Qui nome qué?

José Horta Manzano

Urna 7Uma das afiliadas ao Partido Comunista do Brasil, atualmente cumprindo mandato de deputada federal, está cotada para dirigir o Ministério da Cultura. Nada menos que isso.

A moça já foi prefeita de Olinda. Sua maior qualidade – salientada pelo Estadão – é ser próxima de ambas as cabeças da hidra bicéfala que encarna nosso Executivo. Trocando em miúdos: é vista com bons olhos por dona Dilma e por nosso guia.

Das dezenas de siglas que compõem a aquarela de nosso sistema partidário, o(s) partido(s) comunista(s) são, em teoria, os que contam com alicerce ideológico mais profundo. Em teoria, continuam aferrados à doutrina que, posta em prática por Lênin, terminou no desastre que vimos.

Manif 10Na ideologia comunista, «cultura» é termo dúbio, perigoso, ambíguo – um quase tabuísmo. Cultura é bom na medida que se encaixa nas diretrizes do partidão. Nada de arte degenerada, nada de peças, espetáculos, livros, novelas ou filmes que possam trazer embutida alguma crítica ao regime. Nem a mais leve desviação será tolerada. A censura é fortemente recomendada.

Que nosso Ministério do Esporte tenha estado, estes últimos anos, nas mãos de um nostálgico do paraíso soviético é compreensível. A exaltação da excelência física foi (e continua sendo) característica de regimes autoritários. Em competições olímpicas, a antiga União Soviética era páreo duro. É verdade que, no Brasil, a gestão do ministro comunista foi pífia. A culpa há de ter sido dos loiros de olhos azuis. Que fazer?

Já entregar as rédeas da cultura nacional a um membro de carteirinha do partidão parece-me temeridade. Se a ministra se encasquetar em impor o pensamento único, pode dar um angu danado. A não ser…

… a não ser que as siglas já não signifiquem mais nada. Pensando bem, acho que é isso mesmo.

Partido 1Faz tempo que o Partido dos Trabalhadores abandonou os trabalhadores para dar prioridade aos milionários. O Partido Progressista, bem mais conservador do que seu nome indica, congrega alguns dos milionários mais contestados do país: o Maluf à frente de todos. E por aí vai.

Desconfio que o partido comunista não fuja à regra. De comunista, só tem o nome. Essa insignificância da denominação de fachada de nossos partidos me lembra historinha antiga.

Interligne vertical 7Ao pedir ao cliente que escolhesse a cor da mercadoria, o caipira perguntou:
«Di qui cô qué?»

E o freguês:
«Di caqué cô.»

Vale transpor ao sistema político brasileiro. Na hora de escolher o nome do partido, fica assim:

Interligne vertical 7«Qui nome vai?»
«Caqué um, uai!»

Proponho que o nome de agremiações políticas seja abolido. Que se passe a conhecê-las unicamente pelo número. É mais que suficiente. Sou do 37. Só voto no 59. Prefiro o 83. Que tal?

A festa continua

José Horta Manzano

Já lhes falei aqui, faz pouco mais de um mês, de nosso exótico ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Pois o homem é incorrigível. Continua aprontando.

Outra travessura do burlesco personagem aconteceu no Carnaval passado, mas só agora veio a público. E olhe que, não fosse o pipocar de traquinagens semelhantes cometidas por outros políticos mais célebres que ele, suponho que suas artes continuassem dormindo no esquecimento.

Artigo da Folha de São Paulo deste 24 de julho nos informa que Aldo Rebelo se valeu de um avião das Forças Aéreas Brasileiras para viajar a Cuba. Até aí, nada de estranho. Parece absolutamente normal que um afiliado histórico do Partido Comunista vá passear na ilha onde ele é amigo do rei.

Para não ficar feio, a viagem foi registrada como «missão oficial» ― quem poderá contestar? Aconteceu durante o Carnaval. E daí? Na maior ilha caribenha, como sabemos, vivem todos felizes o ano inteiro. Não têm necessidade de comemorar carnavais para descomprimir. Por lá, trabalha-se duro o tempo todo, donde o elevado padrão de vida da população.

O ministro levou consigo a esposa. E daí? Se até os encarcerados têm direito a visita íntima, por que seria negada a um figurão da República a regalia de levar consigo a esposa em viagem oficial? A esposa não aparece na lista oficial de viajantes. Bem, aí já começamos a ter um problema. Por que não aparece? Um esquecimento, certamente.

Avião da alegria

Avião da alegria

Além da esposa, o ministro levou consigo o filho. Que tampouco aparece na lista de passageiros ― mas vejam que coincidência!

Vamos recapitular. Nosso aplicado ministro do Esporte decide fazer uma viagem de trabalho a Cuba em pleno Carnaval. Leva esposa e filho. O nome dos acompanhantes não aparece na lista oficial de passageiros da viagem. O senhor Rebelo nos explica que sua esposa e seu filho viajaram a convite dos Castros. E daí? Na ilha maravilhosa mandam os Castros e sua clique, no Brasil mandamos nós. Que se saiba, o custeio da aviação militar brasileira não vem da ilha da fantasia. Sai do dinheirinho suado que é extorquido de todos os brasileiros por meio de impostos diretos e indiretos.

Vejam como são as coisas. O homem que tanto se esforçou em matéria de proteção da língua portuguesa e do saci-pererê é bem menos rigoroso quando se trata de proteger o dinheiro de seus compatriotas contribuintes.

A quem estamos querendo enganar? Contorcionismos verbais já não surtem o mesmo efeito que antes. Ou esses medalhões tomam jeito, ou isso ainda vai acabar mal. Ninguém gosta de ser vítima de zombaria. Os políticos brasileiros estão demorando a se dar conta de que a consciência do povão já não é letárgica como costumava ser.

A continuarem as estrepolias da nomenklatura tupiniquim, essa novela ainda vai acabar mal.

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