De novo a Coreia

José Horta Manzano

Você sabia?

Quando a Inglaterra sediou a Copa do Mundo, em 1966, os tempos eram outros. Estados Unidos e União Soviética se encaravam com ar feroz. Quanto aos demais países, cada um se alinhava com uma das potências. Em 1950, o norte da Coreia, alinhado com a URSS, havia invadido o sul, alinhado com os EUA. As superpotências guerrearam por procuração. O conflito armado só foi suspenso três anos depois, com a criação de uma zona desmilitarizada dividindo a península em duas zonas de influência. Foi o advento das duas Coreias, tais como as conhecemos.

Entre os 16 participantes da Copa de ’66, estava a Coreia do Norte, tão pobre e tão misteriosa quanto hoje. Sua participação dava dor de cabeça ao país organizador. Dado que a Inglaterra não reconhecia o regime de Pyongyang, tanto o hasteamento da bandeira daquele país como a execução do hino criavam problema. Depois de muita concertação, uma solução intermediária foi encontrada.

O hasteamento da bandeira era incontornável, pois não era concebível que uma delas fosse retirada enquanto as outras continuavam a ondular. A bandeira ficou. Quanto ao hino, ficou acertado que, com exceção do jogo de abertura e da partida final, não haveria execução de hino nenhum. O remendo atenuou o mal-estar causado pela presença do incômodo visitante.

Na fase de grupos, a Coreia do Norte amargou, dentro da lógica, um 3 x 0 da URSS. Em seguida, surpreendeu ao empatar com o Chile por 1 a 1. No terceiro jogo, enfrentou a poderosa Itália. Tranquilos, todos esperavam pela lavada que os orientais haviam de levar. O primeiro tempo já estava pra terminar, e nada de sair gol. Aquilo já estava ficando enervante. Eis senão quando, aos 40 minutos… os coreanos marcam! Estupor!

Ferida em seus brios, a Itália voltou do intervalo disposta a repor as coisas nos devidos lugares. Mas não houve jeito. Desorientados pela energia abnegada dos coreanos, os jogadores italianos tinham a impressão de que os orientais eram muito mais numerosos que os onze regulamentares. O tempo passou, o jogo terminou, e a Itália não marcou. Teve de engolir a derrota por 1 a 0. Os visitantes incômodos só seriam derrubados por Portugal, na partida seguinte.

Até hoje, passado meio século, os italianos comentam aquele momento ressentido como vergonha nacional. Tornaram-se a única grande equipe europeia a ter jamais sido batida pela Coreia em Copa do Mundo. Essa situação durou até ontem. A derrota concedida pela Alemanha neste 27 de junho de 2018 mudou o cenário. Doravante, alemães e italianos estão juntos. Guardarão a mesma lembrança constrangedora.

A meta

José Horta Manzano

«Não vamos fixar meta. Mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrá-la.»

Meus distintos leitores hão de se lembrar da frase pronunciada por doutora Dilma. A presidente emérita foi pródiga em ditos tragicômicos. A saudação à mandioca e a exaltação da mulher sapiens também têm lugar garantido no folclore político nacional.

Interligne 18c

Num país como o nosso, onde público e privado se entrelaçam, onde Estado e governo são encarnados por uma única pessoa, os interesses do governo (de curto prazo) e do Estado (de longo alcance) se confundem. Dessa mistura entre o passageiro e o duradouro, nascem imbróglios. A admissão da Venezuela no Mercosul é um deles ‒ um problema cabeludo. O distanciamento comercial entre o Brasil e os países economicamente poderosos é outro nó difícil de desatar.

Em nosso país, cada governo vive e age como se, depois dele, o mundo fosse acabar. O interesse do Estado é abandonado em prol da sobrevivência política dos inquilinos temporários do andar de cima. Nem vale a pena fixar metas ou arquitetar planos, que serão desmantelados pelo governo seguinte.

Interligne 18c

Trinta anos atrás, o universo esportivo da Grã-Bretanha andava ao deus-dará. O fraco desempenho nacional desdourava a imagem do país. O vexame culminou com a classificação britânica nos JOs de 1996, em Atlanta. Naquela edição, eles terminaram em 36° lugar(!), com quinze medalhas, das quais apenas uma de ouro. Países como a Argélia, a Nigéria, a Turquia, a Etiópia e até o Brasil passaram à frente.

Mister John Major, então primeiro-ministro do reino, entendeu que algo precisava ser feito. Os resultados olímpicos tinham de voltar a corresponder à imagem gravada no inconsciente coletivo do mundo: a de uma Inglaterra poderosa. Mas como proceder? O caminho era um só: investir. Mas tirar dinheiro de onde? Alguma nova fonte tinha de ser criada sem aumentar impostos.

JO 4A solução foi inventar uma nova loteria nacional. Com bom trabalho de marketing, o novo jogo logo caiu no gosto popular. Grande parte dos ganhos foi, desde então, dedicada a apoiar esportistas. Mas, atenção: a intenção era aumentar a colheita de medalhas nos Jogos Olímpicos. Portanto, mais valia investir em esportes em que a concorrência é menor.

Assim foi feito. O orçamento tradicionalmente reservado para esportes muito concorridos como o futebol, o vôlei e o basquete foi diminuído. Em compensação, esportes olímpicos menos praticados receberam uma injeção de recursos. Só para dar uma ideia de como a loteria ajudou, basta mencionar que, em 1996, o financiamento público para os esportes era de 5 milhões de libras por ano. Vinte anos mais tarde, nos quatro anos que antecederam os JOs do Rio, a quantia subiu para 274 milhões de libras mais 73 milhões para os paraolímpicos.

Medalha não cai do céu por obra e graça de São Benedito. Tem trabalho e investimento por detrás. Mas compensa. Para espanto geral, o Reino Unido deverá terminar hoje classificado em segundo lugar. Reparem que as medalhas não vêm de esportes ultrapopulares e concorridos. Modalidades como atletismo, ginástica artística, remo, canoagem, hipismo, saltos ornamentais, triatlo, vela sobressaem.

Bandeira UK 2E isso tudo por quê? Porque tiveram a sensatez de entender que os interesses maiores do Estado britânico primam sobre os interesses passageiros de cada governo. John Major, o criador da loteria, deixou o cargo em 1997, um ano depois de Atlanta. De lá para cá, a casa n° 10 de Downing Street já foi ocupada por outros quatro primeiros-ministros. Dois deles eram trabalhistas e os outros dois, conservadores.

Ajuizados, todos entenderam que a promoção do esporte não era política de governo específico visando a perpetuar-se no poder. Não passou pela cabeça de ninguém suspender o programa. O resultado está aí: o Reino Unido transformou-se em potência olímpica capaz de peitar uma China de bilhão e meio de habitantes.

Nota:
Não encontrei notícia de casos de corrupção no movimento olímpico britânico. Salvo melhor juízo.

God save the Vikings!

José Horta Manzano

Com tanto problema em roda, o distinto leitor dificilmente vai encontrar tempo e ânimo pra assistir a um jogo de futebol. Principalmente se ele cair em plena segunda-feira à tarde. E com mais razão ainda se as seleções em campo forem Inglaterra e Islândia, países tão distantes e tão assimétricos.

Aconteceu hoje nas oitavas de final da Eurocopa. De um lado, estava um time forte, representando uma Inglaterra de 53 milhões de habitantes, pátria do futebol. Do outro, uma seleção desconhecida, pescada num país de 330 mil pessoas, perdido pelas bandas do Polo Norte.

A animadíssima torcida islandesa

A animadíssima torcida islandesa

Todos achavam que a Inglaterra engoliria a Islândia numa garfada só. Ninguém imaginava que aqueles vikings fossem osso tão duro de roer. Não jogam, certamente, um «futebol champanhe», mas são tenazes, aguerridos, destemidos e incansáveis. Têm a ousadia daqueles de quem nada se espera.

O impensável aconteceu. A poderosa seleção inglesa, dirigida pelo venerando Roy Hodgson, levou a maior humilhação de sua história. Acaba de perder da pequena Islândia por 2 x 1.

Eliminados os britânicos, agora são os vikings que vão enfrentar o dono da casa nas quartas de final. França e Islândia se boxearão domingo que vem às 4h da tarde (hora de Brasília). O time islandês realizou verdadeira façanha, um segundo Brexit!

Kiss of death

José Horta Manzano

Dicionario 2O Cambridge Dictionary ensina que a expressão “kiss of death” (=beijo da morte) é usada quando se tem certeza de que um fato vai impedir outro de se realizar. E dá como exemplo: “Chuva é o ‘kiss of death’ de um churrasco”.

Em pleno esperneio contra a cassação de seu mandato, dona Dilma acaba de receber importante apoio moral. Vem de Diego Armando Maradona, antigo profissional do futebol argentino. Embora seja figura idolatrada em seu país, o jogador nunca arrebatou multidões no Brasil.

De fato, o gol de mão com que Maradona definiu um jogo contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986 ficou na história do futebol. Não foi o gesto mais elegante que já se viu. É de crer que o esportista preferisse ser lembrado por outras façanhas, mas assim são as coisas. Passando por cima da perfídia do ato, nossos hermanos sempre louvaram o goleador pela esperteza.

Chamada do jornal O Tempo, 14 dez° 2015

Chamada do jornal O Tempo, 14 dez° 2015

Pensando bem, o socorro anunciado por Maradona faz sentido. Seu gol de mão foi exemplo típico do tenebroso adágio “os fins justificam todos os meios”. Na mesma linha, falsos dossiês, rapinagem, cooptação e pedaladas – métodos empregados com regularidade por dona Dilma e sua turma – seguem a mesma filosofia. A coincidência de visão de mundo é perfeita. O chato é que… nem todos os brasileiros enxergamos pelos mesmos óculos. Convenhamos que é um tanto embaraçoso.

Quer saber de uma coisa? Esqueça a ‘mano de Diós’. No que diz respeito a nossa presidente, o tuíte do ‘esperto’ jogador está mais pra ‘kiss of death’.

O touro e o elefante

José Horta Manzano

A expressão é mais usada em Portugal do que no Brasil, embora não seja assim tão rara em Terras de Santa Cruz.

Estabanado como elefante em loja de cristais

Em vez de estabanado, há quem prefira desastrado. Um ou outro saudosista escolherá estouvado – palavra do tempo de minha avó, de uso raro hoje em dia.

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

by Patrick Chappatte, desenhista suíço

A frase, bastante expressiva, não é exclusividade nossa. Aparece em línguas que nos são familiares. Os ingleses optaram por substituir o elefante por um touro. Como dizem os franceses, «os ingleses não conseguem fazer nada como os demais». Pura maldade.

Difícil será dizer quem terá sido o primeiro a introduzir paquiderme (ou bovino) em loja tão delicada. Quem terá copiado quem? Acho que nunca saberemos.

Interligne vertical 17cNa Inglaterra, diga:
Like a bull in a china shop.
Como um touro numa loja de porcelana.

Na Espanha, use:
Como un elefante en una cristalería.
Como um elefante numa loja de cristais.

Na França, não hesite:
Come un éléphant dans un magasin de porcelaine.
Como um elefante numa loja de porcelana.

Na Alemanha, opte por:
Wie ein Elefant im Porzellanladen.
Como um elefante numa loja de porcelana.

E na Itália, não se acanhe:
Come un elefante in una cristalleria.
Como um elefante numa loja de cristais.

Operação sorriso

José Horta Manzano

Fifa WM 2010Há forte similitude entre o modus operandi da clique que se apoderou da cúpula da Fifa e a que se aboletou na cúpula federal do Brasil. Para chegar lá e perenizar-se no poder, ambas se valeram do mesmo expediente: fizeram uso das regras em vigor. Concebidas para ser usadas por gente bem-intencionada, as regras não resistiram ao mau uso. Acabaram se voltando contra si mesmas num processo autodestrutivo.

No Brasil, mensalões e petrolões cuidaram da compra dos mandarins. A cooptação dos pequenos, menos complicada e menos arriscada, fluiu pela bolsa família – genial achado que garantiu ao governo o enfeudamento perene de hordas de assistidos.

Fifa WM 2006Pros lados de Zurique, embora tenha saído mais caro, a Fifa seguiu caminho análogo. De todo modo, caro ou barato, que importa? A conta é sempre paga por terceiros.

Por mais benévolo que seja nosso olhar, não encontramos mais que uma vintena de grandes nações futebolísticas. A Fifa tem 209 membros. Na hora das escolhas, o voto de uma Andorra vale tanto quanto o de uma Alemanha. A voz do Nepal tem o mesmo peso que a da Inglaterra.

Fifa WM 2002Os medalhões logo se deram conta de que, se era difícil cooptar uma Alemanha ou uma Inglaterra, ganhar o voto de numerosos pequenos países demandava menos esforço. E saía mais barato.

E assim fizeram durante anos e anos. Como o sistema estava dando certo, afrouxaram os controles. Boladas de dinheiro, cada vez mais consistentes, foram movimentadas pelo circuito bancário. Acreditando-se inimputáveis, os dirigentes do futebol mundial acharam que estava tudo dominado. Enganaram-se.

Os EUA começaram a se interessar pelo que acontecia. As razões são múltiplas:

Interligne vertical 11a* depois da Copa 1994, o esporte da bola no pé conheceu ganho de popularidade naquele país;

* os montantes movimentados são tão elevados que chamam a atenção e despertam desconfiança;

* os maiores patrocinadores da Fifa são empresas americanas, entre elas Visa e Coca-Cola;

* com bilhões, prestígio e métodos opacos, a Fifa começava a incomodar o poderio americano;

* a próxima copa está programada para se desenrolar na Rússia, país com o qual os EUA têm uma pendenga. A tentação de melar o jogo era muito grande.

No meu entender, está aí a explicação para o que está acontecendo. Sepp Blatter diz que pretende continuar no trono até o fim do ano. Imprudente, a afirmação não faz sentido. Seria como se Collor, havendo renunciado, guardasse as rédeas do País durante quase um ano, à espera de novas eleições.

Imagino que Herr Blatter seja despachado rapidinho. Depois disso, o mais adequado será substituí-lo pelo príncipe jordaniano – o único que ousou desafiar o poderoso capo. Agora que o chefão caiu, são muitos os que criaram coragem para se candidatar. São como toureiros posando com o pé em cima de touro morto. Valor tem de ser dado àquele que enfrentou a fera enquanto ela rugia.

Copa 14 logo 2No frigir dos ovos, o mundo saiu ganhando. Corruptores e futuros corrompidos pensarão duas vezes antes de agir. Por alguns anos, a Fifa deverá ser governada sem derivas mafiosas. Muita gente sente que, a partir de agora, o esporte mais popular do mundo será mais bem administrado.

Os EUA saíram bem na foto e acabaram ficando com o crédito desta verdadeira operação sorriso.

Mãos ao alto!

José Horta Manzano

We shall never surrender!
Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Sir Winston Churchill

Você sabia?

Não está claro qual era o termo usado pelos anglos, antes do ano 1000, para designar o fato de entregar os pontos ao final de uma batalha.

Brigas e conflitos sempre houve, tanto lá quanto em qualquer parte do planeta. Portanto, toda contenda deixava um vencedor e um vencido. Como é que o perdedor se entregava? Que dizia?

Linguistas acreditam que era usado o verbo arcaico geldan, com significado próximo de pagar, compensar com dinheiro, servir. Faz sentido. Desde tempos imemoriais, vencedor costuma exigir ressarcimento.

A palavra geldan – reconhecível no alemão atual Geld, com o significado de dinheiro – deixou dois descendentes em inglês: yield e gold. E por que será que perdedores, ao entregar-se, deixaram de usar termos dessa família? Por que é que surrender suplantou yield?

Como tantas outras, a palavra foi trazida pelos normandos, povo do norte da França que conquistou a Inglaterra mil anos atrás. Coisa curiosa: a atual palavra inglesa é resultado de um mal-entendido.

Assalto 1O que vem do estrangeiro sempre tem sabor especial. Se a novidade estiver sendo trazida pelo vencedor, então, o sabor especial será ainda mais acentuado. Considerando que o conquistador era portador de um modo mais civilizado de viver, os ingleses adotaram, sem reclamar, uma cachoeira de palavras – entre elas, as que se usavam no fim de batalhas.

Abandonaram o velho geldan e elegeram o francês se rendre (= render-se). Só que houve chiado na linha. Não se deram conta de que o verbo era reflexivo. A expressão foi incorporada à língua corrente inglesa tal qual era ouvida. Saiu tudo grudado e assim ficou até hoje: surrender.

Osso duro de roer

Wilma Schiesari-Legris (*)

Percy é o nome do cocker spaniel da minha norinha Cate. Seu pelo é anelado e rebelde, da cor do mel, e contém o mesmo néctar que cora seus olhos. Inevitavelmente, o olhar do Percy é tão humano que, se ele não fosse cachorro pelo focinho e pela cauda, seria gente pelo olhar. Tem um olhar que pede amor, secretamente em silêncio, e sabe como proceder.

Cachorro 20Cate conhece Percy com perfeição e vice-versa. Ela ensinou-lhe a fala dos homens e o afago dos deuses. Quando ela se senta, ele se prostra aos pés da dona e espera aquele gesto tantas vezes repetido que começa pelo olhar: levemente caídos, olhos nos olhos, os seus e os dela!

Depois dessa atenção direta e sem divergência, a mão humana e feminina passa entre as orelhas de Percy, rodeia-lhe a face, sobe outra vez para o alto da cabecinha e se prolonga no dorso do animal, que prefere então sentar-se.

Não se trata de repetição mecânica de afagos e carinhos, mas de uma linguagem altamente pontuada de frases de amor de ambos os lados, declarações tantas vezes repetidas no silêncio mútuo que se instala entre ambos, mesmo quando todos nós falamos e gesticulamos juntos em família.

Percy está atento a tudo o que ocorre em seu redor, mas principalmente concentrado nos passeios manuais que se realizam ao sabor do seu corpo canino. Silencioso e receptivo, leva consigo o lugar do amante que por vezes é do meu filho. Mas Percy chegou primeiro e meu filho Olivier conhece o seu lugar, mesmo na classificação amorosa e conivente que existe entre os três.

Cachorro 19Cate e Olivier vivem em Londres e Percy vive em Guildford, terra onde Lewis Carroll escreveu Alice, lugar arranjado com arte e harmonia, a 50 minutos de Londres, onde a cidade ainda não deglutiu completamente a natureza. É um cão farmer no sentido nobre do termo: um gentle dog!

Para aquecer o corpo sempre em busca de calor, normalmente Percy senta-se perto da lareira acesa quando Cate não se encontra em casa. Quando ela retorna, são outros quinhentos! Ele se instalará onde ela o fizer, sentinela de sua dona, no país das maravilhas. Não se moverá a nenhum momento, sentindo o pelo a deslizar na carícia das mãos que o afagam. A respiração continuará normal entre ela e ele e Olivier os observará, sem sequer rosnar um pouquinho…

Cachorro 21Muito asseado e cheiroso, Percy jamais escalará os sofás e os leitos e sequer dirigir-se-á para o interior dos quartos. Montará a guarda, se for preciso, diante da porta fechada da ama, defenderá sua dona de qualquer tentativa de ataque, esperará que ela se desperte antes de precisar partir, dividirá com ela o breakfast e, se for preciso, tomará com ela o chá das 5, molhando, com ajuda da patinha, o cake no nobre líquido!

E seu coraçãozinho de cão diminuirá de tamanho para aguentar a frequência acelerada que provavelmente estraçalharia seu peito quando Cate se levantar para partir com o Olivier. Uma lágrima triste de cachorro vai escorrer na sua carinha desnorteada e ele vai colar a orelha por cima para disfarçar a emoção.

Despedir-se-ão todos e ele ficará com a mãe de Cate, em busca de um espelho que possa atravessar. – Socorro! Estou atrasado! – e, discretamente, sem poder colocar o curto rabo entre as pernas, engolirá um Lexotan para poder dormir.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Edita o blogue IeccMemorias.wordpress.com.

Com ou sem a Escócia?

José Horta Manzano

Você sabia?

UK sem Escócia

UK sem Escócia

Neste momento em que os habitantes da Escócia estão decidindo, pelo voto, se querem continuar membros do Reino Unido ou se preferem seguir caminho separado, convém lançar uma vista d’olhos a alguns aspectos da questão.

Para começar, vamos lembrar que a mui fotogênica bandeira do Reino Unido é formada pela superposição de três símbolos nacionais: a Cruz de São Jorge (que representa a Inglaterra), a Cruz de Santo André (emblema da Escócia) e a Cruz de São Patrício (que simboliza a Irlanda). O esquema é este aqui:

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Caso o sim seja majoritário e os escoceses (re)conquistem a independência perdida séculos atrás, o Reino Unido será amputado de alguns símbolos fortes. Alguns deles:

A bandeira
Pela lógica, a Cruz de Santo André ― o azul da bandeira ― deverá ser apagado. O novo lábaro perderá seu charme. Ficará assim:

Union Jack sem Escócia

Union Jack sem Escócia

James Bond
Sean Connery, que estrelou os primeiros filmes do célebre agente secreto britânico, é escocês. E se orgulha disso. Prova é, que milita num partido nacionalista escocês. James Bond passará a fazer parte do inconsciente coletivo de outro país, não mais do Reino Unido.

Personagens famosos
Outra pessoas famosas, que a gente costuma considerar «inglesas», são, na verdade escocesas.
Interligne vertical 10Andy Murray, tenista
Jackie Stewart, legendário piloto de Fórmula I
Alex Ferguson, treinador e ícone do futebol britânico
Sir Robert Watson-Watt, inventor do radar
Lord Kelvin, físico que deu nome à Escala Kelvin
Adam Smith, pai da moderna Economia
David Hume, filósofo
Alexander Fleming, descobridor da penicilina
Tony Blair, antigo primeiro-ministro do Reino Unido
Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes
Jimmy Clark, piloto de Fórmula I

Johnnie Walker
A marca legendária do uísque iria por água abaixo ― ou por uísque abaixo(*). Não só o Johnnie, mas todo o prestígio da bebida escocesa por excelência.

O pico
O pico mais elevado do Reino Unido (na Europa) está na Escócia. É o Monte Ben Nevis, de cerca de 1350m de altitude. O Reino Unido verá sua altitude rebaixada.

Interligne 18b

E olhe lá: isso tudo sem mencionar que a quase totalidade das reservas britânicas de petróleo se encontram em águas escocesas. Aí, sim, vai doer no bolso. Enfim, eles, que são britânicos, que se entendam. Visto assim de longe, parece briga de somenos importância. E acho que é.

Interligne 18c(*) Observação etimológica
O termo whiskey/whisky é redução da expressão gaélica uisge beatha, que significa «água de vida». Uisge/uisce é água nas línguas celtas.
Supõe-se que a expressão seja um decalque do latim medieval aqua vitae. Confronte-se com o francês moderno eau de vie, com o italiano acquavite, com o escandinavo aquavit.

Tombo econômico

José Horta Manzano

Jogar futebol simplesmente como amador é uma graça. O esportista domingueiro faz o que lhe agrada, diverte-se, contribui para manter-se em boa forma física. No terceiro tempo, ainda reencontra os amigos para um bate-papo risonho. E a coisa termina ali. Tchau e até a semana que vem.

Ser jogador profissional são outros quinhentos. O prazer pode até continuar presente, mas não é mais o único motor. Salário, prêmios, patrocínios, disciplina, compromissos, contratos passam a fazer parte do universo do praticante.

Dizem as estatísticas que nunca tantas equipes sul-americanas tinham conseguido sobreviver às décimas-sextas de final. Deve ser verdade. Grandes países futebolísticos europeus já acolheram, de volta à pátria, sua cabisbaixa seleção nacional. Itália, Inglaterra e Espanha são os exemplos mais marcantes.

Camiseta da Seleção espanhola

Camiseta da Seleção espanhola

Muita gente depositava confiança na equipe da Espanha, país que ― ainda agora ― é o campeão mundial em vigor. Com efeito, a láurea vale por quatro anos, até que novo titular venha desbancar o antigo. A desclassificação temporã fez estragos.

O portal basco de informação El Correo relata que o fracasso da seleção espanhola no Brasil não foi somente desportivo. Os cachês exigidos pela Federação de Futebol daquele país terão de ser, doravante, bem mais modestos quando de partidas amistosas. Os patrocinadores estão considerando rever os contratos.

A empresa de artigos esportivos Adidas, que havia preparado uma batelada de camisetas rojas prevê encalhe de estoques. Fabricantes de acessórios ― bandeiras, bonés, bonequinhos, cornetas, buzinas, capinhas para retrovisores e que tais ― seguem o mesmo caminho.

Anunciantes que contavam rechear as transmissões com propaganda também engrossam o cortejo dos perdedores. O valor do minuto de publicidade televisiva caiu dramaticamente. Perdem também as emissoras de tevê.

Até o segmento de bares e restaurantes foram atingidos. Já disseram adeus aos milhões de euros que se esperava fossem gastos por hordas de festivos e paramentados torcedores reunidos em salões em frente a telões e telinhas.

A chamada Marca España, um símbolo de prestígio que inflacionava o valor de jogadores espanhóis e facilitava exportação de profissionais, constata agora a extensão da ruína.

Institutos especializados avaliam que a perda total atinja por volta de um bilhão de euros. Un batacazo, como dizem os castelhanos ― um baque e tanto!

Ainda não é hora

José Horta Manzano

É brincando que se dizem as verdades. É na hora da descontração que cada um desnuda sua verdadeira personalidade. Quem nasceu pra tostão não chega a merréis. Adote o distinto leitor o ditado que lhe parecer mais adequado.

Sábado passado, a convenção partidária que chancelou a candidatura de dona Dilma a suceder a si mesma no cargo de chefe do Executivo da República contou com a presença do indispensável Lula, condimento de todas as batalhas.

Segundo relato do repórter da Agência France Presse ― ecoado pela Folha de São Paulo ― nosso messias estava bem-humorado. Os (raros) repentes de bom humor do antigo presidente costumam gerar apreensão entre assessores. Periga sair alguma sandice. Tiro e queda, foi o que aconteceu.

“É a primeira vez que uma equipe de futebol perde por excesso de qualidade dos nossos estádios. A Inglaterra não estava acostumada a jogar em um campo da qualidade dos que temos aqui” ― foi o que declarou um atrevido Lula, que continua a crer que o mundo gira em torno de sua pessoa.

Estadio 1Com certas coisas, não se deve brincar. Ao enfatizar que a eliminação dos visitantes se deveu à qualidade excepcional dos estádios brasileiros, deixou implícito que as outras seleções europeias ― as que não foram eliminadas ― dispõem de estádios melhores. Denegrir a nação que inventou o futebol não cai bem na boca de um líder partidário que, ainda por cima, já foi até presidente do País. Por que essa ofensa dirigida gratuita e especificamente aos ingleses?

Considerando que ele já conseguiu proezas como conciliar revolução proletária com peleguismo e firmar aliança com Collor, Maluf e Sarney, Lula mostrou uma faceta intolerante e preconceituosa.

Na cabeça de nosso guia, o excesso de qualidade de nossos estádios deve rimar com o excesso de democracia da Venezuela, distorção devidamente detectada e denunciada por ele em 2005.

Ainda não chegou a hora de fazer pouco daquele povo. No dia em que os súditos britânicos decidirem vir tratar da saúde em nossos hospitais públicos e estudar em nossas universidades, aí sim, poderemos nos vangloriar.

De menor

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 abril 2014

Atividades criminosas ocorrem em qualquer lugar do mundo. Em nosso país, infelizmente, sua frequência tende a ser mais elevada do que a média mundial. Refiro-me a todos os comportamentos que se enquadram no Código Penal, desde roubo de maçã até assassinato, passando por todo tipo de assalto ao erário. O volume exagerado de malfeitos tem poder anestesiante. A gente acaba nem prestando mais a atenção que deveria.

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

by José Bello da Silva Jr, desenhista mineiro

Crimes particularmente odiosos têm, ainda assim, o poder de sacudir a opinião pública. Quando algum feito escabroso é obra de um menor de idade, uma grita costuma se levantar para pedir que seja adiantada a idade da maioridade penal.

É o que acontece estes dias. Na sequência de crime excepcionalmente abjecto cometido por um menor de idade, o legislativo prevê desengavetar e levar a votação, ainda este mês, projeto de adiantamento da maioridade penal. A proposta é baixar o limite, em casos específicos, de 18 para 16 anos de idade.

A mim, me parece que o assunto é complexo demais para ser tratado a vassouradas. Comoção nacional não é boa conselheira. Decisão tomada na hora do abalo, sob o impacto de forte emoção, periga não ser a mais adequada. A problema complexo, solução ajuizada e bem arquitetada.

Para começar, há que encarar uma questão que roça a filosofia: que objetivo se persegue ao determinar que seja tolhida ou limitada a liberdade do criminoso condenado? Fazemos isso por simples castigo ou por vingança? Interessa à sociedade tentar a reeducação do delinquente? Ou será que procuramos simplesmente banir a ovelha negra para evitar que a contaminação se alastre aos demais cidadãos?

Basilar, essa reflexão extravasa amplamente dos limites do parlamento. Merece ser confiada a uma comissão de sábios, que inclua gente do ramo e gente de bom-senso. Antes de definir a razão pela qual mandamos o transgressor para trás das grades, não faz sentido discutir idade.

A fixação da idade a partir da qual as leis penais são aplicáveis é assunto espinhoso. Nem países europeus, que já uniformizaram longa fieira de procedimentos em variados campos, enxergam essa matéria de maneira homogênea. Na falta de acordo, cada qual procede a seu modo.

Nosso Código Penal talha a questão de modo exageradamente brusco, sem grande sutileza: a barreira que separa o adolescente do adulto cai, abrupta, no dia em que o cidadão completa seus dezoito anos. À meia-noite, mais precisamente.

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Crédito: sigoendireitando.blogspot

Ora, sabemos todos que o amadurecimento não acontece, como por milagre, de um dia para o outro. Ninguém vai dormir criança para, de manhã, acordar adulto. O processo de desenvolvimento do indivíduo é gradual. E como tal deveria ser encarado. Quando não se sabe que caminho tomar, não há que envergonhar-se. Tomar decisões no escuro será ainda pior. Melhor mesmo é baixar a crista e tomar o pulso em outros países. Quem sabe outros povos já não terão encontrado soluções que nos possam ser úteis?

A fixação da maioridade penal está longe de ser universal. É controversa e varia de país a país. Na Suíça, a idade a partir da qual o indivíduo pode ser considerado penalmente responsável é de 7 anos. Na Inglaterra, de 10 anos. Na Holanda, de 12 anos. Na França, de 13 anos. Na Alemanha e na Itália, de 14 anos. Na Bélgica e na Espanha, de 16 – sendo que, neste último país, está em estudo a redução para 13 anos. Em vista do volume crescente de crimes graves cometidos por adolescentes, a Alemanha e a Bélgica tencionam baixar o limite da responsabilidade penal para 12 anos.

A alteração que está sendo proposta no Brasil, de 18 para 16 anos, não vai, por si, conter a violência. Vai – isso sim – contribuir para a superlotação das prisões, que são por muitos consideradas verdadeiras escolas do crime.

Num país onde o ministro da Justiça – aquele que tem a faca, o queijo, o pão e a manteiga na mão – já chegou a declarar que «preferia morrer» caso tivesse de cumprir alguns anos em prisão brasileira, a idade em que o indivíduo atinge a maioridade penal é de importância secundária. Nenhuma reforma do sistema será eficaz se não incluir reformulação total do universo prisional. Do porão ao telhado. País rico é país sem miséria carcerária.

Mas que calô, ô ô ô!

José Horta Manzano

Como a maioria dos esportes, o futebol foi inventado pelos ingleses. Mesmo na Inglaterra, correr uma hora e meia atrás de uma bola não é para qualquer um. Precisa ser jovem e estar bem-disposto.

É esporte feito sob medida para o clima britânico, sempre fresquinho. Campo nevado impede que se jogue. Calor acima dos 25 graus começa a representar empecilho para quem tem de despender tanto esforço. As Ilhas Britânicas, assim como grande parte da Europa, passam 300 dias por ano sem neve e com temperaturas abaixo dos 25 graus. Ideal.

Desde fins do século XIX, o futebol foi transplantado para terras tropicais. Não é seu habitat natural. Aliás, se prestarmos bastante atenção, constataremos que o Brasil é o único país situado na faixa intertropical onde esse esporte é popular. Em nossa faixa climática, nenhum outro país ou território se destaca na prática do futebol. Nem na África, nem na Ásia, nem na Oceânia.

Esporte basicamente europeu, é surpreendente que ele se tenha popularizado tanto em terras tupiniquins. É quase um milagre que essa prática esportiva tenha plantado raízes em nosso solo. Para usar expressão em voga atualmente, deve ser um ponto fora da curva.

Futebol

Futebol

Pois bem, o próximo campeonato mundial de futebol vai-se realizar no Brasil. Deixemos de lado toda consideração política ou econômica. Vamos levar em conta unicamente o fator climático. A coisa está esquentando ― no sentido próprio e no figurado.

Equipes estrangeiras, principalmente as que já experimentaram o bafo equatorial de algumas sedes, mostram-se preocupadas. Argumentam que, se é impossível mudar o clima do País, que se busque pelo menos marcar as disputas para horas em que o termômetro seja mais camarada.

A Fifa, no entanto, baté pé firme. Insiste em manter certos encontros sob sol meridiano em lugares como Fortaleza, Recife, Salvador. Uma crueldade. E por que essa recusa de adaptar horários ao clima? Pelas mesmas razões pelas quais, faz anos, o governo brasileiro cometeu o desatino de eliminar um dos fusos horários do País: a pressão do lobby televisivo.

O grosso dos telespectadores está na Europa. No mês de junho, quando em Brasília são 20h ou 21h, na Europa já é madrugada. Muita gente já foi dormir, há menos espectadores, a receita publicitária míngua, o interesse se desmilíngue. Está aí a razão. A Fifa, como sabemos todos, é uma organização estranha, secreta, altamente suspeita de corrupção, riquíssima e poderosíssima. Portanto, abandonem qualquer esperança de mudança. Os jogos previstos para a uma da tarde não serão desmarcados.

Isso não é nada perto do que espera os astros da pelota em 2022, quando a Copa terá lugar no Catar. No mês de junho, aprazíveis 48° à sombra. Alguém se habilita?

Frase do dia — 52

«Que tal se no próximo Dia da Consciência Negra discutíssemos a obra de Nabuco nas escolas, nos jornais, nas empresas, nas redes sociais? Se o fizessem, as pessoas descobririam que o movimento abolicionista nasceu na Inglaterra, primeira pátria do capitalismo. Existe uma conexão direta entre a liberdade pessoal e a liberdade de empreender. Comparar o comércio de produtos com o comércio de pessoas, como fazem os militantes contemporâneos, é uma falácia típica de diretório acadêmico.»

Paulo Briguet, jornalista e escritor. In Gazeta do Povo, de Curitiba, 2 dez° 2013.

O 13 de maio às avessas

José Horta Manzano

Sob forte pressão das potências da época, o Brasil foi praticamente forçado a abolir a escravidão. O século das luzes, os anos 1700, já havia despertado no mundo europeu uma nova reflexão sobre o assunto.

O fato de um indivíduo ser automaticamente condenado a uma vida de escravidão unicamente por pertencer a determinada raça começou a incomodar. O que antes parecia fazer parte da ordem natural das coisas passou a ser questionado.

A Revolução Francesa acelerou a reflexão. «Se, depois de lutar tanto, conseguimos nos desvencilhar de nossos senhores, não faz sentido mantermos outros estratos de população sob regime forçado de trabalho» ― foi o que pensaram as mentes mais iluminadas.

Um afrouxamento gradual do sistema escravagista teve lugar a partir do início do século XIX. A Inglaterra em 1838 e a França em 1848 extinguiram definitivamente a estrutura escravocrata. Foi abolida a captura de africanos, assim como seu uso como escravos. Terminada a Guerra de Secessão, a escravidão foi extinta também nos Estados Unidos em 1865.

Estetoscópio

Estetoscópio

O Brasil demorou um pouquinho mais. No entanto, a abolição da importação de novos escravos, decretada em 1850 ― associada à Lei do Ventre Livre, em 1871 e à Lei do Sexagenário, em 1885 ― já haviam decretado de facto o fim do sistema no País. A lei de 13 de maio de 1888 apenas apressou e oficializou uma situação à qual o Brasil já se encaminhava inexoravelmente.

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Mas o homem é incorrigível. Você expulsa o fantasma pela porta, ele volta pela janela. Volta e meia, descobre-se que algum poderoso anda explorando um grupo de gente em situação de fragilidade, num esquema de semiescravidão. Situações assim são frequentemente flagradas em regiões recuadas do território. Mas também em grandes cidades, principalmente em São Paulo, desbaratam-se frequentemente oficinas clandestinas que exploram o trabalho de bolivianos, peruanos, chineses, em situação análoga à escravatura.

A cada vez, a imprensa denuncia, a tevê faz eco, liberam-se os cativos. Quanto aos culpados, bem, sacumé, nossa Justiça é atulhada de chicanas, para usar palavra da moda. O processo, quando há, arrasta-se por tanto tempo que o crime periga prescrever. Mas essa é uma outra história, não é o assunto do dia.Interligne 18f

O assunto do dia é uma notícia assustadora em cuja veracidade eu não acreditaria, não tivesse ela sido publicada em vários jornais: o Brasil reintroduz a escravidão.

Já não se procede mais como 150 anos atrás. Afinal, o mundo progrediu. Já não se veem mais empreendedores independentes trabalhando em sistema vertical, tipo serviço completo, incluindo a colheita da mercadoria humana na origem, o transporte até nossos portos e a comercialização de indivíduos em leilão público.

Hoje nos limitamos a ser cúmplices de um moderno trato de escravos, versão 2.0, coisa fina. Nossas mãos ficam limpas, o trabalho sujo é deixado a cargo de outros. Fechamos um olho para a realidade e fingimos, assim, que ela não existe.

O mais inquietante nessa moderna variante do escravagismo é a ação governamental direta. No século XIX, o governo se limitava a dar seu beneplácito, enquanto o trabalho grosso era executado por empresários pouco humanitários, que se encarregavam de trazer o negros e de comercializá-los. As autoridades se contentavam com os frutos da operação, que vinham sob forma de impostos e de votos dos fazendeiros satisfeitos.

Na escravidão atual, o governo federal é conceptor, executante e beneficiário da operação. Os frutos continuam a ser colhidos sob forma de impostos e de votos, exatamente como no passado. Uma jogada de mestre!

Não sabem do que estou falando? Cáspite! Da importação de médicos cubanos. Não sou médico, nem beneficiário da bolsa família. Tampouco vivo em São Nicodemo do Brejo. Não recorro ao SUS. Portanto, prefiro não entrar em considerações gerais sobre a conveniência ou não de se importarem médicos. Eles, que são brancos, que se entendam. Prefiro deixar essa discussão aos interessados diretos.

Mas não posso deixar passar em branco uma evidência: o povo brasileiro ― através de seus representantes democraticamente eleitos ― está patrocinando uma moderna estrutura de semiescravidão. Somos cúmplices da abominável chantagem que a gerontocracia de Havana está impondo aos jovens médicos cubanos.

Médico

Médico

Com o desaparecimento da antiga União Soviética, Cuba perdeu seu padrinho. Desde então, a miséria da população, a falta de perspectivas, a desesperança revelam a falência do regime. A ilha vive de expedientes. Os turistas trazem alguma migalha, os cubanos do exterior ajudam com mais um pouco, o regime bolivariano garante o fornecimento de petróleo. E assim, os infelizes vão levando adiante. Fazem o que podem.

Exportar revolução, coisa que se fazia muito lá pelos anos 70, saiu de moda. Para aliviar o sufoco financeiro, o regime dos Castros imaginou um estratagema: exportar profissionais da área médica. Como se pode facilmente imaginar, médicos e enfermeiros são bem-vindos em qualquer lugar do mundo.

Faltava encontrar um meio de garantir que os modernos escravos entregassem o soldo aos mandachuvas de Havana, exatamente como a prostituta faz com seu cafetão. Não foi difícil. O acordo ― aceito pelo Brasil ― estipula que os salários não serão pagos diretamente ao profissional, mas ao governo cubano. Que, por sua vez, guardará o que julgar conveniente e retrocederá ao médico a quantia que bem entender.

Para garantir que não haverá fugas nem deserções, os infelizes profissionais são proibidos de trazer consigo a família. Mulher e filhos, tomados como reféns, permanecem na ilha. Para fechar o cerco, o Brasil se comprometeu a não acolher pedido de asilo de nenhum médico cubano. Parece intriga da oposição, futrica de vizinho maldoso, piada de salão, mas é a pura verdade. A confissão saiu, com ar displicente, da boca do próprio advogado-geral da União.

Socialismo o muerte

Socialismo o muerte!

Condenados por assassinato, gente com sangue nas mãos, é acolhida de braços abertos. Aconteceu, não faz muito tempo, com um foragido da justiça italiana. Quanto a médicos que só perigam ter nas mãos o sangue de brasileiros cuja vida estiverem tentando salvar, esses não terão direito a nenhum asilo. Que venham, socorram nossos deserdados, e em seguida voltem rapidinho para o inferno de onde saíram. Passar bem!

E pensar que a razão de ser da revolução do socialismo o muerte foi exatamente eliminar a exploração do homem pelo homem!

Pior ainda é pensar que as autoridades de nosso País se acumpliciam, em nosso nome, com essa maquinação. Dá muita vergonha e muita raiva.

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Observação
Um recorte deste artigo de Flávia Marreiro, da Folha de São Paulo, deveria ser entregue a cada médico cubano que pisasse solo brasileiro.

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Escolha errada

José Horta Manzano

Talvez seja tarde demais, é verdade, mas… antes tarde do que nunca. Antevendo catástrofe no ano que vem, o presidente da Fifa finalmente reconhece que a escolha do Brasil para sediar a próxima Copa do Mundo pode não ter sido uma boa ideia. Foi delicado, falou suave.

E tem razão, ninguém pode negar, embora receio que seja demasiado tarde para voltar atrás. Bilhões já foram enterrados nessa aventura extravagante. Governo do Brasil, patrocinadores, a própria Fifa, nenhum dos envolvidos pode mais desistir. Malfeito foi, malfeito continua sendo, e malfeito continuará.

Estava bonito no papel, na prancheta e na conta bancária. Tudo parecia perfeito. Esqueceram de combinar com o povo. Os ingênuos mandachuvas brasileiros menosprezaram a inteligência dos habitantes do País. E os gananciosos dirigentes da Fifa acreditaram nas garantias do governo brasileiro.

Estava aí uma ocasião de ouro para organizar um plebiscito. Falo de 7 anos atrás, evidentemente. O governo teria assim jogado a responsabilidade no colo do povo. Ninguém poderia reclamar. Mas, que fazer? Entre o plebiscito que não houve e o governo que não ouve, deu no que deu.

Árbitro Crédito: Kopelnitsky, EUA

COPA DO MUNDO
By Kopelnitsky, EUA

Cada povo tem suas características, destiladas por um processo multissecular. Cada povo tem suas qualidades e seus defeitos. O rigor e a disciplina certamente não fazem parte da coletânea de qualidades maiores de nossa gente ― bem ao contrário.

A organização de um evento da magnitude de uma fase final de Copa do Mundo de futebol exige qualidades e prendas que ainda não possuímos. Se bastasse construir estádios monumentais e dar-lhes a bizarra apelação de «arena», o problema estaria resolvido. Infelizmente, precisa um pouco mais que sol, samba, carnaval e mulatas para organizar o espetáculo.

Temos falhas estruturais capazes de frustrar o sucesso de eventos mundiais. Há remédio para tudo, mas precisa comprar o medicamento e seguir a receita tim-tim por tim-tim. O tratamento vai levar tempo.

A visão de nossos políticos não alcança mais longe que a próxima eleição, portanto esses tratamentos a longo prazo não têm grande chance de serem adotados.

É muito chato que aconteçam coisas como esse pronunciamento de Herr Blatter, paxá da Fifa. Uma frase saída da boca de gente desse calibre é capaz de aniquilar anos de maquiagem de marqueteiros do Planalto. A imagem de país de Primeiro Mundo, moldada com tanto cuidado por «peritos em comunicação», escoa pelo ralo.

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Aqui está um florilégio da repercussão mundial da fala de Herr Blatter.

Interligne vertical 5No Brasil

No México

No Canadá

Na Alemanha I

Na Alemanha II

Nos Estados Unidos

Na Itália

Na França

No Peru

Na Inglaterra

Em Portugal

Se o mundo ainda existir ― e o Brasil e o futebol também ― talvez estejamos em condições de nos candidatar para sediar a Copa de 2126. Ou quem sabe a de 2130, ano que marcará o 200° aniversário do primeiro Campeonato Mundial de Football, como se dizia na época.

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O general tinha razão

José Horta Manzano

Ingleses e franceses são ligados pela língua. Não, não me entendam mal, cada um tem a sua, disso sabemos. O fato é que, desde que Guilherme, duque da Normandia, juntou suas tropas, atravessou o Canal da Mancha e

The white cliffs of Dover

The white cliffs of Dover

venceu os ingleses na Batalha de Hastings, no longínquo ano de 1066, a influência da língua francesa tornou-se avassaladora nas terras conquistadas.

Estudiosos andaram fazendo as contas e chegaram à conclusão de que 70% do vocabulário inglês é de origem latina. A maior parte dessa importação maciça chegou a bordo dos navios invasores, o resto veio por via erudita.

O francês ― tal como era falado um milênio atrás ― tornou-se a língua da corte inglesa, o que lhe conferiu grande prestígio. O substrato anglo-saxão não se perdeu de todo, mas passou a ser considerado linguajar camponês. Gente fina falava a língua dos cortesãos, desprezando altaneiramente o vernáculo.

Um exemplo: cada animal já tinha, evidentemente, seu nome secular. Que estivesse sobre quatro patas ou no prato, o nome era o mesmo. Com a chegada da nova elite, os campônios guardaram a antiga denominação, mas as classes mais chegadas ao poder adotaram logo o novo nome trazido pelos conquistadores. Daí termos hoje os binômios ox/beef, pig/pork, calf/veal, sheep/mutton e tantos outros. O nome germânico permaneceu para o bicho vivo, enquanto a denominação importada ficou valendo para o animal já transformado em alimento.

Apesar de o francês ter sido a língua de cultura da Inglaterra durante três séculos e a despeito da impressionante interpenetração linguística que daí resultou, ingleses e franceses foram inimigos desde sempre.

A Entente Cordiale, um arreglo político costurado entre as potências coloniais quase 200 anos atrás, ainda na esteira do que tinha sido o turbilhão napoleônico, trouxe uma certa distensão. Ideias guerreiras foram deixadas de lado, mas uma vaga animosidade persiste até hoje. Diz-se, jocosamente, que os ingleses são os melhores inimigos dos franceses. E vice-versa.

Quando de bom humor, um inglês chamará um francês de Frenchie. Se estiver de maus bofes, vai chamá-lo de frog (=rã). Como se sabe, na França se comem coxas de rã, hábito capaz de horripilar qualquer inglês. Um francês, bem ou mal-humorado, não hesitará em epitetar o inglês de rosbif, palavra que dispensa tradução. Os dois povos vivem uma permanente relação de atração-repulsão que só Freud explica. Amam-se e repelem-se ao mesmo tempo.

Quando o Tratado de Roma inaugurou as bases do que seria o Mercado Comum Europeu e, mais tarde, a União Europeia, o Reino Unido não participou da festa. Provavelmente não quis. Estávamos ainda no fim dos anos 50, o reino insular ainda guardava seu status de grande potência mundial, controlava metade da África, tinha incontáveis possessões espalhadas pelo planeta. Achou que não lhe convinha afiliar-se a uma confraria de vizinhos.

O tempo passou, foram-se as colônias, a Grã-Bretanha entrou em crise profunda. Empobreceu. Lembrou-se então dos vizinhos, cujo mercado comum ia indo bem, e pediu para entrar.

Foi aí que entrou em cena o velho general. Falo de Charles de Gaulle, presidente da República Francesa de 1958 a 1969. Teria seus defeitos, como cada um de nós, mas pelo menos uma grande qualidade não se lhe pode negar: era visionário. Conseguia fazer abstração das minúcias do dia a dia para projetar-se no futuro e vislumbrar o que poderia acontecer se esta ou aquela decisão fosse tomada agora.

Entendeu que o Reino Unido não devia ser acolhido pela Comunidade Europeia. Inglaterra e Europa eram, no seu entender, incompatíveis. Ele enxergava as duas entidades como água e óleo: por mais que se chocalhe, acabarão se separando. O general barrou a entrada do vizinho do norte. Durante seus onze anos de mando, bateu pé firme, como quem dissesse «enquanto eu viver, a Inglaterra não entra».

Como todo mortal, um dia o general se foi. A Inglaterra ficou. Voltou a pleitear admissão no clube. Finalmente, em 1973, foi aceita.

A teimosia do velho general, que nunca explicou tim-tim por tim-tim as razões de sua recusa em aceitar o Reino Unido na Comunidade, foi intuída, anos mais tarde, por analistas. O tempo encarregou-se de deixar claro que a Inglaterra nunca teve ― e ainda não tem ― intenção de tornar-se membro de uma Europa Federal, objetivo final da UE. Seu interesse sempre se restringiu a usufruir das vantagens comerciais que a participação no bloco lhe pudesse oferecer. E vamos parando por aí.

Enquanto tudo ia bem, economia mundial de vento em popa, inflação próxima de zero, nenhuma crise à vista, as vozes divergentes permaneceram anestesiadas. Mas nada como uma crisezinha para despertar velhos ressentimentos. E não é que a crise chegou?

Estes dias, David Cameron, Primeiro-Ministro britânico prometeu que, caso seja reeleito, convocará um plebiscito para que seu povo, afinal, se pronuncie. Votarão pela permanência ou não do país na União Europeia. A notícia espocou no continente como raio em céu azul. Não se fala de outra coisa estes dias.

UEDizem uns que a fala do dirigente destinava-se tão somente a apaziguar os ânimos dos compatriotas mais radicalmente anti-europeus. Dizem outros que não é bem assim. Fato é que, naquelas plagas, promessas de Primeiro-Ministro costumam ser cumpridas. Votarão? É bem provável. Quando? Dentro de alguns anos, certamente. Que decidirão? Só Deus sabe.

Desde o século XVII, os franceses mais cultos dão ao Reino Unido o terrível apelido de Pérfida Albion. Por que pérfida? Pérfidos são os que não cumprem com sua palavra. Por que Albion? Parece que o termo tem origem na primeira visão de quem chega às ilhas britânicas atravessando o Canal da Mancha: os famosos «white cliffs of Dover», as falésias brancas de Dover. Branco em latim é albus. Daí a Albion é um pulo.

Será que os britânicos vão abandonar o barco? Será que o velho general tinha mesmo razão? O túnel que passa sob o Canal da Mancha será mesmo tapado?

Quem viver verá.

Nota: Neste artigo, para evitar repetições maçantes, usei indistintamente as expressões Inglaterra, Grã-Bretanha, Reino Unido e Ilhas Britânicas. Minhas distintas leitoras e meus eruditos leitores sabem que não são termos intercambiáveis.

O Reino Unido é composto de quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A Grã-Bretanha é a ilha principal que abriga três deles, à exceção da Irlanda do Norte.  “Ilhas Britânicas” é expressão imprecisa, geograficamente pouco significativa.

Provérbios

José Horta Manzano

Todas as línguas têm seus provérbios, seus ditos populares. São o resultado destilado da sabedoria secular. Aqui abaixo vai um breve florilégio de ditados ingleses, italianos, espanhóis e franceses, cada um com seu correspondente em nossa língua. A correlação nem sempre é ao pé da letra, mas dá uma ideia do sentido da frase original.

Roll in money
Nadar em dinheiro

All’uomo elemosiniero Iddio è tesoriero
Quem dá aos pobres empresta a Deus

A donde te quieren mucho no vengas a menudo
Visita é como peixe: depois de três dias, fede

Sagesse est dans la tête et non dans la barbe
O hábito não faz o monge

Curiosity killed the cat
A curiosidade mata

Nel monastero altrui non si va con le proprie leggi
Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso

En las malas se conocen a los amigos
Nas horas difíceis se conhecem os amigos

Ma belle est celle que j’aime
Quem ama o feio, bonito lhe parece

Alambique

Alambique

Divide and rule
Dividir para reinar

Il silenzio è assenso
Quem cala consente

Hay ropa tendida
As paredes têm ouvidos

Cela ne sert à rien de devenir un jour l’homme le plus riche du cimetière
O caixão não tem gavetas

Measure thrice before you cut once
Um homem prevenido vale por dois

Gran pericolo, gran guadagno
Quem não arrisca não petisca

La distancia es el olvido
Longe dos olhos, longe do coração

Celui qui dort dans un lit d’argent fait des rêves d’or
A avidez é insaciável

Misfortunes never come singly
Desgraça pouca é bobagem

L’occhio del padrone ingrassa il cavallo
O olho do dono engorda as reses

Muerto el perro, se acabó la rabia
Deve-se cortar o mal pela raiz

Fais ce que tu dois, advienne que pourra
Fazer o bem sem olhar a quem

Revenge is a dish best eaten cold
A vingança é prato que se come frio

Chi scherza coi pericoli, cerca lodi e trova dolori
Quem brinca com fogo acaba se queimando

Más sabe el diablo por viejo que por diablo
Macaco velho não mete a mão em cumbuca

Pain coupé n’a point de maître
Achado não é roubado

To be in a pretty pickle
Estar em maus lençóis