, é incompreensível.

Ainda que o magistrado fosse o único culpado pela miséria nacional ‒ o que não é verdade ‒ o desbaratamento de gêneros alimentícios não se justificaria.

É questão de coerência e de bom senso. Que se manifestem com bandeiras, cartazes, passeatas. Que gritem palavras de ordem, que berrem ao megafone. Que se unam em «tuitaço» de repúdio. Que organizem petição de reclamação. Há mil maneiras civilizadas de protestar. Desperdiçar comida num país como o nosso? É pecado mortal. Não tem alcance e só serve pra dar trabalho extra a mal pagos garis.

Nota
Não sou advogado do magistrado. Aliás, estou frequentemente em desacordo com posições dele. Nem por isso acho correto atirar-lhe tomates, ovos ou qualquer outro tipo de comida.

O distinto leitor há de se lembrar do dia em que, diante das câmeras do mundo inteiro, um manifestante atirou um maço de cédulas falsas sobre o então presidente da Fifa. Achei fantástico. Aquela chuva de «dinheiro» doeu mais que uma tomatada. E fez efeito: pouco tempo depois, o dirigente pediu as contas.

Greve

José Horta Manzano

Alvíssaras! As notícias são excelentes! O Brasil está voltando a ser um país normal. Como assim? Num dia como o de hoje? Com tudo parado?

Exatamente. Melhor ver o país temporariamente parado por uma greve do que paralisado durante anos por incompetência do governo. Pelo espaço de quase quinze anos, sindicatos estiveram anestesiados, cooptados, mamando nas tetas gordas do erário, inativos, servindo aos interesses escusos de políticos e desservindo aos reclamos dos trabalhadores. Isso está acabando.

O momento é complicado. Uns perderam hoje o dia de trabalho, outros se assustaram, houve os que não puderam honrar um compromisso ou ainda os que deixaram de fazer coisa importante. Mas isso passa. Mais uns dias, e será página virada. Estamos voltando à normalidade democrática ‒ é o que importa.

O próprio de sindicatos e de associações de classe é fazer ouvir a voz dos representados. Naturalmente, excessos e ações violentas têm de ser coibidos. Polícia existe exatamente para isso. De resto, que se devolva o legítimo direito de expressão aos que trabalham.

Os reclamos, cá entre nós, serão infrutíferos. Gostemos ou não, nossas leis trabalhistas envelheceram e terão de ser atualizadas. Os costumes e o modo de vida evoluíram, o que nos impede de continuar a viver sob legislação antiquada. No entanto, mesmo sem grande chance de sucesso, trabalhadores devem continuar a gozar do direito de se manifestar. Democracia é assim. Melhor ver sindicatos se agitando do que vê-los curvados e obsequiosos em reverência ao poder do dinheiro que brota do andar de cima.

Como diz o outro, no final, tudo dá certo. Se não deu certo, é porque ainda não acabou.

Golpe de Estado bolivariano

José Horta Manzano

Mui acertadamente, o Itamaraty, quando da gestão de senhor Serra no Ministério das Relações Exteriores, mostrou os músculos, deu um murro na mesa e, na prática, suspendeu a Venezuela do Mercosul. Impediu assim que Caracas assumisse a presidência rotativa do grupo econômico. Bem haja, senhor chanceler!

Nosso vizinho petulante, habituado a contar com a boa vontade da companheirada, imaginou que tudo não passasse de jogo de cena. Em ofensa explícita ao Itamaraty, chamou a atitude brasileira de golpe e tentou forçar a entrada. Não deu certo. Encontrou portas e janelas fechadas.

Dois dias atrás, o tiranete venezuelano mandou fechar o Congresso de seu país. Ao eliminar um dos três poderes da república bolivariana, deu um golpe de Estado. Contando com a fidelidade canina de um Judiciário cooptado, señor Maduro tornou-se ditador de facto do país.

A Venezuela não é um país relevante na política nem na economia do planeta. O que se passa por lá não comove a humanidade, e as notícias não vão além de nota de rodapé. Vai daí, a atitude truculenta do brutamontes de Caracas não mereceu atenção planetária. Se o golpe tivesse acontecido no Zimbábue, o efeito não teria sido muito diferente.

Quanto ao Brasil, é outra coisa. Afinal, somos vizinhos de parede e sócios do mesmo clube. O Peru, que não é fronteiriço da Venezuela nem membro do Mercosul, chamou de volta seu embaixador em Caracas ‒ sinal de profundo desagrado, pelos sutis códigos diplomáticos. Já Brasília se contentou de um protesto mole, brando, protocolar, como mãezona que ralhasse com o filho: «Não faça mais isso, filhinho, senão a mamãe fica triste.»

A reação brasileira não está à altura da situação. Nosso protesto tem de ser enérgico, claro e ameaçador. Nosso embaixador tem de ser retirado imediatamente. Faz anos que o sofrido povo venezuelano vem vivendo um calvário inimaginável. Nem que seja por razões humanitárias, temos de dar uma mão ao vizinho. O melhor favor que podemos fazer a eles é forçar a queda do ditador. A solução do problema venezuelano passa obrigatoriamente por aí. Caído o mandatário e restabelecida a ordem constitucional, fica aberto o caminho para o país voltar aos trilhos.

Em outros tempos, podia-se esperar por uma intervenção dos EUA. Todavia, Mister Trump já deixou claro que esse tempo passou. O homem provavelmente nem sabe onde fica a Vene.. Vene… o que mesmo? O Brasil tem de assumir seu papel de membro mais importante do Mercosul. Vamos, senhores Michel Temer e Aloysio Nunes, coragem! Ou vamos nos conformar com uma ditadura colada à nossa fronteira amazônica?

Queremos ou não queremos?

José Horta Manzano

No Brasil, nos tempos da ditadura, era proibido protestar contra o regime. Desfile na Avenida Paulista? Impossível. Protesto na orla de Copacabana? Pior ainda. Passeata em qualquer capital do país? Nem pensar. Vez por outra, alguém até chegou a tentar. Deu um forrobodó dos diabos, com tumulto, presos e feridos. Não tinha jeito. Quem não estivesse de acordo com as condições nacionais tinha duas soluções: deixar o país ou… calar-se.

Hoje, depois de mais de três décadas de democracia e liberdade de expressão, a gente se acomodou. Brasileiros com menos de 40 ou 50 anos de idade não conheceram a repressão. Têm todos a impressão de que a atual paleta de liberdades é natural, permanente, inamovível, um direito adquirido. Reclamam contra as mazelas nacionais ‒ a corrupção generalizada em especial ‒ mas, na hora de demonstrar, negam fogo. Em vez de sair às ruas com faixa e bandeira, paramentados de camisa amarela e bonezinho, preferem refestelar-se diante do domingão da televisão.

Os russos são um povo que nunca conheceu um regime democrático. Passaram direto do absolutismo tzarista para a ditadura comunista e, de lá, para a opressivo arremedo de democracia atual. Em matéria de corrupção, o páreo é duro entre os grandes «emergentes». É difícil apontar o campeão. China, Rússia, Brasil? Fato é que a Rússia é membro importante do clube. A corrupção está presente em todos os escaninhos do Estado.

Como sabemos, Vladimir Putin encontrou um meio de se eternizar no poder. Esperto, soube manejar os instrumentos de cooptação à sua disposição. Há eleições periódicas, mas ele ganha sempre. Por bem ou por mal, em jogo limpo ou fraudado, o vencedor é sempre o mesmo. Acostumado há séculos a aguentar calado, o povo aceita esse estado de coisas.

Ontem, um sobressalto. Milhares de cidadãos decidiram manifestar descontentamento. Marcaram protesto nas ruas. O número de participantes foi estimado em sete mil pelas autoridades oficiais, o que indica que terá sido dez vezes superior. A reação do governo foi uma tremenda repressão, com direito a brucutu e pancadaria. A polícia desceu o pau, prendeu centenas de manifestantes ‒ entre eles, um candidato às próximas eleições presidenciais. O passar dos séculos não mudou o país. Só são admitidas duas categorias de cidadãos: os do sim e os do sim senhor.

O brasileiro não se tem mostrado à altura de ser governado por gente fina. Vota mal. Elege bandido. Não manifesta desagrado. Vota em palhaço e acha uma graça. Elege e reelege corrupto. Come mal, transporta-se mal, veste-se mal e acha que a vida é assim mesmo. Na hora de demonstrar desagrado, prefere ficar no sofá e deixar que outros carreguem o piano.

Pois quando a música tocar, é ele mesmo quem vai dançar.

O piso da corrupção

José Horta Manzano

Desde a histórica e surpreendente manifestação popular de dezembro de 1989, que precipitou a queda e levou ao processo e à execução expeditiva do bondoso casal de ditadores Ceaușescu, não se via nada parecido na Romênia.

Meio milhão de manifestantes vêm-se reunindo insistentemente, noite após noite, numa Bucareste que mal passa de 2 milhões de habitantes. Uma quarta parte da população da capital está nas ruas! Proporcionalmente, é como se cinco milhões de paulistanos se juntassem para protestar. Todas as noites. E olhe que, naquela região, faz um frio dos diabos em fevereiro, com médias noturnas de cinco graus abaixo de zero.

Bucareste, 6 fev° 2017

Bucareste, 6 fev° 2017

A Romênia, um dos países mais pobres da União Europeia, nunca conheceu a democracia. Região eminentemente rural e periférica, passou diretamente do feudalismo ao jugo austro-húngaro e, pouco depois, ao autoritarismo comunista. Os mandachuvas sempre pertenceram a uma casta à parte, flutuando acima da carne seca.

Ao longo do tempo, a oligarquia permaneceu. Que se chame aristocracia, nomenklatura ou simplesmente «andar de cima», tanto faz. O país sempre foi governado por pequeno grupo que cuidou, em primeiríssimo lugar, dos próprios interesses. Se isso soar familiar ao distinto leitor, talvez não seja mera coincidência.

Fato é que os meios de informação se aperfeiçoam vertiginosamente. Coisas que, antigamente, costumavam permanecer ocultas hoje chegam rápido ao conhecimento de todos. Como no Brasil, a vida de corruptos romenos está ficando cada dia mais difícil. Não se pode mais nem roubar em paz, um despropósito!

Manif 13Como num habeas corpus preventivo e coletivo, o governo romeno decidiu, por decreto, que só pode ser considerado corrupto aquele que tiver roubado acima de certo piso. Abaixo disso, a prática será tolerada. Só que o piso não é de dez merréis, mas de 44 mil euros (cerca de 150 mil reais). Leve-se em conta que o salário médio no país é de cinco mil euros por ano.

Ok, comparada à corrupção brasileira, a roubalheira deles é dinheiro de pinga. Assim mesmo, é uma ousadia considerar que roubo de dinheiro público só se torna crime ao ultrapassar determinada quantia. O montante, estabelecido sob medida para livrar a barra da maioria dos homens de poder, é um monumento à hipocrisia.

Apesar das monstruosas manifestações, o governo tem hesitado em abolir o decreto. Com um passo atrás hoje e um à frente no dia seguinte, os medalhões têm feito o que podem para se garantir. Só que o romeno tem uma característica que falta ao brasileiro: a persistência. Os manifestantes não dão mostras de recuar. É quase certo que a bizarra medida que estabelece piso para corrupção vai escorrer pelo ralo. Frise-se que, com decreto de tolerância ou sem ele, a roubalheira periga continuar. Vasto mundo.

Falam de nós – 20

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Eles também contaram
O quotidiano austríaco Der Standard informou que o presidente do Brasil perdeu o quinto ministro em seis meses de governo. Inclui na conta a demissão de senhor Calero, aquele que, noviço no universo político, surpreendeu-se ao descobrir a realidade nua, crua e… um tanto malcheirosa.

O jornal dá um breve resumo do que aconteceu em Brasília nos últimos seis meses. Não deixa de mencionar os protestos ‒ incompreensíveis para muitos ‒ protagonizados por astros da música e das artes nacionais. Chega a relembrar o vexame dos cartazes brandidos por aclamadas estrelas no tapete vermelho do Festival de Cannes, numa demonstração nunca dantes vista naquela escadaria.

O jornal não diz, mas as manifestações de nomes conhecidos das artes populares brasileiras em favor da permanência da doutora deixaram uma impressão de troca de favores. Enquanto sondagens mostravam que 80% ou 90% da população queriam ver a presidente pelas costas, certos personagens opuseram-se ostensivamente ao povo, justamente àqueles que, em última instância, lhes tinham dado fama e dinheiro.

Ficou esquisito e pegou mal pra caramba. Ninguém é perfeito, é verdade, mas também não precisavam deixar uma mancha assim tão gritante na biografia.

Primeira congregação judaica das Américas Recife (PE), fundada em 1636

Primeira congregação judaica das Américas
Recife (PE), fundada em 1636

Imigração em aumento
Todo judeu tem direito à nacionalidade israelense. A lei do país tem a peculiaridade de dividir estrangeiros em duas categorias: os judeus e os demais. O direito ao passaporte nacional se estende a todos os imigrantes judeus, venham eles de onde vierem.

Os países das Américas, quando passaram a ser independentes, atravessaram situação semelhante. Todos os habitantes de então tornaram-se automaticamente cidadãos do novo país. Israel foi mais longe. Estende a facilidade, em caráter permanente, a todo judeu que venha a se estabelecer no país. Esse tipo peculiar de imigração leva o nome de «aliya».

O jornal Jerusalem Post informa que a imigração de brasileiros tem aumentado exponencialmente nos últimos anos. Três anos atrás, apenas 200 cidadãos brasileiros optaram por transferir-se a Israel. Este ano deverá fechar com 700 novos imigrantes provenientes de nosso país.

O artigo frisa que, diferentemente de outros recém-chegados, os brasileiros não decidem se estabelecer lá por razões políticas nem de perseguição religiosa. A razão principal é econômica. O descalabro que vem castigando o Brasil está na raiz da decisão. Não é fácil deixar o país de origem, enfrentar clima novo, costumes diferentes, inserir-se num mercado de trabalho diverso. O aprendizado da língua é barreira considerável.

Os brasileiros que se decidem a dar o grande passo ‒ está aí a grande ironia ‒ são descendentes daqueles que um dia encontraram no Brasil um porto seguro e promissor. A vida dá voltas, que fazer?

Protesto bolivariano

José Horta Manzano

Quando Brasil, Argentina e Paraguai decidiram não aceitar que a presidência temporária do Mercosul fosse entregue à Venezuela de Nicolás Maduro, o governo uruguaio titubeou. Montevidéu, que detinha naquele momento a presidência do bloco, sentiu-se incomodado com a batata quente que lhe queimava as mãos. Sua primeira reação foi livrar-se dela.

Depois de alguns dias e de muita conversa de bastidores, convenceu-se de que não valia a pena arrumar encrenca com os sócios. Ficou, então, acertado que a Venezuela, atualmente sem condições de assumir a direção do clube, será mantida afastada da presidência.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Voto vencido, o Uruguai aderiu à solução alinhavada de última hora: a direção do bloco será assegurada de forma colegial pelos quatro membros fundadores.

temer-4Foi decisão equilibrada. A vida segue, à espera de que o maltratado povo venezuelano consiga reencontrar o rumo da civilização. O governo uruguaio rendeu-se à evidência: não adianta dar murro em ponta de faca. Em casos assim, o maior prejudicado é sempre o esmurrador.

É consternador constatar que os países ditos «bolivarianos» continuem insistindo em ignorar o bom senso. Depois de passar anos acumpliciados com o desastrado governo brasileiro dos últimos treze anos, não conseguem entender que a destituição de nossa antiga presidente é definitiva, que não há volta possível e que os antigos conchavos entre “compañeros” são página virada.

Como adolescentes birrentos, meia dúzia deles decidiram boicotar ostensivamente o discurso pronunciado por doutor Temer na abertura da Assembleia da ONU deste ano. Dois deles, mais discretos ‒ ou, quem sabe, mais atemorizados ‒ preferiram esconder-se no banheiro antes de nosso presidente subir ao púlpito. Outros quatro optaram pelo desaforo frontal: retiraram-se do recinto assim que o doutor começou a falar.

Que pretendem? Serão adeptos do «Volta, Dilma»? Que ganham com isso? Imaginam que a desfeita lhes trará algum benefício? Ficam no ar as perguntas.

Evo Morales, by Pablo Lobato, desenhista argentino

Evo Morales,
by Pablo Lobato, desenhista argentino

Seja qual for a desvairada intenção de Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia & companhia, o certo é que deram ponto sem nó. Amanhã, o mundo terá esquecido a atitude birrenta. Mas o ofendido, o Brasil, não há de perdoar tão cedo o desaforo.

Os ofensores ‒ a infeliz Venezuela em primeiro lugar ‒ perigam precisar do amparo brasileiro. Com a atitude petulante, acabam de cuspir no prato em que talvez tenham de comer amanhã. Não faz sentido cultivar desavenças.

Mais uma vez, está dada a prova de que a estupidez humana não tem limites.

Todos na rua

José Horta Manzano

Há quem tenha espírito jogador. É gente que acredita firme que vai tirar a sorte grande. Os meios de chegar à fortuna variam conforme o gosto de cada um: jogo do bicho, corrida de cavalos, carteado, loteria, roleta. A característica comum a todo jogador é a certeza obstinada de que vai ganhar um dia destes. Se não for hoje, será amanhã. Garantido.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

Respeito esse traço de personalidade, mas não comungo com ele. Não me parece aconselhável entregar as rédeas do destino, sem mais nem menos, a mãos alheias. Convém segurá-las com firmeza enquanto for possível.

Para este 13 de março, estão marcadas manifestações de protesto em todo o país. As reivindicações, embora cubram amplo espectro, concordam em um ponto: basta de corrupção e de incompetência. A expectativa de ver multidões pelas ruas vem sendo acirrada por redes sociais e pela mídia. Como prova, o principal editorial do Estadão de hoje leva o título Chegou a hora de dizer: basta! ‒ exatamente assim, com ponto de exclamação. Lembra chamamento revolucionário.

Acho uma temeridade pôr tanta ênfase num acontecimento sujeito a tantos tropeços e a tantos imprevistos. Pode chover. Pode fazer friozinho. Pode não vir tanta gente quanto se espera. O medo de confronto com baderneiros pode fazer que muitos hesitem. Podem certos «institutos» desonestos contabilizar o número de participantes com erro a menor. Em resumo: o resultado das passeatas está à mercê de fatos aleatórios.

Bandeira olho 2Fazer demonstração em praça pública ‒ pacifica e civilizadamente ‒ para exprimir anseios é atitude positiva. Exibe a maturidade do povo e dá prova das liberdades que a democracia lhe concede. Já o fato de atribuir tamanha importância a uma determinada passeata é arriscado. Pode falhar, e aí, como é que fica?

De qualquer modo, alea jacta est ‒ a sorte está lançada. Vou parando por aqui, que é pra não carregar na consciência o peso de ter atrasado algum distinto leitor já paramentado de verde-amarelo. Tomara que não chova.

Interligne 18h

Coincidência
Manif 2Observe-se que o Comício da Central do Brasil, protagonizado pelo presidente Jango Goulart, soou o dobre fúnebre do regime. O presidente cairia 18 dias mais tarde. O comício teve lugar num 13 de março, faz hoje exatamente 52 anos.

De má-fé?

José Horta Manzano

Aspas 2Aspas são sinal gráfico utilizado em praticamente todas as línguas. Forma e hábitos de uso podem variar de um idioma a outro. Vários desenhos são empregados. Nestes tempos de globalização, tanto faz, todos os modelos dão o mesmo recado.

Em nossa língua, as aspas são utilizadas em dois casos principais: em citações e em ironias. Embora alguns gramáticos torçam o nariz, há quem use aspas rodeando palavras estrangeiras.

Tem gente fina que hesita no uso das aspas. A indecisão as faz aparecer mais frequentemente do que deviam. Raramente faltam – em geral, sobram.

Aspas 1Exemplo de aspas usadas em citação:
«Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» – é máxima atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794), embora já tivesse sido enunciada pelo filósofo grego Anaxágoras, 500 anos antes de nossa era.

Exemplo de aspas usadas para denotar ironia:
Na floresta equatorial, quando a temperatura desce abaixo de 20°, os habitantes se queixam do «frio polar».

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

«Descendente da ‘família real’ brasileira é um dos líderes de grupo anti-Dilma» – é o título que a Folha de São Paulo deu a artigo publicado na edição online de 15 ago 2015.

Por que, raios, a «família real» aparece cercada de dois pares de urubus? Pode ser que o autor do título sofra de falta de familiaridade com regras gramaticais. Nunca se sabe, tudo é possível nestes tempos estranhos – há até escriba brigado com as letras, um despropósito.

Manif 10Tenho tendência, no entanto, a privilegiar outra hipótese: o responsável pela manchete terá agido de caso pensado, guiado por razões vaga e burramente ideológicas. O autor da frase deixa transpirar irritação com os protestos contra o partido do governo marcados para este domingo. Valendo-se de expediente típico dos que nos governam, misturou alhos com bugalhos. Na tentativa de depreciar os manifestantes, houve por bem cercar de aspas a família real brasileira, como se a expressão não passasse de fantasia da zelite.

Vamos passar por cima do erro factual: Luiz Philippe de Orléans e Bragança é membro da família imperial, não real. O regime republicano, imposto pelo golpe militar de 1889, não desterrou um rei, mas um imperador.

Sobra a bizarrice de ver descendentes do imperador tratados com ironia por gente que deve imaginar que o Brasil começou em 2003. «Família real», entre aspas, pode-se aplicar à dinastia dos Kirchner argentinos, dos Kim norte-coreanos, dos Castros cubanos, dos Al-Assad sírios. Os descendentes de Dom Pedro dispensam os urubus.

Chamada d'O Globo, 16 ago 2015

Chamada d’O Globo, 16 ago 2015

Digno de ser mencionado:
Mostrando orientação menos enviesada, O Globo tratou do assunto com delicadeza. Chamou o príncipe de príncipe. Sem aspas.

Falam de nós – 6

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

O jornal Gazeta – Brazilian News, publicado no Estado americano da Florida e dirigido à colônia brasileira estabelecida por lá, informa que a contestação ao governo federal brasileiro se alastra e chega até aquela região.

Apesar de não viverem no Brasil, muitos expatriados estão desagradados com o modo pelo qual o País vem sendo governado. Para fazer eco à reação nacional, um protesto está sendo convocado para o dia 15 em Miami.

Gazeta 1Os organizadores ressaltam que, nas últimas eleições, 91% dos brasileiros inscritos no consulado votaram em Aécio, deixando dona Dilma com nada mais que 9%.

Brasileiros do exterior não são nem melhores nem piores que os outros. A brutal diferença de apreciação política se prende a dois fatores:

Interligne vertical 141) Escapam à martelação da propaganda oficial a que são submetidos os que vivem no Brasil.

2) Têm ocasião de assistir ao vivo o desenrolar da vida de todos os dias numa região onde corrupção e sujeira política são menos encorpadas que no Brasil.

Tudo muda

José Horta Manzano

Houve tempo em que a vida era mais simples. A gente não precisava desconfiar de todos(as), não precisava trancar a porta de casa, não tinha medo de sair à noite. Roubalheiras praticadas por homens (mulheres) políticos(as) eram mais modestas – raramente chegavam às manchetes.

Lenin 1

Até falar era mais fácil. Todos(as) falavam como tinham aprendido. Não precisava policiar o vocabulário. Com exceção de palavrão, naturalmente. Chamar alguém de negro(a) era muito ofensivo. Convinha dizer preto(a). Nesse particular, a situação se inverteu.

Brasileiros(as), baianos(as), mineiros(as) e gaúchos(as) não se sentiam ofendidos se, como a língua ensina há um milênio, o masculino plural fosse utilizado para englobar todos(as) os(as) cidadãos(ãs).

Já não é mais assim. Hoje precisa tomar um cuidado danado pra não melindrar nenhum(a) vivente. Não se sabe a quem atribuir essa mudança de percepção. Dizem alguns que o iniciador foi o velho Sarney, no tempo em que chegou à presidência. Parece que sempre começava suas falas saudando «Brasileiros e brasileiras!».

Manif 12,jpgSeja como for, a prática está-se generalizando. Se faltasse uma prova, ela foi dada hoje no protesto organizado pelos(as) empregados(as) na indústria metalúrgica do ABC paulista. Os(as) metalúrgicos(as) aderiram ao que consideram politicamente correto.

Pelo rodar da carroça, a tradução do grito de guerra do Manifesto do Partido Comunista terá de ser repensada.

«Proletarier aller Länder, einigt euch!»

passa a ser

«Proletários(as) de todos os países, uni-vos!»

A força do slogan sairá perdendo, mas ninguém periga ser processado(a) por danos morais.

O coqueiro e a ladeira

José Horta Manzano

A distinta e fiel leitora Michèle fez um comentário muito pertinente no post Falam de nós – 1, publicado em 3 nov°. Achei que a resposta podia interessar outros leitores, eis por que ela está aqui a seguir.

Interligne vertical 16 3KbCompreendo seu desconcerto, Michèle, que é o de tanta gente. Também eu me sinto desarmado. Mas deixe estar, que tudo o que sobe acaba descendo um dia. E, como todos sabem, mais alto é o coqueiro, maior é o tombo.

Coqueiro 1Há duas maneiras de afastar esse cálice amargo de nossa boca e de arredar do andar de cima essa gente que nunca deveria ter lá entrado. Uma das soluções é mais demorada; a outra, bem mais rápida.

O caminho demorado é dar instrução ao povo. É radical, só que, pra chegar lá, precisa primeiro investir e, em seguida, esperar uns vinte anos. Nossa elite governante não tem tempo nem vontade de se dedicar a civilizar os mais carentes. Portanto, essa ruela é sem saída.

Sobra a solução rápida. E ela já está a caminho. Se estivéssemos no século XIX, diríamos que ela «vem a cavalo». Nos anos cinquenta, a expressão era «vem vindo a jacto». Sabe o que é, Michèle? Pois é a economia.

A dor mais doída que se pode impor a um povo é a dor de bolso. Você, que é muito jovem, não conheceu os tempos da hiperinflação. Era um terror. Os preços dobravam a cada mês. Ninguém mais tinha ideia do valor de objeto nenhum. Se lhe cobrassem 10, 15, 20 ou 25 por um produto qualquer, dava no mesmo. A gente sequer sabia qual seria o salário no fim do mês – os reajustes eram mensais. Não dava pra fazer conta, nem previsão. Loucura maior seria comprar a prestação. Era desespero total.

Se o Collor foi despachado de volta pras Alagoas, 20 anos atrás, foi em grande parte por causa do vendaval econômico que varria o País. Somente a estabilidade permitiu que um FHC e um Luiz Inácio governassem com relativa tranquilidade. Para os mais jovens, parece que é ponto pacífico, que sempre foi assim. Não foi, acredite. O Plano Real foi uma conquista histórica e trouxe um bem-estar com que nós, os mais antigos, nem sonhávamos. Esse foi, sim, o grande salto em direção ao Primeiro Mundo.

Crédito: Baixaki

Crédito: Baixaki

Hoje, pelo andar da carruagem, estamos descendo a ladeira, veja só. A inflação de volta, preços subindo, indústrias fechando. A China – nosso principal mercado(!) – andando em marcha reduzida. A Argentina às portas da falência e a Venezuela em perdição. No governo, a roubalheira corroendo o que resta. A dívida pública engordando. A marca Brasil perdendo prestígio e caindo em descrédito perante o resto do mundo. Todos os indicadores estão no vermelho e apontam para baixo.

Não vai demorar muito. O fruto vai cair de podre. Como? Não sei, que não tenho bola de cristal. Aliás, acho que ninguém sabe direito como vai ser. Mas a coisa não pode – e não vai – continuar assim mais muito tempo. A má gestão, quando ataca a economia, afeta a todos, ricos, pobres e remediados.

Abraço a você. E obrigado pela fidelidade.

Interligne 18c

Já ensinava o velho Lucius Annæus Seneca, filósofo e estadista romano, em suas Epístolas Morais a Lucílio:

«Multos fortuna liberat pœna, metu neminem»
«A sorte livra muitos do castigo, mas não do medo»

Lavoisier

José Horta Manzano

«Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme». Costuma-se atribuir a Antoine Laurent de Lavoisier, cientista parisiense do séc. XVIII, a adaptação francesa de máxima formulada, mais de um milênio antes dele, pelo filósofo grego Anaxágoras.

Seja como for, taí uma verdade incontestável: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Protestos já havia na Grécia conturbada de Anaxágoras e na França pra lá de tumultuada de Lavoisier. Há que lembrar que o infeliz químico francês terminou seus dias na guilhotina.

Dado que é impossível satisfazer a todos, descontentamento sempre houve e sempre haverá. O que muda, eventualmente, é a maneira de exprimir desagrado. Pode ir de uma praga rogada em silêncio até um golpe de Estado com exército e canhões.

O Brasil anda meio pasmo com a ressurgência de manifestações de protesto. É compreensível. Os que hoje travam batalha contra policiais não haviam nascido quando as últimas manifestações vigorosas tiveram lugar no Brasil, no fim da Era Collor.

Passeatas que degeneram estão longe de ser particularidade brasileira. Como prova, estão aí as atualíssimas manifestações populares venezuelanas, bem mais mortíferas que as tupiniquins.

Até a pacífica Suíça ― espante-se o senhor e a senhora ― tem escaramuças episódicas. As últimas aconteceram em novembro de 2009. Foi quando o bando autodenominado «Black Blocs» decidiu promover manifesto, em Genebra, contra a OMC.

Genebra, 28 nov° 2009 Quebra-quebra promovido por blocos pretos

Genebra, 28 nov° 2009
Quebra-quebra promovido por “blocos pretos”   –   Clique sobre a imagem para assistir

Acho curioso que quadrilhas protestem contra a Organização Mundial do Comércio, um fórum onde o mundo se reúne justamente para dialogar. Que se combatam decisões autoritárias, posso entender. Hostilizar concertações civilizadas parece-me despropositado. Mas assim acontece, infelizmente.

No sábado 28 nov° 2009, Genebra assistiu a cenas de deixar qualquer integrante do bloco preto brasileiro babando de inveja. Que clique aqui quem quiser ter uma ideia do que aconteceu aquele dia.

E sabem qual foi a consequência? Nenhuma, absolutamente nenhuma! A OMC continua lá fazendo o que sempre fez. Se eu fosse integrante de algum bloco preto, me sentiria desapontado. A não ser…

… a não ser que estejam fazendo arruaça pelo simples prazer de fazer arruaça. Sei não, algo me diz que a hipótese da bagunça pela bagunça não está longe da verdade.

O papa e o protesto

José Horta Manzano

Os franceses têm resposta pra tudo. A cada aumento de imposto ― fato que acontece com bastante frequência na terra deles ― sempre aparece alguém no rádio ou na televisão para repetir que trop d’impôt tue l’impôt, imposto demais mata o imposto.

Com isso querem dizer que todo exagero é pernicioso. Impostos elevados demais são um convite à evasão e até à fraude. Têm razão. Nunca convém abusar, sob pena de ver o resultado irremediavelmente comprometido.

Faz um mês, o Brasil fervia. Centenas de milhares de manifestantes pacíficos saíam espontaneamente às ruas. Sem bandeiras, sem comando unificado, sem orientação partidária, sem carros de som, sem uniformes e sem estímulo oficial. Alguns portavam cartazes artesanais onde exprimiam seu anseio, sua reclamação, seu fastio.

Se algum dos 200 milhões de brasileiros lhe disser que, duas semanas antes, já havia previsto os protestos, não acredite: estará mentindo. Nenhum de nós imaginou que esse tipo de fenômeno fosse de novo possível num Brasil sedado havia mais de 10 anos. Mas aconteceu e foi útil.

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Numa certa altura da vida, tive um chefe que eu admirava e respeitava. Era o dono da empresa. Vez por outra, no meio do dia, ele saía. Nunca dizia aonde ia, mas costumava lançar, já na soleira da porta, a frase ritual: «Pode ser que eu volte no fim da tarde». Às vezes, voltava mesmo. O mais das vezes, não. Mas, entre nós, ficava a dúvida. Voltará ou não? Será que posso ir-me embora um pouco mais cedo? Será que ouso ausentar-me uma meia horinha para tomar sorvete na esquina?

O fato é que a técnica do chefe funcionava. Ninguém arriscava fazer o que não devia. O homem ia, mas o chicotinho ficava dependurado na parede.

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As passeatas de junho foram uma advertência gritante. Todos os figurões entenderam, mas cada um reagiu a seu modo. O mais visado, o pai de todos, escondeu-se e, pusilânime, fez-se de morto e sumiu de circulação. Outros, que não tinham como escapar, tomaram decisões vistosas, mas atabalhoadas e desconexas. Houve ainda quem desafiasse a voz das ruas e continuasse, como antes, requisitando aviõezinhos da FAB como se estes fizessem parte de seu patrimônio privado. Levaram uma advertência em regra.

Agora, que estão todos avisados, precisa dar uma pausa para meditação. Os mandarins brasileiros não vão tomar juízo da noite para o dia, que os vícios são muito antigos e já criaram raízes. O importante é que todos agora sabem que o mundo mudou e que as coisas não são mais como antes. Todo gesto, toda conversa, todo movimento é susceptível de ser vigiado, descoberto e divulgado.

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Papa Francisco

Papa Francisco

Papa Francisco deve desembarcar no Rio nesta segunda-feira, logo mais à tarde, em sua primeira viagem fora da Itália. Algumas mentes pouco iluminadas estão convocando incautos para protestar contra isto e aquilo durante a visita papal. É besteira grossa.

Primeiro, porque uma manifestação desse tipo pode ser interpretada como hostilidade ao visitante. Não cai bem. Além de mostrar sua falta de educação, os manifestantes perigam emitir sinais incoerentes. Desfilar diante do indivíduo A para manifestar seu descontentamento com o indivíduo B? Não faz sentido.

Segundo, porque os microfones e as câmeras do mundo inteiro que estarão postadas estes dias em volta do visitante transmitirão ao mundo a imagem de um povo baderneiro, pouco sério e dificilmente governável. A longo prazo, uma imagem desse naipe só pode ser prejudicial. Vai assustar futuros turistas e afugentar investidores. Contribuirá para que o planeta enxergue o Brasil com antipatia.

Terceiro ― e talvez mais importante: o exagero é prejudicial. As duas semanas de manifestações juninas foram uma advertência séria. Governo, ministros, senadores, deputados, prefeitos, governadores entenderam que o chicotinho está dependurado na parede. Não precisa açoitar ninguém, pelo menos não por enquanto.

Tenhamos paciência. Vamos dar tempo ao tempo. Não nos precipitemos. Vamos deixar que nossos mandachuvas tomem as providências urgentes. Depois, veremos. Trop d’impôt tue l’impôt.

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Interligne vertical 4Observação indignada e envergonhada

O senhor Eduardo Paes, prefeito da mui nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro permitiu-se ofender um país inteiro. Chamou os franceses de vagabundos. E não fez isso numa conversa de botequim, mas durante uma entrevista coletiva, ao responder a um questionamento de uma equipe da televisão francesa.

Não conheço o prefeito do Rio. No entanto, ao ler essa notícia, entendi que não deve ser o homem mais inteligente da política brasileira. E olhe que os políticos brasileiros não primam pela inteligência nem pela cultura! A ofensa pública e gratuita que ele cometeu é acachapante. Mesmo sem ser carioca, sinto-me envergonhado.

Intermediários inúteis

José Horta Manzano

Os religiosos diriam «aqui se faz, aqui se paga».

Espíritos mais científicos lembrariam que toda ação engendra reação oposta e de igual intensidade.

Franceses explicariam que não se pode, ao mesmo tempo, ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.

Os antigos já sabiam que não se pode ter tudo na vida.Interligne 18b

Todos têm razão. Está aí, em versões variadas, um extrato da sabedoria que a humanidade vem destilando desde que Lucy desceu da árvore, 3 ou 4 milhões de anos atrás. Muita gente aprendeu a lição. Outros são mais recalcitrantes. As manifestações de ontem reforçam o que acabo de dizer.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Nesta sexta feira logo de manhã, aqui na Europa, os jornais falados do rádio informaram que as manifestações da quinta-feira no Brasil não tinham tido o sucesso esperado por seus organizadores. Não chegaram a dizer que tinha sido um fiasco, mas não fez falta: todos entenderam.

A leitura dos principais jornais brasileiros me confirmou o que o rádio já tinha adiantado. Muita ameaça e pouco efeito. Cão que ladra não morde.

Na época em que um antigo operário de apelido Lula fazia discursos inflamados na porta das fábricas, as passeatas organizadas por sindicatos tinham conteúdo, eram credíveis. Embora não fosse exatamente seu objetivo, também contribuíram para enterrar o então já moribundo regime ditatorial.

O tempo passou e todos sabem o que aconteceu. Faz mais de dez anos que o sindicalista que eletrizava as massas foi elevado a importantes funções políticas. Para garantir apoio, distribuiu benesses àqueles cuja conivência lhe parecia essencial.

Grandes empresários e miseráveis deserdados (pobres, mas numerosos!) foram alvo preferencial. Aos grandes, generosidade e facilidades financeiras. À gente miúda, migalhas suficientes para garantir fidelidade na hora de depositarem voto na urna. Políticos e sindicatos foram cooptados com cargos e também com favores em espécie.

Milagres, ninguém faz. Para encher um pote, tem de esvaziar outro. Muito dinheiro foi necessário para sustentar esse modo estranho de fazer política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca. E quem saiu perdendo foram os que não faziam parte das categorias acariciadas pelo governo: as classes médias e os trabalhadores, submetidos a impostos escorchantes.

Malabarismos de marketing e militantismo remunerado anestesiaram muita gente durante anos. Mas, como tudo o que é artificial, essas jogadas tinham prazo de validade. O prazo venceu e a mágica acabou. Deu no que deu: um pequeno e corriqueiro aumento no preço das passagens de ônibus foi o estopim para manifestações espontâneas às quais o País estava desabituado. E que ninguém esperava.

O susto tomou conta de muitas confrarias. Governo federal, Congresso, políticos vários e, naturalmente, centrais sindicais se sentiram incomodados.

Mas falemos dos sindicatos, que esse é o assunto do dia. Seus dirigentes, que vinham de anos e anos de inércia, sustentados no bem-bom por obesos favores oficiais, deram-se de repente conta de que haviam-se tornado inúteis.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Pânico! Descobriram, de repente, que o bom jardineiro deve cuidar de suas plantas se quiser ter flores vistosas. Não tinham sido bons jardineiros. As flores haviam murchado. Abandonada à própria sorte, a tropa havia desertado para cantar em outra freguesia.

Para juntar meia dúzia de gatos pingados, os sindicatos se viram obrigados a recorrer a «manifestantes» remunerados. Um constrangimento. Pior: repórteres descobriram a tramoia. A Folha de São Paulo e o Estadão botaram a boca no trombone. Vexame total. O movimento sindical no Brasil perdeu sua razão de existir. Não conseguem sequer reunir seus integrantes para uma boa passeata. Os antigos aderentes, que bobos não são, já se deram conta de que há caminhos mais eficientes para reclamar.

Conformemo-nos, que a vida é assim mesmo. Não estamos todos no mesmo estágio de desenvolvimento intelectual. Se, por um lado, todos os humanos já se acostumaram a andar sobre duas patas, o desenvolvimento da inteligência não tem sido uniforme em todos os indivíduos.

Alguns ainda acreditam em Papai Noel. Mas estão caindo do cavalo ― ou do trenó, que fica mais natalino.

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«Povo não precisa de carro de som.»

Mayara Vivian, do Movimento Passe Livre

Protestos

José Horta Manzano

Leio nos jornais que centrais sindicais marcaram protestos, passeatas, paralisações para esta quinta-feira. Tudo no mais puro estilo anos 70. É um direito deles, não há dúvida.

Alguns detalhes, contudo, me intrigam:

1) Por que razão marcar essas manifestações bem no meio do mês de julho? Será para ter certeza de que boa parte da classe média estará ausente, por motivo de viagem de férias? Será porque receiam que sua manifestação ― organizada, orquestrada e bem ensaiada ― pudesse ser submergida pela grita espontânea de milhões de cidadãos não engajados politicamente?

Passeata de protesto

Passeata de protesto

2) Por que razão despertam subitamente de uma longa letargia de doze anos passados praticamente sem protestar? O que é que mudou na visão das centrais sindicais de um mês para cá? Estarão se dando conta de que a sociedade, quando quer, não precisa de sindicatos?

Tenho cá pra mim que a reivindicação maior das centrais sindicais não é exatamente o bem geral da população. Estão batalhando para manter-se à tona, para fazer crer que servem para alguma coisa e para conservar uma boquinha beleza. Numa boa.

Estarei enganado?

Manifestação e razão

José Horta Manzano

Pelo que tenho lido estes últimos dias, os brasileiros começam a pôr em prática o conselho que os franceses dão ao mundo há séculos: quando não estiver satisfeito com alguma coisa, proteste! Faça ouvir sua voz!

Na França, por um sim, por um não, saem todos às ruas brandindo cartazes e escandindo palavras de ordem. O povo está ultratreinado para esse tipo de exercício. Mas há um contraponto: manifestações com número polpudo de participantes são porta aberta para vândalos e baderneiros.

Parece inacreditável, mas, em dia de passeata importante, há gente que sai de casa munido de todo o aparato do perfeito bagunceiro. Junta-se aos manifestantes sem saber exatamente contra o que estão reclamando. Pouco importa. Seu prazer é participar do (quase) inevitável quebra-quebra final e destruir o que lhe apareça pela frente. Uma apoteose, um verdadeiro orgasmo! Cada um tem seu esporte favorito.

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No Brasil, o motivo alegado para a balbúrdia atual é reclamar contra o aumento do preço das passagens de transportes coletivos urbanos.

É verdade que ninguém aprecia aumento de preço. O ponto mais sensível do ser humano é o bolso, disso sabemos todos. Se quiser enervar alguém, renuncie a pisar-lhe o calo ― prefira enfiar-lhe a mão no bolso: o efeito será visceral, e a reação, fulminante.

Baderneiros

Baderneiros

Por outro lado, não acredito em movimento popular «espontâneo». Há sempre um Duque de Caxias, um Napoleão, um Garibaldi organizando a agitação. Esses comandantes deveriam parar um instante para refletir. O que é que está errado?

O problema não está propriamente no fato de o preço do transporte público aumentar. Todos os preços, mais dia, menos dia, acabam aumentando. O nó da questão é o peso brutal que a subida do custo da condução exerce no bolso dos usuários. No fundo, o problema não está no aumento do preço, mas na incapacidade do usuário de fazer frente a ele.

Baderneiros Crédito: Jeff Moore

Baderneiros
Crédito: Jeff Moore

O preço das passagens está ― bem ou mal ― alinhado com o que se pratica no resto do mundo. Em grande parte dos países, quando o transporte encarece, não se veem manifestações. Por que, então, no Brasil, bandeiras se alevantam? A resposta é simples: porque o salário do cidadão médio anda tão apertado que não lhe deixa folga para suportar esse acréscimo. Repito: o aperto não está no aumento em si, mas na incapacidade dos viajantes de absorvê-lo.

Goteira

Goteira

As manifestações estão, portanto, desfocadas. Não é contra o aumento das tarifas que se tem de reclamar, mas em favor de uma revisão dos salários. Dá muito mais certo. Se não, cidadãos terão de manifestar diariamente pelo resto da vida: quando aumenta o pão, quando aumenta a luz, quando aumenta o gás, quando aumenta o leite. Até quando sobe o preço do xuxu.

Quando a casa tem dezenas de goteiras, não adianta tapar com esparadrapo nem trocar uma telha aqui, outra ali. Está na hora de reformar o telhado.