Falta de civilidade

«Não é de hoje que se nota uma deterioração das virtudes cívicas na sociedade brasileira. São vários os sintomas desse empobrecimento das relações humanas: a diminuição do respeito pelo outro, a grosseria com vestes de espontaneidade, a incapacidade de ouvir quem pensa de forma diferente, a desconsideração pelas gerações mais velhas, a indiferença com quem presta serviços mais humildes, o ataque pessoal diante da falta de argumentos no debate público e tantas outras manifestações que não apenas geram desgosto quando são presenciadas, mas produzem profunda desesperança com o futuro do País.»

Editorial Estadão, 4 agosto 2019. Para ler a continuação, clique aqui.

Medo da polícia

José Horta Manzano

Os franceses andam assustados e preocupados. As mais recentes estatísticas relativas à delinquência atestam um aumento da incidência de pequenos crimes de novembro pra cá. Em apenas seis meses, o conjunto de crimes e delitos chamados «petite délinquence ‒ pequena delinquência» aumentou de 7% a 10%. Estamos falando de ocorrências como furto ou roubo de pessoa física, furto ou roubo de veículo, assalto a residência na ausência do morador.

Não foi preciso analisar muito profundamente pra descobrir relação entre o súbito aumento da criminalidade e as manifestações dos Coletes Amarelos. De fato, as passeatas de protesto começaram em novembro, atravessaram Natal, continuaram no ano-novo e estão chegando à Páscoa. Tirando a pequena parte da população que gostaria de ver o circo pegar fogo, os franceses estão até aqui de confusão. Não aguentam mais ver o país tomado por arruaceiros. Sair de casa aos sábados tornou-se um exercício perigoso.

Mas o quem tem de ver o movimento de protesto com o aumento da criminalidade? A relação é simples. Frequentemente violentos, os protestos exigem presença reforçada de batalhões inteiros de policiais. E de onde é que vem esse reforço? Pois é justamente do policiamento normal, ostensivo e de proximidade. Despe-se um santo pra vestir outro.

Os policiais convocados pra garantir a segurança de pessoas e bens durante as manifestações acabam fazendo falta na região onde costumam trabalhar. Ao notar que não há guardas, os bandidos fazem a festa. É a demonstração de que a mera presença do uniforme inibe muita incivilidade e muito delito.

Pichação

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 29 jan° 2017

Chamada da Folha de São Paulo, 29 jan° 2017

O mano tem razão. Acertou na mosca. O que falta é educação ‒ em todos os sentidos.

Educação cívica
Não vandalizar a paisagem urbana pra satisfazer seu diminuto ego.

Educação básica
Não causar dano a propriedade alheia.

Educação de bom senso
Não provocar a exasperação da esmagadora maioria dos concidadãos, que preferem uma cidade limpa. Não é inteligente botar a cidade inteira contra si.

Educação escolar
Pichação se escreve com ch, não com x.
Xô, ignorância!

Interligne 18cO mano tem razão:
O que falta é educação.

Muro antipipi

José Horta Manzano

Você sabia?

Numerosas grandes cidades têm um «bairro quente», aquele distrito onde se concentram diversões noturnas, cabarés, sex shops, casas de prostituição.

Em Paris, o bairro de Pigalle tem representado esse papel durante décadas. Embora, hoje em dia, o encanto esteja um pouco esmaecido, Pigalle permanece, pelo menos no imaginário do turista, o centro parisiense dos prazeres noturnos.

Bairro de Sankt Pauli, Hamburgo, Alemanha

Bairro de Sankt Pauli, Hamburgo, Alemanha

O bairro quente de Amsterdam é De Wallen, o famoso «red light district» ‒ distrito da luz vermelha. Na região, a atração mais típica são as vitrines iluminadas de vermelho por detrás das quais moças, usando lingerie pra lá de erótica, esperam pela chegada de novo cliente. Assim que um candidato toca a campainha, a cortina se fecha e tapa a vista.

Hamburgo, a grande metrópole do norte da Alemanha, tem o conhecido bairro de Sankt Pauli, perto do centro da cidade. No mesmo estilo de seus congêneres holandês e francês, conta com incontáveis clubes, casas de show, “inferninhos” & companhia.

Pipi 1Na Alemanha, toma-se muita cerveja. Como manda a natureza, todo líquido que entra no corpo tem de sair. O resultado de ingurgitar litros de bebida é a necessidade premente e frequente de urinar. Os festeiros, sem paciência para encontrar lugar adequado, satisfazem sua necessidade na rua mesmo. O resultado é uma fedentina dos diabos, que incomoda os moradores.

Para pôr fim ao incômodo, a coletividade bolou sistema engenhoso. Trata-se de uma pintura especial que manda todo líquido de volta a quem o lançou. Quando um incauto faz pipi encostado a um muro revestido com esse material, recebe o líquido de volta nos sapatos e na parte baixa das calças.

Não urinar aqui! Urinamos de volta.

Não mijar aqui!
Mijamos de volta.

O intuito não é surpreender ninguém, mas evitar que sujem o bairro. Tanto é assim, que os muros tratados estão assinalados com placas.

Está aí uma ideia que pode servir para coibir incivilidades de carnavalescos tropicais.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.

Não fui eu, foi ele!

José Horta Manzano

«Não fui eu, foi ele!»

De criança, é comum, corriqueiro e compreensível que toda desavença seja levada à autoridade paterna ou materna para decisão. Cada litigante apresentará seus argumentos, e a Justiça adulta determinará.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Em outros termos, não se exige de criança pequena que assuma a responsabilidade por tudo aquilo que faz. Primeiro, porque ainda não está madura para entender os comos e os porquês de seus atos. Segundo, porque, de qualquer maneira, sempre aparecerá um adulto para consertar o estrago.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Com gente grande, a coisa muda de figura. De um adulto, espera-se que tenha entendido que mamã não virá correndo atrás para catar os brinquedos espalhados pelo chão. Compete a cada um recolher seus próprios pertences. Ou não os deixar cair.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Praia de Copacabana, 1° jan 2014

Muitos de nossos concidadãos não conseguem enxergar o mundo assim. São do tipo eu sou mais eu e não estou nem aí. Essa dificuldade em se dar conta de que a infância acabou aparece, contundente, nas constrangedoras imagens de imundície captadas na praia de Copacabana no amanhecer de 1° de janeiro.

Os que fizeram isso ― e hão de ter sido milhares de pessoas ― continuam acreditando que mamã virá atrás catar os cacos.

Praia de Copacabana, 1° jan 2014 Credit: Cezar Loureiro, O Globo

Praia de Copacabana, 1° jan 2014
Crédito: Cezar Loureiro, O Globo

Faz 500 anos que as políticas paternalistas de nossos sábios governantes só têm feito reforçar a infantilização do povo. «Não se preocupe, filho, que papai cuida disso. Vá brincar agora.»

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Está aí o resultado: uma população de ovelhas, sem iniciativa, sem noção de pertencimento a uma comunidade. Gente que não consegue enxergar além do próprio umbigo. É nesse terreno fértil que brotaram Getúlio, Jânio, Collor. E que continuam surgindo Lulas e Tiriricas.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Ah! Aos distraídos, quero lembrar que o pontapé inicial da Copa-14 será dado daqui a seis meses. Durante um mês, dois bilhões de pares de olhos estarão voltados para o Brasil. Não verão unicamente a beleza de Copacabana. Repórteres são curiosos por natureza. Hão de encontrar imagens mais picantes para impressionar seu público.

Feliz 2014!

Era de esperar

José Horta Manzano

Uma das engraçadas leis de Murphy diz que, se o pior puder acontecer, acontecerá. A mídia europeia, naturalmente, deu boa cobertura à presença papal no Rio e a ela dedicou espaço importante.

No entanto, é compreensível que, num mundo encharcado de imagens ao vivo e em alta resolução, a figura de um papa beijando criancinhas já não entusiasme como antes.

Para apimentar reportagens modorrentas, não foi preciso procurar muito longe. A alguns passos da rota do visitante, jovens ― aparentemente sem grande coisa a fazer e, mais que isso, vítimas de estrelismo agudo ― decidiram se manifestar.

Visita do papa

Visita do papa

Houve reclamações contra o governador do estado, contra o preço das passagens de ônibus. Houve até os que fizeram questão de hostilizar o visitante, prova de que democracia não rima necessariamente com civilidade. Em resumo, as manifestações pareciam um mercado persa, uma loja de 1,99 onde se encontra de tudo.

O jornal francês Le Monde, assim como o resto da mídia estrangeira, não se fez rogar para registrar os acontecimentos e difundi-los por aqui. Vai-se firmando a ideia de que, longe da imagem suave e idílica que se tinha, o Brasil é um país habitado por gente violenta, baderneira, mal-educada e imprevisível. Dá muita pena.

E pensar que os que tiveram nas mãos o poder absoluto estes últimos 12 anos não se empenharam em elevar o padrão civilizatório do povo. Não era tão difícil. Até nos tempos da ditadura havia uma oposição mais incisiva que a atual. Bastava que os eleitos tivessem dedicado metade de seu tempo a cumprir com honestidade o mandato que lhes tinha sido confiado. Para desgraça de todos, a maioria preferiu dedicar a totalidade de seu tempo a seus interesses pessoais. O resultado está aí. A História há de guardar estes anos irresponsáveis, de esbórnia e de incúria, entre os mais sombrios.

O bom lado disso tudo é que, por uma dessas coincidências alinhavadas pelo destino, o herdeiro da coroa britânica tenha visto a luz no mesmo dia da chegada do papa ao Rio. O choro do neonato foi providencial.

No Brasil, compreensivelmente, o evento passou praticamente despercebido. Já na Europa, o royal baby eletrizou tanto os que ainda têm um rei, quanto os que gostariam de voltar a tê-lo. Ou seja, uma importante fatia de cidadãos. Isso ajudou a sombrear a imagem das desordens do Rio e abafar-lhes o eco . Melhor assim.

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Interligne vertical 9Curiosidade pré-histórica

Jânio Quadros foi presidente do Brasil ao tempo dos Sumérios. Era personagem carregado de defeitos. Acusavam-no de beberrão, esquizofrênico, populista, imprevisível, paranoico. Pode até ser, mas há controvérsias.

No entanto, num ponto, todos concordavam: o homem conhecia profundamente a língua portuguesa. E mais: apesar dos defeitos e do raríssimo sorriso, sabia tratar os outros com civilidade e, em troca, exigia ser tratado com respeito.

Uma vez, quando de uma entrevista coletiva, um repórter dirigiu-se ao presidente chamando-o de você. A reação veio fulminante. O presidente chamou a atenção do interlocutor. Disse-lhe que não o estava tratando com tamanha intimidade e ficaria reconhecido se o repórter lhe concedesse tratamento recíproco.

Eram outros tempos. Os homens tinham seus defeitos, mas ainda mantinham um verniz de polidez. Hoje, um solvente parece haver decapado a superfície. Foi-se o polimento, e sobraram só os defeitos.

Reparem, aqui logo acima, no cartaz do manifestante. Trata o ilustre visitante por você e isso não parece incomodar mais ninguém. Jânio talvez desaprovasse.

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