Liberou geral

José Horta Manzano

Se gritar “pega, ladrão!”, não fica um, mermão

As manifestações populares de junho deixaram patente que o gigante está despertando. Na esteira do prenúncio destes novos tempos, o venerando Senado nacional trata de atualizar seu regimento interno.

O regulamento antigo tem mais de 40 anos, data de uma época em que o colosso adormecido ainda roncava em berço esplêndido. Não havia internétchi. Não havia feicibúqui. A informação circulava mal. Só os muito enfronhados sabiam o que realmente acontecia atrás das portas dos gabinetes. Naturalmente, as portas sempre tiveram ouvidos, mas esses ouvidos não tinham bocas. Governava-se em circuito fechado.

Até o fim do século XX, esse sistema, bem ou mal, se manteve. Com as avenidas de informação abertas pela rede mundial de computadores, segurar notícias dentro de um círculo de companheiros ficou cada dia mais complicado. Acabou dando no que deu. Os protestos de junho podiam já ter acontecido em 2010, 2012. Poderiam também esperar para estourar em 2014 ou 2015. Quis o destino que 2013 fosse o ano do amadurecimento.

Figuras públicas estão sendo obrigadas a rever às pressas seus comportamentos. O que era normal e aceito até ontem ― talvez por não ser de conhecimento público ― é hoje divulgado, censurado, reprimido, fustigado. Vejam o caso do governador do Rio de Janeiro. Como todos os seus pares que dispunham de um helicóptero, fazia dele uso em deslocamentos profissionais ou privados, tanto faz. Teve de abandonar essa prática, sob pena de linchamento.

Vejam também o caso de nosso inefável ex-presidente. Dizem as más línguas que sua família se valia de avião das Forças Aéreas Brasileiras ― custeados pelo povo brasileiro ― para fins prosaicos tais como levar a cadelinha ao veterinário ou conduzir a primeira-dama para uma sessão de brushing. Tiveram sorte de ter perpetrado essas leviandades antes do despertar do gigante. Fosse hoje, sei não…

Da atual presidente, não se tem notícia de que assim esteja procedendo. Melhor para ela. Já tem feito trapalhadas suficientes.

Senatus populusque romanus O Senado e o povo romano

Senatus populusque romanus
O Senado e o povo romano

Mas eu falava do Senado da República. É uma instituição de respeito. Já o nome é imponente: senado… Etimologicamente, é palavra muito antiga. O sânscrito conhecia a raiz sanas/sanaka, utilizada para designar pessoa de idade avançada. O radical se espalhou pelas línguas europeias. Aparece em lituano, nos idiomas celtas, nos falares germânicos e, naturalmente, nas línguas latinas.

Senex era como os latinos chamavam o velho. Senium era a velhice. Senil, que não tinha a carga pejorativa que carrega hoje, era a qualidade do que é velho. O Senado romano era instituição formada por homens de idade madura, encharcados daquela sabedoria que só os anos trazem. Todas as civilizações costumam respeitar o discernimento e o bom-senso que a velhice traz. Da mesma família etimológica também fazem parte sênior, senhor, senhorio, assenhorear.

Senado romano

Senado romano

Já faz algum tempo que nosso Senado se desviou da finalidade para a qual foi instituído. Era para ser um colégio de sábios respeitados aos quais se vem pedir conselho. Desviaram-se das regras. E o que é que se faz num caso desses? Dá-se uma guinada e volta-se ao bom caminho, não é mesmo? Qual… O uso do cachimbo deixou torta a boca de suas excelências. Converter-se a bons hábitos dá muito trabalho. Há meio bem mais simples: afrouxam-se as regras de conduta!

O senador maranhense Lobão, figurinha carimbada da política brasileira das últimas décadas, é o relator do projeto de mudanças no regimento interno do Senado. Colegas seus, preocupados com a corrosão que a imagem da instituição vem sofrendo perante a opinião pública, acharam que seria importante incluir entre as regras de conduta o compromisso de agir dentro da ética.

Andreza Matais, do Estadão, nos informa que o senador Lobão vetou a novidade. Não lhe parece relevante. O lobo mau não faria diferente.

Está ajudando a convocar novas ondas de protesto.

Interligne 37h

Frase do dia – 19

Interligne vertical 10«Um país que construiu mais sedes que eram exigidas, estádios com dinheiro público e, em alguns casos, em lugares sem um time de futebol. O relato poderia ser uma explicação sobre o comportamento do Brasil para a Copa 2014. Mas, na realidade, é a situação de Portugal quando se preparou para sediar a Eurocopa de 2004.»

Jamil Chade, in Estadão 5 ago 2013

Vale a pena ler o artigo inteiro.

Das oportunidades perdidas

Consultando meus alfarrábios, topei com um escrito de Dad Squarisi(*), minha guru em língua portuguesa. O texto, escrito no comecinho de janeiro de 2007, valia-se da atualidade de então ― a reeleição de Lula da Silva ― para dar uma lição sobre conjugação verbal.

A clarividência não tem sido a qualidade primeira de nossos governantes. As exceções, raras demais, têm tido sua voz abafada pelo coro da maioria barulhenta e sem visão.

Naquele longínquo janeiro de quase sete anos atrás(!), Dad deitou no papel o que poucos ousavam. Estávamos longe dos protestos de junho 2013. A maioria acreditava que havíamos chegado lá e que nosso povo, barriga cheia, estava dominado. Eram tempos de pão e de circo. Agora, o espetáculo acabou.

Interligne vertical 14«Verbo manhosoInterligne vertical 15

Dad Squarisi, jan. 2007

Dia de posse. Elegante no terno Armani, camisa sob medida e gravata Hermès, Lula discursa no plenário da Câmara dos Deputados. Repete as promessas de campanha. Acena com educação de qualidade, saúde democrática, segurança dinamarquesa, moradia de fazer inveja. Quando? O homem tem pressa. Diz que nos próximos quatro anos conjugará dois verbos. Um: acelerar. O outro: incluir.

Os ouvintes sentiram arrepios em todos os pelos. Duvidaram dos próprios ouvidos. Acelerar como? A criatura mal tomou posse e vai gozar férias. Sem definir a equipe, deixa a administração de braços cruzados. E incluir? O verbo é manhoso. Há 500 anos tentamos flexioná-lo. Lula conseguirá? Tirar dos que muito têm para dar aos que nada têm é tarefa pra lá de difícil. Mais fácil é desvendar os mistérios da ação que dá passagem aos que estão de fora.»

(*) Escritora, linguista e mestra em teoria da literatura. Seu blogue merece uma visita. Como dizem por aqui, l’essayer c’est l’adopter, quem provar fica viciado.

Frase do dia – 18


Interligne vertical 12«Pode-se não gostar de Figueiredo, mas ninguém podia tirar de sua biografia o fato de ter assinado a anistia. Agora pode-se acrescentar que não assinou o cheque da Copa [de US$ 3,2 bilhões, em dinheiro de hoje].

A Copa de Lula custará R$ 28 bilhões, ou US$ 12,1 bilhões.»

Da coluna de Elio Gáspari, in Folha de São Paulo, 4 ago 2013

O Brasil e a Idade Média

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 3 de agosto de 2013

A História não se repete. Acontecimentos novos podem até evocar situações passadas, mas cada caso é um caso.

Em novembro de 1923, um punhado de indivíduos se reuniram numa cervejaria de Munique para encenar o que lhes parecia o ato final de um rocambolesco plano de tomada do Estado alemão pela força. O golpe foi um rotundo fracasso. Vistos como loucos mansos, os cabeças, presos e processados, foram condenados a penas leves. Quis o destino que, dez anos mais tarde, o chefe da malta, um certo Adolf Hitler, fosse içado ao posto máximo da nação. O resto da história todos conhecem.

Nos primeiros anos do século XX, um jovem italiano, violento e rebelde, fugiu de seu país e ganhou a Suíça. Más línguas afirmam que era para escapar do serviço militar. Em território helvético, o moço turbulento continuou fazendo das suas. Rebelde e arruaceiro, viveu de expedientes e chegou até a ser preso por vadiagem. Voltou à Itália em 1904. Quis o destino que, dezoito anos e muitas peripécias mais tarde, nosso impetuoso anarco-sociossindicalista ― Benito Mussolini era seu nome ― se visse alçado à função de chefe do governo. Sabem todos o que veio depois.

Caravela portuguesa

Caravela portuguesa

A tentativa de tomada do quartel cubano de Moncada, levada a cabo em 1953 por uma turma de jovens iluminados, todos no vigor de seus 30 anos, foi um desastre total. Prisão, tortura, degredo dos rebeldes remanescentes foi o resultado. Naquele momento, ninguém imaginou que o chefe do grupo, um certo Fidel Castro, havia de se tornar senhor absoluto do país 6 anos mais tarde. Os capítulos seguintes são conhecidos.

Faz pouco mais de um mês, o Brasil foi palco de um fenômeno desconcertante. Dirigentes boquiabertos assistiram a passeatas espontâneas formadas por gente comum. Não eram revolucionários nem putschistas. Não pretendiam derrubar o regime, muito menos tomar o poder. Não eram movidos por ideologia. Não carregavam armas. À exceção de grupelhos insignificantes de energúmenos imbecis, protestaram pacificamente.

Agora sossegaram. Mas que ninguém se engane: os acontecimentos de junho foram um divisor de águas. Daqui a um século, baixada a poeira, a História dará a 2013 a mesma importância que dá hoje a 1822 ou 1889. A sagacidade caseira do inefável Conselheiro Acácio ensina que as consequências, naturalmente, vêm sempre depois.

O brasileiro é um povo de sorte. No espaço de pouco mais de 10 anos, teve duas ocasiões de dar um salto à frente, na boa direção. A primeira foi quando Lula da Silva chegou ao posto máximo da República. Dono de apoio quase unânime do povo e de seus representantes, não lhe teria sido difícil impor as reformas indispensáveis para curar a esquizofrenia do País. Pareceu a todos que, finalmente, o Brasil deixaria de ter um pé na modernidade e outro ancorado na Idade Média.

Estava na hora de banir traços antediluvianos tais como o paternalismo, o nepotismo, o cartorialismo, o rigor reservado ao vulgo enquanto privilegiados são tratados com leniência. Queríamos todos ver desaparecer a desigualdade entre os do andar de cima e os do andar de baixo. Queríamos ver o fim de anacronismos que não combinam com o mundo civilizado.

Desgraçadamente, nenhuma reforma radical foi empreendida que acelerasse nosso processo civilizatório. Os donos do poder agiram como o cirurgião que anestesia o paciente mas esquece de operá-lo. Ninaram o povo com doces sonhos de grandeza, mas não se deram ao trabalho de eliminar os tumores que minam a sociedade. Entre mercurocromo e curativos, descuraram-se de servir ao povo. Usaram a arraia-miúda como massa de manobra e, insolentes, dela se serviram. Os protestos são a prova patente da ineficiência e do fracasso da atual maneira de governar.

Castelo medieval

Castelo medieval

Mas temos sorte. Diferentemente de Alemanha, Itália e Cuba, temos uma segunda chance. Nossa «revolução» não tem cabeças nem porta-bandeiras. Não prenuncia episódios violentos nem sangrentos. As demandas do povo brasileiro, a anos-luz da luta de classes, não são ideológicas, nem sectárias, nem elitistas, nem sindicais.

Medidas pontuais podem gerar alguma curta trégua, mas não resolverão o problema. O brasileiro, farto de que lhe zombem das fuças, quer ser tratado com dignidade. Plebiscitos e referendos não condizem com a situação atual. O povo já disse o que quer. Do governo, não se espera que faça mais perguntas, mas que dê as respostas que esperamos todos. E logo.

O governo que se dizia «popular», no fundo, não o era. Popular é o movimento que a todos surpreendeu, essa energia espontânea e sem lideranças. Estamos vivendo o começo do fim do Brasil medieval.

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Miscelânea 07

José Horta Manzano

Briga de bandido

Certas coisas são tão notórias e evidentes, que não precisam mais ser mencionadas. Pelo contrário: mais vale fingir que não existem e mudar de capítulo.

A Folha de São Paulo nos relata a continuação da encrenca ligada a falcatruas em licitações para o metrô de São Paulo. Conforme já comentamos neste blogue três semanas atrás, a Siemens andou botando a boca no trombone para denunciar que foi passada pra trás em alguma dessas concorrências viciadas.

Note-se que o gigantesco complexo industrial, maior empregador privado da Alemanha, está implantado no Brasil há mais de um século, desde 1905. De repente, em 2013, se dão conta de que falta lisura às licitações para serviços públicos.

Caminhão Siemens

Caminhão Siemens

Isso parece mais briga de bandido, despeito de concorrente passado pra trás.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouça: a Siemens, como outras grandes empresas alemãs, é acusada de ter colaborado com o regime nazista. Pior que isso, afirmam alguns que se serviu de mão de obra escrava durante a Segunda Guerra.

Se assim for ― e é bem provável que tenha sido ― temos aí um excelente exemplo do roto falando do rasgado.

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O roto pelo rasgado

Reportagem do Estadão, assinada por Fernando Gallo, informa que o governador de São Paulo efetuou uma substituição na chefia do Arquivo Público do Estado. Dispensou o antigo titular, afiliado ao PT. Em seu lugar, empoleirou um afiliado ao PSDB.

Desconheço a qualificação tanto do recém-demitido quanto do recém-admitido. O que me parece lamentável é que a direção do órgão técnico encarregado de zelar por nossa parca memória histórica seja tratado com tal leviandade.

Arquivo público não é sinecura de que se valham os governantes de turno para mimosear amigos e correligionários.

Só falta o governador de São Paulo se sair com a mesma justificativa usada por nosso inefável ex-presidente: se todos fazem assim, por que não eu?

Quando se pretende dar lições de moral aos outros, mais vale andar na linha. O governador está cobrindo sua casa com telhas de vidro.

Interligne 37e

Rasgou a fantasia

Encantaram-se todos com a notícia de que o prefeito de um município do interior paulista havia renunciado ao mandato por «descobrir» que o salário era insuficiente. Todos aplaudiram, acharam maravilhoso que um cidadão recusasse a se vergar à corrupção para aumentar seus ganhos.

Quanto a mim, fico aqui meio cismado. Por que, diabos, esse senhor esperou tanto tempo para rasgar a fantasia? É médico de formação, portanto, supõe-se que conheça as operações básicas e que esteja capacitado a agir dentro de um mínimo de coerência.

Ajuda financeira

Prefeito honesto

Com que então, o digníssimo senhor prefeito não se preocupou com o salário da função antes de se candidatar? E por que terá esperado quase um ano para renunciar? Esperava conseguir, uma vez eleito, algum «favor especial» que, no final, não lhe foi concedido? Será que não passou pela cabeça do digníssimo prefeito que sua renúncia está causando transtorno aos quase 20 mil habitantes do município, cidadãos estes que não são obrigados a aturar seus saltos de humor?

De gente assim prefiro manter distância. Quando se assume uma responsabilidade, vai-se até o fim. O ato cometido por esse senhor é por demais leviano para meu gosto.

Interligne 37e

Frase do dia – 17

Interligne vertical 11Trava-língua…


A lista de cargos prolixos do governo federal foi engrossada nesta semana pelo de «coordenador na Coordenação da Coordenação-Geral de Produtividade do Departamento de Produtividade e Inovação da Secretaria de Competitividade e Gestão da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República».

Da coluna de Vera Magalhães, in Folha de São Paulo, 2 ago 2013

Droga & Mercosul

José Horta Manzano

As pesquisas indicam que 2/3 dos uruguaios são contrários à legalização das drogas. Na contramão da vontade popular, a Câmara de Deputados do país vizinho acaba de aprovar um projeto de lei que legaliza o cultivo, a distribuição e a comercialização da marijuana (cannabis sativa ou maconha).

Para entrar em vigor, a lei terá ainda de passar pelo Senado do país. E, naturalmente, pela sanção presidencial. Deve demorar ainda um ano até que o processo esteja completado.

Ir contra a vontade de 2 em cada 3 eleitores já me parece uma violência, uma imposição de cima para baixo. Mas há problema maior.

Cânhamo (Cannabis sativa)

Cânhamo
(Cannabis sativa)

O Uruguai, vizinho de parede do Brasil e da Argentina, é membro do Mercosul. Se votar leis que podem representar perigo à ordem de um país vizinho já é uma falta de consideração, entre sócios de um mesmo clube passa a ser escandaloso.

A fronteira entre o Brasil e o Uruguai está entre as mais permeáveis da América do Sul. Algumas cidades fronteiriças constituem conurbação, ou seja, são separadas por fronteira simbólica, uma avenida em alguns casos. Tradicionalmente os habitantes dessas localidades não dão grande importância a essa linha imaginária. Passam de um país a outro com a mesma facilidade com que nós damos um pulinho à padaria na esquina.

Não precisa ter nenhuma bola de cristal para prever que a fronteira entre o Uruguai e o Rio Grande vai-se tornar a principal porta de entrada de entorpecentes no Brasil.

Em vez de esbravejar contra seus auxiliares diretos, dona Dilma poderia redirigir sua fúria contra os mandachuvas uruguaios. Um apelo vindo de Brasília será certamente levado em consideração pelos parlamentares do país vizinho.

Ainda há tempo de sustar a tramitação dessa lei. Já temos problemas suficientes sem ela.

Interligne 18gNota: Até o mui sério site de notícias russo Vesti (Rússia 24H) repercutiu a notícia.

1° de agosto

José Horta Manzano

Você sabia?

Fechado

Fechado

Hoje é feriado nacional na Suíça. O dia da festa maior, equivalente a nosso 7 de setembro. Logo mais à noite, haverá queima de fogos por toda parte. Na minha opinião, além de ser caro e sem graça, é poluente e perigoso. Mas há quem aprecie. De gosto não se discute.

Guilhotina?

José Horta Manzano

O repórter Fábio Fabrini andou esmiuçando dados da Controladoria-geral da União, o organismo encarregado de vigiar o uso das verbas federais e certificar-se de que estão sendo bem utilizadas.

Em pesquisa por amostragem, a CGU constatou que 73% das prefeituras haviam fraudado verbas destinadas à Instrução Pública. Utilizando subterfúgios diversos, autoridades de 3 em cada 4 municípios(!) desviaram uma parte do dinheiro que era destinado a promover a educação básica de seus jovens.

Há até casos de dinheiro sacado em espécie «na boca do caixa»! E a gente que imaginava que esses casos de roubo despudorado se restringissem ao nível federal…

Veja você: há 75% de risco de o município em que reside o caro leitor estar incluído no rol dos fraudadores. Se roubar já é crime feio, roubar dinheiro destinado à instrução das crianças é asqueroso, repugnante.

Guilhotina

Guilhotina

Guilhotina anda meio fora de moda. Mas prisão perpétua ainda é pena considerada politicamente correta na grande maioria dos países. São muito poucos os que, como o Brasil, aboliram tanto a pena capital quanto a prisão perpétua.

Que se aproveite esta temporada de reformas para reinstaurar a perpétua. Se falta savoir-faire, basta dar uma olhada por cima do muro. Nossos vizinhos e hermanos argentinos, chilenos e peruanos ― cujo arsenal penal inclui a prisão perpétua ― podem nos ensinar como fazer.

Aquele que comete crimes contra a saúde publica ou contra a instrução pública merece passar o resto da vida vendo o sol nascer quadrado.

Paralimpismo 2


Interligne vertical 12Algum tempo atrás, insurgi-me contra o neologismo «paralímpico», termo que entra em colisão frontal com o espírito de nossa língua. Passou-se quase um ano, e a situação não se moveu nem um milímetro. Com a honrosa exceção da Folha de São Paulo
― que se mantém, firme e forte, contra a corrente ― os outros meios impressos se vergaram à caprichosa ignorância dos que deram nome ao comitê nacional que cuida das competições paraolímpicas. Como maria vai com as outras, o Estadão e o Correio Braziliense seguem a corrente. É pena. Achei oportuno reproduzir aqui o mesmo artigo que saiu no Correio Braziliense em 1° de setembro 2012.


Paralimpismo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° setembro 2012

Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui, a mando de sabe-se lá que multinacional, cumprindo a nobre missão de apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre é, como sabem todos os que, um dia, já passaram pela experiência de levar gato por lebre. Comecemos pelo começo, que dá mais certo.

Sentindo os ventos fétidos que prenunciavam as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, um certo Dr. Ludwig Guttman, cirurgião do Hospital Judeu de Breslau (hoje Wroclaw), deixou a Alemanha em 1939 e se refugiou na Inglaterra, onde continuou a exercer seu ofício.

Os Jogos Olímpicos previstos para 1940 e para 1944 não se realizaram, por razão de conflito mundial. Mas Londres fez questão de sediar os de 1948. Quis mostrar ao mundo que, apesar das perdas, dos bombardeios, das privações, o velho leão ainda estava de pé, alerta, pronto para mostrar-se sob seu perfil mais favorável.

Os combates haviam deixado um rastro de mutilados e estropiados. Dr. Guttman teve a brilhante ideia de valer-se dos holofotes dos Jogos Olímpicos para promover uma manifestação paralela, exclusivamente dedicada a atletas cadeirantes. Diga-se logo que a ideia não despertou no público nenhum entusiasmo delirante. A vista daqueles amputados reavivava feridas dolorosas e ainda não cicatrizadas. Aquilo trazia lembrança do que todos queriam justamente esquecer. Apesar de o bom doutor ter tentado oficializar sua iniciativa, o sucesso foi tênue. Ainda não era a hora.

A ideia cochilou. Foi preciso que uma geração inteira se passasse para que a humanidade estivesse pronta a aceitar a novidade. Veio aos poucos. Já em 1960, nos Jogos de Roma, houve um embrião de competições para atletas diminuídos por defeitos físicos. Pouco a pouco, a nova prática foi ganhando os espíritos, e diretórios nacionais foram-se formando. Logo veio a necessidade de criar um comitê internacional para coordenar os diretórios nacionais da nova modalidade esportiva. Em 1989, fundou-se em Düsseldorf o organismo tutelar. Faltava dar-lhe o nome.

Não houve grandes discussões. Tomou-se o prefixo grego παρα (para), que evoca a semelhança, a proximidade, e juntou-se-lhe o nome tradicional das competições. Nasceram assim os Jogos Paraolímpicos. As duas raízes gregas compuseram um adjetivo novo, claro, explícito. Ingleses, alemães, franceses, castelhanos decidiram amputar a primeira letra do nome principal. Para nós, soa estranho. Resultaram formas como Paralympic Games, Paralympische Spiele, Jeux Paralympiques, Juegos Paralímpicos. Parece produto de limpeza.

Pelo menos desta vez — é tão raro, daí nosso orgulho — foi-nos permitido desdenhar com certa superioridade da falta de cultura dos falantes dessas línguas. Nós, com nossos Jogos Paraolímpicos, havíamos tido a sabedoria de manter o aspecto, o som e a ideia, tudo sem deturpar nenhuma palavra! Foi envaidecedor, digo sinceramente. No tempo em que ainda era permitido se exprimir assim, cheguei a pensar: «eles, que são brancos, que se entendam».

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ao contrário do que cantava Eduardo das Neves na marchinha que compôs em 1902 em homenagem a Santos Dumont — «a Europa curvou-se ante o Brasil» —, desta vez fomos nós que sucumbimos. O Brasil acabou dobrando-se diante da Europa.

Não sei quem teve a fabulosa ideia, nem quando esse espantoso estalo terá ocorrido. O fato é que a palavra tradicional foi atirada à lata de lixo da história. Atropelamos o espírito de nossa língua. Foram ignorados os usos e costumes de nossa norma culta que, tradicionalmente, impelem o prefixo a adaptar-se ao nome. Mil anos de formação de nosso falar foram alegremente desconsiderados. Se era para encurtar, que se oficializasse ‘parolímpicos’. Seria uma forma intermerdiária, nem lá nem cá, que talvez satisfizesse a gregos e a troianos.

Mas, não. O braço brasileiro da organização traz o exótico (e mui oficial) nome de… Comitê Paralímpico(sic) Brasileiro. Com site e tutti quanti. O nome de origem foi transfigurado através de uma verdadeira política de faroeste, daquelas que primeiro executam o suspeito, para impossibilitar o devido julgamento. Não se julgam cadáveres.

A adulteração foi heresia perpetrada ao arrepio da forma sacramentada pelo Vocabulário Ortográfico da ABL, guardião da língua! Que aqueles que patrocinaram esse ‘malfeito’ levantem os braços ao céu e agradeçam por não se queimarem mais hereges em fogueiras.

Se alguém pensou em colonização cultural, não há de estar longe da verdade.

O jogo e a paz

José Horta Manzano

Ingenuidade é característica da infância. É enternecedor ler cartinhas escritas por crianças e endereçadas ao Papai Noel. Cada época da vida tem seus atributos. E é muito bem que assim seja.

À medida que o tempo vai passando, os marcadores vão-se modificando. À pureza infantil, segue-se a rebeldia do adolescente, a sensação de onipotência do jovem adulto, o realismo próprio da maturidade.

Carta a Papai Noel

Carta a Papai Noel

Assim deveria ser. No entanto, como já dizia o outro, na prática, a teoria é outra. Não é raro que adultos já bem crescidinhos conservem traços infantis. Não é perigo tão grande: cada um tem suas idiossincrasias.

Bem mais grave é ver a casta dirigente de um país ―todos à beira de uma idade provecta ― ser regida por delírios infantis. É assombroso constatar que os que têm nas mãos as rédeas do País continuam acreditando na existência do bom velhinho, aquele que ri «ho, ho, ho».

Em 2004, na certeza de que seria bom para nosso País, nossos mandachuvas insistiram para que nos fosse garantida participação significativa na Minustah, força de intervenção da ONU destinada a fazer reinar a ordem no pobre e atormentado Haiti.

Os mandarins do Planalto, comandados à época por um enfatuado presidente, imaginaram que a situação se resolveria num piscar de olhos. Um jogo de futebol para encantar e uma tropazinha de algumas centenas de soldados para distribuir barrinhas de cereais entre os miseráveis deveriam bastar. Ademais, seria um passo de capital importância para a obtenção de cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, neurose obsessivo-compulsiva do presidente de então.

As grandes potências, cujos dirigentes são menos deslumbrados, ficaram felizes em livrar-se do abacaxi. Aceitaram rapidinho.

Já vai para dez anos que isso se passou. O Haiti continua ocupando o pouco invejável lugar de país mais pobre das Américas. A calma por lá é só aparente ― todos sabem que terminará no exato instante em que as tropas de ocupação se retirarem. O Brasil continua tão distante da cobiçada cadeira cativa no Conselho de Segurança quanto estava em 2004.

A intervenção, que o Planalto acreditava ser coisa de poucos meses, não dá sinal de chegar ao fim. O erário ― cofre onde se guardam os impostos, diretos e indiretos, pagos por todos os habitantes do território nacional ― continua sendo sangrado. Não se sabe direito quantos bilhões a aventura terá custado até agora. De qualquer maneira, dar esmola com chapéu alheio não dói no bolso, não é mesmo?

Minustah Missão de estabilização no Haiti

Minustah
Missão de estabilização no Haiti

Reportagem da Folha de São Paulo esclarece que perto de 700 milhões de reais já foram gastos só com adicionais de soldo pagos aos militares estacionados lá. Só adicionais! Esse total, evidentemente, não inclui o montante gasto com transporte, armamentos, alimentação, logística, e tudo o mais que um deslocamento de tropa pode custar.

Resultado da façanha: gastamos rios de dinheiro e continuamos no ponto zero. Fica reforçada a impressão de nosso País vem sendo governado por cortesãos ingênuos e incapazes.

Interligne 37c


Interligne vertical 5Nota de pé de página:
Em 18 de agosto de 2004, realizou-se o «jogo da paz». O povão, naturalmente, foi escorraçado do estádio. De qualquer maneira, não teriam dinheiro para pagar a entrada. O Brasil ganhou por 6 a zero. Mas a paz não veio.

A frase do dia – 16

Interligne vertical 11
O urubu…


“Michel Temer é um sabotador porque sabotou(sic) a tentativa da presidente Dilma de realizar o plebiscito”


… anda voando baixo.

Markus Sokol, integrante da direção nacional do PT e candidato à presidência do partido in Estadão, 29 julho 2013.

To be, or not to be

José Horta Manzano

«There are more things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.»

William Shakespeare
Hamlet, Ato I, Cena 5

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A fala de Hamlet costuma ser traduzida livremente como «há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia». Não corresponde exatamente ao texto original, mas transmite a mesma ideia.

A parafernália eletrônica atual tem acelerado a circulação da informação e dado suores frios a todos os encarregados de manter secretos certos fatos.

No entanto, apesar de todos os Snowdens da vida, das câmeras de vigilância, do esquadrinhamento de mensagens eletrônicas, algum mistério ainda perdura. E sempre há de perdurar.

Dia 25 de julho, duas jornalistas assinaram artigo na Folha de São Paulo revelando que um jovem cubano ― por coincidência chamado Fidel Castro ― havia sido internado no Hospital das Clínicas de São Paulo para tratar-se de um problema urológico.

Até aí, não há nada de espantoso. Ter nome semelhante ao do Líder Máximo não é um pecado. Ser cubano, tampouco. E a dignidade manda tratar os males do próximo e aliviar-lhe o sofrimento.

É a partir daí que começa o jogo de empurra. A internação do estrangeiro no HC foi sigilosa. Para garantir discrição, foi registrado na ala infantil. Um não identificado «integrante do governo brasileiro» foi o facilitador da admissão do paciente no hospital. Apresentou-o como parente do Comandante.

O Itamaraty alegou total ignorância dos fatos. José Dirceu, contactado por sua notória proximidade com os dirigentes da ilha, desmentiu que o doente seja parente dos Castros. Feitos os exames necessários, foi marcada cirurgia para o dia seguinte, no próprio Hospital das Clínicas.

Hamlet William Shakespeare

Hamlet
William Shakespeare

Embora pareça evidente, não está confirmado que a reportagem da Folha tenha tido alguma influência na evolução dos acontecimentos. O fato é que, apesar de a operação estar marcada para o dia seguinte, foi dada alta ao paciente às oito e meia da noite, no mesmo dia em que saiu a reportagem.

O Itamaraty continua sem saber o que aconteceu. Os dirigentes do hospital não foram encontrados. Médicos e enfermeiros, escudados atrás do segredo profissional, não podem dar maiores explicações. Tudo indica que não interessa a ninguém que se continue discutindo sobre este caso. Assunto encerrado.

O paciente foi-se. Escapou como um ladrão. Nada mais se publicou sobre o fato. Sobrou um saco de perguntas.

Quem era o doente? Estará ainda no Brasil? Terá sido operado? Estará no Sírio-Libanês, o hospital que costuma tratar os que vivem no andar de cima? Terá voltado a Cuba num avião medicalizado da FAB? Por que o primeiro artigo da Folha foi assinado, mas não o segundo (e último)? Quem era o «integrante do governo» que encaminhou o enfermo ao hospital? Como é possível que o Itamaraty não esteja a par de nada?

Muitas outras questões estão sem resposta e certamente assim continuarão in æternum.

Há mais mistérios entre céu e terra do que sonha nossa vã filosofia.

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A frase do dia – 15

Interligne vertical 10«Ninguém mais liga para ela, que não sabe se expressar direito e, quando começa a falar, parece que vai dar um cascudo em alguém, coitadinha. Eu fico com pena, é muito duro, às vezes eu penso que ela está ali, querendo fazer pose de cáiser prussiano, mas com vontade de chorar, é desumano.»

João Ubaldo Ribeiro, discorrendo sobre dona Dilma in Estadão, 28 julho 2013

The royal name

José Horta Manzano

Você sabia?

Algumas atividades são éticas e legais. Felizmente, é o caso da maior parte do que fazemos no dia a dia. Outras ações são, ao mesmo tempo, aéticas e ilegais. Tanto a corrupção como o homicídio entram nessa categoria ― ambos cabem dentro da esfera penal.

Outras práticas, embora ilegais, são éticas. Durante a Segunda Guerra, quando europeus acolheram e esconderam judeus para salvá-los da deportação e da morte certa, estavam agindo na ilegalidade. As leis de então proibiam expressamente que se desse guarida a perseguidos. No entanto, os que assim fizeram contrariaram a lei, mas agiram dentro da ética. Até do heroísmo, em muitos casos.

Por último, falta mencionar as atividades que, embora perfeitamente legais, estão na fronteira da ética. Quando não são claramente antiéticas. Um artigo do site suíço Handelszeitung ― Jornal do Comércio ― nos dá notícia de um desses atos limítrofes entre o que fica bem e o que não se deve fazer.

Vive em Portugal um jovem empreendedor suíço de 32 anos. Tem o sobrenome Biggs, exatamente o mesmo daquele inglês que, faz meio século, cometeu assalto a um trem pagador na Grã-Bretanha e se refugiou no Rio de Janeiro. Mas parece que é pura coincidência, que os dois não se conhecem nem de elevador.

The Royal Family

The Royal Family

Nosso empreendedor começou a vida como corretor de imóveis. Faz alguns anos, decidiu mudar-se para Portugal e, a partir de lá, dedicar-se a uma atividade pouco corriqueira. Atento aos acontecimentos do mundo, registra em seu nome domínios internet com a intenção de revendê-los, com bom lucro, a quem se interessar. Possui atualmente mais de 600 domínios registrados em seu nome.

Estas últimas semanas, acompanhou de perto o agito das bolsas de apostas de Londres. Interessou-se particularmente pelos nomes que seriam provavelmente dados ao principezinho que estava por nascer. Acostumado que está a registrar nomes, deixou tudo engatilhado e ficou preparado para agir o mais depressa possível.

Teve sucesso. Segundos depois do anúncio oficial do nome da criança, conseguiu registrar GeorgeAlexanderLouis.com em seu nome ― uma façanha! A família real deveria ter pensado em registrar o nome antes de publicá-lo. Bobearam, logo dançaram. Quanto àquele que fez o registro, deu um excelente exemplo de ação que, embora perfeitamente legal, está no limite da ética.

Depois que a Europa inteira ficou sabendo do caso, nosso amigo Biggs, meio encabulado, resolveu corrigir o tiro. Não quis passar para a posteridade como usurpador. Decidiu doar o domínio à família real britânica.

Ainda não se sabe se a Royal Family aceitou a doação.

Interligne 18h

Miscelânea 06

José Horta Manzano

Autostrada italiana 1935

Autostrada italiana 1935

Proporcional
A Itália reclama para si a invenção da estrada de rodagem ― em seu conceito moderno, entenda-se. Na Europa, foram realmente os primeiros, já nos anos 1920, a se darem conta da necessidade de construir estradas exclusivas para veículos automotores. Entre rebanhos de cabras, carroças de feno, carros de boi, bicicletas e pedestres, os automóveis tinham crescente dificuldade em se locomover nas estradas de então.

Em 1924, foi inaugurada a primeira dessas novas vias, a Milano-Laghi, 84 quilômetros entre Milão e a região dos lagos lombardos. As características principais desse novo tipo de estrada já estavam lá: duas pistas duplas separadas por um canteiro central, proibição de circulação a todo veículo não motorizado, cobrança de uma taxa de passagem ― o pedágio.

Hoje a Itália conta com 6500km dessas estradas exclusivas, enquanto a França tem 9600km e a Alemanha, 11700km. A rede suíça totaliza 1400km. Os italianos dizem autostrada. Em alemão, é Autobahn. Os franceses conhecem como autoroute. Já os espanhóis preferem autopista. Em Portugal, também dizem auto-estrada. No Brasil, não há um nome específico. Fala-se em estrada duplicada, em rodovia com pedágio. Acredito que autoestrada ou via expressa pudesse ser uma boa tradução. Quem tiver melhor ideia, que se manifeste.

Via expressa atual

Via expressa moderna

Quase cem anos depois da abertura da primeira autostrada europeia, o Estadão nos informa que, neste sábado 27, a rodovia SP-340 «ganha»(sic) pedágio por trecho. É realmente um ganho! A cobrança da taxa de circulação passa a ser proporcional à distância percorrida. Isso sempre pareceu evidente para os europeus, desde os pioneiros de 100 anos atrás. Mas não aos responsáveis brasileiros.

Antes tarde que nunca.Interligne 18b

Suplentes
Artigo de Victor Vieira publicado neste 27 de julho volta ao assunto dos suplentes de senador. Dentre os 81 titulares, 16 são suplentes, criaturas sem voto, escolhidas por dedaço entre os familiares ou conhecidos dos senadores. Isso significa que 20% dos representantes dos Estados não foram eleitos pelo povo, um inconcebível absurdo.

Para o caso de impedimento de um senador, há somente duas soluções viáveis:
1) Deixar vaga a cadeira até que o titular retorne ou, no caso de não retornar, até a próxima eleição.
2) Organizar nova eleição no Estado representado pelo senador.

Que se aproveite a onda das reformas que apontam por aí e que se tome uma decisão. O que não podemos é continuar com esse sistema clânico, descendente direto do conceito medieval das capitanias hereditárias. Um senador não pode «terceirizar» seu cargo. O eleito é ele e não um de seus familiares, homens de confiança ou… capangas.

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A vantagem de Maria
A notícia fala dos problemas judiciários de Dominique Strauss-Kahn, ex-futuro candidato à presidência da França. Não me cabe aqui tomar partido. Eles, que são brancos, que se entendam.

O que me surpreende é o desaparecimento de uma palavra de nossa língua. Não li todos os avisos mortuários dos últimos 50 anos, portanto não sei quando ela faleceu. O fato é que sumiu de circulação.

O artigo conta que DSK está sendo processado pelo crime de proxenetismo. Em seguida, o jornalista sente-se obrigado a explicar, com meia dúzia de palavras, o que vem a ser essa palavra.

É aí que sinto a falta que fazem as palavras falecidas. Antigamente, dizia-se lenocínio. E todos sabiam o que era, não precisava maiores explicações. Quando proxenetismo entrou na língua portuguesa, já fazia alguns séculos que se dizia lenocínio.

Está aí uma substituição inútil e trabalhosa. Esquece-se a palavra antiga, elege-se uma nova. E, a cada vez que aparece, tem de ser acompanhada de sua definição.

Como dizia o outro: ― que vantagem Maria leva?Interligne 18b

Bandeiras queimadas by Miguel Schincariol, AFP

Bandeiras queimadas
by Miguel Schincariol, AFP

La gloria en llamas
Nos anos 60, na véspera da inauguração de uma exposição espanhola em Milão, na Itália, houve uma passeata de protesto. Os manifestantes reclamavam contra o regime franquista que regia a Espanha já fazia mais de 25 anos. No auge dos protestos, atearam fogo a bandeiras espanholas.

Indignado com o que acabava de acontecer, um jornalista espanhol, hoje já falecido, usou de toda a sua verve para escrever um inflamado artigo que fez história no jornalismo ibérico. Foi lá que, referindo-se à bandeira, utilizou a expressão «la gloria en llamas», a glória em chamas. E o artigo terminava prevenindo aqueles «que se divertem brincando com fogo».

Nesta sexta-feira, irresponsáveis se divertiram queimando a bandeira brasileira e a paulista. A bandeira é o símbolo maior de um país. Atear fogo a ela equivale a ofender todo um povo. É insulto de gravidade extrema, como se tivessem cuspido na cara de todos nós. A bandeira não é símbolo da presidente, nem do congresso, nem da prefeitura. É a representação de todos os brasileiros. Quero crer que os iconoclastas sejam brasileiros também. Assim, terá sido a primeira vez que vejo manifestantes ofendendo a si próprios. Nonsense total.

Nestes tempos de visita papal, cabe lembrar o sempre atual versículo 23:34 do Evangelho de Lucas: «Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem».

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O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Frio

Frio

Você, que vive no Sul e no Sudeste, sentiu frio estes dias. Mas saiba que já houve épocas ainda mais geladas. Veja a descrição detalhada que lhes dou abaixo do extraordinário inverno de 1955.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, quase 60 anos atrás, tinha início a que talvez tenha sido a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.Interligne 18f

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi marcante em cinco aspectos atípicos.

Interligne vertical 81°) O frio
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sobrado cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.Interligne 18f

Frio

Frio

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO

Nota: Os dados que se seguem baseiam-se nos registros no Inmet

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu além de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a máxima foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Frio

Frio

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De a madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul
Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina
São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná
Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo
Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso
Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia
Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Frio

Frio

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio foi intenso principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:
Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

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Fonte: Abaixodezero.com

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Mundo, mundo, vasto mundo

José Horta Manzano

Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso. É o que se costumava dizer para sublinhar traços que diferenciam os povos.

A globalização está aí. Hoje em dia, o mundo parece cada vez menor. Pode-se comprar camembert legítimo no Brasil. Qualquer bom supermercado europeu vende farinha de mandioca, maracujá e cachaça. Há restaurante especializado em sushi até na Bósnia. Na Mongólia ou em Uganda, basta dispor de uma parabólica ― uma «paranoica», como dizia o outro ― para captar Telesur, a televisão bolivariana. ¡Que felicidad, hermanos!

Mas essas mudanças, no fundo, são de fachada. Raspando a superfície, descobre-se que a casca é fininha. Abaixo dela, o miolo é bem mais resistente e detesta mudanças.

Nos costumes políticos, por exemplo. Em tempos idos, o Partido dos Trabalhadores chegou a expulsar afiliados que ousaram mostrar algum sinal de insubmissão a ditames superiores. Hoje, isso não impressiona mais ninguém, muito pelo contrário.

Não é raro ver deputados e outros eleitos bandearem-se do partido A ao partido B, que os acolhe braços abertos. Ficha limpa? Ficha suja? Processo nas costas? Condenação judicial? Pouco importa ― quem liga mais para essas picuinhas? Nestes tempos estranhos em que antigos «virtuosos» tomam a benção de Maluf, os valores andam um bocado turvos. O fato é que está cada dia mais difícil ser expulso de um partido no Brasil.

Torre Eiffel

Torre Eiffel

Já na França, outra roca, outro fuso. Por lá, ainda vale o velho adágio: bobeou, dançou. O site da televisão pública francesa dá hoje seis conselhos aos políticos que quiserem evitar ser expulsos de seu partido. Comparando a visão que se tem da política na França com a que se tem no Brasil, parece que estamos falando de um outro planeta.

Os conselhos são:

Interligne vertical 71) Não fazer a saudação nazista ― aquela com o braço direito estendido à frente do corpo.

2) Não minimizar os crimes da Segunda Guerra.

3) Não atacar as etnias minoritárias na França.

4) Não apoiar o partido Frente Nacional (extrema-direita).

5) Não se candidatar quando o partido tiver escolhido outro nome em sua circunscrição.
Nota: Os deputados franceses são eleitos por voto distrital puro.

6) Não fraudar a receita.

Cada conselho faz alusão a alguma expulsão ocorrida em tempos recentes. Mundo, mundo, vasto mundo.

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A frase do dia – 14

«Num discurso impróprio, a doutora Dilma referiu-se às “mudanças que iniciamos há dez anos”. Louvava a década de pontificado petista diante de um pastor cujo mandato começou há 2013 anos. Não entenderam nada.»

Elio Gaspari, comentando a fala de dona Dilma diante do papa
in Folha de São Paulo, 24 julho 2013