A queda de Parente e o Brasil

José Fucs (*)

A saída de Pedro Parente da Petrobrás é sinal do quanto o capitalismo é mal compreendido no Brasil, do populismo que impera na arena política e da enorme resistência da sociedade em repor o país nos eixos. Mais que tudo, no momento, a saída amplifica as dúvidas e as preocupações sobre nosso futuro, com as escolhas que faremos nas eleições de outubro.

Parente caiu não por seus eventuais erros, mas por seus acertos. Executivo tarimbado, ele reergueu a Petrobrás dos saques feitos pelo PT e por seus aliados. Procurou administrá-la como empresa privada, de olho nos resultados, sem ceder a pressões políticas e sem fazer demagogia com o preço dos combustíveis.

A blindagem que promoveu contra a pilhagem dos políticos e o uso da Petrobrás como ferramenta de política econômica provocou a ira das esquerdas e da direita pitbull, que realizaram verdadeiro massacre contra ele nos últimos dias nas redes sociais. Pior para o Brasil.

(*) José Fucs é jornalista.

Pontaria ruim

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gente, como é que pode?!? Quando é que tudo isso vai ter fim? Será que ninguém mais percebeu o que está acontecendo com a mira do nosso Judiciário?

Promotores estaduais e federais, policiais federais, procuradores regionais e gerais, juízes de primeira e segunda instâncias ‒ além do Supremo, é claro ‒ dão seguidas provas de sua incompetência, seu despreparo técnico, seu viés ideológico, seu descompromisso com a letra fria da lei, além de, arrogantemente, colocarem-se acima das paixões humanas. Por que digo isso? Ora, só os cegos não veem que, por maiores que sejam seus esforços de comprovar suas teses, até agora não atingiram um único alvo legítimo sequer, não encaçaparam nenhuma bola.

A estatística comprova. Do lado dos corruptores, em especial entre os empresários, apenas um minguado percentual, que não deve chegar nem a 10%, confessa-se culpado. Do lado dos pretensamente corrompidos, o que temos? Só inocentes! Repito, 100% de INOCENTES!

By Ray Clid, desenhista francês

Insones há anos, temos assistido ao desfile macabro de políticos acusados injustamente e perseguidos sem dó nem piedade simplesmente por estarem fazendo seu trabalho costumeiro de arrebanhar votos, conquistar adesão, articular apoios, tudo com o único intuito de favorecer suas comunidades de base. Não é para isso que se elegeram representantes do povo?

Dá pena ver o olhar compungido de presidentes e ex-presidentes, ministros e ex-ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados estaduais, deputados federais e vereadores diante das câmeras na tentativa de proclamar inocência. Ouvindo suas vozes esganiçadas pela indignação, como não acreditar que estão, sim, sendo vítimas das artimanhas de seus opositores, dolorosamente traídos por assessores de confiança, matreiramente envolvidos em armadilhas preparadas por bandidos confessos que nada mais almejam do que diminuir seu tempo de pena?

Nenhum – repito, NENHUM – assumiu até agora ter sequer um dia cogitado burlar a confiança que o povo neles depositou. São todos servidores dedicados, verdadeiros livros abertos, gente de passado transparente e meritório, almas puras e bem-intencionadas, verdadeiros guerreiros e mártires da causa pública, tementes a Deus, cônscios de seu papel histórico de promover a igualdade, a justiça e o desenvolvimento do país.

Como, senão por ingenuidade extrema e um certo grau de perversidade, acreditar que sabiam dos malfeitos de seus apaniguados, que se deram ao desplante de exigir vantagens pessoais, amealhar fortunas desviadas dos cofres públicos, usar seu poder de forma espúria para influenciar a tomada de decisões estratégicas para o país?

Onde, afinal, estão as provas de seus supostos delitos? Podem seus perseguidores gastar o tempo de vida que lhes resta procurando por elas que nada encontrarão! Pela simples razão de que não há prova alguma, material, palpável, incontestável. Só delações, delações e mais delações de gente comprometida até o pescoço com o hábito de comprar consciências.

By Sniper, desenhista francês

E, não posso deixar de indagar, quem está por trás de tanto delator interessado em apontar impunemente o dedo para terceiros? Muita gente, distraída com as novelas e ocupada em votar no participante que deve ganhar o BBB, ainda não ligou os pontinhos para visualizar a figura oculta desses procuradores, moleques impertinentes mal saídos das fraldas que, só por terem aprendido a brincar de Powerpoint, acham que podem dar lição de moral a gerações de políticos experimentados e profundos conhecedores da realidade cultural brasileira.

Não sou adepta de teorias conspiratórias, mas não dá mais para tapar o sol com peneira. É uma questão de lógica concluir que o dedo da CIA está metido fundo em todo esse imbróglio. Não dá para esquecer que esse juizeco da Lava a Jato foi treinado nos Estados Unidos e deve ter aprendido essas táticas de destruição de reputações para conquistar espaço. Foi ele que começou com esse negócio cansativo de exigir moralidade pública, essa mania de divulgar conversas particulares gravadas ilegalmente e ver sempre duplo sentido nelas, não foi?

Pois é, acreditem senhores, é corroendo a base de credibilidade de tantas figuras públicas, antes tão respeitadas entre nós, que eles vão conseguir diminuir a importância do Brasil no cenário internacional e nos alijar do mercado de exportação de bens de consumo. Será que ninguém se lembra do que eles fizeram com as carnes brasileiras e estão tentando fazer agora com o aço e o alumínio?

Acordem, brasileiros! O tempo é o senhor da razão e o tempo vai mostrar de que lado está a verdade. Óculos de grau já para nosso Judiciário!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Todos culpados

José Horta Manzano

O Instituto Ipsos, especializado em pesquisa de opinião, testou a percepção que os brasileiros têm de 20 personalidades. Foram escolhidos 19 personagens políticos ou da alta administração. Para completar os 20, selecionaram ‒ sabe-se lá por que razão ‒ um homem de televisão.

Pesquisa Ipsos – Infográfico Estadão
clique para ampliar

Excluindo justamente o homem de televisão, todos os personagens são mais rejeitados que aprovados. Não sobra nenhum. Os entrevistados torcem o nariz para todos eles, sem exceção. Começa com doutor Michel Temer, alvo da desaprovação mais eloquente, e vai até doutor João Doria, que recolhe a rejeição menos brutal. A desaprovação de doutor Aécio é fenomenal. Há que reconhecer que aquele que recolheu metade dos votos nas mais recentes eleições presidenciais foi o que mais decepcionou. É mais repelido que o próprio Lula, que, por sua vez, é mais rejeitado que doutor Bolsonaro.

Nota-se que algumas figurinhas carimbadas da política ficaram fora do questionário. Penso em doutor Maluf, doutor Sarney, doutor Collor, dona Marta Suplicy. Enfim, a selva de gente enrolada com a justiça ou com a opinião pública é tão densa que fica difícil estabelecer uma lista.

O mesmo instituto testou também a aprovação popular de sete figurões da Justiça tomados ao acaso. (Ou, talvez, não tão ao acaso assim.) No topo da desaprovação, aparece doutor Gilmar Mendes. Doutor Sergio Moro é quem sai melhor na foto. Surpreendentemente, medalhões como doutores Lewandowski e Toffoli não entraram na seleção.

Pesquisa Ipsos – Infográfico Estadão
clique para ampliar

Ao fim e ao cabo, que me perdoe o distinto leitor pela vulgaridade, fica a impressão generalizada de saco cheio. Dado que boa parte dos entrevistados não deve ter ideia precisa de quem possam ser doutores Paulo Skaf, Tasso Jereissati ou Nélson Jobim, é de acreditar que a reprovação vale para todos. Parafraseando George Orwell, fica assim: embora alguns sejam mais culpados que outros, no fundo, são todos culpados.

O rodamoinho da corrupção traga todo o andar de cima, que sejam culpados, condenados, suspeitos ou juízes. Sobra para todos. Só não será reprovado… quem não for mencionado.

Observação
Seria extremamente interessante se a pesquisa tivesse ido mais fundo. Deveriam ter perguntado a razão da aprovação (ou desaprovação) de cada nome citado. Do jeito que está, embora pareça espetacular, a análise dos resultados não permite ir além de conjecturas.

Um resultado, duas análises

José Horta Manzano

Saíram esta semana os resultados de extensa pesquisa feita no Brasil pelo instituto Ipsos, de origem francesa. A sondagem avalia a percepção que o eleitorado brasileiro tem da política em geral e do momento atual em particular.

Perguntas referentes a doutor Temer, a doutora Dilma, a deputados e senadores são inevitáveis. As respostas mostram que o eleitor não vota nem avalia com o cérebro, mas com o fígado. Tem até os que julgam com o estômago. De fato, com o país atravessando momento difícil, com aumento de preços e queda na oferta de empregos, a população tende a culpar os dirigentes de turno. Ainda que não tenha responsabilidade direta sobre a situação atual do país, doutor Temer encarna o vilão da novela.

É interessante notar que cada analista enxerga nos resultados aqueles que vão de par com suas próprias convicções. Passando por cima das respostas que não lhe agradam, cada um dá ênfase aos resultados que vão ao encontro de suas teses. Senão vejamos.

O Estadão, jornal que nunca escondeu sua oposição à visão de mundo lulopetista, focalizou sua análise na ojeriza crescente inspirada pelos políticos. Destacou o fato da rejeição que atinge a totalidade dos políticos. Mencionou que, de cada quatro brasileiros, três são contra o voto obrigatório. Tece outras considerações sem se deter ao modo de governar de doutor Temer. Acrescenta que os brasileiros não se sentem representados por nenhum político.

Já o portal Gente de Opinião, que mostra simpatia para com o lulopetismo, analisa os resultados de outro jeito. Destaca que a democracia não é respeitada e explica que isso era previsível «desde que um impeachment afastou a presidente legítima e permitiu que o poder fosse usurpado (sic) pelo vice Michel Temer, que a traiu». Diz também que noventa e tantos porcento dos eleitores não se sentem representados por «Temer e sua turma».

Ao final, a gente fica pensativo. Pra que servem mesmo essas sondagens? Cada um vê o que quer ver, entende o que quer entender, analisa como lhe convém, chega à conclusão que lhe apraz. Eta, mundão grande… e hipócrita!

Robespierre

José Horta Manzano

Como eu, o distinto leitor deve estar desorientado. Conseguimos nos livrar de um Lula, de uma Dilma, de um Aécio, de uma Marina e… fomos tropeçar num Temer. Ai, Jesus! No final desta novela, quem é que vai sobrar? Possivelmente nenhum dos políticos atuais.

Maximilien de Robespierre

Que fazer então? Pelo momento, não há outro caminho senão pressionar senhor Temer a renunciar e, em seguida, obedecer ao que manda a Constituição. Num prazo de trinta dias, um presidente será eleito pelo Congresso para um mandato tampão que durará até fim do ano que vem. O eleito não precisa necessariamente ser um parlamentar. Basta ser brasileiro nato, ter mais de 35 anos e estar no gozo de seus direitos políticos.

Com a casa tão trincada e rachaduras tão profundas, melhor será demolir e reconstruir. É chegada a hora de convocar assembleia constituinte cujos membros, a meu ver, deverão ser parcialmente eleitos pelo povo e parcialmente compostos de gente fina (ainda há!) como juristas, intelectuais, figurões do mundo das ciências e das artes, historiadores, geógrafos, sociólogos. Entre outros.

Quem sabe, passada a tempestade, julgados e afastados todos os culpados, o terreno estará carpido e limpo para permitir ao Brasil recomeçar sobre bases mais civilizadas.

Na França do fim do século 18, uma revolução veio fazer o serviço. Abusou de meios violentos e mandou meio mundo pra guilhotina. Espero que não tenhamos de ressuscitar Robespierre(*) para repor o Brasil nos trilhos.

(*) Maximilien de Robespierre (1758-1794) foi advogado e homem político francês. Durante o período tumultuado que se sucedeu à Revolução Francesa, atuou como deputado da Assembleia Constituinte. Agitado e atuante, é responsável por ter enviado quantidade de cidadãos à guilhotina. Por ironia do destino, acabou guilhotinado.

Clube do Bolinha

José Horta Manzano

Durante milênios, a dominação masculina sobre a sociedade foi incontestável e incontestada. Cabia ao homem prover ao sustento da família enquanto o papel da mulher era permanecer na sombra, em casa, a cuidar da prole ‒ isso era ponto pacífico. O costume continua valendo em países menos avançados, onde mulher não sai de casa sozinha, não dirige automóvel, não tem direito de votar. Em nossa terra, as coisas evoluíram.

No Brasil de cem anos atrás, mulher nem sempre tinha direito a escolher marido. Era habitual que casamentos fossem combinados entre o pai do noivo e o da noiva. O noivo, na melhor das hipóteses, podia dar opinião. Quanto à noiva, recebia o pacote pronto, sem direito a troca nem a reembolso. Minha avó, que não viveu ao tempo dos sumérios, sofreu essa imposição.

by Julia "Aleutie" Bolchakova, desenhista canadense

by Julia “Aleutie” Bolchakova, desenhista canadense

Em um século, pelo menos no mundo ocidental, os costumes evoluíram muito. Entre os anos 1920 e 1950, o voto feminino foi-se generalizando. Casamentos arranjados praticamente desapareceram. Profissões antes exclusivamente masculinas abriram-se à participação feminina. Até na América Latina, que não é propriamente locomotiva em matéria de igualdade de oportunidades, países como Brasil, Argentina, Chile e Nicarágua têm ou já tiveram mulher na presidência da República.

Hoje em dia, ao menos em teoria, a mulher é livre para escolher profissão e seguir o destino que melhor lhe aprouver. Por motivos que sociólogos, psicólogos e demógrafos devem poder explicar, certos campos de atividade continuam contando com participação majoritária de um ou de outro sexo. Professora primária, parteira e enfermeira, por exemplo, são profissões predominantemente femininas. Motorista de caminhão, encanador e pintor de paredes costumam ser homens.

Infográfico Estadão, 3 nov° 2016

Infográfico Estadão, 3 nov° 2016

Na política, em cargos eletivos, a participação masculina é esmagadora. Para constatar, basta dar uma olhada em roda. Fiquei surpreso ao encontrar, no Estadão de 3 de novembro, um alentado estudo sobre os eleitos nas eleições do mês passado, escrutados segundo critério de sexo. O trabalho, uma coleção de sofisticados infogramas, chega à conclusão de que as câmaras municipais do país são constituídas predominantemente por homens.

E pensar nas horas e horas de trabalho gastas por um grupo de profissionais para chegar a conclusão óbvia. Pouquíssimos são os municípios brasileiros que têm mais vereadoras que vereadores. A pergunta é incontornável: ‒ E daí?

Se os candidatos se tivessem repartido igualmente entre homens e mulheres e os eleitores, diante da urna, tivessem dado o voto aos homens em detrimento das mulheres, aí sim, o fenômeno mereceria estudo aprofundado. Dado que o artigo do Estadão não menciona tal particularidade, é lícito supor que a proporção de homens e mulheres eleitos corresponda à proporção de homens e mulheres que se candidataram. Portanto, o que merece ser estudado é o porquê de haver mais candidatos que candidatas.

Na minha opinião, pouca diferença faz que vereadores e prefeitos sejam homens ou mulheres. O que se espera dos eleitos é espírito público, dedicação ao trabalho, desprendimento, alguma cultura, boas intenções, abertura de espírito, disposição ao diálogo, percepção da realidade local, honestidade. Talvez seja pedir muito.

Carta à ONU e aos americanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Senhoras e senhores,

Antes de voltarem suas atenções para as considerações que nossa atual presidente deseja lhes apresentar para reflexão no dia de hoje, parece-me fundamental introduzi-los um pouco mais em detalhe à realidade brasileira. Para que lhes seja possível contextualizar com facilidade os fatos preocupantes que nossa mandatária pretende divulgar aqui, permitam-me guiá-los numa viagem conceitual pelo nosso país.

O Brasil não é um país para amadores. Turistas ocasionais podem se entreter e se deliciar com nossas belas paisagens, nosso clima tropical, nossa gastronomia diversificada, nosso multifacetado folclore e, principalmente, com nossa cultura de inclusão, conciliação, alegria e crença no futuro. Quaisquer que sejam seus interesses pessoais e visões de mundo, temos sempre a lhes oferecer um cardápio prolífico, generoso mesmo, de opções.

Já entender como nosso povo lida historicamente com sua realidade mais imediata – isto é, com seus desafios econômicos, sociais e políticos cotidianos ‒ é algo que requer uma robusta capacidade profissional de análise, capaz de contemplar com serenidade seus múltiplos aspectos conflitantes.

Dilma ONUCulturalmente nossos concidadãos se especializaram em extrair comédia de toda forma de tragédia. Como o próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, já sugeria desde os primórdios do século 20, o senso de humor e os chistes podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar, já que “numa brincadeira, pode-se até dizer a verdade”.

Talvez o nonsense de nossa realidade não seja evidente de imediato para um estrangeiro que nos brinde com a honra de por aqui morar, mas certamente se revelará mais tarde diante dos contornos surrealistas de nossas leis “que pegam” ou não, de nossa forma de fazer justiça “pelo CPF e não pelo RG”, de nossos conceitos arraigados de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro” e que todo pai dos pobres acaba funcionando também como mãe dos ricos. Nossa tradição de fazer piada com tudo aquilo que, em tese, poderia deflagrar convulsão social em outros países é tão forte que já nos rendeu o epíteto de “país não sério”. Os acontecimentos políticos dos últimos meses ameaçam agora nos transformar no “país da piada pronta”.

Dilma Obama 2O traço mais marcante da cultura social brasileira é, sem dúvida, aquilo a que chamamos de “jeitinho”. Talvez em decorrência de nossa flexibilidade corporal, mental e psíquica, herança de nossos antepassados africanos, aprendemos a driblar toda e qualquer restrição legal, a contornar normas e jurisprudências, a acreditar que o atalho é a rota mais curta para chegar aonde queremos e livrar-nos de toda forma de punição. Ou, quem sabe, seja ele herdeiro direto da crença de que tudo em nosso país “acaba em pizza” – ou, melhor dizendo, da constatação de que, em última instância, a balança da justiça pende sempre para o lado mais empoderado da sociedade.

Por outro lado, nossa forma de lidar com a autoridade talvez seja a característica mais paradoxal de nossa cultura aos olhos de um estrangeiro. Podemos nos submeter a ela sem contestação e perdoar-lhe todos os desvios desde que ela seja hábil em nos fazer crer que tudo o que faz é para o nosso bem. Ao mesmo tempo, quanto mais irascível, arrogante e distanciada do nosso jeito simples de falar, mais ela será desqualificada através de nosso modo zombeteiro de enxergar as coisas sérias da vida. Expor o ridículo das pequenezas mentais de nossos governantes é nosso jeito peculiar de expô-los ao ridículo.

Assim sendo, senhoras e senhores, afianço-lhes que todos os aqui presentes disporão de farto material linguístico e comportamental ao longo do discurso de nossa mandatária-mor para aferir por conta própria e com total isenção de espírito a consistência racional de seus proclames. Devo alertá-los, no entanto, que é provável que a grandiloquência dos argumentos usados por assessores na composição da fala presidencial contraste e seja impactada negativamente pelos atropelos à lógica nas entrevistas que se seguirão ao pronunciamento oficial. Rogo-lhes que desconsiderem eventuais contradições em nome da manutenção dos laços de fraternidade que unem nossos povos.

¿ Por qué no te callas ?

Acredito sinceramente que sua experiência recente com as polêmicas geradas pelo candidato republicano às próximas eleições presidenciais americanas pode lhes servir de base segura para um julgamento sereno das implicações de aderir a este ou àquele lado de nossos atuais confrontos políticos. Se de todo lhes for humanamente impossível isentar-se da força do mantra “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, peço-lhes que experimentem se colocar emocionalmente na pele de comandados. Se e quando uma onda de indignação começar a se agitar em seus peitos, relembrem a reação do rei de Espanha às colocações agressivas do então líder máximo venezuelano e, em coro, refaçam sua indagação: “Por qué no te callas?”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Furou

José Horta Manzano

Ninguém pode contestar: futebol é o esporte mais popular sobre a face da Terra. Compreensivelmente, o campeonato mundial é o evento mais midiatizado do planeta. O fato de ser quadrienal ajuda a botar pimenta: quanto mais raro for o artigo, mais valioso será.

Ser focalizado, nem que seja por um instante, pelas câmeras que transmitem jogos da Copa faz efeito fulminante. Para gente desconhecida, gera um causo pra ser contado pelo resto da vida. Para medalhões, é a confirmação do status, a glória planetária autenticada com carimbo e firma reconhecida.

Astros, dirigentes, esportistas, políticos disputam um lugar no camarote VIP ― ou perto dele ― para ter, quem sabe?, a sorte de ser focalizado. A exposição garante notoriedade instantânea.

É verdade que há pessoas que, por alguma particular razão, preferem não ser filmadas nessas ocasiões. Para evitar vaias, apupos ou xingamentos, por exemplo. Ou, mais prosaicamente, para não serem flagradas num lugar onde não deveriam estar naquele momento.

Interligne 18b

Certos figurões chegam a programar, com antecedência de meses ou até de anos, sua presença nessas vitrines. Foi o caso de nosso guia, que presidia o País quando teve lugar a Copa da África do Sul.

O homem chegou a deslocar-se até o continente africano. Seus servis assessores haviam programado um percurso que incluía ― ora vejam a coincidência ― uma passagem pela República Sul-Africana justamente por ocasião da final da Copa. Seria uma ocasião de ouro para aparecer na tribuna oficial, no jogo final do campeonato, como convidado de honra do chefe do Estado. Exposição mundial garantida.

Acontece que o trajeto do Brasil na competição não foi glorioso. A Seleção curvou-se antes do que se esperava. E nosso guia, que não se contenta com coisa pouca, renunciou à aparição pública. Ficou para a Copa seguinte.

Tribuna VIP

Tribuna VIP

Chegou 2014. Não adianta ficar repetindo aqui o que todos já sabem: nem a atual presidente, nem o anterior, nem ninguém que lembre a existência de um deles consegue passar ileso num estádio. São vaias e apupos garantidos.

Grande deve ser a frustração de nosso guia. Justamente ele, que antevia, na exposição midiática que esta Copa lhe garantiria, o reconhecimento universal, carimbado e autenticado, de sua glória pessoal. Deu no que deu.

Interligne 18b

Mas nosso messias não está só: há um outro frustrado. Não sou depositário de segredos de cabeças coroadas, dessarte não posso dar garantia sobre o que vou dizer. Mas pode bem ter-se passado assim.

Primeira consideração:
Entre Copa do Mundo e Eurocopa, a Espanha ganhou todas. Ia de vento em popa. Tudo indicava que chegaria, com facilidade, à final da «Copa das copas».

Felipe VI, da Espanha

Felipe VI, da Espanha

Segunda consideração:
A monarquia espanhola anda bambeando. Repetidos escândalos envolvendo membros da família real ― e o próprio rei ― achacaram os espanhóis. A abdicação do antigo e a assunção de novo rei poderia trazer aquela brisa que desanuvia a atmosfera.

Conclusão:
Por que não juntar o útil ao agradável? Por que não fazer coincidir a sagração do herdeiro com o triunfo da seleção espanhola na Copa? Imaginem que maravilhoso seria se o mundo inteiro visse a aparição do sorridente casal real na tribuna de honra do Maracanã a acenar para a plebe no momento da vitória esportiva de seu país?

Esse cenário não me parece fantasioso. Por mim, foi assim que aconteceu ― aposto minhas fichas. De toda maneira, não saberemos jamais. O que sabemos, isso sim, é que, asseguradamente, o casal real não estará presente à cerimônia de entrega da taça. Furou.

Falando em entrega de troféu, Vladimir Putin já anunciou que estará presente à final da Copa. Quem é que lhe vai fazer companhia? Algum mandarim da Fifa?

Frase do dia — 50

«[Dilma] considerou um erro a romaria de políticos que foi à cadeia visitar os petistas na primeira semana de detenção. E vê o risco de que outros presos e seus parentes fiquem revoltados com a situação.»

Dona Dilma Rousseff, numa supreendente fala que dá margem a duas interpretações. Por um lado, pode revelar que, num momento de descuido, nossa presidente tenha resvalado para o bom-senso. Por outro lado, pode indicar que ela está seguindo rigorosamente o figurino ditado por marqueteiros assessores. Seja como for, mal não fará. In Folha de São Paulo, 30 nov° 2013.

Intermediários inúteis

José Horta Manzano

Os religiosos diriam «aqui se faz, aqui se paga».

Espíritos mais científicos lembrariam que toda ação engendra reação oposta e de igual intensidade.

Franceses explicariam que não se pode, ao mesmo tempo, ter a manteiga e o dinheiro da manteiga.

Os antigos já sabiam que não se pode ter tudo na vida.Interligne 18b

Todos têm razão. Está aí, em versões variadas, um extrato da sabedoria que a humanidade vem destilando desde que Lucy desceu da árvore, 3 ou 4 milhões de anos atrás. Muita gente aprendeu a lição. Outros são mais recalcitrantes. As manifestações de ontem reforçam o que acabo de dizer.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Nesta sexta feira logo de manhã, aqui na Europa, os jornais falados do rádio informaram que as manifestações da quinta-feira no Brasil não tinham tido o sucesso esperado por seus organizadores. Não chegaram a dizer que tinha sido um fiasco, mas não fez falta: todos entenderam.

A leitura dos principais jornais brasileiros me confirmou o que o rádio já tinha adiantado. Muita ameaça e pouco efeito. Cão que ladra não morde.

Na época em que um antigo operário de apelido Lula fazia discursos inflamados na porta das fábricas, as passeatas organizadas por sindicatos tinham conteúdo, eram credíveis. Embora não fosse exatamente seu objetivo, também contribuíram para enterrar o então já moribundo regime ditatorial.

O tempo passou e todos sabem o que aconteceu. Faz mais de dez anos que o sindicalista que eletrizava as massas foi elevado a importantes funções políticas. Para garantir apoio, distribuiu benesses àqueles cuja conivência lhe parecia essencial.

Grandes empresários e miseráveis deserdados (pobres, mas numerosos!) foram alvo preferencial. Aos grandes, generosidade e facilidades financeiras. À gente miúda, migalhas suficientes para garantir fidelidade na hora de depositarem voto na urna. Políticos e sindicatos foram cooptados com cargos e também com favores em espécie.

Milagres, ninguém faz. Para encher um pote, tem de esvaziar outro. Muito dinheiro foi necessário para sustentar esse modo estranho de fazer política. Para que um ganhe, é preciso que outro perca. E quem saiu perdendo foram os que não faziam parte das categorias acariciadas pelo governo: as classes médias e os trabalhadores, submetidos a impostos escorchantes.

Malabarismos de marketing e militantismo remunerado anestesiaram muita gente durante anos. Mas, como tudo o que é artificial, essas jogadas tinham prazo de validade. O prazo venceu e a mágica acabou. Deu no que deu: um pequeno e corriqueiro aumento no preço das passagens de ônibus foi o estopim para manifestações espontâneas às quais o País estava desabituado. E que ninguém esperava.

O susto tomou conta de muitas confrarias. Governo federal, Congresso, políticos vários e, naturalmente, centrais sindicais se sentiram incomodados.

Mas falemos dos sindicatos, que esse é o assunto do dia. Seus dirigentes, que vinham de anos e anos de inércia, sustentados no bem-bom por obesos favores oficiais, deram-se de repente conta de que haviam-se tornado inúteis.

Manifestantes do bem by Ricardo Ferraz

Manifestantes do bem
by Ricardo Ferraz

Pânico! Descobriram, de repente, que o bom jardineiro deve cuidar de suas plantas se quiser ter flores vistosas. Não tinham sido bons jardineiros. As flores haviam murchado. Abandonada à própria sorte, a tropa havia desertado para cantar em outra freguesia.

Para juntar meia dúzia de gatos pingados, os sindicatos se viram obrigados a recorrer a «manifestantes» remunerados. Um constrangimento. Pior: repórteres descobriram a tramoia. A Folha de São Paulo e o Estadão botaram a boca no trombone. Vexame total. O movimento sindical no Brasil perdeu sua razão de existir. Não conseguem sequer reunir seus integrantes para uma boa passeata. Os antigos aderentes, que bobos não são, já se deram conta de que há caminhos mais eficientes para reclamar.

Conformemo-nos, que a vida é assim mesmo. Não estamos todos no mesmo estágio de desenvolvimento intelectual. Se, por um lado, todos os humanos já se acostumaram a andar sobre duas patas, o desenvolvimento da inteligência não tem sido uniforme em todos os indivíduos.

Alguns ainda acreditam em Papai Noel. Mas estão caindo do cavalo ― ou do trenó, que fica mais natalino.

.

«Povo não precisa de carro de som.»

Mayara Vivian, do Movimento Passe Livre

Da nacionalidade

Passaporte BRJosé Horta Manzano

Universidades costumam distribuir ― nem sempre judiciosamente ― títulos de doutor honoris causa a cidadãos preeminentes. Poíticos e artistas são as escolhas mais frequentes. É um excelente investimento: não custa grande coisa, aumenta a visibilidade da universidade e bajula um figurão.

A mim sempre pareceu uma homenagem inadequada. Um título de doutor se consegue depois de muita luta, de grande esforço, de enorme dedicação, de incontáveis sacrifícios. É um atestado de capacidade e, principalmente, de mérito. Não fica bem distribuí-lo como mimo a figurões. Chega a humilhar os que transpiraram para chegar lá.

Outro costume me chama a atenção. É a outorga do título de cidadão honorário de um município. O afago foi instituído com bastante lógica, para saudar pessoas que, embora sendo originárias de um município, tenham trazido benefícios a outro. Este último mostra seu reconhecimento ao forasteiro, em homenagem pública.

Outra coisa é distribuir títulos de cidadão honorário a torto e a direito a figurões da política ou do mundo do espetáculo. Em geral, são gente que pouco ou nada fez em prol do município outorgante. É menos grave que um título de doutor dado a quem não merece, concedo. Mas não deixa de ser um escárnio com relação à população do município.

Jornais do mundo inteiro, entre eles o francês Le Monde nos informam que uma nova modalidade de homenagem está sendo inaugurada estes dias: a distribuição de passaportes. O ator francês Gérard Depardieu acaba de receber um passaporte russo. Foi-lhe concedido por simples decreto do presidente Putin. Antes disso, a ligação do ator com a Rússia se resumia a três pontos: ter decorado às pressas algumas palavras do idioma local; ter tido um pai comunista; ter recentemente representado o papel de Rasputin num filme girado no país. Mais nada.

Nem todos os russos apreciaram. Gérard Depardieu enalteceu a “grande democracia” russa, fato que enfureceu muita gente. Por outro lado, o ator tem a fama de «lever le coude» (= levantar o cotovelo), expressão caseira que os franceses usam para apontar alguém que exagera na bebida. Um dos simpatizantes de Putin ― cineasta russo nacionalista ― não apreciou a prenda ofertada pelo presidente ao ator. Sarcasticamente, comentou: «teremos um alcoólatra a mais!».

Um artigo do Estadão online nos informa que, indagado pelo entrevistador, Gérard Depardieu respondeu que sim, aceitaria de bom grado um passaporte brasileiro, se o documento lhe fosse oferecido.

Que se distribuam, a torto e a direito, títulos honoríficos de doutor ou que se espalhem títulos de cidadão deste ou daquele município já são práticas discutíveis. Agora, que se instale a moda de oferecer nacionalidade por capricho presidencial já estamos passando dos limites.

A nacionalidade ― sua aquisição e sua perda ― estão perfeitamente definidas em nossa Constituição e em leis complementares. Outorgá-la não é, nem pode ser, direito privativo e discricionário do chefe do executivo. Para obtê-la, há um caminho a ser trilhado.

Para casos de urgente necessidade de caráter humanitário, há outros expedientes à disposição das autoridades. A concessão da nacionalidade não é mimo que se ofereça, sem mais nem menos, a figuras populares.

Nacionalidade não é brinde, é bem mais sério que isso.