No topo da Terra ‒2

José Horta Manzano

Mensalão, Lava a Jato, Petrolão, impeachment, é golpe, não é golpe, é traição, não é, é salvação da pátria, voto por minha mãezinha, voto por meu neto que está por nascer, voto pelo bom povo de minha querida cidade, prefiro uma suíte de hotel de luxo, prefiro um sítio em Atibaia, prefiro um pedalinho de lata… Ufa!

Se o distinto leitor está ‒ como eu ‒ exausto de ler, todos os dias, notícias que nada mais são que variações sobre o mesmo tema, tenho uma solução. Dá um pouco de trabalho, mas resolve.

2016-0424-02 IslandPrimeiro, dedique-se, corpo e alma, ao estudo da língua islandesa. Não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças como chinês ou vietnamita. Uma vez adquirido razoável controle da língua, abandone a mídia brasileira. Essa é a parte mais agradável: é como jogar mágoas na cachoeira.

A partir daí, deleite-se com a mídia islandesa. Crônica policial? Dois acidentes de circulação ocorreram ano passado, causados por motoristas distraídos em conversar ao celular. Fora isso, tudo em ordem, tudo na santa, nada escabroso, nada raivoso, nada nojento.

Aí vem o melhor de tudo: fora uma ou outra (rara) menção ao futebol, nenhuma notícia sobre o Brasil. A mais recente que encontrei foi dada mais de três meses atrás. Conta a história de um casal islandês preso em Fortaleza por se estar preparando para voltar à terra natal carregando oito quilos de cocaína na bagagem.

Islândia 7O artigo não deixa claro como é possível que os dois tenham sido apanhados ainda no hotel, antes de se apresentarem no aeroporto. A polícia, naturalmente, confiscou a droga, os celulares e os 50 reais que encontrou. Nenhum artigo islandês posterior informa se os estrangeiros continuam presos.

Dado que, no Brasil, esse tipo de notícia já não impressiona ninguém, vai ser difícil conhecer o fim da história. Fica como sinfonia inacabada. Cada um que use a imaginação pra dar o fim que lhe parecer mais conveniente.

Enquanto isso, temos de consolar-nos com mensalão, Lava a Jato, petrolão, impeachment, golpe e voto pelo neto que está por nascer.

No topo da Terra

José Horta Manzano

Você sabia?

A não confundir com a Irlanda, a Islândia é um pequeno país, uma ilha situada no extremo norte do Oceano Atlântico, terra de poucas árvores e muitos vulcões. De nome pouco convidativo ‒ Island, do escandinavo is, significa Terra do Gelo ‒ é um dos países de população mais homogênea do globo.

Islândia: gêiser

Islândia: gêiser

É povoada por apenas 300 mil pessoas. Seus habitantes são descendentes de vikings que, vindos da Escandinávia, lá se estabeleceram mil anos atrás. Desde então, a imigração tendo sido praticamente nula, o resultado foi um contingente populacional harmonioso e coeso. Quase todos os ilhéus são aparentados, em maior ou menor grau. Quando um islandês trava amizade com outro, um dos assuntos preferidos é conferir a proximidade de parentesco entre os dois. Serão primos em nono grau? Em décimo segundo? Todo islandês, principalmente os jovens, tem instalada no telefone celular uma aplicação específicamente desenvolvida para facilitar a busca genealógica.

Islândia: banho em piscina termal natural

Islândia: banho em piscina termal natural

A terra é fértil, mas o clima não ajuda. Não é que faça frio exagerado ‒ os invernos são menos rigorosos que os da Europa Central. Na capital, Reykjavik, a média das temperaturas mínimas do mês mais frio é de 3°C abaixo de zero. Para comparação, a alemã Munique registra, no mesmo mês, 5° abaixo de zero.

O que falta, na Islândia, é calor. Em julho, o mês mais quente, a média das temperaturas mais elevadas não alcança 14°C. Uma «tórrida» tarde de vinte graus merece manchete de jornal no dia seguinte.

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Em compensação, a terra é rica em fontes, lagos e gêiseres de água muito quente. Essa abundância gratuita de fontes de calor traz vantagens não desprezíveis. Canalizada, a água fervente serve para aquecer casas e imóveis, tornando desnecessária a queima de combustível. A atmosfera agradece.

A água quente serve também para climatizar grandes estufas onde se cultivam frutas e legumes que, ao ar livre, não vingariam. Consequência curiosa: a Islândia é o maior produtor europeu de banana. A poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, quem diria, não?

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Assim mesmo, a maior riqueza do país foi e continua sendo a pesca, base da alimentação e da economia da ilha. A regulação rigorosa que a União Europeia impõe às atividades pesqueiras é, aliás, o freio que retém os islandeses de pleitear adesão à UE.

Fiquei sabendo hoje que os primeiros refugiados sírios foram recebidos na Islândia. São 50 pessoas, o que não parece muito. No entanto, comparados à população da ilha, equivalem a um Brasil dando asilo a 3500, de uma vez só. De memória, não me ocorre registro semelhante.

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Num comportamento exemplar, os islandeses acolheram de braços abertos esses estrangeiros, no sentido mais amplo da expressão. Milhares se propuseram a ajudar. Houve quem oferecesse um quarto da própria residência, houve quem propusesse um emprego. Lojas e firmas se cotizaram para dar uma mão. Ikea, o gigante escandinavo da fabricação de móveis, deu um cheque de 700 euros a cada asilado, para ser descontado na compra do que lhes for útil dentro do sortimento da loja. O governo do país se comprometeu a oferecer a todos curso de islandês além de uma ajuda de custo durante os primeiros meses, até que se ajeitem.

Há quem pode mais, há quem pode menos. Se a gente olhar em volta, vai sempre encontrar alguém mais necessitado que nós. Parabéns aos simpáticos islandeses.

Islândia 6Nota edificante
Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro-ministro do país, foi flagrado em envolvimento no escândalo dos ‘Panama Papers’. Não deu outra: em 24 horas, foi defenestrado pelos conterrâneos indignados.

Petrolõezinhos

Pavao 1José Horta Manzano

Este blogueiro é do tempo em que, na hora de pôr diminutivos no plural, as regras eram outras.

Primeiro, a gente punha o substantivo no plural. Só então, eliminava o s e acrescentava o sufixo ‒ geralmente zinho, às vezes zito ou zico. Ficava assim:

   pavão → pavões → pavõezinhos

   cão → cães → cãezinhos

   capitão → capitães → capitãezinhos

   caminhão → caminhões → caminhõezinhos

   coração → corações → coraçõezinhos

   arpão → arpões → arpõezinhos

   avião → aviões → aviõezinhos

   jaquetão → jaquetões → jaquetõezinhos

   petrolão → petrolões → petrolõezinhos

As coisas mudam e a língua evolui. A tendência atual é a inversão das regras. Primeiro, acrescenta-se o sufixo (zinho); em seguida, vai tudo junto para o plural. Está aí a chamada do sério Estadão, que não me deixa mentir.

Chamada do Estadão, 22 abr 2016

Chamada do Estadão, 22 abr 2016

Fica estranho, mas… que fazer? Ninguém segura o progresso.

Carta à ONU e aos americanos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Senhoras e senhores,

Antes de voltarem suas atenções para as considerações que nossa atual presidente deseja lhes apresentar para reflexão no dia de hoje, parece-me fundamental introduzi-los um pouco mais em detalhe à realidade brasileira. Para que lhes seja possível contextualizar com facilidade os fatos preocupantes que nossa mandatária pretende divulgar aqui, permitam-me guiá-los numa viagem conceitual pelo nosso país.

O Brasil não é um país para amadores. Turistas ocasionais podem se entreter e se deliciar com nossas belas paisagens, nosso clima tropical, nossa gastronomia diversificada, nosso multifacetado folclore e, principalmente, com nossa cultura de inclusão, conciliação, alegria e crença no futuro. Quaisquer que sejam seus interesses pessoais e visões de mundo, temos sempre a lhes oferecer um cardápio prolífico, generoso mesmo, de opções.

Já entender como nosso povo lida historicamente com sua realidade mais imediata – isto é, com seus desafios econômicos, sociais e políticos cotidianos ‒ é algo que requer uma robusta capacidade profissional de análise, capaz de contemplar com serenidade seus múltiplos aspectos conflitantes.

Dilma ONUCulturalmente nossos concidadãos se especializaram em extrair comédia de toda forma de tragédia. Como o próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, já sugeria desde os primórdios do século 20, o senso de humor e os chistes podem ser considerados formas efetivas de se lidar com o mal-estar, já que “numa brincadeira, pode-se até dizer a verdade”.

Talvez o nonsense de nossa realidade não seja evidente de imediato para um estrangeiro que nos brinde com a honra de por aqui morar, mas certamente se revelará mais tarde diante dos contornos surrealistas de nossas leis “que pegam” ou não, de nossa forma de fazer justiça “pelo CPF e não pelo RG”, de nossos conceitos arraigados de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro” e que todo pai dos pobres acaba funcionando também como mãe dos ricos. Nossa tradição de fazer piada com tudo aquilo que, em tese, poderia deflagrar convulsão social em outros países é tão forte que já nos rendeu o epíteto de “país não sério”. Os acontecimentos políticos dos últimos meses ameaçam agora nos transformar no “país da piada pronta”.

Dilma Obama 2O traço mais marcante da cultura social brasileira é, sem dúvida, aquilo a que chamamos de “jeitinho”. Talvez em decorrência de nossa flexibilidade corporal, mental e psíquica, herança de nossos antepassados africanos, aprendemos a driblar toda e qualquer restrição legal, a contornar normas e jurisprudências, a acreditar que o atalho é a rota mais curta para chegar aonde queremos e livrar-nos de toda forma de punição. Ou, quem sabe, seja ele herdeiro direto da crença de que tudo em nosso país “acaba em pizza” – ou, melhor dizendo, da constatação de que, em última instância, a balança da justiça pende sempre para o lado mais empoderado da sociedade.

Por outro lado, nossa forma de lidar com a autoridade talvez seja a característica mais paradoxal de nossa cultura aos olhos de um estrangeiro. Podemos nos submeter a ela sem contestação e perdoar-lhe todos os desvios desde que ela seja hábil em nos fazer crer que tudo o que faz é para o nosso bem. Ao mesmo tempo, quanto mais irascível, arrogante e distanciada do nosso jeito simples de falar, mais ela será desqualificada através de nosso modo zombeteiro de enxergar as coisas sérias da vida. Expor o ridículo das pequenezas mentais de nossos governantes é nosso jeito peculiar de expô-los ao ridículo.

Assim sendo, senhoras e senhores, afianço-lhes que todos os aqui presentes disporão de farto material linguístico e comportamental ao longo do discurso de nossa mandatária-mor para aferir por conta própria e com total isenção de espírito a consistência racional de seus proclames. Devo alertá-los, no entanto, que é provável que a grandiloquência dos argumentos usados por assessores na composição da fala presidencial contraste e seja impactada negativamente pelos atropelos à lógica nas entrevistas que se seguirão ao pronunciamento oficial. Rogo-lhes que desconsiderem eventuais contradições em nome da manutenção dos laços de fraternidade que unem nossos povos.

¿ Por qué no te callas ?

Acredito sinceramente que sua experiência recente com as polêmicas geradas pelo candidato republicano às próximas eleições presidenciais americanas pode lhes servir de base segura para um julgamento sereno das implicações de aderir a este ou àquele lado de nossos atuais confrontos políticos. Se de todo lhes for humanamente impossível isentar-se da força do mantra “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”, peço-lhes que experimentem se colocar emocionalmente na pele de comandados. Se e quando uma onda de indignação começar a se agitar em seus peitos, relembrem a reação do rei de Espanha às colocações agressivas do então líder máximo venezuelano e, em coro, refaçam sua indagação: “Por qué no te callas?”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Choramingo tardio

José Horta Manzano

De uns meses pra cá, novela, futebol e acontecimentos político-policiais têm prendido a atenção da nação. Pouco espaço tem sobrado para outros assuntos ‒ para os internacionais, menos ainda.

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Num último esperneio de aflição, despojada de apoio interno, dona Dilma busca no exterior a sustentação que costumava menosprezar. Diferentemente do que se poderia supor, não procurou amigos fiéis como os bondosos irmãos de Havana, o mal-encarado mandão de Caracas ou os turbantados guias iranianos. Foi direto à ONU, a fonte principal ‒ usada por todos mas dominada pelos odiados loiros de olhos azuis. O desespero apronta cada uma…

Vai falar no deserto, a presidente. O exterior olha para nosso país como oportunidade de negócios, como destino de investimento, eventualmente como lugar para férias. A destituição da atual mandatária e de sua nefasta corte é, antes, vista com alívio por Estados mais equilibrados. Se aplausos houver ao final da fala presidencial, serão de circunstância, ditados pela civilidade, qualidade que costuma faltar à discursante.

Blabla 2É verdade que editorialistas e correspondentes estrangeiros têm produzido textos que comparam a destituição da presidente a um golpe de Estado. Há dois casos bem distintos.

Dilma 1Numa primeira hipótese, são produto de má-fé. Correspondentes que se expressam assim nada mais fazem que se conformar à linha política do veículo que os contrata. Afinal, precisam do emprego e não convém brincar em serviço.

Em outros casos, editoriais que não refletem a realidade brasileira são puro produto de falta de informação. Correspondentes não vivem como o brasileiro mediano. Têm salário acima da média, vida mansa, despesas pagas, viagens garantidas, restaurantes de bom nível, mordomias além do alcance do cidadão padrão. Embora vivam no Rio ou em São Paulo, enxergam o Brasil como se em Londres ou Paris estivessem.

Para resumir, é bobagem grossa choramingar no púlpito da ONU. O panorama nacional anda inóspito demais. Qualquer modificação será bem-vinda mesmo porque, como já dizia o outro, pior não fica.

A falta que a lei faz

José Horta Manzano

Em matéria de aquisição e perda de nacionalidade, o Brasil está engatinhando, com legislação opaca e contraditória. Até certo ponto, dá pra entender. Até os anos 1950, enquanto os que entravam eram bem mais numerosos que os que saíam, o problema não existia. As regras para aquisição da nacionalidade brasileira eram claras, e o procedimento, simples e rápido. Terminada a grande vaga de imigração, o movimento se neutralizou entre os anos 50 e os 80. Imigrantes pararam de chegar em massa e brasileiros ainda eram raros a deixar o país.

Passaporte 1A partir da década de 1990, o pêndulo se torceu. Mais e mais brasileiros passaram a emigrar, enquanto o fluxo de chegada de estrangeiros se esgotou de vez. Casos de dupla cidadania, antes esporádicos, se multiplicaram. Brasileiros que detinham, por herança, outra nacionalidade não representavam problema. O nó só apertou quando os primeiros conterrâneos passaram a adquirir, por naturalização, uma segunda nacionalidade.

Que fazer? A Constituição de 1988 ‒ promulgada antes da grande debandada ‒ é curta e grossa. O Artigo n°2 estipula a perda da nacionalidade de todo brasileiro que adquirir outra nacionalidade por naturalização voluntária. Mais claro, impossível. Dado que não é comum alguém se naturalizar por obrigação, a Constituição proíbe, na prática, que brasileiro se naturalize. A pena é a perda da cidadania originária.

A massa de expatriados passou a sentir o problema na carne. O dilema apareceu em inúmeros casais, mistos ou não, com filhos ou sem. Por razões várias, quem vive no exterior pode, em algum momento, julgar que é conveniente adquirir a nacionalidade local. Seja por razões familiares, profissionais ou de simples convívio social.

Passaporte brasileiro 2Anos atrás, conheci brasileiros que, ao adquirir nacionalidade estrangeira, deixaram de ser brasileiros. Foram casos dramáticos que atingiram em cheio a personalidade. O naturalizado se sentia execrado, banido pela pátria. Uma situação penosa.

Passados poucos anos, o volume de casos dramáticos cresceu a ponto de forçar a promulgação de uma emenda constitucional de revisão. Foi em 1994. A solução, infelizmente, veio meio capenga. A lei continuou a entender que todo brasileiro que ousasse adquirir nacionalidade estrangeira continuava a perder a cidadania originária. Só não a perderia caso a naturalização fosse condição de permanência ou para exercício de direitos civis no território estrangeiro.

Passaporte brasileiroAo emigrar, os brasileiros costumam escolher países civilizados. Ora, país civilizado não exige naturalização de estrangeiros para outorgar-lhes permanência nem para estender-lhes o gozo de direitos civis. (Sem contar o fato de o entendimento do que sejam ‘direitos civis’ variar de um país a outro.) Em suma, com emenda constitucional ou sem ela, continuou tudo como dantes no quartel de Abrantes.

O mais incrível é que, passados 26 anos, ainda vivemos sob essa regulamentação dúbia. Ao adquirir nacionalidade estrangeira, seja por que motivo for, o brasileiro se insere numa condição incômoda, incerta, precária. Sua «brasilidade» pode ser contestada e até mesmo cassada(!) por um tribunal de justiça.

É urgente uma mudança que torne clara a legislação. Se pode, pode. Se não pode, não pode. Mas que fique claro.

Interligne 18h

Uma decisão tomada ontem pelo STF escancara a falta que faz uma legislação clara. É verdade que se tratou de julgamento fora do comum, envolvendo até acusação de homicídio. Não obstante, nada justifica que uma cidadã brasileira, ainda que acusada de crime, não se possa beneficiar da mesma lei que favorece outros nacionais. Pau que dá em Chico deveria dar também em Francisco. Trata-se de um caso meio cabeludo. Quem não ficou a par, pode ler aqui.

Renascendo das cinzas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dor de dente 1Quando se espreme um abcesso, é inevitável que uma torrente de pus seja lançada para todos os lados. Por mais constrangedor e nauseante que possa parecer o processo, é a única medida recomendada pelos especialistas médicos para aliviar a dor, o inchaço e a inflamação. Uma vez eliminada toda a carga de pus – e um pouco de sangue, que costuma vir junto – basta fazer a assepsia do local para restaurar as condições ideais que deem início ao processo de cicatrização.

Assistimos domingo, estupefatos, ao estouro de mais um abcesso político que insistia em combalir e fazer padecer o organismo da sociedade civil. O volume de toxinas lançado foi tal e tamanho que muitos preferiram não ver o término do processo.

Hoje de manhã, um pouco mais aliviados com a descompressão experimentada, nos percebemos ávidos pela decretação urgente de assepsia profunda no corpo político brasileiro. Ainda enojada, a maioria da população se dá conta de que o tecido parlamentar abriga múltiplos outros abcessos. Mais grave, que as mãos dos próprios médicos responsáveis pela assepsia estão contaminadas. Agora, inquietas, as pessoas buscam-se umas às outras para debater como foi que nos permitimos chegar a esse grau de degradação.

Band-aid 1Um belo momento para reflexão e mea culpa coletivo. Fomos nós mesmos, não há como negar, os responsáveis pela entrada de tantas bactérias e germes em nossa circulação sanguínea. Não percebemos a tempo que nossa epiderme cidadã ainda estava em processo de regeneração das fissuras causadas por décadas de exceção. Sabíamos que havíamos queimado etapas, mas achávamos que era preciso esconjurar os tempos sombrios que passamos vivendo em meio ao lixo da história. Apostamos na esperança de adoção de hábitos políticos mais higiênicos e em nossa capacidade de construir uma sociedade mais afastada da promiscuidade ideológica. Quando os ventos dos tempos de bonança sopraram, soltamos um pouco mais o nó da gravata, nos acomodamos confortavelmente no sofá, abrimos uma cerveja e ligamos a televisão para afastar ao menos temporariamente a dura realidade.

O preço da liberdade é a eterna vigilância, já disse alguém. Embora soubéssemos disso, confiávamos que acordaríamos de nossa merecida soneca com mais garra para vigiar os passos de nossos novos conselheiros. A musculatura relaxada, todavia, não nos permitiu manter a vigília. Aos poucos, fomo-nos tornando mais complacentes com velhos hábitos insalubres e voltando a frequentar ambientes poluídos. Não instalamos os filtros recomendados para purificar o ar da alfabetização política. A reinfestação foi inevitável.

Sol 2Culpa de nossa ingenuidade, de nossa imprevisão? Talvez, mas ainda prefiro acreditar que tudo o que é humano é provisório, imperfeito, limitado. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo, com certeza. Não temos a sabedoria dos deuses nem a paciência dos santos. Hora de lamber as feridas, lavá-las com água oxigenada, fortalecer nosso sistema imunológico com doses diárias de conversação e tolerância.

Aliás, o consenso que começa a nascer ‒ de que é imprescindível superar divisões, juntar razão e emoção para enfrentar o difícil trabalho de desintoxicação ‒ é a mais reconfortante e comovente notícia do dia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Reflexões sobre o voto da Câmara

José Horta Manzano

Reconhecimento apressado
Neste domingo 17 abril 2016, a Câmara pediu a cada deputado que se pronunciasse a favor ou contra a aceitação de processo de destituição da presidente da República.

Lá pelas tantas, durante o voto individual, lento, arrastado, o líder do partido da presidente decidiu subitamente convocar conferência coletiva de imprensa. É inusitado. Se já não fosse estranho uma votação importante ser interrompida por coletiva de imprensa, mais surpreendente foi ouvir do entrevistado a confissão de que o Executivo reconhecia a derrota. Por que jogar a toalha tão cedo? Duas razões me ocorrem.

Em primeiro lugar, um reconhecimento antecipado poderia ter sustado a votação, o que limitaria a extensão do estrago. Se assim acontecesse, não haveria placar final.

Em segundo lugar, eventual interrupção poderia levar à invalidação do voto.

Seja como for, não deu certo. O voto foi até o fim e deu no que deu. Para o Executivo, foi verdadeiro 7 x 1.

Tchau 1Incerteza política
Muitos analistas temem que o voto da Câmara tenha dado abertura a um período de incerteza política. Discordo. Acho que, muito pelo contrário, o período de incerteza começou a se desanuviar. A situação está mais clara hoje que ontem.

Quem representa quem
Durante o voto, alguns parlamentares favoráveis à permanência da presidente argumentaram que os cinquenta e tantos milhões de votos que ela tinha recebido a legitimavam no cargo. Esqueciam-se de que o conjunto dos deputados federais reunia cem milhões de votos. Legitimidade por legitimidade, a da Câmara é bem mais significativa. Todos os eleitores estão representados lá.

Sondagem x voto real
Pesquisas têm indicado 60%, 70%, 80% até 90% de rejeição popular ao governo de Dilma Rousseff. Sacumé, pesquisa é pesquisa ‒ o que vale mesmo é o voto. Foi o que tivemos ontem. A Câmara, que representa 100% dos eleitores, votou. E mostrou que 71,5% rejeitam a presidência de dona Dilma. A conta é fácil: 367 votos representam 71.5% de 513, número total de deputados federais.

Tchau, mãe!
«Tchau, querida!» ‒ foi cartaz apresentado por muitos durante o voto. Embora combinasse pouco com a solenidade do momento, foi jocoso. O mais revelador, no entanto, foi a argumentação com que quase todos decidiram anteceder o voto. Houve quem proclamasse que votava “pelo Brasil”, “por meu Estado”, “por meus eleitores”. Era a lógica, não precisava mencionar. Houve outros que, bizarramente, puseram a família à frente. Vi gente votando porque a esposa mandou, outros mencionaram o nome da mãe ‒ tchau, mãe! ‒ dos filhos, dos netos, até dos avós. Ficou a impressão de que reuniões familiares substituíram convicção íntima dos deputados e consulta aos eleitores. Pegou mal pra caramba.

Impeachment é fichinha

José Horta Manzano

Bandeira St-KittsComo todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, sinto-me um tanto inflamado pelos acontecimentos políticos destes dias. Esqueça a zika, o verão que não termina. Não se preocupe se o Corinthians ou o Flamengo ganharam ou deixaram de ganhar. Esqueça até o terremoto do Japão, o terremoto dos ‘Panama Papers’, o terremoto da Lava a Jato. Uma indagação domina a cabeça de todos: Dilma fica ou Dilma vai?

Como todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, estava me preparando para escrever sobre nossa presidente. Afinal, fica ou vai? Já tinha até lido boa parte das manchetes da imprensa internacional. Tinha colecionado os títulos que me pareciam mais significativos. Eis senão quando… dou de cara com uma notícia que, por sua importância, sobrepuja todas as outras. Deixa o resto no chinelo. Resolvi abandonar tudo e relatar a notícia que dominou a semana em São Cristóvão & Névis, simpático Estado situado nas pequenas Antilhas. Não fica longe de lugares de nome evocador como Anguilla, Antigua & Barbuda, Montserrat, Guadalupe.

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis são duas ilhotas vizinhas que se agruparam num só Estado. Integram o Commonwealth britânico, mas mantêm governo independente da matriz europeia. A população do país aproxima-se de 55 mil almas. Basseterre, capital e maior cidade do país, concentra 13 mil habitantes. Desde o tempo em que nosso guia achava que a importância de um país se media pelo número de representações diplomáticas espalhadas pelo planeta, o Itamaraty foi instado a abrir embaixada naquele país. Uma necessidade absoluta, como pode o distinto leitor avaliar.

A embaixada, que tem até embaixador residente, está lá, há alguns anos, a preparar-se para o intenso intercâmbio que virá um dia, é certeza. Na semana que passou, começou a mostrar a que veio. Finalmente, um acordo de cooperação técnica foi assinado entre Brasília e Basseterre. A partir de agora, há facilidade de treinamento dos incontáveis nativos interessados em aprender nossa língua. E vice-versa, naturalmente.

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

O acordo apresenta suprema vantagem. Segundo nosso embaixador, o Brasil é parceiro estratégico, pois está inserido na mesma região geográfica, portanto combateu problemas semelhantes. Tendo-os já em grande parte resolvido, pode oferecer colaboração eficiente a países como São Cristóvão.

Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nosso guia permitiu-se dar lições políticas a seus colegas do G20. Dona Dilma autorizou-se a ensinar economia a Frau Merkel. Agora chegou a vez do paradisíaco resort antilhano de aproveitar de nosso avanço civilizatório. Agora, vai!

Ah, essa soberba que nos tem turvado a visão…

Minuto de silêncio

José Horta Manzano

Você sabia?

Minuto de silencio 1Minuto de silêncio é o nome que se dá a um momento solene, observado em ocasiões especiais, aquele instante em que todos se calam e cada um é convidado a uma reflexão sobre a importância da celebração. Pode-se tratar de comemoração de vitória ou de derrota, pode-se estar homenageando a memória de pessoa ou de acontecimento.

Forças republicanas, Lisboa 1910

Forças republicanas, Lisboa 1910

É momento grave e profundo. Embora costume durar bem menos de um minuto, o nome está consagrado. Sua universalidade se prende ao fato de não evocar nenhuma religião, nenhuma corrente política, nenhum regime, nenhuma figura histórica. Eis por que é aceito aqui e na Cochinchina, por pretos, brancos, azuis e verdes.

De onde vem essa tradição? Como em toda velha história, as versões variam, embora o registro mais antigo seja atribuído à Assembleia Portuguesa. O relato é curiosíssimo e merece ser repetido aqui.

Hermes da Fonseca

Hermes da Fonseca

Em 1910, recém-eleito presidente da República brasileira, o marechal Hermes da Fonseca empreendeu viagem à Europa. Embarcou no encouraçado São Paulo, que ostentava pavilhão brasileiro e fazia sua viagem inaugural. Já no caminho de volta, aportou em Lisboa dia 1° de outubro de 1910 para encontrar-se com o rei e cumprir visita oficial de 8 dias.

À sua chegada, já percebeu movimento atípico, tropas à vista, cheiro de revolta no ar. O país vivia dias febris. Fato é que, quando o marechal chegou, Portugal era uma monarquia. Quando partiu, dias depois, o país havia-se transformado em República. Se tivessem combinado antes, não teria dado tão certo. Sem querer, o visitante transformou-se em testemunha ocular da História.

Semanas mais tarde, ao assumir a presidência da República, o marechal Hermes determinou que o barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comunicasse oficialmente que o Brasil reconhecia o novo regime português. Foi o primeiro país a dar legitimação ao novo governo. De fato, as nações europeias, dominadas por monarquias, não tinham visto com bons olhos a destituição de um rei. Fizeram corpo mole e tardaram a reconhecer a República Portuguesa.

Encouraçado São Paulo

Encouraçado São Paulo

Quando o barão do Rio Branco faleceu, dois anos mais tarde, a Assembleia Portuguesa fez questão de manifestar-lhe, uma derradeira vez, o agradecimento da nação. Foi proposta ‒ e cumprida! ‒ uma hora de silêncio. Há de ter sido interminável. Dias mais tarde, o Senado lusitano repetiu a dose, encurtando para dez minutos.

Não demorou muito para o costume ser adotado pelos britânicos, que o espalharam pelo mundo. Os horrores da Primeira Guerra mundial se encarregaram de dar motivos de sobra para comemorações ‒ que, aliás, se prolongam até hoje.

Barao Rio Branco 1É isso aí. Da próxima vez que lhe propuserem um minuto de silêncio, tome o distinto leitor como homenagem indireta ao barão do Rio Branco, herói de um tempo em que relações exteriores eram levadas a sério e, em vez de se amoldar aos interesses de um partido político, serviam ao interesse maior do Estado brasileiro.

Estradas bloqueadas

José Horta Manzano

Manif 2Ouço pelo rádio que, hoje de manhã, estradas e artérias estão sendo bloqueadas por gente simpática a dona Dilma, grupos que gostariam que ela não fosse destituída do cargo.

Meu senso de democracia me leva a aplaudir o direito que cada um tem de manifestar sua opinião. Meu senso de justiça, por seu lado, me obriga a reconhecer que o direito não é noção absoluta. O de cada um termina exatamente onde começa o do próximo.

Portanto, reuniões, reclamações, manifestações e demonstrações serão legítimas desde que não perturbem o quotidiano de concidadãos. O que está acontecendo esta manhã fere esse princípio, donde ter de ser considerado ilegítimo ‒ e tratado como tal.

Manif 4São desnorteantes essas algazarras promovidas por milícias a soldo de interesses escusos. O bom senso ensina que, para ser eficaz, uma ação tem de ser bem direcionada, lógica e inteligente.

Atravancar o dia a dia de cidadãos não é bem direcionado nem lógico nem inteligente. É de duvidar que balbúrdia melhore o humor da população e de seus representantes. O resultado do processo de destituição independe dessa confusão passageira. Os que estão por detrás desses grupelhos escancaram a pouca inteligência que têm e o estado de desespero em que se encontram.

O efeito será exatamente inverso ao que esperam.

Voltando ao assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Remedio 1Acabo de ler a notícia de que a presidente da República sancionou lei que libera a produção e a venda da fosfoetanolamina. Se estou feliz? Não, não estou. Ao contrário, estou assustada com as possíveis consequências do açodamento com que ela foi liberada e quero explicar meus motivos.

Outro dia, um jornalista escreveu artigo defendendo a ideia de que é possível estar certo pelas razões erradas. Ele se referia ao cenário político brasileiro e à incrível debandada de parlamentares que compunham a base de apoio da presidente. Ele estava certo, suponho, mas não é a isso que me refiro hoje.

Na reportagem que informava a liberação da chamada “pílula do câncer”, o autor afirma com todas as letras que, “apesar de estudos científicos não terem apontado nenhuma eficácia dessa substância”, a Casa Civil teria recomendado a liberação “para evitar qualquer ameaça de desgaste (e de perda de votos) às vésperas da votação do impeachment na Câmara”.

Farmacia 2Infelizmente, é assim que nosso país funciona. Tanto os congressistas, que aprovaram apressadamente a liberação da droga sem consulta aos órgãos médicos competentes, quanto o executivo federal operaram ‒ tudo leva a crer ‒ fazendo cortesia com chapéu alheio. Como afirma um oncologista do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer ouvido na reportagem, a pílula “não deve ser assunto político”. Assino embaixo. Os pacientes de câncer e seus familiares não merecem que se lide irrefletidamente com sua saúde e sua qualidade de vida.

Aonde quero chegar? Quero apenas refletir sobre os meandros burocráticos que cerceiam a pesquisa médica brasileira e, nesse contexto, analisar mais em profundidade o papel da Anvisa. Que não nos faltam cientistas de alto padrão é fato sabido por todos. Que instituições de ponta no ensino e na pesquisa médica como a USP e o Instituto Oswaldo Cruz alcançaram reconhecimento internacional por sua qualidade, também. Onde está então o problema?

Posso estar enganada, mas me parece que a Vigilância Sanitária brasileira entende como missão principal a de reinventar a roda todos os dias. Basta lançar um olhar desapaixonado para o que aconteceu há alguns meses com o canabidiol. Apesar de vários estudos científicos internacionais terem apontado a importância dessa droga no controle da epilepsia e outros transtornos neurológicos, a Anvisa não se deu por vencida por meses e anos a fio, permitindo que médicos que o receitassem e pacientes que o importassem continuassem sob ameaça de prisão por tráfico de drogas. Depois, acuada diante de tantas evidências de sua eficácia, foi liberando aos poucos a importação da droga, pretendendo fazer crer que pesquisas médicas nacionais em andamento estavam chegando aos mesmos resultados.

Injeção 1Há alguns anos, a Anvisa já havia se lançado impávida à tarefa de disciplinar a comercialização de medicamentos homeopáticos. Impôs aos laboratórios a anexação de bula com indicação de uso de cada substância, dosagem, efeitos colaterais, etc., fazendo de conta que desconhecia o fato de que um mesmo medicamento homeopático pode ser – e é – usado há séculos para diversas doenças, sem relação umas com as outras. A critério do médico, é claro.

Sou leiga no assunto e não posso me pretender imparcial diante dessa iniciativa, já que na época eu era paciente da medicina antroposófica e minha cachorra estava sendo tratada com sucesso com uma injeção contra o câncer desenvolvida por um laboratório suíço e comercializada havia mais de duas décadas no Brasil (eu mesma já a havia tomado, com igual sucesso). Em decorrência da postura irredutível da Anvisa, a tal injeção foi retirada de circulação e sua importação proibida, levando ao desespero e desamparo milhares de doentes de câncer da noite para o dia. Não sei o que aconteceu com os humanos. Minha cachorra morreu.

Voltando à fosfoetanolamina, suspeito que, se o químico que desenvolveu a pílula há mais de 20 anos fosse um pesquisador estrangeiro, a Anvisa já teria se interessado em promover por conta própria estudos mais aprofundados. Acredito também que a USP teria pensado duas vezes antes de tratar um profissional formado pela própria instituição de curandeiro e determinar a lacração do laboratório que produzia a droga.

Hospital 1Isso sem considerar que eventual comprovação da eficácia da pílula do câncer poderia colocar em polvorosa poderosas indústrias farmacêuticas multinacionais, ameaçadas de perder a hegemonia no combate ao câncer e seus fantásticos lucros. E pensar que o tal químico tupiniquim, além de ter feito uma descoberta de fundo de quintal, distribuía o medicamento gratuitamente, por acreditar cegamente no próprio trabalho.

Não pretendo insinuar que todos os cientistas, pesquisadores e médicos que se colocaram acidamente contra a fosfoetanolamina tenham se deixado abater pela pressão de grupos internacionais. Mas que, inadvertidamente, ajudaram a corroborar a tese de que sofremos da síndrome de vira-latas, lá isso está claro. A começar pela constatação de que havia menos fosfoetanolamina nas pílulas do que o alardeado e a presença de “resíduos” de outras substâncias. Ora, doutores, por que não investigar cientificamente a atuação da substância pura nas células malignas e determinar a dosagem ideal antes de afirmar que a droga não faz nenhum efeito ou tem menor eficácia que a de outras drogas já comercializadas?

Remedio 2Na sequência, me causou espécie saber que especialistas brasileiros tenham se deixado envolver em intensa polêmica a respeito da distribuição da droga como suplemento alimentar. Não ‒ diziam irados os opositores ‒ estaríamos tentando cobrir o sol com peneira, o produto continuaria a ser usado como medicamento. Afinal, doutores, desculpem a petulância de perguntar: que males (além da automedicação) poderiam advir se isso acontecesse? A fosfoetanolamina apresenta ou não efeitos colaterais indesejados? É tóxica para o organismo, interage e atrapalha a ação de outras substâncias anticancerígenas?

A resposta? Ninguém sabe, até mesmo porque a pesquisa da fosfoetanolamina ainda não avançou para a fase de testes clínicos em humanos…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A cabeça

Cabeça 1José Horta Manzano

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar. Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.

Interligne 18h

Observação etimológica
O textozinho acima faz uso de numerosos parentes linguísticos. Entre as 114 palavras mencionadas, nada menos de 28 são da mesma família. Uma em cada quatro! Descendem todas de antiquíssima raiz indo-europeia *ker, que evoluiu para caput em latim. É o avô de nossa cabeça. Como se sabe, cortada a cabeça, o corpo não sobrevive.

Cabeça 2Veja agora o mesmo texto com os parentes sublinhados.

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar . Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.

Pensando bem – 10

José Horta Manzano

 

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Parece até ameaça
Cruz-credo! Que Deus nos livre!
Seria cruel desgraça
Ninguém merece. Tem dó!

0-Pensando bemNo entanto, a bem refletir
Só pode ser brincadeira
Não é verdade, é gogó.

Assim que a Dilma se for,
caminho já está traçado:
é Lula no xilindró.

Sofismas e atos falhos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se vivo estivesse e se acionado fosse para nos ajudar a interpretar o cenário brasileiro atual, Sigmund Freud estaria intensamente atarefado por estes dias. Além dos múltiplos atendimentos no divã particular, provavelmente estaria às voltas com um sem número de convites para palestras e aulas magnas nas principais universidades do país.

Einstein e FreudSa correspondência com Albert Einstein estaria ainda roubando preciosos minutos de seu tempo, assim como consultas a livros de mitologia, sociologia, antropologia e religião para tentar responder às questões agudas propostas pelo pai da Relatividade, pertinentes à psicologia das massas e aos tempos de crise na civilização. Freud seria forçado a sair de sua área de especialidade para fazer eco ao alerta de Einstein de que “é reduzido o número daqueles que veem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração, mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega”. Mesmo assim, o velho Freud talvez vibrasse com sua sábia conclusão de que “não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens”.

Sartre 1Se aos dois se juntasse ainda Jean-Paul Sartre, é provável que as conversas sobre nossa inexorável condenação ao inferno da convivência humana e suas tentativas de explicação de nosso sem-destino existencial varassem as madrugadas e durassem semanas.

Uso abusivo de sofismas, atos falhos, lapsos de linguagem, crises de histeria individual e coletiva, mania de perseguição baseada em tramas rocambolescas que dariam inveja aos mais renomados novelistas de costumes, apego à vitimização, personagens megalômanos, psicopatas e sociopatas, compulsão no uso de palavras de ordem, obsessão por temas políticos e judiciais, voluntarismo no desejo de implementação de mudanças, manipulação afetiva e chantagem emocional para atrair aliados, comportamento de horda, etc. – experimentamos em nossa pele a cada novo dia todo um tratado de psiquiatria, psicanálise e psicologia. Tudo isso sem mencionar três síndromes preocupantes: a de Rei Sol ou síndrome Luís XIV (“L’État c’est moi”) e a síndrome de Luís XV, o Amado (“Aprés moi, le déluge”) que grassam entre os governantes, assim como a Síndrome de Estocolmo que se dissemina entre a parcela desassistida da população.

Luis XIVÉsquilo, dramaturgo da Grécia antiga, já havia nos advertido pioneiramente que, em tempos de guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E foi além, penetrando um pouco mais nos meandros do conturbado psiquismo humano: “Falseando a verdade, a maioria dos homens prefere antes parecer a ser”.

Nietzsche certamente se apressaria em juntar forças com esses pensadores para agregar que “aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro… porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não consegue ver o fundo”. Sem dúvida, um poderoso consolo para todos nós que assistimos assoberbados ao presente festival de esgrima verbal, com proliferação de sofismas e atos falhos.

O dicionário pode nos socorrer para entendermos as motivações em curso:

Sofisma
Argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta na realidade uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa; argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que o apresenta.

Ato falho
Fenômeno descrito por Sigmund Freud, que se caracteriza por erro na fala, na escrita, na memória ou numa ação física, que permite inferir a existência de desejo reprimido, e a respeito do qual não se pode dizer, portanto, que tenha ocorrido acidentalmente por distração ou cansaço; formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.

Cabe a cada um dos que me leem elencar os casos mais emblemáticos e seus exemplos favoritos em cada uma dessas categorias. Mas, reflitamos um pouco, o que é preciso fazer para colocar um ponto final nessa fase de involução civilizatória e curar nossas doenças anímicas?

Brasil mapa 3Depois de muito pensar, tenho a propor uma solução salomônica: vamos dividir o Brasil ao meio e entregar cada parte a um dos lados da disputa. O objetivo desse novo Tratado de Tordesilhas será, é claro, identificar quem ama mais sua pátria e quem veste melhor o uniforme de estadista. A divisão poderá ser feita horizontalmente, fixando a linha de fronteira por exemplo na altura de Brasília, ou verticalmente, usando a mesma referência. Uma Assembleia Constituinte será naturalmente convocada fora do Congresso, contando com a ajuda especializada de intelectuais de todos os matizes ideológicos para a elaboração das novas cartas magnas. Através de plebiscito, a população escolherá as novas formas de governo e de representação política apresentadas pelos sábios da nação. Aos poucos, definiremos também as formas de convivência mais satisfatórias entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul (ou Brasil do Leste e Brasil do Oeste) e construiremos novos laços com outros países. A definição da moeda, da língua nacional e da preferência por um estado laico ou religioso em cada novo país serão outras preocupações na sequência.

Pensando bem, a principal desvantagem dessa linha de raciocínio é que, além de dar um trabalho danado para recomeçar do zero, continuaríamos divididos. A favor de minha proposta, só o alívio que sentiríamos todos com a reconceituação daquilo em que consiste nossa cidadania.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Informação tendenciosa

José Horta Manzano

Muitos dizem que a Folha de São Paulo ‒ um dos três maiores quotidianos nacionais ‒ anda se mostrando demasiado benevolente com a conduta do Executivo.

É verdade que têm oferecido tribuna a figuras exóticas que representam autodenominados «movimentos sociais». Por seu lado, ícones do antipetismo também têm coluna regular no periódico. Fica uma impressão assim assim.

Tem horas, no entanto, em que a parcialidade é evidente, só não vê quem não quer. Nesta quarta-feira 13 de abril às 11h18 (9h18 GMT, 6h18 de Brasília), consultei o Placar do Impeachment da Folha e comparei-o com o do Estadão. Em princípio, tratam do mesmo assunto. Aliás, têm até certa semelhança gráfica.

Veja o resultado:

Chamada do Estadão 13 abr 2016, 13h18 (GMT+2) (clique para ampliar)

Chamada do Estadão
13 abr 2016, 13h18 (GMT+2)
(clique para ampliar)

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Chamada da Folha de São Paulo 13 abr 2016, 13h18 (GMT+2) (clique para ampliar)

Chamada da Folha de São Paulo
13 abr 2016, 13h18 (GMT+2)
(clique para ampliar)

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Meus distintos leitores, crescidos e perspicazes, que tirem suas conclusões.

Imposto & voto

José Horta Manzano

Seguindo tendência mundial, a Receita francesa também aderiu aos meios eletrônicos de comunicação. Foi noticiado hoje que, a partir de 2019, todos os contribuintes deverão declarar seus rendimentos por internet. Os formulários de papel passarão em breve à condição de relíquia. Farão companhia à tinta nanquim e ao mata-borrão.

Só a palmatória não será aposentada. Quem fizer questão de continuar a preencher a declaração de imposto pelo método tradicional poderá fazê-lo, mas terá de pagar multa. Não é enorme, mas vale como reprimenda: 15 euros (60 reais).

by Michel "Chimulus" Faizant (1946-), desenhista francês

by Michel “Chimulus” Faizant (1946-),
desenhista francês

Inteligentemente, as autoridades francesas aceitam que a internet seja utilizada para declaração de ganhos, mas continuam recusando o voto «eletrônico», que é considerado, no Brasil, expressão máxima da modernidade. Fazem bem. Uma declaração de renda sempre pode ser corrigida. Já um voto, não. Errou, dançou.

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Observação linguística
Embora consagrada, a expressão «Imposto de Renda» não me agrada. Lembro-me que, sessenta anos atrás, minha avó já reclamava quando tinha de declarar sua «renda». Dizia: ‒ Mas, se eu vivo de ordenado, como é que vou declarar renda?

Tinha razão a velhinha. Renda, na época, era o nome que se dava ao rendimento de propriedades ou investimentos. Aluguel recebido era renda. Juros de uma aplicação financeira eram renda. Salário, não.

Imposto 3Continuo achando que a Declaração de Imposto de Renda deveria se chamar Declaração de Ganhos. Ganho engloba salários, vencimentos, honorários, lucros, rendas, tudo o que o contribuinte recebe.

Mas quem faz a língua são os usuários. Expressão consagrada, consagrada está. Vamos de imposto de renda mesmo.

Vitória de Pirro

José Horta Manzano

Você sabia?

Continuo aplaudindo de pé a equipe responsável pela atribuição de nome às diferentes fases da Operação Lava a Jato. Vitória de Pirro… esta de hoje é mesmo de pasmar.

A expressão já era usada pelos romanos há dois milênios. Faz referência a Pirro I (318-272 a.C.), que reinava sobre a região de Épiro, na Grécia antiga. Era época de expansão. A Grécia havia fundado colônias na orla do Mediterrâneo ‒ Itália, França, Norte da África.

O crescente poderio do Império Romano, no entanto, começava a ameaçar a expansão grega. Enfrentamentos militares foram-se tornando inevitáveis.

Rei Pirro I

Rei Pirro I

Rei Pirro I havia estabelecido uma colônia no sul da Itália, chamada Heracleia. A “invasão” irritou os romanos, que decidiram expulsar os forasteiros. Uma batalha foi travada entre os autóctones e as tropas do rei Pirro. O exército grego venceu a batalha, mas suas tropas sofreram danos irreparáveis. A aparente vitória militar acabou revelando-se contraproducente por ter resultado em derrota a longo prazo.

Desde então, toda vitória que se transforma em fracasso costuma ser chamada de «Vitória de Pirro». A história guarda uma alentada lista de batalhas que entram nessa categoria. Feitos não militares às vezes costumam ser batizados com o mesmo epíteto. É justamente o caso da mais recente fase da Lava a Jato.

Panamá Papers ‒ 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Não é a primeira vez que o nome do Panamá se encontra envolvido em escândalo de corrupção. Poucos se lembrarão do que aconteceu faz quase século e meio, quando aquela pequena tripinha no mapa da América Central esteve ligada a colossal estelionato planetário.

Diga-se, logo de cara, que o bom povo panamenho não teve participação nas negociatas ‒ nem naquela época nem agora. Entram no caso como Pilatos no Credo, por puro acaso.

Panama 3A construção do Canal de Suez, inaugurado em 1869, foi proeza inacreditável para a época. Por consequência, seus conceptores cobriram-se de glória e de respeito. A imaginação ganhou asas. Observando o mapa-múndi, todos se deram conta de que a perfuração de uma passagem naval na parte estreita da América Central encurtaria, em muitos dias, toda viagem de navio entre o norte do Atlântico e do Pacífico.

Em 1876, o primeiro projeto concreto foi apresentado pelo próprio Ferdinand de Lesseps, construtor de Suez. De olho no forte potencial de lucro, muitos se interessaram em participar. Desde o governo da França e banqueiros até pequenos poupadores.

Ação de 500 francos Cia. do Canal do Panamá, anos 1880

Ação de 500 francos
Cia. do Canal do Panamá, anos 1880

Com o passar dos anos, as dificuldades de construção exigiram mais e mais fundos. O número de participantes foi aumentando e o caso se tornou cada vez mais complexo. Numa espécie de Madoff dos tempos antigos, espertinhos se valeram da ocasião para dar golpe financeiro e arruinar dezenas de milhares de pequenos investidores.

Para encurtar a história, o problema se arrastou por uns vinte anos, frequentou tribunais, levou políticos e gente graúda para a cadeia e condenou pequenos poupadores à ruína econômica. Para coroar, a construção do canal foi abandonada. Só seria retomada por investidores americanos, que, trabalhando com maior seriedade, levaram a obra a cabo e inauguraram a ligação interoceânica em 1914.

A falência da Compagnie universelle du canal interocéanique de Panama foi inevitável. Durante décadas, o nome do pequeno país ficou associado a malversações.

Panama 2Embora o tempo tenha apagado a memória e já ninguém associe o escândalo da construção do canal a manobras escusas, os dicionários ainda guardam lembrança do que ocorreu.

O Houaiss, por exemplo, dá, entre as acepções do verbete Panamá, a gestão desastrosa de empresa pública ou privada, em que os dirigentes visam a enriquecer lesando os demais acionistas. Vai além. Diz também que é ‘panamá’ toda roubalheira em empresa (pública ou privada) ou repartição governamental.

O petrolão é, no fundo, gigantesco panamão.

Cleptoestilo

Cláudio Humberto (*)

Tratando mal quem a cerca, Dilma firmou má reputação por casos como o da ajudante de ordens que abandonou o serviço no meio do dia, cansada de grosserias. E o do médico da Presidência, que virou paciente por estresse. Ou também daquele dia em que, brandindo um cabide, investiu contra uma pobre camareira, que deve estar correndo até hoje.

Fazem também a delícia do serpentário do Itamaraty histórias de sua curiosa mania de considerar que objetos de hotéis de luxo são seus.

by Miguel Abreu Falcão (1963-), desenhista pernambucano

by Miguel Abreu Falcão (1963-),
desenhista pernambucano

Diplomatas passaram vergonha, certa vez, em Buenos Aires, ao serem cobrados por algo que faltava após Dilma deixar o hotel Four Seasons. A mesa de jantar da suíte de Dilma tinha sido enfeitada com uma belíssima (e cara) toalha. Madame gostou tanto que a levou para casa.

Outro dia, ao deixar o hotel romano Westin Excelsior (diária de R$8 mil), Dilma não se fez de rogada: levou dois travesseiros que tinha adorado.

O apego de Dilma por pertences de hotéis só se compara à atração que Lula nutre por vinhos caros, com os quais ele se fazia presentear por embaixadores.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.