Do Brasil para o mundo!

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil e da maioria dos países americanos, o papel da rádio-televisão estatal é secundário. No Brasil, especialmente, a radiodifusão pública resume-se a meia dúzia de estações de cunho eminentemente local.

Assim ficou definido desde que surgiram as primeiras emissões de rádio, pelo final dos anos 20. Na Europa, o Estado assumiu essa responsabilidade e, durante meio século, guardou o privilégio exclusivamente para si. Até os anos 70, praticamente não havia estações comerciais no continente. Nem de rádio, nem de televisão.

De uns 30 ou 40 anos para cá, a situação se afrouxou. Centenas de estações surgiram. Mas uma prática subsiste: a cobrança da taxa de rádio e tevê. De cada possuidor de aparelho de rádio ou de televisão é cobrada uma taxa anual. Na origem, esses recursos serviam para financiar os programas da rádio e da televisão públicas, dado que nenhuma publicidade era difundida.

Os tempos foram mudando, a publicidade foi-se insinuando aos poucos, mas a taxa continua de pé. Por quanto tempo ainda, não se sabe. Na verdade, o celular é hoje capaz de captar, via internet, programas de rádio e de tevê. No entanto, seus possuidores não são sujeitos à taxa de difusão. Como é que vai ficar no futuro? Quem viver verá.

Televisão ― o começo

Televisão ― o começo

Na Europa, o fato de as transmissões radiofônicas terem sido asseguradas durante meio século pelo Estado trouxe uma consequência desconhecida no Brasil. O Estado tornou-se responsável pelo alcance, pela qualidade e pela diversidade de suas emissões. A não necessidade de buscar recursos publicitários deu ensejo a uma diversificação de programas desconhecida na Terra de Santa Cruz. Alguns canais da televisão pública podem se permitir levar ao ar rodas literárias, debates filosóficos ou documentários científicos em horário nobre.

Outra consequência de a rádio e a televisão terem sido confiadas ao Estado foi a criação de canais especificamente voltados para projetar a imagem nacional além-fronteiras. Desde os tempos pré-históricos das ondas curtas, grandes países se esforçaram de propagar sua voz. Era o caso do Reino Unido, da antiga União Soviética, da França.

Hoje em dia, com uma simples parabólica ― às vezes até sem ela ― qualquer um pode acompanhar programas de rádio e televisão emitidos pelas empresas públicas dos grandes países e também de países médios e pequenos, como Portugal, Espanha, Suíça, Bulgária, Dinamarca, Itália, Áustria. Até países exóticos têm emissoras ― em diversas línguas ― que dão ao país uma importância que ele nem sempre tem. O exemplo maior é Al-Jazeera, do Catar.

O Brasil conta hoje com muitos cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. Embora ninguém conheça o número exato de indivíduos, estimativas chegam a falar em 3 milhões. É um bocado de gente. Se uma organização estatal e forte antes não fazia falta, agora faz. Não há quem garanta aos expatriados a ligação rádio-televisiva com a terra natal.

Na Europa Central, nenhuma emissora de rádio brasileira está disponível por satélite. Quanto à televisão, apenas duas emissoras comerciais podem ser captadas. O pacote básico da tevê a cabo inclui uma estação brasileira de cunho religioso, daquelas que transmitem novelas entremeadas de proselitismo neopentecostal. A maior emissora de televisão brasileira também está disponível, mas… só para quem estiver disposto a pagar. Na Suíça, a assinatura sai por 42 dólares mensais, mais de 500 por ano (pra lá de 1100 reais). Precisa ser fanático por novela. Quanto ao rádio, nada ― nem de graça, nem pagando.

Organizações estatais de rádio e televisão

Organizações estatais de rádio e televisão

É pena que assim seja. Quem sabe um dia destes, lá em Brasília, alguém acorda. Acho difícil. Os brasileiros são pouco voltados para o exterior. Muitos imaginam que o mundo começa e termina dentro das fronteiras nacionais.

O Brasil conta com uma esquálida organização estatal de comunicação, é verdade. Mas toda tentativa de vitaminá-la tem esbarrado na confusão entre Estado e governo. Os brasileiros do exterior gostariam de sentir a presença da terra de origem. Dispensam autolouvação do governo de turno. Muito obrigado.

Imagem esgarçada

José Horta Manzano

Um caro amigo me pergunta como o Brasil está sendo visto ultimamente do exterior. Aproveito a ocasião para compartilhar minhas impressões com todos os leitores.

Durante 500 anos, o Brasil acumulou, junto aos europeus, um forte capital de simpatia. Até o século XIX, nosso país era visto como um eldorado: belo e rico, embora longínquo e inatingível.

A partir dos anos 1850, com o aparecimento do navio a vapor, terras antes apenas sonhadas passaram a ser alcançáveis. Ainda não era propriamente o que hoje conhecemos como turismo. Os que desembarcavam no Brasil e noutros destinos norte e sul-americanos vinham para ficar. Eram imigrantes.

Um pouco por orgulho, um pouco porque era verdade, um pouco para não dar preocupação aos que tinham ficado na terra de origem, os imigrantes costumavam ocultar as agruras de seu quotidiano e dar somente as boas notícias. Douravam a realidade.

O passar dos anos firmou no imaginário europeu a ideia de uma América povoada por gente rica, próspera, feliz e sem problemas.

Fare l’America (=fazer a América), expressão hoje em franco desuso, era, para os italianos, sinônimo de enriquecer.

Oh, ce n’est pas le Pérou! (=oh, não é o Peru!) equivale até hoje, entre os franceses, ao nosso popular não é nenhuma Brastemp, para significar que algo não é lá tão precioso assim. Sinal evidente de que, na fantasia europeia, o eldorado se situava em terras sul-americanas.

La vie parisienne Jacques Offenbach, 1866

La vie parisienne
Jacques Offenbach, 1866

No primeiro ato da Vie Parisienne (1866), ópera-bufa de Jacques Offenbach (1819-1880), aparece o ultrafamoso Rondó du Brésilien. A letra, muito extensa, começa assim:

Interligne 3eJe suis brésilien, j’ai de l’or
Et j’arrive de Rio-de-Janère
Plus riche aujourd’hui que naguère
Paris, je te reviens encore!

Sou brasileiro, trago ouro
e estou chegando do Rio de Janeiro
mais rico hoje do que antes.
Paris, volto mais uma vez!

É uma caricatura, mas deixa entrever o brilho que surgia nos olhos europeus quando se mencionava o nome de nosso País.

Até não muitos anos atrás, o Brasil conservava intacta essa imagem de conto de fadas. Quem assistiu ao filme L’homme de Rio (=o homem do Rio), que Philippe de Broca fez em 1964, pôde constatar a simpatia com que nossa terra era encarada.Interligne 37g

Passaram os anos. Hoje em dia, tudo se sabe, não dá mais para esconder. Já faz uns 20 ou 30 anos que os Europeus começaram a se dar conta de que, embora habitado por gente sorridente e acolhedora, nosso País tem problemas pesados. O que assusta quem vem a passeio não é a situação econômica, a inflação, o sistema nacional de saúde, a instrução pública. O que afugenta os turistas é a criminalidade.

Para piorar o quadro, todos os estrangeiros ficaram com um pé atrás ao constatar que, de uns 10 anos para cá, o Brasil tem insistido em se meter em más companhias. Ser sócio do mesmo clube que Ahmadinejad, os Castros, Chávez e outros mandarins de mesmo jaez não enche de confiança os turistas potenciais.

L'homme de Rio Philippe de Broca, 1964

L’homme de Rio
Philippe de Broca, 1964

A inacreditável imagem de um cantor de rap assassinado em pleno palco, quando se apresentava em Campinas, deu a volta ao mundo. Aqui está um exemplo, no jornal suíço Le Matin. Os comentários dos leitores são sintomáticos.

Para completar o cenário, a convulsão social generalizada que se viu durante a copinha não ajudou. Pelo contrário. Ninguém teria a ideia de fazer turismo atualmente no Afeganistão, no Iraque ou no Egito. Por que razão viriam ao Brasil, se os riscos de violência são de mesma natureza?

Os clichês costumam durar. A aura de simpatia que emoldurava o Brasil anda se esgarçando. Mas ainda não está tudo perdido. No dia em que nossos mandachuvas decidirem ― de bom grado ou à força ― a servir ao povo que os elegeu, teremos entrado no caminho da recuperação. Vamos torcer para que esse dia chegue logo.

A imagem do Brasil

José Horta Manzano

A imagem do Brasil no exterior vai sofrer um baque estes próximos anos.

Os turistas e os jornalistas que visitarão o País por ocasião da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos não são extraterrestres nem super-homens. São gente como você e eu.

Serão milhares de pessoas a constatar in loco o descaso do povo e de suas autoridades, a feiura e a ineficiência de nossas instalações, as desigualdades sociais escancaradas pelos helicópteros particulares cruzando ares poluídos por sobre pedintes maltrapilhos. Verão centros comerciais onde a polícia impede a entrada de bandidos. Verão também favelas onde bandidos impedem a entrada da polícia.

São coisas às quais os brasileiros já não prestam atenção, acostumados que estão a vê-las todos os dias. Os turistas se assustarão. Os jornalistas redigirão suas reportagens com os olhos impregnados por imagens que, a eles, não hão de escapar.Ponte quebrada

Um edifício resistente tem de ter estruturas sólidas. Nossa modernidade é de aparência, não tem fundamento. A Instrução Pública, que começou a perder qualidade nos anos 70, chegou hoje a um estado de descalabro. Escolas ditas superiores continuam a conferir diplomas a semiletrados.

Políticos populistas e despreparados dirigem o circo. As medidas tomadas não visam necessariamente ao bem-estar público. Os mandachuvas valem-se continuadamente de molecagens, de artimanhas e de “geniais” jogadas de marketing com o objetivo de satisfazer sua vaidade e seus interesses pessoais. O povo? Ora, o povo…

Interligne 4

A Folha de São Paulo traz um informe que ilustra perfeitamente o desmazelo que, de tão habituados, já não enxergamos. Que não se nutram falsas esperanças. Nada disso passará despercebido a olhos estrangeiros.

A reportagem traz imagens da passarela que serve ao Aeroporto de Congonhas, um dos mais movimentados do País. É a ponte que, simbolicamente, liga a mais rica metrópole brasileira ao resto do Brasil e ao mundo. Serve de cartão de visita para quem chega à megalópole tropical. Vale a pena dar uma conferida. Aqui e aqui.

A série de fotos mostra o viaduto, já em estado de quase ruina em 2004. Nove anos depois, novas fotos provam que tudo pode piorar. Até o que já estava muito mal.

Resta-nos invocar São Cristóvão, o patrono dos viajantes, para que, ao desabar, a estrutura não atinja nenhum vivente.

Um passo à frente, dois atrás

José Horta Manzano

Governar é prever. Não é concebível que nossas autoridades maiores, da presidência da República até a Câmara Municipal do mais humilde lugarejo, não façam outra coisa senão tapar buracos.

Na ausência de planos visando ao longo prazo, nosso governo é errático. Em todos os níveis. Vivemos uma rotina de anúncios espalhafatosos. Em vez de uma linha diretiva com começo, meio e fim, temos um pac hoje, um pec amanhã, quem sabe um pic ou um poc na semana que vem. Anúncios, aplausos, colheita de votos. E mais nada.

Do muito dinheiro sugado dos que suam camisa, algumas migalhas são distribuídas aqui e ali aos mais desafortunados. O resto ― o grosso da colheita ― não volta à população sob forma de melhoria. Para que servirá? Onde vai parar essa dinheirama toda? Sabe Deus.

Uma parte, sabemos todos, vai servir para autolouvação dos mandachuvas: placas, comícios, propaganda dita institucional, remuneração de marqueteiros, anúncios chamativos. O distinto público não tem direito a ser informado sobre o destino do resto da bolada.

E pensar que todos, absolutamente todos contribuem para abarrotar o baú. Até aqueles que, por ignorância ou descaso, não se dão conta disso. Os próprios beneficiários de bolsas várias colaboram para retribuir, sob forma de impostos indiretos. Cooperam para o enchimento da arca central. Cada quilo de carne de sol, de feijão, de farinha traz impostos embutidos.

Enquanto anúncios de pacs, pecs e pics proliferam, a estrutura que sustenta o edifício vai sendo minada. Atordoados pela propaganda oficial, poucos brasileiros se dão conta da desorganização crescente do País e da deterioração de sua imagem.

Os de fora, que não estão embalados pelas doces e vazias promessas oficiais, veem com mais clareza. O Brasil, que dez anos atrás tinha até sido incluído na lista dos emergentes, está aos poucos submergindo, voltando às profundezas de onde não soube aflorar.

Autódromo de Interlagos

Autódromo de Interlagos

A cidade de São Paulo, vitrine maior da pujança nacional, vai deixar de ser palco de corridas de Fórmula I. A confirmar-se o que está sendo anunciado, nossa maior e mais rica metrópole será suprimida do calendário da prestigiosa competição a partir de 2014.

A megalópole que concentra fatia considerável da riqueza produzida no País não foi sequer capaz de construir um estádio de futebol ― de futebol! ― em tempo hábil para acolher a Copa das Confederações. Que vergonha!

Será que ainda tem jeito de consertar? Pelo andar da carruagem, nosso País vai continuar deitado em berço esplêndido. Eternamente.