L’État c’est moi

José Horta Manzano

Monsieur Jean-Luc Mélenchon é um político francês. Candidato às últimas eleições presidenciais, seus 19,6% de votos não foram suficientes pra impedir que Emmanuel Macron (24%) e Marine Le Pen (21,3%) fossem alavancados ao segundo turno e o deixassem a comer poeira.

Suas origens espanholas vêm à tona no verbo inflamado. O homem tem cultura sólida, atestada por dois diplomas: Letras e Filosofia. Excelente orador, sua aparição em debates é garantia de animação. Ninguém cochila enquanto ele discursa. Desde a adolescência sua simpatia foi para a esquerda. Milita desde os tempos de estudante.

Faz alguns anos, fundou partido próprio: La France Insoumise – A França Insubmissa, situado à extrema-esquerda do espectro político. Entre os seguidores, muitos são jovens que cuidam de defender a classe trabalhadora. Na realidade, em virtude da acentuada desindustrialização, o operariado tradicional anda rarefeito, em via de extinção. Mas o dom de oratória de Monsieur Mélenchon é magnético. Seu discurso é tão persuasivo que a gente fica com a impressão de que tudo o que ele diz há de ser verdade.

Mélenchon em Curitiba – 5 set° 2019

A justiça francesa não é necessariamente da mesma opinião. Desconfiada de irregularidades cometidas pelo partido dele na prestação de contas da última campanha presidencial, mandou uma equipe em missão de busca e apreensão na sede do partido. Aos berros, um furioso Mélenchon resistiu à ação de procuradores e policiais. Gesticulou, insultou, tentou arrombar uma porta, empurrou gente e até derrubou dois agentes. A um dado momento, em meio a impropérios, lançou: «La République c’est moi! – A República sou eu!».

Pegou mal. Principalmente porque evocou a frase «L’État c’est moi! – O Estado sou eu!», que o rei Luís XIV teria pronunciado faz quase 400 anos. O monarca tinha direito a dizer o que dizem que disse. Afinal, reinava absoluto, e sua palavra era a lei. Quanto a Mélenchon, a tirada soou um tanto grotesca. É muita pretensão pretender encarnar a República.

Ontem, 5 de setembro, o político francês esteve de visita a Curitiba. Foi tomar a bênção de Lula da Silva, político brasileiro que muita gente fina acredita ser de esquerda. Ao sair da sede da PF, onde o ex-presidente está instalado, Mélenchon revelou ter vindo «tomar forças» com o encarcerado.

Embora remota, a possibilidade existe de o tribuno francês ir parar na cadeia, o que explica ter vindo aconselhar-se com o Lula, mestre na matéria.

O barraco armado por Mélenchon quando da chegada dos policiais em missão de busca e apreensão está aqui.

As declarações do francês à saída da PF de Curitiba estão aqui e também aqui.

Sofismas e atos falhos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Se vivo estivesse e se acionado fosse para nos ajudar a interpretar o cenário brasileiro atual, Sigmund Freud estaria intensamente atarefado por estes dias. Além dos múltiplos atendimentos no divã particular, provavelmente estaria às voltas com um sem número de convites para palestras e aulas magnas nas principais universidades do país.

Einstein e FreudSa correspondência com Albert Einstein estaria ainda roubando preciosos minutos de seu tempo, assim como consultas a livros de mitologia, sociologia, antropologia e religião para tentar responder às questões agudas propostas pelo pai da Relatividade, pertinentes à psicologia das massas e aos tempos de crise na civilização. Freud seria forçado a sair de sua área de especialidade para fazer eco ao alerta de Einstein de que “é reduzido o número daqueles que veem com os próprios olhos e sentem com o próprio coração, mas da sua força dependerá que os homens tendam ou não a cair no estado amorfo para onde parece caminhar hoje uma multidão cega”. Mesmo assim, o velho Freud talvez vibrasse com sua sábia conclusão de que “não podemos desesperar dos homens, pois nós próprios somos homens”.

Sartre 1Se aos dois se juntasse ainda Jean-Paul Sartre, é provável que as conversas sobre nossa inexorável condenação ao inferno da convivência humana e suas tentativas de explicação de nosso sem-destino existencial varassem as madrugadas e durassem semanas.

Uso abusivo de sofismas, atos falhos, lapsos de linguagem, crises de histeria individual e coletiva, mania de perseguição baseada em tramas rocambolescas que dariam inveja aos mais renomados novelistas de costumes, apego à vitimização, personagens megalômanos, psicopatas e sociopatas, compulsão no uso de palavras de ordem, obsessão por temas políticos e judiciais, voluntarismo no desejo de implementação de mudanças, manipulação afetiva e chantagem emocional para atrair aliados, comportamento de horda, etc. – experimentamos em nossa pele a cada novo dia todo um tratado de psiquiatria, psicanálise e psicologia. Tudo isso sem mencionar três síndromes preocupantes: a de Rei Sol ou síndrome Luís XIV (“L’État c’est moi”) e a síndrome de Luís XV, o Amado (“Aprés moi, le déluge”) que grassam entre os governantes, assim como a Síndrome de Estocolmo que se dissemina entre a parcela desassistida da população.

Luis XIVÉsquilo, dramaturgo da Grécia antiga, já havia nos advertido pioneiramente que, em tempos de guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E foi além, penetrando um pouco mais nos meandros do conturbado psiquismo humano: “Falseando a verdade, a maioria dos homens prefere antes parecer a ser”.

Nietzsche certamente se apressaria em juntar forças com esses pensadores para agregar que “aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro… porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não consegue ver o fundo”. Sem dúvida, um poderoso consolo para todos nós que assistimos assoberbados ao presente festival de esgrima verbal, com proliferação de sofismas e atos falhos.

O dicionário pode nos socorrer para entendermos as motivações em curso:

Sofisma
Argumento ou raciocínio concebido com o objetivo de produzir a ilusão da verdade que, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta na realidade uma estrutura interna inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa; argumentação capciosa, concebida com a intenção de induzir em erro, o que supõe má-fé por parte daquele que o apresenta.

Ato falho
Fenômeno descrito por Sigmund Freud, que se caracteriza por erro na fala, na escrita, na memória ou numa ação física, que permite inferir a existência de desejo reprimido, e a respeito do qual não se pode dizer, portanto, que tenha ocorrido acidentalmente por distração ou cansaço; formação de compromisso entre o inconsciente e o consciente.

Cabe a cada um dos que me leem elencar os casos mais emblemáticos e seus exemplos favoritos em cada uma dessas categorias. Mas, reflitamos um pouco, o que é preciso fazer para colocar um ponto final nessa fase de involução civilizatória e curar nossas doenças anímicas?

Brasil mapa 3Depois de muito pensar, tenho a propor uma solução salomônica: vamos dividir o Brasil ao meio e entregar cada parte a um dos lados da disputa. O objetivo desse novo Tratado de Tordesilhas será, é claro, identificar quem ama mais sua pátria e quem veste melhor o uniforme de estadista. A divisão poderá ser feita horizontalmente, fixando a linha de fronteira por exemplo na altura de Brasília, ou verticalmente, usando a mesma referência. Uma Assembleia Constituinte será naturalmente convocada fora do Congresso, contando com a ajuda especializada de intelectuais de todos os matizes ideológicos para a elaboração das novas cartas magnas. Através de plebiscito, a população escolherá as novas formas de governo e de representação política apresentadas pelos sábios da nação. Aos poucos, definiremos também as formas de convivência mais satisfatórias entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul (ou Brasil do Leste e Brasil do Oeste) e construiremos novos laços com outros países. A definição da moeda, da língua nacional e da preferência por um estado laico ou religioso em cada novo país serão outras preocupações na sequência.

Pensando bem, a principal desvantagem dessa linha de raciocínio é que, além de dar um trabalho danado para recomeçar do zero, continuaríamos divididos. A favor de minha proposta, só o alívio que sentiríamos todos com a reconceituação daquilo em que consiste nossa cidadania.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.