Dormiu no ponto

José Horta Manzano

O Boeing da Qatar Airways decolou do aeroporto de Doha (Catar) em direção a Bali (Indonésia). Foi no domingo passado. O voo se anunciava sereno. Entre os passageiros, estava uma família iraniana: marido, mulher e criança pequena.

No Irã, o consumo de álcool é reprimido. Talvez por essa razão, o casal se aproveitou da «boca livre» ‒ melhor seria dizer «copo livre». Exageraram nos drinques. Já meio mole, o marido ferrou no sono. A esposa, guiada pela ousadia dos que tomaram um trago, valeu-se da ocasião. Apanhou o celular do marido e, encostando no escâner o dedo do homem adormecido, conseguiu desbloquear o aparelho.

Curiosa, bisbilhotou(*) a memória do telefone. Não tardou a descobrir que estava sendo traída pelo marido. Enfurecida, despertou-o e pôs-se a agredi-lo. Primeiro, com palavras. Depois, com gritos. Em seguida, diante de passageiros atônitos, chegou às vias de fato. A tripulação tentou intervir para acalmar a situação, mas também foi atacada pela viajante colérica.

A situação chegou a tal ponto que o comandante, informado do que acontecia, solicitou permissão para pouso de urgência no aeroporto mais próximo. Aterrissou em Chennai (Madras), no sul da Índia. Ali, casal e filho foram desembarcados manu militari. Livre dos turbulentos passageiros, o avião seguiu viagem.

Visto que não havia ameaça à segurança e que nenhum crime havia sido cometido, as autoridades indianas decidiram manter a família confinada no aeroporto. Horas mais tarde, quando a passageira já havia recobrado o estado normal, foram os três embarcados num voo de volta ao Catar.

Moral da história
Desbloqueio de celular por meio de reconhecimento táctil é útil e seguro. Mas é aconselhável não dormir no ponto.

(*) Nota etimológica
Bisbilhotar, voz onomatopaica, provém do verbo italiano bisbigliare, que tem o sentido de sussurrar com leve movimento dos lábios. Nessas horas, quem está por perto só consegue ouvir sons como «bis-bis» ou «pis-pis». Corresponde ao inglês whisper e ao alemão pispern.

Com informações do diário The Times of India.

Atrás da fachada, nada

José Horta Manzano

Estes dias realizou-se em Hamburgo uma cúpula do G20, com participação dos países mais importantes. Os olhos do mundo inteiro estiveram cravados no acontecimento. Estávamos todos na expectativa de como seria o primeiro encontro entre Donald Trump e Vladimir Putin. Jornalistas mediram a duração do aperto de mãos entre os dois, estimando até a intensidade e a força muscular. Escrutaram o sorriso compartilhado, beberam as palavras da declaração de cada um. Quanta bobagem…

Foto de família do G20 de Hamburgo, 2017
A posição de cada um depende do tempo durante o qual vêm ocupando o cargo. Reparem que o recém-eleito Macron está na ponta, quase fora da foto.

Esse clube de parceiros díspares não tem a vocação nem a pretensão de influir no destino do planeta. Cada membro tem interesses próprios, que não necessariamente se ajustam aos dos parceiros. Além de mostrarem um PIB elevado, o que é que há em comum entre uma Argentina, uma Turquia, uma Indonésia, uma Austrália? Brasil, Arábia Saudita e Índia também integram a patota. E daí?

Na escola, todos nós já tiramos fotos de turma. Passado algum tempo, a gente revê os retratos e mal se lembra do nome dos colegas. Brics, G7, G8, G20 & congêneres dão ocasião para magníficas fotos de grupo. Todos sorriem, alinhados, perfilados, às vezes acenando, uma beleza. No entanto, ao fim e ao cabo, o que restam são as fotos e um comunicado final suficientemente vago e vazio de significado. Satisfaz a todos mas não resolve o problema de ninguém.

G20 de Hamburgo, 2017
Loja vandalizada

As verdadeiras tratativas entre países não se fazem à luz dos flashes. Grandes decisões são tomadas nos bastidores, independentemente de reuniões que servem apenas para atazanar a vida dos moradores da cidade que as hospeda. Estes dias, Hamburgo está em pé de guerra. Baderneiros profissionais vêm de longe, do estrangeiro, percorrem quilômetros com a única intenção de quebrar vitrinas, saquear, incendiar e semear pânico.

Alguém acredita que Trump e Putin já não tenham estado em contacto, bem antes da cúpula, talvez até antes da eleição presidencial americana? Alguém esperava que, por milagre de Santo Antônio, senhor Trump fosse mudar de ideia e realinhar-se com o compromisso de diminuir a emissão de gases que aumentam o efeito estufa? Alguém supunha que, num gesto de desprendimento, senhor Putin fosse abandonar a Crimeia e cedê-la à Ucrânia?

G20 de Hamburgo, 2017
Fim de festa

Não, senhores. Cimeiras desse tipo são o substitutivo atual do pão e do circo com que se brindavam os habitantes da Roma antiga. Distraem o povo, nada mais. Ainda por cima, custam verdadeira fortuna. Cada país envia alentada comitiva. São centenas, talvez milhares de pessoas que se empenham para que a festa pareça um sucesso. Melhor seria evitar esse desperdício e doar o dinheiro para mitigar o sofrimento de populações que morrem de fome na África e alhures.

Fome Zero

José Horta Manzano

Você sabia?

Costuma-se dizer que a primeira impressão é fundamental. É verdade. É difícil alterar o impacto do choque inicial. A eleição do Lula à presidência do Brasil, no já distante ano de 2002, impressionou o país e o mundo. O lançamento do Programa Fome Zero comoveu. Parecia que, pela primeira vez, o bom senso estava para se instalar no topo do poder.

De lá pra cá, muita água passou por debaixo da ponte. O mensalão primeiro e, em seguida, a arrasadora Lava a Jato mostraram aos brasileiros que a primeira impressão não passava disso: uma impressão. Na sequência, ficamos sabendo que, por debaixo da aparência nobre, fervilhava um caldeirão de ambições pessoais alimentadas por trambiques e falcatruas que desvirtuavam a fidalguia dos protagonistas. A nobreza era só fachada.

No Brasil, temos acompanhado o desmascaramento dos atores principais. Apareceu muita podridão. Passados quinze anos, constata-se que a situação dos desvalidos não só não se resolveu, mas piorou. E muito. No resto do mundo, no entanto, muita gente ficou na primeira impressão. Além-fronteiras, muita gente fina ainda enxerga, no lulopetismo, nobreza, boas intenções e soluções duradouras.

Théâtre Pitoëff, Genebra, Suíça

Théâtre Pitoëff, Genebra, Suíça

Todos os anos, a cidade de Genebra, capital internacional dos Direitos Humanos, é sede do FIFDH ‒ Festival do Filme e Fórum Internacional dos Direitos Humanos. A próxima edição terá lugar de 10 a 19 de março. O programa é consistente. Dezenas de filmes, palestras, debates estão previstos. Os patrocinadores, todos de primeira linha, incluem: Amnesty International, a Rádio Televisão Suíça, a Confederação Suíça, a cidade de Genebra, Médicos sem Fronteiras, o Banco Pictet, a Universidade de Genebra, a Agência France Presse, a República Francesa e a União Europeia ‒ entre dezenas de outros. Coisa finíssima.

Dia 11 de março, o venerando Théâtre Pitoëff será o centro das atenções. Em paralelo à projeção de um filme indiano sobre o combate à fome que castiga 200 milhões naquele país, duas personalidades participarão dos debates. Por um lado, virá Mr. Colin Gonsalves, membro da Suprema Corte da Índia e instigador da Lei de Direitos Humanos de seu país. Por outro, está prevista a presença de dona Dilma Rousseff, antiga presidente do Brasil.

O anúncio apresenta a doutora como arquiteta, conjuntamente com o Lula, de «um dos programas de segurança alimentar mais ambiciosos jamais criados: o Programa Fome Zero, que permitiu a mais de 20 milhões de brasileiros de sair da miséria». O moderador dos debates será o apresentador vedete do jornal televisivo suíço, um dos rostos mais conhecidos do país.

Combate à fome e à miséria: os exemplos do Brasil e da Índia

Combate à fome e à miséria: os exemplos do Brasil e da Índia

O programa, que traz a foto de nossa sorridente doutora, não faz nenhuma alusão a pedaladas nem a escândalos. Não há uma palavra sobre o assalto descarado ao dinheiro público ‒ dinheiro que pertencia justamente aos desvalidos que, em tese, deveriam ter sido socorridos.

Se o distinto leitor tiver interesse, ainda é possível inscrever-se. O preço do bilhete de entrada é camarada. Embora não esteja escrito no programa, espera-se que os participantes se abstenham de fazer perguntas que possam deixar a irascível doutora embaraçada ou, pior, provocar-lhe um acesso de fúria. É favor evitar toda menção a impeachment, escândalo, roubo, pedalada, desvio de recursos públicos, caixa dois & assemelhados.

A direção do fórum agradece antecipadamente.

Reclamar do quê?

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 dez° 2016

Os brasileiros vivem num país gigantesco. Para a maioria, fronteira não passa de conceito vago, um ponto perdido no meio da Amazônia, afundado no Pantanal ou açoitado pelo pampeiro nos pastos sulinos. Mal e mal, nos inteiramos do que se passa do lado de cá. Acompanhar o que acontece além-fronteira, então, já é pedir demais. No entanto, lá como cá, há mundo. Por toda parte, gente ama e briga, se entristece e se alegra, nasce e morre. Vale a pena dar uma espiada no que se passa do outro lado.

Fim de ano é momento de balanço. Neste finalzinho de 2016, tenho visto muito desencanto. «O ano que não terminou» é a tônica das análises. O gosto de inacabado, a apreensão com o que está por vir, a carestia e a perda de vigor da economia, os relatos sobre o aumento do desemprego, a recapitulação do nome dos figurões já encarcerados e dos que o serão em breve, o embate entre os Poderes da República ‒ eis os temas dominantes. Todos eles deprimentes, desacoroçoados e angustiantes. Ânimo, minha gente! Ou, como diriam os antigos: sus! Basta olhar em roda pra ver que, se nosso país atravessou um ano difícil, há quem esteja pior que nós. Não acredita?

tanque-de-guerra-1No Brasil, 2016 já começou com cara de golpe. Revolução à antiga, com obuses e trincheiras, anda meio «démodée» por aqui. Mas muita gente imaginava que meia dúzia de brucutus surgiriam a qualquer hora pra derrubar o governo e tomar o poder. Pois não aconteceu! A destituição da presidente e a consequente assunção do substituto legal se deram dentro da mais estrita ordem constitucional. Tirando pequenos engasgos, normais e desculpáveis em situações insólitas, o processo deslizou sem tropeços. Reclamar do quê?

Na primeira metade do ano, conforme iam se aproximando os Jogos Olímpicos, a ansiedade crescia. Até policiais, agentes e peritos do exterior foram convocados para reforçar o time nacional e garantir paz e segurança aos atletas e ao público. Bilhões de olhos ao redor do planeta se encantavam com as imagens do Rio de Janeiro. Cada um torcia por seus atletas. Tudo ao vivo. De novo, tirando escorregões de pouca monta, tudo deu certo, sem catástrofes. Reclamar do quê?

O povo da França, da Índia, do Egito, da Bélgica, de numerosos países africanos e até da Alemanha foi castigado por atentados que deixaram centenas de mortos, milhares de feridos e um cruel sentimento de impotência. Tanto os do andar de cima quanto os do porão se sentem igualmente desarmados, perdidos. No Brasil, tirando a violência à qual, de tão corriqueira, ninguém mais presta atenção, nenhum atentado aconteceu. Reclamar do quê?

Os que vivem na infeliz Venezuela, nossa vizinha de parede, esses, sim, têm do que se lamentar. A situação lá anda tão feia que impele cidadãos a escapar do país para conseguir alimento. Nem comida eles têm! Preferem tornar-se flanelinhas clandestinos em Roraima e dormir ao relento a passar fome no país de origem. Nas grandes cidades da república bolivariana, não há passeata ou manifestação popular que não deixe rastro de mortos e feridos. Do lado de cá da fronteira, não nadamos em dinheiro, é verdade. Mas, ao menos, não vivemos em penúria alimentar. Reclamar do quê?

flanelinha-1Na República Democrática do Congo ‒ país africano de 85 milhões de viventes ‒, o presidente foi batido nas urnas quando buscava reeleger-se. Em vez de passar o poder ao vencedor, como manda o figurino, agarrou-se ao trono. A confusão e a violência se instalaram no país. Pressões externas estão tentando conciliar os dois presidentes autoproclamados. Pra evitar mal maior, cogita-se dar o cargo de presidente a um deles e o de primeiro-ministro ao outro. No Brasil, faz uma pancada de décadas que passação de mando se tornou rotina sem surpresas. Reclamar do quê?

E os apuros dos pobres 80 milhões de turcos? Depois de mal explicada tentativa de golpe de Estado, milhares de cidadãos foram encarcerados. Ninguém sabe o total, mas fontes confiáveis estimam que cem mil estejam presos. Com vocação para ditador, o presidente aproveitou para expurgar o país dos cidadãos que o incomodavam. Fechou jornais e prendeu multidão de jornalistas. Semana passada, na esteira do assassinato do embaixador da Rússia em Âncara, mais 17 mil turcos foram enjaulados. Dezessete mil! Na aprazível Terra de Santa Cruz, abençoada por Deus e bonita por natureza, não temos nada disso. Reclamar do quê?

Feliz ano-novo, brava gente!

Bandeiras apetitosas

 

José Horta Manzano

Japão

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Japão: arroz e atum

Japão: arroz e atum

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Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

Líbano: pão libanês, fatush e cheiro verde

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Itália: manjericão, spaghetti e tomate

Itália: manjericão, spaghetti e tomate

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Indonésia: pimenta malagueta e arroz

Indonésia: pimenta malagueta e arroz

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Índia: curries, arroz e pão indiano

Índia: curries, arroz e pão indiano

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Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

Grécia: azeitonas de Calamata e queijo feta

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França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

França: queijo Roquefort, queijo Brie e uvas

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EUA: hot dog e mostarda

EUA: hot dog e mostarda

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Espanha: paella e chorizo

Espanha: paella e chorizo

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China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

China: pitaia (fruta do dragão) e carambola

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Austrália: torta de carne enfeitada

Austrália: torta de carne enfeitada

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Vietnã: rambutan, litchi e carambola

Vietnã: rambutan, litchi e carambola

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Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

Reino Unido: scone, queijo cremoso e geleias

Interligne 28aTurquia

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Turquia: turkish delight (= locum)

Turquia: turkish delight (= locum)

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Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

Suíça: carne defumada e queijo Emmenthal

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Coreia do Sul: gimbap e molhos

Coreia do Sul: gimbap e molhos

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Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

Brasil: folha de bananeira, limão galego, abacaxi e maracujá

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Crédito das fotos: Diego González, editor do blogue Fronterasblog.com

O aprendizado é longo

José Horta Manzano

Viagem de chefe de Estado ao estrangeiro não é algo banal. Por razões de segurança, importante preparação logística precede a visita. Tudo é estudado, pensado, inspecionado ‒ desde o alojamento onde o visitante vai-se hospedar até a comida que lhe será servida.

Um dos momentos mais observados, que fará certamente manchete na mídia, é a descida da escadaria do avião. Todo um ritual envolve a recepção. Não se deve descer escadaria de avião presidencial como quem descesse a escada de casa, indo do quarto para a sala.

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Chegada de Michel Temer a Goa (Índia), 15 out° 2016

Essa tropa que se vê na foto, descendo todos ao mesmo tempo como um bando de turistas, pega mal pra caramba. Mostra que nossos especialistas em cerimonial ainda não apreenderam certas sutilezas. Ou, pior, deixa claro que o andar de cima ainda não absorveu a lição.

Comportamentos que se podiam relevar num Lula ou numa Dilma são inadmissíveis numa equipe civilizada.

Observe o distinto leitor como fazem outros chefes de Estado. Além da esposa ‒ e, eventualmente, de membros da família ‒, ninguém mais desce a escada ao mesmo tempo. Primeiro, espera-se que o número um seja recebido. Só então, sai o resto da turma. Preste atenção.

Ainda não chegamos lá.

O patinho feio

José Horta Manzano

Com o impeachment e os Jogos Olímpicos ocupando corpo e mente, outras notícias vão irremediavelmente pra segundo plano. Sobra pouco espaço. Assim mesmo, procurando bem, sempre se encontra um detalhe interessante aqui, um pormenor curioso acolá.

O respeitado Ipsos ‒ Institut Politique de Sondages et d’Opinion Sociale ‒ é grupo internacional de origem francesa dedicado a pesquisa de opinião. Semana passada, um mês depois de os britânicos terem declarado a intenção de abandonar a União Europeia, publicou pesquisa interessante.

IpsosPediram, a mais de doze mil adultos em 16 países, opinião sobre o Brexit, ou seja, se achavam que o voto britânico tinha representado um passo na boa direção. Sem muita surpresa, entre os países da UE, 58% se mostraram reticentes à decisão do Reino Unido. Acreditam ter sido um erro.

Até eleitores de países que não integram o bloco dão parecer negativo à decisão britânica. A única exceção foi a Rússia, cujos entrevistados veem com simpatia o desmantelamento da UE. É compreensível.

O que me chamou a atenção, na pesquisa, não foi tanto o resultado quanto a escolha dos países a sondar. Dos 16, nove fazem parte da União Europeia, seleção lógica. Estão lá o próprio Reino Unido além de todos os grandes: Alemanha, França, Itália, Espanha. Outras quatro nações de médio porte completam o quadro.

Fora do bloco, o instituto procurou, naturalmente, escolher países importantes, daqueles cujo peso faz diferença no planeta. Aqui estão os sete finalistas: Estados Unidos, Canadá, Japão, Rússia, Índia, África do Sul e Austrália.

Bandeira UE UKTive de ler duas vezes pra ter certeza. Estão lá a Índia, a Austrália e até a África do Sul, mas o Brasil falta. O instituto há de ter considerado que sul-africanos e indianos estão mais bem informados que brasileiros. Ou que são mais politizados. Ou donos de espírito crítico mais firme.

Compreendo que a China não tenha sido incluída na seleção. Apesar do peso econômico do país, alguns problemas de liberdade de expressão individual persistem. Dá pra entender.

Mas… e o Brasil? Por que teremos sido deixados de lado? A pergunta deve ser feita ao instituto. Pensando bem, talvez seja melhor nem perguntar. A resposta pode ser aflitiva e desmoralizante. Parece que o Brasil se autoexcluiu da nata das nações. Sem plebiscito, num Brasex silencioso.

O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

A força dos passaportes

José Horta Manzano

Você sabia?

Símbolo de passaporte biométrico

Símbolo de passaporte biométrico

Passaporte, palavra tomada emprestada do francês passeport, é o livreto que cidadãos devem levar consigo ao atravessar fronteiras. Na origem, esse documento não se referia a pessoas, mas a mercadorias.

Na Europa do final da Idade Média, a precariedade das estradas e os perigos que as rondavam desencorajavam viagens terrestres. O transporte de bens era feito principalmente por via fluvial ou marítima. Assim, para deixar o lugar de origem e chegar ao destino, toda mercancia tinha de passar por portos ‒ daí o nome do documento.

A intensificação das trocas comerciais deu, aos poderosos e aos que detinham posições estratégicas, a ideia de cobrar pela passagem ou pela estadia de barcos. Bulas, ofícios, cartas de transporte e documentos vários foram surgindo. Entre eles, o passeport, que atestava que a mercadoria estava nos conformes.

Em nossos dias, documentos específicos continuam a ser emitidos para bens que cruzam fronteiras: conhecimento aéreo ou marítimo, fatura comercial, licença de importação ou de exportação. Já o termo passaporte perdeu a conotação comercial e passou a designar o documento que autoriza indivíduos a viajar de um país a outro.

Passaporte 1Em princípio, todos os passaportes são iguais. Na prática, uns são mais iguais que outros. A força do documento de viagem é medida pelo número de países cuja fronteira o titular pode atravessar sem precisar de visto. Quanto maior for o número de países aos quais um passaporte dá acesso sem necessidade de visto, mais «forte» será considerado o documento.

Um portal especializado analisa os passaportes emitidos por 199 países e os classifica pelo número de portas que cada um abre sem precisar pedir licença. Nestes últimos 13 anos, o governo brasileiro tentou aproximação com países olhados com desconfiança pelo resto do mundo. Falo de Irã, Cuba, Coreia do Norte, Guiné Equatorial, Venezuela. Apesar disso, nossa classificação (ainda) não parece ter sido prejudicada.

Classificados por ordem de «força», os passaportes dos EUA e do Reino Unido aparecem em primeiro lugar. Seus titulares podem entrar em 147 países sem pedir visto. Na segunda posição, empatam Alemanha, França e Coreia do Sul, com 145 países. Logo em seguida, em terceiro, aparecem Itália e Suécia, com 144 passes livres.

Passaporte brasileiro 2O Brasil surge em 17° lugar, empatado com Romênia e Mônaco. Cidadãos brasileiros podem visitar 128 países sem necessidade de visto. Os numerosos empates, porém, podem falsear a compreensão. Será mais claro dizer que cidadãos de 41 países são mais livres que nós na hora de viajar.

Mas há pior. Todos os outros componentes do Brics concedem a seus cidadãos passaporte menos poderoso que o nosso. Um russo tem direito de visitar apenas 98 países sem pedir visto. Um sul-africano pode viajar a 84 países; um chinês, a 74; um indiano, a somente 59. É um dos raros quesitos em que ultrapassamos os outros ditos emergentes.

Quem estiver interessado na lista completa deve clicar aqui.

Cadeira cativa

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 out° 2015

Onu 3Ano sim outro também, o ritual se repete: terminadas as férias de verão do Hemisfério Norte, abre-se mais um ano de trabalho na ONU. E lá vai nosso presidente, a quem cabe discursar em primeiro lugar. Segue-se uma cachoeira de alocuções em línguas sortidas. O espetáculo se desenrola sobre fundo de granito verde-imperial muito chique – pedra que, aliás, é bem capaz de ter sido extraída de nosso solo.

Este ano, à guisa de aperitivo à liturgia, fomos mimoseados com um conciliábulo apelidado G4, que reuniu quatro mandatários. Observe-se, en passant, que o costume atual de atribuir número a reunião de medalhões (G4, G7, G20) é sintomático. Realça o fato de os objetivos dos participantes não serem necessariamente concordantes. Foi-se o tempo em que alianças tinham propósito bem estruturado e compartilhado, donde a atribuição de nome próprio como Entente Cordiale ou Pacto de Varsóvia. A acertos efêmeros, números bastam.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão irmanaram-se, por um instante, na reivindicação de uma reforma da ONU que lhes conceda assento permanente no Conselho de Segurança. Cada qual desses países é movido por um conjunto de interesses que lhe dizem respeito. O traço comum, sem hesitação, é a busca do prestígio perdido. Ou nunca havido.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Cúpula de candidatos a assento permanente no C.S.

Alemanha e Japão, gigantes industriais e econômicos, procuram recuperar a aura que a derrota na última guerra lhes tolheu. A Índia, país populoso, em franca ascensão e – ponto não desprezível – dotado de armamento nuclear, também aspira a sentar-se à mesa dos grandes. Quanto ao Brasil, a justificativa é menos nítida. No frigir dos ovos, o olhar que o mundo lança sobre nosso país não é muito diferente do de setenta anos atrás, quando a Organização das Nações Unidas foi fundada. Senão, vejamos.

Já naquela época, o Brasil era visto como país de futuro promissor, mas de modesta importância militar, industrial, econômica e diplomática. Se as últimas décadas renderam progresso a nosso país, não há que perder de vista que as demais nações, longe de terem parado no tempo, também se desenvolveram e avançaram. Ao fim e ao cabo, o posicionamento relativo do Brasil no conjunto dos Estados não está lá tão distante do que era em 1945.

ONU - Conselho de Segurança

ONU – Conselho de Segurança

Ilude-se, portanto, quem faz abstração das mudanças alheias e só leva em consideração as transformações pelas quais passamos nós outros. A população de alguns países cresceu mais que a nossa. Alguns deles se aplicaram e conseguiram industrializar-se mais rapidamente que nós. Um ou outro optou por dotar-se da arma nuclear. Diligências diplomáticas constantes fizeram que certos países, por se terem mostrado mais atuantes, nos superem hoje em relevância.

Cadeira permanente no Conselho de Segurança é assunto pra lá de delicado. Titular nenhum abre mão da que lhe cabe. Qualquer país que pretenda entrar para o clube pode até ser bem-visto por uns, mas desagradará a outros. Basta que uma das cinco potências com direito a veto bote empecilho, e pronto: o candidato não passa da soleira. Reforma do sistema? Nem pensar, que não serve ao interesse dos atuais membros permanentes. Por que a fariam?

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Campo de refugiados sírios, Zaatari, Jordânia

Com tantos problemas por resolver, mais graves e mais urgentes, o Brasil deveria economizar energia e evitar arriscar-se num pleito cujas chances de dar certo são próximas de zero. No dia em que uma reforma for anunciada – o que está longe de acontecer – aí, sim, terá chegado o momento de reivindicar vaga. Por enquanto, é perda de tempo. Essa atitude de pedinte é humilhante e constrangedora.

Asilo 4Nossa industrialização vem encolhendo há vários anos, o que não nos torna mais poderosos no conjunto das nações. Nossa participação proporcional nas trocas comerciais globais não progride há décadas. Seria útil começar por assumir postura diplomática séria e coerente. Milhões de sírios deslocados pela guerra civil estão imersos na precariedade. O Brasil mostraria grandeza se, por exemplo, fizesse o necessário para acolher uma parcela desses infelizes. Que, pelo menos, nos apliquemos a promover uma diplomacia digna de nação adulta e consciente.

Que não nos contentemos em ser um Brasil grande, mas que nos esforcemos para nos tornar um grande Brasil. Não custa caro e está ao alcance de nossas possibilidades. A persistir em deixar como está pra ver como fica, continuaremos pagando, à prestação, nosso bilhete de volta ao Terceiro Mundo. E olhe que faltam poucas folhas para chegar ao fim do carnê.

Confeitura

José Horta Manzano

Confiture 5No Hemisfério Norte, onde vive a maior parte da humanidade, a primavera está chegando timidamente. Folhas brotam, flores se abrem, a paisagem fica cada dia mais colorida. E os frutos começam a dar o ar da graça.

Os primeiros são os morangos, já presentes em quitandas e supermercados desde o mês de março. Depois virão cerejas, melões, pêssegos, abricós, ameixas, peras, maçãs, uvas e, pra fechar o ano, laranjas.

Confiture 2Hoje em dia, nem tem mais graça: o mercadinho da esquina oferece, o ano todo, frutas fora de estação. Em pleno dezembro, há cerejas do Chile. Em maio, uvas da Índia ou da África do Sul. Mangas do Brasil e abacaxis da Costa do Marfim encontram-se o ano todo. Fazem companhia às bananas onipresentes, todas iguaizinhas, da mesma cor, sem pintinhas e… cá entre nós: sem gosto. Pior: com gosto de remédio.

Abrindo parênteses, acho um despropósito comprar frutas fora de época, daquelas que atravessaram meio planeta de avião, gastando querosene e poluindo. Mas há quem não pense assim. Cada cabeça, uma sentença. Fechem-se os parênteses.

Confiture 1Se a tecnologia e a logística atuais põem praticamente todas as frutas à nossa disposição o tempo todo, nem sempre foi assim. Tempo de morango era março-abril, ponto e basta. Fora daí, necas de pitibiriba. E fruta não se pode guardar, que logo apodrece. Como faziam os antigos?

Não sei quem terá tido a ideia de cozinhá-las no açúcar. Foi um achado! Cozidas e guardadas num recipiente bem fechado, podem durar anos. Sem geladeira, sem sal, sem aditivo.

Confiture 6Praticamente todos os europeus mantêm a tradição de conservar frutas em açúcar. Franceses, ingleses e alemães costumam consumir essas doces «memórias de verão» no café da manhã, em pleno inverno. E no resto do ano também, uai. Espanhóis e portugueses também apreciam, mas com menor intensidade.

Confiture 4No Brasil, não são componente indispensável do café da manhã. Café, leite, pão, manteiga, sim. Geleia – que é como chamamos – é optativo. Há mesas em que está sempre presente. E há gente que jamais comprou um pote.

Os franceses dizem «confiture». Espanhóis preferem «mermelada». Ingleses reservam «marmalade» para cítricos; para outras frutas, usam «jam». Já os italianos dizem «marmellata» em todos os casos. Alemães hesitam entre «Konfitüre» e «Marmelade».

O vocabulário da Academia Brasileira de Letras registra a forma peculiar confeitura. Na vida real, nunca ouvi ninguém utilizar esse termo. O nome usual é geleia ou, mais raramente, doce. Confesso desconhecer o uso lusitano. Se algum distinto leitor me puder iluminar, fico sensibilizado.

Confiture 3Toda mulher europeia – e muito homem também – costuma fazer geleia em casa, conforme vão aparecendo as frutas da estação. Faz-se o doce, despeja-se num pote de vidro, fecha-se hermeticamente, põe-se uma etiqueta e pronto: vai para o fundo do armário. Em geral, a quantidade de potes é superior à que se consumirá até o ano seguinte. Que fazer pra não acumular doce antigo?

Pois nesta época em que frutas frescas reaparecem, é comum as pessoas serem acometidas de súbita generosidade. Por um sim, por um não, todos se dão de presente potes de geleia do ano anterior. É pra esvaziar prateleira e abrir espaço pra novas conservas. Semana passada, recebi presente assim de duas pessoas.

Interligne 18hPS:
Nossa expressão «ser apanhado com a boca na botija», usada quando alguém é surpreendido ao agir de maneira indevida, tem equivalente em francês. É «se faire prendre les doigts dans le pot de confiture» – ser apanhado com os dedos no vidro de geleia. Pra você ver o valor que se dá a esse tesouro armazenado no fundo do guarda-comida.

Joões que choram, joões que riem

José Horta Manzano

Campo de colza na Europa

Campo de colza na Europa

O azar de uns…
A insatisfação de caminhoneiros anda fazendo a infelicidade de muitos no Brasil. Nos anos 1960, a rodovia primeiro suplantou, depois dizimou toda atividade ferroviária. Desde então, a economia do País tornou-se dependente do caminhão. Qualquer perturbação no movimento de carga pesada tem reflexo imediato dos montes roraimenses às coxilhas gaúchas.

… faz a felicidade de outros
Mas a balança tem dois pratos. Se um baixa, o outro, necessariamente, tem de subir. O Brasil, grande fornecedor de soja, não é o único produtor de alimento animal. Outras partes do mundo cultivam outras comidas pra bicho.

Nos países de clima fresco, uma planta anual resultante de antiquíssimo cruzamento entre repolho e nabo está entre as três principais fontes de óleo vegetal de regiões temperadas: é a colza. O girassol e a oliveira completam o trio das estrelas oleaginosas.

Campo de colza em andares

Campo de colza em andares (terraços)

Um campo de colza é esteticamente muito bonito. Lá pelo mês de abril-maio, suas flores amarelas enfeitam a paisagem. Da colza, planta polivalente, extrai-se óleo comestível, etanol e alimento animal.

A canola, termo familiar ao brasileiro, é uma variedade de colza desenvolvida no Canadá.

Os dez maiores produtores mundiais são os seguintes:

Interligne vertical 16 3Kb1°) Canadá
2°) China
3°) Índia
4°) França
5°) Alemanha
6°) Austrália
7°) Reino Unido
8°) Polônia
9°) Ucrânia
10°) Estados Unidos

Flor de colza

Flor de colza

Exatamente como a soja, a colza também é cotada nas bolsas de matérias-primas. Com o tráfego bloqueado e a soja fermentando na carroceria de caminhões brasileiros, o que é que aconteceu? Um doce pra quem adivinhar.

É claro: a cotação da colza subiu. A balança começa a pender pro outro lado. É a lei da gangorra.

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(*) A palavra colza é contribuição dada ao mundo pela língua holandesa. O original é koolzaad (= semente de repolho).

Morreu de medo…

José Horta Manzano

Suisse 7Estes dias, realiza-se o Fórum Econômico Mundial, simpósio que, ano após ano, congrega os grandes deste mundo durante alguns dias em Davos, Suíça. Em seus tempos de esplendor, nosso guia fazia questão de comparecer e aparecer. Este ano, quarenta chefes de Estado fizeram questão de estar presentes, assim como 1500 dirigentes de multinacionais – um total de 2900 participantes.

É possível que a Mongólia não tenha enviado representante. É também provável que nenhum responsável do Haiti ou do Butão esteja presente.

Pelo ordenamento constitucional brasileiro, os cargos de chefe de Estado e de chefe do governo são exercidos pela mesma pessoa. Atualmente, dona Dilma Rousseff encarna esse superpersonagem.

Suisse 4Pois dona Dilma, mostrando que sua autoestima anda mais baixa do que se imagina, fez saber que preferia desdenhar a Suíça e prestigiar a reentronização de seu ídolo Evo Morales. A escolha há de ser fruto de um daqueles ataques de voluntarismo de que nossa presidente é vezeira. Recuso-me a acreditar que seus assessores, posto que sejam tacanhos, lhe tenham aconselhado trocar Davos por La Paz.

A ausência da figura maior da nação brasileira no fórum assinala marcha à ré na política de projeção mundial entabulada por nosso guia doze anos atrás. Põe a perder o esforço – às vezes atabalhoado, mas sincero – de alçar o nome do Brasil entre as potências planetárias.

Suisse 6Não acredito em escolhas ideológicas. Se dona Dilma faltou à reunião, foi por orgulho. Fugiu para escapar às críticas e à reprovação a seu modo de gerir a coisa pública. O mundo sabe, hoje, que a gestão de seu primeiro quadriênio foi calamitosa. Todos sabem também que nada de auspicioso se apresenta para o futuro próximo.

Resultado: como em reuniões familiares, fala-se mal dos ausentes. O economista-chefe do IHS – instituto americano de análise econômica e tecnológica – chegou a qualificar de «moribundo» o estado de saúde do Brasil. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Índia e o México estão no foco da admiração. De fato, ninguém gosta de quem anda pra trás.

Suisse 5Dona Dilma tem perdido apoio internamente. Sua renúncia a representar o país em reuniões importantes periga ser interpretada como renúncia do Brasil a participar do clube dos grandes deste mundo. Nosso guia há de estar desgostoso.

De criança, a gente cantava um refrãozinho de deboche que assenta bem na atual chefe do Estado brasileiro. Começa com «Morreu de medo…». E termina com «… no dedo».

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

A UNODC – Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime – publicou a edição 2013 de seu Estudo Global sobre Homicídios, baseado em dados de 2012. Quem estiver interessado pode obter o original aqui (em inglês).

Assalto 2Quando o assunto é brutalidade, a gente já começa a folhear o relatório com certo temor. O País que nos interessa dificilmente aparece em boa posição. Notícias encorajantes são raras. Dito e feito.

Nosso Brasil detém um triste recorde: em números absolutos, é campeão mundial de assassinatos. Foram mais de 50 mil(!) no ano de 2012. Isso dá quase mil por semana, perto de 140 por dia. Um a cada dez minutos, minha gente! Quando você chegar ao fim deste artigo, alguém terá sido assassinado em território nacional. Quem foi mesmo que classificou nosso País como cordial, acolhedor e pacífico?

Comparar nossa situação com a da Dinamarca ou a do Japão é covardia. A situação não é a mesma. O estágio civilizatório é diferente. O número de habitantes é distinto.

Mas vale comparar com os outros três componentes da sigla Bric. São todos considerados ‘emergentes’, têm território imenso, população numerosa e renda per capita média. Comparei. Ficou assim:

País         Total    Por 100mil
—————————————————————————————————-
Brasil      50.108      25,2
Rússia      13.120       9,2
Índia       43.355       3,5
China       13.410       1,0

A primeira coluna dá o total de humanos assassinados em 2012. A segunda mostra o número anual de homicídios por 100 mil habitantes. Os dados da China são de 2010, mas a taxa de homicídios vem caindo por lá ano após ano. Nos últimos oito anos, caiu pela metade.

Revolver 1Em conclusão, para um assassinato na Rússia, há 3 no Brasil. Para cada indiano trucidado, trucidamos quase 8 brasileiros. E – este dá vergonha – para cada homicídio chinês, respondemos com 25 cidadãos massacrados.

Dei mais uma olhada. Queria saber onde se situam os campeões mundiais em morticínio per capita, ou seja, onde é que se mata proporcionalmente mais. O resultado é inapelável: os primeiros 35 lugares da lista são ocupados por países americanos e africanos. São 19 da América e 16 da África. Os olhos precisam passear até o 36° lugar para encontrar o primeiro não americano e não africano. Trata-se do obscuro Quirguistão, que poucos saberiam situar num mapa-múndi.

Crime 1Dos países americanos, apenas dois estão propriamente na América do Sul: Venezuela e Brasil. Os outros fazem parte da América Central e do Caribe. O campeão mundial disparado neste gênero de esporte é Honduras. Com a impressionante taxa anual de mais de 90 homicídios por 100 mil habitantes, deixa El Salvador, segundo colocado, comendo poeira.

Ganha um bilhete de ida simples para Tegucigalpa (capital de Honduras) quem explicar por que razão a taxa de homicídios vem subindo no Brasil enquanto desce nos demais Bric.

A China e seus satélites

José Horta Manzano

Quando dois ou mais se juntam para formar um clube, há que haver objetivo comum. Se assim não for, não faz sentido.

Em 2001, Terence James O’Neill, economista inglês funcionário do banco de investimento Goldman Sachs, conjecturava sobre a evolução da economia mundial para os 50 anos seguintes. Considerou que quatro grandes países tinham condições não só de figurar em primeiro plano, mas até de desbancar economias tradicionais.

Comparação entre os sócios do "Brics"

Comparação entre os sócios do “Brics”

Esses países – atualmente chamados «emergentes» – são o Brasil, a Rússia, a China e a Índia. Todos eles têm superfície extensa e população numerosa. Seguindo a tradição inglesa, o economista logo procurou combinar a primeira letra do nome de cada um dos países para formar um acrônimo. Podia ter sido Crib, Irbc, Bcir, Ricb – todos difíceis de pronunciar. Bric pareceu-lhe mais palatável. E assim ficou.

O mundo comprou a conjectura de O’Neill pelo valor de face: uma elucubração sem efeito prático, nada mais. Os quatro países, de fato, têm pouca coisa em comum. As diferenças são mais importantes que as semelhanças. Em alguns aspectos, as disparidades são enormes: população, religião dominante, clima, base econômica são exemplos gritantes.

No entanto, Nosso Guia há de ter farejado no acrônimo inventado pelo inglês boa oportunidade de subir um degrau e tornar-se – por que não? – guia global. Já pensou? Fez o que pôde para promover encontros e reuniões de cúpula. Por inércia, desembocamos no projeto de criação de um banco comum de desenvolvimento.

No meio do caminho, a África do Sul foi agregada ao acrônimo não se sabe exatamente por quê. Talvez para acrescentar um «s». Talvez para incluir um membro em cada continente e dar, assim, importância global ao grupo. A Indonésia teria sido escolha mais coerente.

Um banco de fomento? Para o Brasil, não vejo bem o interesse. Já temos nosso BNDES. Injetar nosso suado dinheirinho num banco que financiará projetos na Índia? Ou na Rússia? Como perguntaria o outro: que vantagem Maria leva?

A economia chinesa é, de longe, superior à soma do PIB dos outros membros do «clube». A dissimetria é abissal. Em teoria, pode até parecer que os sócios têm peso igual. Na hora do vamos ver, todos funcionarão como satélites da China. Duvido que algum projeto contrário aos interesses chineses seja aprovado. Não se pode dizer o mesmo dos interesses brasileiros.

Cerimônia de fundação do Banco del Sur

Cerimônia de fundação do “Banco del Sur”

Tirando a projeção mundial que Nosso Guia contava obter para sua humilde pessoa, não vejo que interesse o Brasil tem nesse projeto de banco. Nosso Guia, abatido pelos atuais dissabores, segue caminho descendente. As últimas eleições mostraram a perda de embalo de seu partido. Nem poste ele consegue mais plantar. Acredito que já tenha perdido as esperanças de tornar-se o pai mundial dos pobres.

O presidente do conselho de administração do novo banco será indicado pelo Brasil. É posição honorífica, nada mais. No novo banco, nenhum «companheiro» há de se lambuzar como têm feito no BNDES e na Petrobrás. Chinês, além de desconfiado, é pra lá de cioso com dinheiro.

É possível e bastante provável que esse banco tome o mesmo caminho do Banco del Sur – lembra-se dele, distinto leitor? –, aquela fantasiosa invenção chavista endossada pelo Lula. Nasceu em 2009 e continua no papel até hoje. Era golpe de marketing. Caiu no esquecimento.

Você votou em quem você votou?

Fernão Lara Mesquita (*)

Urna 5A resposta é que você nunca saberá.

É com anos de atraso, num mau momento e possivelmente até com algum rabo preso, como se verá abaixo, que o PSDB pede à Justiça Eleitoral uma auditoria do sistema eletrônico de votação brasileiro por uma comissão de especialistas indicados por todos os partidos.

Mas antes tarde do que nunca. As queixas são recorrentes, o Brasil vai na contramão do padrão mundial, e é função de um partido dar satisfação a seus representados.

Que a máquina brasileira de votar não tem segurança é ponto pacífico. Nada que lide com softwares e bits tem segurança. Isso está provado por testes que quebraram a segurança da nossa urna eletrônica não só nas medidas destinadas a evitar a identificação do voto com o respectivo eleitor, como também nas medidas para impedir que softwares maliciosos atribuam o voto de um eleitor a um candidato diferente daquele em quem ele votou.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Esses testes foram feitos, e falhas de segurança foram identificadas desde as primeiras eleições computadorizadas no País. Não só por brasileiros como também por americanos da Universidade de Princeton, especialistas em máquinas similares às nossas (do ponto de vista tecnológico, não na aparência) produzidas pelo mesmo fabricante das brasileiras – que, aliás, é alvo de um monte de processos por corrupção nos EUA.

urna 4Mas o que há de escandaloso no caso brasileiro é que, apesar de todas essas provas de falta de confiabilidade da máquina, do acúmulo de queixas em eleições passadas (94 municípios registaram queixas de fraude na eleição de 2012), das centenas de vídeos que circulam na rede mostrando casos pontuais pra lá de estranhos em locais de votação de diversos estados e das provas diárias de que nem os computadores do sistema financeiro nacional e internacional, da Casa Branca ou do Pentágono estão imunes a invasões ou fraudes, mantém-se em pé, com argumentos pífios, uma suspeitíssima barreira para impedir a introdução de contraprova física das nossas votações. Um documento que possa ser conferido manualmente como se faz em todos os países do mundo com votações eletrônicas. São só duas as exceções: o Brasil e a Índia.

(*) Este é excerto de artigo publicado pelo jornalista Fernão Lara Mesquita em seu blogue. Para ler na íntegra, clique aqui.

O banco do Brics

José Ronaldo Saad (*)

A propósito da recente criação do banco CRA, banco do Brics, faço um comentário.

Por mero cálculo aritmético, verifica-se que o rateio do investimento dos cinco países se baseou na média de três índices: população, PIB, renda per capita. O aporte de cada um foi (em bilhões de dólares): China: 41, Índia: 18, Brasil: 18, Rússia: 18, África do Sul: 5.

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe. by Paresh Nath, desenhista indiano

A criação de nosso banco de desenvolvimento não está longe.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Ocorre que o terceiro índice (renda per capita) teria de ser descartado por dissimular uma falácia. Como ele é a relação entre PIB e população ― já devidamente computados nos dois primeiros critérios ― sua consideração é redundância equivalente ao notório expediente de “dar com uma mão para tirar com a outra”.

Ou seja, neste último indicador a população entra como denominador de uma fração, diminuindo sensivelmente o correto aporte dos países mais populosos ― a China e a Índia ―, justamente os gigantescos países asiáticos que mais precisam da infraestrutura para a qual o fundo foi específicamente criado. Hermanos vizinhos!

A média legítima seria obtida se se levassem em conta unicamente população e PIB. O rateio deveria ficar assim (em bilhões de dólares): China: 52.4, Índia: 26.3, Brasil: 10.3, Rússia: 9.0, África do Sul: 2.0.

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar. by Paresh Nath, desenhista indiano

Chegamos a um acordo para um mundo multipolar.
by Paresh Nath, desenhista indiano

Como ficou, a China e a Índia deixaram de aportar 11,4 e 8,3 bilhões (22% e 32% de vantagem). Brasil, Rússia e África do Sul, investiram a maior 8, 9 e 3 bilhões respectivamente, chegando a 75%, 100% e 150% de desvantagem.

Não é à toa que os indianos são os maiores matemáticos do planeta. E adivinhem quem será o primeiro presidente?

Mais uma copa perdida?

in Tribuna da Imprensa, 16 jul° 2014.

Vamos de férias?

José Horta Manzano

Você sabia?

A revista Manager Magazin, do grupo editorial alemão Stern, anunciou estes dias o resultado de uma pesquisa interessante sobre o tempo de lazer ao qual têm direito os assalariados de dez países selecionados. O estudo, publicado sexta-feira última no meio da ponte do feriado de 1° de maio, caiu como uma luva.

Pelo levantamento da revista, o «país do samba, do Carnaval e do futebol», com 30 dias de férias legais e 11 feriados, encabeça a classificação. O único país que se lhe pode cotejar é a Lituânia. No resto do mundo, ninguém tem direito a tantos dias de folga.

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados Azul: número de dias de férias legais Verde: dias feriados

Férias e feriados ― comparação entre 10 países selecionados
Azul: número de dias de férias legais
Verde: dias feriados

Franceses e austríacos, que contam respectivamente com 40 e 38 dias por ano, não podem se queixar. Bem abaixo, vem a Alemanha com seus 20 dias de férias e 10 feriados.

Na rabeira, aparecem a China e o Canadá. Pequim concede a seu povo 10 dias de férias mais 11 feriados. Ottawa também garante 10 dias de férias mas somente 9 feriados. Os EUA, se aparecessem na na lista, se situariam entre a Índia e a China, com um total de 25 dias de folga.

Quando relatou a Dom Manuel I o achamento da nova terra, Pero Vaz de Caminha sublinhou: «a terra é de tal maneira tão maravilhosa que em se plantando dar-se-á nela tudo».

Infelizmente, Pero Vaz não deixou explícito quem deveria se encarregar do plantio. Até hoje estamos esperando que alguém o faça. Enquanto isso, vamos de férias, moçada, que ninguém é de ferro!

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PS: Os feriados especiais previstos no Brasil em função da «Copa das copas» não estão incluídos. Entram na categoria das receitas não-contabilizadas.

Os dois tabus

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jan° 2014

Desde que o mundo é mundo, a humanidade cultiva dois temas sensíveis: raça e religião. Lidar com eles requer prudência e tacto. Evitar acidentes é dever de todos.

Embora a razão de ser de toda religião seja a crença na continuação da vida após a morte física, a diversidade de ritos, dogmas, preceitos, obrigações, proibições é notável. Cada credo tem seu catálogo de regras. O assunto, delicado, é daqueles que se hão de tratar com luvas e pinça. Muita guerra já se travou e muita gente já morreu por divergências religiosas.

O Brasil teve sorte. As práticas animistas dos habitantes originários e o aporte de tradições africanas atenuaram a rigidez e o dogmatismo de colonizadores e de imigrantes. Embora nem sempre nos apercebamos disso, é de reconhecer que não padecemos de conflitos religiosos. Vão longe os tempos da Controvérsia de Valladolid, da Inquisição e das conversões forçadas. O afluxo de gente de vários quadrantes incutiu tolerância à índole nacional.

Visto assim do alto, esse traço de nosso caráter pode até parecer banal. Pois não é. Há pontos no globo onde ainda se luta por divergências de fé. Como prova, estão aí a Irlanda do Norte, o Egito, o Sudão, o Tibete. Até na Europa Ocidental, fricções de ordem religiosa obrigam parlamentos a legislar sobre vestimenta feminina ― o porte da burca ou do véu islâmico, por exemplo. Em nossas terras, a sunga e o fio dental já cuidaram de banir esses rigores. Nosso problema está resolvido.

Stop racismo! Crédito: harrycutting.com

Stop racismo!
Crédito: harrycutting.com

O racismo, outro tema sensível, planta raízes nos estratos mais primitivos do subconsciente. É a manifestação da desconfiança que dedicamos aos que não pertencem a nosso clã. Na prática, esse sentimento se exprime através da repulsa aos que têm cor de pele diferente da nossa, que não falam nossa língua, que não se comportam como nós. Em resumo: rejeitamos o que foge à norma.

Países onde coexistem etnias diferentes costumam ser palco de fricções. Um nada pode provocar conflitos. Essa intolerância está na raiz de atritos crônicos na Palestina, na Síria, no Iraque, na Índia, na Rússia. Na mesma linha, rebeliões nas periferias francesas e surtos de violência nos EUA nos lembram que a paz racial está longe de ser conquista planetária.

Múltiplos fatores forjaram o Brasil. Temos qualidades de fazer inveja: clima agradável, gente afável, ambiente tolerante, povo acolhedor. Mas arrastamos problemas pesados: corrupção, paternalismo, baixa instrução crônica, gritantes disparidades econômicas.

«Deus é brasileiro», dizemos às vezes. Pois olhe, ainda que não passe de um dito jocoso, o fato é que, até hoje, conseguimos escapar da armadilha dos dois grandes tabus. Costumamos encarar com bonomia a diversidade religiosa de nosso povo. Tem até gente que professa duas religiões! A fé ― ou a descrença ― de cada um não constitui obstáculo à convivência. Na esfera racial, a intensa miscigenação do povo brasileiro é a prova maior de que a tolerância e a flexibilidade são a regra, não a exceção. E é melhor assim.

Sabe-se lá por que, de uns anos para cá, o ideal de igualdade e de unidade que alicerça nossa sociedade vem sendo artificialmente solapado. O elenco de normas oficiais passou a dispensar tratamento diferente a determinadas categorias de cidadãos segundo critérios raciais. Cotas e quilombos ― noções inexistentes até há pouco tempo ― entraram na pauta da modernidade brasileira.

A intenção, apesar de leviana, foi nobre. Já o resultado, a médio prazo, pode escorregar para uma ladeira perigosa e não prevista. «Discriminação positiva» é conceito ambíguo: positiva ou negativa, discriminação será sempre discriminação. Para subir de um lado, a gangorra tem de descer do outro. A cada vez que um grupo de cidadãos for privilegiado, a lógica elementar ensina que outro grupo será obrigatoriamente defraudado.

Stop racismo!

Stop racismo!

Políticas desse jaez trafegam na contramão do processo civilizatório ― são danosas para a consolidação de um sentimento de unidade nacional. Pelo contrário, podem atiçar melindres raciais, semear ressentimentos e abalar a concórdia que costumava reinar entre nós.

Se o nível de instrução pública é baixo, que se faça o necessário para elevá-lo. Dar como favas contadas que alguns são menos instruídos que outros unicamente por terem cor de pele diferente é generalização barata, uma falácia, uma ofensa. Estamos cutucando a onça com vara curta. Cuidado, ela pode se enervar!

Que a aragem leve do novo ano sopre sabedoria a nosso legislador. Mais vale recuar enquanto é tempo. Feliz ano-novo a todos!

Melhores destinos para expatriados

José Horta Manzano

O marketing governamental carece de visão de futuro. Pode ser instrumento excelente para tapar buracos pequenos e imediatos, mas, no capítulo das previsões, é um desastre. Só se dá conta dos problemas quando já aconteceram. E aí, é mais difícil dar jeito. Precisa competência, artigo raro entre nossos mandarins.

Assim como o Brasil tem o Valor Econômico, publicação que preencheu o vazio deixado pela extinção da Gazeta Mercantil, a França tem as revistas Capital e Management. A versão online das duas está alojada no sítio Capital.fr.

Mês passado ― antes dos protestos das ruas brasileiras ― o especialista publicou um interessante artigo, bastante documentado, com recomendações aos franceses que pretendem se estabelecer no estrangeiro.

Bandeiras do mundo Para onde ir?

Bandeiras do mundo
Para onde ir?

Descreve, com os comos e os porquês, os oito países mais interessantes para os futuros expatriados. Atenção: não estamos mais falando da imigração de 100 anos atrás, quando levas de agricultores pobres e iletrados saíam em busca de vida menos apertada. Falamos aqui de deslocamento voluntário de gente que tem formação técnica ou intelectual e competência para exercer funções de responsabilidade.

Para cada um dos países, o artigo indica quais são os setores onde os expatriados terão melhores chances de descolar uma boa posição. Dá também algum conselho útil para quem chega a terra desconhecida.

Os oito países são: o México, a Índia, a República Dominicana, a Turquia, a Indonésia, o Marrocos, a Suíça e a Hungria. Não necessariamente nessa ordem.

Notou falta de alguma coisa? Pois é, eu também reparei. Falta o Brasil, o novo eldorado cantado em verso e prosa pelo marketing oficial.

É assaz incômodo ficar sabendo que empresários estrangeiros nos enxergam como um país com menos oportunidades que um México ou uma Indonésia. Pior: na visão deles, até Índia e República Dominicana nos ultrapassam.

Que outras realidades o marketing do Planalto nos oculta?

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